NO outro dia Macunaíma amanheceu com muita tosse e uma febrinha sem parada. Maanape desconfiou e foi fazer um cozimento de broto de abacate, imagi nando que o herói estava hético. Em vez era impalu dismo, e a tosse viera só por causa da laringite que toda a gente carrega de São Paulo. Agora Macunaíma passava as horas deitado de borco na proa da igarité e nunca mais que havia de sarar. Quando a princesa não podia mais e vinha pra brincarem, o herói até uma vez recusou suspirando: — Ara... que preguiça...
No outro dia atingiram as cabeceiras dum rio e escutaram perto o ruidejar do Uraricoera. Era ali. Um passarinho serigaita trepado na munguba, enxergando o farrancho gritou logo: — Sinhá dona do porto, dá caminho pra mim passar! Macunaíma agradeceu feliz. De pé ele assuntava a paisagem passando. Veio vindo o forte São Joaquim erguido pelo mano do grande Marquês. Macunaíma deu um té-logo pro cabo e pro soldado que só possuíam um naco esfarrapado de culote e o boné na cabeça e viviam guardando as saúvas dos canhões. Afinal ficou tudo conhecidíssimo. Se enxergou o cerro manso que fora mãe um dia, no lugar chamado Pai da Tocandeira, se enxergou o pauê trapacento malhado de vitórias-régias escondendo os puraquês e os pitiús e pra diante do be bedouro da anta se viu o roçado velho agora uma tigüera e a maloca velha agora uma tapera. Macunaíma chorou.
Abicaram e entraram na tapera. Vinha a bôca-da-noite. Maanape com Jiguê resolveram fazer uma facheada pra pegarem algum peixe e a princesa foi ver si topava com algum arezi pra comerem. O herói ficou descansando. Estava assim quando sentiu no ombro um peso de mão. Virou a cara e olhou. Junto dele estava um velho de barba. O velho falou: — Quem és tu, nobre estrangeiro? — Não sou estranho não, conhecido. Sou Macunaíma o herói e vim parar de novo na terra dos meus. Você quem é? O velho afastou os mosquitos com amargura e secundou: — Sou João Ramalho.
Então João Ramalho enfiou dois dedos na boca e assoviou. Apareceram a mulher dele as quinze famí lias de escadinha. E lá partiram de mudança buscando pagos novos sem ninguém.
No outro dia bem cedinho foram todos trabucar. A princesa foi no roçado Maanape foi no mato e Jiguê foi no rio. Macunaíma se desculpou, subiu na montaria e deu uma chegadinha até a boca do rio Negro pra buscar a consciência deixada na ilha de Marapatá. Jacaré achou? nem ele. Então o herói pegou na cons ciência dum hispanoamericano, botou na cabeça e se deu bem da mesma forma.
Passava uma piracema de jaraquis. Macunaíma agarrou pescando e distraído distraído quando viu es tava em Óbidos, a montaria cheinha de peixes frescos. Mas o herói foi obrigado a atirar tudo fora porque em Óbidos "quem come j ar aqui fica aqui" falam e ele ti nha que voltar pro Uraricoera. Voltou e como era ainda o pino do dia deitou na sombra da ingazeira catou os carrapatos e dormiu. Tarde chegando todos voltaram pra tapera só Macunaíma não. Os outros saíram pra esperar. Jiguê se acocorou botando a orelha no chão pra ver si escutava o passinho do herói, nada. Maanape trepou no grelo duma inajá pra ver si enxer gava o brilho dos brincos do herói, nada. Então saíram por mato e capoeira gritando: — Macunaíma, nosso mano!...
Nada. Jiguê chegou debaixo da ingazeira e gritou: — Nosso mano! — Que foi! — Você, aposto que já estava dormindo! — Dormindo nada, então! Estava mas era nega ceando um inambu-guaçu. Você fez bulha, nhambu escapoliu! Voltaram. E assim todos os dias. Os manos an davam muito desconfiados. Macunaíma percebeu e disfarçou bem: — Eu caço porém não acho nada não. Jiguê nem caça nem pesca, passa o dia dormindo.
Jiguê teve raiva porque peixe andava rareando e caça inda mais. Foi na praia do rio pra ver si pescava alguma coisa e topou com o feiticeiro Tzaló que tem uma perna só. O catimbozeiro possuía uma cabaça encantada feita com a metade duma casca de gerimum. Mergulhou a cabaça no rio, encheu de água até o meio e despejou na praia. Caiu um despropósito de peixe. Jiguê reparou bem como que o feiticeiro fazia. Tzaló largou da cabaça por aí e principiou matando peixe com um porrete. Então Jiguê roubou a cabaça do fei ticeiro Tzaló que tem uma perna só.
Mais pra diante fez que-nem tinha reparado e veio muito peixe, veio pirandira veio pacu veio cascudo veio bagre jundiá tucunaré, todos esses peixes e Jiguê vol tou carregado pra tapera depois de esconder a cabaça na raiz do cipó. Todos ficaram sarapantados com aquele mundo de peixe e comeram bem. Macunaíma desconfiou.
