Quarto em casa de Florência: mesa, cadeiras, etc., etc., armário, uma cama grande com cortinados, uma mesa pequena com um castiçal com vela acesa. É noite.
Florência deitada, Emília sentada junto dela, Juca vestido de calça, brincando com um carrinho pela sala.
FLORÊNCIA - Meu Deus, meu Deus, que bulha faz esse menino!
EMÍLIA - Maninho, estais fazendo muita bulha a mamãe...
FLORÊNCIA - Minha cabeça! Vai correr lá para dentro...
EMÍLIA - Anda, vai para dentro, vai para o quintal. (Juca sai com o carrinho.)
FLORÊNCIA - Parece que me estala a cabeça... São umas marteladas aqui nas fontes. Ai, que não posso! Morro desta!...
EMÍLIA - Minha mãe, não diga isso, seu incômodo passará.
FLORÊNCIA - Passará? Morro, morro...(Chorando:) Hi.... (Etc.)
EMÍLIA - Minha mãe!
FLORÊNCIA, chorando - Ser assim traída, enganada! Meu Deus, quem pode resistir? Hi, hi!
EMÍLIA - Para que tanto se aflige? Que remédio? Ter paciência e resignação.
FLORÊNCIA - Um homem em quem havia posto toda a minha confiança, que eu tanto amava... Emília, eu o amava muito!
EMÍLIA - Coitada!
FLORÊNCIA - Enganar-me deste modo! Tão indignamente, casado com outra mulher. Ah, não sei como não arrebento...
EMÍLIA - Tranqüilize-se, minha mãe.
FLORÊNCIA - Que eu supunha desinteressado... Entregar-lhe todos os meus bens, assim iludir-me... Que malvado, que malvado!.
EMÍLIA - São horas de tomar o remédio. (Toma uma garrafa de remédio, deita-o em uma xícara e dá a Florência.)
FLORÊNCIA - Como os homens são falsos! Uma mulher não era capaz de cometer ação tão indigna. O que é isso?
EMÍLIA - O cozimento que o doutor receitou.
FLORÊNCIA - Dá cá. (Bebe.) Ora, de que servem estes remédios? Não fico boa; a ferida é no coração...
EMÍLIA - Há de curar-se.
FLORÊNCIA - Ora, filha, quando eu vi diante de mim essa mulher, senti uma revolução que te não sei explicar... um atordoamento, uma zoada, que há de oito dias me tem pregado nesta cama.
EMÍLIA - Eu estava no meu quarto quando ouvi gritos na sala. Saí apressada e no corredor encontrei-me com meu padrasto...
FLORÊNCIA - Teu padrasto?
EMÍLIA - ... que passando como uma flecha por diante de mim, dirigiu-se para o quintal e saltando o muro, desapareceu. Corri para a sala...
FLORÊNCIA - E aí encontraste-me banhada em lágrimas. Ela já tinha saído, depois de ameaçar-me. Ah, mas eu hei-de ficar boa para vingar-me!
EMÍLIA - Sim, é preciso ficar boa, para vingar-se.
FLORÊNCIA - Hei-de ficar. Não vale a pena morrer por um traste daquele!
EMÍLIA - Que dúvida!
FLORÊNCIA - O meu procurador disse-me que o tratante está escondido, mas que já há mandato de prisão contra ele. Deixa estar. Enganar-me, obrigar-me a que te fizesse freira, constranger a inclinação de Carlos...
EMÍLIA - Oh, minha mãe, tenha pena do primo. O que não terá ele sofrido, coitado!
FLORÊNCIA - Já esta manhã mandei falar ao D. Abade por pessoa de consideração, e além disso, tenho uma carta que lhe quero remeter, pedindo-lhe que me faça o obséquio de aqui mandar um frade respeitável para de viva voz tratar comigo este negócio.
EMÍLIA - Sim, minha boa mãezinha.
FLORÊNCIA - Chama o José.
EMÍLIA - José? José? E a mamãe julga que o primo poderá estar em casa hoje?
FLORÊNCIA - És muito impaciente... Chama o José.
EMÍLIA - José?
Ambas e José
JOSÉ - Minha senhora...
FLORÊNCIA - José, leva esta carta ao convento. Onde está o Sr. Carlos, sabes?
JOSÉ - Sei, minha senhora.
FLORÊNCIA - Procura pelo Sr. D. Abade, e lha entrega de minha parte.
