Nicolau e Fabiana.
NICOLAU – Os teus brincos de brilhantes e os teus adereços, para nossos filhos levarem? Quero que sejam os anjinhos mais ricos... Que glória para mim! Que inveja terão! FABIANA – Homem, estão lá na gaveta. Tire tudo quanto quiser, mas deixe-me a paciência...
NICOLAU – Verás que anjinhos asseados e ricos! (Chamando:) Ó Eduardo? Eduardo? Meu genro? EDUARDO, dentro – Que é lá? NICOLAU – Olha que são horas. Veste-te depressa, que a procissão não tarda a sair.
EDUARDO, dentro – Sim senhor.
FABIANA – Ainda a mania deste é inocente... Assim tratasse ele da família.
NICOLAU – Verá, mulher, verás que guapos ficam nossos filhinhos... Tu não os irá ver passar? FABIANA – Sai de casa quem a tem em paz. (Ouve-se dobrar os sinos.) NICOLAU – É o primeiro sinal! Sabino, anda depressa! Eduardo? Eduardo? EDUARDO, dentro – Sim senhor.
SABINO, dentro – Já vou, senhor.
NICOLAU – Já lá vai o primeiro sinal! Depressa, que já saiu... Sabino? Sabino? Anda, filho... (Correndo para dentro:) Ah, senhor Bernardo, vista os pequenos... Ande, ande! Jesus, chegarei tarde! (Vai-se.)
Fabiana e depois Paulina
FABIANA – É o que se vê... Deus lhe dê um zelo mais esclarecido...
PAULINA, entrando e à parte – Bem me custa...
FABIANA, vendo-a e à parte – Oh, a desavergonhada de minha nora! PAULINA, à parte – Em vez de conciliar-me, tenho vontade de dar-lhe uma descompostura.
FABIANA, à parte – Olhem aquili! Não sei por que não a descomponho já! PAULINA, à parte – Mas é preciso fazer a vontade a meu marido...
FABIANA, à parte – Se não fosse por amor da paz... (Alto:) Tem alguma coisa que dizer-me? PAULINA, à parte – Maldita suçurana! (Alto:) Sim senhora, e a rogos de meu marido é que aqui estou.
FABIANA – Ah, foram a rogos seus? O que lhe rogou ele? PAULINA – Que era tempo de se acabarem essas desavenças em que andamos...
FABIANA – Mais que tempo...
PAULINA – E eu dei-lhe a minha palavra que faria todo o possível para de hoje em diante vivermos em paz... e que principiaria por pedir-lhe perdão, como faço, dos agravos que de mim tem...
FABIANA – Quisera Deus que assim tivesse sido desde princípio! E acredite, menina, que prezo muito a paz doméstica, e que minha maior satisfação é viver bem com vocês todos.
PAULINA – De hoje em diante espero que assim será. Não levantarei a voz nesta casa sem vosso consentimento. Não darei uma ordem sem vossa permissão... Enfim, serei uma filha obediente e submissa.
FABIANA – Só assim poderemos viver juntos. Dá cá um abraço. (Abraça-a.) És uma boa rapariga... Tens um bocadinho de gênio; mas quem não o tem? PAULINA – Hei de moderá-lo...
FABIANA – Olha, minha filha, e não tornes a culpa a mim. É impossível haver em uma casa mais de uma senhora. Havendo, é tudo confusão...
PAULINA – Tem razão. E quando acontece haver duas, toca à mais velha o governar.
FABIANA – Assim é.
PAULINA – A mais velha tem sempre mais experiência...
FABIANA – Que dúvida! PAULINA – A mais velha sabe o que convém...
FABIANA – Decerto.
PAULINA – A mais velha conhece as necessidades...
FABIANA, à parte – A mais velha! PAULINA, com intenção – A mais velha deve ter mais juízo...
FABIANA – A mais velha, a mais velha... Que modo de falar é esse? PAULINA, no mesmo – Digo que a mais velha...
FABIANA, desbaratando – Desavergonhada! A mim, velha!...
PAULINA, com escárnio – Pois então? FABIANA, desesperada – Salta daqui! Salta! PAULINA – Não quero, não recebo ordens de ninguém.
