Facebook do Portal São Francisco Twitter do Portal de Educação Curtir
Home  Hermes - Página 9  Voltar

Hermes

Hermes

Apesar de não ser o principal dos deuses, a história de Hermes é envolta em muitas versões.

Acredita-se que na pré-Grécia, ele era cultuado como sendo o deus da fertilidade, dos rebanhos, da magia, da divinação, das estradas e viagens, entre outros atributos.

Na história que é divulgada nos dias de hoje, Hermes assumiu o posto como mensageiro dos deuses, ou seja, ele levava informações de um deus para o outro, ou de um deus para todos.

Porém, uma das mais conhecidas funções de Hermes, era guiar a alma dos mortos até o reino de Hades.

Sem a menor dúvida, é um dos deuses mais astutos a circular pelo Olimpo, pois já no seu primeiro dia de nascimento realizou várias proezas e exibiu vários poderes: furtou cinquenta vacas de seu irmão Apolo, inventou o fogo, os sacrifícios, sandálias mágicas e a lira. No dia seguinte, perdoado pelo furto das vacas, foi investido de poderes adicionais por Apolo e por seu pai Zeus, e por sua vez concedeu a Apolo a arte de uma nova música, sendo admitido no Olimpo como um dos grandes deuses.

Fonte: www.laifi.com

Hermes

Hermes

Filho de Zeus e de Maia, a mais jovem das Plêiades, Hermes nasceu num dia quatro (número que lhe era consagrado), numa caverna do monte Cilene, ao sul da Arcádia. Apesar de enfaixado e colocado no vão de um salgueiro, árvore sagrada, símbolo da fecundidade e da imortalidade, o que traduz, de saída, um rito iniciático, o menino revelou-se de uma precocidade extraordinária. No mesmo dia em que veio à luz, desligou-se das faixas, demonstração clara de seu poder de ligar e desligar, viajou até a Tessália, onde furtou uma parte do rebanho de Admeto, guardado por Apolo, que cumpria grave punição. Percorreu com os animais quase toda a Hélade, tendo amarrado folhudos ramos na cauda dos mesmos, para que, enquanto andassem, fossem apagando os próprios rastros.

Numa gruta de Pilos sacrificou duas novilhas aos deuses, dividindo-as em doze porções, embora os imortais fossem apenas onze: é que o menino-prodígio acabava de promover-se a décimo segundo. Após esconder o grosso do rebanho, regressou a Cilene. Tendo encontrado uma tartaruga à entrada da caverna, matou-a, arrancando-lhe a carapaça e, com as tripas das novilhas sacrificadas, fabricou a primeira lira.

Apolo, o deus mântico por excelência, descobriu o paradeiro do ladrão e o acusou formalmente perante Maia, que negou pudesse o menino nascido há poucos dias e completamente enfaixado, ter praticado semelhante roubo. Vendo o couro dos animais sacrificados, Apolo não teve mais dúvidas e apelou para Zeus. Este interrogou habilmente ao filho, que persistiu na negativa.

Convencido de mentira pelo pai e obrigado a prometer que nunca mais faltaria com a verdade, Hermes concordou, acrescentando, porém, que não estaria obrigado a dizer a verdade por inteiro. Encantado com os sons que o menino arrancava da lira, o deus de Delfos trocou o rebanho furtado pelo novo instrumento de som divino. Um pouco mais tarde, enquanto pastorava seu gado, inventou a (syrinks) a "flauta de Pã". Apolo desejou também a flauta e ofereceu em troca o cajado de ouro de que se servia para guardar o armamento do rei Admeto.

Hermes aceitou o negócio, mas pediu ainda lições de adivinhação. Apolo assentiu e, desse modo, o caduceu de ouro passou a figurar entre os atributos principais de Hermes, que, de resto, ainda aperfeiçoou a arte divinatória, auxiliando a leitura do futuro por meio de pequenos seixos.

Divindade complexa, com múltiplos atributos e funções,Hermes parece ter sido, de início, um deus agrário, protetor dos pastores nômades indo-europeus e dos rebanhos, daí seu epíteto de Crióforo, por ser muitas vezes representado com um carneiro sobre os ombros.

Pausânias deixa bem claro essa atribuição primária do filho de Maia: "não existe outro deus que demonstre tanta solicitude para com os rebanhos e seu crescimento".

Os gregos, no entanto, ampliaram-lhe grandemente as funções, e Hermes, por ter furtado o rebanho de Apolo, se tornou símbolo de tudo quanto implica em astúcia, ardil e trapaça: é um verdadeiro trickster, um trapaceiro, um velhaco, companheiro amigo e protetor dos comerciantes e dos ladrões. Na tragédia Reso, 216sq., erradamente atribuída a Eurípedes, o deus é chamado "Senhor dos que realizam seus negócios durante a noite".

Ampliando-lhe o mito, os escritores e poetas igualmente lhe dignificaram as prerrogativas.

Na Ilíada, XXIV, 334sq., vendo o alquebrado Príamo ser conduzido pelo filho de Maia através do acampamento aqueu, Zeus exclama comovido:

Hermes, tua mais agradável tarefa é ser o companheiro do homem; ouves a quem estimas.

Nesse sentido, como está na Odisséia VIII 335.

Hermes, mensageiro, filho de Zeus, é o pispensador de bens.