JOSÉ - Sim, minha senhora
EMÍLIA - Depressa. (Sai José)
FLORÊNCIA - Ai, ai!
EMÍLIA - Tomara vê-lo já!
FLORÊNCIA - Emília, amanhã lembra-me para pagar as soldadas que devemos ao José e despedi-lo do nosso serviço. Foi metido aqui em casa pelo tratante, e só por esse fato já desconfio dele... Lé com lé, cré com cré... Nada; pode ser algum espião que tenhamos em casa...
EMÍLIA - Ele parece-me bom moço.
FLORÊNCIA - Também o outro parecia-me bom homem. Já não me fio em aparências.
EMÍLIA - Tudo pode ser.
FLORÊNCIA - Vai ver aquilo lá por dentro como anda, que minhas escravas pilhando-me de cama fazem mil diabruras.
EMÍLIA - E fica só.
FLORÊNCIA - Agora estou melhor, e se precisar de alguma cousa, tocarei a campainha. (Sai Emília)
FLORÊNCIA, só - Depois que mudei a cama para este quarto que foi do sobrinho Carlos, passo melhor... No meu, todos os objetos faziam-me recordar aquele pérfido. Ora, os homens são capazes de tudo, até de terem duas mulheres... E três, e quatro, e duas dúzias... Que demônios! Há oito dias que estou nesta cama; antes tivesse morrido. E ela, essa mulher infame, onde estará. E outra que tal... Oh, mas que culpa tem ela? Mais tenho eu, já que fui tão tola, tão tola, que casei-me sem indagar quem ele era. Queira Deus que este exemplo aproveite a muitas incautas! Patife, agora anda escondido... Ai, estou cansada... (Deita-se) Mas não escapará da cadeia... seis anos de cadeia... assim me disse o procurador. Ai, minha cabeça! Se eu pudesse dormir um pouco. Ai, ai, as mulheres neste mundo... estão sujeitas... a... muito... ah! (Dorme.)
Carlos entra pelo fundo, apressado; traz o hábito roto e sujo.
CARLOS - Não há grades que me prendam, nem muros que me retenham. Arrombei grades, saltei muros e eis-me aqui de novo. E lá deixei parte do hábito, esfolei os joelhos e as mãos. Estou em belo estado! Ora, para que ateimam comigo? Por fim lanço fogo ao convento e morrem todos os frades assados, e depois queixem-se. Estou no meu antigo quarto, ninguém me viu entrar. Ah, que cama é esta? É da tia... Estará... Ah, é ela... e dorme... Mudou de quarto? O que se terá passado nesta casa há oito dias. Estive preso, incomunicável, a pão e água. Ah, frades! Nada sei. O que será feito da primeira mulher do senhor meu tio, desse grande patife? Onde estará a prima? Como dorme! Ronca que é um regalo! (Batem palmas.) Batem! Serão eles, não tem dúvida. Eu acabo por matar um frade...
MESTRE, dentro - Deus esteja nesta casa.
CARLOS - É o padre mestre! Já deram pela minha fugida...
MESTRE, dentro - Dá licença?
CARLOS - Não sou eu que ta hei-de dar. Escondamo-nos, mas de modo que ouça o que ele diz... Debaixo da cama... (Esconde-se.)
MESTRE, dentro, batendo com força - Dá licença?
FLORÊNCIA, acordando - Quem é? Quem é?
MESTRE, dentro - Um servo de Deus.
FLORÊNCIA - Emília? Emília? (Toca a campainha)
Entra Emília
EMÍLIA - Minha mãe...
FLORÊNCIA - Lá dentro estão todos surdos? Vai ver quem está na escada batendo. (Emília sai pelo fundo.) Acordei sobressaltada... Estava sonhando que o meu primeiro marido enforcava o segundo, e era muito bem enforcado...
Entra Emília com o Padre-Mestre
EMÍLIA - Minha mãe, é o Sr. Padre-Mestre. (À parte:) Ave de agouro.
FLORÊNCIA - Ah!
MESTRE - Desculpe-me, minha senhora.
FLORÊNCIA - O Padre-Mestre é que me há-de desculpar se assim o recebo (Senta-se na cama.)
MESTRE - Oh, esteja a seu gosto. Já por lá sabe-se dos seus incômodos. Toda cidade o sabe. Tribulações deste mundo...
FLORÊNCIA - Emília, oferece uma cadeira ao Reverendíssimo.
