MARIANA e os mesmos.
MARIANA, entrando com um pano de sinapismo na mão - O que é? O que é?
JORGE, recuando - Agora sim!
EUFRÁSIA - Só Jorge está-me maltratando!
MARIANA - Grandissíssimo sacripante!
JORGE - Sacripante?
EUFRÁSIA - Deu-me uma bofetada!
MARIANA - Uma bofetada na minha filha?
JORGE atravessa por diante de Mariana e chega-se, rancoroso, para Eufrásia - Dei-te uma bofetada, hem?
MARIANA, puxando-o pelo braço - Que atrevimento é esse, grandissíssimo patife?
JORGE, desesperado - Hoje aqui há morte!
EUFRÁSIA - Morte! Queres-me matar?
MARIANA - Ameaças, grandissíssimo traste?
JORGE, para Mariana - Grandississima tartaruga!
MARIANA - Tartaruga! A mim?
EUFRÁSIA, puxando-lhe pelo braço - Insultas a minha mãe?
JORGE, para Eufrásia - Grandissíssima lampreia!
EUFRÁSIA - Que afronta! Ai, ai, que morro... (Vai cair sentada em uma cadeira e finge-se desmaiada.)
JORGE - Morre, arrebenta, que te leve a breca! (Quer sair; Mariana o retém pela opa.)
MARIANA - Tu matas minha filha, patifão, mas eu hei-de arrancar-te os olhos da cara...
JORGE - Largue a opa!
MARIANA - ... encher essa cara de bofetões!
JORGE - Largue a opa!
MARIANA - Pensas que minha filha não tem mãe?
JORGE - Largue a opa!
MARIANA - Pensas que eu hei-de aturar a ti, e a lambisgóia da lua irmã?
JORGE, com raiva - Senhora!...
MARIANA - Queres-me matar também, mariola?
JORGE, cerrando os dentes de raiva e metendo a cara diante da de Mariana - Senhora!... Diabo!...
MARIANA - Ah! (Dá-lhe com o pano de sinapismo na cara. JORGE dá um grito de dor, leva as mãos a cara e sai gritando.)
JORGE - Estou cego! Água, água!... (Sai pelo fundo. Mariana desfecha a rir às gargalhadas, e o mesmo faz Eufrásia, que se levanta da cadeira. Conservam-se a rir por alguns instantes, sem poderem falar. Luísa aparece à porta.)
EUFRÁSIA - Que boa lembrança! Ah, ah!
LUÍSA, à parte - O que será?
MARIANA - Que bela receita para maridos desavergonhados! Ah. ah!
EUFRÁSIA - Já não posso rir-me... Ah, ah!
MARIANA - Que cara fez ele (Vendo Luísa:) O que queres?
LUÍSA, tímida - Eu...
MARIANA - Bisbilhoteira! Vai buscar minha mantilha e o leque de tua cunhada! (Luísa sai.)
EUFRÁSIA - Já sei o remédio daqui por diante.
MARIANA - Sinapismo nele.
EUFRÁSIA - Mas não vá ele ficar cego.
MARIANA - Melhor para ti! (Entra Luísa com uma mantilha na mão e um leque, que entrega a Eufrásia.) Dá cá; não podias trazê-la sem machucar? Desazada! (Põe a mantilha sobre a cabeça.) Vamos que vai ficando tarde. Iremos primeiro a S. Francisco, que está aqui pertinho. (Para Luísa:) E tu, fica tomando conta na casa, já que não tens préstimo para nada... Pague o que come; não sou burra de ninguém. Vamos, menina.
LUÍSA e depois TIBÚRCIO.
LUÍSA, só - Não tenho préstimo... Sempre insultos! Sou a criada de todos nesta casa. Vou pedir ao mano que me meta no Convento da Ajuda.
TIBÚRCIO, dentro - Esmola para missas das almas.
LUÍSA - Quem é? (Tibúrcio aparece à porta, vestido de irmão das almas.)
TIBÚRCIO - Esmola para missas das almas.
LUÍSA, sem o reconhecer - Deus o favoreça!
TIBÚRCIO - Amém. (Adianta-se.)
