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O Namorador ou a Noite de São João

Martins Pena

CENA X

João, só, (e depois Luís.)

JOÃO – E que tal lhe parece a impertinência? Irra! Casar-se com minha filha! Um pobre diabo que só vive do seu insignificante ordenado. Agora, ainda que fosse rico, e muito rico, não lha dava. (João vai a entrar no quarto e aparece Luís no fundo, gritando.) LUÍS – Tio João? Tio João? JOÃO – Outro! LUÍS, junto dele – Quero pedir-lhe um grande favor. Trata-se de minha prima.

JOÃO, à parte – Mas tu também? (Procura no chão uma pedra. ) LUÍS – Tenho hoje reparado com mais atenção na sua beleza e sabidas qualidades.

JOÃO – Não acho eu uma pedra? LUÍS – Que procura, tio João? Não sei por que fatalidade tenho eu estado cego a tantas perfeições. (João pega no copo que vê sobre o banco de relva.) JOÃO – Se me dás mais uma palavra, arrumo-te com este copo pelas ventas.

LUÍS – Olhe que tem um ovo dentro! JOÃO – Tenha o diabo! Salta, não me esquentes as orelhas! LUÍS – Não o contrariemos, que ele tem veneta e me perderei. Está bem, tio. Até logo. (Sai.)

CENA XI

João e depois Manuel

JOÃO, só – Ainda virá mais algum? (João vai a entrar no quarto do ilhéu e este aparece do outro lado da cena. João, à parte:) Oh, diabo! (Disfarça o seu intento, fingindo perseguir na parede da casinha um inseto que lhe escapa.) MANUEL, à parte – Ai, o que está o senhor a fazer? (João continua no mesmo jogo.) A saltar? (Aproximase dele, que faz que o não vê.) Ah, senhor? (João no mesmo jogo.) Senhor? (Pegando-lhe pelo braço:) O que apanha o senhor? JOÃO, voltando – Quem é? Ah, é você, Sr. Manuel? Homem, estava atrás de uma lagartixa que subiu pela parede.

MANUEL – Ai, senhor, deixe viver o bichinho de Deus.

JOÃO – O que quer comigo? MANUEL – Tinha um favor que pedir ao senhor, mas envergonho-me.

JOÃO – Pois um homem deste tamanho tem vergonha? Anda, diga o que quer, e depressa, que aqui está muito sereno.

MANUEL – Queria que o senhor me perdoasse os dois meses que faltam para acabar meu trato.

JOÃO – Nada, nada, não pode ser. Dei duzentos mil-réis pela sua passagem e pela de sua mulher, para que me pagassem com os seus trabalhos. Calculo-os a vinte mil-réis por mês. Já lá se vão oito; falta ainda dois para ficarmos justos de conta. Não dispenso.

MANUEL – Mas senhor...

JOÃO – Quando acabar-se o tempo do seu trato, faremos novo ajuste. Não terei dúvida de dar-lhe mais alguma coisa. (À parte:) A minha ilhoazinha não sai daqui.

MANUEL – Tenho trabalhado muito, e já o senhor devia estar contente comigo, e não olhar a tão pouca coisa.

JOÃO – Fale-me amanhã; agora não são horas. Vá arrumar capim na carroça que vai de madrugada para a cidade.

MANUEL – E se o meu trabalho...

JOÃO, empurrando-o – Já lhe disse que amanhã... (Manuel sai. João, só:) Daqui não me sai ele. Virá ainda alguém? (Vai para entrar no quarto e chegam do fundo, correndo, quatro meninos com pistola e bicha na mão e chegam até à frente do tablado.) MENINO – Vamos fazer uma fortaleza aqui. (Assenta-se no chão.) Juquinha, você faz outra lá. (Assentamse todos.) Enterra as pistolas e as bichas. Eu sou o navio. Hei-de fazer fogo, e você também ajunta a areia...

