CECÍLIA – Acaba.
MARIQUINHA – E todos a desprezam.
CECÍLIA – Desprezam! Pois não. Só se se é
alguma tola e dá logo a perceber
que tem muitos namorados. Cada um dos meus supõe-se único na
minha afeição.
MARIQUINHA – Tens habilidade.
CECÍLIA – É tão bom estar-se à janela, vendo-os
passar um atrás do outro como
os soldados que passam em continência. Um aceno para um, uma t[os]sezinha
para
outro, um sorriso, um escárnio, e vão eles tão contentezinhos...
Entra FELÍCIO.
FELÍCIO, entrando – Perdi-o de vista.
CECÍLIA, assustando-se – Ai, que susto me meteu o sr. Felício!
FELÍCIO – Muito sinto que...
CECÍLIA – Não faz mal. (Com ternura:) Se todos os meus
sustos fossem como
este, não se me dava de estar sempre assustada.
FELÍCIO – E eu não me daria de causar, não digo
susto, mas surpresa a pessoas
tão amáveis e bela[s] como a senhora dªona Cecília.
CECÍLIA – Não mangue comigo; ora veja!
MARIQUINHA., à parte – Já ela está a namorar o
primo. É insuportável.
Primo?
FELÍCIO – Priminha?
MARIQUINHA – Aquilo?
FELÍCIO – Vai bem.
CECÍLIA – O que é?
MARIQUINHA – Uma coisa.
Entram CLEMÊNCIA, EUFRÁSIA, JOÃO, JÚLIA, o menino,
a preta com a criança e o
moleque.
CLEMÊNCIA – Mostra que tem habilidade.
EUFRÁSIA – Assim é bom, pois o meu nem por isso. Quem
também já vai
adiantado é o Juca; ainda [ontem (?)] o João comprou-lhe um
livro de fábula.
CLEMÊNCIA – As mestras da Júlia estão muito contentes
com ela. Está muito
adiantada. Fala francês e daqui a dois dias não sabe mais falar
português.
FELÍCIO, à parte – Belo adiantamento!
CLEMÊNCIA – É muito bom colégio. Júlia, cumprimenta
aqui o senhor em
francês.
JÚLIA – Ora, mamã.
CLEMÊNCIA – Faça-se de tola!
JÚLIA – Bon jour, Monsieur, comment vous portez-vous? Je suis
votre
serviteur.
JOÃO – Oui. Está muito adiantada.
EUFRÁSIA – É verdade.
CLEMÊNCIA, para Júlia – Como é mesa em francês?
JÚLIA – Table.
CLEMÊNCIA – Braço?
JÚLIA – Bras.
CLEMÊNCIA – Pescoço?
JÚLIA – Cou.
CLEMÊNCIA – Menina!
JÚLIA – É cou mesmo, mamã; não é
primo? Não é cou que significa?
CLEMÊNCIA – Está bom, basta.
EUFRÁSIA – Estes franceses são muito porcos. Ora veja,
chamar o pescoço,
que está ao pé da cara, com este nome tão feio.
JOÃO, para Eufrásia – Senhora, são horas de nos
irmos.
CLEMÊNCIA – Já?
JOÃO – É tarde.
EUFRÁSIA – Adeus, comadre, qualquer destes dias cá virei.
dª. Mariquinha,
adeus. (Dá um abraço e um beijo.)
MARIQUINHA – Passe bem. Cecília, até quando?
CECÍLIA – Até nos encontrarmos. Adeus. (Dá abraço
e muitos beijos.)
EUFRÁSIA, para Clemência – Não se esqueça
daquilo.
CLEMÊNCIA – Não.
JOÃO, para Clemência – Comadre, boas noites.
CLEMÊNCIA – Boas noites, compadre.
EUFRÁSIA e CECÍLIA – Adeus, adeus! Até sempre.
(Os de casa acompanhamnos.)
EUFRÁSIA, parando no meio da casa – Mande o vestido pela Joana.
CLEMÊNCIA – Sim. Mas quer um só, ou todos os dois?
EUFRÁSIA – Basta um.
CLEMÊNCIA – Pois sim.
CECÍLIA, para Mariquinha – Você também mande-me
o molde das mangas.
Mamã, não era melhor fazer o vestido de mangas justas?
EUFRÁSIA – Faze como quiseres.
JOÃO – Deixem isto para outra ocasião e vamos, que é
tarde.
EUFRÁSIA – Já vamos, já vamos. Adeus, minha gente,
adeus. (Beijos e
abraços.)
CECÍLIA, para Mariquinha – O livro que te prometi mando amanhã.
MARIQUINHA – Sim.
CECÍLIA – Adeus. Boas noites, senhor Felício.
