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O Presidente Negro

 

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Monteiro Lobato

CAPITULO I - O Desastre

Achava-me um dia diante dos guichês do London Bank á espera de que o pagador gritasse a minha chapa, quando vi a cochilar num banco ao fundo certo corretor de negócios meu conhecido. Fui-me a ele, alegre da oportunidade de iludir o fastio da espera com uns dedos de prosa amiga.

— Esperando sua horinha, hein? disse-lhe com um tapa amigável no ombro, enquanto me sentava ao seu lado.

— É verdade. Espero pacientemente que me cantem o numero, e enquanto espero filosofo sobre os males que traz á vida a deshonestidade dos homens.

— ? — Sim, porque se não fosse a deshonestidade dos homens tudo se simplificaria grandemente. Esta demora no pagamento do mais simples cheque, donde provém? Da necessidade de controle em vista dos artifícios da deshonestidade. Fossem todos os homens sérios, não houvesse hipotese de falsificações ou abusos, e o recebimento de um dinheiro far-se-ia instantaneo. Ponho-me ás vezes a imaginar como seriam as coisas cá na terra se um sabio eugenismo désse combate á deshonestidade por meio da completa eliminação dos deshonestos.

Que paraíso! — Tem razão, concordei eu, com os olhos parados de quem pela primeira vez reflete uma ideia. A vida é complicada, existem leis, polícia, embaraços de toda especie, burocracia e mil peia?, tudo porque a deshonestidade nas relações humanas constitue, como dizes, um elemento constante. Mas é mal sem remedio...

E por aí fomos, no filosofar vadio de quem não possue coisa melhor a fazer e apenas procura matar o tempo. Passamos depois a analisar varios tipos ali presentes, ou que entravam e saíam, na azafama peculiar aos negocios bancarios. O meu amigo, frequentador que era dos bancos, conhecia muitos deles e foi-me enumerando particularidades curiosas relativas a cada qual. Nisto entrou um velho de aparencia distinta, já um tanto dobrado pelos anos.

— E aquele velho que ali vem? perguntei.

— Oh! Aquele é um caso sério. O professor Benson, nunca ouviu falar? — Benson... Esse nome me é desconhecido.

— Pois o professor Benson é um homem misterioso que passa a vida no fundo dos laboratorios, talvez á procura da pedra filosofal.

Sabio em ciencias naturais e sabio ainda em finanças, coisa ao meu ver muito mais importante. E tão sabio que jamais perde.

Dou-me com esses rapazes todos que trabalham nas seções de cambio e por eles sei deste homem coisas impressionantes. Benson joga no cambio, mas com tal segurança que não perde.

— Sorte! — Não é bem sorte. A sorte caracteriza-se por um afluxo de paradas felizes, por uma media mais alta de lucro do que de perda.

Mas Benson não perde nunca.

— Será possível? — É mais que possível, é fato. Deve possuir hoje enorme fortuna.

Mora em um complicado castelo lá dos lados de Friburgo, mas não cultiva relações sociais. Não tem amigos, ninguem ainda viu o interior do casarão onde vive em companhia de uma filha, servido por criados mudos, ao que dizem. Você sabe que depois da guerra o mundo inteiro jogou no marco alemão.

— Sei, sim, e fui uma das vitimas...

— Pois o mundo inteiro perdeu, menos ele.

— Absurdo! Só se fabricava marcos para vender.

— Ao contrario, comprava e revendia marcos já feitos. O marco, talvez você se lembre, teve em certo periodo uma oscilação de alta.

Renasceram as esperanças dos jogadores e o movimento de compras foi enorme. Benson vendeu nessa ocasião. Logo em seguida começou o marco desandar até zero e para nunca mais se erguer.

— Vendeu no momento exato, como quem sabe qual o momento exato de vender...

— Isso mesmo. Com o franco fez coisa identica. Comprou exatamente nos dias de maior baixa e vendeu exatamente nos dias de maior alta. Tem ganho o que quer ganhar, o raio do homenzinho...

— E para que necessita de tanto dinheiro? — Ignoro. Não leva a vida comum dos nossos ricaços, não dá festas, não consta que seja explorado por mulheres. É positivamente misterioso o professor Benson — um verdadeiro magico que vê através do futuro.

Ri-me da expressão do meu amigo e qual filosofo barato murmurei com superioridade: — Como pode ver através do que não existe? O futuro não existe...

O corretor respondeu-me com uma frase que naquele momento não compreendi: — Não existe, sim, mas vai existir necessariamente.

— Dois mais dois — é o presente. A soma quatro é o futuro.

Um futuro previsível...

— "Vinte e dois!" gritou uma voz da pagadoria.

Era o meu numero.

— Dois mais dois tambem podem ser vinte e dois, gracejei eu, despedindo-me do filosofo. Adeus, meu caro. Na proxima oportunidade você continuará com a demonstração.

Recebi o dinheiro e saí para o torvelinho das ruas, onde breve se me apagou do cerebro a impressão do professor Benson e das palavras do meu amigo.

Mas dá a vida misteriosas voltas e um belo dia, ao despertar de um sono letargico, quem vi eu diante dos meus olhos, qual um espetro? O professor Benson!...