Anda, vem-me ajudar. (João, ao ver os meninos que chegam, quebra uma varinha de arbusto próximo, sai de trás da casinha e caminha para eles. Ao chegar junto, açoita-os com a vara. Os pequenos levantam-se, assustados e correm para dentro, gritando e chorando.) JOÃO, gritando – Salta para dentro! (Voltando:) Até estes demoninhos vieram atrapalhar-me! Não me fio em crianças. É isto! Convida-se a certas senhoras para passarem a noite em uma casa e levam quantos filhos têm, desde o mais pequeno até o maior, para estratagema, quebrarem e pedincharem tudo quanto vêem e tocam. E importunar a todos os convidados! Deixar-me-ão desta vez entrar? (Vai para a casinha, entra e fecha a porta. Manuel, que nesse mesmo tempo aparece, o vê entrar no seu quarto.) MANUEL – Entra no nosso quarto? Ai, o que me vale é estar a Maria lá dentro. Ele vai espera-la... Ai! Pois são estas as lagartixas? Lagartixas! (Pega no cesto que está à porta do quarto e com ele atravessa de novo a cena, sempre correndo e sai pela direita. Assim que o ilhéu sai de cena, João abre a janela do quarto que dá para a cena e espreita por ela.) JOÃO, à janela – Queria Deus que a minha ilhoazinha não tarde. O meu coraçãozinho está pulando de contente! Mas aonde estará ela? CLARA, do fundo – Ah, Sr. João? Sr. João? (Chamando.) JOÃO – Oh diabo, lá está a carocha da minha mulher chamando-me. Se ela souber que estou aqui, mata-me.

Ora, que culpa tenho? Calou-se. (Debruça-se na janela, espreitando.) Como tarda!...

CENA XII

Júlio de capote e boné, João e depois Clara.

JÚLIO – Devo ausentar-me desta casa onde fui insultado e para nunca mais voltar... Mas deixá-la? E o posso eu? Não, é preciso; nem mais um instante! E não posso desprender-me daqui! Fatal amor! Ela fica no meio dos prazeres, e eu... (João chega à janela, observa Júlio, fazendo esforços para reconhecê-lo.) JOÃO – Vejo um vulto. Não posso conhecer quem é. Deixei os meus óculos lá dentro. Parece-me que está de saia e lenço à cabeça... Saia escura! É ela, não tem dúvida; é a minha ilhoazinha. Psiu, psiu! (Chamando com precaução.) JÚLIO, surpreendido – Quem me chama? JOÃO – Psiu, psiu, vem cá! JÚLIO – É dali da janela. (Vai-se chegando para a janela. Nesse momento acende-se defronte da porta da casa, no fundo, uma composição mítica de fogo colorido que alumie fortemente a cena. Ao clarão do fogo os dois se reconhecem.) JOÃO, recuando para dentro – Ai! JÚLIO – O Sr. João! (Chegando-se para a janela:) Que faz Vossa Senhoria no quarto da ilhoa? JOÃO, um pouco de dentro – Nada, nada. Vim ver uns pintinhos que estavam no choco? JÚLIO – Pintos no choco? JOÃO – Sim, sim, pois nunca viu? JÚLIO – Mas Vossa Senhoria... (Desata a rir e caminha um pouco para a frente da cena, rindo-se sempre.) JOÃO, chegando à janela – Psiu, psiu! Venha cá; não ria-se tão alto! JÚLIO, rindo-se – Qual pintos! É pela ilhoa.

JOÃO – Cale-se, pelo amor de Deus! Venha cá, venha cá.

JÚLIO – Enganou-se com o meu capote! (Ri-se.) JOÃO – Ó homem, venha cá! Olhe que minha mulher pode vir.

JÚLIO, chegando – Pois Vossa Senhoria tem medo que a Sra. D. Clara o ache tirando pinto do choco? JOÃO – Deixemos de graça e fale baixo.

JÚLIO – Então é certo, a ilhoa? Ah, ah, ah! Vou contar isto lá dentro. (À parte:) Tu me pagarás.

JOÃO – Oh, não, meu amiguinho; minha mulher, se sabe que eu estou aqui, é capaz de arrancar-me os olhos.

JÚLIO – Há pouco era eu que rogava e Vossa Senhoria dizia não. Agora é Vossa Senhoria que roga, e eu também digo não. (João debruça pela janela e consegue agarrar em Júlio.) JOÃO – Escute. Não tome a coisa tão em grosso; não o quis ofender.

JÚLIO – Correr-me de sua casa! JOÃO – Não há tal.

