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Macunaíma

Mário de Andrade

VIII VEI, A SOL

Macunaíma ia seguindo e topou com a árvore Volomã bem alta. Num galho estava um pitiguari que nem bem enxergou o herói, se desgoelou cantando — "Olha no caminho quem vem! Olha no caminho quem vem!" Macunaíma olhou pra cima com intenção de agradecer mas Volomã estava cheinha de fruta. O he

rói vinha dando horas de tanta fome e a barriga dele empacou espiando aquelas sapotas sapotilhas sapotis bacuris abricôs mucajás miritis guabijus melancias ariticuns, todas essas frutas.

— Volomã, me dá uma fruta, Macunaíma pediu. O pau não quis dar. Então o herói gritou duas vezes: — Boiôiô, boiôiô! quizama quizu! Caíram todas as frutas e ele comeu bem. Volomã ficou com ódio. Pegou o herói pelos pés e atirou-o pra além da baía de Guanabara numa ilhota deserta, ha bitada antigamente pela ninfa Alamoa que veio com os Holandeses. Macunaíma pendia tanto de fadiga que pe gou no sono durante o pulo. Caiu dormindo em baixo duma palmeirinha guairô muito aromada onde um uru bu estava encarapitado.

Ora o pássaro careceu de fazer necessidades, fez e o herói ficou escorrendo sujeira de urubu. Já era de madrugadinha e o. tempo estava inteiramente frio. Ma cunaíma acordou tremendo, todo enlambuzado. Assim mesmo examinou bem a pedra mirim da ilhota pra ver si não havia alguma cova com dinheiro enterrado. Não havia não. Nem a correntinha encantada de prata que indica pro escolhido, tesouro de Holandês. Havia só as formigas jaquitaguas ruivinhas.

Então passou Caiuanogue, a estrêla-da-manhã. Macunaíma já meio enjoado de tanto viver pediu pra ela que o carregasse pro céu. Caiuanogue foi se che gando porém o herói fedia muito.

— Vá tomar banho! ela fez. E foi-se embora. Assim nasceu a expressão "Vá tomar banho!" que os Brasileiros empregam se referindo a certos imigran tes europeus.

Vinha passando Capei, a Lua. Macunaíma gritou pra ela: — Sua bênção, dindinha Lua! — Uhum... que ela secundou.

Então ele pediu pra Lua que o carregasse pra ilha de Marajó. Capei veio chegando porém Macunaíma estava mesmo fedendo por demais.

— Vá tomar banho! ela fez. E foi-se embora. E a expressão se fixou definitivamente. Macunaíma gritou pra Capei que pelo menos desse um foguinho pra ele aquecer.

— Peça no vizinho! ela fez apontando pra Sol que já vinha lá no longe remando pelo paraná guaçu. E foi-se embora.

Macunaíma tremia que mais tremia e o urubu sem pre fazendo necessidade em riba dele. Era por causa da pedra ser muito pequetitinha. Vei vinha chegando vermelha e toda molhada de suor. E Vei era a Sol. Foi muito bom pra Macunaíma porque lá em casa ele sem pre dera presentinhos de bô-lo-de-aipim pra Sol lamber secando.

Vei tomou Macunaíma na jangada que tinha uma vela cor-de-ferrugem pintada com muruci e fez as três filhas limparem o herói, catarem os carrapatos e exa minarem si as unhas dele estavam limpas. E Macunaí ma ficou alinhado outra vez. Porém por causa dela es tar velha vermelha e tão suando o herói não malíciava que a coroca era mesmo a Sol, a boa da Sol poncho dos probres. Por isso pediu pra ela que chamasse Vei com seu calor porque ele estava lavadinho bem mas tre mendo de tanto frio. Vei era a Sol mesmo e andava matinando fazer Macunaíma genro dela. Só que ainda não podia aquentar ninguém não, porque era cedo por demais, não tinha força. Pra distrair a espera assobiou dum jeito e as três filhas dela fizeram muitos cafunés e cosquinhas no corpo todo do herói.

Ele dava risadas chatas, se espremendo de cóce gas e gostando muito. Quando elas paravam pedia mais estorcendo já de antegozo. Vei pôs reparo na senvergonhice do herói, teve raiva. Foi ficando sem vontade de tirar fogo do corpo e esquentar ninguém. Então as cunhatãs agarraram na mãe, amarraram bem ela e Macunaíma dando muitos munhecaços na barriga da bruaca saiu que saiu um fogaréu por detrás e todos se aquentaram.

Principiou um calorão que tomou a jangada, se alastrou nas águas e dourou a face limpa do ar. Ma cunaíma deitado na jangada lagarteava numa quebreira azul. E o silêncio alargando tudo...

— Ai... que preguiça...

O herói suspirou. Se ouvia o murmurejo da onda, só. Veio um enfaro feliz subindo pelo corpo de Ma cunaíma, era bom... A cunhatã mais moça batia o urucungo que a mãe trouxera da África. Era vasto o paraná e não tinha uma nuvem na gupiara elevada do céu. Macunaíma cruzou as munhecas no alto por de trás fazendo um cabeceiro com as mãos e enquanto a filha-da-luz mais velha afastava os mosquitos borrachudos em quantidade, a terceira chinoca com as pontas das trancas fazia estremecer de gosto a barriga do he rói. E era se rindo em plena felicidade, parando pra gozar de estrofe em estrofe que ele cantava assim: Quando eu morrer não me chores, Deixo a vida sem sodade; — Mandu sarará,

Tive pro pai o desterro, Por mãe a infelicidade, — Mandu sarará,

Papai chegou e me disse: — Não hás de ter um amor! — Mandu sarará,

Mamãe veio e me botou Um colar feito de dor, — Mandu sarará,

Que o tatu prepare a cova Dos seus dentes desdentados, — Mandu sarará,

Para o mais desinfeliz De todos os desgraçados, — Mandu sarará...

Era bom... O corpo dele relumeava de ouro cinzando nos cristaizinhos do sal e por causa do cheiro da maresia, por causa do remo pachorrento de Vei, e com a barriga assim mexemexendo com cosquinhas de mu

lher, ah!... Macunaíma gozou do nosso gozo, ah!... "Puxavante! que filha-duma?... de gostosura, gente!" exclamou. E cerrando os olhos malandros, com a boca rindo num riso moleque safado de vida boa o herói gostou gostou e adormeceu.