Não antecipemos, porém; e antes de mais nada permitam-me que fale um bocado da minha pessoa.

Era eu um pobre diabo para toda gente, exceto para mim mesmo. Para mim tinha-me na conta de centro do universo. Penso e sou, dizia comigo, repetindo certo filosofo francês. Tudo gira em redor do meu ser. No dia em que eu deixar de pensar, o mundo acaba-se.

Mas isto parece que não tinha grande originalidade, pois todos os meus conhecidos se julgavam da mesma forma.

Eu vivia do meu trabalho, recebendo dele, não o produto, mas uma pequena quota, o necessario para pagar o quarto onde morava, a pensão onde comia e a roupa que vestia. Quem propriamente se gozava do meu trabalho era a dupla Sá, Pato & Cia., gordos e solidos negociantes que me enterneciam a alma nas epocas de balanço ao concederem-me a pequena gratificação constituidora do meu lucro. Com eles trabalhei varios anos, conseguindo reunir o modesto peculio que transformei em marcos e, com grande dor d'alma, vi se reduzirem a zero absoluto, apesar da teoria de que tudo é relativo.

Continuei no trabalho por mais quatro anos, daí por diante já curado de jogatinas e megalomanias.

Mas todos nós possuímos um ideal na vida. Meu amigo corretor sonha dirigir a carteira cambial de um banco. Aquele pobre que ali passa, tocando o realejo que herdou do pai e ao qual faltam tres notas, sonha com um realejo novo em que não falte nota nenhuma.

Eu sonhava... com um automovel. Meu Deus! As noites que passei pensando nisso, vendo-me no volante, de olhar firme para a frente, fazendo, a berros de klaxon, disparar do meu caminho os pobres e assustadiços pedestres! Como tal sonho me enchia a imaginação! Meu serviço na casa era todo de rua, recebimentos, pagamentos, comissões de toda especie. De modo que posso dizer que morava na rua, e o mundo para mim não passava de uma rua a dar uma porção de voltas em torno da terra. Ora, na rua eu via a humanidade dividida em duas castas, pedestres e rodantes, como os batizei aos homens comuns e aos que circulavam sobre quatro pneus. O pedestre, casta em que nasci e em que vivi até aos 26 anos, era um ser inquieto, de pouco rendimento, forçado a gastar a sola das botinas, a suar em bicas nos dias quentes, a molhar-se nos dias de chuva e a operar prodígios para não ser amarrotado pelo orgulhoso e impassível rodante, o homem superior que não anda, mas desliza veloz. Quantas vezes não parei nas calçadas para gozar o espetaculo do formigamento dos meus irmãos pedestres, a abrirem alas inquietas á Cadillac arrogante que por eles se metia, a reluzir esmaltes e metais! O ronco de porco do klaxon parecia-me dizer — "Arreda canalha!" Sonhei, portanto, mudar de casta e por minha vez levar os pedestres a abrirem-me alas, sob pena de esmagamento. E o novo peculio, com tanto esforço acumulado depois do desastre germanico, não visava outra coisa. Foi, pois, com o maior enlevo d'alma que entrei certa manhã numa agencia e comprei a maquina que me mudaria a situação social. Um Ford.

Os efeitos dessa compra foram decisivos na minha vida. Ao veremme chegar ao escritorio fonfonando, os patrões abriram as maiores bocas que ainda lhes vi e vacilaram entre porem-me no olho da rua ou dobrarem--me o ordenado. Por fim dobraram-me o ordenado, quando demonstrei o quanto lhes aumentaria o renome da firma o terem um auxiliar possuidor de automovel proprio. E tudo correria pelo melhor, no melhor dos mundos possíveis, se eu me não excedesse na furia de fordizar a todo o transe com o fito de embasbacar pedestres. A paixão da carreira grelara em mim e, depois de um mês, já não contente com a velocidade desenvolvida por aquele carro, pus-me a sonhar a aquisição de outro, que chispasse cem quilometros por hora. O aumento de ordenado permitiu-me varias excursões de maluco, nas quais me embriagava aos domingos da delicia de devorar quilometros.

Paguei diversas multas, matei meia duzia de cães e cheguei a atropelar um pobre surdo que não atendera ao meu insolente "Arreda!" Tornou-se-me o pedestre uma criatura odiosa, embaraçadora do meu direito á rapidez e á linha reta. Pensei até em representar ao governo, sugerindo uma lei que proibisse a semelhantes trambolhos semoventes o transito pelas vias asfaltadas. Adquiri, em suma, a mentalidade dos rodantes, passando a desprezar o pedestre como coisa vil e de somenos importancia na vida.

Por essa epoca um dos meus patrões encarregou-me de liquidar pessoalmente certo negocio com um freguês morador perto de Friburgo.

Muito facil me seria lá ir de trem, mas um rodante da minha marca sorria dos trens. Fui no meu auto, apesar das ruins informações que me deram do caminho. Meti boa reserva de gasolina e atirei-me qual um doido por estradas de tropa em que, suponho, nenhum automovel ainda se arriscara a passar. Numerosos contratempos sofri nessa minha "viagem a Damasco", mas mesmo assim tudo acabaria sem novidade se a estrada infame não desembocasse de improviso numa otima, recem-feita e tão bem conservada como a melhor das pistas de corrida. Mal me vi naquele setimo céu de macadame, dei toda a força á maquina e desforrei-me da lentidão de até ali com uma chispada a 60 por hora, o maximo que o meu fordinho permitia.

