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Eros

Eros

Em grego Éros significa desejo incoercível dos sentidos.

Deus do amor, do desejo e sedução

Personificado, é o deus do amor. O mais belo entre os deuses imortais, segundo Hesíodo, Eros dilacera os membros e transtorna o juízo dos deuses e dos homens. Dotado, como não poderia deixar de ser, de uma natureza vária e mutável, o mito do deus do amor evoluiu muito, desde a era arcaica até a época alexandrina e romana, isto é, do século IX a.e.c., ao século VI d.e.c.

Nas mais antigas teogonias, como se vê em Hesíodo, Eros nasceu do Caos, ao mesmo tempo em que Geia e Tártaro. Numa variante da cosmogonia órfica, o Caos e Nix (noite) estão na origem do mundo.

Nix põe um ovo, de que nasce Eros, enquanto Urano e Geia se formam das duas metades da casca partida.

Eros, no entanto, apesar de suas múltiplas genealogias, permanecerá sempre, mesmo à época de seus disfarces e novas indumentárias da época alexandrina, a força fundamental do mundo. Garante não apenas a continuidade das espécies, mas a coesão interna do cosmo. Foi exatamente sobre este tema que se desenvolveram inúmeras especulações de poetas, filósofos e mitólogos.

Para Platão, no Banquete, pelos lábios da sacerdotisa Diotima, Eros é um Demônio, quer dizer, um intermediário entre os deuses e os homens (não do sentido pejorativo de Diabo, para os gregos, "daimónion" eram seres semideuses que vagavam entre deuses e homens, sendo como os anjos são para os cristãos hoje) como o deus do amor está à meia distância entre uns e outros, ele preenche o vazio, tornando-se assim, o elo que une o Todo a sim mesmo. Foi contra a tendência generalizada que lhe atribuiu nova genealogia.

Consoante Diotima, Eros foi concebido da união de Póros (expediente) e de Penia (Pobreza), no jardim dos Deuses, após um grande banquete, em que se celebrava o nascimento de Afrodite.

Em face desse parentesco tão díspar, Eros tem caracteres bem definidos e significativos: sempre em busca de seu objeto, como Pobreza e "carência", sabe, todavia, arquitetar um plano, como Expediente, para atingir o objetivo, "a plenitude".

Assim, longe de ser um deus todo-poderoso, Eros é uma força, uma "energia", perpetuamente insatisfeito e inquieto: uma carência sempre em busca de uma plenitude. Um Sujeito em busco do Objeto.

Com o tempo, surgiram várias outras genealogias: umas afirmam se o deus do Amor filho de Hermes e Ártemis ctônia ou de Hermes e Afrodite urânia, a Afrodite dos amores etéreos; outras dão-lhe como pais Ares e Afrodite, enquanto filha de Zeus e Dione e, nesse caso, Eros se chamaria Ânteros, quer dizer, o Amor Contrário ou Recíproco.

As duas genealogias, porém, que mais se impuseram, fazem de Eros ora filho de Afrodite Pandêmia, isto é, da Afrodite popular, a Afrodite dos desejos incontroláveis, e de Hermes, ora filho de Artemis, enquanto filha de Zeus e Perséfone, e de Hermes. Este último Eros, que era alado, foi o preferido dos poetas e escultores.

Aos poucos, todavia, sob a influência da poesia, Eros se fixou e tomou sua fisionomia tradicional. Passou a ser apresentado como um garotinho louro, normalmente com asas. Sobe a máscara de um menino inocente e travesso, que jamais cresceu (afinal a idade da razão, o lógos, é incomparável com o amor), esconde-se um deus perigoso, sempre pronto a traspassar com suas flechas certeiras, envenenadas de amor e paixão, o fígado e o coração de suas vítimas.

O fato de Eros ser uma criança simboliza, sem dúvida, a eterna juventude de um amor profundo, mas também uma certa irresponsabilidade. Em todas as culturas, a Aljava, o arco, as flechas, a tocha, os olhos vendados significam que o Amor se diverte com as pessoas de que se apossa e domina, mesmo sem vê-las (o amor, não é raro, é cego), ferindo-as e inflamando-lhes o coração. O globo que ele, por vezes, tem nas mãos, exprime sua universalidade e seu poder.

