As “ilhas de calor” são uma anomalia do clima que ocorrem quando a temperatura em determinadas regiões dos centros urbanos fica muito maior do que a temperatura nas regiões periféricas. Isso se dá por conta da alta densidade demográfica, pavimentação e diminuição da área verde, construção de prédios barrando a passagem do vento, grande quantidade de veículos e outros fatores que contribuem para o aumento da retenção de calor na superfície.
Em São Paulo, por exemplo, já chegou a ser registrada uma diferença de 10º Celsius entre uma temperatura medida no centro e na periferia da cidade, enquanto que a média mundial é de 9ºC.
Durante as estações quentes do ano, as partículas de ar que ficam sobre as metrópoles deslocam-se com maior rapidez para as camadas mais altas e carregam a umidade da brisa. Ao entrar em contato com temperaturas mais frias, há condensação das partículas e fortes chuvas.
Em um local menos urbanizado, com mais áreas verdes e menos prédios, a radiação solar seria absorvida normalmente pela vegetação e pelo solo, e dissipada através dos ventos. A vegetação devolveria essa radiação através da evapotranspiração enquanto que a ausência de poluentes permitiria que parte da radiação refletisse na superfície e fosse enviada para as camadas mais altas da atmosfera, diminuindo a quantidade de calor.
O problema é que a substituição da vegetação pelo asfalto e concreto faz com que a radiação solar seja absorvida por estes materiais e convertida em ondas de calor que ficarão armazenadas, em grande parte durante o dia, escapando à noite (o asfalto pode chegar a 46ºC em um dia de verão enquanto que a grama não ultrapassa os 32ºC). A construção de prédios cria uma barreira para os ventos não deixando que o calor seja dissipado.
A presença de material particulado no ar, proveniente das chaminés de indústrias e escapamentos dos carros cria uma camada que barra a reflexão natural da maior parte dos raios solares.
Fonte: www.sabesp.com.br
Em entrevista exclusiva concedida a Levon Boligian, um dos autores de Geografia – Espaço e Vivência (Atual Editora), a climatologista Magda Lombardo destaca a importância do educador na formação da consciência ambiental.
Professora Magda, você foi uma das primeiras cientistas a detectar o fenômeno das ilhas de calor formadas pelo excesso de pavimentação e de verticalização nas áreas urbanas. Como tem sido a evolução desse fenômeno?
Para dar uma referência básica da evolução do fenômeno, podemos tomar o exemplo de São Paulo. Em 1985, descobri por meio de imagem termal a ilha de calor de São Paulo, uma das piores do mundo: havia uma diferença de calor de 10° C entre o centro e a periferia. Hoje a diferença aumentou para 12º C, ou seja, a ilha de calor piorou.
Que relação podemos estabelecer entre as ilhas de calor e o aquecimento global?
A dinâmica do aquecimento global em curso está diretamente relacionada com o processo industrial e capitalista. Ao estudar as áreas urbanas, estamos tratando de algumas das principais fontes do aquecimento: a atividade industrial e o transporte. As cidades são fonte e sofrem as conseqüências desse processo. As ilhas de calor que nelas se criam nada mais são que desertos artificiais, ou seja, áreas onde se observa a elevação da temperatura e a diminuição da umidade relativa. O asfalto é o que mais aquece. Depois é a construção. Nós, citadinos, devemos pensar em como enfrentar as mudanças climáticas no plano local.
De acordo com seus estudos, as variações de temperatura entre o centro e a periferia são maiores no Brasil. Por que isso ocorre?
A explicação desse fenômeno está no processo de urbanização brasileiro, um dos mais contundentes que aconteceram na humanidade. Entre os anos 1950 e 1970, a ordem era urbanizar e industrializar a qualquer custo, sem controle de poluição, preservação de áreas verdes, nada. Nossas cidades adotaram um modelo de urbanização igual ao de São Paulo, cuja base é o cimento e a impermeabilização dos solos – ou seja, quanto maior o crescimento, mais área construída em detrimento das áreas arbóreas. Assim, de 1950 a 2007, houve uma grande multiplicação de ilhas de calor no território brasileiro.
Qual seria a função das áreas verdes?
A área verde tem quatro funções. Primeiro, a climática: os lugares com mais áreas verdes são mais frescos. Há a função ecológica, de preservação da biodiversidade. E ainda as funções estética e de lazer. Na Colômbia, em Bogotá, foi implementado um projeto lindíssimo de arborização urbana, que redundou na diminuição de criminalidade. Nós, para sobrevivermos dentro da cidade, temos que ter árvores. Verde significa qualidade de vida.
Aumentar a área verde então é uma forma de melhorar a qualidade climática do local onde vivemos?
Sim. A vegetação e as lâminas d’água são importantes para minimizar o efeito da ilha de calor. E há outros efeitos positivos. Tive, por exemplo, a oportunidade de observar o resultado da aplicação do meu trabalho em Sacramento, na Califórnia, quando fiz um pós-doutorado. Com o aumento do espaço arbóreo da cidade em 30%, o consumo de ar-condicionado diminuiu e, conseqüentemente, houve queda no consumo de energia.
Por que 30% de área verde?
A área verde necessária aos centros urbanos não é calculada na base de metro quadrado de árvore por habitante. É uma relação entre a área construída e a área verde. Quando se trata de verticalização, é preciso dobrar a área verde, e sabemos que o processo de verticalização também é um modelo de São Paulo para todo o Brasil. Em Berlim, por exemplo, há uma regra muito rígida em relação à altura dos prédios: cinco andares. E só se pode ocupar 55% de um terreno com construção, os outros 45% são reservados para vegetação, espaço livre.