FABIANA – Ai, ai, que estalo! Assim insultar-me, este belisco! PAULINA – Esta coruja! FABIANA, no maior desespero – Sai, sai de o pé de mim, que minhas mãos já comem! PAULINA – Não faço caso...
FABIANA – Atrevida, malcriada! Desarranjada! Peste! Mirrada! Estupor! Linguaruda! Insolente! Desavergonhada! PAULINA, ao mesmo tempo – Velha, tartaruga, coruja, arca de Noé! Antigualha! Múmia! Centopéia! Pergaminho! Velhusca, velha velha! (Fabiana e Paulina acabam gritando ao mesmo tempo, chegando-se uma para a outra; finalmente agarram-se. Nisto acode Sabino, em mangas de camisa, e com o hábito na mão.)
As ditas, Sabino, Olaia e Eduardo. Sabino entra, Eduardo e Olaia o seguem.
SABINO, vendo-as agarradas – Que diabo é isto? (Puxa pela mulher.) OLAIA, ao mesmo tempo – Minha mãe! (Puxando-a.) FABIANA, ao mesmo tempo – Deixa-me! Desavergonhada! PAULINA, ao mesmo tempo – Larga-me! Velha! Velha! (Sabino, não podendo tirar a mulher, lança-lhe o hábito pela cabeça e a vai puxando à força até a porta do quarto; e depois de a empurrar para dentro, fecha a porta a chave. Fabiana quer seguir Paulina.) OLAIA, retendo a mãe – Minha mãe! Minha mãe! EDUARDO, puxando Olaia pelo braço – Deixa-as lá brigar. Vem dar-me o hábito.
OLAIA – Minha mãe! EDUARDO – Vem dar-me o hábito! (Arranca Olaia com violência de junto de Fabiana e a vai levando para dentro, e sai.) FABIANA, vendo Sabino fechar Paulina e sair – É um inferno! É um inferno! SABINO, seguindo-a – Minha mãe! (Fabiana segue para dentro.) NICOLAU, entrando – O que é isto? FABIANA, sem atender, seguindo – É um inferno! É um inferno! NICOLAU, seguindo-a – Senhora! (Vão-se.)
Sabino e depois Paulina.
SABINO – isto assim não pode ser! Não me serve; já não posso com minha mulher! PAULINA, entrando pela segunda porta, esquerda – Onde está a velha? (Sabino, vendo a mulher, corre para o quarto e fecha a porta. Paulina:) Ah, corres? (Segue-o e esbarra na porta que ele fecha.) Deixa estar, que temos também que conversar... Pensam que hão de me levar assim? Enganam-se. Por bons modos, tudo... Mas à força... Ah, será bonito quem o conseguir! OLAIA, entra chorando – Vou contar a minha mãe! PAULINA – Psiu! Venha cá; também temos contas que ajustar. (Olaia vai seguindo para a segunda porta da direita. Paulina:) Fale quando se lhe fala, não seja malcriada! OLAIA, na porta, voltando-se – Malcrida será ela... (Vai-se.) PAULINA – Hem?
Eduardo, de hábito, trazendo a rabeca, e a dita.
EDUARDO – Paulina, que é de Olaia? PAULINA – Lá vai para dentro choramingando, contar não sei o que à mãe.
EDUARDO – Paulina, minha irmã, este modo de viver que levamos já não me agrada.
PAULINA – Nem a mim.
EDUARDO – Nossa sogra é uma velha de todos os mil diabos. Leva desde pela manhã até noite a gritar... O que me admira é que ainda não estourasse pelas goelas... Nosso sogro é um pacóvio, um banana que não cuida senão em acompanhar procissões. Não lhe tirem a tocha da mão, que está satisfeitíssimo... Teu marido é um ga... ga... ga... ga... que quando fala faz-me arrelia, sangue pisado. E o diabo que ature, agora que deu-lhe em falar cantando... Minha mulher tem aqueles olhos que parecem fonte perene... Por dá cá aquela palha, aí vêm as lágrimas aos punhos. E logo atrás: Vou contar à minha mãe... E no meio de toda esta matinada não tenho tempo de estudar um só instante que seja, tranquilamente, a minha rabeca. E tu também fazes sofrivelmente teu pé de cantiga na algazarra desta casa.