A região que eu atravessava era de maravilhosa beleza. Serras azues ao longe, quais muralhas de safira a sopesarem um céu de cobalto. Dia de limpidez absoluta. Paisagem das que vibram de nitidez. Desafeito aos formosos quadros da natureza, distrai-me com a novidade do espetaculo e... cataprus!

Dormi um longo sono. Quando acordei achava-me num quarto desconhecido, tendo na minha frente... o velho jogador de cambio que eu vira no banco — o professor Benson! Grande foi a minha surpresa, e ainda maior seria se uma forte dor no meu braço direito me permitisse pensar em alguma coisa além da lesão sofrida nesse apendice do eixo central do universo.

— Onde estou? murmurei, olhando muito espantado para o professor Benson.

— Em minha casa, respondeu ele. Um dos meus homens o encontrou sem sentidos no fundo de um despenhadeiro, ao lado de um Ford em pandarecos.

— O meu Ford em pandarecos! Desgraçado que sou... gemi.

A dor do braço ofendido era grande, mas a minha dor moral muito maior. Creio até que entre perder o carro e perder um braço eu não vacilaria na escolha. Custara-me tanto consegui-lo... E, além do mais, dada a psicologia dos meus patrões, o certo era reduzirem-me o ordenado, já que eu voltaria a servi-los a pé como outrora...

Tão negra noticia me sombreou de crepes a alma. Não podia conformar-me com o desastre. Delirei. Soube mais tarde, pelo professor, que nesse delírio uma obsessão unica transparecia: o desespero ante o meu retorno á miseravel casta dos pedestres...

Mas tudo passa. A dor do braço foi atenuando e a dor moral acompanhou-a nesse amortecimento, de modo que pude erguer-me da cama ao cabo de quinze ou vinte dias.

Vi então desenhar-se na minha frente um problema terrível.

Davam-me alta em breve e, não havendo mais razão para permanecer naquela casa estranha, forçoso me seria regressar á cidade. E teria de me apresentar diante dos senhores Sá, Pato & Cia. a pé, murcho, resignado ás suas pilherias e á logica redução de salario. Revoltado, deliberei mudar de vida. Quando na manhã seguinte o professor Benson me apareceu no quarto, abri-me com ele.

— Professor, não sei como agradecer o bem que me fez!...

— Fiz o meu dever apenas, declarou com simplicidade o velho.

— Salvou-me a vida, professor. Não fosse a sua preciosa assistencia e o provavel era estar eu agora esvoaçando pelo outro mundo, como froco de paina psíquica. Minha gratidão é imensa. Mas seria infinita se o professor me ajudasse a resolver o problema muito serio que vejo armar-se diante de mim.

— Diga qual é. Já resolvi diversos, tidos como insoluveis, e serme- ia grato resolver mais um...

Animado pela bonomia do velho, abri meu coração. Contei-lhe a mediocridade da minha vida, os meus esforços para juntar o peculio empatado no automovel, a transformação que as quatro rodas me operaram na mentalidade e o horror com que via agora o forçado regresso ao pedestrianismo.

— O professor é opulento e pelo que vejo possue uma grande e linda propriedade. Precisará, portanto, de homens que trabalhem nela. Eu não queria sair daqui. Arranje-me uma ocupação qualquer, seja lá qual for. Tenho algumas aptidões e, como a boa vontade é grande, para isto ou aquilo sempre hei de servir. O que não desejo é voltar á cidade e ter de apresentar-me, assim decaído, ante os meus truculentos patrões...

O professor Benson pareceu meditar. Tirou do nariz os oculos de ouro, limpou-lhes os vidros num lenço de linho e depois disse: — Não necessito aqui de ninguem. Possuo o numero de criados estritamente precisos para conservação desta propriedade e nela não vejo função que o amigo possa desempenhar. E não o admitiria em hipotese alguma, se de dias a esta parte não sentisse cá no coração prenuncios de que minha vida está no fim. Isto me faz sair da política que tenho levado até hoje e aceita-lo em minha companhia como... confidente.

— Confidente?... repeti, sem compreender o alcance da expressão.

— Sim, confidente. Aproveito-me do acaso te-lo trazido ao meu encontro para confiar-lhe a historia da minha vida. Mas desde já dou um conselho: guarde segredo de tudo, depois que eu morrer. Não que seja caso de segredo, mas vai o amigo ouvir e ver coisas tão extraordinarias que, se o for contar lá fora, o agarram e o metem no hospício como doido varrido. Digo que guarde segredo para seu bem apenas. Agora saia. Dê pelos campos o seu primeiro passeio de convalescente e antes do almoço procure-me no gabinete.

Findo o discurso o professor premiu o botão duma campainha.

Sem demora vi surgir um criado.

— Acompanhe este moço num passeio pelos arredores e Se volta conduza-mo ao gabinete.

CAPITULO II - A Minha Aurora

Pela primeira vez depois de recolhido áquela mansão punha eu o nariz fora do meu quarto de doente.