JÚLIO – Negar-me com insultos a mão de sua filha! JOÃO – Não neguei.

JÚLIO – Não negou? JOÃO, à parte – Diabo! JÚLIO – Não negou, diz o senhor. Então concede-me? JOÃO – Não digo isso. Mas se...

JÚLIO – Ah! Sr.a D. Clara, Sra. D. Clara? JOÃO, querendo tapar-lhe a boca – Pelo amor de Deus! JÚLIO – Vossa Senhoria não negou-me a mão de sua filha? JOÃO – Seja razoável.

JÚLIO – Sra. D. Clara? JOÃO – Cale-se, homem. Cale-se com todos os milhões de diabos! JÚLIO – Nada. Quero que ela aqui venha para ver se pode explicar-me a razão por que Vossa Senhoria nega-me a mão de sua filha. Sra. D. Clara? JOÃO – E eu já lhe disse que lhe negava? JÚLIO – Não? Então concede-ma? JOÃO – Amanhã falaremos.

CLARA, no fundo – Ah, sô João, sô João? JÚLIO – Sua senhora aí vem.

JOÃO – Vá-se embora. (Abaixa e esconde-se.) JÚLIO, para dentro do quarto – Concede-ma? JOÃO, dentro – Concedo.

JÚLIO – Palavra de honra? JOÃO, dentro – Palavra de honra. (Neste tempo Clara está no meio da cena.) CLARA – Sô João? (Júlio quer caminhar para sair pelo fundo.) Quem é? JÚLIO – Sou eu, minha senhora.

CLARA – Ah, é o Sr. Júlio. Sabe-me dizer onde está o meu homem? JÚLIO – Não, minha senhora.

CLARA – E esta? Há uma hora que sumiu-se lá de dentro e não aparece. (Durante este diálogo, vê-se, pela janela da casinha, João muito aflito.) JÚLIO – Sem dúvida está dando algumas ordens lá por fora.

CLARA – Ordens a estas horas? Deixar as visitas na sala, e desaparecer! JÚLIO – Não se inquiete, minha senhora.

CLARA – Tenho muita razão de me inquietar. Velho como é, não pára. Ah, Sr. João? Sô João? JÚLIO, à parte – Em que talas não se vê ele! Está em meu poder. (Júlio diz estas palavras enquanto Clara chama pelo marido; volta para sair pelo fundo, e em meio da cena encontra-se com Luís. Júlio, para Luís:) Ainda teima? LUÍS – Ainda.

JÚLIO – Veremos.

LUÍS – Veremos. (Júlio sai pelo fundo.)

CENA XIII

Luís e Clara

LUÍS – Ó tiazinha! CLARA – Quem é? LUÍS – Tiazinha, tenho um favor que pedir-lhe...

CLARA – Viste teu tio? LUÍS – Não senhora. É um favor pelo qual lhe ficarei eternamente agradecido. Sei que a ocasião não é das mais oportunas. Este passo parece imprudente...

CLARA – Que parece não; que é.

LUÍS – Por quê, tia? CLARA – É falta de atenção.

LUÍS – Oh, a tia decerto está zombando. Se ainda não sabe...

CLARA – Sei, sei que ele está metido por aí, em algum lugar suspeito.

LUÍS – Como suspeito? De quem fala? CLARA – De teu tio.

LUÍS – Ora, não é dele que eu falo.

CLARA – Pois então vai-te embora.

LUÍS – Escute, tia. A minha bela priminha...

CLARA – Aonde estará? LUÍS – Lá dentro na alcova.

CLARA – Lá dentro na alcova? E o que está fazendo? LUÍS – Conversando com suas amigas.

CLARA – Com suas amigas? Pois também tem amigas? Bravo! LUÍS – Oh, que linguagem é esta! Pois não foi a tia quem as convidou? CLARA – Fui sim, mas não sabia que as convidava para desinquietarem um homem casado.

LUÍS – Um homem casado? CLARA – Um pai de família que se devia fazer respeitar pela sua idade.

LUÍS – Ai, que eu continuo a falar da prima, e ela do tio.

CLARA – Vou botá-los pela porta a fora.

LUÍS – Espere, tia, há engano entre nós. A tia fala do tio, e eu...

CLARA – E tenho muita razão de falar.

