Facebook do Portal São Francisco Twitter do Portal de Educação Curtir
Home  Amar, Verbo Intransitivo - Mário De Andrade - Página 9  Voltar

Amar, Verbo Intransitivo

Mário de Andrade

— Fräulein! Evidentemente ela não dormia.

— Quem é.

— Abra esta porta!
— Carlos, não posso! Vá dormir!
— Abra esta porta, já disse!
— Mein Gott! seu pai escuta, Carlos. Vá embora!
— Eu arrebento esta porta! Fräulein! abra a porta!
— Meu filho, que é isso! Não faça assim!
— Mamãe me largue! me largue! eu quero abrir esta porta, já disse!
— Mas meu filho tenha paciênc...

— Abra a porta, Fräulein!! Clave de fá:
— Ocê está louco, Carlos! Não lhe disse...

— Não sei se estou louco! Abra esta...

— Meu filho você acorda suas... —... porta!
—... irmãzinhas!
— Vamos embora!
Sousa Costa foi parar na parede.

— Fräulein!
— Carlos! você faz assim pra seu pai!... Plam! pampam! plam!...

— Este menino... dou nele ainda!...

Sousa Costa apanharia. Isto é: não apanharia mais, Carlos está se cansando. Desilude-se, tudo está perdido mesmo... Não vale a pena lutar, brasileiro... Mãe e pai seguram ele. Nem carecia. Guiam aquelas pernas sem vontade. Isso sim, carecia.

— Fräulein, mamãe...

Nos seios de dona Laura é levado.

— Agora eu vou mas é fechar você a chave aqui!
— Felisberto, tenha um pouco de paciência! Meu filho! não chore assim!
— Vamos embora, Laura , deixe ele aí!
— Felisberto!
Sousa Costa foi pra cama. Ele bem tinha falado que o menino havia de fazer um barulhão. Estas alemãs que vão pro diabo que as carregue!
Dona Laura acalma o filho. Chora o filho, chora a mãe. Os dedos dela alisam os cabelos de Carlos. Ele nos braços maternos, molhando a mãe de lágrimas exasperadas. De quando em quando o soluço:
— Fräulein...

Flébil, flébil.


Aldinha com seis anos dormia. Certos barulhos não acordam as crianças de seis anos. Porém Laurita com oito e Maria Luísa com treze. Esta, assuntando da porta, olhos grudados na escureza, engole com volúpia os barulhos. Aprende. Laurita também escutava. Não entendia nada. Deitadinha, muito reta, com medo, sem falar um isto. Pensava? Laurita pensava que havia uma história triste. Fräulein com Carlos. Talqual na fita da Glória Swanson. Mais atrás papai com mamãe. Depois vinham elas. Todos chorando. Carlos pagava o automóvel e apareciam as pessoas que costumavam visitar mamãe. Carlos não ia mais no futebol. Elas ficavam com muita vergonha das visitas. Tudo muito embrulhado, vago, com sono. De repente Laurita pensou nítido que se papai pegasse ela acordada e Maria Luísa na porta, tomavam um pito grande. Teve medo e principiou chorando, porque desta vez papai tinha razão. Adormeceu, chorando.

O trem partia às seis e trinta, escolhera Santos. Bem que podia ficar em São Paulo, a cidade era bastante grande prós dois, porém o acaso dum encontro possível, só pensar nisso lhe prolongaria aquela ternura por Carlos. O irremediável consola mais depressa.

Além disso Fräulein se aborrecera de São Paulo. Por causa de Carlos. Não sei, mas tinha um sentimento de humildade diante dele. Lhe parecia muito sério isso. Careciam do irremediável. Pois então Santos. Ao menos pra partir: Santos. Campinas um segundo lhe passou na geografia. Seria possível a profissão dela em Campinas? Talvez voltasse pro Rio. Seis horas no hol, devia partir. Como vencer a ternura! Pediu pra Sousa Costa que lhe deixasse ver Carlos. Como negar? Dona Laura subiu, chorando já.

— Meu filho... acorde, meu filho!
— Que é mamãe...

Se ergueu sobressaltado, ainda sem pensamento.

— Meu filho, Fräulein vai embora... Você não quer se despedir dela? mas seja homem, Carlos!
Carlos de pé. Mal calçou os chinelos, se arranjar pra que! Sujo de sono se atirou na porta, desceu as escadas, ficaram perdidos no abraço. Chorando ele mergulhava a cara nas roupas desejadas. Nem lhes gozava o cheiro lavado. Fräulein, entre lágrimas, sorriu assim:
— Meu filho...

Sousa Costa repuxava os bigodes, bolas! Porém lhe doía a dor do filho. Dona Laura descia os últimos degraus. Um dos chinelos de Carlos estava ali.

Era preciso partir.

— Adeus, Carlos. Seja... muito feliz, ouviu? adeus...

Beijou-o na testa. Na testa, tal-e-qual fazem as mães. O beijo foi comprido por demais.

Se desvencilhava. Dona Laura ajudou.

— Filhinho... não faça assim!...

Os braços dele foram ficando vazios. Os braços dele ficaram compridos no ar. Ficaram compridíssimos. Foram descendo cansadíssimos. Teve uma vaga lembrança de que nem a beijara. Não, só um verbo naturalista: não aproveitara. E agora nunca mais. Porta que fecha. Sonolência. Não chorava. Foi andando. Parou calçando o chinelo. Subia os degraus.


