
Apesar das dificuldades socioeconômicas do sertão e da imagem de solo e vida pobres, cientistas brasileiros revelam o lado rico em biodiversidade da caatinga, único ecossistema totalmente compreendido em território nacional. Biólogos listam as espécies de répteis, aves e mamíferos encontradas na região e alertam: é preciso criar, o quanto antes, pelo menos oitenta áreas de preservação nos 800.000 km2 de semi-árido. A onça-pintada, encontrada na caatinga, está entre as espécies ameaçadas de extinção.
A caatinga é um ecossistema diferenciado dos demais pelo fato de ser o único que se situa totalmente dentro dos limites territoriais brasileiros. A biodiversidade ali encontrada sempre foi considerada pobre, quando comparada à de ecossistemas como o Pantanal Mato-grossense ou à Floresta Equatorial da Amazônia, que abrigam milhares de espécies endêmicas da fauna e da flora. Mas um olhar um pouco mais apurado sobre a biologia da caatinga revela surpresas no que diz respeito à riqueza de sua biodiversidade. Foi o que fez o herpetólogo (estudioso de répteis e anfíbios) da Universidade de São Paulo (USP), Miguel Trefaut Rodrigues, professor de Biociências especialista em lagartos, que pesquisou espécies animais que vivem nas dunas do “pequeno Saara brasileiro”.
Rodrigues chegou à caatinga disposto a encontrar, principalmente nas dunas de areia, novas espécies de lagartos e anfisbenídeos, um grupo de répteis de corpo alongado, sem cauda, cujos representantes são popularmente chamados de cobra-de-duas-cabeças. O professor descobriu que a região funciona como uma bomba de especiação, já que, em relação a esses animais, metade vive próximo à região de Santo Inácio, situada na margem esquerda do rio São Francisco, enquanto 37% das espécies da caatinga são endêmicas das dunas. É preciso lembrar que a área das dunas ocupa menos de um por cento de toda a caatinga (7.000 km2 de região semi-árida).
As pesquisas nesse ecossistema ganharam impulso nos últimos anos, principalmente a partir de 2000. A literatura científica já registra 47 espécies de lagartos, 52 de serpentes, dez de anfisbenídeos e 48 anfíbios, sem contar grupos de invertebrados. Mas as pesquisas que visam à compreensão dos processos de evolução e formação das espécies que ali vivem atualmente exigem estudos geomorfológicos sobre a região.
Por volta de doze mil anos atrás (final do último período de glaciação), o rio São Francisco não chegava até o oceano Atlântico, como hoje. O rio desaguava em um grande lago natural, onde, em seu entorno, viviam juntas diversas espécies de lagartos. Mais tarde, quando as águas transpuseram as serras do norte da Bahia e o rio chegou ao oceano, as espécies que formavam uma única comunidade foram separadas, dando início ao processo de especiação por isolamento geográfico. Isso fez com que, anos depois, herpetólogos descobrissem que apesar de serem morfologicamente muito parecidas, havia diferenças genéticas entre espécies irmãs de lagartos que viviam nas margens opostas do São Francisco.
O nível de importância de um ecossistema se dá, entre outros fatores, em função da biodiversidade observada. E graças à riqueza da caatinga, organizações não-governamentais como a Conservação Internacional defendem a criação urgente de parques nacionais de proteção ambiental na caatinga, principalmente na região do Médio São Francisco, onde estão as dunas. "O número de áreas protegidas está muito aquém das reais necessidades", afirma Mônica Fonseca, bióloga e pesquisadora da instituição, que, em seu último estudo sobre o ecossistema, constatou que apenas dois por cento do semi-árido está dentro de parques. Segundo ela, esse percentual deveria subir para 59,4%.
Mas não é apenas nas dunas da caatinga que são encontradas espécies animais. Segundo o ictiólogo Ricardo Rosa, da Universidade Federal da Paraíba, já foram descobertas 240 espécies de peixes de água doce. Entre as aves, a constatação da riqueza de vida do semi-árido não é diferente: são 510 espécies, sendo que mais de noventa por cento delas reproduzem-se na própria região, o que descarta a possibilidade de estarem na caatinga apenas durante alguma migração. Na lista de aves do ecossistema em processo de extinção aparecem espécies conhecidas, como o maracanã (Ara maracana) e o pintassilgo-do-nordeste (Carduellis yarelli), o que reforça a necessidade de criação de áreas de preservação ambiental.