Além do mais, se qualquer oportunidade é uma dádiva do deus, é porque ele gosta de misturar-se aos homens, tornando-se, destarte, juntamente com Dionisio, o menos olímpico dos imortais.

Protetor dos viajantes, é o deus das estradas.

Guardião dos caminhos, cada transeunte lançava uma pedra, formando um (hérmaion), isto é, literalmente, "lucro inesperado, descoberta feliz" proporcionados por Hermes: assim, para se agradecerem ou para se obterem bons lucros, formavam-se, em honra do deus, verdadeiros montes de pedra à beira da estrada. Diga-se logo que uma pedra lançada sobre um monte de outras pedras simboliza a união do crente com o deus ao qual as mesmas são consagradas, pois que na pedra está a força, a perpetuidade e a presença do divino.

Para os gregos, todavia, Hermes regia as estradas, porque andava com incrível velocidade, pelo fato de usar sandálias de ouro, e, se não se perdia na noite, era porque, "dominando as trevas", conhecia perfeitamente o roteiro. Com a rapidez que lhe emprestavam suas sandálias divinas e com o domínio dos três níveis, tornou-se o mensageiro predileto dos deuses, sobretudo de seu pai Zeus e do casal ctônio, Hades e Perséfone.

De outro lado, conhecedor dos caminhos e de suas encruzilhadas, não se perdendo nas trevas e sobretudo podendo circular livremente nos três níveis, o filho de Maia acabou por ser um deus psicopompo, quer dizer, um condutor de almas, tanto do nível telúrico para o ctônio quanto deste para aquele: numa variante do mito, foi ele quem trouxe do hades para a luz a Perséfone e Eurídice; na tragédia de Ésquilo, Os Persas, 629, guiou, para curtos instantes na terra, o êidolon do rei Dario.

Para Mircea Eliade são as faculdades "espirituais" do deus psicopompo que lhe explicam as relações com as almas: "Pois a sua astúcia e a sua inteligência prática, a sua inventividade, o seu poder de tornar-se invisível e de viajar por toda parte em um piscar de olhos, já anunciam os prestígios da sabedoria, principalmente o domínio das ciências ocultas, que se tornarão mais tarde, na época helenística, as qualidades específicas desse deus"

Está com a razão o sábio romeno, pois aquele que domina as trevas e os três níveis, guiando as almas dos mortes, não opera apenas com a astúcia e a inteligência, mas antes com a gnose e a magia.

Embora, como frisa Walter Otto, "o mundo de Hermes não seja um mundo heróico", a esse deus psicopompo não apenas os deuses mas igualmente os homens ficaram devendo algumas ações memoráveis, levadas a efeito mais com a solércia e a magia do que com a força.

Na Gigantomaquia, usando o capacete de Hades, que tornava invisível o seu portador, lutou ao lado dos deuses, matando o gigante Hipólito. Recompôs fisicamente a seu pai Zeus, roubando os tendões, que lhe arrancara o monstruoso Tifão. Libertou a seu irmão Ares, que os Alóadas haviam encerrado num pote de bronze. Salvou a Ulisses e a seus companheiros, estes já transformados em animais semelhantes a porcos, oferecendo-lhe como defesa uma planta fabulosa, de caráter apotropaico, denominada móli, cujos efeitos neutralizaram por completo a beberagem peçonhenta que lhe preparara a feiticeira Circe, conforme nos conta Homero na Odisséia, X, 281-329.

A grande tarefa de Hermes, no entanto, consistia em ser o intérprete da vontade dos deuses. Após o dilúvio, foi o portador da palavra divina a Deucalião, para anunciar que Zeus estava pronto a conceder-lhe a satisfação de um desejo. Por intermédio dele, o consumado músico Anfião recebeu a lira, Héracles a espada, Perseu o capacete de Hades.

Após insistente súplica de Atena a seu pai Zeus, foi ele o enviado à bela Calipso, com ordens para que permitisse a partida de Ulisses, há set anos prisioneiro da paixão da ninfa da ilha Ogígia. Foi quem adormeceu e matou Argos, o gigante de cem olhos, colocado pela ciumenta Hera como guardião da vaca Io. Levou ao monte Ida, na Frígia, as três deusas, Hera, Atena e Afrodite, para que o pastor Páris fosse o árbitro na magna querela provocada por Éris, acerca da mais bela das imortais.

Por ordem expressa de Zeus, cumpriu a ingrata missão de levar a Prometeu, aguilhoado a uma penedia, o ultimatum, para que revelasse o grande segredo que tanto preocupava o pai dos deuses e dos homens. Conduziu o pequeno Dionisio de asilo em asilo, primeiro para a corte de Átamas e depois para o monte Nisa.

A ele coube, igualmente, a gratíssima tarefa de conduzir Pisqué para o Olimpo, a fim de que se casasse com Eros.

Poder-se-iam multiplicar as missões e as comissões de Hermes, mas o que interessa mais de perto nesse deus tão longevo, que só faleceu, se é que faleceu, no século XVII, "são suas relações com o mundo dos homens, um mundo 'aberto', que está em permanente construção, isto é, sendo melhorado e superado.

Os seus atributos primordiais - astúcia e inventividade, domínio sobre as trevas, interesse pela atividade dos homens, psicopompia - serão continuamente reinterpretados e acabarão por fazer de Hermes uma figura cada vez mais complexa, ao mesmo tempo que um deus civilizador, patrono da ciência e imagem exemplar das gnoses ocultas". Agilis Cyllenius, o deus rápido de Cilen, como lhe chama Ovídio nas Metamorfoses, o filho de Maia para os helenos, era o (lóguios), o sábio, o judicioso, o tipo inteligente do grego refletido, o próprio Lógos.

