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Mochicas

Mochicas, responsáveis pelo desenvolvimento de uma civilização que durante 500 anos, alterou profundamente a história da América Andina, para no século VI viver um período de vertiginoso declínio, desaparecendo misteriosamente.

Mochicas
Guerreiro maia em baixo relevo

O caráter revolucionário dos mochicas, deve-se ao fato de terem criado a primeira sociedade estatal pré-colombiana do continente, 14 séculos antes do império inca. Desde então, a história da América do sul nunca mais foi a mesma.

POLÍTICA E ECONOMIA

Estabelecidos nos Vales do Chicama e do Mocha (costa norte do Peru) entre 50 e 600 d.C., esse povo consolidou um Estado com o poder centralizado nas mãos de uma nobreza guerreira, aprimorado no século XV pelos incas.

Com economia baseada na agricultura de irrigação, cultivaram todas as plantas comestíveis da época, como a batata, o feijão, e o milho, transformando largas faixas de deserto em terras cultiváveis através da construção de canais de irrigação e aquedutos, utilizados até os dias de hoje. Desenvolveram também o pastoreio, domesticando o lhama, que junto com peixes e frutos do mar, eram utilizados na alimentação.
No artesanato, os mochicas criaram objetos com a utilização de cerâmica, madeira, pedra, metal e tecelagem, tendo sido pioneiros no uso de moldes para vasos de barro e na produção de representações realistas da figura humana, assimilada posteriormente por outras civilizações pré-colombianas.

SOCIEDADE, RELIGIÃO E ARTE

A sociedade mochica era fortemente patriarcal, cabendo às mulheres uma posição claramente inferior. Esse aspecto pode ser comprovado em pinturas que mostram as mulheres dedicando-se somente às tarefas domésticas. A pintura descreve ainda, uma sociedade dividida em classes, onde uma nobreza militar comandava a vida da comunidade formada majoritariamente por camponeses.

"Havia também uma grande divisão do trabalho e especialização nas ocupações e ofícios. Embora não possamos estar seguros se um ourives ou um oleiro trabalhavam no seu ofício todo ano ou só no tempo que a agricultura lhes deixava livre, havia provavelmente sacerdotes, médicos e gente de outras profissões que não trabalhavam na agricultura. Pode ter havido uma classe de escravos, e quase certamente classes aristocráticas. (...) Nos vasos-efígie e pintados notavam-se vestuários e ornamentos ou símbolos que indicavam as várias classes ou ofícios e esses tem muitas vezes, formas de animais, tais como aves, centopéias ou libélulas para os mensageiros, raposas para os sábios, jaguares para os homens de autoridade." (MASON, J. A. op. cit., p. 88 e 89)

A arquitetura desenvolveu-se através de grandes obras públicas como templos e pirâmides, ambos com o uso de adobe (tijolo cru). Sobre os grandes templos aterraçados, como a Huaca Del Sol e a Huaca de la Luna, erguia-se uma pirâmide em degraus. Também foram erguidas edificações ao longo das estradas em locais estratégicos e com intervalos regulares, visando facilitar o possível serviço de mensageiros.

Mochicas
Pirâmide da lua

A escultura foi marcada pela representação da figura humana, com elementos da flora e da fauna. A religião era controlada pelo Estado, com prática comum de rituais de sacrifício humano. Recentemente na Huaca de la Luna, considerada o principal templo mochica, foram encontradas duas valas comuns com cerca de 90 esqueletos de homens capturados em combate e sacrificados ritualmente.

OUTROS GRUPOS PRÉ-INCAICOS

O desaparecimento dos mochicas, a partir do século VI ainda é uma incógnita. A hipótese mais provável é que o clima da região tenha sido afetado por uma sucessão de El Niños extremamente violentos provocando a alternância de secas e chuvas torrenciais prolongadas, o que provavelmente, arruinou as plantações e rebanhos, destruindo essa rica civilização.

Entre os séculos VII e XII, a região do altiplano boliviano próxima ao lago Titicaca conheceu o Império Tiahuanaco. Com desenvolvimento econômico bem semelhante ao dos demais povos da região, sua arquitetura distinguiu-se pela técnica inovadora que utilizava grampos de cobre para unir blocos de pedra maciça na construção de plataformas.

