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O Judas em Sábado de Aleluia

Martins Pena

CENA VII

PIMENTA e os mesmos.

PIMENTA, rindo-se O que é isto, Sr. Capitão? Ataca a rapariga... ou ensina-lhe a jogar à espada?

CAPITÃO, turbado - Não é nada, Sr. Pimenta, não é nada... (Embainha a espada.) Foi um gato.

PIMENTA - Um gato? Pois o Sr. Capitão tira a espada para um gato? Só se foi algum gato danado, que por aqui entrou.

CAPITÃO, querendo mostrar tranqüilidade - Nada; foi o gato da casa que andou aqui pela sala fazendo estripulias.

PIMENTA - O gato da casa? É bichinho que nunca tive, nem quero ter.

CAPITÃO - Pois o senhor não tem um gato?

PIMENTA - Não senhor.

CAPITÃO, alterando-se - E nunca os teve?

PIMENTA - Nunca!... Mas...

CAPITÃO - Nem suas filhas, nem seus escravos?

PIMENTA - Já disse que não.... Mas...

CAPITÃO, voltando-se para Maricota - Com que nem seu pai, nem a sua irmã e nem seus escravos têm gato?

PIMENTA - Mas que diabo é isso?

CAPITÃO - E no entanto... Está bom, está bom! (Ã parte:) Aqui há maroteira!

PIMENTA - Mas que história é essa?

CAPITÃO - Não é nada, não faça caso; ao depois lhe direi. (Para Maricota:) Muito obrigado! (Voltando-se para PIMENTA:) Temos que falar em objeto de serviço.

PIMENTA, para Maricota - Vai para dentro.

MARICOTA, à parte - Que capitão tão pedaço de asno! (Sai.)

CENA VIII

CAPITÃO e JOSÉ Pimenta. Pimenta vai pôr sobre a mesa a barretina. O Capitão fica pensativo.

CAPITÃO, À parte - Aqui anda o Faustino, mas ele me pagará!

PIMENTA - As suas ordens, Sr. Capitão.

CAPITÃO - O guarda Faustino foi preso?

PIMENTA - Não, senhor. Desde quinta-feira que andam dous guardas atrás dele, e ainda não foi possível encontrá-lo. Mandei-os que fossem escorar à porta da repartição e também lá não apareceu hoje. Creio que teve aviso.

CAPITÃO - É preciso fazer diligência para se prender esse guarda, que está ficando muito remisso. Tenho ordens muito apertadas do comandante superior. Diga aos guardas encarregados de o prender que o levem para os Provisórios. Há-de lá estar um mês. Isto assim não pode continuar. Não há gente para o serviço com estes maus exemplos. A impunidade desorganiza a Guarda Nacional. Assim que ele sair dos Provisórios, avisem-no logo para o serviço, e se faltar, Provisório no caso, até que se desengane. Eu lhe hei-de mostrar. (A parte:) Mariola!... Quer ser meu rival!

PIMENTA - Sim senhor, Sr. Capitão.

CAPITÃO - Guardas sobre guardas, rondas, manejos, paradas diligências - atrapalhe-o. Entenda-se a esse respeito com o sargento.

PIMENTA - Deixe estar, Sr. Capitão.

CAPITÃO - Precisamos de gente pronta.

PIMENTA - Assim é, Sr. Capitão. Os que não pagam para a música, devem sempre estar prontos. Alguns são muito remissos.

CAPITÃO - Ameace-os com o serviço.

PIMENTA - Já o tenho feito. Digo-lhes que se não pagarem prontamente, o senhor Capitão os chamará para o serviço. Faltam ainda oito que não pagaram este mês, e dous ou três que não pagam desde o princípio do ano.

CAPITÃO - Avise a esses, que recebeu ordem para os chamar de novo para o serviço impreterivelmente. Há falta de gente. Ou paguem ou trabalhem.

