[OU O TERRÍVEL CAPITÃO DO MATO]
Comédia em 1 ato
ANDRÉ JOÃO, pedestre
BALBINA, sua filha
ANACLETA, sua mulher
ALEXANDRE, amante de Balbina
PAULINO, amante de Anacleta
ROBERTO, pai de Anacleta
O cabo da patrulha
Soldados permanentes
A cena passa-se no Rio de Janeiro.
[ATO ÚNICO]
Sala ordinária. Porta no fundo e laterais. No segundo plano, à
direita, um
armário, e à esquerda, uma escada de mão, que se supõe
conduzir a uma trapeira sobre o
telhado. No alto de cada uma das portas laterais haverá um buraco.
Uma mesa, sobre a
qual estará uma vela apagada. É noite.
Ao levantar do pano, estará a cena às escuras e só.
Ouve-se dar meia-noite em um sino
ao longe. Logo que tenha expirado a última badalada, aparece PAULINO
sobre a escada
e principia a descer com precaução.
PAULINO, ainda no alto da escada – Meia-noite. São horas de descer...
(Principia a descer.) Ele saiu... Anda a estas horas em procura de negros
fugidos... Que
silêncio! O meu bem ainda estará acordado? A quanto me exponho
por ela! Escorreguei
no telhado e quase caí na rua. Estava arranjado! Mas, enfim, o telhado
é o caminho dos
gatos e dos amantes à polca... Mas cuidado com o resultado!(Neste tempo
está nos
últimos degraus da escada.) Ouço rumor
BALBINA, da esquerda, metendo a cabeça no buraco da porta.
BALBINA, chamando – Minha madrasta? Minha madrasta?
PAULINO, à parte – Mau! A filha está acordada...
BALBINA, no mesmo – Da. Anacleta? Da. Anacleta?
ANACLETA, da direita, metendo a cabeça no buraco da porta – O
que queres,
Balbina?
PAULINO, à parte – É ela...
BALBINA – Já deu meia-noite...
ANACLETA – E foi só para me dizeres isso que me chamaste? Vai
dormir, que
eu não estou para conversar a estas horas e de poleiro... Adeus.
BALBINA – Pelo amor de Deus, espere!
ANACLETA – Para quê?
BALBINA – Estou com medo...
ANACLETA – Ora, não sejas criança. Vai dormir.
BALBINA – Não posso... Eu estava cosendo; fui espevitar a vela e apaguei-a...
Fiquei às escuras. Nisso deu meia-noite... Arrepiaram-se-me os cabelos.......
Levanteime
e ia meter-me na cama assim mesmo vestida, quando ouvi as tábuas do
forro
estalarem como se uma pessoa andasse sobre elas...
PAULINO, à parte – E não enganou-se...
ANACLETA – O medo é que te fez crer isso.
BALBINA – Não, não foi o medo, bem ouvi... E fiquei
com tanto susto, que
nem ousava respirar. Afinal, cobrei ânimo para chegar até aqui
e chamar-lhe.
ANACLETA – Quem pode a estas horas andar lá pelo forro?
PAULINO, à parte – Eu...
BALBINA – Não sei.
ANACLETA – Foi engano teu. As tábuas à noite estalam com o calor.
BALBINA – Bem pode ser; mas tenho medo. Não posso ficar só
às escuras,
morrerei de susto. Se eu pudesse ir para lá...
ANACLETA – Bem sabes que é impossível. Ambas estas portas
estão fechadas
e teu pai levou as chaves.
BALBINA – Meu Deus! Mas fique aí conversando comigo, até
que meu pai
entre.
ANACLETA – Isto é, queres que fiquemos aqui até de madrugada,
que é a hora
que ele volta?
PAULINO, à parte – Muito bem, não enganei-me!
BALBINA – Meu Deus, meu Deus, por que meu pai desconfia tanto de nós,
que
nos deixa assim fechadas cada uma no seu quarto? Se ao menos nos deixasse
juntas!