Hermes é o que sabe e, por isso mesmo, aquele que transmite toda ciência secreta. Não sendo apenas um olímpico, mas igualmente ou sobretudo um "companheiro do homem", tem o poder de lutar contra as forças ctônias, porque as conhece, como demonstrou Kerényi em sua obra capital sobre Hermes.

Todo aquele que recebeu deste deus o conhecimento das fórmulas mágicas tornou-se invulnerável a toda e qualquer obscuridade. No Papiro de Paris, o deus de Cilen é chamado, por esse motivo, "o guia de todos os magos", (pánton mágon arkheguétes).

Através do livro de Lúcio Apuleio sobre a bruxaria, ficamos sabendo que o feiticeiro o invoca nas cerimônias como aquele que transmite conhecimentos mágicos: Solebat aduocari ad magorum cerimônias Mercurius carminum uector - "Hermes costumava ser invocado nas cerimônias dos magos como transmissor de fórmulas mágicas".

Inventor de práticas mágicas, conhecedor profundo da magia da Tessália, possuidor de um caduceu com que tangia as almas na luz e nas trevas, foi com esses atributos que Hermes mereceu estes versos lindíssimos do maior poeta ocidental da antiguidade cristã, Aurélio Clemente Prudêncio (cerca de 348 d.e.c.):

Nec non Thessalicae doctissimus illi magiae; traditur extinctas sumptae moderamine uirgae; in lucem reuocasse animas; ast alias damnasse neci penitusque latenti; inmersisse Chao. facit hoc ad utrumque peritus.

Hermes conhece profundamente a magia da Tessália e contata-se que seu caduceu conduzia as almas dos mortos para as alturas da luz... mas que condenava outras à morte e as precipitava nas profundezas do abismo entreaberto. Ele é perito em executar ambas as operações.

Ad utrumque peritus, "hábil em ambas as funções", isto é, versado em conduzir para a luz ou para as trevas: eis aí o grande título de Hermes, o vencedor mágico da obscuridade, porque sabe tudo e, por esse motivo, pode tudo.

Aquele que é iniciado pelo luminoso Hermes é capaz de resistir a todas as atrações das trevas, porque se tornou igualmente um "perito".

Mesmo após a grande crise por que passou a religião grega, com o Areslamento dos templos de seus deuses pelo imperador Flávio Teodósio, Hermes continuou vitorioso, através, claro está, de mil vicissitudes.

Assimilado ao deus egípcio Toth, mestre da escritura e, por conseqüência, da palavra e da inteligência, mago terrível e patrono dos magos, que, já no século V a.e.c., era identificado a Hermes, como ensina Heródoto, bem como ao inventivo e solerte Hermes romano, o deus de Cilene, com o nome de Hermes Trimegisto, isto é, "Hermes três vezes Máximo", sobreviveu através do hermetismo e da alquimia, até o século XVII.

No mundo greco-latino, sobretudo em Roma, com os gnósticos e neoplatônicos, Hermes Trimegisto se converteu num deus muito importante, cujo poder varou séculos.

Na realidade, Hermes Trimegisto resultou de um sincretismo, como já se assinalou, com o Hermes latino e com o deus "ctônio" egípcio Toth, o escrivão da psicostasia no julgamento dos mortos no Paraíso de Osíris e patrono, na Época Helenística, de todas as ciências, sobretudo porque teria criado o mundo por meio do lógos, da palavra.

Pois bem, em Roma, a partir dos primeiros séculos da era cristã, surgiram muitos tratados e documentos de caráter religioso e esotérico que se diziam inspirar-se na religião egípcia, no neoplatonismo e neopitagoricismo. Esse vasto conjunto de escritos que se acham reunidos sob a epígrafe de Corpus Hermeticum, "coleção" relativa a Hermes Trimegisto, fusão de filosofia, religião, alquimia, magia e, sobretudo de astrologia, tem muito pouco de egípcio. Desse Corpus Hermeticum muito se aproveitou a Gnose, em grego (gnôsis), "conhecimento", que se pode definir como conhecimento esotérico da divindade, que se transmite particularmente através de ritos de iniciação.

Os gnósticos com seu gnosticismo, isto é, sincretismo religioso, uma amálgama graco-egípcio-judaico-cristão, surgido também nos primeiros séculos de nossa era, procuraram conciliar todas as tendências religiosas e explicar-lhes os fundamentos por meio da gnose.

Como judiciosamente acentua Leonel Franca, essa erupção religiosa se deveu particularmente pela dúvida, o que fez os espíritos se voltarem para um "comércio mais íntimo com a divindade".

Diz Lonel Franca: "Fatigados pelo ecletismo e abatidos pela dúvida, buscam os espíritos em novos processos de conhecimento e num comércio mais íntimo com a divindade as bases de uma nova metafísica e a natural expansão de sentimentos religiosos a que já não podia satisfazer o Panteón despovoado de Roma. Desta tendência nasceu o neoplatonismo fundado por Amônio Saca (176-243), mas organizado e unificado em corpo de doutrina por Plotino (205-270), seu discípulo.