Fräulein sacudida pelos soluços nervosos entrou no automóvel. Partiam mesmo. Debruçou-se ainda na portinhola:
— Meu Carlos...

Nada. Só Tanaka fechando o portão, se rindo. E uma casa fechada, toda num amarelo educado, senhorial. VILA LAURA. Quis lutar. Tolice sofrer sem causa. Derrubou-se pra trás largada, desinfeliz. Sousa Costa olhava de soslaio pra ela, sem compreender.


No primeiro andar a janela se abriu, que rompante! Carlos engoliu avenida, buscando ver, querendo ver, vendo, o automóvel que sabia sem saber estava longe nunca mais, deserto só. Não estendeu os braços. Não gritou. Porém o olhar turvo escorreu pela avenida até onde! meu Deus...

Os raros transeuntes da aurora viam na janela um mocinho chorachorando, coitado! decerto perdeu a mãe...

Na estação Sousa Costa foi comprar o bilhete. Fez Fräulein entrar no vagão.

— Muito obrigada, senhor Sousa Costa. E... acredite, oh! acredite... desejo a felicidade de Carlos!
— Acredito, Fräulein. Muito obrigado.


Exausta, meia triste ela olhava sem reparar a carreira das campinas. Estação de São Bernardo? Pensava. Quase sofria. Carlos. Era muito sincero, corajoso. Ora! E a raiva contra todos os homens quase que fez ela se rir, prevendo o desastre. Afastou com energia o ódio inútil. Se protegeu contra a imaginação, pensando no dinheiro. Assegurou-se de que a maleta estava ali, estava. Oito contos. Mais dois ou três serviços e descansava. Apesar de tudo, Carlos... que alma bonita, um homem. Tomou-a novo relaxamento de vontades. Doía. Talvez o amasse? Fräulein murmurou severamente o "não", quase que os outros escutaram. Sorriu. Uma ternurinha só. Muito natural: era um bom menino, e não pensemos mais nisso. Estava muito calma.

E o idílio de Fräulein realmente acaba aqui. O idílio dos dois. O livro está acabado.

FIM

Fräulein não age mais e não sentirá mais. Quando muito uma recordação cada vez mais espaçada, o pensamento cada vez mais sintético lhe dirá que viveu ano e pico na casa da família Sousa Costa. Não, isso não lhe dirá. Dirá que teve um Carlos Alberto Sousa Costa em sua vida, rapazola forte, simpático, que se aproxima dela sob a pérgola do jardim. Depois se afasta com a cabeça bem plantada na gola do suéter, vitorioso, sereno, como um jovem Siegfried. E só isso. Já tomou posse de si mesma. As citações lhe voltam à memória. Mais oito contos por colocar. E havia de vencer. Pra isso trabalhava sem férias, basta de reflexões. Wer zuviel bedenkt, wird wenig leisten (Quem pensa, não casa), não dissera Schiller no Guilherme Tell? dissera. Pois então? De que vale agora pensar em Carlos?... Ah... Bocejava. A paisagem se esfriava, resvalando entre morros infantis. A chapada começava se arripiando já. Os primeiros cortes escureciam o ambiente do trem. Davam impressão de crepúsculos intermitentes... numa cidade escura na Alemanha. Moço magro, pálido, acurvado pelo trato quotidiano dos manuscritos... Mês de outubro já frio. Ainda frio aqui. Fräulein veste o jérsei verde. Ele voltava da... do estudo. Jantariam... Alto da Serra. Foi tomar café. Sentou-se de novo. Estava tudo arrumado... Guardara a louça... Pusera a toalha... A maleta? Estava ali. Frases espaçadas no vagão. Alguém tosse. Tossia sempre... Resguarde-se, que esta neblina daqui é perigosa. Iremos passar uns dias de férias numa praia... Volta da Tijuca. O guarda vem pedir a passagem. Ela guardava os bilhetes pro concerto do dia seguinte... Iria enxugar a louça... Punha a toalha na mesa... Cantarolou.

Am Holderstrauch, am Holderstrauch
Wir sassen Hand in Hand:
Wir waren in der Mainzeit...

Boceja. Aterro Nº 12. Talvez vá pro Rio. Estas montanhas são admiráveis.

... Maienzeit,
Die glückdichsten im Land.

A sombra do sabugueiro
Sentávamos de mãos dadas,
Éramos no mês de maio
As criaturas mais felizes deste mundo.

O idílio acabou. Porém se quiserem seguir Carlos mais um poucadinho, voltemos pra avenida Higienópolis. Eu volto.

A casa esteve imóvel nesse dia. Todos sofriam. Porque Carlos sofria. O próprio Sousa Costa sofria, porém era homem e voltara a achar certa graça no caso, aquilo passava. Os outros imaginavam que não passava. Isto é: não se preocupavam com esses futuros muito condicionais, o importante era o presente. E no presente pirassunungava a dor macota de um, todos sofriam. Até as meninas que, sem saberem porque, estavam calmas. A própria curiosidade má de Maria Luísa deixara de exercer seus direitos de vida. Uma redoma descera sobre a casa, separando aquela gente da maquinaria da terra.

Carlos não saíra do quarto. Dona Laura deixara o filho com os soluços, ali pelas oito quando o retirou da janela. Mais de hora no mesmo lugar! E o que lhes digo. O almoço foi um pretexto para ela subir de novo. Mas Carlos não tinha fome. Então choraram juntos muito tempo. Depois o choro acabou.