ANACLETA – Ele diz que uma mulher só é capaz de enganar
ao diabo, e que
duas juntas enganariam o inferno em peso.
PAULINO, à parte – Que tal o pedestre? E o mais é que
não deixa de ter sua
razãozinha...
BALBINA – E por isso deixa-nos presas e separadas quando sai para
suas
deligências. Pois olhe: se meu pai continua a desconfiar assim e aperta
comigo, eu
prego-lhe alguma.......
ANACLETA – E eu também.
PAULINO, à parte – Bravo, isso mesmo é o que eu quero...
BALBINA – Nunca lhe dei motivos para assim tratar-me.
ANACLETA – E eu, que motivos lhe tenho dado? O remédio é ter paciência.
Adeus.
BALBINA – Não, não, espere!
ANACLETA – Escuta. Vai à gavetinha da mesa que está aí
no canto à esquerda,
tira uma caixinha de fósforo que lá guardei esta manhã,
e acende a tua vela.
BALBINA – Pois sim, mas não saia daí enquanto eu procuro o fósforo.
ANACLETA – Medrosa! Pois vai, que fico esperando.
BALBINA – Pelo amor de Deus, não saia daí! (Desaparece do buraco.)
[BALBINA,] PAULINO, e ANACLETA no buraco da porta.
PAULINO, à parte – Vamo-nos aproximando... (Caminha com precaução
para
aonde ouve a voz de Anacleta.)
ANACLETA – Pensa meu marido que se guarda uma mulher prendendo-a
debaixo de sete chaves! Simplório! Não sabe que quando elas
não se guardam a si
mesmas, nem quantas fechaduras e portas há são capazes de as
reter. O pior às vezes é
desconfiar.
PAULINO, à parte, caminhando – Não há dúvida, o pior é desconfiar...
ANACLETA – Os ciúmes despropositados de alguns maridos fazem
com que as
mulheres pensem em coisas que nunca lhe passariam pela cabeça, se eles
tivessem mais
confiança.
PAULINO, à parte – Pobres maridos! Eu arrisco-me a falar-lhe...
ANACLETA – Se o meu não me atormentasse com ciúmes,
eu não teria de certo
dado atenção ao meu vizinho...
PAULINO, à parte – Ai que fala da pessoa!
ANACLETA – Pois como desconfia de mim, hei de namorar o vizinho, ainda
que não seja para vingar-me...
PAULINO, alto – Sim, sim, meu bem, vinga-te! Aqui estou eu para vingarmonos!
ANACLETA – Ai, ai, ladrões! (Sai do buraco e continua a gritar
dentro.)
PAULINO, assustado, batendo na porta – Fi-la bonita! Espantei-a! Sou
eu, sou
eu! É o vizinho... Não sou ladrão, não grite...
Olhe que sou eu... (Anacleta continua a
gritar dentro.) Pior! Isto não vai bem... (Batendo na porta:) Sou eu,
sou o vizinho
amado... Tome esta cartinha... por baixo da porta... (Assim dizendo, mete
uma carta
debaixo da porta. Balbina aparece no buraco da porta à direita.)
BALBINA – O que é? Que gritos são estes?
PAULINO, à parte – Mal vai ela... Safemo-nos, há já
uma de mais...
(Encaminha-se para sair.)
BALBINA – Minha madrasta? (Paulino cai sobre uma cadeira.) Quem está
aí?
PAULINO, perdendo a cabeça – Não é ninguém...
BALBINA sai do buraco e principia a gritar – Ladrões, ladrões!
PAULINO, só e assustado – Mais esta! O melhor é safar-me...
Como grita! Que
goelas! Se chega o pedestre, estou arranjado! Namoro de telhado dá
sempre nisto...
Aonde diabo está a escada? (Esbarrando-se no armário:) Isto
é um armário... Estou
desorientado... Calaram-se. A escada deve estar deste lado... Ouço
passos! Meu Deus,
será ele?
PEDESTRE, dentro – Anda para diante...
PAULINO – Oh, diabo, é ele! Se aqui me pilha, mata-me... Ou
ao menos levame
para a Correção. (Procura a escada com ansiedade.) Ah, enfim!