No outro dia esperou com o olho esquerdo dor mindo que Jiguê fosse pescar, saiu atrás. Descobriu tudo. Quando o mano foi-se embora Macunaíma lar gou da gaiola com os legornes no chão pegou na cabaça escondida e fez que-nem o mano. Isso vieram muitos peixes, veio acará veio piracanjuba veio aviú guri-juba, piramutaba mandi surubim, todos esses peixes. Macunaíma atirou a cabaça por aí, na pressa de matar todos os peixes, cabaça caiu numa lapa e juque! mer gulhou no rio. Passava a pirandira chamada Padzá. Imaginou que era abobra e engoliu a cabaça que virou na beixiga de Padzá. Então Macunaíma enfiou a gaiola no braço voltou pra tapera e contou o sucedido. Jiguê teve raiva.
— Cunhada princesa, eu que pesco, seu compa nheiro fica dormindo em baixo da ingazeira e inda atra palha os outros! — Mentira! — Então o que você fez hoje? — Cacei viado.
— Quê-dele ele! — Comi, uai! Fui andando por um caminho, vai, topei rasto dum... catingueiro não era não mas era mateiro. Me agachei e fui no rasto. Olhando olhando, sabe, dei uma cabeçada numa coisa mole, que engra çado! sabem o que era! pois a bunda do viado, gente! (Macunaíma deu uma grande gargalhada). Viado per guntou pra mim: — Que está fazendo aí, parente!, — Te campeando! secundei. E vai, matei o catingueiro que comi com tripa e tudo. Vinha trazendo um naco pra vocês, vai, escorreguei atravessando o ipu, dei um tombo, naco foi parar longe e tanajura sujou nele.
A peta era tamanha que Maanape desconfiou. Maanape era feiticeiro. Chegou bem rente do mano e perguntou: — Você foi na caça? — Quer dizer... fui sim.
— O quê você caçou? — Viado.
— Qual! Maanape fez um grande gesto. O herói piscou de medo e confessou que tudo era lorota.
No outro dia Jiguê estava procurando a cabaça quando topou com o tatu-canastra feiticeiro chamado Caicãe que nunca teve mãe. Caicãe sentado na porta da toca puxou a violinha dele feita com a outra metade da abobra encantada e agarrou cantando assim:
"Vote vote coandu! Vote vote cuati! Vote vote taiçu! Vote vote pacari! Vote vote canguçu! Êh!..."
Assim. Vieram muitas caças. Jiguê, reparando. Caicãe atirou a violinha encantada por aí, pegou num porrete e foi matar todo aquele poder de caças que esta vam feito bobas. Então Jiguê roubou a violinha do feiticeiro Caicãe que nunca teve mãe.
Mais pra diante cantou que nem tinha escutado e veio um dilúvio de caça parando na frente dele. Jiguê voltou carregado pra tapera depois de esconder a violi nha na raiz de outro cipó. Todos tornaram a se espan tar e comeram bem. Macunaíma tornou a desconfiar.
No outro dia esperou com o olho esquerdo dor mindo que Jiguê partisse, foi atrás. Descobriu tudo. Quando o mano voltou pra tapera Macunaíma pegou na violinha, fez talequal reparara e veio uma imundície de caça, viados cotias tamanduás capivaras tatus aperemas pacas graxains lontras muçuãs catetos monos tejus queixadas antas, a anta sabatira, onças, a onça pinima a papa-viado a jaguatirica, suçuarana canguçu pixuna, isso era uma imundície de caças! O herói teve medo daquela bicharada tamanha e saiu numa carreira mãe pinchando a violinha longe. A gaiola enfiada no braço dele ia batendo nos paus e o galo com a galinha faziam um cacarejo de ensurdecer. O herói imaginava que era a bicharia e disparava mais.
A violinha caiu no dente de um queixada que tinha umbigo nas costas e se partiu em dez vezes dez pedaços que os bichos engoliram pensando que era gerimum. Os pedaços viraram nas bexigas das caças.
O herói estourou tapera a dentro feito um desespe rado botando os bofes pela boca. Nem bem pôde res pirar contou o sucedido. Jiguê teve ódio e falou: — Agora que não caço nem pesco mais! E foi dormir. Todos principiaram curtindo fome. Bem que pediam porém Jiguê pulava na rede e fechava os olhos. O herói jurou vingança. Fingiu um anzol com presa de sucuri e falou pro feitiço: — Anzol de mentira, si mano Jiguê vier experi mentar você, então entra na mão dele.
Jiguê não podia dormir de tanta fome e enxer gando o anzol falou pro mano: — Mano, esse anzol é bom? — Xispeteó! Macunaíma fez e continuou lim pando a gaiola.
Jiguê decidiu ir numa pescaria porque estava mes mo curtindo fome, falou: — Deixa ver si anzol é bom.
Pegou no feitiço e experimentou na palma da mão. O dente de sucuri entrou na pele e despejou todo o veneno lá. Jiguê correu pro matinho e bem que mastigou e engoliu maniveira, não vale de nada. Então foi bus car uma cabeça de anhuma que fora encostada em pi cada de cobra. Pôs na mão. Não valeu de nada. Ve neno virou numa ferida leprosa e principiou comendo Jiguê. Primeiro comeu um braço depois metade do corpo depois as pernas depois a outra metade do corpo depois o outro braço depois o pescoço e a cabeça. Só ficou a sombra de Jiguê.