Quando a jacumã de Vei não embalou mais o sono dele Macunaíma acordou. Lá no longe se perce bia mais que tudo um arranhacéu cor-de-rosa. A jan gada estava abicada na caiçara da maloca sublime do Rio de Janeiro.

Ali mesmo na beira d'água tinha um cerradão comprido cheinho da árvore pau-brasil e com palácios de cor nos dois lados. E o cerradão era a avenida Rio Branco. Aí que mora Vei a Sol com suas três filhas de luz. Vei queria que Macunaíma ficasse genro dela por que afinal das contas ele era um herói e tinha dado tanto bôlo-de-aipim pra ela chupar secando, falou: — Meu genro: você carece de casar com uma das minhas filhas. O dote que dou pra ti é Oropa França e Bahia. Mas porém você tem de ser fiel e não andar assim brincando com as outras cunhas por aí.

Macunaíma agradeceu e prometeu que sim juran do pela memória da mãe dele. Então Vei saiu com as três filhas pra fazer o dia no cerradão, ordenando mais uma vez que Macunaíma não saísse da jangada pra não andar brincando com as outras cunhas por aí. Macunaí ma tornou a prometer, jurando outra vez pela mãe.

Nem bem Vei com as três filhas entraram no cer radão que Macunaíma ficou cheio de vontade de ir brincar com uma cunha. Acendeu um cigarro e a von tade foi subindo. Lá por debaixo das árvores passavam muitas cunhas cunhe cunhe se mexemexendo com ta lento e formosura.

— Pois que fogo devore tudo! Macunaíma excla mou. Não sou frouxo agora pra mulher me fazer mal! E uma luz vasta brilhou no cérebro dele. Se er gueu na jangada e com os braços oscilando por cima da pátria decretou solene: — POUCA SAÚDE E MUITA SAÚVA, OS MALES DO BRASIL SÃO! Pulou da jangada no sufragante, foi fazer conti nência diante da imagem de Santo Antônio que era ca pitão de regimento e depois deu em cima de todas as cunhas por aí. Logo topou com uma que fora varina lá na terrinha do compadre chegadinho-chegadinho e inda cheirava no-mais! um fartum bem de peixe. Macunaí ma piscou pra ela e os dois vieram na jangada brincar. Fizeram. Bastante eles brincaram. Agora estão se rindo um pro outro.

Quando Vei com suas três filhas chegaram do dia e era a bôca-da-noite as moças que vinham na frente encontraram Macunaíma e a Portuguesa brincando mais. Então as três filhas de luz se zangaram: — Então é assim que se faz, herói! Pois nossa mãe Vei não falou pra você não sair da jangada e não ir brincar com as outras cunhas por aí?! — Estava muito tristinho! o herói fez.

— Não tem que tristinho nem mane tristinho, he rói! Agora que você vai tomar um pito de nossa mãe Vei! E viraram muito zangadas pra velha: — Veja, nossa mãe Vei, o que vosso genro fez! Nem bem a gente foi no cerradão que ele escapuliu, deu em cima duma boa, trouxe ela na vossa jangada e brin caram até mais não! Agora estão se rindo um pro outro! Então a Sol se queimou e ralhou assim: Ara ara, ara, meus cuidados! Pois não falei pra você não dar em cima de nenhuma cunha não!... Fa lei sim! E inda por cima você brinca com ela na jan gada minha e agora estão se rindo um pro outro! — Estava muito tristinho! Macunaíma repetiu.

— Pois si você tivesse me obedecido casava com uma das minhas filhas e havia de ser sempre moço e bonitão. Agora você fica pouco tempo moço talqualmente os outros homens e depois vai ficando mocetudo e sem graça nenhuma.

Macunaíma sentiu vontade de chorar. Suspirou.

— Si eu subesse...

— O "si eu subesse" é santo que nunca não valeu pra ninguém, meus cuidados! Você o que é mas é mui to safadinho, isso sim! Não te dou mais nenhuma das minhas filhas não! Daí Macunaíma pisou nos calos também: — Pois nem eu queria nenhuma das três, sabe! Três, diabo fez! Então Vei com as três filhas foram pedir pouso num hotel e deixaram Macunaíma dormir com a Portuga jangada.

Quando foi ali pela hora antes da madrugada, veio a Sol com as moças pra darem o passeio na baía e en contraram Macunaíma com a Portuguesa inda pegados no sono. Vei acordou os dois e fez presente da pedra Vató pra Macunaíma. E a pedra Vató dá fogo quando a gente quer. E lá se foi a Sol com as três filhas de luz.

Macunaíma inda passou esse dia brincando com a varina pela cidade. Quando foi de-noite eles estavam dormindo num banco do Flamengo quando chegou uma assombração medonha. Era Mianiquê-Teibê que vinha pra enguilir o herói. Respirava com os dedos, escutava pelo umbigo e tinha os olhos no lugar das mamicas. A boca era duas bocas e estavam escondidas na dobra interior dos dedos dos pés. Macunaíma acordou com o cheiro da assombração e jogou no viado Flamengo fora. Então Mianiquê-Teibê comeu a varina e se foi.

No outro dia Macunaíma não achou mais graça na capital da República. Trocou a pedra Vató por um retrato no jornal e voltou pra taba do igarapé Tietê.

IX CARTA PRAS ICAMIABAS

Às mui queridas súbditas nossas, Senhoras Ama

zonas.

Trinta de Maio de Mil Novecentos e Vinte e Seis, São Paulo.

Senhoras: Não pouco vos surpreenderá, por certo, o endereço e a literatura desta missiva. Cumpre-nos, entretanto, iniciar estas linhas de saudades e muito amor, com de sagradável nova. É bem verdade que na boa cidade de São Paulo — a maior do universo, no dizer de seus pro lixos habitantes — não sois conhecidas por "icamiabas", voz espúria, sinão que pelo apelativo de Amazonas; e de vós, se afirma, cavalgardes ginetes belígeros e virdes da Hélade clássica; e assim sois chamadas. Muito nos pesou a nós, Imperator vosso, tais dislates da erudição porém heis de convir conosco que, assim, ficais mais heróicas e mais conspícuas, tocadas por essa platina respeitável da tradição e da pureza antiga.