Eros, de outro lado, traduz a complexio oppositorum, a união dos opostos. O Amor é a pulsão fundamental do ser, a libido, que impele toda existência a se realizar na ação. É ele que atualiza as virtualidades do ser, mas essa passagem ao ato só se concretiza mediante o contato com o outro, através de uma série de trocas materiais, espirituais, sensíveis, o que faltamente provoca choques e comoções.

Eros procura superar esses antagonismos, assimilando forças diferentes e contrárias, integrando-as numa só e mesma unidade. Nessa acepção, ele é simbolizado pela cruz, síntese de correntes horizontais e verticais e pelos binômios animus-anima e Yang-Yin. Do ponto de vista cósmico, após a explosão do ser em múltiplos seres, o Amor é a a força, a alavanca que canaliza o retorno à unidade; é a reintegração do universo, marcada pela passagem da unidade inconsciente do Caos primitivo à unidade consciente da ordem definitiva. A libido então se ilumina de progresso moral e místico.

O ego segue uma evolução análoga à do universo: o amor é a busca de um centro unificador, que permite a realização da síntese dinâmica de suas potencialidades.

Dois seres que se dão e reciprocamente se entregam, encontram-se um no outro, desde que tenha havido uma elevação ao nível de ser superior e o dom tenha sito total, sem as costumeiras limitações ao nível de cada um, normalmente apenas sexual. O Amor é uma fonte de progresso, na medida em que ele é efetivamente união e não apropriação. Pervertido, Eros, em vez de se tornar o centro unificador, converte-se em princípio de divisão e morte. Essa perversão consiste sobretudo em destruir o valor do outro, na tentativa de servir-se do mesmo egoisticamente, ao invés de enriquecer-se a si próprio e ao outro com uma entrega total, um dom recíproco e generoso, que fará com que cada um seja mais, ao mesmo tempo em que ambos se tornam eles mesmos. O Erro capital do amor se consuma quando uma das partes se considera o todo. O conflito entre a alma e o amor é simbolizado pelo mito de Eros e Psiquê.

Nascimento de Eros

Eros nos tempos primitivos é considerado um dos grandes princípios do universo e até o mais antigo dos deuses. Representa a força poderosa que faz com que todos os seres sejam atraídos uns pelos outros, e pela qual nascem e se perpetuam todas as raças. Mitologicamente, não sabemos quem é seu pai, mas os poetas e escultores concordam em lhe dar Hermes como pai e Afrodite por mãe, e é realmente naturalíssimo que Eros seja filho da beleza.

O nascimento de Eros proporcionou a Lesueur o tema de uma encantadora composição. Afrodite sentada nas nuvens está rodeada das três Cárites, uma das quais lhe apresenta o gracioso menino. Uma das Horas, que paira no céu, esparze flores sobre o grupo.

Educação de Eros

Notando Afrodite que Eros não crescia e permanecia sempre menino, perguntou o motivo a Temis. A resposta foi que o menino cresceria quando tivesse um companheiro que o amasse. Afrodite deu-lhe, então, por amigo Anteros (o amor partilhado).

Quando estão juntos, Eros cresce, mas volta a ser menino quando Anteros o deixa. É uma alegoria cujo sentido é que o afeto necessita de ser correspondido para desenvolver-se.

A educação de Eros por Afrodite proporcionou assunto para uma multidão de maravilhosas composições em pedras gravadas. Afrodite brinca com ele de mil modos diversos, pegando-lhe o arco ou as setas e seguindo-lhe com o olhar os graciosos movimentos. Mas o malicioso menino vinga-se, e várias vezes a mãe experimenta o efeito das suas flechadas.

Eros era freqüentemente considerado um civilizador que soube mitigar a rudeza dos costumes primitivos. A arte apoderou-se dessa idéia, apresentando-nos os animais ferozes submetidos ao irresistível poder do filho de Afrodite.

Nas pedras gravadas antigas vemos Eros montado num leão a quem enfeitiça com os seus acordes; outras vezes atrela animais ferozes ao seu carro, após domesticá-los, ou então quebra os atributos dos deuses, porque o universo lhe está submetido.