MESTRE - Sem incômodo. (Senta-se.)
FLORÊNCIA - O Padre-Mestre veio falar comigo por mandado do Sr. D. Abade?
MESTRE - Não, minha senhora.
FLORÊNCIA - Não? Pois eu lhe escrevi.
MESTRE - Aqui venho pelo mesmo motivo que já vim duas vezes.
FLORÊNCIA - Como assim?
MESTRE - Em procura do noviço Carlos. Ah, que rapaz!
FLORÊNCIA - Pois tornou a fugir?
MESTRE - Se tornou! É indomável! Foi metido no cárcere a pão e água.
EMÍLIA - Desgraçado!
MESTRE - Ah, a menina lastima-o? Já me não admira que ele faça o que faz.
FLORÊNCIA - O Padre-Mestre dizia...
MESTRE - Que estava no cárcere a pão e água, mas o endemoninhado arrombou as grades, saltou na horta, vingou o muro da cerca que deita para a rua e pôs-se a panos.
FLORÊNCIA - Que doudo! E para onde foi?
MESTRE - Não sabemos, mas julgamos que para aqui se dirigiu.
FLORÊNCIA - Posso afiançar a Vossa Reverendíssima que por cá ainda não apareceu. (Carlos bota a cabeça de fora e puxa pelo vestido de Emília.)
EMÍLIA, assustando-se - Ai!
FLORÊNCIA - O que é, menina?
MESTRE, levantando-se - O que foi?
EMÍLIA, vendo Carlos - Não foi nada, não senhora... Um jeito que dei no pé.
FLORÊNCIA - Tem cuidado. Assente-se, Reverendíssimo. Mas como lhe dizia, o meu sobrinho cá não apareceu; desde o dia em que o Padre-Mestre o levou preso ainda não o vi. Não sou capaz de faltar a verdade.
MESTRE - Oh, nem tal suponho. E demais, Vossa Senhoria, como boa parenta que é, deve contribuir para sua correção. Esse moço tem revolucionado todo o convento, e é preciso um castigo exemplar.
FLORÊNCIA - Tem muita razão; mas eu já mandei falar ao Sr. D. Abade para que meu sobrinho saísse do convento.
MESTRE - E o D. Abade está a isso resolvido. Nós todos nos temos empenhado. O Sr. Carlos faz-nos loucos... Sairá do convento; porém antes será castigado.
CARLOS - Veremos...
FLORÊNCIA, para Emília - O que é?
EMÍLIA - Nada, não senhora.
MESTRE - Não por ele, que estou certo que não se emendará, mas para exemplo dos que lá ficam. Do contrário, todo o convento abalava.
FLORÊNCIA - Como estão resolvidos a despedir meu sobrinho do convento, e o castigo que lhe querem impor é tão somente exemplar, e ele precisa um pouco, dou minha palavra a Vossa Reverendíssima que assim que ele aqui aparecer, mandarei agarrá-lo e levar para o convento.
CARLOS - Isso tem mais que se lhe diga...
MESTRE, levantando-se - Mil graças, minha senhora.
FLORÊNCIA - Isto mesmo terá a bondade de dizer ao Sr. D. Abade, a cujas orações me recomendo.
MESTRE - Serei fiel cumpridor . Dê-me as suas determinações.
FLORÊNCIA - Emília, conduz o Padre-Mestre.
MESTRE, para Emília - Minha menina, muito cuidado com o senhor seu primo. Não se fie nele; julgo capaz de tudo. (Sai)
EMÍLIA, voltando - Vá encomendar defuntos!
Emília, Florência e Carlos, debaixo da cama.
FLORÊNCIA - Então, que te parece teu primo Carlos? É a terceira fugida que faz. Isto assim não é bonito.
EMÍLIA - E para que o prendem?
FLORÊNCIA - Prendem-no porque ele foge.
EMÍLIA - E ele foge porque o prendem.
FLORÊNCIA - Belo argumento! É mesmo desta cabeça. (Carlos puxa pelo vestido de Emília.) Mas o que tens tu?
EMÍLIA - Nada, não senhora.
FLORÊNCIA - Se ele aqui aparecer hoje há-de ter paciência, irá para o convento, ainda que seja amarrado. É preciso quebrar-lhe o gênio. Estais a mexer-te?
EMÍLIA - Não, senhora.
FLORÊNCIA - Queira Deus que ele se emende... Mas que tens tu Emília, tão inquieta?
