Facebook do Portal São Francisco Twitter do Portal de Educação Curtir
Home  O Noviço (Martins Pena)  Voltar

O Noviço

Martins Pena

Comédia em 3 atos

PERSONAGENS

AMBRÓSIO.
FLORÊNCIA, sua mulher.
EMÍLIA, sua filha.
JUCA, 9 anos, dito.
CARLOS, noviço da Ordem de S. Bento.
ROSA, provinciana, primeira mulher de Ambrósio.
PADRE-MESTRE DOS NOVIÇOS.
JORGE.
JOSÉ, criado.
1 meirinho, que fala.
2 ditos, que não falam.
Soldados de Permanentes, etc, etc.

( A cena passa-se no Rio de Janeiro.)

ATO PRIMEIRO

(A cena passa-se no Rio de Janeiro)

Sala ricamente adornada: mesa, consolos, mangas de vidro, jarras com flores, cortinas, etc., etc. No fundo, porta de saída, uma janela, etc., etc.

CENA I

AMBRÓSIO, só de calça preta e chambre - No mundo a fortuna é para quem sabe adquiri-la. Pintam-na cega... Que simplicidade! Cego é aquele que não tem inteligência para vê-la e a alcançar. Todo homem pode ser rico, se atinar com o verdadeiro caminho da fortuna. Vontade forte, perseverança e pertinácia são poderosos auxiliares. Qual o homem que, resolvido a empregar todos os meios, não consegue enriquecer-se? Em mim se vê o exemplo. Há oito anos, eu era pobre e miserável, e hoje sou rico, e mais ainda serei. O como não importa; no bom resultado está o mérito... Mas um dia pode tudo mudar. Oh, que temo eu? Se em algum tempo tiver que responder pelos meus atos, o ouro justificar-me-á e serei limpo de culpa. As leis criminais fizeram-se para os pobres

CENA II

Entra Florência vestida de preto, como quem vai à festa.

FLORÊNCIA - Entrando - Ainda despido, Sr. Ambrósio?

AMBRÓSIO - É cedo (Vendo o relógio) São nove horas e o ofício de Ramos principia às dez e meia.

FLORÊNCIA - É preciso ir mais cedo para tomarmos lugar.

AMBRÓSIO - Para tudo há tempo. Ora, dize-me, minha bela Florência...

FLORÊNCIA - O que, meu Ambrosinho?

AMBRÓSIO - O que pensa tua filha do nosso projeto?

FLORÊNCIA - O que pensa não sei eu, nem disso se me dá; quero eu - e basta. E é seu dever obedecer.

AMBRÓSIO - Assim é; estimo que tenhas caráter enérgico.

FLORÊNCIA - Energia tenho eu.

AMBRÓSIO - E atrativos, feiticeira.

FLORÊNCIA- Ai, amorzinho! (à parte: ) Que marido!

AMBRÓSIO - Escuta-me, Florência, e dá-me atenção. Crê que ponho todo o meu pensamento em fazer-te feliz...

FLORÊNCIA - Toda eu sou atenção

AMBRÓSIO - Dous filhos te ficaram do teu primeiro matrimônio. Teu marido foi um digno homem de muito juízo; deixou-te herdeira de avultado cabedal. Grande mérito é esse...

FLORÊNCIA - Pobre homem!

AMBRÓSIO - Quando eu te vi pela primeira vez não sabia que era viúva rica. ( à parte: ) Se o sabia! (Alto: ) Amei-te por simpatia.

FLORÊNCIA - Sei disso, vidinha.

AMBRÓSIO - E não foi o interesse que obrigou-me a casar contigo.

FLORÊNCIA - Foi o amor que nos uniu.

AMBRÓSIO - Foi, foi, mas agora que me acho casado contigo, é de meu dever zelar essa fortuna que sempre desprezei.

FLORÊNCIA, à parte - Que marido!

AMBRÓSIO, à parte - Que tola! (Alto:) Até o presente tens gozada desta fortuna em plena liberdade e a teu bel-prazer; mas daqui em diante, talvez assim não seja.

FLORÊNCIA - E por quê?

AMBRÓSIO - Tua filha está moça e em estado de casar-se. Casar-se-á, e terás um genro que exigirá a legítima de sua mulher, e desse dia, principiarão as amofinações para ti, e intermináveis demandas . Bem sabes que ainda não fizestes inventário.

FLORÊNCIA - Não tenho tido tempo, e custa-me tanto aturar procuradores!

AMBRÓSIO - Teu filho também vai a crescer todos os dias e será preciso por fim dar-lhe a sua legítima... Novas demandas

FLORÊNCIA - Não, não quero demandas.

AMBRÓSIO - É o que eu também digo; mas como prevení-las?

FLORÊNCIA - Faze o que entenderes, meu amorzinho.

AMBRÓSIO - Eu já te disse há mais de três meses o que era preciso fazermos para atalhar esse mal. Amas a tua filha, o que é muito natural, mas amas ainda mais a ti mesma...

FLORÊNCIA - O que também é muito natural...