Apesar das imagens de carcaças em processo de decomposição que povoam o imaginário brasileiro, a caatinga também é berço de espécies de mamíferos, como a onça-pintada, o tamanduá-bandeira e a jaguatirica, que vivem na serra da Canastra. Das 143 espécies que ocorrem no ecossistema e que foram listadas pelo zoólogo João Alves de Oliveira, do Museu Nacional, dezenove são endêmicas da região. Entre os primatas, são encontrados duas variações de guaribas: o macaco-prego e o macaco-sauá, recém-descoberto na região de Canudos.
A aridez do sertão e as dificuldades encontradas pelo sertanejo foram ricamente retratadas pelo jornalista e escritor Euclides da Cunha, principalmente em seu clássico Os Sertões, no qual apresenta as maravilhas da caatinga. Aquele magnífico cenário, porém, está sendo degradado. Segundo dados recentes, estima-se que trinta por cento de todas as caatingas tenham sofrido algum grau de degradação pelo homem, o que leva à fragmentação das áreas intactas em ilhas de vegetação. Trata-se de um problema para um ecossistema que, sabe-se agora, é rico em flora e fauna.
Fonte: www.miniweb.com.br

É um tipo de vegetação cuja localização é principalmente o nordeste brasileiro, mas ocorrendo também no norte de Minas Gerais. Esta região é marcada pelo clima semi-árido, com chuvas irregulares. Apresenta duas estações não muito bem definidas: Uma quente e seca, e outra quente e com chuvas. É comum a estação seca se prolongar, o que provoca grande mal a população do local. Assim que começam as primeiras chuvas a vegetação ganha novos ramos, aparecem várias gramíneas, e a caatinga toma um aspecto verde, bem diferente do marrom que se tem como cor predominante na estação seca.
A maior parte da população local sobrevive as custas de uma agricultura insipiente, de um extrativismo vegetal pobre, e de uma pecuária irrisória. Existe a pecuária bovina e a pecuária caprina, sendo esta mais importante que a outra. As cabras tiram seu sustento dos brotos das plantas, e até de raízes que buscam cavando com seus cascos.
O solo é raso e pedregoso, o que torna a agricultura uma prática difícil na região. Existem algumas manchas de solo que podem ser aproveitados pela agricultura, e hoje em dia, com uma forte irrigação e correção do solo (o solo é básico, alcalino, o que causa salinização da água dos açudes, com a evaporação) planta-se café, manga, e outras frutas com grande sucesso. É necessário estudar também a existência de águas subterrâneas, como o imenso lençol que existe no Piauí e que poderia resolver o problema de escassez de água de toda uma região, demonstrando que há uma questão de vontade política para esta solução.
A vegetação é ramificada, com um aspecto arbustivo, tendo folhas pequenas ou modificadas em espinhos. Estas são algumas das soluções encontradas pelas plantas para evitar a evapotranspiração (perda de água pela epiderme). Além disso ocorre a perda de folhas na época seca (folhas caducas). Algumas espécies armazenam água como adaptação para a época seca; por exemplo bromélias e cactáceas. A vegetação é distribuída de forma irregular, contrastando áreas que se assemelham a florestas, com áreas com solo quase descoberto. A fauna de répteis é abundante, podendo ser encontrados um grande número de lagartos e cobras. Além disso existem alguns roedores, muitos insetos e, principalmente, aracnídeos. A dificuldade de se encontrar água dificulta a existência de grandes mamíferos na região, mas são encontrados cachorros do mato e outros animais que se alimentam principalmente de roedores.
A área seca do nordeste é o que se chama de depressões interplanálticas, pois a região é cortada por serras e chapadas onde a vegetação nem sempre é de caatinga, recebendo o nome local de "brejo". Brejo, portanto, não significa várzea, aqui, mas área cuja umidade permite o crescimento de vegetação de mata. É nas encostas destas serras que as massas de ar atlânticas vão depositar sua umidade.
Outra formação de relevo característica na depressão nordestina são os 'inselbergs', blocos rochosos sobreviventes ao desgaste deste clima de estações marcadas.
Fonte: www.brazilnature.com