EUFRÁSIA., parando quase junto da porta – Você sabe? Nenhuma
das
sementes pegou.
CLEMÊNCIA – É que não soube plantar.
EUFRÁSIA —. Qual!
MARIQUINHA – Adeus, Lulu.
EUFRÁSIA – Não eram boas.
CLEMÊNCIA – Eu mesmo as colhi.
MARIQUINHA – Marotinho!
CECÍLIA – Se você ver7 dª. Luísa, dê
lembranças.
EUFRÁSIA – Mande outras.
MARIQUINHA – Mamã, olhe Lulu que está lhe estendendo os
braços.
CLEMÊNCIA – Um beijinho.
CECÍLIA – Talvez possa vir amanhã.
CLEMÊNCIA – Eu mando outras, comadre.
Assim no manuscrito, por vir.
JOÃO – Então, vamos ou não vamos? (Desde que Eufrásia
diz —Você sabe?
Nenhuma das sementes pegou – falam todos ao mesmo tempo, com algazarra.)
CLEMÊNCIA – Já vão, já vão.
EUFRÁSIA – Espere um bocadinho.
JOÃO, para Felício – Não se pode aturar senhoras.
EUFRÁSIA – Adeus, comadre, o João quer-se ir embora. Talvez
venham cá os
Reis.
CECÍLIA – É verdade, e...
JOÃO – Ainda não basta?
EUFRÁSIA —. Que impertinência! Adeus, adeus!
CLEMÊNCIA [e] MARIQUINHA – Adeus, adeus!
EUFRÁSIA. chega à porta e pára – Quando quiser,
mande a abóbora para fazer
o doce.
CLEMÊNCIA – Pois sim, quando estiver madura lá mando, e
...
JOÃO, à parte – Ainda não vai desta, irra!
CECÍLIA, para Mariquinha – Esqueci-me de te mostrar o meu chapéu.
CLEMÊNCIA – Não bota cravo.
CECÍLIA – Manda buscar?
EUFRÁSIA – Pois sim, tenho um receita.
MARIQUINHA – Não, teu pai está zangado.
CLEMÊNCIA – Com flor de laranja.
EUFRÁSIA – Sim.
JOÃO, à parte, batendo com o pé – É de mais!
CECÍLIA – Mande para eu ver.
MARIQUINHA – Sim.
EUFRÁSIA – Que o açúcar seja bom.
CECÍLIA – E outras coisas novas.
CLEMÊNCIA – É muito bom.
EUFRÁSIA – Está bem, adeus. Não se esqueça.
CLEMÊNCIA – Não.
CECÍLIA – Enquanto a Vitorina está lá em casa.
MARIQUINHA – Conta bem.
CECÍLIA – Adeus, Júlia.
JÚLIA – Mande a boneca.
CECÍLIA – Sim.
JÚLIA – Lulu, adeus, bem, adeus!
MARIQUINHA – Não faça ele cair!
JÚLIA – Não.
JOÃO – Eu vou saindo. Boas noites. (À parte:) Irra, irra!
CLEMÊNCIA – Boas noites, sô João.
EUFRÁSIA – Anda, menina. Juca, vem.
TODOS – Adeus, adeus, adeus! (Toda esta cena deve ser como a outra,
falada
ao mesmo tempo.)
JOÃO – Enfim! (Saem Eufrásia, Cecília, João,
o menino e a preta;
Clemência, Mariquinha ficam à porta; Felício acompanha
as visitas.)
CLEMÊNCIA, da porta – Adeus!
EUFRÁSIA, dentro – Toma sentido nos Reis pra me contar.
CLEMÊNCIA, da porta – Hei de tomar bem sentido.
CECÍLIA, de dentro – Adeus, bem! Mariquinha?
MARIQUINHA – Adeus!
CLEMÊNCIA, da porta – Ó comadre, manda o Juca amanhã,
que é domingo.
EUFRÁSIA, dentro – Pode ser. Adeus.
CLEMÊNCIA, MARIQUINHA e FELÍCIO.
CLEMÊNCIA – Menina, são horas de mandar arranjar a mesa
pra ceia dos Reis.
MARIQUINHA – Sim, mamã.
CLEMÊNCIA – Viste a Cecília como vinha? Não sei
aquela comadre aonde
quer ir parar. Tanto luxo e o marido ganha tão pouco! São milagres
que estas gentes
sabem fazer.
MARIQUINHA – Mas elas cosem pra fora.
CLEMÊNCIA – Ora, o que dá a costura? Não sei, não
sei! Há coisas que se não
podem explicar... Donde lhes vem o dinheiro não posso dizer. Elas que
o digam. (Entra
Felício.) Felício, você também não acompanha
os Reis?