AMBRÓSIO - Que dúvida! E eu julgo que podes conciliar esses dous pontos, fazendo Emília professar em um convento. Sim, que seja freira. Não terás nesse caso de dar legítima alguma, apenas um insignificante dote - e farás ação meritória.

FLORÊNCIA - Coitadinha! Sempre tenho pena dela; o convento é tão triste!

AMBRÓSIO - É essa compaixão mal-entendida! O que é este mundo? Um pélago de enganos e traições, um escolho em naufragam a felicidade e as doces ilusões da vida. E o que é o convento? Porto de salvação e ventura, asilo da virtude, único abrigo da inocência e verdadeira felicidade... E deve uma mãe carinhosa hesitar na escolha entre o mundo e o convento?

FLORÊNCIA - Não, por certo...

AMBRÓSIO - A mocidade é inexperiente, não sabe o que lhe convém. Tua filha lamentar-se-á, chorará desesperada, não importa; obriga-a e daí tempo ao tempo. Depois que estiver no convento e acalmar-se esse primeiro fogo, abençoará o teu nome e, junto ao altar, no êxtase de sua tranqüilidade e verdadeira felicidade, rogará a Deus por ti. (À parte:) E a legítima ficará em casa.

FLORÊNCIA - Tens razão, meu Ambrosinho, ela será freira.

AMBRÓSIO - A respeito de teu filho direi o mesmo. Tem ele nove anos e será prudente criarmo-lo desde já para frade.

FLORÊNCIA - Já ontem comprei-lhe o hábito com que andará vestido daqui em diante.

AMBRÓSIO - Assim não estranhará quando chegar à idade de entrar no convento; será frade feliz. ( À parte:) E a legítima também ficará em casa.

FLORÊNCIA - Que sacrifícios não farei eu para a ventura dos meus filhos!

CENA III

Entra Juca, vestido de frade, com chapéu desabado, tocando um assobio.

FLORÊNCIA - Anda cá, filhinho. Como estais galante com esse hábito!

AMBRÓSIO - Juquinha, gostas desta roupa?

JUCA - Não , não me deixa correr, é preciso levantar assim... (Arregaça o hábito)

AMBRÓSIO - Logo te acostumarás.

FLORÊNCIA - Filhinho, hás-de ser um fradinho muito bonito.

JUCA, chorando - Não quero ser frade!

FLORÊNCIA - Então, o que é isso?

JUCA - Hi, hi, hi... Não quero ser frade!

FLORÊNCIA - Menino!

AMBRÓSIO - Pois não te darei o carrinho que te prometi, todo bordado de prata, com cvalos de ouro.

JUCA, rindo-se - Onde está o carrinho?

AMBRÓSIO - Já o encomendei; é cousa muito bonita: os arreios todos enfeitados de fitas e veludo.

JUCA - Os cavalos são de ouro?

AMBRÓSIO - Pois não, de ouro com olhos de brilhantes.

JUCA - E andam sózinhos?

AMBRÓSIO - Se andam! De marcha e passo.

JUCA - Andam, mamãe?

FLORÊNCIA - Correm, filhinho.

JUCA, saltando de contente - Como é bonito! E o carrinho tem rodas, capim para os cavalos, uma moça bem enfeitada?

AMBRÓSIO - Não lhe falta nada.

JUCA - E quando vem?

AMBRÓSIO - Assim que estiver pronto.

JUCA, saltando e cantando, - Eu quero ser frade, eu quero ser frade... (Etc.)

AMBRÓSIO, para Florência - Assim o iremos acostumando

FLORÊNCIA - Coitadinho, é preciso comprar-lhe o carrinho!

AMBRÓSIO, rindo-se - Com cavalos de ouro?

FLORÊNCIA - Não.

AMBRÓSIO - Basta que se compre uma caixinha com soldadinhos de chumbo.

JUCA, saltando pela sala - Eu quero ser frade!

FLORÊNCIA - Está bom, Juquinha, serás frade, mas não grites tanto. Vai lá para dentro.

JUCA sai cantando - Eu quero ser frade... (etc.)

FLORÊNCIA - Estas crianças...

AMBRÓSIO - Este levaremos com facilidade... De pequenino se torce o pepino... Cuidado me dá o teu sobrinho Carlos.

FLORÊNCIA - Já vai para seis meses que ele entrou como noviço no convento.

AMBRÓSIO - E queira Deus que decorra o ano inteiro para professar, que só assim ficaremos tranqüilos.

FLORÊNCIA - E se fugir do convento?

AMBRÓSIO - Lá isso não temo eu... Está bem recomendado. É preciso empregarmos toda nossa autoridade para obrigá-lo a professar. O motivo, bem o sabes...

FLORÊNCIA - Mas olha que Carlos é da pele, é endiabrado.

AMBRÓSIO - Outros tenho eu domado... Vão sendo horas de sairmos, vou me vestir (Sai pela esquerda.)