(Vai a subir
apressado e a escada rebenta pelo meio, e ele rola pela cena.) Ai, ai! (Levantando-se
apressado:) Maldito namoro! Que hei de fazer? A escada quebrou-se! Abrem a
porta!
Jesus! (Procura o armário.) Ah! (Esconde-se no armário.)
Abre-se a porta do fundo e por ela entra o PEDESTRE com uma lanterna de
furta-fogo
na mão esquerda e trazendo preso, na mão direita, pela gola
da camisa, ALEXANDRE,
disfarçado em negro.
PEDESTRE – Entra, paizinho...
ALEXANDRE – Sim sinhô... (O Pedestre, depois de entrar, fecha
a porta por
dentro.)
PEDESTRE – Agora foge...
ALEXANDRE – Não sinhô... (O Pedestre acende uma vela
que está sobre a
mesa e apaga a lanterna.)
PEDESTRE, enquanto acende a vela – Quem é teu senhor?
ALEXANDRE – Meu sinhô é sinhô Majó, que mora
na Tijuca.
PEDESTRE – Ah! e que fazias tu à meia-noite na rua, cá
na cidade?
ALEXANDRE – Estava tomando fresco, sim sinhô.
PEDESTRE – Tomando fresco! Olha que patife... Estavas fugido.
ALEXANDRE – Não sinhô.
PEDESTRE – Está bom, eu te mostrarei. Hei de te levar amarrado a teu senhor.
(À parte:) Mas há de ser daqui a quatro dias, para a paga
ser melhor. (Para Alexandre:)
Vem para cá. (Encaminha-se com Alexandre para a segunda porta à
esquerda e quer
abri-la.) É verdade, está fechada... E a chave está lá
dentro do quarto de Balbina. (Para
Alexandre:) Espera aí. Se dás um passo, dou-te um tiro.
ALEXANDRE – He!
PEDESTRE – He, hem? Vê lá! (Encaminha-se para a porta do
quarto de
Balbina, tira da algibeira uma chave e abre a porta. Balbina, ouvindo da parte
de
dentro abrirem a porta, principia a gritar.)
BALBINA, dentro – Ai, ai! Quem me socorre? Quem me socorre?
PEDESTRE – Que é lá isso? Balbina, por que gritas? Sou
eu. (Abre a porta e
entra no quarto.) Que diabo!
ALEXANDRE, PAULINO espiando da porta do armário e ANACLETA espiando
pelo
buraco da porta.
ALEXANDRE, com o seu falar natural – Estou só... Tomei este
disfarce, o
único de que me podia servir para introduzir-me nesta casa, a fim de
falar à minha
querida Balbina... Com que vigilância a guarda o pai! Quem sabe como
me sairei desta
empresa... Quem sabe... Talvez muito mal; o pedestre é endiabrado...
Coragem, agora
nada de fraqueza...
PAULINO, à parte, do armário – Estou arranjado! Como
sair daqui?
ANACLETA, chegando ao buraco da porta – Um negro! Meu marido já
entrou... E o vizinho? A carta era dele... Sairia?
PAULINO, vendo Anacleta no buraco – É ela! Psiu...
ALEXANDRE, voltando-se – Quem chama? (Paulino e Anacleta, vendo o
negro voltar-se, desaparecem.) Aqui há gente... Mau, já não
vou gostando... (Olhando
espantado ao redor de si.)
Entra o PEDESTRE e BALBINA.
PEDESTRE – Por que gritavas?
BALBINA – Pensei que eram ladrões. Ouvi bulha aqui na sala...
ALEXANDRE, à parte – Como o meu coração bate!
Prudência... (Principia a
fazer sinais para Balbina.)
PEDESTRE – Fui eu que entrei, e mais cedo do que costumo. Encontrei
este
tratante dormindo na calçada, aqui mesmo defronte da porta. Estava
tomando fresco...