Não obstante o seu poder, jamais ousou atacar Atena e sempre respeitou as Musas.

Eros é o espanto dos homens e dos deuses. Zeus, prevendo os males que ele causaria, quis obrigar Afrodite a desfazer-se dele. Para o furtar à cólera do senhor dos deuses, viu-se Afrodite obrigada a ocultá-lo nos bosques. Onde ele sugou o leite de animais ferozes.

Também os poetas falam sem cessar da crueldade de Eros:

"Formosa Afrodite, filha do mar e do rei do Olimpo, que ressentimento tens contra nós? Por que deste a vida a tal flagelo, Eros, o deus feroz, impiedoso, cujo espírito corresponde tão pouco aos encantos que o embelezam? Por que recebeu asas e o poder de lançar setas, a fim de que não pudéssemos safar-nos dos seus terríveis golpes?" (Bíon).

Um epigrama de Mosco mostra a que ponto conhecia Eros o seu poder, até contra Zeus. "Tendo deposto o arco e o archote, Eros, de cabelos encaracolados, pegou um aguilhão de boieiro e suspendeu ao pescoço o alforje de semeador; depois, atrelou ao jugo uma parelha de bois vigorosos e nos sulcos atirou o trigo de Démeter.

Olhando, então para o céu, disse ao próprio Zeus: "Fecunda estes campos, ou então, touro da Europa, eu te atrelarei a este arado." (Antologia).

Luciano, nos seus diálogos dos deuses, assim formula as queixas de Zeus a Eros:

"Eros. — Sim, se cometi um erro, perdoa-me, Zeus. Sou ainda menino e não atingi a idade da razão.

Zeus. — Tu, Eros, um menino?! Mas se és mais velho que Japeto. Por não teres barba nem cabelos brancos, julgas-te ainda menino? Não. És velho e velho maldoso.

Eros. — E que mal te fez, pois, este velho, como dizes, para que penses em encadeá-lo?

Zeus. — Vê, pequenino malandro, se não é grande mal insultar-me a ponto de fazeres com que eu me revestisse da forma de sátiro, touro, cisne e águia. Não fizeste com que mulher alguma se apaixonasse de mim próprio, e não sei absolutamente que, pelo teu sortilégio, eu tenha conseguido agradar a uma que fosse. Pelo contrário, devo recorrer a metamorfoses e ocultar-me. É verdade que amam o touro ou o cisne, mas se me vissem morreriam de medo." (Luciano).

Eros inspirou encantadores trechos a Anacreonte:

"No meio da noite, na hora em que todos os mortais dormem, Eros chega e, batendo à minha porta, faz estremecer o ferrolho: "Quem bate assim? exclamei. Quem vem interromper-me os sonhos cheios de encanto? — Abre, responde-me Eros, não temas, sou pequenino. Estou molhado pela chuva, a lua desapareceu e eu me perdi dentro da noite." Ouvindo tais palavras apiedei-me; acendo a lâmpada, abro e vejo um menino alado, armado de arco e aljava; levo-o ao pé da lareira, aqueço-lhe os dedinhos entre as minhas mãos, e enxugo-lhe os cabelos encharcados de água. Mal se reanima: "Vamos, diz-me, experimentemos o arco. Vejamos se a umidade o não estragou." Estica-o, então, e vara-me o coração, como faria uma abelha; depois, salta, rindo com malícia: "Meu hóspede, diz, rejubila-te. O meu arco está funcionando perfeitamente bem, mas o teu coração está agora enfermo." (Anacreonte).

"Um dia, Eros, não percebendo uma abelha adormecida nas rosas, foi por ela picado.

Ferido no dedinho da mão, soluça, corre, voa para o lado de sua mãe:

"Estou perdido, morro! Uma serpentezinha alada me picou. Os lavradores dizem que é uma abelha." Afrodite responde-lhe: "Se o aguilhão de uma simples abelha te faz chorar, meu filho, reflete como devem sofrer aqueles a quem tu atinges com as setas!" (Anacreonte).

Tipos e Atributos de Eros

Na arte Eros apresenta dois tipos distintos, pois uma das vezes o vemos como adolescente, outras sob o aspecto de gracioso menino. Mas o primeiro de tais tipos é o mais antigo.