PIMENTA - Assim é, Sr. Capitão, e mesmo é preciso. Já andam dizendo que se a nossa companhia não tem gente, é porque mais de metade paga para a música.

CAPITÃO, assustado - Dizem isso? Pois já sabem?

PIMENTA - Que saibam, não creio; mas desconfiam.

CAPITÃO - É o diabo! É preciso cautela. Vamos á casa do sargento. que lá temos que conversar. Uma demissão me faria desarranjo. Vamos.

PIMENTA - Sim senhor, Sr. Capitão. (Saem.)

CENA IX

Faustino. só. Logo que os dous saem, Faustino os vai espreitar à porta por onde saíram, e adianta-se um pouco.

Faustino - Ah, com que o senhor Capitão assusta-se, porque podem saber que mais de metade dos guardas da companhia pagam para a música!... E quer mandar-me para os Provisórios! Com que escreve cartas, desinquietando a uma filha-família, e quer atrapalhar-me com serviço? Muito bem! Cá tomarei nota. E o que direi da menina? É de se tirar o barrete! Está doutorada! Anda a dous carrinhos! Obrigado! Acha que eu tenho pernas de enchova morta, e olhos de arco de pipa? Ah, quem soubera! Mas ainda é tempo; tu me pagarás, e... Ouço pisadas... A postos! (Toma o seu lugar.)

CENA X

CHIQUINHA e FAUSTINO.

CHIQUINHA entra e senta-se é costura - Deixe-me ver se posso acabar este vestido para vesti-lo amanhã, que é Domingo de Páscoa. (Cose.) Eu é que sou a vadia, como meu pai disse. Tudo anda assim. Ai, ai! (Suspirando.) Há gente bem feliz; alcançam tudo quanto desejam e dizem tudo quanto pensam: só eu nada alcanço e nada digo. Em quem estará ele pensando! Na mana, sem dúvida. Ah, Faustino, Faustino, se tu soubesses!...

FAUSTINO, à parte - Fala em mim! (Aproxima-se de Chiquinha pé ante pé.)

CHIQUINHA - A mana, que não sente por ti o que eu sinto, tem coragem para te falar e enganar, enquanto eu, que tanto te amo, não ouso levantar os olhos para ti. Assim vai o mundo! Nunca terei valor para fazer-lhe a confissão deste amor, que me faz tão desgraçada; nunca, que morreria de vergonha! Ele nem em mim pensa. Casar-me com ele seria a maior das felicidades. (Faustino, que durante o tempo que Chiquinha fala vem aproximando-se e ouvindo com prazer quanto ela diz, cai a seus pés.)

FAUSTINO - Anjo do céu! (Chiquinha dá um grito, assustada, levanta-se rapidamente para fugir e Faustino a retém pelo vestido.) Espera!

CHIQUINHA, gritando - Ai, quem me acode?

FAUSTINO - Não te assustes, é o teu amante, o teu noivo... o ditoso Faustino!

CHIQUINHA, force)ando para fugir - Deixe-me!

FAUSTINO, tirando o chapéu - Não me conheces? É o teu Faustino!

CHIQUINHA, reconhecendo-o - Sr. Faustino!

FAUSTINO. sempre de joelhos - Ele mesmo, encantadora criatura! Ele mesmo, que tudo ouviu.

CHIQUINHA. escondendo o rosto nas mãos - Meu Deus!

FAUSTINO - Não te envergonhes. (Levanta-se.) E não te admires de ver-me tão ridiculamente vestido para um amante adorado.

CHIQUINHA - Deixe-me ir para dentro.

FAUSTINO - Oh. não! Ouvir-me-ás primeiro. Por causa de tua irmã eu estava escondido nestes trajas: mas prouve a Deus que eles me servissem para descobrir a sua perfídia e ouvir a tua ingênua confissão, tanto mais preciosa, quanto inesperada. Eu te amo, eu te amo!

CHIQUINHA - A mana pode ouvi-lo!