Senti-me surpreso. A casa do professor Benson não era ao tipo da casa vulgar. Dava antes ideia de uma especie de castelo, não pelo estilo, que não lembrava nenhum dos castelos classicos que eu vira reproduzidos em cartões postais, mas pela massa e o estranho da construção. Olhei para aquilo com marcado espanto. Além do corpo fronteiro, evidentemente moradia familiar, erguiam-se pavilhões, galerias envidraçadas e varios minaretes altíssimos, ou, melhor, torres de ferro enxadrezado, entretecidas de fios de arame.

— Que diabo de casa é esta? perguntei ao criado, voltando-me para ele.

O criado, um tipo de misterioso aspecto e mais com ar de automato do que de gente, permaneceu imovel atrás de mim, sem mostras de ter ouvido.

Repeti-lhe a pergunta, e nada. Lembrei-me então da minha conversa com o corretor, quando me deu informes sobre o sabio Benson e contou que vivia misteriosamente, servido por criados mudos. Sem duvida era aquele um dos tais. Isto fez-me estremecer. O pouco que eu vira já me provara não ser o morador do castelo um homem comum — e o viver servido por mudos inda mais me aguçava a ponta do enigma.

Prossegui, entretanto, no meu passeio, conformado em faze-lo cm silencio, uma vez que o mutismo era a senha da casa.

Em redor do castelo estendiam-se campos e florestas. Região montanhosa mas de relevo suave, cochilas mansas que ao longe ganhavam corpo até se erguerem na morraria de um dos contrafortes da serra do Mar. Nos vales, belos capões de mata virgem; e nas lombas, um tapete de gramineas crioulas, naquela epoca revestidas de florinhas roseas.

Notei logo que a natureza não era ali trabalhada. Tudo vivia em estado selvagem, sem sombra de intervenção humana além da impressa nos caminhos. Nem gado nas pastagens, nem sombras de cultura — porteiras ou cercas. Um pedaço de natureza virgem onde o homem só abriria passagens que lhe dessem o gozo das perspectivas naturais.

Compreendi que não estava numa fazenda. Homem de posses, o professor Benson teria aquilo apenas para recreio dos sentidos, sem o menor recurso ás possibilidades do solo. Unicamente em redor da casa havia algo beneficiado: belo jardim todo garrido de rosas; aos fundos, o pomar.

Caminhei por espaço de meia hora e, no alto de uma colina, sentei-me no topo de um cupim para admirar a vista soberba dali descortinada. Impressionava estranhamente aquele castelo de inexplicavel arquitetura, em meio duma natureza rude e calma, onde só uma ou outra ave silvestre rompia o silencio com o seu piar.

Afeito ao meu viver de cidade, no tumulto das ruas, aquele silencio e aquela solidão punham-me novidades n'alma. Senti no cerebro um referver de ideias novas, a sairem da casca que nem pintos.

A impressão geral que tive diante da natureza liberta da presença e ação do homem, coisa que via pela primeira vez, foi da minha absoluta nihilidade — da nihilidade absoluta dos meus patrões, naquele momento a se esbofarem no escritorio e a maldizerem do empregado desaparecido sem licença. — Para eles era eu o empregado — e tambem vinte dias antes eu me considerava apenas um empregado, isto é, humilde peça da maquina de ganhar dinheiro que os senhores Sá, Pato & Cia. houveram por bem montar dentro de uma certa aglomeração humana. Mas ali não me via empregado de ninguem; era um ser igual ás ervas que esverdeciam as colinas, ás arvores que frondejavam nas grotas e ás aves que piavam nas moitas. Sentia-me deliciosamente integrado na natureza.

Minha loquela desaparecera. A necessidade de falar a todo o transe, tamanha que me fazia ás vezes falar sozinho, se substituira pela necessidade do silencio. Cheguei a agradecer a finura do velho sabio em dar-me um companheiro mudo, compreendendo que, se em vez dele ali estivesse o meu barbeiro, terrível altofalante de futebol e jogo de bicho, bem certo que eu chegaria ao extremo de amordaça-lo.

Talvez até nem fosse mudo de nascença o criado, mas apenas emudecido por influição local. Comigo vi que tambem emudeceria, se permanecesse algum tempo naquele deserto.

O ar livre abriu-me o apetite e o apetite aberto fez-me lembrar do almoço e da ordem de aparecer antes dele no gabinete do professor Benson. Tratei de voltar — e ao pôr pé no castelo já me sentia bem outro homem, varrido das preocupações de outrora e absolutamente exonerado, por incompatibilidade psicologica, das funções de factotum cronico dos senhores Sá, Pato & Cia.

CAPITULO III - O Capitão Nemo

Quando o criado me fez entrar no gabinete do doutor Benson o velho não se achava ali. Aproveitei o ensejo para correr os olhos pelas paredes e admirar, ou antes, embasbacar-me com as estranhas coisas que via. Devo dizer que não compreendi nada de nada.