CENA IV

FLORÊNCIA - Se não fosse este homem com quem casei-me segunda vez, não teria agora quem zelasse com tanto desinteresse a minha fortuna. É uma bela pessoa... Rodeia-me de cuidados e carinhos. Ora, digam lá que uma mulher não deve casar-se segunda vez... Se eu soubesse que havia de ser sempre tão feliz, casar-me-ia cinqüenta.

CENA V

Entrou Emília, vestida de preto, como querendo atravessar a sala.

FLORÊNCIA - Emília, vem cá.

EMÍLIA - Senhora?

FLORÊNCIA - Chega aqui. Ó menina, não deixarás este ar triste e lagrimoso em que andas?

EMÍLIA - Minha mãe, eu não estou triste. (Limpa os olhos com o lenço.)

FLORÊNCIA - Aí tem! Não digo? A chorar. De que chora?

EMÍLIA - De nada, não senhora.

FLORÊNCIA - Ora, isto é insuportável! Mata-se e amofina-se uma mãe extremosa para fazer a felicidade da sua filha, e como agradece esta? Arrepelando-se e chorando. Ora, sejam lá mãe e tenham filhos desobedientes...

EMÍLIA - Não sou desobediente. Far-lhe-ei a vontade; mas não posso deixar de chorar e sentir. (Aqui aparece à porta por onde saiu, Ambrósio, em mangas de camisa, para observar)

FLORÊNCIA - E por que tanto chora a menina, por quê?

EMÍLIA - Minha mãe...

FLORÊNCIA - O que tem de mau a vida de freira?

EMÍLIA - Será muito boa, mas é que não tenho inclinação nenhuma para ela.

FLORÊNCIA - Inclinação, inclinação! O que quer dizer inclinação? Terás, sem dúvida, por algum francelho freqüentador de bailes e passeios, jogador do écarté e dançador de polca? Essas inclinações é que perdem muitas meninas. esta cabecinha ainda está muito leve; eu é que sei o que me convém: serás freira.

EMÍLIA - Serei freira, minha mãe, serei! Assim como estou certa que hei-de ser desgraçada.

FLORÊNCIA - Histórias! Sabes tu o que é o mundo? O mundo é... é... (À parte:) Já não me recordo o que me disse o Sr. Ambrósio o que era o mundo. (Alto:) O mundo é... um... é... (À parte:) E esta? (Vendo Ambrósio junto da porta:) Ah, Ambrósio, dize aqui a esta estonteada o que é o mundo.

AMBRÓSIO, adiantando-se - O mundo é um pélago de enganos e traições, um escolho em que naufragam as felicidades e as doces ilusões da vida... E o convento é porto de salvação e ventura, único abrigo da inocência e da verdadeira felicidade... Onde está minha casaca?

FLORÊNCIA - Lá em cima no sótão. (Ambrósio sai pela direita. Florência para Emília:) Ouviste o que é o mundo, e o convento? Não sejas pateta, vem acabar de vestir-te, que são mais que horas. (Sai pela direita)

CENA VI

Emília e depois Carlos

EMÌLIA - É minha mãe, devo-lhe obediência, mas este homem, meu padrasto, como o detesto! Estou certa que foi ele quem persuadiu a minha mãe que me metesse no convento. Ser freira? Oh, não, não! E Carlos, que tanto amo? Pobre Carlos, também te perseguem! E por que nos perseguem assim? Não sei. Como tudo mudou nesta casa, depois que minha mãe casou-se com este homem! Então não pensou ela na felicidade de seus filhos. Ai, ai!

CENA VII

Carlos, com hábito de noviço, entra assustado e fecha a porta.

EMÍLIA, assustando-se - Ah, quem é? Carlos!

CARLOS - Cala-te

EMÍLIA - Meu Deus, o que tens, por que estás tão assustado? O que foi?

CARLOS - Aonde está minha tia, e o teu padrasto?

EMÍLIA - Lá em cima. Mas o que tens?

CARLOS - Fugi do convento, e aí vêm eles atrás de mim.

EMÍLIA - Fugiste? E por que motivo?

CARLOS - Por que motivo? pois faltam motivos para se fugir de um convento? O último foi o jejum em que vivo há sete dias... Vê como tenho esta barriga, vai a sumir-se. Desde sexta feira passada que não mastigo pedaço que valha a pena.

EMÍLIA - Coitado!

CARLOS - Hoje, já não podendo, questionei com o D. Abade. Palavras puxam palavras; dize tu, direi eu, e por fim de contas arrumei-lhe uma cabeçada, que o atirei por esses ares.

EMÍLIA - O que fizestes, louco?

CARLOS - E que culpa tenho eu, se tenho a cabeça esquentada? Para que querem violentar minhas inclinações? Não nasci para frade, não tenho jeito nenhum para estar horas inteiras no coro a rezar com os braços encruzados. Não me vai o gosto para aí... Não posso jejuar; tenho, pelo mesno três vezes ao dia, uma fome de todos os diabos. Militar é que eu quisera ser; para aí chama-me a inclinação. Bordoadas, espadeiradas, rusgas é que me regalam; esse é o meu gênio. Gosto de teatro, e de lá ninguém vai ao teatro, à exceção de Frei Maurício, que freqüenta a platéia de casaca e cabelereira para esconder a coroa.