FAUSTINO - A mana! Que venha ouvir-me! Quero dizer-lhe nas bochechas o que penso. Se eu tivesse adivinhado em ti tanta candura e amor, não teria passado por tantos dissabores e desgostos, e não teria visto com meus próprios olhos a maior das patifarias! Tua mana e... Enfim, eu cá sei o que ela é, e basta. Deixemo-la, falemos só no nosso amor! Não olhes para minhas botas... Tuas palavras acenderam em meu peito uma paixão vulcânico-piramidal e delirante. Há um momento que nasceu, mas já está grande como o universo. Conquistaste-me! Terás o pago de tanto amor! Não duvides; amanhã virei pedir-te a teu pai.

CHIQUINHA, involuntariamente - Será possível?!

FAUSTINO - Mais que possível, possibilíssimo!

CHIQUINHA - Oh! está me enganando... E o seu amor por Maricota?

FAUSTINO, declamando - Maricota trouxe o inferno para minha alma, se é que não levou minha alma para o inferno! O meu amor por ela foi-se, voou, extinguiu-se como um foguete de lágrimas!

CHIQUINHA - Seria crueldade se zombasse de mim! De mim, que ocultava a todos o meu segredo.

FAUSTINO - Zombar de ti! Seria mais fácil zombar do meu ministro! Mas, silêncio, que parece-me que sobem as escadas.

CHIQUINHA, assustada - Será meu pai?

FAUSTINO - Nada digas do que ouviste: é preciso que ninguém saiba que eu estou aqui incógnito. Do segredo depende a nossa dita.

PIMENTA, dentro - Diga-lhe que não pode ser.

FAUSTINO - É teu pai!

CHIQUINHA - É meu pai!

Ambos - Adeus (Chiquinha entra correndo e Faustino põe o chapéu na cabeça, e toma o seu lugar.)

CENA XI

PIMENTA e depois ANTÔNIO DOMINGOS.

PIMENTA - é boa! Querem todos ser dispensados das paradas! Agora é que o sargento anda passeando. Lá ficou o capitão à espera. Ficou espantado com o que eu lhe disse a respeito da música. Tem razão, que se souberem, podem-lhe dar com a demissão pelas ventas. (Aqui batem palmas dentro.) Quem é?

ANTÔNIO, dentro - Um seu criado. Dá licença?

PIMENTA - Entre quem é. (Entra Antônio Domingos.) Ah, é o Sr. Antônio Domingos! Seja bem aparecido; como vai isso?

ANTÔNIO - A seu dispor.

PIMENTA - Dê cá o seu chapéu. (Toma o chapéu e o põe sobre o mesa.) Então, o que ordena?

ANTÔNIO, com mistério - Trata-se do negócio...

PIMENTA - Ah, espere! (Vai fechar a porta do fundo, espiando primeiro se alguém os poderá ouvir.) É preciso cautela. (Cerra a porta que dá para o interior.)

ANTÔNIO - Toda é pouca. (Vendo o judas:) Aquilo é um judas?

PIMENTA - É dos pequenos. Então?

ANTÔNIO - Chegou nova remessa do Porto. Os sócios continuam a trabalhar com ardor. Aqui estão dous contos (tira da algibeira dous maços de papéis), um em cada maço; é dos azuis. Desta vez vieram mais bem feitos. (Mostra uma nota de cinco mil-réis que tira do bolso do colete.) Veja; está perfeitíssima.

PIMENTA, examinando-a - Assim é.

ANTÔNIO - Mandei aos sócios fabricantes o relatório do exame que fizeram na Caixa da Amortização, sobre as da penúltima remessa, e eles emendaram a mão. Aposto que ninguém as diferençará das verdadeiras.

PIMENTA - Quando chegaram?

Antônio - Ontem, no navio que chegou do Porto.

PIMENTA - E como vieram?

ANTÔNIO - Dentro de um barril de paios.