LUÍSA - O senhor o que quer?
TIBÚRCIO - Deus me favorece...
LUÍSA - O senhor Tibúrcio!
TIBÚRCIO - Ele mesmo, que morria longe de ti.
LUÍSA - Vá-se embora!
TIBÚRCIO - Cruel, que te fiz eu?
LUÍSA - Não fez nada, mas vá-se embora.
TIBÚRCIO - Há oito dias que te não vejo. Tenho tanto que te dizer... Oito dias e oito noutes levei a passar pela tua porta, e tu não me aparecias; até que tomei a resolução de vestir esta opa para poder entrar aqui sem causar desconfiança. Seremos felizes; nossa sorte mudou. (Põe a bacia sobre a mesa.)
LUÍSA - Mudou?
TIBÚRCIO - Bem sabes que há muito tempo que ando atrás de um lugar de guarda da Alfândega, e que não tenho podido alcançar; mas agora já não preciso.
LUÍSA - Não precisa?
TIBÚRCIO - Comprei uma cautela de vigésimo, na "Casa da Fama", do Largo de Santa Rita, e saiu-me um conto de réis.
LUÍSA - Ah!
TIBÚRCIO - Vou abrir um armarinho. Agora posso pedir-te a teu irmão.
LUÍSA - Não, não, não pode ser!
TIBÚRCIO - Não queres ser minha mulher? Terás mudado? Ingrata!
LUÍSA - Não posso, não posso! Meu Deus!
TIBÚRCIO - Ah, já sei, amas a outro. Pois bem; casa-te com ele. Quem o diria?
LUÍSA, chorando - Escuta-me...
TIBÚRCIO - Não tenho que escutar. Vou-me embora, vou-me meter em uma das barcas de vapor da Praia Grande, até que ela arrebente. (Falsa saída.)
LUÍSA - Quanto sou infeliz!
TIBÚRCIO, voltando - Ainda me amas?
LUÍSA - Ainda.
TIBÚRCIO - Então por que não queres casar comigo?
LUÍSA - Oh, acredita-me, é que eu não devo...
TIBÚRCIO - Não deves? Pois adeus, vou para o Rio Grande. (Falsa saída.)
LUÍSA - Isto é um tormento que eu sofro!
TIBÚRCIO, voltando - Então, queres que eu vá para o Rio Grande?
LUÍSA - Bem sabes quanto eu te amava, Tibúrcio; tenho disto te dado provas bastantes, e se...
TIBÚRCIO - Pois dá-me a única que te peço: casa-te comigo. Ah, não respondes? Adeus, vou para Montevidéu. (Sai pelo fundo.)
LUÍSA, só - Nasci para ser desgraçada! Eu seria tão feliz com ele: mas é pedreiro-livre... Foi bom que ele se fosse embora. Eu não poderia resistir...
TIBÚRCIO, aparecendo à porta - Então, queres que eu vá para Montevidéu?
LUÍSA - Meu Deus!
TIBÚRCIO, caminhando para frente - Antes que eu parta desta terra ingrata; antes que eu vá afrontar esses mares, um só favor te peço, em nome de nosso antigo amor. Dize-me, por que não queres casar comigo? Disseram-te que eu era aleijado, que tinha algum defeito oculto? Se foi isso, é mentira.
LUÍSA - Nada disso me disseram.
TIBÚRCIO - Então por que é?
LUÍSA - É porque... (Hesita.)
TIBÚRCIO - Acaba, dize...
LUÍSA - Porque és... pedreiro-livre. (Benze-se.)
TIBÚRCIO - Ah, ah, ah! (Rindo-se às gargalhadas.)
LUÍSA - E ri-se?
TIBÚRCIO - Pois não me hei-de rir? Meu amor, isto são caraminholas que te meteram na cabeça.
LUÍSA - Eu bem sei o que é. Falas com o diabo à meia-noite: matas as crianças para lhes beber o sangue; entregaste tua alma ao diabo; freqüentas as...
TIBÚRCIO, interrompendo-a - Ta, ta, ta! O que ai vai de asneiras! Não sejas pateta; não acredites nestas baboseiras.