LUÍS – Não digo menos disso. O que eu pretendia dizer-lhe era...

CLARA – Já sei o que é. Quer desculpá-lo! Não vê que também é homem? Lá se entendem.

LUÍS – Continuamos no mesmo. Tia, atenda-me somente por alguns instantes, e depois eu lhe ajudarei a procurar o tio.

CLARA – Pois fala depressa.

LUÍS – Todos conhecem-me por namorador. Uns dizem que isto em mim é sistema, outros, que é devido ao meu gênio folgazão e alegre. Seja o que for, estou resolvido a acabar com todos esses namoros e casar-me. A resolução é extrema e de botar a perder um homem, mas a sorte está lançada.

CLARA, preocupada – Eu hei-de indagar isto.

LUÍS – Pode indagar. Falo de boa fé. E em quem poderia recair a minha escolha, senão na minha bela priminha? CLARA – Não posso consentir.

LUÍS – Não? E por que motivo? CLARA – Na sua idade? LUÍS – Perdoe-me a tia; está em muito boa idade.

CLARA – Boa idade! Sessenta e cinco anos! LUÍS – Adeus, tia, que não estou mais para jogar os disparates. (Vai para esquerda da cena e Clara vai para sair pelo fundo.) CLARA, caminhando – Ah, Sr. João? Sr. João? Eu hei-de dar com ele! (Vai-se pelo fundo.)

CENA XIV

Luís só

LUÍS – Quando os ciúmes metem-se na cabeça de uma mulher é isto. E se é velha como esta... Mau agouro para mim. Ora. Sr. Luís, é então verdade que o senhor está resolvido a casar-se? Já se não lembra do que dizia do casamento e dos grandes inconvenientes que lhe achava? Quer deixar a sua bela vida de namorador? O que é isto? Que resolução foi a sua? Que dirá a Ritinha, a Joaninha, a viuvinha, a Joaquinhinha, a Emília, a Henriqueta, a Cocota, a Quitinha, a Lulu, a Leopoldina, a Deolinda e as outras namoradas? Responde, Sr.

Luís. Os diabos me levem se eu sei responder. (Assenta-se no banco de relva. Ouve-se dentro de casa a voz de Júlio, que canta uma modinha, acompanhado por piano. [N.B.:] A modinha fica a escolha do autor. Logo que a tiver acabado de cantar, dão palmas. Tudo isto, porém, não interromperá a continuação das cenas.) Lá está cantando modinhas! Se estivesse como eu, não havia de ter vontade de cantar. Então? O caso não me tem feito impressão. (Aqui aparece no fundo, caminhando para a frente da cena, Clementina.) Ainda não sei o que farei. Creio que mesmo depois dos pregões corridos sou capaz de mandar tudo à tabua. Mas o meu capricho? Estou arranjado!

CENA XV

Clementina e Luís

CLEMENTINA, sem ver Luís – Estou com curiosidade de ver como estará o ovo... (Vai para ver o copo e Luís levanta-se.) LUÍS – Priminha? CLEMENTINA – Ai! LUÍS – Não se assuste.

CLEMENTINA – Não gosto destes brinquedos. Que susto! Eu vinha ver o ovo.

LUÍS – Encontraste com um amante; é o mesmo. O amante é como o ovo, que muitas vezes gora.

CLEMENTINA – Fala de si? (Rindo-se.) LUÍS – Antigamente assim fui, mas agora, priminha da minha alma, estou mudado. A noite de S. João fez um milagre. Ai, ai! (Suspira ruidosamente.) CLEMENTINA – Bravo! Por quem é esse suspiro tão puxado? LUÍS, caindo de joelhos – Por ti, minha priminha.

CLEMENTINA, desata a rir – Ah, ah! Por mim? Ó Ritinha? LUÍS – Cala-te! CLEMENTINA – Quero que ela venha ver isto e que caminho leva o seu amor.

LUÍS – Ms há já três meses que ela me ama! CLEMENTINA – Boa razão! Não a ama porque ela ainda o ama. É isto? LUÍS – Pois priminha, há três meses que ela me ama, e isto já é teima, e eu não me caso com mulher teimosa, isso nem pelo diabo.

CLEMENTINA – É teima? Quem te ensinará! LUÍS – Amei-a como amei a Quitinha, etc.