Ladrões, dizes tu? Ladrões em casa de pedestre? Tão
tolos não são eles. Aqui não há
que roubar, e vinham entregar-se com a boca na botija, pois não?
BALBINA, reconhecendo Alexandre - – Meu Deus!
PEDESTRE – Hem?
BALBINA, disfarçando – Nada, não senhor. (À parte:)
Que loucura! (Neste
tempo Alexandre tem na mão uma cartinha, que mostra a Balbina.)
PEDESTRE – Anda, vai-te deitar, que estás sonhando. E tu... (Volta-se
para
Alexandre e o surpreende mostrando a carta a Balbina.) Ah! (Salta sobre ele
e arrancalhe
a carta.)
BALBINA, à parte – Meu Deus!
PEDESTRE – Ah, patife, tu trazes cartinhas! (Voltando-se para a filha:)
E tu as
recebes... Velhaca!
BALBINA, recuando – Meu pai!
PEDESTRE – Vejamos quem te escreve, para depois castigar-te. (Abre a
carta e
lê:) “Meu amor... (Falando:) Ah, já és seu amor?
(Continuando a ler:) Apesar das
cautelas de teu pai, um estratagema me conduzirá junto de ti... (Falando:)
Ah, um
estratagema! (Olha receoso ao redor de si)... e arrancando-te à sua
crueldade, serás
minha esposa.” (Falando:) Não tem assinatura... (Fica pensativo.)
BALBINA, à parte – Eu tremo!
ALEXANDRE, à parte – O que fará? Em boas meti-me!
PEDESTRE caminha para Alexandre sem dizer palavra e dá-lhe uma bofetada
– Principio por ti ... (Alexandre, esquecendo-se do caráter que
representa, quer ir sobre
o Pedestre, mas vendo Balbina, que com as mãos postas pede-lhe que
se modere,
contém-se. Pedestre, agarrando Alexandre pela gola da camisa:) Quem
mandou esta
carta?
ALEXANDRE, à parte – Felizmente não me conhece...
PEDESTRE – Quem mandou esta carta? Fala, ou eu...
ALEXANDRE – Não sei, não sinhô; foi um branco que me deu.
PEDESTRE – Que branco?
ALEXANDRE – Não sei, não sinhô.
PEDESTRE – Ah, não sabes? (Querendo puxar da espada.)
BALBINA – Meu pai!
PEDESTRE – Espera tu, que temos também que falar. (Para Alexandre:)
Então?
Quem é o branco?
ALEXANDRE – Eu vou contá tudo. Um branco me disse: José,
toma dez
tostões; quando dé meia-noite vai para o Beco dos Aflitos fazê
negro fugido... E quando
o pedestre que mora lá mesmo no Beco dos Aflitos sair, deixa ele prendê
você e levá
para casa... E entrega esta cartinha à sinhá Balbina... Está...
Mas não sei quem é o
branco... Foi para ganhar dez tostões...
PEDESTRE – Hum, é assim? Que trama! Vem cá, negrinho
da minha alma,
tratante... Amanhã, hem? Correção, cabeça rapada
e... (Faz sinal de dar pancada.) Mas
antes, hem? meu negrinho, hei de te dar uma reverendíssima maçada
de pau bem
repinicadinha. Vem cá, meu negrinho...
ALEXANDRE, querendo resistir – Mas sinhô...
PEDESTRE – Vem cá, vem cá... (Vai levando-o para o segundo
quarto à
esquerda e mete a chave na fechadura, para abrir a porta.)
BALBINA, à parte, enquanto o Pedestre abre a porta – Pobre Alexandre,
a
quanto se expõe ele por mim! Mas que loucura a sua, assim disfarçar-se!
PAULINO, à parte, espiando do armário. Isto principia muito
mal... E acabará
ainda pior!
PEDESTRE, empurrando Alexandre para dentro do quarto – Entra! (Fecha
a
porta e tira a chave.)
BALBINA, à parte, a tremer de susto – Ai de mim! Matai-me, meu
Deus!