FELÍCIO – Hei de acompanhar, minha tia.
CLEMÊNCIA – E ainda é cedo?
FELÍCIO, tirando o relógio – Ainda; apenas são
nove horas.
CLEMÊNCIA – Ah, meu tempo!
Entra NEGREIRO acompanhado de um preto de ganho com um cesto à cabeça
coberto
com um cobertor de baeta encarnada.
NEGREIRO – Boas noites.
CLEMÊNCIA —Oh, pois voltou? O que traz com este preto?
NEGREIRO – Um presente que lhe ofereço.
CLEMÊNCIA – Vejamos o que é.
NEGREIRO – Uma insignificância... Arreia, pai! (Negreiro ajuda
ao preto a
botar o cesto no chão. Clemência, Mariquinha chegam-se para junto
do cesto, de modo
porém que este fica à vista dos espectadores. )
CLEMÊNCIA – Descubra. ( Negreiro descobre o cesto e dele levanta-se
um
moleque de tanga e carapuça encarnada, o qual fica em pé dentro
do cesto.) Ó gentes!
MARIQUINHA, ao mesmo tempo – Oh!
FELÍCIO, ao mesmo tempo – Um meia-cara!
NEGREIRO – Então, hem? (Para o moleque:) Quenda, quenda! (Puxa
o
moleque para fora.)
CLEMÊNCIA – Como é bonitinho!
NEGREIRO – Ah, ah!
CLEMÊNCIA – Pra que o trouxe no cesto?
NEGREIRO – Por causa dos malsins...
CLEMÊNCIA – Boa lembrança. (Examinando o moleque:) Está
gordinho...
bons dentes...
NEGREIRO, à parte, para Clemência – É dos desembarcados
ontem no
Botafogo...
CLEMÊNCIA – Ah! Fico-lhe muito obrigada.
NEGREIRO, para Mariquinha – Há de ser seu pajem.
MARIQUINHA – Não preciso de pajem.
CLEMÊNCIA – Então, Mariquinha?
NEGREIRO – Está bom, trar-lhe-ei uma mucamba.
CLEMÊNCIA – Tantos obséquios... Dá licença
que o leve para dentro?
NEGREIRO – Pois não, é seu.
CLEMÊNCIA – Mariquinha, vem cá. Já volto. (Saí
Clemência, levando pela
mão o moleque, e Mariquinha.)
NEGREIRO, para o preto de ganho – Toma lá. (Dá-lhe dinheiro;
o preto toma o
dinheiro e fica algum tempo olhando para ele.) Então, acha pouco?
O NEGRO – Eh, eh, pouco... carga pesado...
NEGREIRO, ameaçando – Salta já daqui, tratante! (Empurra-o.)
Pouco, pouco!
Salta! (Empurra-o pela porta afora.)
FELÍCIO, à parte – Sim, empurra o pobre preto, que eu
também te
empurrarei sobre alguém...
NEGREIRO, voltando – Acha um vintém pouco!
FELÍCIO – Sr. Negreiro...
NEGREIRO – Meu caro senhor?
FELÍCIO – Tenho uma coisa que lhe comunicar, com a condição
porém que o
senhor se não há de alterar.
NEGREIRO – Vejamos.
FELÍCIO – A simpatia que pelo senhor sinto é que me faz
falar...
NEGREIRO – Adiante, adiante...
FELÍCIO, à parte – Espera, que eu te ensino, grosseirão.
(Para Negreiro:) O sr.
Gainer, que há pouco saiu, disse-me que ia ao juiz de paz denunciar
os meias-caras que
o senhor tem em casa e ao comandante do brigue inglês Wizart os seus
navios que
espera todos os dias.
NEGREIRO – Quê? Denunciar-me, aquele patife? Velhaco-mor! Denunciar-me?
Oh, não que eu me importe com a denúncia ao juiz de paz; com
este eu cá me entendo;
mas é patifaria, desaforo!
FELÍCIO – Não sei por que tem ele tanta raiva do senhor.
NEGREIRO – Por quê? Porque eu digo em toda a parte que ele é
um
especulador velhaco e velhacão! Oh, inglês do diabo, se eu te
pilho! Inglês de um dardo!
Entra GAINER apressado.
GAINER, entrando – Darda tu, patifa!
NEGREIRO – Oh!
GAINER, tirando apressado a casaca – Agora me paga!
FELÍCIO, à parte, rindo-se – Temos touros!
NEGREIRO, indo sobre Gainer – Espera, goddam dos quinhentos!