CLEMENTINA – O que aí vai! E todas essas foram teimosas? LUÍS – Umas mais, outras menos, mas tu, minha querida priminha...

CLEMENTINA – Oh, não se canse, que não sou teimosa; cedo desde já.

LUÍS – Contigo o caso é outro; hoje mesmo te principiei a amar, hoje mesmo nos casaremos e hoje mesmo...

CLEMENTINA, interrompendo-o – Ah, ah, ah! Ó Ritinha? Ritinha? (Ritinha aparece e encaminha-se para eles. Traz na mão uma vara com uma rodinha acesa. Os negros acendem a fogueira.) LUÍS – Também isto agora é teima! CLEMENTINA – Vem cá.

RITINHA – O que é? CLEMENTINA – Não te dizia que me admirava dos três meses? RITINHA – Ah! CLEMENTINA – Já te não ama, e chama-te de teimosa.

LUÍS – Priminha! RITINHA – Já me não ama? (Ritinha diz estas palavras dirigindo-se para Luís, que salta para evitar o fogo da rodinha que Ritinha dirige contra ele.) LUÍS, saltando – Cuidado com o fogo! CLEMENTINA – Fazia-me protestos de amor.

RITINHA, mesmo jogo – Ah, fazia protestos de amor? LUÍS – Não me queime! ( O velho fecha a janela com receio, que o vejam.) CLEMENTINA – Disse que ardia por mim.

LUÍS, fugindo de Ritinha, que o persegue com a rodinha – Agora é que eu arderei, se me deitam fogo.

RITINHA, mesmo jogo – Assim é que me pagas! LUÍS – Assim é que me pagas! (Fugindo sempre.) CLEMENTINA – Fogo nele, para não ser bandoleiro! (Ritinha segue mais de perto Luís, que foge e refugiase em cima da carroça.) Assim, assim, Ritinha, ensina-o.

RITINHA – Desce cá para baixo! LUÍS – Assim era eu asno! CLEMENTINA – Ritinha, vá buscar lá dentro duas pistolas de lágrimas.

LUÍS – Nem pistola, nem espingarda, nem peças não me farão gostar de vocês. Agora não me caso nem à bala.

CLEMENTINA – E também, quem é que quer casar com você? RITINHA – Eu não! CLEMENTINA – Quem é que acredita nas palavras de um namora-paredes? LUÍS – Muita gente! CLEMENTINA – Estás desacreditado! LUÍS – Na praça? CLEMENTINA – Não, com todas as moças.

LUÍS – Melhor, mais gostarão de mim.

RITINHA – Isto não se pode aturar! Vamo-nos embora.

CLEMENTINA – Presunçoso! (Vai a sair pelo fundo.) LUÍS – Adeus! Viva S. João! (Dentro respondem a gritos.)

CENA XVI

Luís, só, de cima da carroça

LUÍS – Fi-la bonita! Agora nem uma nem outra. Ainda bem! Mas o diabo é ficar o maroto do Júlio muito ufano com eu ter cedido. Histórias! Não cedo em outras coisas, que namorada pouco se me dá; acho cem por uma que deixo. Contudo estou zangado. Maldita noite de S. João!

CENA XVII

Maria vem do fundo da cena e vai a entrar na casinha

LUÍS, saltando da carroça – Psiu, psiu! MARIA, parando – Quem é? LUÍS, chegando-se para ela – Escuta uma coisa.

MARIA – Ai! O senhor que quer comigo? LUÍS – Desde o dia que principiaram a chegar a esta terra carregamentos de colonos, como antigamente chegavam carregamentos de cebolas, ainda cá não apareceu uma ilhoazinha com esses olhos matadores, com esses beicinhos rosados.

MARIA – Ai, o senhor está a mangar comigo.

LUÍS – As mais que eu por aí vejo são feias como uma lacraia e vermelhas como a crista do galo; mas tu és a nata das ilhoas. (Quer abraçá-la.) MARIA – Chegue-se para lá, que vou contar a meu marido. (Quer sair, Luís a retém.) LUÍS – Espera. É pena que estejas casada com teu marido.

MARIA – Ai, pois eu podia estar casada com um homem que não fosse meu marido? LUÍS – Pois não.