PAULINA – E tu, não? Pois olha esta tua infernal rabeca! EDUARDO – Infernal rabeca! Paulina, não fales mal da minha rabeca; senão perco-te o amor de irmão. Infernal! Sabes tu o que dizes? O rei dos instrumentos, infernal! PAULINA, rindo – A rabeca deve ser rainha...
EDUARDO – Rei e rainha, tudo. Ah, desde a noite em que pela primeira vez ouvi no Teatro de São Pedro de Alcântara os seus harmoniosos, fantásticos, salpicados e repinicados sons, senti-me outro. Conheci que tinha vindo ao mundo para artista rabequista. Comprei uma rabeca – esta que aqui vês. Disse-me o belchior que a vendeu, que foi de Paganini. Estudei, estudei... Estudo, estudo...
PAULINA – E nós o pagamos.
EDUARDO – Oh, mas tenho feito progressos estupendíssimos! Já toco o Trêmolo de Bériot... Estou agora compondo um tremul’rio e tenho em vista compor um tremendíssimo trêmolo.
PAULINA – O que aí vai!...
EDUARDO – Verás, hei de ser insigne! Viajarei por toda a Europa, África e Ásia; tocarei diante de todos os soberanos e figurões da época, e quando de lá voltar trarei este peito coberto de grã-cruzes, comendas, hábitos, etc., etc. Oh, por lá é que se recompensa o verdeiro mérito... Aqui, julgam que fazem tudo pagando com dinheiro. Dinheiro! Quem faz caso de dinheiro? PAULINA – Todos. E para ganhá-lo é que os artistas cá vêm.
EDUARDO – Paulina, o artista quando vem ao Brasil, digo, quando se digna vir ao Brasil, é por compaixão que tem do embrutecimento em que vivemos, e não por um cálculo vil e interesseiro. Se lhe pagam, recebe, e faa muito bem; são princípios da arte...
PAILINA – E depois das algibeiras cheias, safa-se para as suas terras, e comendo o dinheiro que ganhara no Brasil, fala mal dele e de seus filhos.
EDUARDO – Também isso são princípios de arte...
PAULINA – Qual arte? EDUARDO – A do Padre antonio Vieira... Sabes quem foi esse? PAULINA – Não.
EDUARDO – Foi um grande mestre da rabeca... Mas aí, que estou a parolar contigo, deixando a trovoada engrossar. Minha mulher está lá dentro com a mãe, e os mexericos fervem... Não tarda muito que as veja em cima de mim. Só tu podes desviar a tempestade e dar-me tempo para acabar de compor o meu tremulório.
PAULINA – E como? EDUARDO – Vai lá dentro e vê se persuade a minha mulher que não se quixe a mãe.
PAULINA – Minha cunhada não me ouve, e...
EDUARDO, empurrando-a – Ouvir-te-á, ouvir-te-á, ouvir-te-á. Anda, minha irmãzinha, faz-me este favor.
PAULINA – Vou fazer um sacrifício, e não...
EDUARDO, o mesmo – E eu te agradecerei. Vai, vai...