Conhecia o gabinete de trabalho dos meus patrões e o de muitos outros negociantes. Tambem conhecia consultorios medicos, salas de advogado, salões de hotel, e facilmente tomava pé num deles. Os moveis, os quadros das paredes, os objetos de cima de mesa, os bibelôs, as estatuetas, essas coisas todas me valiam por marcas digitais das que revelam a profissão do dono. No gabinete do professor Benson, porém, tudo me era desnorteante e, fora as poltronas, nas quais o corpo afundava, como nas do Derby Club, onde estive uma vez á procura dum figurão, tudo mais me valia por citações em caracteres chineses numa pagina em lingua materna. Pelas paredes, quadros — não quadros comuns com pinturas ou retratos, mas quadros de marmore, como os das usinas eletricas, inçados de botõezinhos de ebonite. E reentrancias, afunilamentos que se metiam pelos muros como cornetas de gramofone, lampadas eletricas dos mais estranhos aspectos, grupos de fios que vinham aos quatro, aos cinco, aos vinte e de repente se sumiam pelo muro a dentro.

Todavia, o que mais me prendeu a atenção foi, ao lado da secretária do professor, um enorme globo de cristal, e sobre ela, apontado para o globo, um curioso instrumento de olhar, ou que me pareceu tal por uma vaga semelhança com o microscopio.

Eu lera em criança um romance de Julio Verne, Vinte Mil Leguas Submarinas, e aquele gabinete misterioso logo me evocou varias gravuras representando os aposentos reservados do capitão Nemo.

Lembrei-me tambem do professor Aronnax e senti-me na sua posição ao ver-se prisioneiro no "Nautilus".

Nesse momento uma porta se abriu e o professor Benson entrou.

— Bom dia, meu caro senhor... Seu nome? Ainda não sei o seu nome.

— Ayrton Lobo, ex-empregado da firma Sá, Pato & Cia., respondi, fazendo uma reverencia de cabeça e carregando no ex com infinito prazer.

— Muito bem, disse o professor. Queira sentar-se e ouvir-me.

O habito de sempre falar de pé aos ex-patrões impediu-me de cumprir a primeira ordem dada pelo meu novo chefe, e vacilei uns instantes, permanecendo perfilado. O professor Benson compreendeu a minha atitude; pos-me a mão no ombro e, paternalmente, murmurou na sua voz cansada: — Sente-se. Não creia que o vou reter aqui como a um subalterno. Disse que iria ser o meu confidente e os confidentes não se equiparam aos homens de serviço. Sente-se e conversemos.

Sentei-me sem mais embaraço, porque o tom do misterioso velho era na realidade cordial.

— O senhor Ayrton, pelo que vejo e adivinho, é um inocente, começou ele. Chamo inocente ao homem comum, de educação mediana e pouco penetrado nos segredos da natureza. Empregado no comercio: quer dizer que não teve estudos.

— Estudos ligeiros, ginasiais apenas, expliquei com modestia.

— Isso e nada é o mesmo. Eu preferia ter para confidente um sabio ou, melhor, uma organização de sabio, inteligencia de escol, das que compreendem. Em regra, o homem é um bipede incompreensivo.

Alimenta-se de ideias feitas e desnorteia diante do novo. Mas costumo respeitar as injunções do Acaso. Ele o trouxe ao meu encontro, seja pois o meu confidente. E saiba, senhor Ayrton, que é a primeira criatura humana aqui entrada desde que conclui a construção deste laboratorio.

— O castelo, quer dizer? — Sim, o castelo, como romanticamente lhe apraz chamar esta oficina de estudos onde realizei a mais extraordinaria descoberta de todos os tempos.

Sem querer dei um recuo na poltrona, pensando logo na pedra filosofal e no elixir da longa vida.

— Não se assuste, nem arregale, dessa maneira, os olhos. Nem tente adivinhar o que é. Saiba apenas que se acha diante de um homem condenado a levar consigo ao tumulo o seu invento, porque esse invento excede á capacidade humana de adaptação ás descobertas.

Se eu o divulgasse, pobre humanidade! Seria impossível prever a soma de consequencias que isso determinaria. Se houvesse, ou antes, se predominasse no homem o bom senso, a inteligencia superior, as qualidades nobres em suma, sem medo eu atiraria á divulgação a minha maravilhosa descoberta. Mas sendo o homem como é, vicioso e mau, com um pendor irredutível para o despotismo, não posso deixar entre eles tão perigosa arma.

— Quer dizer, atrevi-me a murmurar, que se o doutor quisesse...

— Se eu quisesse, interrompeu-me o velho sabio, tornar-me-ia o senhor do mundo, pois me vejo armado de uma potencia que até hoje os místicos julgaram atributo exclusivo da divindade.

Dei novo recuo na cadeira, desta vez meio na duvida se falava com um somem sadio dos miolos ou com um maluco. O ar sempre sereno do professor Benson acomodou-me, porém.

— Mas não quero. A dominação sobre o mundo não me daria prazeres maiores que os que gozo. Não me faria ver mais azul e límpida aquela serra, nem respirar com mais prazer este ar puro, nem ouvir melhor musica que a do sabiá que todas as tardes canta numa das laranjeiras do pomar. Além disso, estou velho, tenho os dias contados e nada do que é do mundo consegue interessar-me. Vivi demais, satisfiz demais a minha outrora insaciavel, mas hoje saciada, curiosidade de sabio. Só aspiro a morrer sem dor e desfazer-me na vida do universo transfeito em atomos. Quem sabe se cada um desses atomos não levará consigo a capacidade de gozo que ha em mim, e se com esse desdobramento não elevo ao extremo as minhas possibilidades?...