EMÍLIA - São cócegas na sola dos pés.
FLORÊNCIA - Ah, isso são cãibras. Bate com o pé, assim estais melhor.
EMÍLIA - Vai passando.
FLORÊNCIA - O sobrinho é estouvado, mas nunca te dará os desgostos que me deu o Ambró... - nem quero pronunciar o nome. E tu não te aquietas? Bate com o pé.
EMÍLIA, afastando-se da cama - Não posso estar quieta no mesmo lugar; (À parte:) Que louco!
FLORÊNCIA - Estou arrependida de ter escrito. (Entra José.) Quem vem aí?
Os mesmos e José.
EMÍLIA - É o José.
FLORÊNCIA - Entregaste a carta?
JOSÉ - Sim, minha senhora, e o Sr. D. Abade mandou comigo um reverendíssimo, que ficou na sala à espera.
FLORÊNCIA - Fá-lo entrar.(Sai o criado.) Emília, vai para dentro. Já que um reverendíssimo teve o incômodo de vir cá, quero aproveitar a ocasião e confessar-me. Posso morrer...
EMÍLIA - Ah!
FLORÊNCIA - Anda, vai para dentro, não te assustes. (Sai Emília)
FLORÊNCIA, só - A ingratidão daquele monstro assassinou-me. Bom é ficar tranqüila com a minha consciência.
Ambrósio, com hábito de frade, entra seguindo José.
JOSÉ - Aqui está a senhora.
AMBRÓSIO, à parte - Retira-te e fecha a porta. (Dá-lhe dinheiro.)
JOSÉ, à parte - Que lá se avenham... A paga cá está.
FLORÊNCIA - Vossa Reverendíssima pode aproximar-se. Queira assentar-se. (Senta-se.)
AMBRÓSIO, fingindo que tosse - Hum, hum, hum... (Carlos espreita embaixo da cama.)
FLORÊNCIA - Escrevi para que viesse uma pessoa falar-me e Vossa Reverendíssima quis ter a bondade de vir.
AMBRÓSIO - Hum, hum, hum...
CARLOS, à parte - O diabo do frade está endefluxado.
FLORÊNCIA - E era para tratarmos do meu sobrinho Carlos, mas já não é preciso. Aqui esteve o padre-mestre; sobre isso falamos; está tudo justo e sem dúvida Vossa reverendíssima já está informado.
AMBRÓSIO, o mesmo - Hum, hum, hum...
FLORÊNCIA - Vossa Reverendíssima está constipado; talvez o frio da noite...
AMBRÓSIO, disfarçando a voz - Sim, sim....
FLORÊNCIA - Muito bem.
CARLOS - Não conheci esta voz no convento...
FLORÊNCIA - Mas para que Vossa Reverendíssima não perdesse de todo o seu tempo, se quisesse ter a bondade de ouvir-me em confissão...
AMBRÓSIO - Ah! (Vai fechar as portas.)
FLORÊNCIA - Que faz, senhor? Fecha a porta? Ninguém nos ouve.
CARLOS, à parte - O frade tem más tenções...
AMBRÓSIO, disfarçando a voz - Por cautela.
FLORÊNCIA - Assente-se (À parte:) Não gosto muito disso... (Alto:) Reverendíssimo, antes de principiarmos a confissão, julgo necessário informar-lhe que fui casada duas vezes; a primeira, com um santo homem, e a segunda, com um demônio.
AMBRÓSIO - Hum, hum, hum...
FLORÊNCIA - Um homem sem honra e sem fé em Deus, um malvado. Casou-se comigo quando ainda tinha mulher viva! Não é verdade, reverendíssimo, que este homem vai direitinho para o inferno?
AMBRÓSIO - Hum, hum, hum...
FLORÊNCIA - Oh, mas enquanto não vai para o inferno, há-de pagar nesta vida. Há uma ordem de prisão contra ele e o malvado não ousa aparecer.
AMBRÓSIO, levantando-se e tirando o capuz - E quem vos disse que ele não ouso aparecer?
FLORÊNCIA, fugindo da cama - Ah!
CARLOS, à parte - O senhor meu tio!
AMBRÓSIO - Podeis gritar, as portas estão fechadas. Preciso de dinheiro e muito dinheiro para fugir desta cidade, e dar-mo-eis, senão...
FLORÊNCIA - Deixai-me! Eu chamo por socorro!