Uma pedra gravada nos mostra Eros de estilo antigo, representado por um éfebo alado e disparando uma seta. O arco, as setas e as asas são sempre os atributos de Eros.

O tipo de Eros adolescente está fixado perfeitamente num tronco do museu. Pio-Clementino. Os membros, infelizmente, faltam. Os ombros apresentam vestígios de orifícios abertos para acolherem o pé das asas. A cabeça, de delicada beleza, está coberta de cabelos encaracolados.

Foi Praxíteles, contemporâneo de Alexandre, que fixou na arte o tipo de Eros.

Sabe-se que o grande escultor era freqüentador assíduo da famosa cortesã Frinéia.

Esta, ao lhe pedir um dia que ele lhe cedesse a mais bela das suas estátuas, teve o prazer de ser ouvida. Mas Praxíteles não lhe explicou qual delas seria. Frinéia, então, mandou que um escravo fosse à casa do escultor, e dali a pouco o escravo voltou dizendo que um incêndio destruíra a casa de Praxíteles e com ela a maior parte dos seus trabalhos; no entanto, acrescentou, que nem tudo desaparecera, Praxíteles precipitou-se imediatamente para a porta, gritando que estaria perdido todo o fruto dos seus longos esforços, se o incêndio lhe não tivesse poupado o Eros e o Sátiro. Frinéia tranqüilizou-o assegurando-lhe que nada estava queimado e que, graças ao ardil, ficara sabendo dele próprio o que de melhor havia em escultura.

Escolheu, assim, o Eros. Mas não era para guardá-la que a cortesã pedira a obra-prima ao grande escultor, pois, na Grécia, os costumes licenciosos não impediam sentimentos elevados. Frinéia doou a estátua à cidade de Téspies, sua pátria, que Alexandre acabara de devastar. A escultura foi consagrada num antigo templo de Eros, e foi graças a esse Destino religioso que se tornou espécie de compensação para uma cidade destruída pela guerra. "Téspies já não é mais nada, diz Cícero, mas conserva o Eros de Praxíteles, e não há viajante que não vá visitá-la para conhecer tão esplêndida obra-prima." Esse Eros era de mármore, as asas eram douradas, e ele empunhava o arco. Calígula mandou que o transportassem para Roma; Cláudio devolveu-o aos habitantes de Téspies, Nero roubou-o de novo.

A célebre estátua foi, então, colocada em Roma sob os pórticos de Otávio, onde pouco depois a destruiu um incêndio.

O escultor Lisipo também fizera uma estátua de Eros para os habitantes de Téspies, colocada ao lado da obra-prima de Praxíteles.

A famosa estátua conhecida pelo nome de Eros empunhando o arco passa por ser cópia de uma dessas duas obras. Via-se também no templo de Vênus em Atenas um famosíssimo quadro de Zêuxis, representando Eros coroado de rosas.

Até a conquista romana, quase sempre fora Eros representado como adolescente de formas esbeltas e elegantes. A partir de tal época, surge mais freqüentemente sob o aspecto de menino.

A arte dos últimos séculos representou muitas vezes Eros. No quarto de banho da cardeal Bibbiena, no Vaticano.

Rafael fixou Eros triunfante, fazendo puxar o carro por borboletas, cisnes, etc. Numa multidão de encantadoras composições mostra-o doidejando ao lado de sua mãe ou então abandonando-a, após havê-la picado.

Parmeggianino fez com Eros e o seu, arco uma graciosa figura que, por longo tempo foi atribuída a Correggio. Correggio e Ticiano, por sua vez, fixaram Eros em todas as suas formas, mas nenhum pintor o representou tantas vezes quantas Rubens.

Os Eross frescos e bochechudos do grande mestre flamengo podem ser vistos em todas as galerias, brigando, brincando. voando, correndo, colhendo frutos, etc.

Na Escola francesa, le Poussin representou muitas vezes Eros, mas le Sueur pintou a história completa nos salões do palácio Lambert, e o austero pintor de São Bruno soube evidenciar, sem jamais deixar de ser casto, uma graça encantadora nesses temas mitológicos.