Não compreendi muito bem, lento que sou de espirito, a alta filosofia do professor; mas calei-me, cheio de admiração pelo homem que podendo ser imperador, presidente de republica, rei do aço, sultão ou o que lhe desse na telha, visto que podia tudo, contentavase com ser um misterioso velhinho ignorado do mundo e á espera da morte naquele sereno recanto da natureza.

Nisto um criado surgiu á porta e fez sinal.

— Vamos ao almoço, senhor, Ayrton. Depois continuarei nas minhas confidencias, disse-me o professor erguendo-se com dificuldade da poltrona.

CAPITULO IV - Miss Jane

Na sala de almoço tive uma nova surpresa. Estava lá, e recebeunos com gentil sorriso, a mais encantadora criatura que meus olhos ainda viram.

— Minha filha Jane, apresentou-ma o velho.

Como eu esperava tudo, menos encontrar ali uma figura feminina, atrapalhei-me e gaguejei, visto que sou timido diante das mulheres formosas. Já com as feias, ou velhas, sinto-me desembaraçadíssimo. Mas cabelos louros como aqueles, olhos azues como aqueles, esbelteza e elegancia de porte como as de miss Jane, eram ingredientes fortes demais para que não produzissem a ruptura do meu equilíbrio nervoso. Gaguejei, já disse, e fui logo tropeçando num pé de cadeira, o que muito me vexou, embora não fizesse rir á moça.

Esta contensão de sua parte provou-me que eu estava diante de uma criatura finamente educada e generosa.

Correu sem incidentes o almoço, e nada vi nele de misterioso.

Pratos simples, servidos em baixela fina, tudo despido dos excessos que caracterizam a mesa dos ricaços amigos de nas menores coisas exibirem o seu dinheiro.

Miss Jane falou ao pai de tres filhotes de pintassilgos que encontrara no pomar, num ninho feito de raízes de capim.

— Gosta de passaros, senhor Ayrton? perguntou-me num gracioso sorriso.

Confesso que eu até ignorava a existencia de passaros no mundo.

A minha vida de cidade, no corre-corre das ruas desde menino, sem nunca umas férias passadas no campo, impedia-me de prestar atenção a essas vidinhas aladas, que constituem um dos enlevos dos contemplativos.

— Gosto, sim, senhora, respondi eu, se bem que em materia de passaros só me lembre dum periquito vitima duma menina filha lá da firma.

— Pois aprenderá aqui a adora-los. O sabiá que todas as tardes canta numa das laranjeiras do pomar, com certeza já lhe atraiu a atenção. Temos tambem varios outros amiguinhos que de lá não saem, pintassilgos, sanhaços, rolinhas, sairas...

— O senhor Ayrton, interveio o professor, vai ficar aqui conosco.

Tem muito que ouvir e aprender. Vou revelar-lhe os segredos da natureza, e tu, Jane, lhe revelarás a poesia. Estes homens da cidade têm a visão muito restrita; o mundo para eles se resume na rua, nas casas marginais e no torvelinho humano.

— Realmente, professor. A impressão que tive hoje durante o meu passeio pelo campo abriu-me a alma. Verifiquei que o mundo não é só a cidade, e que o centro do universo não é a firma Sá, Pato & Cia., como toda vida supus.

— O mundo, meu caro, é um imenso livro de maravilhas. A parte que o homem já leu chama-se passado; o presente é a pagina em que está aberto o livro; o futuro são as paginas ainda por cortar. E a uma criatura que nem conhece a pagina aberta ante os olhos, como o senhor, vou eu revelar o que a ninguém ainda foi revelado: algumas futuras! Olhei para o professor Benson com ar palerma, porque sempre me apalermava o que ele dizia. Tinha o sabio uma linguagem nova para mim, da qual eu apreendia apenas o sentimento formal, não o sentido intimo. Animei-me, entretanto, a uma frase: — Miss Jane com certeza conhece também essas paginas futuras.

— Sim, eu e ela, respondeu o professor. Só nós dois, no mundo inteiro e desde que o mundo é mundo, gozamos deste privilegio maravilhoso. Enviuvei muito cedo e minha família está hoje reduzida a Jane. É a minha companheira de analises dos cortes anatomicos do futuro.

"Cortes anatomicos do futuro"... A expressão soou-me como outrora a do senhor Sá quando pela primeira vez me falou em 'lançamento por partidas dobradas", coisa que hoje não ignoro mas que na epoca me valeu por um "corte anatomico".

Nesse ponto do almoço fez-se notar certa zoada distante vinda não sabia eu de onde.

— Deixaste o cronizador aberto, Jane? — Sim, meu pai. Deixei-o em marcha para 410 anos de hoje, focalizado para 80.° de latitude N. e 40 de longitude. Experiencia ao acaso, pois nem verifiquei onde fica esse ponto.

— Groenlandia. O corte não revelará coisa nenhuma, suponho.