A civilização Huari passou a dominar a região entre 800 e 1200, período em que o militarismo e a urbanização se consolidaram no altiplano andino. As cidades ali fundadas contavam com praças, ruas, templos, além de canais subterrâneos para abastecimento de água. Huari era menos um centro cerimonial que residencial e o grande número de edifícios públicos comprova uma certa laicização das instituições.

Como conseqüência das guerras entre os pequenos Estados vizinhos, os governos que, na época clássica eram fortemente teocráticos, se militarizaram e na hierarquia social o soldado já superava o sacerdote. O expansionismo de Huari valorizou essas características, que mesmo em um império decadente, influenciaram a formação do Estado Inca.

Ainda nesse período destaca-se finalmente, o Império Chimu, localizado no litoral norte do Peru. Considerada a última grande civilização pré-incaica, conseguiu sobreviver até 1466, quando foi vencido pelos incas.

Mochicas
Par de brincos da cultura chimu

Apesar das várias características comuns apresentadas por esses povos os mochicas, com a primeira sociedade estatal da América do Sul, irão marcar várias culturas posteriores, inclusive a dos incas mais primitivos.

Fonte: www.historianet.com.br

Mochicas

A história do povo que habitou o Peru antes dos Incas

Muito antes dos incas, um misterioso povo dominou a costa norte do Peru. O pouco que se sabe sobre ele deve-se a alguns sítios e à incrível cerâmica (muitas com motivo erótico) achados por arqueólogos

Os guerreiros sabiam que ao chegar à cidade, após mais uma conquista, seriam recepcionados com uma festa preparada por membros da elite. Ornamentados com plumas e pinturas no corpo, levantaram suas armas, maças de madeira ou metal, nas quais penduraram armas e adornos dos inimigos combatidos. À frente deles, alguns dos próprios derrotados caminhavam, desarmados, nus e atados pelo pescoço por uma corda. Ao entrar no centro cerimonial, os vitoriosos foram recebidos pelos integrantes da elite, que, de mãos dadas e usando seus melhores enfeites, se dispuseram ao lado do caminho percorrido pelos guerreiros, dançando para recepcioná-los. A cena aparece em um mural em relevo de Huaca de la Luna, na costa norte do Peru - feito, muito provavelmente, em comemoração a alguma vitória do povo que habitava esse local sobre uma etnia vizinha. Eles eram os mochicas, uma das mais antigas civilizações da América do Sul.

Esse povo, que desapareceu mil anos antes de os incas dominarem os arredores andinos, deixou para trás poucas pistas de sua existência. Por isso é tão difícil determinar, de fato, quem foram, como viviam e como sumiram. "Os incas têm narrativas sobre povos que dominaram ou incorporaram. Mas os mochicas vieram tanto tempo antes que não estão nessas narrativas", afirma o historiador Eduardo Natalino dos Santos, da USP, especialista em povos pré-colombianos.

A costa peruana é um lugar completamente árido, repleto de dunas. Assim, acredita-se que esse povo foi capaz de dominar o deserto - se bem que as coisas podem não ter sido tão difíceis assim. "O rio Moche e outros rios da região têm um afluxo de água constante do degelo dos Andes. A costa, em termos de pesca e coleta, é uma das mais ricas do mundo", diz Santos. Os mochicas, porém, deram sua contribuição: com um sistema sofisticado de canais e dutos, irrigaram o deserto para não depender do regime de chuvas. E o mar garantia a oferta de peixes e algas, a base da alimentação.

Os mochicas viveram entre os séculos 100 a.C. e 600 d.C., aproximadamente, quando desapareceram ou acabaram absorvidos por outras culturas. Foram os primeiros a erigir na região uma arquitetura monumental, com pirâmides imensas. O que hoje chamamos de moche era, na realidade, um mosaico de grupos autônomos que compartilhavam tradições. "Não existia uma política unificada, mas pelo menos duas instituições políticas independentes", afirma a historiadora Cristiana Bertazoni, do Centro de Estudos Andinos e Mesoamericanos da USP. Uma delas estava localizada nos vales de Moche e Chicama. A segunda, nos vales de Lambayeque e Jequetepeque. Todas estão na costa norte peruana, mas convencionou-se chamar os grupos de, respectivamente, mochicas do sul e do norte. "Enquanto os do norte limitavam-se à sua área tradicional, os demais iniciaram uma política expansionista, principalmente em direção ao sul. Mas ambos compartilhavam similaridades políticas, cerimoniais, funerárias, artísticas e rituais."