Viu-se que Hermes, em troca da "flauta de Pã", recebeu de Apolo, além do caduceu, lições de mântica, de poder divinatório. Foi graças a esse dom do deus de Delfos, que o "deus alquímico" fez jus a um templo na Acaia, onde respondia às consultas de seus devotos pelo denominado processo das vozes.

Purificado, provavelmente com o mais simples processo da ablução, o consulente dirigia-se para o fundo do templo, onde estava a estátua de Hermes e dizia-lhe baixinho ao ouvido o seu desejo secreto.

Em seguida, tapava fortemente as orelhas com as mãos e caminhava até o átrio do templo, onde, num gesto rápido, afastava as mãos: as primeiras palavras ouvidas dos transeuntes eram a resposta do oráculo e a decisão de Hermes. Esse método, direto e econômico, popularizou-se, passando a voz humana "não provocada" a ter poderes mágicos. Afinal vox populi, vox dei, a voz do povo é a voz de Deus.

Hermes teve vários amores e vário filhos. o mais importante de todos, porém, foi Hermafrodito.

A iconografia de Hermes apresenta-o com um chapéu de formato especial, (pétasos), o Pétaso; com sandálias providas de asas e segurando um caduceu com duas serpentes entrelaçadas na parte superior.

Hermes Trimegisto foi um deus tão importante, que, em Listra, a multidão, ao ver um milagre de Paulo, tomou-o por Hermes e gritou entusiasmada, pensando estar diante de deuses, de Paulo e de Barnabé, sob forma humana, e isto porque Paulo parecia ser aquele (Hermes), (ho hegúmenos tû lógu), "aquele que lhes dirigia a palavra". Naquele dia, o grande apóstolo, em companhia de Barnabé, deve ter convertido a muitos, que certamente compreenderam que Paulo não era Hermes, nem tampouco o Lógos, mas um simples instrumento do único e verdadeiro Lógos.

Tipo e atributos de Hermes

A mudança, a transição, a passagem de um estado a outro foram personificados em Hermes (Mercúrio). Mensageiro celeste, leva aos deuses as preces dos homens e aos homens os benefícios dos deuses; condutor das sombras, é a transição entre a vida e a morte; deus da eloqüência e dos tratados, faz passar ao espírito dos outros o pensamento de um orador ou de um legado. É o deus dos ginásios, porque na luta há troca de forças; é o deus do comércio e dos ladrões, porque um objeto vendido ou roubado passa de uma mão a outra.

Nos monumentos de estilo arcaico, e principalmente nos vasos. Hermes surge como homem na plenitude da idade, com barba espessa e pontiaguda, longos cabelos encaracolados, um chapéu de viagem, asas talares e na mão o caduceu que freqüentemente se assemelha a um cetro.

Hermes barbudo aparece também. algumas vezes, em belíssimas pedras gravadas de época posterior, mas que são imitações evidentes de um tipo mais antigo.

Na grande época da arte, esse deus se revestiu de caráter muitíssimo diferente.

Hermes torna-se, então, um efebo, macio e ágil, sempre imberbe, de cabelos curtos e apresentando o tipo perfeito dos jovens que freqüentam os ginásios. O seu rosto nunca tem a majestosidade de Zeus, nem a altivez de Apolo, mas freqüentemente o cunho de uma grande finura, de acordo cem o seu papel na Lenda, em que personifica sempre a astúcia e a habilidade.

O pétaso alado e o caduceu são os atributos de Hermes.

O pétaso é um chapéu tessaliano que em Hermes só tem de particular as asas; quando o deus está de cabeça descoberta, as asas estão simplesmente plantadas nos cabelos, à guisa de pontas. O caduceu é uma vareta entrelaçada de serpentes e por vezes acompanhada de duas pequeninas asas; tem uma origem mitológica.

Hermes, vendo duas serpentes que se batiam, separou-as com a sua vareta, em torno da qual elas se entrelaçam. Às vezes, deparam-se-nos asas nos pés de Hermes, mas nunca nas costas.

Dá-se ainda a Hermes outra série de atributos em relação com as suas diferentes funções. Como divindade pastoral, acompanhado uma ou outra vez de um carneiro ou uma cabra; como inventor da lira, coloca-se-lhe ao lado uma tartaruga. É um galo que o caracteriza como deus do ginásio, e a bolsa que segura com a mão revela o deus da mudança. Todos esses atributos se encontram reunidos numa bela pedra gravada antiga. A bolsa aparece, sobretudo, nas figuras da época romana, em que o caráter comerciante do deus acaba por preponderar sobre os demais.

Hermes nasceu da união de Zeus e de Maia, filha do Titã Atlas. Divindade arcádia, é numa gruta do monte Cilene que vê o dia pela primeira vez, e é por isso que alguns lhe dão o nome de deus de Cilene.

Poucas divindades aparecem tão freqüentemente como Hermes na mitologia; o seu papel é importantíssimo, e em numerosos casos é, como os nossos criados de comédia, o personagem que tudo faz, embora sempre dependente.

Além das cenas da Lenda, das quais participa diretamente, Hermes surge em alguns monumentos ao lado de outras divindades, às quais se liga simbolicamente.

Uma moeda de Marco Aurélio apresenta-o ao lado de Minerva, em virtude da relação existente entre o deus do comércio e a deusa da indústria. As relações com Afrodite são ainda mais diretas, pois da união de ambos é que nasce Hermafrodito (Hermes-Aphrodite). Plutarco explica tal união dizendo que a eloqüência e o encanto da linguagem devem associar-se ao atrativo da beleza.

