A degradação do solo e dos ecossistemas nativos e a dispersão de espécies exóticas são as maiores e mais amplas ameaças à biodiversidade. A partir de um manejo deficiente do solo, a erosão pode ser alta: em plantios convencionais de soja, a perda da camada superficial do solo é, em média, de 25ton/ha/ano, embora práticas de conservação, como o plantio direto, possam reduzir a erosão a 3ton/ha/ano (Rodrigues, 2002).
Aproximadamente 45.000km2 do Cerrado correspondem a áreas abandonadas, onde a erosão pode ser tão elevada quanto a perda de 130ton/ha/ano (Goedert, 1990). Práticas agrícolas no Cerrado incluem o uso extensivo de fertilizantes e calcário (Müller, 2003), os quais poluem córregos e rios. Além disto, o amplo uso de gramíneas africanas para a formação de pastagens é prejudicial à biodiversidade, aos ciclos de queimadas e à capacidade produtiva dos ecossistemas (Berardi, 1994; Barcellos, 1996; Pivello et al., 1999; Klink & Moreira, 2002).
Para a formação das pastagens, os cerrados são inicialmente limpos e queimados e, então, semeados com gramíneas africanas, como Andropogon gayanus Kunth., Brachiaria brizantha (Hochst. ex. A. Rich) Stapf,B. decumbens Stapf, Hyparrhenia rufa (Nees) Stapf e Melinis minutiflora Beauv. (molassa ou capim-gordura) (Barcellos, 1996). Metade das pastagens plantadas (cerca de 250.000km2 - uma área equivalente ao estado de São Paulo) está degradada e sustenta poucas cabeças de gado em virtude da reduzida cobertura de plantas, invasão de espécies não palatáveis e cupinzeiros (Barcellos, 1996; Costa & Rehman, 2005).
As gramíneas africanas invasoras são os maiores agentes de mudanças no Cerrado. Uma das variedades mais utilizadas é o capim-gordura, altamente impactante para a biodiversidade e para o funcionamento dos ecossistemas (Mack et al., 2000). Embora a substituição pelas gramíneas africanas ocorra em função de sua maior produtividade, tais espécies são amplamente dispersas em áreas perturbadas, faixas laterais de estradas, plantações abandonadas e reservas naturais no Cerrado (Berardi, 1994; Pivello et al., 1999).
Essas gramíneas podem alcançar biomassas extremamente elevadas e, quando secas, são altamente inflamáveis, iniciando uma interação gramíneas-fogo capaz de impedir o brotamento da vegetação nativa (Berardi, 1994). Nas áreas onde o capim-gordura se torna abundante, a flora local é consideravelmente depauperada. Incêndios de áreas dominadas pelo capim- gordura são mais quentes, mais prolongados e possuem chamas altas que podem alcançar o dossel das árvores.
Essas condições alteram a sucessão na superfície do solo e são mais danosas para a fauna do solo e espécies fossoriais do que queimadas típicas da vegetação do Cerrado.
O fogo é geralmente usado para limpar terrenos. Tansey e colaboradores (2004) estimaram que 67% da área queimada no Brasil em 2000 estavam no Cerrado.Queimadas freqüentes afetam negativamente o estabelecimento de árvores e arbustos (Hoffmann & Moreira, 2002), além de liberar para a atmosfera dióxido de carbono (CO2) e outros gases causadores do efeito estufa (Krug et al., 2002). Simulações que modelaram a conversão do Cerrado natural em pastagem plantadas mostraram que a precipitação pode ser reduzida em pelo menos 10%, os veranicos podem se tornar mais freqüentes e a temperatura média do ar superficial pode aumentar em 0,5oC (Hoffmann & Jackson, 2000), com grandes implicações para a agricultura. Estudos de campo demonstraram que a habilidade das árvores e arbustos do Cerrado em tamponar, durante a estação seca, a água armazenada no solo pode ser crítica para a manutenção do ciclo hídrico (Oliveira et al., no prelo). Alguns cenários de mudanças climáticas predizem diminuições na distribuição de muitas espécies arbóreas do Cerrado em mais de 50% (Siqueira & Peterson, 2003).
Em 1998, 49% da bacia do rio Tocantins tinha sido convertida em áreas de plantio e pastagens, aumentando a descarga do rio em 24% (Costa et al., 2003). Desmatamentos amplos e ilegais das matas de galeria reduzem os suprimentos de água doce para áreas urbanas (Müller, 2003).
A maior parte da biomassa do Cerrado está no subsolo até 70%, dependendo da vegetação dominante (Castro & Kauffmann, 1998). Ao considerar as extensas alterações na paisagem é igualmente esperado que tenham ocorrido alterações no estoque regional de carbono.