PIMENTA - O lucro que deixa não é mau; mas arrisca-se a pele...

ANTÔNIO - O que receia?

PIMENTA - O que receio? Se nos dão na malhada, adeus minhas encomendas! Tenho filhos...

Antônio - Deixe-se de sustos. Já tivemos duas remessas, e o senhor só por sua parte passou dous contos e quinhentos mil-réis, e nada lhe aconteceu.

PIMENTA - Bem perto estivemos de ser descobertos - houve denúncia, e o Tesouro substituiu os azuis pelos brancos.

ANTÔNIO - Dos bilhetes aos falsificadores vai longe; aqueles andam pelas mãos de todos, e estes fecham-se quando falam, e acautelam-se. Demais, quem nada arrisca, nada tem. Deus há-de ser conosco.

PIMENTA - Se não for o Chefe de Policia...

ANTÔNIO - Esse é que pode botar tudo a perder; mas pior é o medo. Vá guardá-los. (Pimenta vai guardar os maços dos bilhetes em uma das gavetas da cômoda e a fecha à chave. Antônio, enquanto Pimenta guarda os bilhetes:) Cinqüenta contos da primeira remessa, cem da segunda e cinqüenta desta fazem duzentos contos; quando muito, vinte de despesa, e aí temos cento e oitenta de lucro. Não conheço negócio melhor. (Para Pimenta:) Não os vá trocar sempre à mesma casa: ora aqui. ora ali... Tem cinco por cento dos que passar.

PIMENTA - Já estou arrependido de ter-me metido neste negócio...

ANTÔNIO - E por quê?

PIMENTA - Além de perigosíssimo, tem conseqüências que eu não previa quando meti-me nele. O senhor dizia que o povo não sofria com Isso.

ANTÔNIO - E ainda digo. Há na circulação um horror de milhares de contos em papel; mais duzentos, não querem dizer nada.

PIMENTA - Assim pensei eu, ou me fizeram pensar; mas já abriram-me os olhos, e... Enfim, passarei ainda esta vez, e será a última. Tenho filhos. Meti-me nisto sem saber bem o que fazia. E do senhor queixo-me, porque da primeira vez abusou da minha posição; eu estava sem vintém. E a última!

ANTÔNIO Como quiser; o senhor é quem perde. (Batem na porta.)

PIMENTA - Batem!

ANTÔNIO - Será o Chefe de Polícia?

PIMENTA - O Chefe de Polícia! Eis, aí está no que o senhor me meteu!

ANTÔNIO - Prudência! Se for a policia, queimam-se os bilhetes.

PIMENTA - Qual queimam-se, nem meio queimam-se; já não há tempo senão de sermos enforcados!

ANTÔNIO - Não desanime. (Batem de novo.)

FAUSTINO, disfarçando a voz - Da parte da polícia!

PIMENTA, caindo de joelhos - Misericórdia!

ANTÔNIO - Fujamos pelo quintal!

PIMENTA - A casa não tem quintal. Minhas filhas!...

ANTÔNIO - Estamos perdidos! (Corre para a porta, a fim de espiar pela fechadura. Pimenta fica de joelhos e treme convulsivamente.) Só vejo um oficial da Guarda Nacional. (Batem; espia de novo.) Não há dúvida. (Para Pimenta:) Psiu... psiu... venha cá.

CAPITÃO, dentro - Ah, Sr. Pimenta, Sr. Pimenta? (Pimenta, ao ouvir o seu nome, levanta a cabeça e escuta. Antônio caminha para ele.)

Antônio - Há só um oficial que o chama.

PIMENTA - Os mais estão escondidos.

CAPITÃO, dentro - Há ou não gente em casa?

PIMENTA levanta-se - Aquela voz... (Vai para a porta e espia.) Não me enganei! É o Capitão! (Espia.) Ah, Sr. Capitão?

CAPITÃO, dentro - Abra!

PIMENTA - Vossa Senhoria está só?