Hermes, inventor da lira

Hermes inventou a lira no mesmo dia em que nasceu. "Mal saiu do seio materno, não ficou envolto nos sagrados cueiros; pelo contrário, imediatamente ultrapassou o limiar do antro sombrio. Encontrou uma tartaruga e dela se apoderou. Estava ela na entrada da gruta, arrastando-se devagar e comendo as flores do campo.

Ao vê-la o filho de Zeus alegra-se; pega-a com ambas as mãos, e volta para a sua morada, com o interessante amigo.

Esvazia a escama com o cinzel de brilhante aço e arranca a vida à tartaruga. Em seguida, corta alguns caniços, na medida certa, e com eles fura o costado da tartaruga de escama de pedra ; em volta estende com habilidade uma pele de boi, adapta um cabo, no qual, nos dois lados, mergulha cavilhas; em seguida, acrescenta sete cordas harmoniosas de tripa de ovelha.

"Terminado o trabalho, ergue o delicioso instrumento, bate-o com cadência empregando o arco, e a sua mão produz retumbante som. Então o deus canta improvisando harmoniosos versos, e assim como os jovens nos festins se entregam à alegria, ele também conta as entrevistas entre Zeus e a formosa Maia, sua mãe, celebra o seu nascimento ilustre, canta as companheiras da ninfa, as suas ricas moradas, os tripés e os suntuosos tanques que se encontram na gruta." (Hino homérico).

A tartaruga é o atributo de Hermes pois é com a escama de uma tartaruga que ele fez o primeiro modelo da lira.

Nos monumentos que o representam, vemos muitas vezes uma tartaruga sob o pé do deus, ou uma lira: o jovem deus, com fisionomia cheia de malícia, acaba de ajustar dois chifres de carneiro numa carapuça de tartaruga, e, tocando pela primeira vez as cordas estendidas, ouve com surpresa os sons que lhe encantam os ouvidos arrebatados.

Hermes, deus dos ladrões

Desde a mais tenra infância mostrou Hermes as qualidades que dele iriam fazer o deus dos ladrões. No mesmo dia em que nasceu, roubou o tridente de Posidon, as setas de Eros, a espada de Ares, a cintura de Afrodite, etc. Foi para fechar tão belo dia que foi roubar os bois guardados por Apolo, e para que ninguém lhe seguisse as pegadas, resolveu fazê-los caminhar de costas. Levou-os assim até Pilos, onde imolou dois aos deuses do Olimpo, e ocultou os demais numa caverna.

Hermes desconfiou que o pastor Bato, o qual guarda em tal lugar os rebanhos do rico Neleu, divulgaria o seu roubo, se fosse interrogado, e sobretudo se disso lhe adviesse alguma vantagem ; assim, aproximando-se-lhe, pôs-se a acariciá-lo, e disse-lhe pegando-o pela mão :

"Meu amigo, se por acaso alguém vier pedir-te novas deste rebanho, dize que o não viste; como recompensa, dou-te esta bela novilha. — Podes estar certo, retrucou Bato, recebendo-a; esta pedra que vês será mais capaz de trair-te o segredo do que eu." Hermes fingiu, então, afastar-se, e voltando um instante depois sob outro aspecto: "Bom homem, disse-lhe, se viste passar por aqui um rebanho, peço-te que me ajudes a procurá-lo; não favoreças com o teu silêncio o roubo que sofri; dar-te-ei uma vaca e um touro."

O ancião, vendo que lhe ofereciam o dobro do que recebera: "Penso, respondeu, que o teu rebanho deve estar nas cercanias desta montanha; sim, deve estar, se me não engano."

Hermes, rindo-se de tais palavras, disse-lhe: "Ah, tu me trais, não é verdade? Pérfido, enganas-me!" Assim dizendo, metamorfoseou-o na pedra que se chama de toque, a qual serve para reconhecer-se se o ouro é de boa liga ou se é falso. (Ovídio).

Quando sobreveio o dia, Hermes voltou às alturas de Cilene. Ali, curva-se e esgueira-se para dentro da morada, entrando pela fechadura. Caminha com passo furtivo no reduto sagrado da gruta, penetra sem ruído como faz habitualmente na Terra, e assim chega até o seu leito, onde se cobre com fraldas, como qualquer criancinha e fica deitado, com uma das mãos brincando com a faixa, e com a outra empunhando a melodiosa lira.

Mas o deus não pudera ocultar a fuga a sua mãe, que lhe dirigiu a palavra nestes termos:

"Pequenino astuto, menino cheio de audácia, de onde vens durante a treva da noite? Temo que o poderoso filho de Leto te cubra os membros de pesados laços, te arranque a esta morada, ou te surpreenda nos vales, ocupado em temerários roubos."

Hermes respondeu-lhe com palavras cheias de astúcia:

"Mamãe, por que pretendes assustar-me como se eu fora uma criança débil que mal conhece uma fraude e treme ouvindo a voz de sua mãe? Quero continuar a exercer esta arte que me parece a melhor para a tua glória e a minha". (Hino homérico).

Apolo não conseguira informações sobre os bois; mas notando um pássaro que cruza o céu, com as asas abertas, reconhece imediatamente, na sua qualidade de profeta e áugure, que o ladrão é o filho .de Zeus. Atira-se com rapidez aos picos de Cilene, e penetra na gruta, onde Maia deu à luz Hermes.