Pastos plantados podem acumular carbono se forem bem manejados (Davidson et al., 1995; Silva et al., 2004), mas considerando a grande extensão das pastagens degradadas, é possível que esse ambiente já não sirva mais como seqüestrador de carbono atmosférico (Silva et al., 2004). Os fluxos de CO2 dos pastos plantados para a atmosfera são mais rápidos e sazonalmente mais variáveis do que aqueles do Cerrado nativo (Varella et al., 2004).
INICIATIVAS PARA A CONSERVAÇÃO
As amplas transformações ocorridas nas paisagens do Cerrado e o status de ameaça de muitas de suas espécies têm provocado o surgimento de iniciativas de conservação por parte do governo, de organizações não governamentais (ONGs), pesquisadores e do setor privado.
Uma rede de ONGs (a Rede Cerrado) foi estabelecida para promover localmente a adoção de práticas para o uso sustentável dos recursos naturais (Fundação Pro-Natureza, 2000). Em 2003, a Rede Cerrado encaminhou um documento conceitual ao Ministério do Meio Ambiente (MMA) com recomendações para a adoção de medidas urgentes para a conservação do Cerrado. O MMA conseqüentemente definiu um grupo de trabalho que, em 2004, propôs um programa de conservação denominado Programa Cerrado Sustentável ,baseado nos resultados e proposições do seminário que definiu as prioridades para a conservação do Cerrado, em 1998 (Fundação Pró-Natureza et al., 1999).
A proposta visou também a integração de ações para conservação em regiões onde atividades agropecuárias são especialmente intensas, danosas e amplamente disseminadas.
Governos estaduais, como o de Goiás, estão trabalhando para a criação de áreas protegidas e ampliação e consolidação da rede existente de unidades de conservação, particularmente com o objetivo de se estabelecer corredores ecológicos.
A capacitação e assistência técnica a fazendeiros têm sido implementadas simultaneamente. Como um importante passo inicial,Goiás preparou sua própria avaliação do estado do meio ambiente . Com base no plano de trabalho do Global Environment Outlook do Programa das Nações Unidaspara o Meio Ambiente, a avaliação identificou impactos sobre a biodiversidade e estabeleceu as ações estaduais,envolvimento da sociedade civil (por exemplo, a Agenda 21 de Goiás), uma base legal e recomendações de prioridades (Galinkin, 2003).
A Conservação Internacional (CI-Brasil), a The Nature Conservancy (TNC) e a WWF-Brasil possuem programas especificamente voltados para a conservação do Cerrado.
A CI-Brasil está trabalhando com os estados de Goiás, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, ONGs locais, universidades e o setor privado para o estabelecimento de corredores de biodiversidade, como os corredores Emas-Taquari e Uruçuí-Mirador , que objetivam manter a integridade das áreas protegidas em paisagens alteradas. A CI-Brasil também participa na criação de unidades de conservação estaduais e federais naregião do complexo do Jalapão (estado do Tocantins), a maior área contínua de conservação no Cerrado.
Desde 1994, a WWF-Brasil trabalha no estabelecimento da Reserva da Biosfera na região do Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros e tem projetos-piloto que apóiam comunidades indígenas no desenvolvimento de planos de manejo (em Mato Grosso e Goiás). A instituiçãoatua, ainda, de maneira colaborativa no manejo de ecossistemas aquáticos no Distrito Federal (WWF, 1994).
A TNC esteve envolvida na recente ampliação (maio de 2004) em 147.000ha do Parque Nacional Grande Sertão Veredas, localizado no noroeste do estado de Minas Gerais, que se estende para o estado da Bahia num total de 231.000 hectares (TNC, 2004). Todas as três ONGs iniciaram a promoção de atividades econômicas alternativas (por exemplo, ecoturismo, uso sustentável de produtos da fauna e da flora, plantas medicinais) para apoiar a sobrevivência de comunidades locais.
O Banco Mundial propôs um amplo zoneamento ecológico-econômico (World Bank, 2003) para estimular o apoio de agências nacionais e internacionais para a conservação e o desenvolvimento racional da região.
O programa de pequenos projetos (PPP) que conta com recursos do Global Environment Facility (GEF) e apoio do PNUD-Brasil, promove ações de ONGs locais e pequenas comunidades rurais do Cerrado que buscam o uso sustentável dos recursos naturais.
DESAFIOS FUTUROS: COMO CONCILIAR USO DA TERRA COM CONSERVAÇÃO NO CERRADO
A expansão da agricultura e o uso de tecnologias modernas no Cerrado geraram benefícios socioeconômicos inegáveis: aumento da oferta dos produtos agrícolas tanto para uso doméstico como para exportação, ganhos na produtividade da agricultura, diversificação das economias locais e aumento da renda de municípios, e melhorias sociais em várias localidades (Bonelli, 2001).