AMBRÓSIO - Que me importa? Sou criminoso; serei punido. Pois bem, cometerei outro crime, que me pode salvar. Dar-me-eis tudo quanto possuís: dinheiro, jóias, tudo! E desgraçada de vós, se não me obedeceis! A morte!...
FLORÊNCIA, corre por toda a casa, gritando - Socorro, socorro! Ladrão, ladrão! Socorro! (Escuro.)
AMBRÓSIO, seguindo-a - Silêncio, silêncio, mulher!
CARLOS - O caso está sério! ( Vai saindo debaixo da cama no momento que Florência atira com a mesa no chão. Ouve-se gritos fora: Abra, abra! Florência, achando-se só e no escuro, senta-se no chão, encolhe-se e cobre-se com uma colcha.)
AMBRÓSIO, procurando - Para onde foi? Nada vejo. Batem nas portas! O que farei?
CARLOS, à parte - A tia calou-se e ele aqui está.
AMBRÓSIO, encontra-se com Carlos e agarra-lhe o hábito - Ah, mulher, estais em meu poder. Estas portas não tardarão a ceder; salvai-me, ou mato-te!
CARLOS, dando-lhe uma bofetada - Tome lá, senhor meu tio!
AMBRÓSIO - Ah! (Cai no chão.)
CARLOS, a parte - Outra vez para a concha (Mete-se debaixo da cama.)
AMBRÓSIO, levantando-se - Que mão! Continuam a bater. Onde esconder-me? Que escuro! Deste lado vi um armário... Ei-lo! (Mete-se dentro.)
Entram pelo fundo quatro homens armados, Jorge trazendo uma vela acesa. Claro.
JORGE, entrando - Vizinha, vizinha, o que é? O que foi? Não vejo ninguém... (Dá com Florência no canto.) Quem está aqui?
FLORÊNCIA - Ai, ai!
JORGE - Vizinha, somos nós...
EMÍLIA, dentro - Minha mãe, minha mãe! (Entra.)
FLORÊNCIA - Ah, é o vizinho Jorge! E estes senhores? (Levantando-se ajudada por Jorge.)
EMÍLIA - Minha mãe, o que foi?
FLORÊNCIA - Filha!
JORGE - Estava na porta de minha loja, quando ouvi gritar: Socorro, socorro! Conheci a voz da vizinha e acudi com estes quatro amigos.
FLORÊNCIA - Muito obrigado, vizinho, ele já se foi.
JORGE - Ele quem?
FLORÊNCIA - O ladrão.
TODOS - O ladrão!
FLORÊNCIA - Sim, um ladrão vestido de frade, que me queria roubar e assassinar.
EMÍLIA, para Florência - Minha mãe!
JORGE - Mas ele não teve tempo de sair. Procuremos.
FLORÊNCIA - Espere, vizinho, deixe-me sair primeiro. Se o encontrarem, dêem-lhe uma boa arrochada e levem-no preso. (À parte:) Há-de me pagar! Vamos menina.
EMÍLIA, para Florência - É Carlos, minha mãe, é o primo!
FLORÊNCIA, para Emília - Qual primo! É ele, teu padrasto.
EMÍLIA - É o primo!
FLORÊNCIA - É ele, é ele. Vem. procurem-no bem, vizinhos, e pau nele. Anda, anda. (Sai com Emília.)
JORGE - Amigos, cuidado! Procuremos tudo; o ladrão ainda não saiu daqui. Venham atrás de mim. Assim que ele aparecer, uma boa massada de pau, e depois os pés e mãos amarradas, e guarda do Tesouro com ele... Sigam-me. Aqui não está; vejamos atrás do armário. (Vê.) Nada. Onde se esconderia? Talvez debaixo da cama. (Levantando o rodapé:) Oh, cá está ele! (Dão bordoadas.)
CARLOS, gritando - Ai, ai, não sou eu. não sou ladrão, ai, ai!
JORGE, dando - Salta para fora, ladrão, salta! (Carlos sai para fora, gritando:) Não sou ladrão, sou de casa!
JORGE - A ele amigos! (Perseguem Carlos de bordoadas por toda a cena. Por fim, mete-se atrás do armário e atira com ele no chão. Gritos: Ladrão!)
Jorge só, depois Florência e Emília.
JORGE - Eles que o sigam; eu já não posso. O diabo esfolou-me a canela com o armário. (Batendo na porta.) Ó Vizinha, vizinha?
FLORÊNCIA, entrando - Então, vizinho?