EDUARDO, só
– Muito bem! Agora que o meu parlamentário vai assinar o tratado de paz, assentemo-nos e estudemos um pouco. (Assenta-se.) O homem de verdadeiro talento não deve ser imitador; a imitação mata a originalidade e nessa é que está a transcendência e especialidade do indivíduo. Bériot, Paganini, Bassini e Charlatinini muito inventaram, foram homens especiais e únicos na sua individualidade. Eu também quis inventar, quis ser único, quis ser apontado a dedo... Uns tocam com o arco... (N.B.: Deve fazer os movimentos, segundo os vai mencionando.) Isto veio dos primeiros inventores; outros tocam com as costas do arco... ou com uma varinha... Este imita o canto dos passarinhos... zurra como burro... e repinica cordas... Aquele toca abaixo do cavalete, toca em cima no braço... e saca-lhe sons tão tristes e lamentosos capazes de fazer chorar um bacalhau... Estoutro arrebenta três cordas e toca só com uma, e creio mesmo que será capas de arrebentar as quatro e tocar em seco... Inimitável instrumentinho, por quantas modificações e glórias não tens passado? Tudo se tem feito de ti, tudo. Tudo? (Levantando-se estusiasmado:) Tudo não; a arte não tem limites para o homem de talento criador... Ou eu havia de inventar um meio novo, novíssimo de tocar rabeca, ou havia de morrer... Que dias passei sem comer e beber; que noites sem dormir! Depois de muito pensar e cismar, lembrei-me de tocar nas costas da rabeca... Tempo perdido, não se ouvia nada. Quase enlouqueci. Pus-me de novo a pensar... Pensei... cismei... parafusei... parafusei... pensei... pensei... Dias, semanas e meses... Mas enfim, Ah, idéia luminosa penetrou este cansado cérebro e então reputei-me inventor original, como o mais pintado! Que digo? Mais do que qualquer deles... Até agora esses aprendizes de rabeca desde Saens até Paganini, coitados, têm inventado somente modificações de modo primitivo: arco para aqui ou para ali... Eu, não, inventei um modo novo, estupendo e desusado: eles tocam rabeca com o arco, e eu toco a rabeca no arco – eis a minha descoberta! (Toma o arco na mão esquerda, pondo-o na posição da rabeca; pega nesta com a direita e a corre sobre o arco.) É esta invenção que há de cobrir-me de glória e nomeada e levar meu nome à imortalidade... Ditoso Eduardo! Grande homem! Insigne artista!
Fabiana e os ditos.
FABIANA, falando para dentro – Verás como o ensino! (Vendo Eduardo:) Oh, muito estimo encontrá-lo.
EDUARDO – Ai, que não me deixam estudar! FABIANA – Pois você, sô mandrião, rabequista das dúzias, tem o atrevimento de insultar e espancar a minha...
EDUARDO - Então acha a senhora que uma arcada nos dedos é espancar? FABIANA - E por que deu-lhe o senhor com o arco nos dedos? EDUARDO – Porque não voltou à música a tempo, fazendo-me assim perder dois compassos... Dois compassos de Bériot! FABIANA – Pois se perdeu, anunciasse pelos jornais e prometesse alvíssaras, que eu havia dá-las, mas havia de ser a quem te achasse o juízo, cabeça de avelã! Ora, que estafermo este! Não me dirão para que serve semelhante figura? Ah, se eu fosse homem havia de tocar com esse arco, mas havia ser no espinhaço; e essa rabeca havia de a fazer em estilhas nessa cabeça desmiolada... Não arregale os olhos que não me mete medo.
EDUARDO, enquanto Fabiana fala, vai-se chegando para junto dela e lhe diz na cara, com força – Velha! (Volta, quer entrar no seu quarto.) FABIANA – Mariola! (Segura-lhe no hábito. Eduardo dá com o arco nos dedos de Fabiana. Vai-se. Fabiana, largando o hábito:) Ai, que me quebrou os dedos!
Entra Olaia e após ela Paulina.
OLAIA – Falta de educação será ela! (Encaminhando-se para o quarto.) PAULINA – Cala-me o bico! OLAIA – Bico terá ela, malcriada! FABIANA – O que é isto? (Olaia entra no quarto sem dar atenção.) PAULINA – Deixa estar, minha santinha de pau oco, que te hei de dar educação, já que tua mãe não te deu... (Entra no seu quarto.) FABIANA – Psiu, como é isso?... (Vendo Paulina entrar no quarto:) Ah! (Chama:) Sabino! Sabino! Sabino! CENA XVI Sabino, de hábito, e Fabiana.
SABINO, entrando – O que temos, minha mãe? FABIANA – Tu és homem? SABINO – Sim senhora, e prezo-me disso.
FABIANA – Que farias tu a quem insultasse tua mãe e espancasse uma irmã? SABINO – Eu? Dava-lhe quatro canelões.
FABIANA – Só quatro? SABINO – Darei mais, se for preciso.
FABIANA – Está bem, em tua mulher basta que só dês quatro.
SABINO – Em minha mulher? Eu não dou em mulheres...