GAINER, indo sobre Negreiro – Meia-cara! (Gainer e Negreiro brigam aos
socos. Gainer gritando continuadamente: Meia-cara! Patifa! Goddam! –
e Negreiro:
Velhaco! Tratante! Felício ri-se, de modo porém que os dois
não pressintam. Os dois
caem no chão e rolam brigando sempre.)
FELÍCIO, à parte, vendo a briga – Bravo os campeões!
Belo soco! Assim,
inglesinho! Bravo o Negreiro! Lá caem... Como estão zangados!
CENA XVI
Entra CLEMÊNCIA e MARIQUINHA.
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FELÍCIO, vendo-as entrar – Senhores, acomodem-se! (Procura apartá-los.)
CLEMÊNCIA – Então, o que é isto, senhores? Contendas
em minha casa?
FELÍCIO – Sr. Negreiro, acomode-se! (Os dois levantam-se e falam
ao mesmo
tempo.)
NEGREIRO – Este yes do diabo...
GAINER – Negreira atrevida...
NEGREIRO – ... teve a pouca-vergonha...
GAINER – ... chama a mim...
NEGREIRO – ... de denunciar-me...
GAINER – ... velhaca...
FELÍCIO – Senhores!
CLEMÊNCIA – Pelo amor de Deus, sosseguem!
NEGREIRO, animando-se – Ainda não estou em mim...
GAINER, animando-se – Inglês não sofre...
NEGREIRO – Quase que o mato!
GAINER – Goddam! (Quer ir contra Negreiro, Clemência e Felício
apartam.)
CLEMÊNCIA – Sr. mister! Sr. Negreiro!
NEGREIRO – Se não fosse a senhora, havia de ensinar-te, yes do
diabo!
CLEMÊNCIA – Basta, basta!
GAINER – Eu vai-se embora, não quer ver mais nas minhas olhos
este homem.
(Sai arrebatadamente vestindo a casaca.)
NEGREIRO, para Clemência – Faz-me o favor. (Leva-a para um lado.)
A
senhora sabe quais são minhas intenções nesta casa a
respeito de sua filha, mas como
creio que este maldito inglês tem as mesmas intenções...
CLEMÊNCIA – As mesmas intenções?
NEGREIRO – Sim senhora, pois julgo que pretende também casar
com sua
filha.
CLEMÊNCIA – Pois é da Mariquinha que ele gosta?
NEGREIRO – Pois não nota a sua assiduidade?
CLEMÊNCIA, à parte – E eu que pensava que era por mim!
NEGREIRO – É tempo de decidir: ou eu ou ele.
CLEMÊNCIA – Ele casar-se com Mariquinha? É o que faltava!
NEGREIRO – É quanto pretendia saber. Conceda que vá mudar
de roupa, e já
volto para assentarmos o negócio. Eu volto. (Sai.)
CLEMÊNCIA, à parte – Era dela que ele gostava! E eu, então?
(Para
Mariquinha:) O que estão vocês aí bisbilhotando? As filhas
neste tempo não fazem caso
das mães! Pra dentro, pra dentro!
MARIQUINHA, espantada – Mas, mamã...
CLEMÊNCIA mais zangada – Ainda em cima respondona! Pra dentro!
(Clemência empurra Mariquinha pra dentro, que vai chorando.)
FELÍCIO – Que diabo quer isto dizer? O que diria ele a minha
tia para indispô-la
deste modo contra a prima? O que será? Ela me dirá. (Sai atrás
de Clemência.)
Entra NEGREIRO na ocasião que FELÍCIO sai.
NEGREIRO – Psiu! Não ouviu-me... Esperarei. Quero que me dê
informações
mais miúdas a respeito da denúncia que o tal patife deu ao cruzeiro
inglês dos navios
que espero. Isto... [Não, que os tais meninos andam com o olho vivo
pelo que bem o sei
eu, e todos, em suma. Seria bem bom que eu pudesse arranjar este casamento
o mais
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breve possível. Lá com a moça, em suma, não me
importa; o que eu quero é o dote. Fazme
certo arranjo... E o inglês também queria, como tolo! Já
ando meio desconfiado...
Alguém vem! Se eu me escondesse, talvez pudesse ouvir... Dizem que
é feio... Que
importa? Primeiro o meu dinheiro, em suma. (Esconde-se por trás da
cortina da
primeira janela.)
Entra CLEMÊNCIA.
CLEMÊNCIA – É preciso que isto se decida. Ó lá
de dentro! José?
UMA VOZ, dentro – Senhora!
CLEMÊNCIA – Vem cá. A quanto estão as mulheres sujeitas!
(Entra um pajem.
Clemência, dando-lhe uma carta:) Vai à casa do sr. Gainer, aquele
inglês, e entrega-lhe
esta carta. (Sai o pajem. Negreiro, durante toda esta cena e a seguinte, observa,
espiando.)