CAPITÃO, dentro - Estou, sim; abra.

PIMENTA - Palavra de honra?

CAPITÃO, dentro - Abra, ou vou-me embora!

PIMENTA, para Antônio - Não há que temer. (Abre a porta; entra o Capitão. Antônio sai fora da porta e observa se há alguém oculto no corredor.)

CENA XII

CAPITÃO [e] os mesmos.

CAPITÃO, entrando - Com o demo! O senhor a estas horas com a porta fechada!

PIMENTA - Queira perdoar, Sr. Capitão.

ANTÔNIO, entrando - Ninguém.

CAPITÃO - Faz-me esperar tanto! Hoje é a segunda vez.

PIMENTA - Por quem é, Sr. Capitão!

CAPITÃO - Tão calados!... Parece que estavam fazendo moeda falsa! (Antônio estremece; Pimenta assusta-se.)

PIMENTA - Que diz, Sr. Capitão? Vossa Senhoria tem graças que ofendem! Isto não São brinquedos. Assim escandaliza-me. Estava com o meu amigo Antônio Domingos falando nos seus negócios, que eu cá, por mim não os tenho.

CAPITÃO - Oh, o senhor escandaliza-se e assusta-se por uma graça dita sem intenção de ofender!

PIMENTA - Mas há graças que não têm graça!

CAPITÃO - O senhor tem alguma cousa? Eu o estou desconhecendo!

ANTÔNIO, à parte - Este diabo bota tudo a perder! (Para o Capitão:) É a bílis que ainda o trabalha. Estava enfurecido comigo por certos negócios. Isto passa-lhe. (Para Pimenta:) Tudo se há-de arranjar. (Para o Capitão:) Vossa Senhoria está hoje de serviço?

CAPITÃO - Estou de dia. (Para Pimenta:) Já lhe posso falar?

PIMENTA - Tenha a bondade de desculpar-me. Este maldito homem ia-me fazendo perder a cabeça. (Passa a mão pelo pescoço, como quem quer dar mais inteligência ao que diz.) E Vossa Senhoria também não contribuiu pouco para eu assustar-me!

ANTÔNIO, forcejando para rir - Foi uma boa caçoada!

CAPITÃO, admirado - Caçoada! Eu?

PIMENTA - Por mais honrado que seja um homem, quando se lhe bate à porta e se diz: "Da parte da polícia", sempre se assusta.

CAPITÃO - E quem lhe disse isto?

PIMENTA - Vossa Senhoria mesmo.

CAPITÃO - Ora, o senhor, ou está sonhando, ou quer se divertir comigo.

PIMENTA - Não foi Vossa Senhoria?

ANTÔNIO - Não foi Vossa Senhoria?

CAPITÃO - Pior é essa! Sua casa hoje anda misteriosa. Há pouco era sua filha com o gato; agora é o senhor com a polícia... (À parte:) Aqui anda tramóia!

ANTÔNIO, à parte - Quem seria?

PIMENTA, assustado - Isto não vai bem. (Para Antônio:) Não sai daqui antes de eu lhe entregar uns papéis. Espere! (Faz semblante de querer ir buscar os bilhetes; Antônio o retém.)

ANTÔNIO, para Pimenta - Olhe que se perde!

CAPITÃO - E então? Ainda não me deixaram dizer ao que vinha. (Ouve-se repique de sinos, foguetes, algazarra, ruídos diversos como acontece quando aparece a Aleluia.) O que é isto?

PIMENTA - Estamos descobertos!

ANTÔNIO, gritando - É a Aleluia que apareceu. (Entram na sala, de tropel, Maricota, Chiquinha, os quatro meninos e os dous moleques.)