LUÍSA - Baboseiras, sim!
TIBÚRCIO - Um pedreiro-livre, minha Luísa, é um homem como outro qualquer; nunca comeu crianças nem falou com o diabo à meia-noite.
LUÍSA - Visto isso, não é verdade o que te digo?
TIBÚRCIO - Qual! São carapetões que te meteram nos miolos para talvez te indisporem comigo. A maçonaria é uma instituição...
LUÍSA - Dá-me a sua palavra de honra que nunca falou com o diabo?
TIBÚRCIO - Juro-te que é sujeitinho com quem nunca me encontrei.
LUÍSA - Hoje ouviu missa?
TIBÚRCIO - Nem menos de três.
LUÍSA - Ah, que peso me tiraste do coração!
TIBÚRCIO - Consentes que eu fale a teu mano?
LUÍSA, vergonhosa - Não sei...
TIBÚRCIO, beijando-lhe a mão - Malditos tagarelas, que iam-me fazendo perder este torrão de açúcar! Minha Luísa, nós seremos muito felizes, e eu te...
MARIANA, dentro - Devagar, devagar, que não posso.
LUÍSA, assustada - É D. Mariana!
TIBÚRCIO - Vou-me embora!
LUÍSA - Não, não, que o podem encontrar no corredor! Minha cunhada o conhece... Esconda-se até que elas entrem, e depois saia!
TIBÚRCIO - Mas aonde?
LUÍSA - Neste armário. (Tíbúrcio esconde-se no armário, deixando bacia sobre a mesa.)
Entra MARIANA, apoiada nos braços de EUFRÁSIA e de SOUSA.
Mariana - Ai, quase morri... Tira-me esta mantilha. (Luísa tira-lhe a mantilha.) Ai! (Senta-se.) Muito obrigada, compadre.
SOUSA - Não há de quê, comadre.
EUFRÁSIA - Acha-se melhor, minha mãe?
MARIANA - Um pouco. Se o compadre não estivesse lá à porta da igreja para tirar-me do aperto, eu morria, certamente.
SOUSA - Aquilo é um desaforo!
MARIANA - é assim, é. Ajuntam-se esses brejeiros nos corredores das catacumbas para apertarem as velhas e darem beliscões nas moças.
SOUSA - E nos rasgarem as opas e darem caçoletas.
EUFRÁSIA - É uma indecência!
MARIANA - Espremeram-me de tal modo, que ia botando a alma pela boca a fora.
EUFRÁSIA - E a mim deram um beliscão, que quase arrancaram carne.
MARIANA - É insuportável!
SOUSA - Principalmente, comadre, em S. Francisco de Paula.
MARIANA - Estão horas inteiras num vaivém, só para fazerem patifarias.
EUFRÁSIA - A policia não vê isso?
MARIANA - Ai, estou que não posso. Compadre, dê-me licença, que vou-me deitar um pouco.
SOUSA - Essa é boa, comadre!
MARIANA levanta-se - Já arranjou a opa para meu sobrinho?
SOUSA - A esta hora já está tirando esmolas.
MARIANA - Muito obrigada, compadre. Não se vá embora, jante hoje conosco.
SOUSA - A comadre manda, não pede.
MARIANA - Até já; descanse. (Saem Mariana, Eufrásia e Luísa.)
SOUSA e depois FELISBERTO.
SOUSA, só - Estou estafado! (Senta-se.) A pobre da comadre, se não sou eu, morre; já estava vermelha como um camarão. (Ouvem-se dentro gritos de pega ladrão!) O que será? (Levanta-se; os gritos continuam.) E pega ladrão! (Vai para a porta do fundo; nesse instante entra Felisberto, que virá de opa e bacia, precipitadamente. Esbarra-se com Sousa e salta-lhe o dinheiro da bacia no chão.)
FELISBERTO - Salve-me, salve-me, colega! (Trazendo-o para frente da cena.)
SOUSA - O que é isto, homem? Explique-se!
FELISBERTO, tirando um relógio da algibeira - Tome este relógio. guarde-o. (Sousa toma o relógio maquinalmente.)
SOUSA - Que relógio é esse?