FABIANA – Pois então vai dar em teu cunhado, que espancou a tua mãe e a tua irmã.
SABINO – Espancou-as? FABIANA – Vê como tenho os dedos roxos, e ela também.
SABINO – Oh, há muito tempo que tenho vontade de lhe ir ao pêlo, cá por muitas razões... Chegou o dia...
FABIANA – Assim, meu filhinho da minha alma; dá-lhe uma boa sova! Ensina-lhe a ser bem-criado.
SABINO – Deixe-o comigo.
FABIANA – Quebra-lhe a rabeca no queixos.
SABINO – Verá.
FABIANA – Anda, chama-o cá para esta sala, lá dentro o quarto é pequeno e quebraria os trastes, que não são dele... Rijo, que eu vou para dentro atiçar também teu pai... (Encaminha-se para o fundo, apressada.) SABINO, principia a despir o hábito – Eu o ensinarei...
FABIANA, da porta – Não te esqueças de lhe quebrar a rabeca nos queixos.
SABINO, só, continunando a tirar o hábito
– Já é tempo; não posso aturar este meu cunhado! Dá conselhos à minha mulher; ri-se quando eu falo; maltrata minha mãe... Pagará tudo por junto... (Arregaçando as mangas da camisa:) Tratante! (Chega à porta do quarto de Eduardo.) Senhor meu cunhado? EDUARDO, dentro – Que é lá? SABINO – Faça o favor de vir cá fora.
Eduardo e Sabino.
EDUARDO, da porta – O que temos? SABINO – Temos que conversar.
EDUARDO, gaguejando – Não sabe quanto estimo...
SABINO, muito gago e zangado – O senhor arremeda-me! EDUARDO, no mesmo – Não sou capaz...
SABINO, tão raivoso, que sufoca-se – Eu... eu... eu... eu...
EDUARDO, falando direito – Não se engasgue, dê cá o caroço...
SABINO, fica tão sufocado, que para exprimir-se rompe a fala no tom da polca – Eu já... eu já não posso... por mais tempo me conter... hoje mesmo... hoje mesmo... leva tudo o diabo...
EDUARDO, desata a rir – Ah, ah, ah! SABINO – Pode rir-se, pode rir-se... sô patife, hei de ensiná-lo...
EDUARDO, cantando como Sabino – Há de ensinar-me... mas há de ser... mas há de ser... mas há de ser a polca... (Dança.) SABINO – Maroto! (Lança-se sobre Eduardo e atracam-se, gritando ambos: Maroto! Patife! Diabo! Gago! Eu te ensinarei! – Etc., etc.)
Olaia e Paulina.
PAULINA, entrando – Que bulha é essa? Ah! OLAIA, entrando – O que é... Ah! (Paulina e Olaia vão apartar os dois que brigam. Olaia:) Eduardo! Eduardo! Meu irmão! Sabino! (Etc.) PAULINA – Sabino! Sabino! Meu irmão! Eduardo! (Eduardo e Sabino continuam a brigar e a descomporem-se. Paulina, para Olaia:) Tu é que tens a culpa! OLAIA, para Paulina – Tu é que tens! PAULINA, o mesmo – Cala esse bico! OLAIA, o mesmo – Não seja tola! PAULINA, o mesmo – Mirrada! OLAIA, o mesmo – Tísica! (Paulina e Olaia atiram-se uma à outra e brigam à direita. Eduardo e Sabino, sempre brigando à esquerda.)
Fabiana e os ditos.
FABIANA – Que bulha é esta? Ah! (Corre para as moças.) Então, o que é isto? Meninas! Meninas! (Procura apartá-las.)
Entra Nicolau apressado, trazendo pela mão dois meninos vestidos de anjinhos.
NICOLAU – O que é isto? Ah, a brigarem! (Larga os meninos e vai para os dois.) Sabino! Eduardo! Então?... Então, rapazes?...
FABIANA, indo a Nicolau – Isto são obras tuas! (Puxando-o pelo hábito:) Volta-te para cá; tu é que tens culpa...