Ele pôde beber o chá que dona Laura preparou.

À noitinha apareceu na mesa da janta, que decepção pras meninas! não se via nada! Comeu pouco é verdade, muito digno, sem fraqueza, sem feminilidade. Não se via nada, porém se percebia que estava outro, estava homem. O, bom homem que tinha de ser, honesto, forte, vulgar. Que seria mesmo sem Fräulein, só que um pouco mais tarde. Secundava com calma ao que lhe perguntavam os outros meio com medo. Lhe espaçava a fala aquele ondular dos vácuos interiores. Num dado momento Maria Luísa distraída botou o cotovelo sobre a toalha. Carlos corrigiu o gesto dela, sem irritação mas com justiça. Maria Luísa voltou-se pra ele assanhada, porém aqueles olhos tão de quem sabe as coisas, serenos. Maria Luísa obedeceu. Que lindo!
Acabada a janta, ele foi buscar o chapéu.

— Vai sair, meu filho!
— Andar um pouco.

Caminhou reto pra frente, pelas ruas desconhecidas, não, pelas ruas inexistentes, se sentindo marchar na alma. Veio a fadiga. Depois veio o sono, e então voltou. Entrando no quarto se fechou por dentro, que a mãe não viesse amolar... Sentou pesado sobre a cama. Quereria andar mais. Não tem sono. Uma desocupação grande. Olhando a luz.

A gente vê uma casa...

Paz.

A casa dorme no silêncio.


Sousa Costa seriamente preocupado, uma semana já e nada de melhorar... O rabicho tinha ido longe por demais. Se fossem pra fazenda?... Fossem, mas fossem todos, porque mandar o filho só, não convinha. Sousa Costa nunca abandonará Carlos nesse estado. E muito menos dona Laura. Não adiantavam nada, porém amor brasileiro é assim: puxapuxa, contrai, estica, mas largar não larga mesmo.

O diabo era aquele fim das águas tão chuvoso... Colheita acabada... Não tinha nada que fazer lá. A chacra não dera nenhum resultado. Foram de automóvel, o caminho era quase que um lamedo só. Nem guiando o carro, Carlos teve a aparência de quem se divertia. Sujaram o automóvel, se sujaram... um desastre! E inda por cima a chuvarada na volta! É: só fazenda mesmo, largueza, cavalos, o rio, as criações... Diverte os rapazes. Mas a fazenda... Não tinha nada que fazer lá. Deixemos de precipitações! Melhor esperar mais um bocadinho, se não mudar mesmo, então vamos todos pra fazenda... paciência.

— Você carece de dinheiro?
— Não, papai.

— Tome.

— Mas pra que, papai!
— Vá no teatro hoje... Divirta-se, que diabo!
Sousa Costa tocara no assunto? Não tocou. Tocou. Assim de esguelha os pais consolam nossos filhos. Carlos indiferente botou a bolada no bolso.

Obedecer... Desobedecer... Obedeceu. Era um sábado, o teatro cheio. A comédia nacional é muito engraçada, aqueles brasileiros gesticulantes que espevitamento! Parece até que se esforçam por falar as palavras com sutac purrtuguêss, não? E que pândegas! O público ria ria. Lhe deu de sopetão uma raiva tal, não devia de estar ali, era traição à saudade dela. Saiu no meio do ato, incomodando os vizinhos, sem pedir desculpa.

A noite de outubro esgotado pingava uma garoa fria na gente. Carlos ao atá. Tomou mesmo o chope? Não sabe mais, andava. Ah, se soubesse aonde ela estava! Cerrava os punhos, batia as pernas um joelho no outro, se machucando. Anúncio luminoso, parou, não podia mais. Jungiu o corpo com os braços ásperos, querendo se partir pelo meio. Aonde ir? Restaurante MEIA-NOITE. Pra casa? Pro inferno? Pro acabar duma vez com aquilo! Apertou mais o corpo, uma palavrinha saltou: Suicídio. O subconsciente, que prestidigitador! Tira da carne as coisas mais inesperadas! A gente não pensa — Jornais do Rio! Correio da Manhã, País, Gazeta!... —não quer, bruscamente espirra uma palavra sem razão. Suicídio? Carlos não se suicidará nunca, sosseguem, a palavra pulou sem ser chamada. Pulou. Caiu no chão. Carlos não se abaixa pra erguê-la. Quem passa, enxerga aquele rapaz parado na esquina, se apertando com os braços pelo meio do corpo, que posição esquisita! Foram pensando que era dor de barriga. Não era não. Era jeito de perguntar, taquarambo, uma resposta já sabida:
— Não. Não sabemos aonde Fräulein está.

No entanto era tão fácil! Jornais do Rio! Folha da Noite!... Ela estava ali mesmo, perto dele, à disposição dele, bastando atravessar a rua mais uns passos e portar na Pensão Mme. Bianca (Familiar). Com cem bagarotes então, a gente caminha mais um pouco e a encontra no largo do Arouche, novinhas, bonitas, ítalo-brasileiras. E se não quer gastar os cem, o cinema AVENIDA cerra aos poucos os olhos elétricos, gente que sai, gente nas portas, bulha de empregados apressados, se não quer gastar nem mesmo cinqüenta, ela está ali prontinha-da-silva, por qualquer dez mil-réis, vinte, nas lojas de terceira ordem. Na rua Ipiranga então, ela espera Carlos em pencas de quatro e cinco em cada casa. Está por toda a parte, a gente sabe. Carlos não sabe disso.