(Pedestre encaminha-se para Balbina e, chegando junto dela, observa-a por
alguns
instantes, calado. Balbina treme de susto, enquanto o pai a observa. Pedestre,
sem dizer
palavra, volta-se, e abrindo a gaveta da mesa, dela tira uma palmatória.
Balbina,
vendo-o tirar a palmatória.) Ah!
PEDESTRE, indo para ela – Dá cá a mão!
BALBINA – Meu pai!
PEDESTRE – Dá cá a mão!
BALBINA – Oh! (Recuando.)
PEDESTRE, seguindo-a – Dá cá a mão!
BALBINA, escondendo as mãos atrás das costas – Não
sou criança para levar
de palmatória!
PEDESTRE – Não és criança... Mas és namoradeira,
e eu cá ensino as
namoradeiras a palmatória. Santo remédio! Venha!
BALBINA – Meu pai, meu pai, pelo amor de Deus!
PEDESTRE – Ah, a menina tem namorados, recebe cartinhas e quer casar-se
contra minha vontade! Veremos... Venha, enquanto está quente... Venha!
BALBINA, caindo de joelhos – Por piedade!
PEDESTRE – Só quatro dúzias, só quatro dúzias...
BALBINA – Oh, não, não, meu pai! (Abraçando-lhe
as pernas) Meu pai, que
lhe fiz eu? Que culpa tenho eu, se me escrevem? Posso eu impedir que me escrevam?
PEDESTRE – Pode, pode! Não dê corda! Venha!
BALBINA – Mas isso é uma injustiça! Eu não conheço
ninguém, não vejo
ninguém, vivo aqui fechada...
PEDESTRE – Quanto mais se não vivesse...
BALBINA – Que culpa tenho, se alguém se lembra de escrever-me?
Não posso
prevenir isso... Escrevem-me, mandam a carta por um negro... e sou eu quem
pago, eu,
que não tenho culpa nenhuma! Meu pai, perdoe-me! Indague quem foi a
pessoa que
escreveu-me e castiga-o... Mas eu? Oh, perdão, meu bom paizinho!
PEDESTRE – Levanta-te. Olha, tu não levarás os bolos por
esta, mas também
não me hás de embaçar mais. Porém quero saber
quem é o sujeitinho que quer armar o
estratagema para lograr-me. Lograr-me! A mim, que sou macaco velho no ofício...
Quero ver se é capaz de pôr o pé nesta casa ou se te
fará dar um só passo daqui para
fora. Então, não sabes ele quem é?
BALBINA – Já lhe disse que não, meu pai.
PEDESTRE – Está bem, chama tua madrasta. Toma a chave. Ela mo dirá.
(Balbina vai abrir a porta e sai por ela.)
CENA VII
PEDESTRE, e PAULINO no armário. PEDESTRE passeia, pensativo, de um
para outro
lado da sala.
PAULINO, à parte, no armário – No que diabo estará
ele pensando!
PEDESTRE – Estratagema! Qual será o estratagema? É preciso
toda a cautela...
Ora, eis ai está! Fecham-se, aferrolham-se estas mulheres e elas
sempre acham uma
abertazinha para nos pregarem mesmo na menina do olho... Ah, mas deixem-nas
comigo... Só fica logrado aquele que as não conhece. Porta sempre
fechada – e os
melros que andem por fora da gaiola...
PAULINO, à parte, no armário – Dentro já estou eu...
ALEXANDRE, à parte, no buraco da porta – Eu cá estou de dentro...
PEDESTRE – Veremos quem é capaz de lograr-me .. Lograr André
Camarão!
Cá a menina, levarei a palmatória. Santa panacéia para
namoros! E minha mulher... Oh,
se lhe passar somente pela ponta dos cabelos a idéia de enganar-me,
de se deixar
seduzir... Ah, nem falar nisso, nem pensar! Eu seria um tigre, um leão,
um elefante! A
mataria, a enterraria, a esfolaria viva. Oh, já tremo de furor! Vi
muitas vezes Otelo no
teatro, quando ia para platéia por ordem superior. O crime de Otelo
é uma migalha, uma
ninharia, uma nonada, comparado com o meu... Enganar-me! Enganar, ela! Ah,
nem sei
do que seria capaz! Amarrados ela e o seu amante, os mandaria de presente
ao diabo,
acabariam na ponta desta espada, nas unhas destas mãos, no talão
destas botas! Nem
quero dizer do que seria capaz.