A princesa teve ódio. É que ela andava ultima mente brincando com Jiguê. Macunaíma bem que per cebeu porém imaginou: "Plantei mandioca nasceu maniva, de ladrão de casa ninguém se priva, paciên cia! ..." E tinha encolhido os ombros. A princesa raivosa falou pra sombra: — Quando o herói for passear de fome você vira num cajueiro numa bananeira e num churrasco de viado.
A sombra era envenenada por causa da lepra e a princesa queria matar Macunaíma.
No outro dia o herói acordou com tanta fome que foi espairecer passeando. Topou com um cajueiro cheio de frutas. Quis comer porém presenciou que era a sombra leprosa e passou adiante. Légua e meia depois topou com um churrasco de viado fumegando. Já estava roxo de fome porém pôs reparo que o chur rasco era a sombra leprosa e passou adiante. Légua e meia depois topou com uma bananeira carregadinha de pencas maduras. Mas agora o herói já estava que vinha vesgo de tanta fome. A vesgueira fez ele enxergar dum lado a sombra do mano e do outro a bananeira.
— Arre que posso comer! fez.
E devorou todas as pencas. E as bananas eram a sombra leprosa do mano Jiguê. Macunaíma ia morrer. Então se lembrou de passar a doença nos outros pra não morrer sozinho. Pegou numa formiga saúva e es fregou bem ela na ferida do nariz, formiga já foi gente que nem nós e a saúva ficou leprosa. Então o herói agarrou a formiga jaguataci e fez o mesmo. Jaguataci ficou leprosa também. Então foi a vez da formiga aqueque devoradora de sementes e da formiga guiquém, da formiga tracuá e da formiga mumbuca bem preta, todas ficaram leprosas. Não tinha mais formigas em redor do herói sentado. Ele ficou com preguiça de es tender o braço porque já estava moribundo. Esperou a visita da saúde, criou força e pegou no mosquito birigüi mordendo o joelho dele. Passou a doença no mosquito birigüi. Por isso que agora quando esse mosquito morde a gente, entra na pele, atravessa o corpo e sai do outro lado enquanto o furinho de entrada vira na bereva medonha chamada chaga-de-Bauru.
Macunaíma tinha passado a lepra em sete outras gentes e ficou são no sufragante, voltando pra tapera. A sombra de Jiguê conferiu que o herói era muito inte ligente e quis voltar desesperada pra junto da família. Era já de-noite e se confundindo com a escureza a som bra não achava mais o caminho perto. Sentou numa pedra e berrou: — Foguinho, cunhada princesa! A princesa coxeando muito porque estava doente de zamparina veio com um tição aluminando caminho. A sombra engoliu o fogo e a cunhada. Berrou de novo: — Foguinho, mano Maanape! Maanape veio logo com outro tição alumiando ca minho. E se arrastava molengo porque barbeiro chu para sangue dele e Maanape estava opilado. A som bra engoliu fogo e mano Maanape. Berrou: — Foguinho, mano Macunaíma! Queria engolir o herói também mas Macunaíma percebendo o que sucedera pro mano e pra companheira encostou a porta e ficou bem quieto na tapera. A som bra pedia foguinho, pedia porém não recebendo res posta se lastimou até madrugada". Então Capei apare ceu iluminando a terra e a leprosa pôde chegar na tapera. Sentou na cangerana da soleira e esperou o dia pra se vingar do mano.
De-manhã inda estava acocorada ali. Macunaíma acordou e escutou. Não se ouvia nada e ele concluiu: — Arre! Foi-se! E saiu passear. Quando passou pela porta a sombra trepou no ombro dele. O herói não maliciou nada. Estava padecendo de fome porém a sombra não. deixava ele comer. Tudo o que Macunaíma pegava ela engolia, tamorita mangarito inhame biribá cajuí guiambê guacá uxi ingá bacuri cupuaçu pupunha tape-rebá graviola grumixama, todas essas comidas do mato. Então Macunaíma foi pescar porque agora não tinha mais ninguém que pescasse pra ele não. Mas cada peixe que tirava do anzol e jogava no paneiro, a som bra pulava do ombro, engolia o peixe e voltava pro poleiro outra vez. O herói matutou: "Deixa estar que te arranjo!" Quando peixe pegou, Macunaíma fez um esforço heróico, deu um bruto arranco na vara de for mas que o impulso fez o peixe ir parar lá na Guiana. A sombra correu atrás do peixe. Então Macunaíma gavionou mato fora no sentido oposto. Quando a sombra voltou, não achando mais o mano disparou no rasto dele. Depois de correr um pouco, atravessar a terra dos índios tatus-brancos e pegar um susto tama nho que passou sem pedir licença entre a sombra de Jorge Velho e a sombra do Zumbi que estavam dis cutindo, o herói fatigadíssimo, olhou pra trás e viu que a sombra já vinha chegando. Estava na Paraíba e tão sem vontade de chispar que parou. Era por causa do herói estar impaludado. Perto havia uns trabalhadores destruindo formigueiros para construir um açude. Macunaíma pediu água pra eles. Não tinha nem gota porém deram raiz de umbu. O herói matou a sede dos legornes, agradeceu e gritou: Diabo leve quem trabalha! Os trabalhadores estumaram a cachorrada no he rói. Isso mesmo que ele queria porque teve medo e chispou bem. Na frente abria a estrada das boiadas. Macunaíma isso vinha que vinha acochado pela som bra, nem turtuveou: meteu pelo estradão. Mais adiante estava dormindo um boi malabar chamado Espácio que viera do Piauí. O herói deu um trompaço nele de tanta fúria. Isso o boi saiu numa galopada louca de susto e lá foi cego manadeiro abaixo. Então Macunaíma que brou por uma picada sem jeito e se amoitou por de baixo dum mucumuco. A sombra escutava a bulha do marruá galopeando e imaginou que era Macunaíma, foi atrás. Alcançou o boi e pra não perder a pernada fez poleiro no costado dele. E cantava satisfeita: "Meu boi bonito, Boi Alegria, Dá um adeus Pra toda a família!