— Psiu... Entra mocinho!
Não escuta. Cabeçudo, não quer escutar. Será que cultiva a própria dor? Nunca. Só que está muito maturrango no amor, inda não sabe. Não sabe que Fräulein não é a governanta alemã que. Nessa idade, bem entendido. O mesmo anúncio luminoso outra vez, LAPA TERRENOS A PRESTAÇÕES, Fräulein são dois braços, duas pernas, tronco, seios, qualquer cara, cabelos compridos. Nem mesmo cabelos compridos carece mais, Carlos ofega. A ladeira ficou cansada, não tem feito esportes. É isso: Carlos se lembra de que.não tem feito esportes, fazer esportes, ora pra que!... Banza ainda pelas ruas rarefeitas na neblina, viaduto. AO TATUZINHO. Táxi, patrão? Ali pelas duas horas, fatigado, sem cansaço, ardendo, abre o portão da avenida Higienópolis. Tem que se despir, é fatal.

Escuridão.

A colcha branca ondula toda, insone, por mais de meia hora, ver terremoto de teatro. Gira dum lado pro outro, se contorce. Vai se desarranjando, cai. Carlos principia a correr. Vai correndo cada vez mais rápido, depressa 120 por hora... Pum! caiu. Dá um pulo na cama, respira ofegante, se ergue. Procura a colcha e se cobre outra vez.

Agora está dormindo.

A caridade faz milagres, faz. Aldinha entre as pernas do irmão, puxando a cara dele:
— Carlos! você não foi! Estava tão bonito! que engraçado!... Ri riso espetaculoso, sem verdade, só pra ver se ele ri também. Carlos sorri. ia medrosa:
— O palhaço, sabe? veio num automovinho...

— Não é palhaço, Aldinha! é Piolim!...

— Eu que conto! Veio num automovinho, sabe? grande mesmo! Depois pegou na buzina...

— Primeiro ele levou um tombo, Aldinha!
— Um tombão! Engraçado, não? Caiu de perna pra cima... Laurita! corno foi que ele falou!
— Viva a República!
— É! Depois ele pegou na buzina, buzinou, buzinou, sabe? e a buzina não buzinava! Então Piolim espiou dentro da buzina...

— Não foi assim!
— Foi!
— Primeiro o dono do circo ficou parado no meio do circo....

Carlos brinca os beiços vadios na cabeleira de Aldinha. Esta agora escuta, vivendo-o o caso do palhaço. Pronta pra corrigir Laurita que: —... então Piolom amontou de novo no automovinho...

— Tão bonito, Carlos! Olhe! deste tamanho!
—... e queria passar mas o dono de circo estava parado na frente...

— Ele não via, Laurita!
— Pois é, o...

—... o dono do circo estava olhando do outro lado. Então o palhaço, sabe? apertou assim na buzina e a buzina não buzinava. Então ele foi buscar o anzol e enfiou ele dentro da buzina, imagine o que que ele pescou! um pé de botina! velha mesmo! ihih... Então ele calçou a botina no pé. Tinha uma meia toda escangalhada e... Como é mesmo que ele gritava?...

— Arre, Aldinha! Viva a República!
— Viva a Repúblicaaa...! e saiu no automovinho, sabe?...

— O dono.

— do circo levou um tombo tão engraçado! sujou toda a casaca dele! E Piolim foi-se embora muito contente, dizendo adeus pra gente com o lencinho amarelo, tinha também ih!... um cachorrinho, sabe?...

— Minha filha, você está caceteando seu irmão...

— Não está, mamãe. Deixe ela.

E as meninas contam uma porção de casos engraçados. Carlos sorri. Passeia os beiços desempregados na cabeleira da irmã.

— Não foi assim, Aldinha!
— Foi! Deixe eu contar! A japonesa, Carlos?...

Quando aquilo acaba, Carlos se ressente. O flautim, o reconto, a anedota Isso afasta. Afasta o que? Não sei. Carlos não quer afastar coisa nenhuma. Aceita corajoso toda dor. Porém que pena a pararaca ter parado de falar!... O flautim o reconto, a anedota... Não tem dúvida: isso afasta. As imagens da saudade entulham tanto o caminho!... Varra isso daí! Tenho pressa e a vida inteira ainda por viver...


Carlos sentiu que já estava de luto aliviado. Ao abatimento surdo e desespero dos primeiros dias, continuara uma tristeza cheia de imagem de Fräulein. Quer dizer que a amante principiava a ser idealizada. Breve se chamaria Nize, Marila, Salutáris Porta e outros nomes complicados. Não, isso pra Carlos é impossível. Breve Fräulein irá pra esse sótão da vida, quartinho empoeirado, aonde a gente joga os trastes inúteis. Até desagradáveis. Mas por agora ela apenas fora viver num quarto andar. Sem elevador. Carlos já carecia de procurar a imagem dela muito alto.

E vinha sempre acompanhada de qualquer coisa cacete: o horror do filho, a mesquinhez dela, a exigência de casamento, do que escapei! teria mesmo recebido dinheiro?... Não recebeu. Então a imagem longínqua se aproximava apressada. Adquiria mais traços, se corporizava em representação nítida. Belíssima, enriquecida, ai desejo! E não desagradava mais. Fräulein, meu eterno amor!...