FELISBERTO - O povo aí vem atrás de mim, gritando: Pega ladrão! - mas creio que o logrei.
SOUSA - E o senhor roubou este relógio?
FELISBERTO - Não senhor! Entrei em uma casa para pedir esmola, e quando saí, achei-me com este relógio na mão, sem saber como... (Vozearia dentro.) Aí vêm eles! (Corre e esconde-se no armário.)
SOUSA, com o relógio na mão - E me meteu em boas, deixando-me com o relógio na mão! Se assim me pilham estou perdido. (Põe o relógio sobre a mesa.) Antes que aqui me encontrem, safo-me. (Vai a sair; ao chegará porta, pára para ouvir a voz de Jorge.)
JORGE, dentro - Isto é um insulto! Não sou ladrão! Em minha casa não entrou ladrão nenhum!
SOUSA, voltando - Aí vêm!... E este relógio que me acusa... Pelo menos prendem-me como cúmplice. (Corre e esconde-se no armário.)
Entra JORGE.
JORGE - Não se dá maior pouca vergonha... Julgarem que eu era ladrão! Creio que algum tratante aproveita-se da opa para entrar com liberdade nas casas e surripiar alguma cousa, e os mais que andam de opa, que paguem!... Eu, roubar relógio!... Pois olhem, precisava bem de um. (Vê o relógio sobre a mesa.) Um relógio! Que diabo! (Pegando no relógio:) De quem será? Será roubado? Quatro bacias com esmolas! E então! E então tenho três homens dentro de casa? Oh, com os diabos! E todos três irmãos das almas... E ladrões ainda em cima! Vou saber como é isto. Mas, não; se eu perguntar, não me dizem nada. (Aqui aparece à porta da direita Eufrásia, sem que ele a veja.) É melhor que eu veja com meus próprios olhos. Vou esconder-me no armário e de lá espreitarei. (Vai para o armário; Eufrásia o segue pé ante pé. Logo que entra no armário, ela dá um pulo e fecha o armário com a chave.)
EUFRÁSIA - Está preso! Minha mãe, venha ver o canário! (Sai.)
Ouve-se dentro do armário uma questão de palavras, gritos e pancadas nas portas; isto dura por alguns instantes. Entram Mariana e Eufrásia.
EUFRÁSIA - Está ali, minha mãe, eu o prendi!
MARIANA - Fizeste muito bem. (Chega-se para o armário.)
EUFRÁSIA - Como grita! Que bulha faz!
MARIANA - Aqui há mais de uma pessoa...
EUFRÁSIA - Não senhora. (Os gritos dentro redobram e ouve-se muitas vezes a palavra - ladrão! - pronunciada por Jorge.)
MARIANA - São ladrões! (Ambas gritam pela sala de um lado para outro.) Ladrões, ladrões, ladrões! (Luísa aparece à porta.)
LUÍSA, entrando - O que é isto?
EUFRÁSIA - Ladrões em casa! As três, correndo pela sala - Ladrões, ladrões! Quem nos acode? Ladrões!
Entra uma patrulha de quatro permanentes e um cabo. Virão de fardeta branca, cinturão e pistolas.
CABO, entrando - Que gritos são esses?
MARIANA - Temos ladrões em casa!
CABO - Aonde estão?
EUFRÁSIA - Ali no armário!
LUÍSA, à parte - No armário! Que fiz eu? Está perdido... (O cabo dirige-se para o armário com os soldados. MARIANA, Eufrásia e Luísa encostam-se para a esquerda, junto à porta.)
CABO, junto ao armário - Quem está ai?
JORGE, dentro - Abra, com todos os diabos!
CABO - Sentido, camaradas! (O cabo abre a parta do armário; por ela sai Jorge, e torna a fechar a porta com presteza. O cabo agarra-lhe na gola da casaca.) Está preso.
JORGE, depois de ter fechado o armário - Que diabo é isto?
CABO - Nada de resistência.
JORGE - O ladrão não sou eu.
EUFRÁSIA, do lugar onde está - Senhor permanente, este é meu marido.
JORGE - Sim senhor. Eu tenho a honra de ser o marido da senhora.