ôh... êh bumba, Folga meu boi! Ôh... êh bumba, Folga meu boi!"
Porém nunca mais que o boi pôde comer, a sombra engolia tudo antes do bicho. Então o marruá foi fican do jururu ficando jururu magruço e lerdo. Quando passou pelo rincão chamado Água Doce perto de Guarapes, o boi mirou sarapantado bem no meio do areão a vista linda, um laranjal cheio de sombra com a ga linha ciscando por baixo. Era sinal de morte... A sombra desenganada cantava agora: "Meu boi bonito, Boi desengano, Dá um adeus, Até para o ano!
- ôh.-.. êh bumba, Folga meu boi!" ôh... êh bumba, Folga meu boi!
No outro dia o marruá estava morto. Foi esverdeando esverdeando... A sombra muito penarosa se consolava cantando assim:
"O meu boi morreu, Quê será de mim? Manda buscar outro, — Maninha, Lá no Bom Jardim..."
E o Bom Jardim era uma estância do Rio Grande do Sul. Então veio vindo uma giganta que gostava de brincar com o marruá. Viu o boi morto,-chorou bem e quis levar o cadáver pra ela.
A sombra teve raiva e cantou:
"Arretira-te, giganta, Que o caso está perigoso! Quem se arretirou amante az ação de generoso!"
A giganta agradeceu e foi-se embora dançando. Então passou por ali o indivíduo chamado Manuel da Lapa carregado de folha de cajueiro e de rama de al godão. A sombra saudou o conhecido: "Seu Manué que vem do Açu, Seu Manué que vem do Açu, Vem carregadinho de folha de caju!
Seu Manué que vem do sertão, Seu Manué que vem do sertão, Vem carregadinho de rama de algodão!"
Manuel da Lapa ficou muito concho com a sauda ção e pra agradecer dançou um sapateado e cobriu o cadáver com a folha de caju e a rama de algodão.
O velho já estava tirando a noite do buraco e a sombra toda confundida não via mais o boi debaixo dos flocos e da folhagem. Principiou dançando à procura dele. Um vaga-lume se admirou daquilo e cantou per guntando:
"Linda pastorinha Que fazeis aqui?"
"Vim buscar meu gado, Maninha, Que eu aqui perdi".
Foi como a sombra secundou cantando. Então o vaga-lume dançando voou do tronco pra baixo e mos trou o boi pra sombra. Ela trepou na barriga verde do morto e ficou chorando ali.
No outro dia o boi estava podre. Então vieram muitos urubus, veio o urubu-camiranga, veio o urubu-jeregua o urubu-peba o urubu-ministro o urubu-tinga que só come olhos e língua, todos esses cabeças-peladas e principiaram dançando de contentes. O mai& grande puxava a dança cantando: "Urubu é passo feio feio feio! Urubu é passo limpo limpo limpo"!
E era o urubu-ruxama, urubu-rei, o Pai do Urubu. Então mandou um urubuzinho piá entrar dentro do boi para ver si já estava bem podre. O urubuzinho fez. En trou por uma porta e saiu por outra dizendo que sim e todos fizeram a festa juntos dançando e cantando: "Meu boi bonito, Boi Zebedeu, Corvo avoando, Boi que morreu.
Ôh... êh bumba, Folga meu boi! Ôh... êh bumba, Folga meu boi!"
E foi assim que inventaram a festa famanada do Bumba-meu-Boi, também conhecida por Boi-Bumbá.
A sombra teve raiva de estarem comendo o boi dela e pulou no ombro do urubu-ruxama. O Pai do Urubu ficou muito satisfeito e gritou: — Achei companhia pra minha cabeça, gente! E vou pra altura. Desde esse dia o urubu-ruxama que é o Pai do Urubu possui duas cabeças. A som bra leprosa é a cabeça da esquerda. De primeiro o urubu-rei tinha só uma cabeça.
Macunaíma se arrastou até a tapera sem gente agora. Estava muito contrariado porque não com preendia o silêncio. Ficara defunto sem choro, no aban dono completo. Os manos tinham ido-se embora trans formados na cabeça esquerda do urubu-ruxama e nem siquer a gente encontrava cunhas por ali. O silêncio principiava cochilando a beira-rio do Uraricoera. Que enfaro! E principalmente, ah!... que preguiça!...