Talvez mesmo até nesses momentos ele intransitivamente pedisse qualquer corpo... Porém só tinha prática dum, não amarei mais ninguém! E o corpo de Fräulein vinha, sem atributos morais, sem exigência de casamento, sem filhos, sublime. Carlos aos poucos se exaltava. O ofego dolorido chamava-o à realidade. Severamente reprimia envergonhado a tendência para as torpezas e procurava de novo a própria tristura, buscando outra vez no quarto andar aquela Fräulein que... já muita coisa de convencional nessa tristura.

E ele sentiu sem se confessar a si mesmo, que chegara o momento de principiar esquecendo. Meteu-se na manhã, procurou companheiro de esporte foram treinar futebol. Na avenida Higienópolis o telefonema avisou que ele almoçava com o Roberto. Mais um companheiro se juntara a eles. Passaram a tarde no cinema. Carlos fumou, pagou o chope, sorriu. Quase riu. De sopetão falou alto. Os amigos namoravam. Carlos por dentro se riu dos platônicos tolos! grelar assim e mais nada!... tolos. Carlos não namorará.

Na avenida Higienópolis não conheceu mais a casa nem ninguém era uma gente antiga que voltava. E porque forte, sem precisão de carinhos, a mãe, as irmãs se tornaram inúteis pra ele. Jantou se esforçando por conservar jeito triste. As conveniências muitas vezes prolongam a infelicidade. Julgou mesmo a Propósito recordar a imagem de Fräulein. Teve que subir quatro lances de escadaria interminável, se cansou. Pudera, correra tanto de manhã!... se tivesse avançado um pouco mais, fazia o gol... Tom Mix, que admirável!... O dia já lhe interessava bem mais que o passado.


Vinte e duas horas.

Carlos volta da rua Ipiranga.


— Mamãe! olhe Carlos!...

O corso da Avenida Paulista se esparramava no auge. As quatro filas de automóveis se entrecruzavam de manso, espirravam na tardinha as serpentinas. Luís já abandonara outra vez o lugar junto do motorista.

— Mais uma, Luís!
Passava a serpentina para a irmã.

— Por que você saiu de junto do chauffeur? Você tem alguma coisa? —... tenho nada, mamãe! Você sempre pensa que estou doente!... Estava bem. Benzíssimo. Fräulein entre os dois irmãos, na capota descida da marmon, recebeu nos olhos a cara cheia de confissões medrosas do Luís. Abaixou recatada o olhar.

— Mais uma, Luís! Luís, mais uma! que lerdeza. Me dê um maço logo!
— Também não brinca, Fräulein?
— Não gosto muito desses brinquedos. Prefiro conversar.

Olhou-o sorrindo. Porém como pintara no sorriso quase a máscara do desejo, tornou a baixar as pálpebras serenas. Varreu com elas o impudor e ficou inocente. Luís se chegara um bocadinho mais ou teve a intenção de. Muito feliz por descobrir essa correspondência. Também não gosta desses brinquedos, ásperos, fazem cansaço na gente. É tantas pessoas desconhecidas. E tão melhor dentro de casa, onde a gente se conhece bem. Também preferia conversar. Com ela. Porém como não tinha nada que falar, desenrolava envergonhadamente uma serpentina.

Fräulein olhava-o, puxava-lhe da língua, fornecia assuntos, confiança em si mesmo. Luís progredia, porém lentamente, quase nada. E quando ela, no pretexto amoroso, agarrou a mão dele:
— Não estrague assim a serpentina, mau!
Luís já não retirou a mão. Só que ficou branco, trêmulo, se afoitando ao gosto do contacto. Se pusera a espiar muito atento a cadeia dos autos, não via nada, plum! plum! coração pulando no peito. Fräulein retirou a mão. Trouxera consigo a fita desenrolada da serpentina. Luís docemente, que gostosura! puxava. Fräulein puxava. A serpentina se desenrolando. Tão divino o prazer que ele sentiu os olhos úmidos.

Fräulein pensava, relando a vista pela multidão. Luís lhe desagradava. Não era o tipo dela. Nenhum desses brasileiros, aliás... Queria alguém de puro, de humilde, paciente, estudioso, pesquisador. Chegaria da Biblioteca, da Universidade... Qualquer edifício grande de pensamento, cheio de deuses disponíveis. Deporia os livros... cadernos de notas? sobre a toalha de riscado... Lhe dava o beijo na testa... Todo de preto, alfinete de ouro na gravata... Nariz longo, muito fino e bem raçado. Aliás todo ele duma brancura transparente... E a mancha irregular do sangue nas maçãs... Tossiria arranjando os óculos sem aro... Tossia sempre... Jantariam quase sem falar nada.... Serpentinas paulistas a dois e quinhentos! Dois e quinhentos! A Pastoral Iriam no dia seguinte ouvir a Pastoral... Ele se punha no estudo... Ela arranjava de novo a... alguém lhe chamou os olhos, conhecido, Carlos? era Carlos com as irmãs na fiat. Instintivamente ela atirou uma serpentina. A fita rebentou.