NEGREIRO, à parte – Uma carta para o inglês!
CLEMÊNCIA, passeando – Ou com ele, ou com nenhum mais.
NEGREIRO – Ah, o caso é este!
CLEMÊNCIA, no mesmo – Estou bem certa que ele fará a felicidade
de uma
mulher.
NEGREIRO, à parte – Muito bom, muito bom!
CLEMÊNCIA, no mesmo – O mau foi ele brigar com o Negreiro.
NEGREIRO, à parte – E o pior é não lhe quebrar
eu a cara...
CLEMÊNCIA – Mas não devo hesitar: se for necessário,
fecharei minha porta ao
Negreiro.
NEGREIRO – Muito obrigado.
CLEMÊNCIA – Ele se há de zangar.
NEGREIRO – Pudera não! E depois de dar um moleque que podia vender
por
duzentos mil-réis...
CLEMÊNCIA, no mesmo – Mas que importa? É preciso pôr
meus negócios em
ordem, e só ele é capaz de os arranjar depois de se casar comigo.
NEGREIRO, à parte – Hem? Como é lá isso? Ah!
CLEMÊNCIA – Há dois anos que meu marido foi morto no Rio
Grande pelos
rebeldes, indo lá liquidar umas contas. Deus tenha sua alma em glória;
tem-me feito
uma falta que só eu sei. É preciso casar-me; ainda estou moça.
Todas as vezes que me
lembro do defunto vêm-me as lágrimas aos olhos... Mas se ele
não quiser?
NEGREIRO, à parte – Se o defunto não quiser?
CLEMÊNCIA – Mas não, a fortuna que tenho e mesmo alguns
atrativos que
possuo, seja dito sem vaidade, podem vencer maiores impossíveis. Meu
pobre defunto
marido! (Chora.) Vou fazer a minha toilette. (Sai.)
NEGREIRO sai da janela.
NEGREIRO – E então? Que tal a viúva? (Arremedando a voz
de Clemência:)
Meu pobre defunto marido... Vou fazer minha toilette. Não é
má! Chora por um e
enfeita-se para outro. Estas viúvas! Bem diz o ditado que viúva
rica por um olho chora,
e por outro repica. Vem gente... Será o inglês? (Esconde-se.)
Entra ALBERTO vagaroso e pensativo; olha ao redor de si, examinando tudo
com
atenção. Virá vestido pobremente, mas com decência.
NEGREIRO, que da janela
espiando o observa, mostra-se aterrado durante toda a seguinte cena.
ALBERTO – Eis-me depois de dois anos de privações e miséria
restituído ao
seio de minha família!
NEGREIRO, à parte – O defunto!
ALBERTO – Minha mulher e minha filha ainda se lembrarão de mim?
Serão
elas felizes, ou como eu experimentarão os rigores do infortúnio?
Há apenas duas horas
que desembarquei, chegando dessa malfadada província aonde dois anos
estive
prisioneiro. Lá os rebeldes me detiveram, porque julgavam que eu era
um espião;
minhas cartas para minha família foram interceptadas e minha mulher
talvez me julgue
morto... Dois anos, que mudanças terão trazido consigo? Cruel
ansiedade! Nada
indaguei, quis tudo ver com meus próprios olhos... É esta a
minha casa, mas estes
móveis não conheço... Mais ricos e suntuosos são
do que aqueles que deixei. Oh, terá
também minha mulher mudado? Sinto passos... Ocultemo-nos... Sinto-me
ansioso de
temor e alegria... meu Deus! (Encaminha-se para a janela aonde está
escondido
Negreiro.) NEGREIRO, à parte – Oh, diabo! Ei-lo comigo! (Alberto
querendo
esconder-sena janela, dá com Negreiro e recua espantado.)
ALBERTO – Um homem! Um homem escondido em minha casa!
NEGREIRO, saindo da janela – Senhor!
ALBERTO – Quem és tu? Responde! (Agarra-o.)
NEGREIRO – Eu? Pois não me conhece, sr. Alberto? Sou Negreiro,
seu amigo...
Não me conhece?
ALBERTO – Negreiro... sim... Mas meu amigo, e escondido em casa de minha
mulher!
NEGREIRO – Sim senhor, sim senhor, por ser seu amigo é que estava
escondido
em casa de sua mulher.
ALBERTO, agarrando Negreiro pelo pescoço – Infame!
NEGREIRO – Não me afogue! Olhe que eu grito!
ALBERTO – Dize, por que te escondias?
NEGREIRO – Já lhe disse que por ser seu verdadeiro amigo... Não
aperte que
não posso, e então também dou como um cego, em suma.