JORGE - Estava escondido debaixo da cama.
EMÍLIA - Não te disse?
JORGE - Demos-lhe uma boa massada de pau e fugiu por aquela porta, mas os amigos foram-lhe no alcance.
FLORÊNCIA - Muito obrigada, vizinho. Deus lhe pague.
JORGE - Estimo que a vizinha não tivesse maior incômodo.
FLORÊNCIA - Obrigada. Deus lhe pague.
JORGE - Boa noite, vizinha; mande levantar o armário que caiu.
FLORÊNCIA - Sim senhor. Boa noite. (Sai Jorge.)
Florência e Emília
FLORÊNCIA - Pagou-me!
EMÍLIA, chorando - Então minha mãe, não lhe disse que era o primo Carlos?
FLORÊNCIA - E continua a teimar?
EMÍLIA - Se o vi atrás da cama!
FLORÊNCIA - Ai, peior, era teu padrasto.
EMÍLIA - Se eu o vi!
FLORÊNCIA - Se eu lhe falei!... É boa teima!
JUCA, entrando - Mamãe, aquela mulher do papá quer lhe falar.
FLORÊNCIA - O que quer essa mulher comigo, o que quer? (Resoluta:) Diga que entre (Sai Juca.)
EMÍLIA - A mamãe vai afligir-se no estado em que está?
FLORÊNCIA - Bota aqui duas cadeiras. Ela não tem culpa. (Emília chega uma cadeira. Florência sentando-se;) Vejamos o que quer. Chega mais esta cadeira para aqui. Bem, vai para dentro.
EMÍLIA - Mas, se...
FLORÊNCIA - Anda; uma menina não deve ouvir a conversa que vamos ter. Farei tudo para perseguí-lo. (Emília sai.)
Entra Rosa. Já vem de vestido.
ROSA - Dá licença?
FLORÊNCIA - Pode entrar. Queira ter a bondade de sentar-se. (Senta-se.)
ROSA - Minha senhora, a nossa posição é bem extraordinária...
FLORÊNCIA - E desagradável no ultimo ponto.
ROSA - Ambas casadas com o mesmo homem...
FLORÊNCIA - E ambas com igual direito.
ROSA - Perdoe-me, minha senhora, nossos direitos não são iguais, sendo eu a primeira mulher...
FLORÊNCIA - Oh, não falo desse direito, não o contesto. Direito de persegui-lo quero eu dizer.
ROSA - Nisso estou de acordo.
FLORÊNCIA - Fui vilmente atraiçoada...
ROSA - E eu indignamente insultada...
FLORÊNCIA - Atormentei meus filhos...
ROSA - Contribui para a morte de minha mãe...
FLORÊNCIA - Estragou grande parte da minha fortuna.
ROSA - Roubou-me todos os meus bens...
FLORÊNCIA - Oh, mas hei-de vingar-me!
ROSA, levantando-se - Havemos de vingarmo-nos, senhora, e para isso aqui me acho.
FLORÊNCIA, levantando-se - Explique-se.
ROSA - Ambas fomos traídas pelo mesmo homem, ambas servimos de degrau à sua ambição. E porventura somos disso culpadas?
FLORÊNCIA - Não.
ROSA - Quando lhe dei eu a minha mão, poderia prever que ele seria um traidor? E vós, senhora, quando lhe désteis a vossa, que vos uníeis a um infame?
FLORÊNCIA - Oh, não!
ROSA - E nós, suas desgraçadas vítimas, nos odiaremos mutuamente, em vez de ligarmo-nos, para de comum acordo perseguimos o traidor?
FLORÊNCIA - Senhora, nem eu, nem vós temos culpa do que se tem passado. Quisera viver longe de vós; vossa presença aviva meus desgostos, porém farei um esforço - aceito o vosso oferecimento - unamo-nos e mostraremos ao monstro o que podem duas fracas mulheres quando se querem vingar.
ROSA - Eu contava convosco.
FLORÊNCIA - Agradeço a vossa confiança.
ROSA - Sou provinciana, não possuo talvez a polidez da Corte, mas tenho paixões violentas e resoluções prontas. Aqui trago uma ordem de prisão contra o pérfido, mas ele se esconde. Os oficiais de justiça andam em sua procura.
FLORÊNCIA - Aqui esteve há pouco.
ROSA - Quem?
FLORÊNCIA - O traidor.