EMÍLIA - Pobre Carlos, como terás passado estes seis meses de noviciado!

CARLOS - Seis meses de martírio! Não que a vida de frade seja má; boa é ela para quem a sabe gozar e que para ela nasceu; mas eu, priminha, eu que tenho para tal vidinha negação completa, não posso!

EMÍLIA - E os nossos parentes quando nos obrigam a seguir uma carreira para a qual não temos inclinação alguma, dizem que o tempo acostumar-nos-á.

CARLOS - O tempo acostumar! Eis aí porque vemos entre nós tantos absurdos e disparates. Este tem jeito para sapateiro: pois vá estudar medicina... Excelente médico! Aquele tem inclinação para cômico: pois não senhor, será político... Ora, ainda isso vá. Estoutro só tem jeito para caiador ou borrador: nada, é ofício que não presta... Seja diplomata, que borra tudo quanto faz. Aqueloutro chama-lhe toda a propensão para a ladroeira; manda o bom senso que se corrija o sujeitinho, mas isso não se faz; seja tesoureiro de repartição fiscal, e lá se vão os cofres da nação à garra... Essoutro tem uma grande carga de preguiça e indolência e só serviria para leigo de convento, no entanto vemos o bom do mandrião empregado público, comendo com as mãos encruzadas sobre a pança o pingue ordenado da nação.

EMÍLIA - Tens muita razão; assim é.

CARLOS - Este nasceu para poeta ou escritor, com uma imaginação fogosa e independente, capaz de grandes cousas, mas não pode seguir a sua inclinação, porque poetas e escritores morrem de miséria, no Brasil... E assim o obriga a necessidade a ser o mais somenos amanuense em uma repartição pública e a copiar cinco horas por dia os mais soníferos papéis. O que acontece? Em breve matam-lhe a inteligência e fazem do homem pensante máquina estúpida, e assim se gasta uma vida? É preciso, é já tempo que alguém olhe para isso, e alguém que possa.

EMÍLIA - Quem pode nem sempre sabe o que se passa entre nós, para poder remediar; é preciso falar.

CARLOS - O respeito e a modéstia prendem muitas línguas, mas lá vem um dia que a voz da razão se faz ouvir, e tanto mais forte quanto mais comprimida.

EMÍLIA - Mas Carlos, hoje te estou desconhecendo...

CARLOS - A contradição em que vivo tem-me exasperado! E como queres tu que eu não fale quando vejo, aqui, um péssimo cirurgião que poderia ser bom alveitar; ali um ignorante general que poderia ser excelente enfermeiro; acolá, um periodiqueiro que só serviria para arrieiro, tão desbocado e insolente é, etc., etc. Tudo está fora de seus eixos.

EMÍLIA - Mas que queres tu que se faça?

CARLOS - Que não se constranja ninguém, que se estudem os homens e que haja uma bem entendida e esclarecida proteção, e que, sobretudo, se despreze o patronato, que assenta o jumento nas bancas das academias e amarra o homem de talento à manjedoura. Eu, que quisera viver com uma espada à cinta e à frente do meu batalhão, conduzi-lo ao inimigo através da metralha, bradando: "Marcha... (Manobrando pela sala, entusiasmado:) Camaradas, coragem, calar baionetas! Marche, marche! Firmeza, avança! O inimigo fraqueia... (Seguindo Emília, que recua, espantada:) Avança!"

EMÍLIA - Primo, primo, que é isso? Fique quieto!

CARLOS, entusiasmado - "Avança, bravos companheiros, viva a Pátria Viva!" - e voltar vitorioso, coberto de sangue e poeira... Em vez desta vida de agitação e glória, hei-de ser frade, revestir-me de paciência e humildade, encomendar defuntos... (Cantando:) Requiescat in pace... a porta inferi! amen... O que seguirá disto? O ser eu péssimo frade, descrédito do convento e vergonha do hábito que visto. Falta-me a paciência.

EMÍLIA - Paciência, Carlos, preciso eu também ter, e muita. Minha mãe declarou-me positivamente que eu hei-de ser freira.

CARLOS - Tu, freira? Também te perseguem?

EMÍLIA - E meu padrasto ameaça-me.

CARLOS - Emília, aos cinco anos estava eu órfão, e tua mãe, minha tia, foi nomeada por meu pai sua testamenteira e minha tutora. Contigo cresci nesta casa e à amizade de criança seguiu-se inclinação mais forte... Eu te amei, Emília, e tu também me amaste.

EMÍLIA - Carlos!

CARLOS - Vivíamos felizes esperando que um dia nos uniríamos. Nesses planos estávamos quando apareceu este homem, não sei donde, e que soube a tal ponto iludir tua mãe, que a fez esquecer-se de seus filhos que tanto amava, de seus interesses e contrair segundas núpcias.

EMÍLIA - Desde então nossa vida tem sido tormentosa...

CARLOS - Obrigaram-me a ser noviço, e não contentes com isso, querem-te fazer freira. Emília, há muito tempo que eu observo este teu padrasto. E sabes qual tem sido o resultado das minhas observações?