Vemos, desde os primórdios do século dezoito, a importância desmedida que Eros terá nas produções artísticas da época. Coypel pintara, nos salões do cardeal Dubois, um forro representando o Grupo celestial desarmado pelos Eros.

Nota-se ali, diz o biógrafo do pintor, um desses pequeninos deuses que se eleva, rindo, na águia de Zeus; mas quem ousa tentar apoderar-se do raio, queima-se, arrepende-se e foge. Outro, mais obstinado, nota com despeito que todas as suas setas se partem contra a égide de Atena, e tenta inutilmente novos esforços. O Tempo detém pela asa o temerário que acaba de lhe roubar o relógio e a foice, Vê-se a balaustrada que encima a cornija desabar sob os passos do impiedoso destruidor. O resto da composição apresenta aos olhos a simpática e nobre brincadeira que tanto apraz ao espírito e da qual somente o espírito pode ser inventor.

Eros fazendo o seu arco, de Bouchardon, atualmente no museu do Louvre, encontrava-se, outrora numa ilha no meio do lago do Trianon. A formosa estátua, fortemente desdenhada no começo deste século, conforma-se bastante ao espírito do século dezoito.

Eros, vencedor dos deuses e dos homens, apoderou-se, sem nenhum trabalho, da maça de Héracles, e enquanto se ocupa em dela fazer um arco, inclina a cabeça com um movimento de faceirice algo afetado, mas cheio de graça. Na mesma época, Boucher cobria os seus entrepanos de Eroszinhos rechonchudos, cheios de encanto, mas que só possuem longínqua relação com o tipo fixado por Praxíteles e Lisipo.

Citemos uma Mercadora de Eros, imitação de antiga pintura famosa, a escola imperial representou freqüentemente Eros. Mas entre os artistas dos últimos séculos, nenhum o representou tantas vezes como Prudhon.

Embora tais composições pequem, uma vez que outra, por um pouco de afetação, são quase sempre encantadoras. A maioria foi popularizada pela gravura ou pela litografia. Vemos Eros de pé, asas abertas, passar os braços em volta do pescoço da Inocência sentada num cabeço. Mais longe, a Inocência seduzida por Eros é arrastada pelo Prazer e seguida pelo Arrependimento.

Outras vezes, representa Eros preso por um elo de ferro ao pedestal de um busto de Atena e pisando com o pequenino pé, mas em troca, outras é Eros triunfante que se vinga da mulher insensata a qual julgou encadeá-lo para sempre.

Eros fere muitas vezes sem ver, e dá origem a sentimentos que nem o mérito, nem a beleza explicam suficientemente. Foi o que Correggio pretendeu exprimir ao representar Afrodite prendendo uma venda sobre os olhos do filho. Ticiano pintou o mesmo tema que se vê reproduzido com freqüência na arte dos últimos séculos.

Eros produz naqueles aos quais fere efeitos surpreendentes, que na Lenda se traduzem sempre por metamorfoses. Assim, o mergulhão é uma ave que voa sempre acima das águas e nela mergulha freqüentemente. Noutros tempos, tratava-se do filho de um rei, que tinha aversão à corte do pai e evitava participar das festas que ali se realizavam, preferindo ir aos bosques, por ter a esperança de encontrar a ninfa Hespéria a quem amava ternamente. Entretanto Esaco, assim se chamava ele, não era correspondido. Um dia, estando a ninfa a fugir-lhe à perseguição amorosa, foi picada por uma serpente venenosa e morreu. Esaco, desesperado por lhe ter causado a morte, atirou-se ao mar do alto de um rochedo. Mas Tétis, comovida, sustentou-o na queda, cobriu-o de penas, antes que ele caísse na água e impediu-o, assim, de morrer, por maior que fosse o seu desejo de não sobreviver à querida Hespéria. Indignado contra a mão favorável que o protege, queixa-se da crueldade do Destino que o força a viver. Eleva-se no ar, depois se precipita com impetuosidade na água; mas as penas o sustêm e reduzem o esforço que ele faz para morrer. Furioso, mergulha a todo instante no mar, e procura a morte que o evita. O amor tornou-o magro, tem coxas longas e descarnadas e um pescoço muito comprido. Ama as águas, e é pelo fato de nelas mergulhar constantemente que se chama mergulhão. (Ovídio).