EUFRÁSIA - Fui eu que o fechei no armário, e por isso é que se deu com os ladrões que ainda estão lá dentro.
JORGE - Sim senhor, a senhora fez-me o favor de me fechar aqui dentro, e por isso é que se deu com os ladrões... que aqui estão ainda...
CABO - Pois abra. (O cabo diz estas palavras a Jorge porque ele conserva-se, enquanto fala, com as costas apoiado no armário. Jorge abre a porta, sai Sousa; o cabo segura em Sousa. Jorge torna fechar o armário e encosta-se. Sousa e o cabo que o segura caminham um pouco para a frente.)
JORGE - Este que é o ladrão.
SOUSA - Não sou ladrão. Deixe-me!
MARIANA - O compadre!
SOUSA - Comadre... (Mariana chega-se para ele.)
JORGE - Segure-o bem, senão foge.
SOUSA - Fale por mim, comadre. Diga ao senhor que eu não sou ladrão.
JORGE - é ele mesmo, e outro que aqui está dentro.
CABO - Vamos.
SOUSA - Espere.
MARIANA - Como é que você, compadre, estava ali dentro?
SOUSA - Por causa de um maldito relógio que...
JORGE - Vê? Esta confessando que roubou o relógio. Ali está sobre a mesa.
CABO - Siga-me.
SOUSA - Espere!
MARIANA - Um momento.
CABO - Senão vai à força. Camaradas!
JORGE - Duro com ele! (Chegam-se dous soldados e agarram em Sousa.)
CABO - Levem este homem para o quartel.
SOUSA, debatendo-se - Deixem-me falar...
CABO - Lã falará. (Os soldados levam Sousa à força.)
SOUSA - Comadre! Comadre!
JORGE - Sim, sim; lá falará! Patife, ladrão!
MARIANA - Estou confusa!
JORGE - Vamos aos outros que cá estão.
EUFRÁSIA - Não explico isto! (Jorge abre a porta do armário; sai por ela, com impetuosidade, Felisberto. Atira com Jorge no chão e foge pela porta do fundo. O cabo e os dois soldados correm em seu alcance.)
CABO - Pega, pega! (Sai, assim como os soldados. Jorge levanta-se) Jorge - Pega ladrão! Pega ladrão! (Sai atrás, correndo.)
MARIANA, EUFRÁSIA e LUÍSA.
MARIANA - É meu sobrinho!
EUFRÁSIA - É o primo!
LUÍSA, à parte - Terá ele saído?
MARIANA - Não sei como foi isto.
EUFRÁSIA - Nem eu.
MARIANA - Deixei o compadre aqui sentado.
EUFRÁSIA - O primo estava pedindo esmolas.
MARIANA - Isto foi traição do patife do meu genro.
EUFRÁSIA - Não pode ser outra coisa.
MARIANA - Mas deixe-o voltar...
EUFRÁSIA - Eu lhe ensinarei... (Durante este pequeno diálogo, Luísa, que está um pouco mais para o fundo, vê Tibúrcio, que da porta do armário lhe faz acenos.)
MARIANA - O que estás tu a fazer acenos? Vem cá. (Pega-lhe pelo braço.) Viste o que fez o belo do teu irmão? Como ele não está aqui, tu é que me hás-de pagar.
LUÍSA - Eu? E por quê?
MARIANA - Ainda pergunta por quê? Não viste como ele fez prender a meu compadre e a meu sobrinho? Isto são cousas arranjadas por ele e por ti.
LUÍSA - Por mim?
EUFRÁSIA - Sim, por ti mesma.
LUÍSA - Oh!
MARIANA - Faze-te de nova! Não bastava aturar eu o desavergonhado do irmão; hei-de também sofrer as poucas vergonhas desta deslambida. (Luísa chora. Aqui aparece à porta do fundo Jorge; vendo o que se passa, pára em observação.) Hoje mesmo não me dorme em casa. Não quero. Vai ajuntar a tua roupa, e rua! (Tibúrcio sai do armário e encaminha-se para elas.)
TIBÚRCIO - Não ficará desamparada. (Mariana e Eufrásia assustam-se.)