ROSA - Aqui? Em vossa casa? E não vos assegurastes dele?
FLORÊNCIA - E como?
ROSA - Ah, se eu aqui estivesse...
FLORÊNCIA - Fugiu, mas levou uma maçada de pau.
ROSA - E onde estará ele agora, onde?
AMBRÓSIO, arrebenta uma tábua do armário, põe a cabeça para fora - Ai, que abafo.
FLORÊNCIA e ROSA, assustadas - É ele!
AMBRÓSIO, com a cabeça de fora - Oh, diabos, cá estão elas!
FLORÊNCIA - É ele! Como te achas aí?
ROSA - Estava espreitando-nos!
AMBRÓSIO - Qual espreitando! Tenham a bondade de levantar este armário.
FLORÊNCIA - Para quê?
AMBRÓSIO - Quero sair... Já não posso... Abafo, morro!
ROSA - Ah, não podes sair? Melhor.
AMBRÓSIO - Melhor?
ROSA - Sim, melhor, porque estás em nosso poder.
FLORÊNCIA - Sabes que estávamos ajustando o meio de nos vingarmos de ti, maroto?
ROSA - E tu mesmo te entregaste... Mas como?...
FLORÊNCIA - Agora já te advinho. Bem dizia Emília; foi Carlos quem levou as bordoadas. Ah, patife. mais essa!.
ROSA - Pagará por tudo junto.
AMBRÓSIO - Mulheres, vejam lá o que fazem!
FLORÊNCIA - Não me metes medo, grandíssimo mariola!
ROSA - Sabes que papel é este? É uma ordem de prisão contra ti que vai ser executada. Foge agora!
AMBRÓSIO - Minha Rosinha, tira-me daqui!
FLORÊNCIA - O que é lá?
AMBRÓSIO - Florencinha, tem compaixão de mim!
ROSA - Ainda falas, patife?
AMBRÓSIO - Ai, que grito! Ai, ai!!
FLORÊNCIA - Podes gritar. Espera um bocado. (Sai.)
ROSA - A justiça de Deus te castiga.
AMBRÓSIO - Escuta-me, Rosinha, enquanto aquele diabo está lá dentro: tu és a minha cara mulher; tira-me daqui que eu te prometo...
ROSA - Promessas tuas? Queres que eu acredite nelas? (Entra Florência trazendo um pau de vassoura.)
AMBRÓSIO - Mas eu juro que desta vez...
ROSA - Juras? E tu tens fé em Deus para jurares?
AMBRÓSIO - Rosinha de minha vida, olha que...
FLORÊNCIA, levanta o pau e dá-lhe na cabeça - Toma maroto!
AMBRÓSIO, escondendo a cabeça - Ai!
ROSA, rindo-se - Ah, ah, ah!
FLORÊNCIA - Ah, pensavas que o caso havia de ficar assim? Anda, bota a cabeça de fora!
AMBRÓSIO, principia a gritar - Ai! (Etc.)
ROSA, procura pela casa um pau - Não acho também um pau...
FLORÊNCIA - Grita, grita, que eu já chorei muito. Mas agora hei-de arrebentar-te esta cabeça. Bota essa cara sem vergonha.
ROSA, tira o travesseiro da cama - Isto serve?
FLORÊNCIA - Patife! Homem desalmado!
ROSA - Zombaste, agora pagarás.
AMBRÓSIO, botando a cabeça de fora - Ai, que morro! (Dão-lhe.)
ROSA - Toma lá!
AMBRÓSIO, escondendo a cabeça - Diabos!
ROSA - Chegou a nossa vez.
FLORÊNCIA - Verás como se vingam duas mulheres...
ROSA - Traídas ...
FLORÊNCIA - Enganadas...
ROSA - Por um tratante...
FLORÊNCIA - Digno de forca.
ROSA - Anda, bota a cabeça de fora!
FLORÊNCIA - Pensavas que havíamos de chorar sempre?
AMBRÓSIO, bota a cabeça de fora - Já não posso (Dão-lhe.) Ai, que me matam! (Esconde-se.)
ROSA - É para teu ensino,
FLORÊNCIA, fazendo sinais para Rosa - Está bem, basta, deixá-lo. Vamos chamar os oficiais de justiça.
ROSA - Nada! Primeiro hei-de lhe arrebentar a cabeça. Bota a cabeça de fora. Não queres?
FLORÊNCIA, fazendo sinais - Não, minha amiga, por nossas mãos já nos vingamos. Agora, a justiça.