Referência Bibliográfica

BRANDÃO, Junito de Souza. Mitologia Grega Vol I. Petrópolis, Vozes, 2004

MÉNARD, Réne. Mitologia Greco-Romana. Opus, São Paulo, 1991.

Fonte: www.mitologiagrega.templodeapolo.net

Eros

Eros e Psiquê

Era uma vez um rei que tinha três filhas. Duas eram lindas, mais a mais nova era muito, muito mais bonita. Dizia-se até que Afrodite - a deusa da beleza - não era tão bonita quanto Psiquê (esse era seu nome). Os templos de Afrodite andavam vazios porque as pessoas, principalmente os homens, passaram a cultuar aquela princesa maravilhosa.

Afrodite ficou com ciúme e pediu para seu filho, Eros, preparar uma vingança. Ela queria que Psiquê se apaixonasse por um monstro horrível.

Só que Eros também acabou sendo atingido pelos encantos da menina. Ele ficou tão maravilhado ao ver Psiquê que não conseguiu cumprir a ordem da mãe.

O estranho é que todos aqueles homens que ficavam enfeitiçados com sua beleza não se aproximavam e nem tentavam namorá-la. As duas irmãs, que perto da caçula não tinham a menor graça, logo arranjaram pretendentes e cada uma se casou com um rei. A família ficou preocupada com a solidão de Psiquê. Então, um dia, o pai resolveu perguntar ao oráculo de Apolo o que deveria fazer para a menina arranjar um marido. O que ele não sabia é que Eros já havia pedido a Apolo para ajudá-lo a cumprir aos planos de sua mãe.

A resposta que o rei levou para casa o deixou muito mais preocupado do que já estava: o deus falou que Psiquê deveria ser vestida de luto e abandonada no alto de uma montanha, onde um monstro iria buscá-la para fazer dela sua esposa.

Embora muito triste, a família cumpriu essas determinações e Psiquê foi deixada na montanha. Sozinha e desesperada, ela começou a chorar. Mas, de repente, surgiu uma brisa suave que a levou flutuando até um vale cheio de flores, onde havia um palácio maravilhoso, com pilares de ouro, paredes de prata e chão de pedras preciosas.

Ao passar pela porta ouviu vozes que diziam assim: "Entre, tome um banho e descanse. Daqui a pouco será servido o jantar. Essa casa é sua e nós seremos seus servos. Faremos tudo o que a senhora desejar". Ela ficou surpresa. Esperava algo terrível, um destino pior que a morte e agora era dona de um palácio encantado.

Só uma coisa a incomodava: ela estava completamente sozinha. Aquelas vozes eram só vozes, vinham do ar.

A solidão terminou à noite, na escuridão, quando o marido chegou. E a presença dele era tão deliciosa que Psiquê, embora não o visse, tinha certeza de que não se tratava de nenhum monstro horroroso.

A partir de então sua vida ficou assim: luxo, solidão e vozes que faziam suas vontades durante o dia e, à noite, amor. Acontece que a proibição de ver o rosto do marido a intrigava. E a inquietação aumentou mais ainda quando o misterioso companheiro avisou que ela não deveria encontrar sua família nunca mais. Caso contrário, coisas terríveis iam começar a acontecer.

Ela não se conformou com isso e, na noite seguinte, implorou a permissão para ver pelo menos as irmãs. Contrariado, mas com pena da esposa, ele acabou concordando. Assim, durante o dia, quando ele estava longe, as irmãs foram trazidas da montanha pela brisa e comeram um banquete no palácio.

Só que o marido estava certo, a alegria que as duas sentiram pelo reencontro logo se transformou em inveja e elas voltaram para casa pensando em um jeito de acabar com a sorte da irmã. Nessa mesma noite, no palácio, aconteceu uma discussão. O marido pediu para Psiquê não receber mais a visita das irmãs e ela, que não tinha percebido seus olhares maldosos, se rebelou, já estava proibida de ver o rosto dele e agora ele queria impedi-la de ver até mesmo as irmãs?

Novamente, ele acabou cedendo e no dia seguinte as pérfidas foram convidadas para ir ao palácio de novo. Mas dessa vez elas apareceram com um plano já arquitetado.