Meninos - Apareceu a Aleluia! Vamos ao judas!... (Faustino, vendo os meninos junto de si, deita a correr pela sala. Espanto geral. Os meninos gritam e fogem de Faustino, o qual dá duas voltas ao redor da sala, levando adiante de si todos os que estão em cena, os quais atropelam-se correndo e gritam aterrorizados. Chiquinha fica em pé junto à porta por onde entrou. Faustino, na segunda volta, sai para a rua, e os mais, desembaraçados dele, ficam como assombrados. Os meninos e moleques, chorando, escondem-se debaixo da mesa e cadeiras; o Capitão, na primeira volta que dá fugindo de Faustino, sobe para cima da cômoda; Antônio Domingos agarra-se a Pimenta, e rolam )untos pelo chão, quando Faustino sai: e Maricota cai desmaiada na cadeira onde cosia.)

PIMENTA, rolando pelo chão, agarrado com Antônio - É o demônio!...

ANTÔNIO - Vade-retro, Satanás! (Estreitam-se nos braços um do outro e escondem a cara.)

CHIQUINHA chega-se para Maricota - Mana, que tens? Não fala; está desmaiada! Mana? Meu Deus! Sr. Capitão, faça o favor de dar-me um copo com água.

CAPITÃO, de cima da cômoda - Não posso lá ir!

CHIQUINHA, à parte - Poltrão! (Para Pimenta:) Meu pai, acuda-me! (Chega-se para ele e o chama, tocando-lhe no ombro.)

PIMENTA, gritando - Ai, ai, ai! (Antônio, ouvindo Pimenta gritar, grita também.)

CHIQUINHA - E esta! Não está galante? O pior é estar a mana desmaiada! Sou eu, meu pai, sou Chiquinha; não se assuste. (Pimenta e Antônio levantam-se cautelosos.)

ANTÔNIO - Não o vejo!

CHIQUINHA, para o Capitão - Desça; que vergonha! Não tenha medo. (O Capitão principia a descer.) Ande, meu pai, acudamos a mana. (Ouve-se dentro o grito de Leva! leva! como costumam os moleques, quando arrastam os judas pelas ruas.)

PIMENTA - Aí vem ele!... (Ficam todos imóveis na posição em que os surpreendeu o grito, isto é, Pimenta e Antônio ainda não de todo levantados; o Capitão com uma perna no chão e a outra na borda de uma das gavetas da cômoda, que está meio aberta; Chiquinha esfregando as mãos de Maricota para reanimá-la, e os meninos nos lugares que ocupavam. Conservam-se todos silenciosos, até que se ouve o grito exterior - Morra! - em distância.)

CHIQUINHA, enquanto os mais estão silenciosos - Meu Deus, que gente tão medrosa! E ela neste estado! O que hei-de fazer? Meu pai? Sr. Capitão? Não se movem! Já tem as mãos frias... (Aparece repentinamente á porta Faustino, ainda com os mesmos trajos; salta no meio da sala e vai cair sentado na cadeira que está junto à mesa. Uma turba de garotos e moleques armados de paus entram após ele, gritando: Pega no judas, pega no judas! - Pimenta e Antônio erguem-se rapidamente e atiram-se para a extremidade esquerda do teatro, )unto aos candeeiros da rampa; o Capitão sobe de novo para cima da cômoda: Maricota, vendo Faustino na cadeira, separado dela somente pela mesa, dá um grito e foge para a extremidade direita do teatro; e os meninos saem aos gritos de debaixo da mesa, e espalham-se pela sala. Os garotos param no fundo )unto à porta e, vendo-se em uma casa particular, cessam de gritar.)

FAUSTINO, caindo sentado - Ai, que corrida! Já não posso! Oh, parece-me que por cá ainda dura o medo. O meu não foi menor vendo esta canalha. Safa, canalha! (Os garotos riem-se e fazem assuada.) Ah, o caso é esse? (Levanta-se.) Sr. Pimenta? (Pimenta, ouvindo Faustino chamá-lo, encolhe-se e treme.) Treme? Ponha-me esta corja no olho da rua... Não ouve?

PIMENTA, titubeando - Eu, senhor?