Macunaíma foi obrigado a abandonar a tapera cuja última parede trançada com palha de catolé estava caindo. Mas o impaludismo não lhe dava coragem nem pra construir um papiri. Trouxera a rede pro alto dum teso onde tinha uma pedra com dinheiro enterrado por debaixo. Amarrou a rede nos dois cajueiros frondejando e não saiu mais dela por muitos dias dormindo caceteado e comendo cajus. Que solidão! O próprio séquito sarapintado se dissolvera. Não vê que um ajuru-catinga passara muito afobado por ali. Os papa gaios perguntaram pro parente onde que ia.
— Madurou milho na terra dos Ingleses, vou pra lá! Então todos os papagaios foram comer milho na terra dos Ingleses. Porém primeiro viraram periquitos porque assim, comiam e os periquitos levavam a fama. Só ficara um aruaí muito falador. Macunaíma se con solou pensamenteando: "O mal ganhado, diabo leva... paciência". Passava os dias enfarado e se distraía fa zendo o pássaro repetir na fala da tribo os casos que tinham sucedido pro herói desde infância. Aaah ... Macunaíma bocejava escorrendo caju, muito mole na rede, com as mãos pra trás fazendo cabeceiro, o casal de legornes empoleirado nos pés e o papagaio na bar riga. Vinha a noite. Aromado pelas frutas do cajuei ro o herói ferrava no sono bem. Quando a arraiada vinha o papagaio tirava o bico da asa e tomava o café da manhã devorando as aranhas que de-noite fiavam as teias dos ramos pro corpo do herói. Depois falava: — Macunaíma! O dorminhoco nem se mexia.
— Macunaíma! ôh Macunaíma! — Deixa a gente dormir, aruaí...
— Acorda, herói! É de-dia! — Ah... que preguiça!.. .
— Pouca saúde e muita saúva, Os males do Brasil são!...
Macunaíma dava uma grande gargalhada e cocava a cabeça cheia de pixilinga que é piolho-de-galinha. Então o papagaio repetia o caso aprendido na véspera e Macunaíma se orgulhava de tantas glórias passadas. Dava entusiasmo nele e se punha contado pro aruaí outro caso mais pançudo. E assim todos os dias.
Quando a Papaceia que é a estrela Vésper apa recia falando pras coisas irem dormir, o papagaio zan gava por causa da história parando no meio. Uma feita ele insultou a estrela Papaceia. Então Macunaíma contou: — "Não insulta ela não, aruaí! Taína-Cã é bom. Taína-Cã que é a estrela Papaceia tem pena da Terra e manda Emoron-Pódole dar o sossego do sono deste mundo pra todas essas coisas que podem ter sossego porque não possuem pensamento que nem nós. Taína-Cã é indivíduo também... Relumeava lá no campo vasto do céu e a filha mais velha do morubixaba Zo zoiaça da tribo carajá, solteirona chamada Imaerô fa lou assim: — Pai, Taína-Cã relumeia tão bonito que eu quero me amulherar com ele.
Zozoiaça riu bem por causa que não podia dar Taína-Cã de casamento pra filha velha não. Vai, de-noite veio descendo o rio uma piroga de prata, um remeiro saltou dela, bateu no poial e falou pra Imaerô: — Eu sou Taína-Cã. Escutei vosso pedido e vim numa piroga de prata. Casa comigo por favor? — Sim, ela fez contentíssima.
Deu a rede pro noivo e foi dormir com a mana mais nova se chamando Denaquê.
No outro dia quando Taína-Cã pulou da rede to dos se sarapantaram. Era uma coroca enrugado enru gado, tremelicando tanto feito a luz da estrela Papa ceia. Vai, Imaerô falou: — Cai fora, coroca! Vê lá si vou casar com velho! Pra mim há-de ser um moço mui brabo mucudo e de nação carajá! Taína-Cã ficou jururu jururu e principiou imagi nando na injustiça dos homens. Porém a filha mais nova do morubixaba Zozoiaça teve pena do coroca e falou: — Eu caso com você...
Taína-Cã brilhou de gozo. Ficaram ajustados. Denaquê preparando o enxoval cantava noite e dia: — Amanhã por estas horas, furrum-fum-fum... Zozoiaça respondia: — Eu também com vossa mãe, furrum-fum-fum ...
Depois que se acabaram os dedos das vossas mãos, papagaio, que são de espera pra noivo, na rede trança da por Denaquê se brincou dança de amor, furrum-fum-fum.
Nem bem o dia estava rompendo a barra, Taína-Cã pulou da rede e falou pra companheira: — Vou derrubar mato pra fazer roçado. Agora você fica no mocambo e nunca não vai na roça me espiar.
— Sim, ela fez.
E ficou na rede, matutando gozada naquele velhi nho esquisito que dera pra ela a noite mais gostosa de amor que a gente imagina.
Taína-Cã derrubou mato, botou fogo em todos os macurus de formiga e preparou a terra. Naquele tem po inda a nação carajá não conhecia as plantas boas. Era só peixe e bicho que carajá engolia.
Na outra madrugada Taína-Cã falou pra compa nheira que ia buscar sementes pra semear e repetiu a proibição. Denaquê ficou deitada na rede inda um bo cado, matutando nas gostosuras valentes das noites de amor que o bom do coroca dava pra ela. E foi fiar.