ALBERTO, deixando-o – Desculpa-te se podes, ou treme...
NEGREIRO – Agora sim... Vá ouvindo. (À parte:) Assim safo-me
da arriosca e
vingo-me, em suma, do inglesinho. (Para Alberto:) Sua mulher é uma
traidora!
ALBERTO – Traidora?
NEGREIRO – Traidora, sim, pois não tendo certeza de sua morte,
tratava já de
casar-se.
ALBERTO – Ela casar-se? Tu mentes! (Agarra-o com força.)
NEGREIRO – Olhe que perco a paciência... Que diabo! Por ser seu
amigo e
vigiar sua mulher agarra-me deste modo? Tenha propósito, ou eu... Cuida
que é
mentira? Pois esconda-se um instante comigo e verá. (Alberto esconde
o rosto nas mãos
e fica pensativo. Negreiro, à parte:) Não está má
a ressurreição! Que surpresa para a
mulher! Ah, inglesinho, agora me pagarás!
ALBERTO, tomando-o pelo braço – Vinde... Tremei porém,
se sois um
caluniador. Vinde! (Escondem-se ambos na janela e observam durante toda a
seguinte
cena.)
NEGREIRO, da janela – A tempo nos escondemos, que alguém se aproxima!
Entra FELÍCIO e MARIQUINHA.
FELÍCIO – É preciso que te resolvas o quanto antes.
ALBERTO, da janela – Minha filha!
MARIQUINHA – Mas...
FELÍCIO – Que irresolução é a tua? A desavença
entre os dois fará que a tia
apresse o teu casamento – com qual deles não sei. O certo é
que de um estamos livres;
resta-nos outro. Só com coragem e resolução nos podemos
tirar deste passo. O que disse
o Negreiro à tua mãe não sei, porém, o que quer
que seja, a tem perturbado muito, e
meu plano vai-se desarranjando.
MARIQUINHA – Oh, é verdade, a mamãe tem ralhado tanto
comigo depois
desse momento, e me tem dito mil vezes que eu serei a causa da sua morte...
FELÍCIO – Se tivesses coragem de dizer a tua mãe que nunca
te casarás com o
Gainer ou com o Negreiro...
NEGREIRO, da janela – Obrigado!
MARIQUINHA – Jamais o ousarei!
FELÍCIO – Pois bem, se o não ousas dizer, fujamos.
MARIQUINHA – Oh, não, não!
CLEMÊNCIA, dentro – Mariquinha?
MARIQUINHA – Adeus! Nunca pensei que você me fizesse semelhante
proposição!
FELÍCIO, segurando-a pela mão – Perdoa, perdoa ao meu
amor! Estás mal
comigo? Pois bem, já não falarei em fugida, em planos, em entregas;
apareça só a força
e coragem. Aquele que sobre ti lançar vistas de amor ou de cobiça
comigo se haverá.
Que me importa a vida sem ti? E um homem que despreza a vida...
MARIQUINHA, suplicante – Felício!
CLEMÊNCIA, dentro – Mariquinha?
MARIQUINHA – Senhora? Eu te rogo, não me faças mais desgraçada!
CLEMÊNCIA, dentro – Mariquinha, não ouves?
MARIQUINHA, – Já vou, minha mãe. Não é verdade
que estavas brincando?
FELÍCIO – Sim, sim, estava; vai descansada.
MARIQUINHA – Eu creio em tua palavra. (Sai apressada.)
CENA XXII
FELÍCIO, só – Crê na minha palavra, porque eu disse
que serás minha. Com
aquele dos dois que te ficar pertencendo irei ter, e será teu esposo
aquele que a morte
poupar. São dez horas, os amigos me esperam. Amanhã se decidirá
minha sorte. (Toma
o chapéu que está sobre a mesa e sai.)
CENA XXIII
ALBERTO e NEGREIRO, sempre na janela.
ALBERTO – Oh, minha ausência, minha ausência!
NEGREIRO – A mim não me matarás! Safa, em suma.
ALBERTO – A que cenas vim eu assistir em minha casa!
NEGREIRO – E que direi eu? Que tal o menino?
ALBERTO – Clemência, Clemência, assim conservavas tu a honra
da nossa
família? Mas o senhor pretendia casar-se com minha filha?
NEGREIRO – Sim senhor, e creio que não sou um mau partido; porém
já
desisto, em suma, e... Caluda, caluda!
Entra CLEMÊNCIA muito bem vestida.
ALBERTO, na janela – Minha mulher Clemência!
NEGREIRO, na janela – Fique quieto.
CLEMÊNCIA, assentando-se – Ai, já tarda... Este vestido
me vai bem... Estou
com meus receios... Tenho a cabeça ardendo de alguns cabelos brancos
que arranquei...