Não creio que em 410 anos as condições do mundo se alterem a ponto de haver lá outra vida alem da dos esquimós, ursos e focas.

— Em todo o caso vejamos, disse a moça. Temos tido tantas surpresas...

— Minha filha, senhor Ayrton, possue mais frieza de sabio do que eu. Não perde tempo em formular hipoteses quando tem ao alcance meios de verificar experimentalmente.

Ri-me. Acho que a melhor maneira de figurar numa roda onde se falam coisas acima da nossa compreensão é sorrir para o interlocutor que nos dirige a palavra. Se o riso não engana a ele, engana-nos a nós e livra-nos de uma replica verbal, que sai asneira infalivelmente. De todo o dialogo da filha com o pai só me evocou uma imagem já classificada em meu cerebro a palavra Groenlandia.

Lembrei-me dos meus tempos de geografia e da impressão que me causara a descrição da Terra Verde, ou Groenlandia, feita pelo meu barbudo professor Maneco Lopes. E por associação me vieram á mente ursos brancos, focas, leões marinhos, pinguins, esquimós.

Querendo contribuir com uma nota para a conversa, e fingindo entender o que eles haviam dito, arrisquei: — Não ha duvida, a Groenlandia é um caso sério. Uma piririca! Foi a vez do professor Benson franzir os sobrolhos no gesto classico da incompreensão. Vi que aquele homem, que sabia tudo e lia o futuro, ignorava alguma coisa do presente — a gíria da cidade, e firmeime na resolução de dar com a giria em cima dele para ve-lo refranzir a testa muitas vezes.

— Que? indagou o velho sabio.

— Sim, expliquei eu sem erguer os olhos para miss Jane com medo de desnortear. A Groelandia é um caso, um numero. Quanto o pinguim cisma p'ra cima do peixe e o urso gréla a foca...

Mas o professor Benson cortou-me as vazas.

— Não refletiu nunca, meu caro senhor Ayrton, na oportunidade do silencio? O silencio é sabio, é uma das mais altas formas da sabedoria. Foi silenciando que Jesus deu ao "Que é a verdade?" de Pilatos a unica resposta acertada...

— Papai, interveio a moça evidentemente apiedada da minha situação, está aí uma experiencia que ainda não fizemos! Involuir a corrente e operar um corte no ano 33, a ver se apanhamos essa cena historica...

— Realmente é uma ideia, minha filha, e mais curiosa do que o exame da Groenlandia, onde, como diz cá o amigo, o urso gréla a foca...

CAPITULO V - Tudo Eter que Vibra

Saí daquele almoço com as ideias mais desnorteadas do que nunca. Um elemento novo contribuía para isso; miss Jane, criatura singularmente perturbadora, pois, além de agir sobre meus fragilimos nervos como todas as moças bonitas, ainda me tonteava com a sua mentalidade de sabio. De tudo quanto a jovem disse só me ficou claro no espirito a historia dos passarinhos do pomar. Até ali pareceu-me uma criatura tal as outras, mas depois do "corte anatomico" tudo se complicou e passei a ve-la qual um misterioso idolo de divindade dupla, mixto de Afrodite e Minerva.

Depois do almoço levou-me o professor a ver os laboratorios.

Atravessei numerosas salas e pavilhões cuja composição entendi menos que a do gabinete. Quanta maquina esquisita, tubos de cristal, ampolas, pilhas eletricas, bobinas, dínamos — extravagancias de sabio! Eu conhecia varias oficinas mecanicas, mas nelas nunca me tonteava. Tornos, maquinas de cortar e furar, bigornas, martelos automaticos, laminadores, fresas, tudo isso eu via e compreendia, pois apesar de complicados na aparencia evidenciavam logo uma função esclarecedora. Mas ali, santo Deus! Que caos! Não consegui entender coisa nenhuma e mesmo depois que o velho sabio mas explicou manda a verdade confessar que fiquei na mesma.

Isto aqui, disse ele na primeira sala, são aparelhos eletro-radioquimicos, na maioria criados ou adaptados por mim e que constituíram o ponto de partida da minha descoberta. Se o amigo Ayrton fosse tecnico, eu os explicaria um por um, mas será difícil fazerme entender por quem não possue uma solida base de ideias cientificas. Resumirei dizendo que neste velho laboratorio consumi os trinta anos da minha mocidade em pesquisas pacientíssimas, culminantes na construção daquela antena que o amigo lá vê no alto da torre.

Olhei e vi uns fios entrecruzados formando um desenho geometrico.

— Parece uma teia de aranha! murmurei.

— E é de fato uma teia de aranha. A aranha sou eu. Com essa teia apanho a vibração atomica do momento.

— "Vibração atomica do momento"... repeti, fazendo um furioso esforço mental para compreender a novidade.

— Sim. A vida na terra é um movimento de vibração do eter, do atomo, do que quer que seja uno e primario, entende? — Estou quasi entendendo. Já li um artigo no jornal onde um sabio provava que só ha força e materia, mas que a materia é força, de modo que os dois elementos são um, como os tres da Santíssima Trindade tambem são um, não é isso? — Mais ou menos. Nomes não vêm ao caso. Força, eter, atomo: denominações arbitrarias de uma coisa una que é o principio, o meio e o fim de tudo. Por comodidade chamarei eter a esse elemento primario. Esse eter vibra e, conforme o grau ou intensidade da vibração, apresenta-se-nos sob formas. A vida, a pedra, a luz, o ar, as arvores, os peixes, a sua pessoa, a firma Sá, Pato & Cia.: modalidades da vibração do eter. Tudo isso foi, é e será apenas eter.