O menino, vendo Apolo irritado pelo roubo das reses, amontoa-se numa bola e envolve-se nas fraldas.

O filho de Leto, após procurar por toda parte, dirige estas palavras a Hermes:

"Menino, que repousas neste berço, dize-me imediatamente onde estão as minhas reses; se o não fizeres, erguer-se-ão entre nós funestos debates ; agarrar-te-ei e precipitar-te-ei no sombrio Tártaro, no seio das sombras funestas e horríveis. Nem teu pai, nem tua mãe venerável poderão devolver-te à luz, e tu viverás eternamente sob a Terra."

Hermes responde-lhe com astúcia: Filho de Leto, por que falas de maneira tão impressionante comigo? Por que vens procurar aqui as tuas reses? Eu nunca as vi, e delas nunca ouvi falar; não me é possível indicar-lhe o ladrão; por conseguinte, não receberia a recompensa prometida a quem fizer com que o descubras.

Não tenho a força de homem capaz de roubar rebanhos.

Não é esse o meu trabalho, porquanto outros cuidados me reclamam: preciso do suave sono, do leite de minha mãe, destas fraldas que me cobrem, e dos banhos mornos.

Trata de evitar, pelo contrário, que se saiba desta divergência: seria um escândalo para todos os imortais saberem que um menino recém-nascido transpôs o limiar de tua morada com reses não domesticadas. O que dizes são palavras de insensato.

Nasci ontem, as pedras houveram dilacerado a pele delicada dos meus pés; mas se exiges pronunciarei um juramento terrível: jurarei pela cabeça de meu pai que não conheço o ladrão das tuas reses." (Hino homérico).

Entretanto, Apolo não se deu por vencido, e pegando o garoto ao colo, o levou a Zeus, a quem pediu os bois que o filho lhe roubara.

Hermes começou por negar descaradamente o roubo; mas Zeus, que tudo sabe, ordenou-lhe que devolvesse o que pegara indevidamente, e o menino conduziu Apolo para a gruta em que ocultara os animais.

Enquanto Apolo os contava, Hermes começou a tocar lira, instrumento que ele acabara de inventar, e Apolo ficou de tal modo encantado que quis comprar-lho.

Hermes, na sua qualidade de deus do comércio, valeu-se da ocasião para um bom negócio, e pediu em troca os bois. Apolo, imediatamente, tentou tocar lira, mas enquanto lidava para arrancar os acordes, Hermes descobriu o meio de inventar o cálamo.

Apolo desejou também o novo instrumento, que Hermes lhe vendeu em troca do caduceu, vareta mágica, entrelaçada de serpentes e que lhe serviu mais tarde para adormecer Argos.

O descaramento com o qual Hermes soube mentir no mesmo dia em que nascera, e a inteligência com a qual defendeu uma péssima causa, lhe garantiram o patronato dos advogados.

Um epigrama da Antologia zomba do deus dos ladrões:

"Posso tocar numa couve, deus de Cilene? — Não, transeunte. — Que vergonha há nisso? — Não há vergonha, mas existe uma lei que proíbe apoderar-se do bem alheio. — Que coisa estranha! Hermes estabeleceu uma lei contra o roubo!"

Hermes, deus do comércio

Desde o nascimento possuíra Hermes o gênio da permuta, e é por isso que é o deus do comércio. A arte o caracteriza, então, pela bolsa segura pela mão. O emblema é o mesmo que o que se atribui ao deus dos ladrões; mas em vez de aparecer sob as feições de um menino que acaba de fazer uma peraltice, apresenta a grave fisionomia de homem que refletiu e pesa o valor dos atos.

Considerado como deus do comércio e da permuta, Hermes segura habitualmente uma bolsa: traz o mesmo atributo quando é deus dos ladrões, mas neste caso está representado com as feições de menino que sorri malicio-samente, por alusão às aventuras que lhe assinalaram a mais tenra infância.

Uma estátua do museu Pio-Clementino assim o representa, segurando uma bolsa com uma das mãos, e aplicando com significativo sorriso um dedo sobre os lábios, como que recomendando silêncio.

Temos no Louvre duas estátuas de análogo caráter; numa delas, o menino usa uma camisa curta, na outra um pequenino manto guarnecido de capuz.

Hermes, deus dos ginásios

Hermes preside aos exercícios. Mas sob tal aspecto, a arte lhe modifica o caráter; não traz mais o capacete e as asas, e se apresenta inteiramente nu sob o aspecto de vigoroso efebo, que ocupa o lugar médio entre o caráter delgado de um Apolo e o caráter robusto de um Héracles. Numa soberba estátua do museu Pio-Clementino, que fora erradamente denominada Antinoo, Hermes está apoiado â um tronco de palmeira, e traz a clâmide enrolada em volta do braço esquerdo.

Os atributos de Hermes como deus dos ginásios são a palmeira e o galo. O galo é, por excelência, a ave de luta, e os combates de galos eram um grande divertimento para os gregos. Não é de surpreender, portanto, que tenha sido escolhido para simbolizar a luta e os exercícios que a ela se ligam.

As imagens de Hermes figuravam sempre nos ginásios:

"Aqui se colocou, para proteger este belo ginásio, o deus que reina no monte Cilene e nas suas elevadas florestas, Hermes, a quem os jovens gostam de oferecer amarantos, jacintos e violetas perfumadas." (Antologia).