Como não tinham escrita, eles relatavam o cotidiano e a mitologia em murais e peças de cerâmica. A secura do deserto contribuiu para a preservação dos objetos, que permitem afirmar com certeza algumas poucas coisas sobre o passado esquecido dessa população. "Era uma sociedade hierarquizada, de elites expansionistas, que fazia capturas, decapitações e guerras", diz Santos. "Redes políticas absorviam outras cidades, formando grandes confederações. A cerâmica mochica se espalha por uma região bastante ampla. Era objeto de comercialização e influência, exportada e copiada em outras localidades. Assim, sabemos que houve uma expansão mochica, combinando trocas comerciais e ações bélicas, que abrangeu uma grande região (veja o mapa à esq.) e depois entrou em decadência."

Os governantes eram considerados semideuses. Quando havia cerimônias, os servos espalhavam sulfato de mercúrio no chão para que não pisassem diretamente no solo. Sempre acompanhado de um militar (que ia com ele até para a tumba), o monarca portava uma coroa, o cetro do poder e uma narigueira de ouro. A sociedade era extremamente hierarquizada - pinturas corporais representavam o estado social e o clã do indivíduo. Abaixo do rei, encontravam-se os sacerdotes e depois os chefes militares, os nobres, os artesãos e os pescadores, sucessivamente.

Um cetro de madeira de 5 kg, recoberto com cobre, era a principal arma (por causa dele, abundam crânios com fraturas profundas nos jazigos locais). Desde a infância, os guerreiros eram iniciados em ritos decisivos para seu futuro. Uma corrida marcava a chegada da maturidade. O vencedor passava era incorporado à guarda pessoal do governante.

A cerâmica com estilo mochica foi incorporada, entre outros povos, pelos incas. As mais famosas são as que reproduzem o ato sexual e os objetos fálicos, que suscitam todo tipo de interpretação - como a de que os mochicas celebravam, por meio do artesatano, o milagre da vida. Mas isso é apenas uma suspeita.

Mochicas

Sacrifícios e fim

Os mochicas praticavam sacrifícios humanos. Nos rituais, virgens atiravam-se no abismo sob o efeito de um cacto alucinógeno conhecido hoje por "são pedro". Os prisioneiros de guerra eram as vítimas preferenciais do decapitador, que aparece desenhado em muitas vasilhas e era um semideus. Sacrifícios (com direito a goles de sangue do escolhido) podem ser explicados de forma simples entre os mochicas. Como ocorreu em toda a América pré-hispânica, são mecanismos de coerção e poder. Serviam para que a elite garantisse sua hegemonia. Na cultura mochica, os rituais também eram úteis para agradar aos deuses e manter o equilíbrio do mundo.

Só que o mundo mochica começou a ruir por volta do ano 500. Nunca se soube bem por que até 1955, quando o arqueólogo Steve Bourget encontrou na Huaca de la Luna milhares de ossos enterrados no lodo. Ele percebeu, em função do lodo, que ocorreram sacrifícios em época de chuva abundante. Mas a chuva, até hoje, é coisa rara no litoral. A pista para desvendar o mistério veio dos Andes. Por meio da observação de glaciares, constatou-se que a costa sofreu, entre 560 e 650, uma mudança climática atroz causada por um fenômeno que até hoje assola o continente americano: o El Niño. Foram 30 anos de inundação na costa, seguidos de 30 anos de seca. E, aparentemente, mais 30 anos de guerra civil em virtude dos recursos escassos. Ninguém mais queria ser sacrificado, duvidando da eficiência dos rituais. Os deuses deram provas em demasia de uma ira que parecia não terminar jamais. Até uma sociedade moderna teria sucumbido.

Júlia Priolli

Fonte: guiadoestudante.abril.com.br

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