MARIA – Está zombando? (Neste tempo a fogueira está de todo acesa e todas as pessoas que estão na casa saem e ficam ao redor da fogueira, ad libitum.) LUÍS – Sentemo-nos neste banco, que te explicarei como pode isto ser. Aqui nos podem ver lá de cima com o clarão da fogueira.

MARIA – Estou com curiosidade.

LUÍS, à parte – Isto sei eu. (Assentam-se no banco.) Supõe que nunca tenhas visto teu marido... Que mãozinhas! (Pega-lhes nas mãos.) MARIA – Largue minha mão! LUÍS – Nem encontrado com ele... Que olhinhos! MARIA – Deixe meus olhos! LUÍS – Ora, se nunca o tivesse visto nem encontrado, está claro que agora não estarias casada com o teu marido.

MARIA – Ora vejam! E é verdade! LUÍS – Não terias dado essa mão, (pega-lhe na mão) que tanto estimo... (Aqui atravessa a cena Manuel, vestido de mulher, e entra no seu quarto.) MANUEL, atravessando a cena – Custou-me o arranjar-me...

MARIA – O senhor tem um modo de explicar as coisas que entram pelos olhos... De sorte que se eu não tivesse encontrado a Manuel, não estava hoje casada? LUÍS – Decerto.

MARIA – Sabe o senhor quando eu o vi? Foi numa festa que se deu no Funchal. (Manuel, depois de entrar no quarto, fecha a porta e fica dentro do quarto, defronte da janela. Chega-se para ele, como vindo do interior, João, que supondo ser a Maria, o abraça.) JOÃO – Minha ilhoazinha, minha Mariquinha! (Dá abraços e beijos, que Manuel corresponde.) MARIA – Hem? LUÍS – Não disse nada. Continua. (Continua a ter a mão dela na sua.) MARIA – Eu ia para a festa. Ai, agora é que me lembro que se não fosse a festa também não estava casada! LUÍS, dando-lhe um abraço – Maldita festa! MARIA – Fique quieto! Veja o diabo as arma.

LUÍS – É verdade! (Manuel e João, que ouvem as vozes dos dois, chegam-se para a janela, e dando com os dois no banco abaixo, ficam observando, dando sinais de grande surpresa.) MARIA – Estive quase não indo à festa, e se não fosse o meu vestido novo... Ai, senhor, e se não fosse o vestido novo, eu também não estava casada.

LUÍS, abraçando – Maldito vestido! MARIA – Foi minha tia que mo deu. Ai, que se eu também não tivesse tia, não era agora mulher de meu marido. (Manuel debruça-se pela janela e a agarra no pescoço.) MANUEL – Maldita mulher! (Maria dá um grito e levanta-se; o mesmo faz Luís. Maria, conhecendo o marido, deita a correr, atravessando a cena. Manuel salta pela janela e a persegue, gritando. Saem ambos da cena.) LUÍS, vendo Manuel saltar – Que diabo é isto? (Reconhecendo João, que fica à janela:) O tio João! JOÃO – Cala-te! (Esconde-se.) LUÍS, rindo-se – No quarto da ilhoa! (Acodem todos, isto é, Clara, Clementina, Ritinha, Júlio e os convidados.)

CENA XVIII

CLARA – O que é? Que gritos são estes? CLEMENTINA, ao mesmo tempo – O que aconteceu? RITINHA, ao mesmo tempo – O que foi? (Luís ri-se.) CLARA – O que é isto, Luís? Fala. (Luís continua a rir-se.) CLEMENTINA – De que se ri tanto o primo? CLARA – Não falarás? LUÍS – Quer que eu fale? Ah, ah, ah! CLARA – E esta? CLEMENTINA – Eu ouvi a voz da Maria.

CENA XIX

Entra Maria adiante de Manuel, gemendo. Manuel conserva-se vestido de mulher

RITINHA – Aí vem ela.

CLARA – A gemer. Que foi? MANUEL, que traz um pau na mão – Anda! (Maria vem gemendo, assenta-se no banco debaixo da janela.) CLARA – Ai, o Manuel vestido de mulher! Que mascarada é esta? CLEMENTINA – Como está feio! CLARA – Mas que é isto? Por que gemes? MARIA – Ai, ai, ai! Minhas costas...