PAULINO, à parte, no armário – Deus se compadeça
de mim!
PEDESTRE – Oh, mataria o gênero humano, se o gênero humano
seduzisse
minha mulher!
PAULINO, à parte – Quem me reza por alma?
PEDESTRE – Ela que chega... E eu não me fio nela...
CENA VIII
Os mesmos, ANACLETA e BALBINA.
ANACLETA – Mandou-me chamar?
PEDESTRE – Sim, espere. E tu, (para Balbina) vai aquentar uma xícara
de café,
que tenho a cabeça muito esquentada. (Balbina sai.)
PAULINO, à parte – Atenção...
PEDESTRE, para Anacleta – Chegue-se para cá. (Assenta-se.)
ANACLETA, aproximando-se – Aqui me tem.
PEDESTRE – Quem vem a esta casa quando eu estou fora?
PAULINO, à parte – Ninguém...
ANACLETA – Zombas comigo? (Olhando ao redor de si:) Ele saiu...
PEDESTRE – Responda ao que lhe pergunto. Quem vem a esta casa?
ANACLETA – Quando sais não fechas todas as portas e não
nos deixas presas
cada uma de seu lado? Como queres que aqui venha alguém?
PEDESTRE, levantando-se – Portas fechadas! Que valem portas fechadas?
As
fechaduras não têm buraco?
ANACLETA, à parte – Com que homem casei-me eu!
PEDESTRE, à parte – Hei de ver se descubro umas fechaduras sem
buraco...
(Alto:) Anacleta, ouve bem o que te vou dizer. Tu me conheces, e sabes se
sou capaz de
fazer o que digo – e ainda mais. Sempre que saio deixo esta casa fechada,
portas e
janelas, e sempre que aqui estou tenho os olhos alerta. E apesar de todas
estas cautelas,
Balbina enganou-me.
ANACLETA – Enganou-te?
PEDESTRE – Tem um amante, recebe cartinhas e está fiada em um
estratagema
para lograr-me. (Olha ao redor de si.) Mas isso veremos... Mas onde diabo
viu ela esse
sujeito? Quando, como? Aqui está o que me amofina, o que derrota a
minha finúria de
pedestre e faz-me andar a cabeça à roda. Tantas cautelas, e
por fim logrado! Ah,
mulheres! Diabos! Vamos, tu deves saber quem é ele? Como se chama?
Onde foi que
Balbina o viu? Em que lugar? Por que buraco? Por que greta?
ANACLETA – Nada sei.
PEDESTRE, pegando-lhe no braço, furioso – Nada sabes?
ANACLETA – Não!
PEDESTRE – Mulher!
ANACLETA – Matai-me, porque deixarei de sofrer!
PEDESTRE – Matar-te! Isso fica para quando o mereceres... Por ora, basta
que
eu seja mais cauteloso. Todas as portas, todas as janelas desta casa vão
ser pregadas a
prego... Um pequeno postigo naquela porta – quanto caiba meu corpo –
será bastante
para eu sair... E o postigo fechará como uma tampa de caxeta e aldraba
– nada de
fechaduras com buraco! A luz virá pelo telhado... Não, não,
os telhados andam também
muito perigosos... Uma candeia de dia e de noite estará acesa aqui.
Quero ver se assim
me logram.
ANACLETA, com muita tranqüilidade – Agora que te ouvi, ouve-me também.
Fecha todas estas portas, prega-as, calafeta-as, rodeia-me de vigias e cautelas,
que eu hei
de achar uma ocasião para fugir!
PEDESTRE – Tu? Oh!
ANACLETA – Eu, sim! E irei direitinha daqui para o Recolhimento, donde
saí,
depois de queixar-me às autoridades.