Taína-Cã deu uma chegadinha no céu, foi até o corgo Berô, fez oração e botando uma perna em cada barreira do corgo esperou assuntando a água. Daí a pouco vieram vindo no pêlo da agüinha as sementes do milho cururuca, o fumo, a maniveira, todas essas plan tas boas. Taína-Cã apanhou o que passava, desceu do céu e foi no roçado plantar. Estava trabucando na Sol quando Denaquê apareceu. Era por causa que ela de sodosa quis ver o companheiro dando gostosuras tão valentes pra ela nas noites de amor. Denaquê deu um grito de alegria. Taína-Cã* não era coroca não! Taína-Cã era mas um rapaz muito brabo mucudo e de nação carajá. Fizeram um macio de fumo e de maniva e brincaram pulado na Sol.
Quando voltaram pro mocambo muito se rindo um pro outro, Imaerô ficou tiririca. Gritou: — Taína-Cã é meu! Foi pra mim que ele veio do céu! — Sai azar! que Taína-Cã falou. Quando eu quis você não quis, pois agora brinque-se! E trepou na rede com Denaquê. Imaerô desinfeliz suspirou assim: — Deixe estar jacaré, que a lagoa há-de secar!... E saiu gritando pelo mato. Virou na ave araponga que grita amarelo de inveja no quiriri do mato diurno. Desde então por causa da bondade de Taína-Cã é que Carajá come mandioca e milho e possui fumo pra se animar.
E tudo o que Carajá carecia, Taína-Cã ia no céu e voltava trazendo. Pois não é que Denaquê, de ambicio sa, deu pra namorar com todas as estrelinhas do céu! Deu sim, e Taína-Cã que é a Papaceia enxergou tudo. Isso, até se orvalhou de tão triste, pegou nos teréns e foi-se embora pro vasto campo do céu. Ficou lá, trouxe mais nada não. Si a Papaceia continuasse trazendo as coisas do outro lado de lá, céu era aqui, nosso todinho. Agora é só do nosso desejo. Tem mais não". O papagaio dormia.
Uma feita janeiro chegado Macunaíma acordou tarde com o pio agourento do tincuã. No entanto era dia feito e a cerração já entrara pro buraco... O herói tremeu e apalpou o feitiço que trazia no pescoço, um ossinho de piá morto pagão. Procurou o aruaí, desapa recera. Só o galo com a galinha brigando por causa duma aranha derradeira. Fazia um calorão parado tão imenso que se escutava o sininho de vidro dos gafanho tos. Vei, a Sol, escorregava pelo corpo de Macunaíma, fazendo cosquinhas, virada em mão de. moça. Era mal vadeza da vingarenta só por causa do herói não ter se amulherado com uma das filhas de luz. A mão de moça vinha e escorregava tão de manso no corpo... Que vontade nos músculos pela primeira vez espetados depois de tanto tempo! Macunaíma se lembrou que fazia muito não brincava. Água fria diz que é bom pra es pantar as vontades... O herói escorregou da rede, tirou a penugem de teia vestindo todo o corpo dele e descendo até o vale de Lágrimas foi tomar banho num sacado perto que os repiquetes do tempo-das-águas ti nham virado num lagoão.
Macunaíma depôs com delicadeza os legornes na praia e se chegou pra água. A lagoa estava toda cober ta de ouro e prata e descobriu o rosto deixando ver o que tinha no fundo. E Macunaíma enxergou lá no fun do uma cunha lindíssima, alvinha e padeceu de mais vontade. E a cunha lindíssima era a Uiara.
Vinha chegando assim como quem não quer, com muitas danças, piscava pro herói, parecia que dizia — "Cai fora, seu nhonhô moço!" e fastava com muitas danças assim como quem não quer. Deu uma vontade no herói tão imensa que alargou o corpo dele e a boca umideceu: — Mani!. . .
Macunaíma queria a dona. Botava o dedão n'água e num átimo a lagoa tornava a cobrir o rosto com as teias de ouro e prata. Macunaíma sentia o frio da água, retirava o dedão.
Foi assim muitas vezes. Se aproximava o pino do dia e Vei estava zangadíssima. Torcia pra Macunaíma cair nos braços traiçoeiros da moça do lagoão e o herói tinha medo do frio. Vei sabia que a moça não era moça não, era a Uiara. E a Uiara vinha chegando outra vez com muitas danças. Quê boniteza que ela era!... Mo rena e coradinha que-nem a cara do dia e feito o dia que vive cercado de noite, ela enrolava a cara nos ca belos curtos negros como as asas da graúna. Tinha no perfil duro um narizinho tão mimoso que nem servia pra respirar. Porém como ela só se mostrava de frente e festava sem virar Macunaíma não via o buraco no cangote por onde a pérfida respirava.. E o herói inde ciso, vai-não-vai. Sol teve raiva. Pegou num rabo-de-tatu de calorão e guascou o lombo do herói. A dona ali, diz-que abrindo os braços mostrando a graça fe chando os olhos molenga. Macunaíma sentiu fogo no espinhaço, estremeceu, fez pontaria, se jogou feito em cima dela, juque! Vei chorou de vitória. As lágrimas caíram na lagoa num chuveiro de ouro e de ouro. Era o pino do dia.