Essas imagens do deus eram às vezes uma simples cabeça pousada numa mísula.

O deus ri-se, ele também, de tal uso, num epigrama da Antologia:

"Chamam-me Hermes, o veloz. Ah, não me coloqueis nos ginásios, privado de pés e de mãos ! Sobre uma base, sem mãos e sem pés, como poderei ser veloz na corrida ou hábil na luta?"

Hermes pedagogo

As letras servem para a transmissão das idéias.

Como deus da permuta e da tradição, Hermes é, pois, inventor das letras: ensinando aos homens a transformação das suas idéias em caracteres que as exprimem, esse deus tornou-se naturalmente protetor dos ginásios. Invocam-no os mestres que ensinam aos meninos os elementos da ciência; invocam-no também os escrivães públicos e todos os que se dedicam a escrever. Os instrumentos de que nos servimos para a escrita, para a geometria, fazem parte das suas atribuições, e os que ganham a vida, deles se valendo, os dedicam ao deus quando são demasiado velhos.

É o que se vê num pequenino trecho da Antologia grega, onde um velho mestre de escola se coloca sob a proteção do deus a quem serviu:

"Um disco de chumbo negro para traçar linhas, uma régua que assegura a constância de direção, vasos de liquido negro para escrever, penas bem aparadas, a dura pedra que aguça o caniço e lhe devolve a finura, o ferro que o modela com a sua ponta e a sua lâmina, todos esses instrumentos do seu ofício, Menedemotos consagra, ó Hermes, pois que a idade lhe toldou os olhos. E tu, deus prestativo, não deixes morrer de fome o teu obreiro."

Hermes crióforo

A Arcádia, um dos principais centros da velha raça pelásgica, sonharia em Hermes, ou antes em Hermes, uma personificação da potência protetora da natureza e especialmente da terra. Era figurado na origem por um pedaço de madeira encimado por uma cabeça, e ali se fixava um símbolo grosseiro, que entre os povos pastores exprime simplesmente a força geratriz.

Esse caráter pastoral desaparece, de resto, rapidamente, para passar ao deus Pã, que em várias tradições é filho de Hermes. Mas o carneiro, que lhe é consagrado, e que vemos às vezes entre os seus atributos, relembra o seu antigo caráter de divindade campestre, e é sob tal aspecto que se chama Hermes crióforo, ou porta-carneiro.

Um monumento antigo nos mostra o carneiro de Hermes trazendo a bolsa do deus, que numa antiga moeda parece estar montado num carneiro: uma espiga, na sua frente, indica o seu caráter pastoral.

Hermes, guarda das estradas

Hermes, como deus do comércio, é naturalmente protetor das estradas e da navegação.

Nos tempos primitivos, montes de pedras colocados nas encruzilhadas dos caminhos serviam de altares destinados ao deus: mais tarde, foram feitos de outra maneira, mas sempre com o mesmo Destino. Uma linda pedra gravada nos apresenta Hermes tocando uma coluna miliar com o seu caduceu.

A coluna está ornada de um ramo, e um bordão recurvo, do tipo dos usados pelos viajantes, se acha no altar que a suporta. Há de notar-se que o deus, não sendo aqui considerado como mensageiro, está desprovido de asas. O manto aberto ao lado, chamado paenula, e o gorro, indicam o costume habitual dos viajantes de quem Hermes é o deus tutelar.

Hermes, deus da eloqüência

Os monumentos da arte dão a Hermes, quando é considerado como deus da eloqüência, uma atitude particular: ele levanta levemente o braço direito como se pretendesse demonstrar alguma coisa. Pode ver-se essa atitude tio Germânico do Louvre, que não é um Germânico, senão um orador romano com os atributos de Hermes, como indica a tartaruga posta ao seu lado. Mas os monumentos em que o próprio deus está representado com o gesto característico do orador são assaz raros, embora os autores falem constantemente deles. Entretanto, vemo-lo sob tal aspecto numa linda pedra gravada, em que o deus se acha caracterizado pelo caduceu alado que ele empunha com a outra mão.

A arte de comunicar as idéias pela linguagem participava naturalmente dos atributos de Hermes, porque ele é o deus da permuta sob todas as formas.

Era ele também que todos invocavam para adquirir os dons da memória e da palavra, como se pode ver num hino órfico a Hermes que contém as litanias do deus:

"Filho bem amado de Maia e de Zeus, deus viajante, mensageiro dos imortais, dotado de grande coração, censor severo dos homens, deus prudente de mi] formas, assassino de Argos, deus de pés alados, amigo dos homens, protetor da eloqüência, tu que gostas da astúcia e dos combates, intérprete de todas as línguas, amigo da paz, que trazes um caduceu sangrento, deus venturoso, deus utilíssimo, que presides aos trabalhos e às necessidades dos homens, generoso auxiliar para a língua dos mortais, ouve as minhas preces, concede um feliz fim à minha existência, concede-me felizes obras, um espírito dotado de memória e de palavras escolhidas." (Hino órfico).

Hermes, mensageiro dos deuses

Hermes transmite aos deuses as preces dos homens e faz subir a eles a fumaça dos sacrifícios. Mas é sobretudo o mensageiro dos deuses e o fiel intérprete das ordens que está incumbido de levar. É ele que por ordem de Zeus conduz as três deusas à presença do pastor Paris encarregado de lhes adjudicar o prêmio da beleza. Possui asas no pétaso e tem asas talares para indicar a rapidez do seu vôo. Devotado mais especialmente a Zeus, torna-se, se preciso, ministro complacente dos seus prazeres.