PEDESTRE – Tu és capaz de fugir daqui?
ANACLETA – Sou sim!
PEDESTRE – Meu Deus, como hei de eu fechar estes demônios, estas
endiabradas?
ANACLETA – Minha mãe – Deus a perdoe! – lançou-me
na roda dos
enjeitados. Na Santa Casa fui criada e educada...
PEDESTRE – Boa educação!...
ANACLETA – Privada dos carinhos maternais, pobre e abandonada como
eu
era, encontrei nessa casa de misericórdia cristã amparo e proteção;
nela cresci e nela
aprendi a orar a Deus pelos meus benfeitores e por minha mãe, que me
havia
abandonado, minha mãe, de quem só possuo no mundo esta cruz
que desde o berço me
acompanha... (Assim dizendo, beija uma cruzinha que traz pendente ao pescoço.)
PEDESTRE – Esta história eu já ouvi muitas vezes, e faz-me
sono...
ANACLETA – Pois dorme.
PEDESTRE – Assim era eu tolo. .. Quem se casa não dorme, ou...
Bem sei o que
digo.
ANACLETA – Então vai ouvindo. Como recolhida, tive quatrocentos
mil-réis
de dote... E tu te casaste comigo por causa desses quatrocentos mil-réis,
e só por eles.
PEDESTRE – Eu os daria agora a quem me livrasse da pensão de te guardar.
ANACLETA – E deixei assim uma habitação de paz por este
inferno em que
vivo. Oh, mas estou resolvida, tomarei uma resolução. Fugirei
desta casa, onde vivo
como miserável escrava; irei ter com meus benfeitores, contar-lhes-ei
o que tenho
sofrido desde que os deixei. Pedirei justiça, para mim e para tua primeira
vítima... Oh,
recorda-te bem, André, que tua primeira mulher, a infeliz mãe
de Balbina, morreu
arrebentada de desgostos, e que teus loucos ciúmes abriram-lhe a sepultura...
PEDESTRE – Morreu para minha tranqüilidade; já não é preciso vigiá-la...
ANACLETA – Oh, que monstro!
PEDESTRE – Anacleta! Anacleta! Tu queres pregar-me alguma! Nunca te
ouvi
falar assim, e se agora o fazes, é que te sentes culpada...
ANACLETA – Não, é que me sinto cansada; já não
posso com esta vida; não
quero morrer como ela.
PEDESTRE – Até agora tenho-te tratado como um fidalgo, nada
te tem faltado,
a não ser a liberdade...
ANACLETA, à parte – É o necessário...
PEDESTRE – Confiava em ti... porque tinha sempre a minha porta fechada.
Mas
minha filha enganou-me, apesar das portas fechadas, e tu também me
enganarás...
ANACLETA – Oh!
PEDESTRE, com voz concentrada – Se é que já não
me enganaste!
ANACLETA – Isto é muito!
PEDESTRE, pegando-lhe pelo braço – Mulher, se eu tivesse a mais
pequena
desconfiança, o menor indício que... bem me entendes... eu...
eu... te mataria!
ANACLETA, recuando, horrorizada – Ah!
PEDESTRE, caminhando para ela – Sim, a minha afronta eu lavaria no teu
sangue, e a minha... (Aqui vê ele no seio da mulher a ponta da carta
que Paulino meteu
por baixo da porta e que ela apanhou, e com rapidez a arrebata.)
ANACLETA – Ah! (À parte:) Estou perdida!
PEDESTRE, com a carta na mão – Uma carta! Hoje já são
duas! Chovem cartas
em minha casa, apesar das portas fechadas! Ela também! (Indo para Anacleta:)
De
quem é esta carta? Eu tremo de a ler!
ANACLETA – Esta carta?
PEDESTRE – Sim!
ANACLETA – Não sei...
PEDESTRE – Oh! (Abrindo a carta com furor e amarrotando-a nas mãos:)
Eila!
(Arredando-a dos olhos, todo trêmulo.)
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