LUÍSA - Que fazes?
TIBÚRCIO - Vem, Luísa.
MARIANA - Quem é o senhor?
TIBÚRCIO, para Luísa - Vamos procurar teu irmão.
LUÍSA - Espera. (Eufrásia observa com atenção a Tibúrcio.)
MARIANA - Isto está galante. Muito bem! Com que a menina tem os amantéticos escondidos. Está adiantada...
TIBÚRCIO - Senhora, mais respeito!
MARIANA - Olá!
LUÍSA - Tibúrcio!...
EUFRÁSIA - Tibúrcio! É ele mesmo! Fuja, minha mãe!... (Recua.)
MARIANA - O que é?
EUFRÁSIA - Fuja, que é um pedreiro-livre! (Deita a correr para dentro.)
MARIANA, aterrorizada - Santa Barbara, São Jerônimo, acudam-me! (Sai correndo.)
TIBÚRCIO, admirado - E esta!...
JORGE, que da porta tem observado tudo, logo que MARIANA sai, corre e abraça-se com TIBÚRCIO.
JORGE - Meu Salvador! Meu libertador!
TIBÚRCIO - O que é lá isso? Temos outra?
JORGE - Homem incomparável!
LUÍSA - Mano!
TIBÚRCIO - O senhor está doudo?
JORGE, abraçando-se com os pés de Tibúrcio - Deixe-me beijar seus pés, vigésima maravilha do mundo!
TIBÚRCIO - Levante-se, homem!
LUÍSA - O que é isto, Jorge?
JORGE, de joelhos - E adorar-te como o maior descobridor dos tempos modernos.
TIBÚRCIO - Não há dúvida, está doudo!
LUÍSA - Doudo? Faltava-me esta desgraça!
JORGE levanta-se - Pedro Alves Cabral quando descobriu a Índia, Camões quando descobriu o Brasil, não foram mais felizes do que eu sou por ter descoberto o meio de meter medo a minha sogra e a minha mulher. E a quem devo eu esta felicidade? A ti, homem sublime.
TIBÚRCIO - E é só por isso?
JORGE - Acha pouco? Sabe o que é uma sogra e uma mulher? O senhor gosta da mana?
TIBÚRCIO - Fazia tenção de o procurar hoje mesmo, para falar-lhe a este respeito.
JORGE - Quer casar-se com ela?
LUÍSA - Jorge!
TIBÚRCIO - Seria minha maior ventura.
JORGE - Pois bem, pratique com minha sogra o que eu praticar com minha mulher.
TIBÚRCIO - Como é lá isso?
LUÍSA - Que loucura!
JORGE - Quer-se casar? É decidir, e depressa.
TIBÚRCIO - Homem, se a cousa não é impossível...
JORGE - Qual impossível! Minha sogra é uma velha.
TIBÚRCIO - Por isso mesmo.
JORGE - Luísa, vai chamá-las. Dize-lhes que estou só e que preciso muito falar-lhes. E tu não apareças enquanto elas cá estiverem. Anda! (Luísa sai.)
JORGE e TIBÚRCIO.
TIBÚRCIO - O que quer fazer?
JORGE - Saberá. Esconda-se outra vez no armário, e quando eu bater com o pé e gritar: Satanás!, salte para fora, agarre-se a minha sogra e faça quanto eu fizer.
TIBÚRCIO - Aqui mesmo nesta saía?
JORGE - Sim, sim. E avie-se, que elas não tardam.
TIBÚRCIO - Vá feito! Como é para ao depois casar-me... (Esconde-se no armário.)
JORGE, á parte - Toleirão! Casa-te e depois dá-me novas. (Senta-se.) Hoje é dia de felicidades para mim. Achei um marido para a mana; dei com os dous tratantes no xilindró, e para coroar a obra vim a descobrir o meio de me fazer respeitar nesta casa. Ainda bem que eu tinha meus receios de encontrar-me com elas... Hão-de estar danadas.
MARIANA e EUFRÁSIA aparecem à porta e, receosas, espreitam para a cena.
JORGE - Podem entrar.