Mas não devemos esperdiçarmos vosso tempo fero, e muito menos conturbarmos vosso entendimento, com notícias de mau calibre; passemos pois, imediato, ao relato dos nossos feitos por cá.

Nem cinco sóis eram passados que de vós nos par tíramos, quando a mais temerosa desdita pesou sobre Nós. Por uma bela noite dos idos de maio do ano translato, perdíamos a muiraquitã; que ou trem grafara muraquitã, e, alguns doutos, ciosos de etimologias esdrú xulas, ortografam muyrakitan e até mesmo muraquéitã, não sorriais! Haveis de saber que este vocábulo, tão familiar às vossas trompas de Eustáquio, é quase desconhecido por aqui. Por estas paragens mui civis, os guerreiros chamam-se polícias, grilos, guardas-cívicas, boxistas, legalistas, masorqueiros, etc; sendo que alguns desses termos são neologismos absurdos — ba gaço nefando com que os desleixados e petimetres cons purcam o bom falar lusitano. Mas não nos sobra já va gar para discretearmos "sub tegmine fagi", sobre a lín gua portuguesa, também chamada lusitana. O que vos interessará mais, por sem dúvida, é saberdes que os guerreiros de cá não buscam mavórticas damas para o enlace epitalâmico; mas antes as preferem dóceis e facilmente trocáveis por pequeninas e voláteis folhas de papel a que o vulgo chamará dinheiro — o "curriculum vitae" da Civilização, a que hoje fazemos ponto de hon ra em pertencermos. Assim a palavra muiraquitã, que fere já os ouvidos latinos do vosso Imperador, é desco nhecida dos guerreiros, e de todos em geral que por estas partes respiram. Apenas alguns "sujeitos de im portância em virtude e letras", como já dizia o bom velhinho e clássico frei Luís de Sousa, citado pelo dou tor Rui Barbosa, ainda sobre as muiraquitãs projetam as suas luzes, para aquilatá-las de medíocre valia, ori ginárias da Ásia, e não de vossos dedos, violentos no polir.

Estávamos ainda abatido por termos perdido a nos sa muiraquitã, em forma de sáurio, quando talvez por algum influxo metapsíquico, ou, qui lo sá, provocado por algum libido saudoso, como explica o sábio tudesco, doutor Sigmundo Freud (lede Fróide), se nos depa rou em sonho um arcanjo maravilhoso. Por ele sou bemos que o talismã perdido estava nas diletas mãos do doutor Venceslau Pietro Pietra, súbdito do Vice-Reinado do Peru, e de origem francamente florentina, como os Cavalcântis de Pernambuco. E como o doutor demorasse na ilustre cidade anchietana, sem demora nos partimos para cá, em busca do velocino roubado.

As nossas relações actuais com o doutor Venceslau são as mais lisonjeiras possíveis; e sem dúvida mui para breve recebereis a grata nova de que hemos reavido o talismã: e por ela vos pediremos alvíçaras.

Porque, súbditas dilectas, é incontestável que Nós, Imperator vosso, nos achamos em precária condição. O tesouro que daí trouxemos, foi-nos de mister conver tê-lo na moeda corrente do país; e tal conversão muito nos há dificultado o mantenimento, devido às oscilações do Câmbio e à baixa do cacau.

Sabereis mais que as donas de cá não se derribam a pauladas, nem brincam por brincar, gratuitamente', senão que a chuvas do vil metal, repuxos brasonados de champagne, e uns monstros comestíveis, a que, vul garmente, dão o nome de lagostas. E quê monstros en cantados, senhoras Amazonas!!! Duma carapaça poli da e sobrosada, feita a modo de casco de nau, saem braços, tentáculos e cauda remígeros, de muitos feitios; de modo que o pesado engenho, deposto num prato de porcelana de Sêvres, se nos antoja qual velejante trirreme a bordeisjar água de Nilo, trazendo no bojo o corpo inestimável de Cleópatra.

Ponde tento na acentuação deste vocábulo, senho ras Amazonas, pois muito nos pesara não preferísseis conosco, essa pronúncia, condizente com a lição dos clássicos, à pronúncia Cleópatra, dicção mais moderna; e que alguns vocabulistas levianamente subscrevem, sem que se apercebam de que é ganga desprezível, que nos trazem, com o enxurro de França, os galiparlas de má morte.

Pois é com esse dedicado monstro, vencedor dos mais delicados véus paladinos, que as donas de cá tom bam nos leitos nupciais. Assim haveis de compreender de que alvíçaras falamos; porque as lagostas são carís simas, caríssimas súbditas, e algumas hemos nós adquiridas por sessenta contos e mais; o que, convertido em nossa moeda tradicional, alcança a vultosa soma de oitenta milhões de bagos de cacau... Bem podereis conceber, pois, quanto hemos já gasto; e que já estamos carecido do vil metal, para brincar com tais difíceis do nas. Bem quiséramos impormos à nossa ardida chama uma abstinência, penosa embora, para vos pouparmos despesas; porém que ânimo forte não cedera ante os encantos e galanteios de tão agradáveis pastoras! Andam elas vestidas de rutilantes jóias e panos fi níssimos, que lhes acentuam o donaire do porte, e mal encobrem as graças, que, a de nenhuma outra cedem pelo formoso do torneado e pelo tom. São sempre alvíssimas as donas de cá; e tais e tantas habilidades de monstram, no brincar, que enumerá-las, aqui seria fàstiendo porventura; e, certamente, quebraria os manda mentos de discreção, que em relação de Imperator para súbditas se requer. Que beldades! Que elegância! Que cachet! Que degagé flamífero, ignívomo, devorador!! Só pensamos nelas, muito embora não nos descuidemos, relapso, da nossa muiraquitã.

Nós, nos parece ilustres Amazonas, que assaz ganharíeis em aprenderdes com elas, as condescendências, os brincos e passes do Amor. Deixaríeis então a vossa orgulhosa e solitária Lei, por mais amáveis mesteres, em que o Beijo sublima, as Volúpias encandecem, e se demonstra gloriosa, "urbi et orbe", a subtil força do Odor di Femina, como escrevem os italianos.