Não sei o que sinto; tenho assim umas lembranças de meu defunto...
É verdade que já
estava velho.
NEGREIRO, na janela – Olhe, chama-o de defunto e velho!
CLEMÊNCIA – Sobem as escadas! (Levanta-se.)
NEGREIRO – Que petisco para o marido! E casai-vos!
CLEMÊNCIA – É ele!
Entra GAINER.
GAINER, entrando – Dá licença? Sua criado... Muito obrigada.
NEGREIRO, na janela – Não há de quê.
CLEMÊNCIA, confusa – O senhor... eu supunha... porém...
eu... Não quer se
assentar? (Assentam-se.)
GAINER – Eu recebe uma carta para vir trata de uma negócia.
CLEMÊNCIA – Fiada em sua bondade...
GAINER – Oh, meu bondade... obrigada.
CLEMÊNCIA – O sr. Mister bem sabe que... (À parte:) Não
sei o que lhe diga.
GAINER – O que é que eu sabe?
CLEMÊNCIA – Talvez que não ignore que pela sentida morte
de meu defunto...
(Finge que chora) fiquei senhora de uma boa fortuna.
GAINER – Boa fortuna é bom.
CLEMÊNCIA – Logo que estive certa de sua morte, fiz inventário,
porque me
ficavam duas filhas menores; assim me aconselhou um doutor de S. Paulo. Continuei
por minha conta com o negócio do defunto; porém o sr. mister
bem sabe que numa casa
sem homem tudo vai para trás. Os caixeiros mangam, os corretores roubam;
enfim, se
isto durar mais tempo, dou-me por quebrada.
GAINER – Este é mau, quebrada é mau.
CLEMÊNCIA – Se eu tivesse porém uma pessoa hábil
e diligente que se pusesse
à testa de minha casa, estou bem certa que ela tomaria outro rumo.
GAINER – It is true.
CLEMÊNCIA – Eu podia, como muitas pessoas me têm aconselhado,
tomar um
administrador, mas temo muito dar esse passo; o mundo havia ter logo que dizer,
e
minha reputação antes de tudo.
GAINER – Reputation, yes.
CLEMÊNCIA – E além disso tenho uma filha já mulher.
Assim, o único
remédio que me resta é casar.
GAINER – Oh, yes! Casar miss Mariquinha, depois tem uma genra para toma
conta na casa.
CLEMÊNCIA – Não é isto o que eu lhe digo!
GAINER – Então mi não entende português.
CLEMÊNCIA – Assim me parece. Digo que é preciso que eu,
eu me case.
GAINER, levantando-se – Oh, by God! By God!
CLEMÊNCIA, levantando-se – De que se espanta? Estou eu tão
velha, que não
possa casar?
GAINER – Mi não diz isto... Eu pensa na home que será
sua marido.
CLEMÊNCIA, à parte – Bom... (Para Gainer:) A única
coisa que me embaraça
é a escolha. Eu... (À parte:) Não sei como dizer-lhe...
(Para Gainer:) As boas
qualidades... (Gainer, que já entendeu a intenção de
Clemência, esfrega, à parte, as
mãos de contente. Clemência, continuando:) Há muito que
o conheço, e eu... sim... não
se pode... o estado deve ser considerado, e... ora... Por que hei de eu ter
vergonha de o
dizer?... Sr. Gainer, eu o tenho escolhido para meu marido; se o há
de ser de minha
filha, seja meu...
GAINER – Mim aceita, mim aceita!
ALBERTO sai da janela com NEGREIRO e agarra GAINER pela garganta.
CLEMÊNCIA – O defunto, o defunto! (Vai cair desmaiada no sofá,
afastando
as cadeiras que acha no caminho.)
GAINER —Goddam! Assassina!
ALBERTO, lutando – Tu é que me assassinas!
GAINER – Ladrão!
NEGREIRO – Toma lá, inglesinho! (Dá-lhe por trás.)
ALBERTO, lutando – Tu e aquele infame...
Entra MARIQUINHA e JÚLIA.
MARIQUINHA – O que é isto? Meu pai! Minha mãe! (Corre
para junto de
Clemência.) Minha mãe! (Alberto [é] ajudado por Negreiro,
que trança a perna em
Gainer e lança-o no chão. Negreiro fica a cavalo em Gainer,
dando e descompondo.
Alberto vai para Clemência.)
ALBERTO – Mulher infiel! Em dois anos de tudo te esqueceste! Ainda não
tinhas certeza de minha morte e já te entregavas a outrem? Adeus, e
nunca mais te verei.
(Quer sair, Mariquinha lança-se a seus pés.)