EMÍLIA - Não.

CARLOS - Que ele é um rematadíssimo velhaco.

EMÍLIA - Oh, estás bem certo disso?

CARLOS - Certíssimo! Esta resolução que tomaram, de fazerem-te freira, confirma a minha opinião.

EMÍLIA - Explica-te

CARLOS - Teu padrasto persuadia a minha tia que me obrigasse a ser frade para assim roubar-me, impunemente , a herança que meu pai deixou-me. Um frade não põe demandas...

EMÍLIA - É possível?

CARLOS - Ainda mais; querem que tu sejas freira para não te darem dote, se te casares.

EMÍLIA - Carlos, quem te disso isso? Minha mãe não é capaz!

CARLOS - Tua mãe vive iludida. Oh, que não possa eu desmascarar este tratante!...

EMÍLIA - Fala baixo!

CENA VIII

Entra Juca

JUCA - Mana, mamãe pergunta por você.

CARLOS - De hábito? Também ele? Ah!...

JUCA, correndo para Carlos - Primo Carlos.

CARLOS, tomando-o no colo - Juquinha! Então, prima, tenho ou não razão? Há ou não plano?

JUCA - Primo, você também é frade? Já lhe deram também um carrinho de prata com cavalos de ouro?

CARLOS - O que dizes?

JUCA - Mamãe disse que havia de me dar um muito dourado quando eu fosse frade (Cantando:) Eu quero ser frade... (etc., etc.)

CARLOS, para Emília - Ainda duvidas? Vê como enganam esta inocente criança!

JUCA - Não enganam não, primo; os cavalos andam sozinhos.

CARLOS, para Emília - Então?

EMÍLIA - Meu Deus!

CARLOS - Deixa o caso por minha conta. Hei-de fazer uma estralada de todos os diabos, verão...

EMÍLIA - Prudência!

CARLOS - Deixa-os comigo. Adeus, Juquinha, vai para dentro com tua irmã (Bota-o no chão.)

JUCA - Vamos, mana. (Sai cantando:) Eu quero ser frade... (Emília o segue.)

CENA IX

CARLOS, só - Hei-de descobrir algum meio... Oh, se hei-de! Hei-de ensinar a este patife, que casou-se com minha tia para comer não só a sua fortuna, como a de seus filhos. Que belo padrasto!.. Mas por ora tratemos de mim; sem dúvida no convento anda tudo em polvorosa... Foi boa cabeçada! O D. Abade deu um salto de trampolim... (Batem à porta.) Batem? Mau! Serão eles? (Batem.) Espreitemos pelo buraco da fechadura. (Vai espreitar) É uma mulher... (Abre aporta.)

CENA X

Rosa e Carlos.

ROSA - Dá licença?

CARLOS - Entre.

ROSA, entrando - Uma serva de Vossa Reverendíssima.

CARLOS - Com quem tenho o prazer de falar?

ROSA - Eu, Reverendíssimo Senhor, sou uma pobre mulher. Ai, estou muito cansada...

CARLOS - Pois sente-se, senhora. (À parte:) Quem será?

ROSA, sentando-se - Eu chamo-me Rosa. Há uma hora que cheguei do Ceará no vapor Paquete do Norte.

CARLOS - Deixou aquilo por lá tranqüilo?

ROSA - Muito tranqüilo, Reverendíssimo. Houve apenas no mês passado vinte e cinco mortes.

CARLOS - S. Brás! Vinte e cinco mortes! E chama a isso tranqüilidade?

ROSA - Se Vossa Reverendíssima soubesse o que por lá vai, não se admiraria. Mas, meu senhor, isto são cousas que nos não pertencem; deixe lá morrer quem morre, que ninguém se importa com isso. Vossa Reverendíssima é cá da casa?

CARLOS - Sim senhora.

ROSA - Então é parente de meu homem?

CARLOS - De seu homem?

ROSA - Sim senhor.

CARLOS - E quem é seu homem?

ROSA - Sr. Ambrósio Nunes.

CARLOS - O Sr. Ambrósio Nunes!...

ROSA - Somos casados há oito anos.

CARLOS - A senhora é casada com o Sr. Ambrósio Nunes, e isto há oito anos?

ROSA- Sim senhor.

CARLOS - Sabe o que está dizendo?

ROSA- Essa é boa

CARLOS - Está em seu perfeito juízo?

ROSA - O Reverendíssimo ofende-me...

CARLOS - Com a fortuna! Conte-me isso, conte-me como se casou, quando, como, em que lugar?

ROSA - O lugar foi na igreja. Está visto. Quando, já disse; há oito anos.

CARLOS - Mas onde?

ROSA, levanta-se - Eu digo a Vossa Reverendíssima. Sou filha do Ceará. Tinha eu meus quinze anos quando lá apareceu, vindo do Maranhão, o Sr. Ambrósio. Foi morar na nossa vizinhança. Vossa Reverendíssima bem sabe o que são vizinhanças... Eu o via todos os dias, ele também via-me; eu gostei, ele gostou e nos casamos.