Quando Macunaíma voltou na praia se percebia que brigara muito lá no fundo, Ficou de bruços um tem pão coma vida dependurada nos respiros fatigados. Es tava sangrando com mordidas pelo corpo todo, sem per na direita, sem os dedões sem os côcos-da-Bahia sem orelhas sem nariz sem nenhum dos seus tesouros. Afinal pôde se erguer. Quando deu tento das perdas teve ódio de Vei. A galinha cacarejava deixando um ovo na praia. Macunaíma pegou nele e chimpou-o no carão feliz da Sol. O ovo esborrachou bem nas bochechas dela que \ sujou-se de amarelo pra todo o sempre. Entardecia.
Macunaíma sentou numa lapa que já fora jaboti nos tempos de dantes e andou contando os tesouros per didos em baixo d'água. E eram muitos, era uma perna os dedões, eram os côcos-da-Bahia eram as orelhas os dois brincos feitos com a máquina pathek e a máquina smith-wesson, o nariz todos esses tesouros... O herói pulou dando um grito que encurtou o tamanho do dia. As piranhas tinham comido também o beiço dele e a muiraquitã! Ficou feito louco.
Arrancou uma montanha de timbó de assacú de tingui de canambí, todas essas plantas e envenenou pra sempre o lagoão. Todos os peixes morreram e ficaram boiando com a barriga pra cima, barrigas azuis barrigas amarelas barrigas rosadas, todas as barrigas sara) pintando a face da lagoa. Era de-tardinha.
Então Macunaíma destripou todos esses peixes, todas as piranhas e todos os botos, caqueando a muraquitã nas barrigas. Foi uma sangueira mãe escorrendo sobre a terra e tudo ficou tinto de sangue. Era bôca-da-noite.
Macunaíma campeava campeava. Achou os dois brincos achou os dedões achou as orelhas os nuquiiri o nariz, todos esses tesouros e prendeu todos nos lugares deles com sapé e cola de peixe. Porém a perna e a muiraquitã não achou não. Tinham sido engolidos pelo monstro Ururau que não morre com timbó nem pau. O sangue coalhara negro cobrindo a praia e o lagoão. Era de-noite.
Macunaíma campeava campeava. Soltava grite de lamentação encurtando com a bulha o tamanho da bicharada. Nada. O herói varava o campo, saltando na perna só. Gritava: — Lembrança! Lembrança da minha marvada não vejo nem ela nem você nem nada! E pulava mais. As lágrimas pingavam dos olhinhos azuis dele sobre as florzinhas brancas do campo. As florzinhas tingiram de azul e foram os miosótis. O herói não podia mais, parou. Cruzou os braços num desespero tão heróico que tudo se alargou no espaço pra conter o silêncio daquele penar. Só um mosquitinho raquitiquinho infernizava inda mais a disgra do herói, zumbindo fininho: "Vim di Minas... vim di Minas..." Então Macunaíma não achou mais graça nesta terra. Capei bem nova relumeava lá na gupiara do céu. Macunaíma cismou inda meio indeciso, sem saber si morar no céu ou na ilha de Marajó. Um momento pensou mesmo em morar na cidade da Pedra com o enérgico Delmiro Gouveia, porém lhe faltou ânimo. Pra vi ver lá, assim como tinha vivido era impossível. Até era por causa disso mesmo que não achava mais graça na Terra... Tudo o que fora a existência dele apesar de tantos casos tanta brincadeira tanta ilusão tanto sofri: mento tanto heroísmo, afinal não fora sinão um se dei xar viver; e pra parar na cidade do Delmiro ou na ilha de Marajó que são desta Terra carecia de ter um sen tido. E ele não tinha coragem pra uma organização. Decidiu: — Qua o quê!... Quando urubu está de caipora o de baixo caga no de cima, este mundo não tem jeito mais e vou pro céu.
Ia pro céu viver com a marvada. Ia ser o brilho bonito mas inútil porém de mais uma constelação. Não fazia mal que fosse brilho inútil não, pelo menos era o mesmo de todos esses parentes de todos os pais dos vivos da sua terra, mães pais manos cunhas cunhadas cunhatãs, todos esses conhecidos que vivem agora do brilho inútil das estrelas.
Plantou uma semente do cipó matamatá, filho-da-luna, e enquanto o cipó crescia agarrou numa itá pontuda escreveu na lage que já fora jaboti num tempo muito de dantes:
A planta já tinha crescido e se agarrava numa pon ta de Capei. O herói capenga enfiou a gaiola dos legornes no braço e foi subindo pro céu. Cantava triste: — "Vamos dar a despedida, — Tapera, Taleqüal o passarinho,.
— Tapera, Bateu asa foi-se embora, — Tapera, Deixou a pena no ninho.
— Tapera..."
Lá chegando bateu na maloca de Capei. A Lua desceu no terreiro e perguntou: — Quê que quer, saci? — Abênção minha madrinha, me dá pão com fa rinha? Então Capei reparou que não era saci não, era Macunaíma o herói. Mas não quis dar pensão pra ele, se lembrando do fedor antigo do herói. Macunaíma enfe zou. Deu uma porção de munhecaços na cara da Lua. Por isso que ela tem aquelas manchas escuras na cara.