MARIQUINHA – Meu pai, meu pai!
ALBERTO – Deixa-me, deixa-me! Adeus! (Vai sair arrebatadamente;
Clemência levanta a cabeça e [implora a] Alberto, que ao chegar
à porta encontra-se
com Felício. Negreiro e Gainer neste tempo levantam-se.)
FELÍCIO – Que vejo? Meu tio! Sois vós? (Travando-o pelo
braço, o conduz
para a frente do teatro.)
ALBERTO – Sim, é teu tio, que veio encontrar sua casa perdida
e sua mulher
infiel!
GAINER – Seu mulher! Tudo está perdida!
ALBERTO – Fujamos desta casa! (Vai a sair apressado.)
FELÍCIO, indo atrás – Senhor! Meu tio! (Quando Aberto
chega à porta, ouve-se
cantar dentro.)
UMA VOZ, dentro, cantando – O de casa, nobre gente,
Escutai e ouvireis,
Que da parte do Oriente
São chegados os três Reis.
ALBERTO, pára à porta – Oh! (N.B.: Continuam a representar
enquanto
dentro cantam.)
FELÍCIO, segurando-o – Assim quereis abandonar-nos, meu tio?
MARIQUINHA, indo para Alberto – Meu pai!...
FELÍCIO, conduzindo-o para a frente – Que será de vossa
mulher e de vossas
filhas? Abandonadas por vós, todos as desprezarão... Que horrível
futuro para vossas
inocentes filhas! Esta gente que não tarda a entrar espalhará
por toda a cidade a notícia
do seu desamparo.
MARIQUINHA – Assim nos desprezais?
JÚLIA, abrindo os braços como para abraçá-lo –
Papá, papá!
FELÍCIO – Vede-as, vede-as!
ALBERTO, comovido – Minhas filhas! (Abraça-as com transporte.)
GAINER – Mim perde muito com este... E vai embora!
NEGREIRO – Aonde vai? (Quer segurá-lo; Gainer dá-lhe um
soco que o lança
no chão, deixando a aba da casaca na mão de Negreiro. Clemência,
vendo Alberto
abraçar as filhas, levanta-se e caminha para ele.)
CLEMÊNCIA , humilde – Alberto!
ALBERTO – Mulher, agradece às tuas filhas... estás perdoada...
Longe de minha
vista este infame. Onde está ele?
NEGREIRO – Foi-se, mas, em suma, deixou penhor.
ALBERTO – Que nunca mais me apareça! (Para Mariquinha e Felício:)
Tudo
ouvi junto com aquele senhor, (aponta para Negreiro) e vossa honra exige que
de hoje
a oito dias estejais casados.
FELÍCIO – Feliz de mim!
NEGREIRO – Em suma, fiquei mamado e sem o dote...
Entram dois moços vestidos de jaqueta e calças brancas.
UM DOS MOÇOS – Em nome de meus companheiros pedimos à
senhora dona
Clemência a permissão de cantarmos os Reis em sua casa.
CLEMÊNCIA – Pois não, com muito gosto.
O MOÇO – A comissão agradece. (Saem os dois.)
FELÍCIO, para Alberto – Morro de impaciência por saber
como pôde meu tio
escapar das mãos dos rebeldes para nos fazer tão felizes.
ALBERTO – Satisfarei com vagar a tua impaciência.
Entram os moços e moças que vêm cantar os Reis; alguns
deles, tocando diferentes
instrumentos, precedem o rancho. Cumprimentam quando entram.
O MOÇO – Vamos a esta, rapaziada!
UM MOÇO e UMA MOÇA, cantando:
(Solo)
No céu brilhava uma estrela,
Que a três Magos conduzia
Para o berço onde nascera
Nosso Conforto e Alegria.
(Coro)
Ó de casa, nobre gente,
Acordai e ouvireis,
Que da parte do Oriente
São chegados os três Reis.
(RITORNELO)
(Solo)
Puros votos de amizade,
Boas-festas e bons Reis
Em nome do Rei nascido
Vos pedimos que aceiteis.
(Coro)
Ó de casa, nobre gente,
Acordai e ouvireis,
Que da parte do Oriente
São chegados os três Reis.
TODOS DA CASA – Muito bem!
CLEMÊNCIA – Felício, convida às senhoras e senhores
para tomarem algum
refresco.
FELÍCIO – Queiram .ter a bondade de entrar, que muito nos obsequiarão.
OS DO RANCHO – Pois não, pois não! Com muito gosto.
CLEMÊNCIA – Queiram entrar. (Clemência e os da casa caminham
para
dentro e o rancho os segue tocando uma alegre marcha, e desce o pano.)
Fonte: www.dominiopublico.gov.br
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