E já que nos detivemos neste delicado assunto, não no abandonaremos sem mais alguns reparos, que vos poderão ser úteis. As donas de São Paulo, sobre serem mui formosas e sábias, não se contentam com os dons e excelência que a Natura lhes concedeu; assaz se preo cupam elas de si mesmas; e não puderam acabarem consigo, que não mandassem vir de todas as partes do globo, tudo o que de mais sublimado e gentil acrisolou a ciência fescenina, digo, feminina das civilizações avitas. Assim é que chamaram mestras da velha Europa, e sobretudo de França, e com elas aprenderam a pas sarem o tempo de maneira bem diversa da vossa. Ora se alimpam, e gastam horas nesse delicado mester, ora encantam os convívios teatrais da sociedade, ora não fazem coisa alguma; e nesses trabalhos passam elas o dia tão entretecidas e afanosas que, em chegando a noute, mal lhes sobra vagar para brincarem e presto se entregam nos braços de Orfeu, como se diz. Mas heis de saber, senhoras minhas, que por cá dia e noute divergem singularmente do vosso horário belígero; o dia começa quando para vós é o pino dele, e a noute, quando estais no quarto sono vosso, que, por derradeiro, é o mais reparador.

Tudo isso as donas paulistanas aprenderam com as mestras de França; e mais o polimento das unhas e cres cimento delas, bem como aliás "horjesco referens", das demais partes córneas dos seus companheiros legais. Deixai passe esta flórida ironia! E muito há que vos diga ainda sobre o jeito com que cortam as comas, de tal maneira gracioso e viril, que mais se assemelham elas a efebos e Antinous, de perversa memória, que a matronas de tão directa progênie latina. Todavia, convireis conosco, no desacerto de longas trancas por cá, si atenderdes ao que mais atrás ficou dito; pois que os doutores de São Paulo não derribam as suas requestadas pela força, senão que a troco de oiro e de iocustas, as ditas comas são de somenos, acrescendo ainda que assim se amainam os ma les, que tais comas acarretam, de serem moradia e pas to habitual de insectos mui daninho como entre vós se dá.

Pois não contentes de terem aprendido de França, as subtilezas e passes da galanteria à Luís XV, as do nas paulistanas importam das regiões mais inóspitas c que lhes acrescente ao sabor, tais como pezinhos nipônicos, rubis da Índia, desenvolturas norteamericanas; e muitas outras sabedorias e tesoiros internacionais.

Já agora vos falaremos ainda, bem que por alto, dum nitente armento de senhoras, originárias da Polô nia, que aqui demoram e imperam generosamente. São elas mui alentadas no porte e mais numerosas que as areias do mar oceano. Como vós, senhoras Amazonas, tais damas formam um gineceu; estando os homens que em suas casas delas habitam, reduzidos escravos e con denados ao vil ofício de servirem. E por isso não se lhes chamam homens, sinão que à voz espúria de garçons respondem; e são assaz polidos e silentes, e sempre do mesmo indumento gravebundo trajam.

Vivem essas damas encasteladas num mesmo lo cal, a que chamam por cá de quarteirão, e mesmo de pensões ou "zona estragada"; sobrelevando notar que a derradeira destas expressões não caberia, por indina nesta notícia sobre as coisas de São Paulo, não fora o nosso anseio de sermos exacto e conhecedor. Porém si, como vós, formam essas queridas senhoras um clã de mulheres, muito de vós se apartam do físico, no gênero de vida e nas ideais. Assim vos diremas que vivem à noute, e se não dão aos afazeres de Marte nem quei mam o destro seio, mas a Mercúrio cortejam tão so mente; e quanto aos seios, deixam-nos envolverem, à feição de gigantescos e flácidos pomos, que, si lhes não acrescentam ao donaire, servem para numerosos e ár duos trabalhos de excelente virtude e prodigiosa excitação.

Ainda lhes difere o físico, tanto ou quanto mons truoso, bem que de amável monstruosidade, por terem elas o cérebro nas partes pudendas, e como tão bem se diz em linguagem madrigalesca, o coração nas mãos. Falam numerosas e mui rápidas línguas; são via jadas e educadíssimas; sempre todas obedientes por igual, embora.ricamente díspares entre si, quais loiras, quais morenas, quais fôsse-maigres, quais rotundas; e de tal sorte abundantes no número e diversidade, que muito nos preocupa a razão, o serem todas e tantas, ori ginais dum país somente. Acresce ainda que a todas se lhes dão o excitante, embora injusto, epíteto de "fran cesas". A nossa desconfiança é que essas damas não se originaram todas da Polônia, porém que faltam à ver dade, e são iberas, itálicas, germânicas, turcas, argenti nas, peruanas, e de todas as outras partes férteis de um e outro hemisfério.

Muito estimaríamos que compartilhásseis da nossa desconfiança, senhoras Amazonas; e que convidásseis também algumas dessas damas para demorarem nas vossas terras e Império nosso, por que aprendais com elas um moderno e mais rendoso gênero de vida, que muito fará avultar os tesoiros do vosso Imperador. E mesmo, si não quiserdes largar mão da vossa solitária Lei, sempre a existência de algumas centenas dessas da mas entre vós, muito nos facilitará o "modus in rebus", quando for no nosso retorno ao Império do Mato Vir gem, cujo este nome, aliás, proporíamos se mudasse para Império da Mata Virgem, mais condizente com a lição dos clássicos.

Todavia para terminar negócio tão principal, hemos por bem advertir-vos dum perigo que essa impor tação acarretara, si não aceitásseis alguns doutores pos santes nos limites do Estado, enquanto dele estivermos apartado. Com serem essas damas mui fogosas e livres; bem pudera pesar-lhes em demasia o seqüestro incon seqüente em que viveis, e, por não perderem elas as ciências e segredos que lhes dão o pão, bem poderiam ir ao extremo de utilizarem-se das bestas feras, dos bogios, dos tapires e dos solertes candirus. E muito mais ainda nos pesaria à consciência e sentimento nobre do dever; que vós, súbditas nossas, aprendásseis com elas certas abusões, tal como foi com as companheiras da gentil declamadora Safo na ilha rósea de Lesbos — vícios esses que não suportam crítica à luz das possi bilidades humanas, e muito menos o escalpelo da rígida e sã moral.