ROSA - Pois vamos. Um instantinho, meu olho, já voltamos.
FLORÊNCIA - Se quiser, pode sair e passear. Podemos sair, que ele não foge. (Colocam-se juntas do armário, silenciosas.)
AMBRÓSIO, botando a cabeça de fora - As fúrias já se foram. Escangalharam-me a cabeça! Se eu pudesse fugir... (Florência e Rosa dão-lhe.)
FLORÊNCIA - Por que não foges?
ROSA - Pode muito bem.
AMBRÓSIO - Demônios (Esconde-se.)
FLORÊNCIA - Só assim teria vontade de rir. Ah, ah!
ROSA - Há seis anos que não me rio de tão boa vontade!
FLORÊNCIA - Então, maridinho!
ROSA - Vidinha, não queres ver tua mulher?
AMBRÓSIO, dentro - Demônios, fúrias, centopéias! Diabos! Corujas! Ai, ai! (Gritando sempre.)
Os mesmos e Emília
EMÍLIA, entrando - O que é? Riem-se?
FLORÊNCIA - Vem cá, menina, vem ser como se devem ensinar aos homens.
Entra Carlos preso por soldados, etc., seguido de Jorge.
JORGE, entrando adiante - Vizinha, o ladrão foi apanhado.
CARLOS, entre os soldados - Tia!
FLORÊNCIA - Carlos!
EMÍLIA - O primo! (Ambrósio bota a cabeça de fora e espia.)
JORGE - É o ladrão.
FLORÊNCIA - Vizinho, este é o meu sobrinho Carlos.
JORGE - Seu sobrinho? Pois foi quem levou a coça.
CARLOS - Ainda cá sinto...
FLORÊNCIA - Coitado! Foi um engano, vizinho.
JORGE, para os meirinhos - Podem largá-lo.
CARLOS - Obrigado. Priminha! (Indo para ela.)
EMÍLIA - Pobre primo.
FLORÊNCIA, para Jorge - Nós já sabemos como foi o engano, neste armário; depois lhe explicarei. (Ambrósio esconde-se.)
JORGE, para os soldados - Sinto o trabalho que tiveram... E como não é mais preciso, podem-se retirar.
ROSA - Queiram ter a bondade de esperar. Senhores oficiais de justiça, aqui lhes apresento este mandado de prisão, lavrado contra um homem que se oculta dentro daquele armário.
TODOS - Naquele armário!
MEIRINHO, que tem lido o mandado - O mandado está em forma.
ROSA - Tenham a bondade de levantar o armário. (Os oficiais de justiça e os quatro homens levantam o armário.)
FLORÊNCIA - Abram (Ambrósio sai muito pálido, depois de abrirem o armário.)
CARLOS - O senhor meu tio!
EMÍLIA - Meu padrasto!
JORGE - O Sr. Ambrósio.
MEIRINHO - Estais preso.
ROSA - Levai-o.
FLORÊNCIA - Para a cadeia.
AMBRÓSIO - Um momento. Estou preso, vou passar seis meses na cadeia... Exultai, senhoras. Eu me deveria lembrar antes de me casar com duas mulheres, que basta só uma para fazer o homem desgraçado. O que diremos de duas? Reduzem-no ao estado em que me vejo. Mas não sairei daqui sem ao menos vingar-me em alguém. (Para os meirinhos:) Senhores, aquele moço fugiu do convento depois de assassinar um frade.
CARLOS - O que é lá isso? (Mestre de Noviços entra pelo fundo.)
AMBRÓSIO - Senhores, denuncio-vos um criminoso.
MEIRINHO - É verdade que tenho aqui uma ordem contra um noviço...
MESTRE - ...Que já de nada vale. (Prevenção.)
TODOS - O Padre-Mestre!
MESTRE, para Carlos - Carlos, o D. Abade julgou mais prudente que lá não voltásseis. Aqui tens a permissão por ele assinada para saíres do convento.
CARLOS, abraçando-o - Meu bom Padre-Mestre, este ato reconcilia-me com os frades.
MESTRE - E vós, senhoras, esperai da justiça dos homens o castigo deste malvado. (Para Carlos e Emília:) E vós, meus filhos, sede felizes, que eu pedirei para todos (ao público:) indulgência!
AMBRÓSIO - Oh, mulheres, mulheres! (Execução.)
Fonte: www.dominiopublico.gov.br