Considerando grandes obstáculos, entre eles a especulação imobiliária, como garantir a preservação de áreas verdes nas nossas cidades?
Nossas políticas públicas têm que mudar, para mudar também a consciência da população. Principalmente as políticas municipais, que têm uma relação direta com o povo. Não se pode enfrentar a questão das mudanças climáticas sem uma intervenção nas cidades. É necessário estabelecer leis que assegurem um mínimo de 30% de área verde. E que o cumprimento dessa lei seja rigidamente monitorado. Caso contrário, teremos cidades cada vez mais doentes.
As tecnologias chamadas limpas, como a dos biocombustíveis e a da informática,
podem ajudar a reduzir o problema do aquecimento global?
As soluções no nível global são muito complexas. A indústria petrolífera não está ligada apenas aos transportes. O etanol, com certeza, contribui para diminuir o problema das mudanças climáticas. Mas onde? Qual é o nível de destruição ambiental provocado pela monocultura da cana-de-açúcar em relação aos recursos hídricos onde é produzida? E em relação aos solos, com a erosão e multiplicação de poluentes, e às queimadas, que geram problemas seríssimos de saúde no Brasil? As conseqüências são locais.
Existem alguns prognósticos: o aquecimento global vai desencadear grave crise na agricultura, vai derreter as calotas polares, aumentar o nível dos mares...
Os prognósticos sobre o aquecimento global são generalizantes, ainda muito técnicos e embrionários. As fontes e os efeitos precisam ser estudados no plano local. Em alguns lugares o nível do mar pode subir, em outros não. Em certos lugares vai haver aquecimento e em outros frio. A dinâmica do tempo precisa ser estudada com a dinâmica do espaço. É aí que entra a contribuição mais imediata da Geografia. Ao invés de generalizar, temos que diagnosticar e prognosticar considerando as dinâmicas do tempo e do espaço, para que os cidadãos possam tomar as atitudes adequadas.
Você conseguiria fazer um prognóstico do que vai acontecer daqui para a frente?
O planeta, nesse momento, é uma panela de pressão, não só na questão das mudanças climáticas, mas também na questão social, principalmente nos grandes centros. Temos que estudar melhor as cidades na sua dimensão tridimensional -- o subsolo, o solo e o ar -- e em uma quarta dimensão, que é o tempo. Nós não temos um prognóstico para determinada cidade em relação a determinado risco. Nós não temos mecanismos de defesa ambientais nem sociais, mesmo em países desenvolvidos. O que aconteceu em Nova Orleans [furacão Katrina, em 2005] é um bom exemplo. Ou em Paris, com os imigrantes árabes [manifestações por direitos iguais, em 2005]. Ou em São Paulo, com a grande onda de violência desencadeada pelo crime organizado. Todos esses eventos ambientais e sociais estão sob o tapete da cidade.
No documentário Uma verdade inconveniente, Al Gore se empenha em mostrar ao cidadão americano a responsabilidade de seu país no aquecimento global. Os Estados Unidos são os grandes responsáveis?
Só os Estados Unidos são os responsáveis? Não. Somos todos nós. Você diminuiu o consumo de energia elétrica? Anda de bicicleta? Tem exigido da administração local a construção de ciclovias? Trata-se de responsabilidade e de necessária mudança de atitudes tanto do indivíduo quanto do coletivo, a sociedade e o Estado.
Qual seria sua contribuição, como geógrafa, para o enfrentamento dos problemas gerados na relação entre a natureza e a sociedade?
A natureza tem todos os seus ciclos, sua variabilidade. O que devemos mitigar são os processos antropogênicos. Por exemplo, a nossa proposta é trabalhar com um modelo em que os parâmetros de mudanças climáticas locais -- por exemplo, temperatura, CO2, metano, uso e ocupação do solo – indiquem a contribuição de cada cidade como fonte. E as conseqüências para cada cidade. Com base nisso seria possível pensar em uma legislação urbana mais eficiente, para que a paisagem urbana mude.
Como você vê a importância, nessa discussão, da disciplina Geografia na escola?
A Geografia tem que atuar na difusão de seus conhecimentos, no processo temporal e espacial, e na formação do cidadão, no ensino fundamental, médio e superior. É o geógrafo que tem a relação natureza e sociedade como centro de sua disciplina e pode chamar a atenção para a sociedade, por meio de livros didáticos e de seu papel como educador. O professor tem um papel fundamental na mudança de atitude da população.
Além da educação, quais outras medidas podem ser realizadas fora do âmbito da escola, na comunidade?
Nós tivemos uma fantástica evolução tecnológica em termos de conforto. Agora, porque não incorporar a questão ambiental nessa evolução? Nós, como sociedade, podemos interferir sim de maneira positiva. A visão do apocalipse serve para retomarmos essas questões de modo mais positivo. Temos recursos maravilhosos da natureza, recursos tecnológicos, toda uma consciência coletiva. Nós estamos no mesmo planeta. Temos que repensar individual e coletivamente, na escala local, de um para um e não de um para um milhão. Essa é a escala de mudança total de paradigma.
Magda Adelaide Lombardo formou-se em Geografia na Unesp de Rio Claro em 1972 e obteve os títulos de mestre, doutora e livre-docente em Geografia pela Universidade de São Paulo. Atualmente, é professora da Unesp-Rio Claro, coordenadora do IGCE (Instituto de Geociências e Ciências Exatas) e diretora do CEAPLA (Centro de Análise e Planejamento Ambiental).
Fonte: www.saraivaeduca.com.br