Como vedes, assaz hemos aproveitada esta demora na ilustre terra bandeirante, e si não descuidamos do nosso talismã, por certo que não poupamos esforços nem vil metal, por aprendermos as coisas mais principais desta eviterna civilização latina, por que iniciemos quando for do nosso retorno ao Mato Virgem, uma sé rie de milhoramentos, que, muito nos facilitarão a exis tência, e mais espalhem nossa prosápia de nação culta entre as mais cultas do Universo. E por isso agora vos diremos algo sobre esta nobre cidade, pois que preten demos construir uma igual nos vossos domínios e Im pério nosso.

É São Paulo construída sobre sete colinas, à fei ção tradicional de Roma, a cidade cesárea, "capita" da Latinidade de que provimos; e beija-lhes os pés a grácil e inquieta linfa do Tietê. As águas são magníficas, os ares tão amenos quanto os de Aquisgrana ou de Anver-res, e a área tão a eles igual em salubridade e abundân cia, que bem se pudera afirmar, ao modo fino dos cro nistas, que de três AAA se gera espontaneamente a fauna urbana.

Cidade é belíssima, e grato o seu convívio. Toda cortada de ruas habilmente estreitas e tomadas por es tátuas e lampiões graciosíssimos e de rara escultura; tudo diminuindo com astúcia o espaço de forma tal, que nessas artérias não cabe a população. Assim se obtém o efeito dum grande acúmulo de gentes, cuja estimativa pode ser aumentada à vontade, o que é pro pício às eleições que são invenção dos inimitáveis mi neiros; ao mesmo tempo que os edis dispõem de largo assunto com que ganhem dias honrados e a admiração de todos, com surtos de eloqüência do mais puro es tilo e sublimado lavor.

As ditas artérias são todas recamadas de ricocheteantes papeizinhos e velívolas cascas de fruitos; e em principal duma finíssima poeira, e mui dançarina, em que se despargem diariamente mil e uma espécimens de vorazes macróbios, que dizimam a população. Por essa forma resolveram, os nossos maiores, o problema da circulação; pois que tais insectos devoram as mes quinhas vidas da ralé; e impedem o acúmulo de deso cupados e operários; e assim se conservam sempre as gentes em número igual. E não contentes com essa poeira ser erguida pelo andar dos pedestrianistas e por urrantes máquinas a que chamam "automóveis" e "eléctricos", (empregam alguns a palavra Bond, voz espúria, vinda certamente do inglês) contrataram os diligentes edis, uns antropóides, monstros hipocentáureos azulegos e monótonos, a que congloba o título de Limpeza Pública; que "per amica silencia lunae", quando cessa o movimento e o pó descansa inócuo, saem das suas mansões, e, com os rabos girantes a modo de vassouras cilíndricas, puxadas por muares, soerguem do asfalto a poeira e tiram os insetos do sono, e os concitam à actividade com largos gestos e grita formidanda. Estes afazeres nocturnos são discretamente conduzidos por pequeninas luzes, dispostas de longe em longe, de ma neira a permanecer quase total a escuridade, não per turbem elas os trabalhos de malfeitores e ladrões.

A cópia destes se nos afigura realmente excessiva; e temos que são a única usança que não se coaduna com nosso temperamento, ordeiro e pacífico de seu na tural. Porém, longe de nós qualquer reproche aos admi nistradores de São Paulo, pois sabemos muito bem que aos valerosos Paulistas, são aprazíveis tais malfeitores e suas artes. São os Paulistas gente ardida e avalentoada, e muito afeita às agruras da guerra. Vivem em combates singulares e colectivos, todos armados da ca beça aos pés; assim assaz numerosos são os distúrbios por cá, em que, não raro, tombam na arena da luta, centenas de milhares de heróis, chamados bandeirantes. - Pelo mesmo motivo São Paulo, está dotada de mui aguerrida e vultosa Polícia, que habita palácios bran cos de custosa engenharia. A essa Polícia compete ain da equilibrar os excessos da riqueza pública, por se não desvalorizar o oiro incontável da Nação; e tal diligên cia emprega nesse afã, que, por todos os lados devora os dinheiros nacionais, quer em paradas e roupagens luzidas, quer em ginásticas da recomendável Eugênia, que inda não tivemos o prazer de conhecermos; quer finalmente atacando os incautos burgueses que regres sam do seu teatro, do seu cinema, ou "dão a sua volta de automóvel pelos vergéis amenos que circundam a ca pital. A essa Polícia ainda lhe compete divertir a classe das criadinhas paulistanas; e para seu lustre se diga que o faz com jornaleiro préstimo, em parques, cons truídos "ad hoc", tais como o parque de Dom Pedro Se gundo e o Jardim da Luz. E quando o numerário des sa Polícia avulta, são os seus homens enviados para as rechãs longínquas e menos férteis da pátria, para se rem devorados por súcias de gigantes antropófagos, que infestam a nossa geografia, na inglória tarefa de ruir por terra Governos honestos; e de pleno gosto e assentimento geral da população, como se descrimina das urnas e dos ágapes governamentais. Esses masorqueiros pegam nos polícias, assam-nos e comem-nos ao jeito alemão; e as ossadas caídas na terra maninha são exce lente adubo de futuros cafezais.

Assim tão bem organizados vivem e prosperam os Paulistas na mais perfeita ordem e progresso; e lhes não é escasso o tempo para construírem generosos hos pitais, atraindo para cá todos os leprosos sulamericanos, Mineiros, Paraibanos, Peruanos, Bolivianos, Chilenos, Paraguaios, que, antes de ir morarem nesses lindíssimos leprosários, e serem servidos por donas de duvidosa e decadente beldade — sempre donas! — animam as es tradas do Estado e as ruas da capital, em garridas co mitivas eqüestres ou em maratonas soberbas que são o orgulho de nossa raça desportiva, em cujo conspeito pul sa o sangue das heróicas bigas e quadrigas latinas! Porém, senhoras minhas! Inda tanto nos sobra, por este grandioso país, de doenças e insectos por cui dar! ... Tudo vai num descalabro sem comedimento, e estamos corroídos pelo morbo e pelos miriápodes! Em breve seremos novamente uma colônia da Inglaterra ou da América do Norte!... Por isso e para eterna lem brança destes Paulistas, que são a única gente útil do país, e por isso chamados de Locomotivas, nos demos ao trabalho de metrificarmos um dístico, em que se en cerram os segredos de tanta desgraça:

"POUCA SAÚDE E MUITA SAÚVA, OS MALES DO BRASIL SÃO."