Elas aconselharam Psiquê a assassinar o marido. À noite ela teria que esconder uma faca e uma lamparina de óleo ao lado da cama para matá-lo durante o sono.

Psiquê caiu na armadilha. Mas, quando acendeu a lamparina, viu que estava ao lado do próprio Eros, o deus do amor, a figura masculina mais bonita que havia existido.

Ela estremeceu, a faca escorregou da sua mão, a lamparina entornou e uma gota de óleo fervente caiu no ombro dele, que despertou, sentiu-se traído, virou as costas, e foi embora. Disse: "Não há amor onde não há confiança".

Psiquê ficou desesperada e resolveu empregar todas as suas forças para recuperar o amor de Eros, que, a essa altura, estava na casa da mãe se recuperando do ferimento no ombro. Ela passava o tempo todo pedindo aos deuses para acalmar a fúria de Afrodite, sem obter resultado. Resolveu então ir se oferecer à sogra como serva, dizendo que faria qualquer coisa por Eros.

Ao ouvir isso, Afrodite gargalhou e respondeu que, para recuperar o amor dele, ela teria que passar por uma prova. Em seguida, pegou uma grande quantidade de trigo, milho, papoula e muitos outros grãos e misturou. Até o fim do dia, Psiquê teria que separar tudo aquilo.

Era impossível e ela já estava convencida de seu fracasso quando centenas de formigas resolveram ajudá-la e fizeram todo o trabalho.

Surpresa e nervosa por ver aquela tarefa cumprida, a deusa fez um pedido ainda mais difícil: queria que Psiquê trouxesse um pouco de lã de ouro de umas ovelhas ferozes. Percebendo que ia ser trucidada, ela já estava pensando em se afogar no rio quando foi aconselhada por um caniço (uma planta parecida com um bambu) a esperar o sol se pôr e as ovelhas partirem para recolher a lã que ficasse presa nos arbustos. Deu certo, mas no dia seguinte uma nova missão a esperava.

Agora Psiquê teria que recolher em um jarro de cristal um pouco da água negra que saía de uma nascente que ficava no alto de uns penhascos. Com o jarro na mão, ela foi caminhando em direção aos rochedos, mas logo se deu conta de que escalar aquilo seria o seu fim.

Mais uma vez, conseguiu uma ajuda inesperada: uma águia apareceu, tirou o jarro de suas mãos e logo voltou com ele bem cheio de água negra.

Acontece que a pior tarefa ainda estava por vir. Afrodite dessa vez pediu a Psiquê que fosse até o inferno e trouxesse para ela uma caixinha com a beleza imortal.

Desta vez, uma torre lhe deu orientações de como deveria agir, e, assim, ela conseguiu trazer a encomenda.

Tudo já estava próximo do fim quando veio a tentação de pegar um pouco da beleza imortal para tornar-se mais encantadora para Eros. Ela abriu a caixa e dali saiu um sono profundo, que em poucos segundos a fez tombar adormecida.

A história acabaria assim se o amor não fosse correspondido. Por sorte Eros também estava apaixonado e desesperado. Ele tinha ido pedir a Zeus, o deus dos deuses, que fizesse sua mãe parar com aquilo para que eles pudessem ficar juntos.

Zeus então reuniu a assembléia dos deuses (que incluía Afrodite) e anunciou que Eros e Psiquê iriam se casar no Olimpo e ela se tornaria uma deusa. Afrodite aceitou porque, percebendo que a nora iria viver no céu, ocupada com o marido e os filhos, os homens voltariam a cultuá-la.

Eros e Psiquê tiveram uma filha chamada Volúpia e, é claro, viveram felizes para sempre.

Observação:

Os deuses da mitologia grega costumam ter dois nomes, um grego e outro romano. Assim, Eros é o nome grego do Cupido e sua tradução para o português é Amor. Palavras com erótico e erotismo vem daí. Afrodite e Vênus também são a mesma deusa. Psiquê só tem esse nome que, em grego, significa alma. Psíquico, psiquiatria e psicologia nasceram dessa raiz. O mito de Eros e Psiquê é a história da ligação entre o amor e a alma.

Fonte: users.matrix.com.br

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