Deu um gritinho horrorizada, acertara na testa dele, podia tê-lo ferido... Carlos olhou. Mandou-lhe um gesto rápido de cabeça, quase saudação. E continuou brincando com a holandesa. Fräulein se doeu, tomou com o baque seco nas entranhas. O deus soltou um gemido que nem urro. Esses deuses do norte são muito cheios de exageros. Carlos não fez por mal! foi mostrar que reconhecia e machucou. Fräulein virando o rosto pra trás, seguiu-o com os olhos, quase amorosa mas já porém reposta no domínio de si mesma. Estava muito direito assim! E se venceu completamente com o raciocínio, numa espécie de felicidade. Estava muito certo assim. Ele amaria muito aquela moça. Era bonita. Rica, se via. Carlos casaria bem, na mesma classe. Os versos de Hermann e Dorotéia lhe confirmaram o pensamento:

Mehr wohlangestattet moch ich im Hause die Braut sehn;
Denn die Arme wird doch nur zulezt vom Manne verachtet,
Und er hält sie ais Magd, die ais Magd mit dem Bündel hereinkam.

Gostaria que a noiva trouxesse mais exoval;
Pois a que se apresenta pobremente acaba desprezada pelo marido,
E ele trata como criada a noiva que chega com uma trouxinha de criada.

O verso seguinte veio, sem ela querer: Ungerecht bleiben die Männer...¹ repeliu-o. O mundo é tal como é. A gente deve aceitar sem revolta. Carlos casará rico. Perfeitamente.

1Os homens são muito injustos...

E uma comoção materna se desencadeou no corpo dela, nem via mais Carlos, os olhos batendo de auto em auto pela gente colorida, Carlos... José... Alfredo já casado... Antoninho também já casado... E, mein Gott, tantos!... tomou-a maravilhosa alucinação. Estavam todos por ali amando. Felizes. Habilíssimos. Familiares. Ela era mãe de amor! Estava até bonita. Mãe de amor! Mãe...

Luís muito sozinho nos seus dezessete anos medrosos, esguio pela desilusão, se queixou:
— É Carlos...

... de amor!... Ela abriu os olhos da vida pra aquele. Ininteligente. Sarambé. Batido, sem mesmo vivacidade interior. Decididamente Luís lhe desagradava, e Fräulein não sentiu nenhuma vontade de continuar. Porém como ele apenas esperasse um gesto dela pra recomeçar o aprendizado, Fräulein molemente buscou entre as mãos dele a fita da serpentina. O gesto preparado aproximara os corpos. Ondulação macia de auto é pretexto que amantes não devem perder. Descansando um pouco mais pesadamente o ombro no peito dele, Fräulein se deixou amparar. Ensinava assim o mais doce, mais suave dos gestos de proteção.


NOTA

Este ditado vai ser feito com um Lied de Heine, que traduzi também metrificado, me dando por divertimento ver se conseguia incluir o assunto da canção em versos ainda menores e mais sintéticos que os alemães.

Comunicando a tradução a Manuel Bandeira, ele não só me advertiu que esse mesmo Lied já fora traduzido por Gonçalves Dias e publicado, como me fez o favor de, por sua vez, traduzir a canção no mesmo ritmo de seis sílabas empregado por Heine. Embora modestamente só pretendesse essa maior identidade rítmica, não há dúvida que a tradução de Manuel Bandeira é a que mais se aproxima do original.

Aqui vão as três traduções:

Peixeira linda,
Do barco vem;
Senta a meu lado,
Chega-te bem.

Ouves meu peito?
Porque assustar!
Pois não te fias
Ao diário mar?

Como ele, eu tenho
Maré e tufão,
Mas fundas pérolas
No coração.


Tradução de Gonçalves Dias:

Vem, ó bela gondoleira!
Ferra a vela, —junto a mim
Te assenta... Quero as mãos dadas.

E conversemos assim.

Põe ao meu peito a cabeça.

Não tens de que recear.

Que sem temor, cada dia,
Te fias do crespo mar!
Minha alma semelha o pego,
Tem maré, tormenta e onda;
Mas finas per'las encontra
Nos seus abismos a sonda.

Tradução de Manuel Bandeira:

Vem, linda peixeirinha,
Trégua aos anzóis e aos remos!
Senta-te aqui comigo,
Mão dadas conversemos.

Inclina a cabecinha
E não temas assim:
Não te fias do oceano?
Pois fia-te de mim!

Minh'alma, como o oceano,
Tem tufões, correntezas,
E muitas lindas pérolas
Jazem nas profundezas.


MÁRIO DE ANDRADE — POSFÁCIO INÉDITO (1926?)


Postfacio. A língua que usei. Veio escutar melodia nova. Ser melodia nova não quer dizer feia. Carece primeiro a gente se acostumar. Procurei me afeiçoar ao meu falar e agora que já estou acostumado a tê-lo escrito gosto muito e nada me fere o ouvido já esquecido da toada lusitana. Não quis criar língua nenhuma. Apenas pretendi usar os materiais que a minha terra me dava, minha terra da Amazonas ao Prata. Fugi cuidadosamente de escrever paulista empregando termos usados em diferentes regiões do Brasil e modismos de sintaxe ou de expressão mais ou menos gerais dentro do país. Certamente que muito errei, porém isso não deve ser muito desculpado pra quem se mete num novo roteiro adonde ninguém inda nunca passou! A gente só tem até agora livros regionalistas como linguagem. Quanto aos grandões, os que sabem, não vê que têm coragem de se sacrificar pelos outros, façam o que eu digo vivem a falar, dizendo prós outros abrasileirarem a língua porém eles mesmo vivem na cola de quanto Figueiredino chupamel nos vem da Lisboa gramatical. Eu tenho certeza de conhecer suficientemente a língua portuguesa pra escrever nela sem batatas e um suficiente estilo. Eu desafio quem quer que seja a me mostrar batatas lingüísticas na Escrava, aonde atingi na prosa portuguesa uma solução que me satisfaz. Pois abandonei tudo e parti ignorante porém com coragem, tropeçando, me atrapalhando, tentando e tentarei sempre até o fim. — A necessidade de empregar os brasileirismos vocabulares não só no seu exato sentido porém já no sentido translato, metafórico, talqual eu fiz. A apropriação subconsciente das palavras, pra que elas tenham realmente uma função expressiva caracteristicamente nacional.