NICOLAU – Deixe-me! Sabino! FABIANA – Volta-te para cá... (Nicolau dá com o pé atrás, alcançando-a. Fabiana:) Burro!... (Agarra-lhe nas goelas, o que o obriga a voltar-se e atracarem-se.) OS DOIS ANJINHOS – Mamãe! Mamãe! (Agarram-se ambos a Fabiana; um deles empurra o outro, que deve cair; levanta-se e atraca-se com o que o empurra, e deste modo Fabiana, Nicolau, Sabino, Eduardo, Olaia, Paulina, 1º e 2º Anjinhos, todos brigam e fazem grande algazarra.)
Anselmo, e os ditos, brigando.
ANSELMO – O que é isto? O que é isto? (Todos, vendo Anselmo, apartam-se.) FABIANA – Oh, é o senhor? Muito estimo...
PAULINA e EDUARDO – Meu pai! ANSELMO – Todos a brigarem!... (Todos se dirigem a Anselmo, querendo tomar a dianteira para falar; cada um puxa para seu lado a reclamarem serem atendidos; falam todos ao mesmo tempo. Grande confusão, etc.) FABIANA, ao mesmo tempo – Muito estimo que viesse, devia ver com seus próprios olhos... o desaforo de seus filhos... Fazem desta casa um inferno! Eu já não posso; leve-os, leve-os, são dois demômios. Já não posso! NICOLAU, ao mesmo tempo – Sabe o que mais? Carregue seus filhos daqui para fora; não me deixam servir a Deus... Isto é uma casa de Orates... Carregue-os, carregue-os, senão fazem-me perder a alma... Nem mais um instante...
SABINO, falando ao mesmo tempo no tom do miudinho – Se continuo a viver assim junto, faço uma morte. Ou o senhor, que é meu sogro, ou meu pai, dêem-me dinheiro... dinheiro ou casa, ou leva tudo o diabo... o diabo...
PAULINA, ao mesmo tempo – Meu pai, já não posso; tire-me deste inferno, senão morro! Isto não é viver... Minha sogra, meu marido, minha cunhada maltratam-me... Meu pai, leve-me, leve-me daqui...
EDUARDO – Meu pai, não fico aqui nem mais um momento. Não me deixam estudar a minha rabeca... É uma bulha infernal, uma rixa desde pela manhã até a noite; nem um instante eu tenho para tocar...
OLAIA – Senhor, se isto continua, fujo de casa... Abandono meu marido, tudo, tudo... Antes quero viver só do meu trabalho, do que assim. Não posso, não posso, não quero... Nem mais um instante... É um tormento... (Os dois Anjinhos, enquanto estas falas se recitam, devem chorar muito.) ANSELMO – Com mil diabos, assim não entendo nada! FABIANA – Digo-lhe que...
NICOLAU – Perderei a alma...
SABINO – Se eu não...
EDUARDO – Nada estudo...
PAULINA – Meu pai, se...
OLAIA – Nesta casa... (Todos gritam ao mesmo tempo.) ANSELMO, batendo o pé – Irra, deixem-me falar! FABIANA – Pois fale...
ANSELMO – Senhora, recebi a vossa carta e sei qual a causa das contendas e brigas em que todos viveis. Andamos muito mal, a experiência o tem mostrado, em casarmos nossos filhos e não lhes darmos casa para morarem. Mas ainda estamos em tempo de remediar o mal... Meu filho, aqui está a chave de uma casa que para ti aluguei. (Dá-lhe.) EDUARDO – Obrigado. Só assim poderei estudar tranquilo e compor o meu tremendíssimo...
ANSELMO – Filha, dá esta outra chave a teu marido. É a da tua nova casa...
PAULINA, tomando-a – Mil graças, meu pai. (Dá a chave a Sabino.) FABIANA – Agora, sim...
ANSELMO – Estou certo que em bem pouco tempo verei reinar entre vós todos a maior harmonia e que visitando-vos mutuamente e...
TODOS, uns para os outros – A minha casa está às vossas ordens. Quando quiser...
ANSELMO – Muito bem. (Ao público:) E vós, senhores, que presenciastes todas estas desavenças domésticas, recordai-vos sempre que...
TODOS – Quem casa, quer casa. (Cai o pano.)
Fonte: www.unicamp.br
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