A recente aprovação pelo Congresso Nacional do cultivo de culturas geneticamente modificadas, particularmente a soja e o algodão, possivelmente beneficiará a agricultura do Cerrado por intermédio da redução dos custos de produção e estimulará sua expansão na região.
A conjunção desses fatores implica que a expansão agrícola no Cerrado seguirá no futuro e certamente trará impactos tanto para o Cerrado quanto para outros ecossistemas, particularmente a floresta Amazônica.
Dentre os aspectos mais importantes está o desenvolvimento da infra-estrutura. A falta de investimentos desde meados dos anos 80 sucateou o sistema de transportes no Cerrado. O governo federal provavelmente investirá em melhorias nesse setor de modo a diminuir os custos de frete dos produtos agrícolas, especialmente a soja, já que os sojicultores do Cerrado têm custos de transportes mais elevados que seus competidores no mercado internacional, particularmente os EUA e a Argentina.
Tais melhorias expandirão as conexões existentes entre o Cerrado e a Amazônia (por exemplo a pavimentação da rodovia BR163 que liga Cuiabá ao porto de Santarém no Rio Amazonas), o que causará mais desmatamento na floresta Amazônica (Alencar et al., 2004).
Um dos principais desafios na conservação do Cerrado será demonstrar a importância que a biodiversidade desempenha no funcionamento dos ecossistemas. O conhecimento sobre a biodiversidade e as implicações das alterações no uso da terra sobre o funcionamento dos ecossistemas serão fundamentais para o debate desenvolvimento versus conservação .
No passado, a falta de conhecimento e as incertezas sobre os principais fatores que causavam o desmatamento no Cerrado prejudicaram sua conservação e manejo. Apesar de avanços recentes na pesquisa científica (Oliveira & Marquis, 2002), seu impacto ainda tem sido modesto na tomada de decisões, em parte pela inexistência de uma pesquisa mais orientada para a resolução de problemas, e em parte pela ausência de um programa regional de prioridades em pesquisa (que poderia identificar potenciais beneficiários dos resultados científicos, por exemplo).
O conhecimento já obtido não é amplamente disseminado pois a região carece de uma rede e canais de comunicação. A disseminação de melhores práticas deveria ser uma prioridade, como ocorreu com a introdução da prática do plantio direto para a conservação dos solos na agricultura no início dos anos 80. Esta prática disseminou-se rapidamente entre os produtores e hoje prevalece nas principais zonas agrícolas do Cerrado (Müller, 2003; Rodrigues, 2002).
No passado as políticas públicas negligenciaram as implicações do desenvolvimento na conservação do Cerrado, em parte porque a floresta Amazônica foi seu foco principal. Contudo existe hoje uma grande oportunidade para ações que envolvam vários setores da sociedade na busca da conservação e uso sustentável desse bioma.
Dada a escala de alteração e degradação já ocorridas, prioridade deveria ser dada à execução de ações que fortaleçam as áreas protegidas já existentes e que criem novas áreas de proteção. O seminário que estabeleceu critérios de prioridades para o estabelecimento de ações de conservação , em 1998, apontou 87 áreas para conservação com base no conhecimento biológico existente, como riqueza de espécies e distribuição de espécies endêmicas, raras, ameaçadas ou migratórias. Contudo, apenas recentemente esse conhecimento tem sido colocado em uso (Cavalcanti & Joly, 2002).
O estabelecimento de prioridades deveria considerar também a grande diversidade de habitats e ecossistemas existentes dentro do Cerrado. As políticas para conservação das áreas remanescentes de Cerrado deverão considerar portanto uma análise espacial da região. Por exemplo, foi reportado que a topografia, a proximidade de mercados consumidores, a existência de infra-estrutura e a presença de ONGs determinam o grau e forma de ocupação agrícola do solo do Cerrado (Pufal et al., 2000).
Em conclusão, as recomendações para as políticas públicas devem considerar o conhecimento já existente, tanto sobre espécies e habitats quanto sobre funcionamento de ecossistemas, uma vez que as modificações da paisagem têm implicações sobre o regime de queimadas, a hidrologia, a ciclagem e os estoques de carbono e possivelmente o clima.
Igualmente importante é o envolvimento dos vários setores da sociedade, inclusive o setor produtivo. Por exemplo, a criação de instrumentos, como os mecanismos de compensação, atrairia o interesse do setor privado ao mesmo tempo em que beneficiaria a conservação do Cerrado.
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CERRADÃO
É uma formação florestal que apresenta elementos xeromórficos (adaptações a ambientes secos). Pode apresentar espécies que estão sempre com folhas (perenifólias ou sempre verdes), espécies que apresentam queda de folhas (caducifólias ou decíduas) ou semi-decíduas.

Fonte: aprender.unoeste.br