MARIANA, adiantando-se - Podem entrar? A casa é tua?
EUFRÁSIA - De hoje em diante hás-de tu e a desavergonhada da tua irmã porem os quartos na rua.
JORGE - Veremos...
MARIANA - Que desaforo é esse? Ai, que arrebento!
JORGE levanta-se e coloca-se entre as duas - Até aqui tenho vivido nesta casa como um cão...
EUFRÁSIA - Assim o merecias.
MARIANA - E ainda mais.
JORGE - Mas como tudo neste mundo tem fim, o meu tratamento de cão também o terá.
MARIANA - Agora também digo eu - veremos!
JORGE - Até agora não tenho sido homem, mas era preciso sê-lo. E o que havia eu de fazer para ser homem. (Com exaltação:) Entrar nessa sociedade portentosa, universal e sesquipedal, aonde se aprendem os verdadeiros direitos do homem. (Faz momices e sinais extravagantes com as mãos.)
EUFRÁSIA - O que quer isto dizer?
MARIANA - Ai, o que está ele a fazer?
JORGE - Estes são os sinais da ordem. (Faz os sinais.)
MARIANA - Está doudo!
JORGE, segurando-as pelos punhos - A senhora tem feito de mim seu gato-sapato; e a senhora, seu moleque; mas isto acabou-se! (Levanta os braços das duas, que dão um grito.) Acabou-se! Sou pedreiro-livre! Satanás!
MARIANA - Misericórdia!
EUFRÁSIA - Jesus! (Tibúrcio salta do armário. Jorge deixa o braço de Mariana e, segurando em ambos os de Eufrásia, gira com ela pela sala, gritando: Sou pedreiro-livre! O diabo é meu compadre! Tibúrcio faz com Mariana tudo quanto vê Jorge fazer. As duas gritam aterrorizadas. Jorge larga a Eufrásia, que corre para dentro. Tibúrcio, que nessa ocasião está do lado esquerdo da cena, larga também a Mariana, que atravessa a cena para acompanhar Eufrásia; encontra-se no caminho com Jorge, que faz-lhe uma careta e a obriga a fazer um rodeio para sair. Os dous desatam a rir.)
JORGE - Bem diz o ditado, que ri-se com gosto quem se ri por último. Luísa? Luísa? (Para Tibúrcio:) Um abraço. Que achado!
Entra LUÍSA.
JORGE - Vem cá. (Conduzindo-a para Tibúrcio:) Eis aqui a paga do serviço que acaba de fazer-me. Sejam felizes se o puderem, que eu de hoje em diante, se não for feliz, hei-de ao menos ser senhor em minha casa. (Aqui entram correndo Mariana e Eufrásia, como querendo fugirem de casa. Mariana trará a mantilha na cabeça e uma trouxa de roupa debaixo do braço; o mesmo trará Eufrásia. JORGE, vendo-as:) Pega nelas! (Jorge diz estas palavras logo que as vê. Corre de encontro a elas e fica por conseguinte junto à porta que dá para o interior, quando elas )á estão quase junto à porta da rua. Aparece da porta um irmão das almas.)
IRMÃO - Esmola para missas das almas! (As duas quase que se esbarram, na carreira que levam, contra o irmão. Dão um grito e voltam correndo para saírem por onde entraram, mas aí encontrando Jorge, que lhes fecha a saída, atravessam a cena e, esbarrando-se do outro lado com Tibúrcio, largam as trouxas no chão e caem de joelhos a tremer.)
EUFRÁSIA - Estamos cercadas!
MARIANA - Meus senhorezinhos, não nos levem para o inferno!
JORGE - Descansem, que para lá irão sem que ninguém as leve...
AMBAS - Piedade! Piedade!
JORGE - Bravo! Sou senhor em minha casa! E eu que pensava que era mais difícil governar mulheres! (Mariana e Eufrásia conservam-se de joelhos, no meio de Jorge, Tibúrcio e Luísa, que riem-se às gargalhadas até abaixar o pano.)
IRMÃO, enquanto eles riem e desce o pano - Esmola para missas das almas! (Cai o pano.)
FIM
Fonte: www.unicamp.br
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