O caduceu usado por Hermes parece ter significados diversos: primitivamente era apenas a vareta usada pelos arautos que iam e vinham por diversos países em prol das relações internacionais.

Em outras circunstâncias a vareta reveste-se de uma espécie de caráter mágico: é com ela que Hermes adormece Argos e é dela que se serve para evocar as sombras.

Em torno dos emblemas que caracterizam Hermes, Gabriel de Saint-Aubin colocou mariposas para indicar a leveza e a rapidez do vôo:

"O apelido de mensageiro, de servidor, diz Creuzer, tão freqüentemente dado a Hermes, está quase sempre acompanhado do de assassino de Argos, em que se revelam tão bem nas lendas pelásgicas as suas relações com a lua e o céu estrelado. A vaca Io, efetivamente, e o vigilante Argos, que traz os seus inúmeros olhos fitos nela, não parecem ser outra coisa.Quanto a Hermes, enviado pelo senhor dos deuses a libertar a sua amante de tão incômoda vigilância, nada mais faz, ao matar Argos, do que cumprir a missão que lhe é confiada, de presidir à alternativa do dia e da noite, da vida e da morte." (Creuzer).

O famoso Hermes de Gian di Bologna, em Florença, mostra o deus sob o seu aspecto de mensageiro, correndo com extrema leveza e empunhando o caduceu.

Hermes, condutor das almas

Além do seu papel de mensageiro dos deuses, Hermes está especialmente incumbido de transportar as almas dos mortos ao reino de Hades. Vários monumentos no-lo apresentam sob tal aspecto, que, aliás, se conforma às narrações dos poetas. Assim é que, numa pintura antiga, vemos Hades e Prosérpina sentados num trono e recebendo uma jovem que Hermes lhes conduz. Está protegido por uma ampla clâmide envolta sobre o braço e traz o pétaso alado. Com uma das mãos, empunha o caduceu e com a outra conduz a jovem, seguida por sua vez de outra mulher velada.

Vemos também, por vezes, Hermes caminhando rapidamente e segurando com a mão uma almazinha caracterizada pelas asas de borboleta: é por isso que Horácio, invocando Hermes, lhe dirige estas palavras:

"És tu que, amado igualmente pelos deuses do Olimpo e pelos deuses do Inferno, reúnes com a tua varinha de ouro as sombras leves e conduzes as almas piedosas à venturosa morada que lhes está reservada."

Uma interessante pedra gravada antiga nos apresenta Hermes evocando uma sombra a quem ajuda a sair da Terra. Dessa feita não é uma alma que ele conduz aos infernos, pois, muito pelo contrário, a tira do reino subterrâneo. Embora fatos semelhantes não constituíssem nada de surpreendente na mitologia, é difícil determinar a que lenda essa pedra gravada faz referência.

Queixas de Hermes

Dentre todos os deuses da antiguidade, não há nenhum que tenha exercido tantas ocupações como Hermes. Intérprete e ministro fiel dos demais deuses, e em particular de Zeus, seu pai, serve-os nos seus problemas ou nos seus prazeres com infatigável zelo.

A multiplicidade das funções de Hermes é verdadeiramente extraordinária, e o mais ativo dos deuses chega às vezes a lamentar-se:

"Há, por acaso, um deus mais Infeliz do que eu? Ter, sozinho, que fazer tanta coisa. sempre curvado ao peso de tantos trabalhos! Desde o romper do dia, devo levantar-me para varrer a sala do banquete; depois, quando já estendi tapetes para a assembléia e pus tudo em ordem, preciso ir ao pé de Zeus, a fim de levar ordens à Terra, como verdadeiro correio. Mal regresso, ainda coberto de pó, devo servir-lhe a ambrósia, e antes da chegada do escanção, era eu quem lhe dava o néctar. O mais desagradável, porém, é que, único dentre os deuses, não fecho olho durante a noite, pois tenho de conduzir as almas a Hades, levar-lhe os mortos e sentar-me ao tribunal. Os trabalhos do dia não têm fim; além de assistir aos jogos, de fazer o papel de arauto nas assembléias, de dar aulas aos oradores, encarrego-me, simultaneamente, de tudo quanto diz respeito às pompas fúnebres." (Luciano).

Odsson Ferreira

Referência Bibliográfica

AUGRAS, Monique. A Dimensão simbólica. Petrópolis, Vozes, 1980, P. 66sq

BRANDÃO, Junito de Souza, Mitologia Grega Vol II. Petrópolis, Vozes, 2004

COROMINAS, J. Diccionario Crítico Etitmológico de la Lengua Castellana, 4 vol. Madrid. Editorial Gredos, 1954

ELIADE, Mircea. Op. cit., p.109

FRANCA, S.J. Leeonel. Op. cit., p. 68sq

KERÉNYI, K. Hermes der Selenführer. Zürich, Rhein-Verlag, 1944

MÉNARD, Réne. Mitologia Greco-Romana Vol III. Opus, São Paulo, 1991.

Fonte: www.mitologiagrega.templodeapolo.net

voltar 123456789avançar
Sobre o Portal | Politica de Privacidade | Fale Conosco | Anuncie | Indique o Portal