CARLOS - Isso foi anda mão, fia dedo... E tem documentos que provem o que diz?

ROSA - Sim senhor, trago comigo a certidão do vigário que nos casou, assinada pelas testemunhas, e pedi logo duas, por causa das dúvidas. Podia perder uma...

CARLOS - Continue.

ROSA - Vivi dois anos com meu marido muito bem. Passado esse tempo, morreu minha mãe. O Sr. Ambrósio tomou conta de nossos bens, vendeu-os e partiu para Montevidéu a fim de empregar o dinheiro em um negócio, no qual, segundo dizia, havíamos de ganhar muito. Vai isto para seis anos, mas desde então, Reverendíssimo Senhor, não soube mais notícias dele.

CARLOS - Oh!

ROSA - Escrevi-lhe sempre, mas nada de receber resposta. Muito chorei, porque pensei que ele havia morrido.

CARLOS - A história vai interessando-me, continue.

ROSA - Eu já estava desenganada, quando um sujeito que foi aqui do Rio disse-me que meu marido ainda vivia e que habitava na Corte.

CARLOS - E nada mais lhe disse?

ROSA - Vossa Reverendíssima vai espantar-se do que eu disser...

CARLOS - Não me espanto, diga

ROSA - O sujeito acrescentou que meu marido tinha-se casado com outra mulher.

CARLOS - Ah, disse-lhe isso?

ROSA - E muito chorei eu, Reverendíssimo; mas depois pensei que era impossível, pois um homem pode lá casar-se tendo a mulher viva? Não é verdade, Reverendíssimo?

CARLOS - A bigamia é um grande crime; o Código é muito claro.

ROSA - Mas na dúvida, tirei as certidões do meu casamento, parti para o Rio, e assim que desembarquei, indaguei onde ele morava. Ensinaram-me e venho eu mesma perguntar-lhe que histórias são essas de casamentos.

CARLOS - Pobre mulher, Deus se compadeça de ti!

ROSA - Então é verdade?

CARLOS - Filha, a resignação é uma grande virtude. Quer fiar-se em mim, seguir meus conselhos?

ROSA - Sim senhor, mas que tenho eu a temer? Meu marido está com efeito casado?

CARLOS - Dê-me cá uma das certidões.

ROSA - Mas...

CARLOS - Fia-se ou não em mim?

ROSA - Aqui está. (Dá-lhe uma das certidões.)

AMBRÓSIO, dentro - Desçam, desçam, que passam as horas.

CARLOS - Aí vem ele.

ROSA - Meu Deus!

CARLOS - Tomo-a debaixo da minha proteção. Venha cá; entre neste quarto.

ROSA - Mas Reverendíssimo...

CARLOS - Entre, entre, senão abandono-a. (Rosa entra no quarto à esquerda e Carlos cerra aporta.)

CENA XI

CARLOS, só - Que ventura, ou antes, que patifaria! Que tal? Casado com duas mulheres! Oh, mas o Código é muito claro... Agora verás como se rouba e se obriga a ser frade...

CENA XII

Entra Ambrósio de casaca seguido de Florência e Emília, ambas de véu de renda preta sobre a cabeça.

AMBRÓSIO, entrando - Andem, andem! Irra, essas mulheres a vestirem-se fazem perder a paciência!

FLORÊNCIA, - Estamos prontas.

AMBRÓSIO ,vendo Carlos - Oh, que fazes aqui?

CARLOS principia a passear pela sala de um para outro lado - Não vê? Estou passeando; divirto-me.

AMBRÓSIO - Como é lá isso?

CARLOS, do mesmo modo - Não é da sua conta.

FLORÊNCIA - Carlos, que modos são esses?

CARLOS - Que modos são? São os meus.

EMÍLIA, à parte - Ele se perde!

FLORÊNCIA - Estás doudo?

CARLOS - Doudo estava alguém quando... Não me faça falar...

FLORÊNCIA - Hem?

AMBRÓSIO - Deixe-o comigo. (Para Carlos:) Por que saíste do convento?

CARLOS - Porque quis. Então não tenho vontade?

AMBRÓSIO - Isso veremos. Já para o convento!

CARLOS - rindo-se com força - Ah, ah, ah !

AMBRÓSIO - Ri-se?

FLORÊNCIA, ao mesmo tempo - Carlos!

EMÍLIA - Primo!

CARLOS - Ah, ah, ah!

AMBRÓSIO, enfurecido - Ainda uma vez, obedece-me, ou...

CARLOS - Que cara! Ah, ah! (Ambrósio corre para cima de Carlos.)

FLORÊNCIA, metendo-se no meio - Ambrosinho!

AMBRÓSIO - Deixe-me ensinar a este malcriado.

CARLOS - Largue-o, tia, não tenha medo.

EMÍLIA - Carlos!

FLORÊNCIA - Sobrinho, o que é isso?

CARLOS - Está bom, não se amofinem tanto, voltarei para o convento.

AMBRÓSIO - Ah, já?

CARLOS - Já, sim senhor, quero mostrar a minha obediência.