Então Macunaíma foi bater na casa de Caiuano gue, a estrêla-da-manhã. Caiuanogue apareceu na janelinha pra ver quem era e confundida pelo negrume da noite e a capenguice do herói, perguntou: — Que é que quer, saci? Mas logo pôs reparo que era Macunaíma o herói e nem esperou resposta se lembrando que ele cheirava muito fedido.
— Vá tomar banho! falou fechando a janelinha.
Macunaíma tornou a enfezar e gritou.
— Vem pra rua, cafajeste! Caiuanogue raspou um susto enorme e ficou tre mendo espiando pelo buraco da fechadura. Por isso que a bonita da estrelinha é tão pecurrucha e tremelica tanto.
Então Macunaíma foi bater na casa de Pauí-Pódole, o Pai do Mutum. Pauí-Pódole gostava muito dele porque Macunaíma o defendera daquele mulato da maior mulataria na festa do Cruzeiro. Mas exclamou: — Ah, herói, tarde piaste! Era uma honra grande pra mim receber no meu mosqueiro um descendente de jaboti, raça primeira de todas.. . No princípio era só o Jaboti Grande que existia na vida... Foi ele que no silêncio da noite tirou da barriga um indivíduo e sua cunha. Estes foram os primeiros fulanos vivos e as pri meiras gentes da vossa tribo... Depois, que os outros vieram. Chegaste tarde, herói! Já somos em doze e com você a gente ficava treze na mesa. Sinto muito mas chorar não posso! — Que pena, sinh'Helena! que o herói exclamou. Então Pauí-Pódole teve dó de Macunaíma. Fez uma feitiçaria. Agarrou três pauzinhos jogou pro alto fez encruzilhada e virou Macunaíma com todo o estenderete dele, galo galinha gaiola revólver relógio, numa constelação nova. É a constelação da Ursa Maior.
Dizem que um professor naturalmente alemão an dou falando por aí por causa da perna só da Ursa Maior que ela é o saci... Não é não! Saci inda pára neste mundo espalhando fogueira e traçando crina de bagual... A Ursa Maior é Macunaíma. É mesmo o herói capenga que de tanto penar na terra sem saúde e com muita saúva, se aborreceu de tudo, foi-se embora e ban za solitário no campo vasto do céu.
Acabou-se a história e morreu a vitória.
Não havia mais ninguém lá. Dera tangolo-mangolo na tribo Tapanhumas e os filhos dela se acabaram de um em um. Não havia mais ninguém lá. Aqueles lu gares aqueles campos furos puxadouros arrastadouros meios-barrancos, aqueles matos misteriosos, tudo era a solidão do deserto... Um silêncio imenso dormia a beira-rio do Uraricoera.
Nenhum conhecido sobre a terra não sabia nem falar na falta da tribo nem contar aqueles casos tão pançudos. Quem que podia saber do herói? Agora os manos virados na sombra leprosa eram a segunda cabe ça do Pai do Urubu e Macunaíma era a constelação da Ursa Maior. Ninguém jamais não podia saber tanta história bonita e a fala da tribo acabada. Um silêncio imenso dormia a beira-rio do Uraricoera.
Uma feita um homem foi lá. Era madrugadinha e Vei mandara as filhas visar o passe das estrelas. O deserto tamanho matava os peixes e os passarinhos de pavor e a própria natureza desmaiara e caíra num gesto largado por aí. A mudez era tão imensa que espichava o tamanhão dos paus no espaço. De repente no peito doendo do homem caiu uma voz da ramaria: — Currr-pac, papac! currr-pac, papac!...
O homem ficou frio de susto feito piá. Então veio brisando um guanumbi e boleboliu no beiço do homem: — Bilo, bilo, bilo, lá... tetéia! E subiu apressado pras árvores. O homem seguin do o vôo do guanumbi, olhou pra cima.
— Puxa rama, boi! o beija-flor se riu. E escafedeu.
Então o homem descobriu na ramaria um papagaio verde de bico dourado espiando pra ele. Falou: — Dá o pé, papagaio.
O papagaio veio pousar na cabeça do homem e os dois se acompanheiraram. Então o pássaro principiou falando numa fala mansa, muito nova, muito! que era canto e que era cachiri com mel-de-pau, que era boa e possuía a traição das frutas desconhecidas do mato.
A tribo se acabara, a família virará sombras, a ma loca ruíra minada pelas saúvas e Macunaíma subira pro céu, porém ficara o aruaí do séquito daqueles tempos de dantes em que o herói fora o grande Macunaíma im perador. E só o papagaio no silêncio do Uraricoera pre servava do esquecimento os casos e a fala desaparecida. Só o papagaio conservava no silêncio as frases e feitos do herói.
Tudo ele contou pro homem e depois abriu asa ru mo de Lisboa. E o homem sou eu, minha gente, e eu fiquei pra vos contar a história. Por isso que vim aqui. Me acocorei em riba destas folhas, catei meus carrapatos, ponteei na violinha e em toque rasgado botei a boca no mundo cantando na fala impura as frases e os casos de Macunaíma, herói de nossa gente.
Tem mais não.
Fonte: www.bibvirt.futuro.usp.br