FAUSTINO - Ah, não obedece? Vamos, que lhe mando - da parte da polícia... (Disfarçando a voz como da vez primeira.)

ANTÔNIO - Da parte da polícia!... (Para Pimenta:) Vá, vá!

FAUSTINO - Avie-se! (Pimenta caminha receoso para o grupo que está no fundo, e com bons modos o faz sair. Faustino, enquanto Pimenta faz evacuar a sala, continua a falar. Para Maricota:) Não olhe assim para mim com os olhos tão arregalados, que lhe podem saltar fora da cara. De que serão esses olhos? (Para o Capitão:) Olá, valente capitão! Está de poleiro? Desça. Está com medo do papão? Hu! hu! Bote fora a espada, que lhe está atrapalhando as pernas. É um belo boneco de louça! (Tira o chapéu e os bigodes, e os atira no chão.) Agora ainda terão medo? Não me conhecem?

Todos, exceto Chiquinha - Faustino!

FAUSTINO - Ah, já! Cobraram a fala! Temos que conversar. (Põe uma das cadeiras no meio da sala e senta-se. O Capitão, Pimenta e Antônio dirigem-se para ele enfurecidos; o primeiro coloca-se à sua direita, o segundo à esquerda e o terceiro atrás, falando todos três ao mesmo tempo. Faustino tapa os ouvidos com as mãos.)

PIMENTA - Ocultar-se em casa de um homem de bem, de um pai de família, é ação criminosa: não se deve praticar! As leis São bem claras; a casa do cidadão é inviolável! As autoridades hão-de ouvir-me: serei desafrontado!

ANTÔNIO - Surpreender um segredo é infâmia! E só a vida paga certas infâmias, entende? O senhor é um mariola! Tudo quanto fiz e disse foi para experimentá-lo. Eu sabia que estava ali oculto. Se diz uma palavra, mando-lhe dar uma arrochada.

CAPITÃO - Aos insultos respondem-se com as armas na mão! Tenho uma patente de capitão que deu-me o governo, hei-de fazer honra a ela! O senhor é um cobarde! Digo-lhe isto na cara; não me mete medo! Há-de ir preso! Ninguém me insulta impunemente! (Os três, à proporção que falam, vão reforçando a voz e acabam bramando.)

FAUSTINO - Ai! ai! ai! ai! que fico sem ouvidos.

CAPITÃO - Petulância inqualificável... Petulância!

PIMENTA - Desaforo sem nome... Desaforo!

Antônio - Patifaria, patifaria, patifaria! (Faustino levanta-se rapidamente, batendo com os pés.)

FAUSTINO, gritando - Silêncio! (Os três emudecem e recuam) que o deus da linha quer falar! (Assenta-se.) Puxe-me aqui estas botas. (Para Pimenta:) Não quer? Olhe que o mando da parte da... (Pimenta chega-se para ele.)

PIMENTA, colérico - Dê cá!

FAUSTINO - Já! (Dá-lhe as botas a puxar.) Devagar! Assim... E digam lá que a polícia não faz milagres... (Para Antônio:) Ah, senhor meu, tire-me esta casaca. Creio que não será preciso dizer da parte de quem... (Antônio tira-lhe a casaca com muito mau modo.) Cuidado; não rasgue o traste, que é de valor. Agora o colete. (Tira-lho.) Bom.

CAPITÃO - Até quando abusará da nossa paciência?

FAUSTINO, voltando-se para ele - Ainda que mal lhe pergunte, o senhor aprendeu latim?

CAPITÃO, à parte - Hei-de fazer cumprir a ordem de prisão. (Para Pimenta:) Chame dous guardas.

FAUSTINO - Que é lá isso? Espere lá! Já não tem medo de mim? Então há pouco quando se empoleirou era com medo das botas? Ora, não seja criança, e escute... (Para Maricota:) Chegue-se para cá. (Para Pimenta:) Ao Sr. José Pimenta do Amaral, cabo-de-esquadra da Guarda Nacional, tenho a distinta de pedir-lhe a mão de sua filha a Sr.a D. Maricota... ali para o Sr. Antônio Domingos.