Este dístico é que houvemos por bem escrevermos no livro de Visitantes Ilustres do Instituto Butantã, quando foi da nossa visita a esse estabelecimento famo

so na Europa.

Moram os Paulistanos em Palácios alterosos de cin qüenta, cem e mais andares, a que, nas épocas da procreação, invadem umas nuvens de mosquitos pernilongos, de vária espécie, muito ao gosto dos nativos, mor dendo os homens e as senhoras com tanta propriedade nos seus distintivos, que não precisam eles e elas das cáusticas urtigas para as massagens da excitação, tal como entre os selvícolas é de uso. Os pernilongos se encarregam dessa faina; e obram tais milagres que, nos bairros miseráveis, surge anualmente uma incontável multidão de rapazes e raparigas bulhentos, a que cha mamos 'italianinhos"; destinados a alimentarem as fá bricas dos áureos potentados, e a servirem, escravos, o descanso aromático dos Cresos.

Estes e outros multimilionários é que ergueram em torno da urbs as doze mil fábricas de seda, e no recesso dela os famosos Cafés maiores do mundo, todos de obra de talha em jacarandá folhado de oiro, com embutidos de salsas tartarugas.

E o Palácio do Governo é todo de oiro, à feição dos da Rainha do Adriático; e, em carruagens de prata, for radas de peles finíssimas, o Presidente, que mantém muitas esposas, passeia, ao cair das tardes, sorrindo com vagar.

De outras c muitas grandezas vos poderíamos ilus trar, senhoras Amazonas, não fora perlongar demasia do esta epístola; todavia, com afirmar-vos que esta é, por sem dúvida, a mais bela cidade terráquea, muito hemos feito em favor destes homens de prol. Mas cair-nos-iam as faces, si ocultáramos no silêncio, uma curio sidade original deste povo. Ora sabereis que a sua ri queza de expressão intelectual é tão prodigiosa, que falam numa língua e escrevem noutra. Assim chegado a estas plagas hospitalares, nos demos ao trabalho de bem nos inteirarmos da etnologia da terra, e dentre muita surpresa e assombro que se nos deparou, por cer to não foi das menores tal originalidade lingüística. Nas conversas utilizam-se os paulistanos dum linguajar bár baro e multifário, crasso de feição e impuro na vernaculidade, mas que não deixa de ter o seu sabor e força nas apóstrofes, e também nas vozes do brincar. Destas e daquelas nos inteiramos, solícito; e nos será grata em presa vo-las ensinarmos aí chegado. Mas si de tal des prezível língua se utilizam na conversação os naturais desta terra, logo que tomam da pena, se despojam de tanta asperidade, e surge o Homem Latino, de Lineu, exprimindo-se numa outra linguagem, mui próxima da vergiliana, no dizer dum panegirista, meigo idioma, que, com imperecível galhardia, se intitula: língua de Ca mões! De tal originalidade e riqueza vos há-de ser grato ter ciência, e mais ainda vos espantareis com saberdes, que à grande e quase total maioria, nem essas duas lín guas bastam, senão que se enriquecem do mais lídimo italiano, por mais musical e gracioso, e que por todos os recantos da urbs é versado. De tudo nos inteiramos satisfatoriamente, graças aos deuses; e muitas horas hemos ganho, discretando sobre o z do termo Brazil e a questão do pronome "se". Outrossim, hemos adquiri do muitos livros bilíngües, chamados "burros", e o di cionário Pequeno Larousse; e já estamos em condições de citarmos no original latino muitas frases célebres dos filósofos e os testículos da Bíblia.

Enfim, senhoras Amazonas, heis de saber ainda que a estes progressos e luzida civilização, hão elevado esta grande cidade os seus maiores, também chamados de políticos. Com este apelativo se designa uma raça refinadíssima de doutores, tão desconhecidos de vós, que os diríeis monstros. Monstros são na verdade mas na grandiosidade incomparável da audácia, da sapiência, da honestidade e da moral; e embora algo com os ho mens se pareçam, originam-se eles dos reais uirauaçus e muito pouco têm de humanos. Obedecem todos a um imperador, chamado Papai Grande na gíria familiar, e que demora na oceânica cidade do Rio de Janeiro — a mais bela do mundo, na opinião de todos os es trangeiros, e que por meus olhos verifiquei.

Finalmente, senhoras Amazonas e muito amadas súbditas, assaz hemos sofrido e curtido árduos e cons tantes pesares, depois que os deveres da nossa posição, nos apartaram do Império do Mato Virgem. Por cá tu do são delícias e venturas, porém nenhum gozo tere mos e nenhum descanso, enquanto não rehouvermos o perdido talismã. Hemos por bem repetir entretanto que as nossas relações com o doutor Venceslau são as milhores possíveis; que as negociações estão entaboladas e perfeitamente encaminhadas; e bem poderíeis enviar de antemão as alvíçaras que enunciamos atrás. Com pouco o vosso abstêmio Imperador se contenta; si não puderdes enviar duzentas igaras cheias de bagos de ca cau, mandai, cem, ou menos cinqüenta! Recebei a bênção do vosso Imperador e mais saúde e fraternidade. Acatai com respeito e obediência estas mal traçadas linhas; e, principalmente, não vos esque çais das alvíçaras e das polonesas, de que muito hemos mister.

Ci guarde a Vossas Excias.

Macunaíma, Imperator.