MANUEL – É uma vergonha! CLARA, para Manuel – O que fez ela? MARIA, gemendo – Minha costela... minha cabeça...

MANUEL – O que fez? Um desaforo! Mas eu lhe ensinei com este pau.

CLARA – Deste-lhe com o pau? CLEMENTINA – Pobre Maria! MARIA – Ai, ai, ai! Minhas pernas...

CLARA, para Manuel – Mas por quê? MANUEL – Estava a desencaminhar-se com o Sr. Luís.

CLARA – Com meu sobrinho? CLEMENTINA, ao mesmo tempo – Com o primo? RITINHA, ao mesmo tempo – Com ele? JÚLIO, ao mesmo tempo – É bom saber! LUÍS – Não há tal, tia. Este diabo está bêbado! Não vê como está vestido? MANUEL – Olhe, senhora, que não estou bêbado. Eu bem vi, com estes olhos que a terra há-de comer, o senhor dar abraços na Maria.

CLARA – Ai, que indecência! CLEMENTINA – Que vergonha! Namorando uma ilhoa! RITINHA – Que humilhação! JÚLIO – De que se admiram, minhas senhoras? É esse o costume do Sr. Luís. Tudo lhe faz conta – a velha, a moça, a bonita, a feia, a branca, a cabocla...

CLEMENTINA – Que horror! RITINHA, ao mesmo tempo – Que horror! (Alguns convidados riem-se.) LUÍS – Psiu! Alto lá, Sr. Júlio, cá ninguém o chamou! JÚLIO – E o melhor é, minhas senhoras, que ele nutre grandes esperanças de casar-se com uma das senhoras desta roda.

TODAS AS SENHORAS – Comigo não! LUÍS, chegando-se para Júlio – Já estás cantando vitória? JÚLIO, para as senhoras – Vejam o que faz a presunção! LUÍS – Ainda é cedo, meu menino! Pensa que eu cedo com essa facilidade? (Aqui João sai do quarto do ilhéu, pé ante pé, para não ser visto, e encaminha-se para o fundo.) JÚLIO – Cederás, que te digo eu! LUÍS – Deverás? (Zombando. Volta para trás e vê João, que se retira para o fundo.) Ó tio João? Tio João? Venha cá! (Vai buscá-lo e trá-lo para frente.) CLARA – Ai, onde estava este homem metido? CLEMENTINA – O que quererá ele fazer? JÚLIO – O que pretenderá? LUÍS – Tio? CLARA, interrompendo e puxando João pelo braço – Aonde estavas? LUÍS, puxando-o pelo braço – Espere, tio, deixe que eu...

CLARA, mesmo jogo – Quero que me diga o que fez estas duas horas.

LUÍS, mesmo jogo – Logo perguntará por isso, que agora tenho eu que lhe falar.

CLARA, mesmo jogo – Nada; primeiro há-de me dizer onde esteve escondido. Isto se faz? Eu a procurá-lo...

LUÍS, mesmo jogo – Dê-me atenção! CLARA, mesmo jogo – Responda! LUÍS, mesmo jogo – Deixe-o! CLARA, mesmo jogo – Deixa-o tu também! LUÍS, metendo-se entre Clara e João – Ora tia, que impertinência é essa? Tem tempo de fazer-lhe perguntas e ralhar como quiser. (Enquanto Luís fala com Clara, Júlio segura João pelo braço.) JÚLIO – Lembre-se da sua promessa! LUÍS, puxando João pelo braço e falando-lhe à parte – Eu bem vi aonde estava... No quarto da ilhoa.

JÚLIO, mesmo jogo – Espero que não falte; quando não, digo tudo à Senhora D. Clara.

LUÍS, mesmo jogo – Se não consentir no que eu lhe quero pedir, descubro tudo à tia.

CLARA – O que quer isto dizer? JÚLIO, mesmo jogo, mas falando alto – Dá-me a sua filha por esposa? LUÍS, mesmo jogo – Concede-me a mão da prima? JÚLIO, mesmo jogo, à parte – Olhe que eu falo...

LUÍS, mesmo jogo – Se ma não der, conto tudo...

Fonte: www.unicamp.br

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