AMBRÓSIO - E que não fosse.

CARLOS - Incorreria no seu desagrado? Forte desgraça!...

FLORÊNCIA - Principias?

CARLOS - Não senhora, quero dar uma prova de submissão ao senhor meu tio... É, meu tio, é... Casado com minha tia segunda vez... Quero dizer, minha tia é que se casou segunda vez.

AMBRÓSIO, assustando-se, à parte - O que diz ele?

CARLOS, que o observa - Não há duvida...

FLORÊNCIA , para Emília - O que tem hoje este rapaz?

CARLOS - Não é assim, senhor meu tio? Venha cá, faça-me o favor, senhor meu rio. (Travando-lhe do braço.)

AMBRÓSIO - Tira as mãos.

CARLOS - Ora, faça-me o favor, senhor meu tio, quero-lhe mostrar uma coisa; depois farei o que quiser. (Levando-o para a porta do quarto.)

FLORÊNCIA - O que é isto?

AMBRÓSIO - Deixa-me!

CARLOS - Um instante. (Retendo Ambrósio com uma mão, com a outra empurra a porta e aponta para dentro, dizendo:) Vê!

AMBRÓSIO, afirmando a vista - Oh! (Volta para junto de Florência e de Emília, e as toma convulsivo pelo braço.) - Vamos, vamos, são horas!

FLORÊNCIA - O que é?

AMBRÓSIO, forcejando por sair e levá-las consigo - Vamos, vamos!

FLORÊNCIA - Sem chapéu?

AMBRÓSIO - Vamos, vamos! (Sai, levando-as.)

C A R L O S - Então, senhor meu tio? Já não quer que eu vá para o convento? (Depois que ele sai.) Senhor meu tio, senhor meu tio? (Vai a porta, gritando.)

CENA XIII

Carlos, só e depois Rosa

CARLOS, rindo-se - Ah, ah, ah, agora veremos, e me pagarás... E minha tia também há-de pagá-lo, para não se casar na sua idade e ser tão assanhada. E o menino, que não se contentava com uma!...

ROSA, entrando - Então, Reverendíssimo?

CARLOS - Então?

ROSA - Eu vi meu marido um instante e fugiu. Ouvi vozes de mulheres...

CARLOS - Ah, ouviu? Muito estimo. E sabe de quem eram essas vozes?

ROSA - Eu tremo de adivinhar...

CARLOS - Pois adivinhe logo de uma assentada... Eram da mulher de seu marido.

ROSA - E então verdade? Pérfido, traidor! Ah, desgraçada! (Vai a cair desmaiada e Carlos a sustém nos braços.)

CARLOS - Desmaiada! Sr.a D. Rosa? Fi-la bonita! Esta é mesmo de frade... Senhora, torne a si, deixe desses faniquitos Olhe que aqui não há quem a socorra. Nada! E esta? Ó Juquinha? Juquinha? (Juca entra, trazendo em uma mão um assobio de palha e tocando em outro.) Deixa esses assobios sobre a mesa e vai lá dentro buscar alguma cousa para esta moça cheirar.

JUCA - Mas o quê, primo?

CARLOS - A primeira cousa que encontrares. (Juca larga os assobios na mesa e sai correndo.) Isto está muito bonito! Um frade com uma moça desmaiada nos braços. Valha-me Santo Antônio! O que diriam, se assim me vissem? (Gritando-lhe ao ouvido:) Olá! - Nada.

JUCA ,entra montado a cavalo em um arco de pipa, trazendo um galheteiro - Vim a cavalo para chegar mais depressa. Está o que achei.

CARLOS - Um galheteiro, menino?

JUCA - Não achei mais nada.

CARLOS - Está bom, dá cá o vinagre. (Toma o vinagre e o chega ao nariz de Rosa.) Não serve; está na mesma. Toma...Vejamos se o azeite faz mais efeito. Isto parece-me salada... Azeite e vinagre. Ainda está mal temperada; venha a pimenta da Índia. Agora creio que não falta nada. Peior é essa; a salada ainda não está boa! Ai, que não tem sal. Bravo, está temperada! Venha mais sal... Agora sim.

ROSA, tomando a si- Onde estou eu?

CARLOS - Nos meus braços.

ROSA, afastando-se - Ah, Reverendíssimo!

CARLOS - - Não se assuste. (Para Juca:) Vai para dentro (Juca sai)

ROSA - Agora me recordo... Pérfido, ingrato!

CARLOS - Não torne a desmaiar, que já não posso.

ROSA - Assim enganar-me! Não há leis, não há justiça?...

CARLOS - Há tudo isso, e de sobra. O que não há é quem as execute. (Rumor na rua)

ROSA, assustando-se - Ah!

CARLOS - O que será isto? (Vai à janela.) Ah, com S. Pedro! (À parte:) O mestre de noviços seguido de meirinhos que me procuram... Não escapo...

ROSA - O que é, Reverendíssimo? De que se assusta?

CARLOS - Não é nada. (À parte:) Estou arranjado! (Chega à janela.) Estão indagando na vizinhança... O que farei?