X PAUÍ-PÓDOLE

Venceslau Pietro Pietra ficara muito doente com a sova e estava todo envolvido em rama de algodão. Passou meses na rede. Macunaíma não podia nem dar passo pra conseguir a muiraquitã agora guardada den tro do caramujo por debaixo do corpo do gigante. Ima ginou botar formiga cupim no chinelo do outro porque isso traz morte, dizem, porém Piaimã tinha pé pra trás e não usava chinelo. Macunaíma estava muito contra riado com aquele chove-não-molha e passava o dia na rede mastigando beiju membeca entre codórios longos de restilo. Nesse tempo veio pedir pousada na pensão o índio Antônio, santo famoso com a companheira dele, Mãe de Deus. Foi visitar Macunaíma, fez discurso e ba

tizou o herói diante do deus que havia de vir e tinha forma nem bem de peixe nem bem de anta. Foi assim que Macunaíma entrou pra religião Caraimonhaga que estava fazendo furor no sertão da Bahia.

Macunaíma aproveitava a espera se aperfeiçoando nas duas línguas da terra, o brasileiro falado e o por tuguês escrito. Já sabia nome de tudo. Uma feita era dia da Flor, festa inventada prós Brasileiros serem ca ridosos e tinha tantos mosquitos carapanãs que Ma cunaíma largou do estudo e foi na cidade refrescar as idéias. Foi e viu um despropósito de coisas. Parava em cada vitrina e examinava dentro dela aquela porção de monstros, tantos que até parecia a serra do Ererê onde tudo se refugiou quando a enchente grande inundou o mundo. Macunaíma passeava passeava e encontrou uma cunhatã com uma urupema carregadinha de ro sas. A mocica fez ele parar e botou uma flor na lapela dele, falando: — Custa milréis.

Macunaíma ficou muito contrariado porque não sabia como era o nome daquele buraco da máquina roupa onde a cunhatã enfiara a flor. E o buraco chama va botoeira. Imaginou escarafunchando na memória bem, mas nunca não ouvira mesmo o nome daquele buraco. Quis chamar aquilo de buraco porém viu logo que confundia com os outros buracos deste mundo e ficou com vergonha da cunhatã. "Orifício" era palavra que a gente escrevia mas porém nunca ninguém não falava "orifício" não. Depois de pensamentear pensamentear não havia meios mesmo de descobrir o nome daquilo e pôs reparo que da rua Direita onde topara com a cunhatã já tinha ido parar adiante de São Ber nardo, passada a moradia de mestre Cosme. Então vol tou, pagou pra moça e falou de venta-inchada: — A senhora me arrumou com um dia-de-judeu! Nunca mais me bote flor neste... neste puíto, dona! Macunaíma era desbocado duma vez. Falara uma bocagem muito porca, muito! A cunhatã não sabia que puíto era palavra-feia não e enquanto o herói voltava aluado com o caso pra pensão, ficou se rindo, achando graça na palavra. "Puíto..." que ela dizia. E repetia gozado: "Puíto... Puíto"... Imaginou que era moda. Então se pôs falando pra toda a gente si queriam que ela botasse uma rosa no puíto deles. Uns quiseram ou tros não quiseram, as outras cunhatãs escutaram a pa lavra, a empregaram e "puíto" pegou. Ninguém mais não falava em boutonnière por exemplo; só puíto, puíto se escutava.

Macunaíma ficou de azeite uma semana, sem co mer sem brincar sem dormir só porque desejava saber as línguas da terra. Lembrava de perguntar prós ou tros como era o nome daquele buraco mais tinha ver gonha de irem pensar que ele era ignorante e moita. • Afinal chegou o domingo pé-de-cachimbo que era dia do Cruzeiro, feriado novo inventado prós Brasileiros descansarem mais. De manhã teve parada na Mooca, ao meio-dia missa campal no Coração de Jesus, às dezes sete corso e batalha de confetes na avenida Rangel Pes tana e de-noite, depois da passeata dos deputados e desocupados pela rua Quinze, ia queimar um fogo-de-artifício no Ipiranga. Então pra espairecer Macunaí ma foi no parque ver os fogos.

Nem bem saiu da pensão topou com uma cunha clara, louríssima, filhinha-da-mandioca bem, toda de branco e o chapéu de tucumã vermelho coberto de margaridinhas. Chamava Fráulein e sempre carecia de pro teção. Foram juntos e chegaram lá. O parque estava uma boniteza. Tinha tantas máquinas repuxos mistu radas com a máquina luz elétrica que a gente se en costava um no outro no escuro e as mãos se agarra vam pra agüentar a admiração. Assim a dona fez e Macunaíma sussurrou docemente: — Mani... filhinha da mandioca!...

Pois então a alemãzinha chorando comovida, se vi rou e perguntou pra ele si deixava ela afincar aquela margarida no puíto dele. Primeiro o herói ficou muito assarapantado, muito! e quis zangar porém depois li gou os fatos e percebeu que fora muito inteligente. Ma cunaíma deu uma grande gargalhada.

Mas o caso é que "puíto" já entrara pras revistas estudando com muita ciência os idiomas escrito e falado e já estava mais que assente que pelas leis de catalepse elipse síncope mentonímia metafonia metátese próclise prótese aférese apócope haplologia etimologia popular todas essas leis, a palavra "botoeira" viera a dar em "puíto", por meio duma palavra intermediária, a voz latina "rabanitius" (botoeira-rabanitius-puíto), sendo que rabanitius embora não encontrada nos documentos medievais, afirmaram os doutos que na certa existira e fora corrente no sermo vulgaris.

Nesse momento um mulato da maior mulataria tre pou numa estátua e principiou um discurso entusias mado explicando pra Macunaíma o que era o dia do Cruzeiro. No céu escampado da noite não tinha uma nuvem nem Capei. A gente enxergava os conhecidos, os pais-das-árvores os pais-das-aves os pais-das-caças e o parentes manos pais mães tias cunhadas cunhas cunhatãs, todas essas estrelas piscapiscando bem felizes nessa terra sem mal, adonde havia muita saúde e pouca saúva, o firmamento lá. Macunaíma escutava muito agradecido, concordando com a fala comprida que o discursador fazia pra ele. Só depois do homem apontar muito e descrever muito é que Macunaíma pôs reparo que o tal de Cruzeiro era mas eram aquelas quatro es trelas que ele sabia muito bem serem o Pai de Mutum morando no campo do céu. Teve raiva da mentira do mulato e berrou: — Não é não! — ... Meus senhores, que o outro discursava aquelas quatro estrelas rutilantes como lágrimas arden tes, no dizer do sublime poeta, são o sacrossanto e tra dicional Cruzeiro que...