— Tem também o sabor inédito que este linguajar traz pro livro. E que fez pensar que com tal maneira qualquer novo livro meu no gênero, e qualquer tentativa de outro que coincidisse com a minha traria a monotonia e mostraria a pobreza e a pequena quantidade relativa dos modismos e brasileirismos vocabulares. Seria um erro pueril de visão crítica. Não tive a mínima intenção de procurar o curioso nem o ineditismo depende de mim. Trata-se mesmo de acabar o mais cedo possível com o ineditismo desses processos e de outros do mesmo gênero pra que todas essas expressões brasileiras, quer vocabulares, quer gramaticais passem a ser de uso comum passem a ser despercebidas na escritura literária pra que então possam ser estudadas, codificadas, catalogadas, escolhidas pra forma futura duma gramática e língua literária brasileiras. Ninguém me tirará a Convicção, arraigada já entre muitos dissabores, brinquedinhos depreciativos de amigos, diz-que e falar mal por trás e injustiças, que se muitos tentarem também o que eu tento (note-se que não digo "como eu tento”) muito breve se organizará uma maneira brasileira de expressar, muito pitoresca, psicologiquíssima na sua lentidão, nova doçura e variedade, novas melodias bem nascidas da terra, e da raça do Brasil. Essa expressão é muito provável que talvez ainda passe sem que ela se diferencie suficientemente do português a ponto de se formar uma nova língua. Não sei. E se tivermos uma língua brasileira e provável também que a diferença entre ela e a portuguesa nunca seja maior que a que tem entre esta e a espanhola. O importante, não é aliás a vaidadinha de ter língua diferente, o importante é se adaptar, ser lógico com a sua terra e o seu povo. Falam que pra que tenham literatura diferente carece que tenha língua diferente... É uma semiverdade. Pra que tenha literatura diferente é so preciso que ela seja lógica e concordante com terra e povo diferente. O resto sim é literatura importada só com certas variantes fatais. É literatura morta ou pelo menos indiferente pro povo que ela pretendeu representar. — O problema sobre o lugar-comum pra estabelecer formas fixas. Empreguei lugares-comuns propositadamente. Bem entendido: se trata de lugares-comuns modismos brasileiros expressionais, e não lugares-comuns universais, frios polares, amores ardentes e por aí.


— Nota da edição: O "Postfácio" foi escrito por Mário de Andrade nas últimas páginas de um caderno pautado (23 x 16,5 cm) onde estava certamente a parte final de Amar, verbo intransitivo. Destruindo os originais depois do livro publicado, como costumava fazer, o romance (p. 295-300, por ele numeradas e escritas a lápis), rabiscando esta. (Originais — Arquivo Mário de Andrade — IEB-USP).


A PROPÓSITO DE AMAR, VERBO INTRANSITIVO — 1927


Sr. redator.

Agora que as melhores penas da crítica literária já falaram sobre Amar, verbo intransitivo, todos pelo Jornal, peço acolhida para certas explicações pessoais.

Eu sempre pus reparo no perigo que os meus prefácios traziam esclarecendo por demais os meus trabalhos. Com o prefácio de Paulicéia toda a gente se botou falando em Desvairismo se esquecendo da lição verdadeira do prefácio: aquela advertência de que o Desvairismo se acabara com o livro e nem eu mesmo continuava praticando-o. Como de fato não pratiquei em mais nenhuma das minhas obras.

Porém o que acabou me desgostando mesmo dos prefácios foi o caso do Losango caqui. Escrevi aquela advertência e em geral os que falaram do livro se limitaram a glosar o que eu falara, quando justamente o papel do crítico é também determinar quanto o artista não fez aquilo que pretendeu e o quanto ele não é aquilo que julga ser. Enfim: o melhor papel do crítico, desde que o artista seja digno deste nome, é repor o pobre do sonhador na consciência de si, mesmo.

Uma vez desgostado dos prefácios, tirei o que estava apenso a Amar, verbo intransitivo e me parece que o desastre foi maior.

Não posso me queixar de incompreendido não, porém, é certo que fui transcompreendido, se posso falar assim.

O livro está gordo de freudismo, não tem dúvida. E é uma lástima os críticos terem acentuado isso, quando era uma cousa já estigmatizada por mim dentro do próprio livro. Agora o interessante seria estudar a maneira com que transformei em lirismo dramático a máquina fria de um racionalismo científico. Esse jogo estético assume então particular importância na página em que "inventei" o crescimento de Carlos, seguindo passo a passo a doutrina freudiana.