ROSA - Mas o que é? O quê?

CARLOS, batendo na testa - Oh, só assim... (Para Rosa:) Sabe o que é isto?

ROSA - Diga.

CARLOS - E um poder de soldados e meirinhos que vem prendê-la por ordem de seu marido.

ROSA - Jesus! Salve-me, salve-me!

CARLOS - Hei-de salvá-la; mas faça o que eu lhe disser.

ROSA - Estou pronta

CARLOS - Os meirinhos entrarão aqui e hão-de levar por força alguma cousa - esse é o seu costume. O que é preciso é enganá-los.

ROSA - E como?

CARLOS - Vestindo a senhora o meu hábito, e eu o seu vestido.

ROSA - Oh!

CARLOS - Levar-me-ão preso; terá a senhora tempo de fugir.

ROSA - Mas...

CARLOS - Ta, ta, ta... Ande, deixe-me fazer uma obra de caridade; para isso é que somos frades. Entre para este quarto, dispa lá o seu vestido e mande-me, assim como a toca e xale. Ó Juca? Juca? (Empurrando Rosa:) Não se demore. (Entra Juca.)Juca, acompanha esta senhora e faze o que ela te mandar. Ande, senhora, com mil diabos! (Rosa entra no quarto a esquerda, empurrada por Carlos.)

CENA XIV

CARLOS, só - Bravo, esta é de mestre! (Chegando à janela:) Lá estão eles conversando com o vizinho do armarinho. Não tardarão a dar com o rato na ratoeira, mas o rato é esperto e os logrará. Então, vem o vestido?

ROSA, dentro - Já vai.

CARLOS - Depressa! O que me vale é ser o mestre de noviços catacego e trazer óculos. Cairá na esparrela(Gritando:) Vem ou não?

JUCA, traz o vestido, toca e o xale - Esta.

CARLOS - Bom. (Despe o hábito.) Ora vá, senhor hábito. Bem se diz que o hábito não faz o monge. (Dá o hábito e o chapéu a Juca.) Toma, leva à moça. (Juca sai.) Agora é que são elas... Isto é mangas? Diabo, por onde se enfia esta geringonça? Creio que é por aqui... Bravo acertei. Belíssimo! Agora a toca. (Põe a toca.) Vamos ao xale... Estou guapo; creio que farei a minha parte de mulher excelentemente. (Batem na porta.) São eles. (Com voz de mulher.) Quem bate?

MESTRE, dentro - Um servo de Deus.

CARLOS, com a mesma voz - Pode entrar quem é.

CENA XV

Carlos, Mestre de Noviços e três meirinhos

MESTRE - Deus esteja nesta casa

CARLOS - Humilde serva de Vossa Reverendíssima...

MESTRE - Minha senhora, terá a bondade de perdoar-me pelo incômodo que lhe damos, mas nosso dever...

CARLOS - Incômodos, Reverendíssimo Senhor?

MESTRE - Vossa Senhoria há-de permitir que lhe pergunte se o noviço Carlos, que fugiu do convento...

CARLOS - Psiu, caluda!

MESTRE - Hem?

CARLOS - Está ali...

MESTRE - Quem?

CARLOS - O noviço...

MESTRE - Ah!

CARLOS - E preciso surpreendê-lo ...

MESTRE - Estes senhores oficiais de justiça nos ajudarão.

CARLOS - Muito cuidado. Este meu sobrinho dá-me um trabalho...

MESTRE - Ah, a senhora é sua tia?

CARLOS - Uma sua criada.

MESTRE - Tenho muita satisfação.

C AR L O S - Não percamos tempo. Fiquem os senhores aqui do lado da porta, Muito calados; eu chamarei o sobrinho. Assim que ele sair, não lhe dêem tempo de fugir; lancem-se de improviso sobre ele e levem-no à força.

MESTRE - Muito bem

CARLOS - Diga ele o que disser, grite como gritar, não façam caso, arrastem-no.

MESTRE - Vamos a isso.

CARLOS - Fiquem aqui. (Coloca-os junto à porta da esquerda.) Atenção. (Chamando para dentro:) Psiu! Psiu! Saia cá para fora, devagarinho! (Prevenção.)

CENA XVI

Os mesmos e Rosa vestida de frade e chapéu na cabeça.

ROSA, entrando - Já se foram? (Assim que ela aparece, o Mestre e os meirinhos se lançam sobre ela e procuram carregar até fora.)

MESTRE- Está preso. Há-de ir. E inútil resistir. Assim não se foge... (Etc., etc.)

ROSA, lutando sempre - Ai, ai, acudam-me! Deixem-me! Quem me socorre? (Etc.)

CARLOS - Levem-no, levem-no. (Algazarra de vozes; todos falam ao mesmo tempo, etc. Carlos, para aumentar o ruído, toma um assobio que está sobre a mesa e toca. Juca também entra nessa ocasião, etc. Execução.)

FIM DO PRIMEIRO ATO

voltar 123avançar
Sobre o Portal | Politica de Privacidade | Fale Conosco | Anuncie | Indique o Portal