— Não é não! — Psiu! — ... o símbolo mais...

— Não é não! — Apoiados! — Fora! — Psiu!... Psiu!...

— ... mais su-sublime e maravilhoso da nossa amarmada pátria é aquele misterioso Cruzeiro lucilante que...

— Não é não! — ... ve-vedes com...

— Nan sculhàmba! — ... suas... qua... tro claras lantejoulas de prat...

— Não é não! — Não é não! que outros gritavam também. Com tanta bulha afinal o mulato entrupigaitou e todos os presentes animados pelo "Não é não!" do he rói estavam com muita vontade de fazer um chinfrim. Porém Macunaíma tremia tão tiririca que nem perce beu. Pulou em riba da estátua e principiou contando a história do Pai do Mutum. E era assim: — Não é não! Meus senhores e minhas senhoras! Aquelas quatro estrelas lá é o Pai do Mutum! juro que é o Pai do Mutum, minha gente, que pára no campo vasto do céu!... Isso foi no tempo em que os animais já não eram mais homens e sucedeu no grande mato Fulano. Era uma vez dois cunhados que moravam mui to longe um do outro. Um chamava Camã-Pabinque e era catimbozeiro. Uma feita o cunhado de Camã-Pabin que entrou no mato por amor de caçar um bocado. Es tava fazendo e topou com Pauí-Pódole e seu compadre o vaga-lume Camaiuá. E Pauí-Pódole era o Pai do Mu tum. Estava trepado no galho alto da acapu, descan sando. Vai, o cunhado do feiticeiro voltou pra maloca e falou pra companheira dele que tinha topado com Pauí-Pódole e seu compadre Camaiuá. E o Pai do Mutum com seu compadre num tempo muito de dantes já foram gente que nem nós. O homem falou mais que bem que tinha querido matar Pauí-Pódole com a sarabatana porém não alcançara o poleiro alto do Pai do Mutum na acapu. E então pegou na frecha de pracuuba com ponta de taboca e foi pescar carataís. Logo Camã-Pabinque chegou na maloca do cunhado e falou: — Mana, o que foi que vosso companheiro falou pra você? Então a mana contou tudo pro feiticeiro e que Pauí-Pódole estava empoleirado na acapu com seu com padre o vaga-lume Camaiuá. No outro dia manhãzinha Camã-Pabinque saiu do papiri dele e achou Pauí-Pódole piando na acapu. Então o catimbozeiro virou na tocandeira Ilague e foi subindo pelo pau mas o Pai do Mutum enxergou a formigona e soprou um pio forte. Bateu um ventarão tamanho que o feiticeiro despencou do pau, caindo nas capituvas da serrapilheira. Então virou na tacuri Opalá menorzinha e foi subindo outra vez, porém Pauí-Pódole tornou a enxergar a formiga. Soprou e veio um ventinho brisando que sacudiu Opalá nas trapoerabas da serrapilheira. Então Camã-Pabin que virou na lavapés chamada Megue, pequetitinha, su biu na acapu, ferrou o Pai do Mutum bem no furinho do nariz, enrolou o corpico e trazendo o não-se-diz entre os ferrões, juque! esguichou ácido-fórmico aí. Chi! mi nha gente! Isso Pauí-Pódole abriu um vôo esparra mado com a dor e espirrou Megue longe! O feiticeiro nem não pôde sair mais do corpo de Megue, do susto que pegou. E ficou mais essa praga da formiguinha la vapés pra nós... Gente!.

"Pouca saúde e muita saúva, Os males do Brasil são!"

já falei... No outro dia Pauí-Pódole quis ir morar no céu pra não padecer mais com as formigas da nossa terra, fez. Pediu, pro compadre vaga-lume alumiar o ca minho na frente com as lanterninhas verdes bem ace sas. O vaga-lume Cunavá sobrinho do outro foi na fren te alumiando caminho pra Camaiuá e pediu pro mano que fosse na frente alumiando pra ele também. O man0 pediu pro pai, o pai pediu pra mãe, a mãe pediu pra toda a geração, o chefe-de-polícia e o inspetor do quarteirão e muitos muitos, uma nuvem de valumes foram alumiando caminho uns prós outros. Fizeram, gostaram de lá e sempre uns atrás dos outros nunca mais voltaram do campo vasto do céu. É aquele ca

minho de luz que daqui se enxerga atravessando o espaço. Pauí-Pódole então avoou pro céu e ficou lá. Minha gente! aquelas quatro estrelas não é Cruzeiro, que Cruzeiro nada! É o Pai do Mutum! É o Pai do Mutum, minha gente! É o Pai do Mutum, Pauí-Pódole que pára no campo vasto do Céu!... Tem mais não".

Macunaíma parou fatigado. Então se ergueu do povaréu um murmurejo longo de felicidade fazendo relumear mais ainda as gentes, os pais-dos-pássaros os pais-dos-peixes os pais-dos-insetos os pais-das-árvores, todos esses conhecidos que param no campo do céu. E era imenso o contentamento daquela paulistanada man dando olhos de assombro pras gentes, pra todos esses pais dos vivos brilhando morando no céu. E todos esses assombros de-primeiro foram gente depois foram os as sombros misteriosos que fizeram nascer todos os seres vivos. E agora são as estrelinhas do céu.

O povo se retirou comovido, feliz no coração cheio de explicações e cheio das estrelas vivas. Ninguém não se amolava mais nem com dia do Cruzeiro nem com as máquinas repuxos misturadas com a máquina luz elé trica. Foram pra casa botar pelego por debaixo do len çol porque por terem brincado com fogo aquela noite, na certa que iam mijar na cama. Foram todos dormir. E a escuridão se fez.

Macunaíma parado em riba da estátua ficara so zinho ali. Também estava comovido. Olhou pra altura. Que Cruzeiro nada! Era Pauí-Pódole se percebia bem daqui... E Pauí-Pódole estava rindo pra ele, agradecendo. De repente piou comprido parecendo trem-de-ferro. Não era trem era piado e o sopro apagou todas as luzes do parque. Então o Pai do Mutum mexeu uma asa mansamente se despedindo do herói. Macunaíma ia agradecer, porém o pássaro erguendo a poeira da neblina largou numa carreira esparramando pelo campo vasto do céu.

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