MARICOTA - Ah!

PIMENTA - Senhor!

ANTÔNIO - E esta!

FAUSTINO - Ah, não querem? Torcem o focinho? Então escutem a história de um barril de paios, em que...

ANTÔNIO, turbado - Senhor!

FAUSTINO, continuando - ... em que vinham escondidos...

ANTÔNIO aproxima-se de Faustino e diz-lhe à parte Não me perca! Que exige de mim?

FAUSTINO, à parte - Que se case, e quanto antes, com a noiva que lhe dou. Só por este preço guardarei silêncio.

ANTÔNIO, para Pimenta -~ Sr. Pimenta, o senhor ouviu o pedido que lhe foi feito; agora o faço eu também. Concede-me a mão de sua filha?

PIMENTA - Certamente... é uma fortuna... não esperava... e...

FAUSTINO - Bravo!

MARICOTA - Isto não é possível! Eu não amo ao senhor!

FAUSTINO - Amará.

MARICOTA - Não se dispõe assim de uma moça! Isto é zombaria do senhor Faustino!

FAUSTINO - Não sou capaz!

MARICOTA - Não quero! Não me caso com um velho!

FAUSTINO - Pois então não se casará nunca; porque vou já daqui gritando (gritando:) que a filha do cabo Pimenta namora como uma danada; que quis roubar... (Para Maricota:) Então, quer que continue, ou quer casar-se?

MARICOTA, à parte - Estou conhecida! Posso morrer solteira... Um marido é sempre um marido... (Para Pimenta:) Meu pai, farei a sua vontade.

FAUSTINO - Bravíssimo! Ditoso par! Amorosos pombinhos! (Levanta-se, toma Maricota pela mão e a conduz para junto de Antônio, e fala com os dous à parte:) Menina, aqui tem o noivo que eu lhe destino: é velho, baboso, rabugento e usurário - nada lhe falta para sua felicidade. É este o fim de todas as namoradeiras: ou casam com um gebas como este, ou morrem solteiras! (Para o público:) Queira Deus que aproveite o exemplo! (Para Antônio:) Os falsários já não morrem enforcados; lá se foi esse bom tempo! Se eu o denunciasse, ia o senhor para a cadeia e de lá fugiria, como acontece a muitos da sua laia. Este castigo seria muito suave... Eis aqui o que lhe destino (Apresentando-lhe Maricota:) É moça, bonita, ardilosa, e namoradeira: nada lhe falta para seu tormento. Esta pena não vem no Código; mas não admira, porque lá faltam outras muitas cousas. Abracem-se, em sinal de guerra! (Impele um para o outro.) Agora nós, Sr. Capitão! Venha cá. Hoje mesmo quero uma dispensa de todo o serviço da Guarda Nacional! Arranje isso como puder; quando não, mando tocar a música... Não sei se me entende?...

CAPITÃO - Será servido. (À parte:) Que remédio; pode perder-me!

FAUSTINO - E se de novo bulir comigo, cuidado! Quem me avisa... Sabe o resto! Ora, meus senhores e senhoras, já que castiguei, quero também recompensar. (Toma Chiquinha pela mão e coloca-se com ela em frente de Pimenta, dando as mãos como em ato de se casarem.) Sua bênção, querido pai Pimenta, e seu consentimento!

PIMENTA - O que lhe hei-de eu fazer, senão consentir!

FAUSTINO - Ótimo! (Abraça a Pimenta e dá-lhe um beijo. Volta-se para Chiquinha:) Se não houvesse aqui tanta gente a olhar para nós, fazia-te o mesmo... (Dirigindo-se ao público:) Mas não o perde, que fica guardado para melhor ocasião.

FIM

Fonte: www.dominiopublico.gov.br

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