Mas isso inda não é nada. O que eu lastimo de deveras é que pelo menos de igual importância ao freudismo do livro são as doutrinas de neo-vitalismo que estão nele. Pois isso ninguém não viu.

Na própria página do crescimento de Carlos inculco visivelmente que vai ser honesto em vida por causa das reações fisiológicas.

A honestidade dele é uma secreção biológica. Pentear sem espelho na frente faz o repartido sair torto e isso deixa os cabelos doendo.

Carlos carece de espelho e tem vergonha de se olhar nele falo eu no meu jogo de imagens, depois de qualquer ação desonesta. Por isso, se conserva honesto para poder olhar no espelho. Honesto por "reação capilar".

O fenômeno biológico provocando a individualidade psicológica de Carlos é a própria essência do livro.

Tanto assim que eu constato dentro do próprio livro que todo o sucedido para o menino foi absolutamente inútil e que Carlos seria o que vai ser, sucedesse o que sucedesse. Simplesmente "porque é um indivíduo normal que nem amídalas inchadas não teve em piá".

Porém não me conservei apenas nesse naturalismo que repudio, não. Embora não tenha acentuado o problema da permanência extra-biológica das idéias coordenadoras do fenômeno humano, creio que não é impossível perceber que Carlos se rege por ideais de justiça, de religião, de sociabilidade, de verdade, etc. que não são simples fenomenologia biológica mas transcendem desta. Tanto assim que na convivência de Carlos-corpo com Carlos-espírito, este ensina para o outro conceito permanente de Deus, de Justiça, de Ciência e de Sociedade.

E ainda estava nas minhas intenções fazer uma sátira dolorosa para mim e para todos os filhos do tempo, a essa profundeza e agudeza de observação psicológica dos dias de agora. Aqueles que estão magnetizados pelo "sentimento trágico da vida" e percebem forças exteriores, aqueles que estão representados pelo fatalismo mecânico maquinai do indivíduo moderno, tal como Charles Chaplin, o realiza; aqueles que atravessaram o escalpelo de Freud e se sujeitaram a essa forma dubitativa de auto-analise de Proust; aqueles que por tanta fineza, tanta sutileza, tanta infinidade de reações psicológicas contraditória? não conseguem mais perceber a verdade de si mesmos. Todos esses caem na gargalhada horrível destes dias, caem no diletantismo e nem indagam de mais nada porque "ninguém o saberá jamais". Pois então: sátira pra esses e aqueles! E dando como protótipo de beleza humana o meu inventado Carlos, indivíduo puro, indivíduo que se sujeita às grande normas, eu creio que pude coroar a sátira com uma evocação que vai além dos simples valores hedonísticos.

Aqui convém maturar numa cousa importante: parece que eu dou para minha arte uma eficiência moral. Não tem dúvida que minha arte é moral no sentido largo em que ela participa do vital e principalmente do vital humano.

Porém, estes costumei são "artis-moralista". A arte é sempre moral enquanto lida com os costumes. Porém, estes costumes são "artísticos", quero dizer, são brinquedos puros, desinteressados imediatamente, jogando com os dados vitais: sejam elementos sensoriais, sons, volumes, movimentos, cores, etc; sejam elementos psíquicos, os sentimentos, o amor, heroísmo, cólera, pavor, paulificação. Até paulificação.

Confesso que com o elemento paulificação inda não publiquei nenhum trabalho "propositalmente". Mas já tenho alguns na gaveta. Porém, é fácil de provar que em várias páginas minhas publicadas procurei despertar nos meus leitores os sentimentos de cólera, de irritação, de impertinência, de mistério, etc. Não sei se conseqüentemente a boniteza coroou essas brincadeiras, porém, eles é certo que existem.

Mas por outro lado se Carlos conserva os "provérbios de sociedade " e se rege pelas grandes idéias normativas ele não conseguirá ser mais do que uma simples reação fisiológica. Estas darão um São Thomaz e um Anchieta? Afirmei que não, no livro. Poderão dar quando muito um Carlos Souza Costa. Foi o que afirmei.

Carlos não passa de um burguês chatíssimo do século passado. Ele é tradicional dentro da única cousa a que se resume até agora a cultura brasileira: educação e modos.

Em parte enorme: má educação e mais modos. Carlos está entre nós pelo incomparavelmente mais numeroso que inda tem no Brasil de tradicionalismo "cultural" brasileiro burguês octocentista. Ele não chega a manifestar o estado bio-psíquico do indivíduo que se pode chamar de moderno. Carlos é apenas uma apresentação, uma constatação da constância cultural brasileira. E se não dei solução é porque meus livros não sabem ser tese. Não se consegue tirar do Amar, verbo intransitivo, mais que a constatação de uma infelicidade que independe dos homens.

E basta. Não sou nenhum vaidoso que julgue-me inatingível às críticas. Até sou especialmente grato a Tristão de Athayde por tudo o que é de mim sobre o qual ele chamou a minha atenção consciente. Mas agora senti precisão de evocar certas intenções maiores do meu último trabalho para mostrar quanto eu estou... fora da moda?

MÁRIO DE ANDRADE


Nota da edição: Texto publicado por Mário de Andrade no Diário Nacional. São Paulo, 4 dez., 1927. (Recortes — Arquivo Mário de Andrade — IEB-USP).

Fonte: 4shared.com

voltar 123456789avançar
Sobre o Portal | Politica de Privacidade | Fale Conosco | Anuncie | Indique o Portal