Não pude deixar de sorrir lembrando-me da cara que fariam os senhores Sá, Pato & Cia. se ouvissem as palavras do sabio. Eter, eles...

— Mas não ha somente eter no mundo, continuou o mestre.

Se só houvesse eter e fosse de sua essencia vibrar, a vibração seria uniforme e tornaria impossível a manifestação de formas de vida.

Seria o estatismo eterno.

— Sei, um zum-zum, uma zoada de não acabar mais.

— Muito bem, está compreendendo. A vibração do eter, pois, sofreu a interferencia... Sabe o que é interferencia? — Uma coisa que se insinua pelo meio; intrometer a colher torta na conversa dos mais velhos deve ser, cientificamente, uma interferencia.

— Perfeitamente. Sofreu a interferencia do que cá no vocabulario que criei com minha filha chamo — o Interferente. Isto de palavras não tem importancia, como já disse. Só vale a ideia. O Interferente poderá para outros ter o nome de Deus, por exemplo, ou de Vontade. Os filosofos que filosofam com palavras passam a vida a debater qual a melhor palavra a aplicar ao meu Interferente, como se palavras jamais esclarecessem alguma coisa.

— Vai indo muito bem, professor. Ha o eter que vibra e ha o Interferente que se mete no meio...

— Isso. Interfere e provoca a variação vibratoria. Essa variação cria correntes que se chocam umas com as outras, modificam-e se dão origem a todas as formas de vida existentes. A vida, pois, não passa da vibração do eter modificada pela ação do...

— Interferente! concluí, glorioso.

Parece que o professor Benson mudou a ideia que formava de mim. Viu que o discípulo aprendia depressa e, voltando atrás, como se valesse a pena instrui-lo mais a fundo, passou a explicar-me dezenas de coisas do seu laboratorio, na intenção de confirmar-me nos princípios que o levaram á dedução da formula: Eter + Interferencia = Vida.

Depois que me viu já bem seguro das suas teorias, continuou: — Preste atenção agora, que este ponto é capital. O interferente não interfere sempre. O Interferente interferiu uma só vez! Parei um pouco atordoado.

— Espere, doutor. Dê-me tempo de assentar as ideias. O Interferente veio, interferiu e parou de interferir. É isso? — Perfeitamente. Quebrou a uniformidade da vibração, perturbou o unissonismo...

— O zum-zum! — ...e desde então o fenomeno vida, que tambem podemos denominar universo, desenvolve-se por si, automaticamente, por determinismo. As coisas vão-se determinando...

— Uma puxa a outra.

— Isso. Uma determina a outra. Daí vem falarem os velhos filosofos em lei da causalidade, "todo efeito tem uma causa", "toda causa produz efeitos", etc.

— Aristoteles. . . ia eu arriscando.

— Deixe Aristoteles em paz. Estamos na determinação universal, e a vida, ou o universo, é para nós o momento consciente desta determinação.

— "Momento consciente"... repeti forçando o cerebro.

— O senhor Ayrton, por exemplo, é um momento consciente da determinação universal ás 13 horas e 14 minutos do dia 3 de janeiro do ano de 1926, aos 22.° e 35' de latitude S. e 35.° e 3' de longitude ocidental do meridiano do Rio de Janeiro.

— Admiravel! exclamei com entusiasmo e cheio de orgulho, compreendendo afinal a minha verdadeira significação na vida. Mas o futuro, doutor? Muito mais que a definição cientifica do que sou, interessam-me as suas visões do futuro.

— Para lá chegar temos que ir por este caminho. Começamos do eter inicial, admitimos a Interferencia e estamos na Determinação, que é o que os filosofos chamam presente... O futuro é a Predeterminação.

Franzi os sobrolhos. A palavra era nova para mim e a ideia muito mais. O professor Benson expo-la com luminosa clareza e mostrou-me o maravilhoso do determinismo. Em certo ponto da sua exposição lembrei-me do amigo corretor e da sua comparação do 2 + 2 = 4. Fingi que era minha a imagem e arrisquei: — Dois mais dois igual a quatro.

O professor Benson entreparou, com a fisionomia radiante. Em seguida estendeu-me a mão.

— Meus parabens! Vejo que o senhor Ayrton é muito mais inteligente do que a principio supus. Nessa imagem está toda a minha filosofia; 2 + 2 significa o presente; 4 significa o futuro. Mas, assim que escrevemos o presente 2 + 2, o futuro 4 já está predetermindo antes que a mão o transforme em presente lançando-o no papel. Aqui, porém, são tão simples os elementos que o cerebro humano, por si mesmo, ao escrever o 2 + 2, vê imediatamente o futuro 4. Já tudo muda num caso mais complexo, onde em vez de 2 + 2 tenhamos, por exemplo, a Bastilha, Luis 16, Danton, Hobespierre, Marat, o clima de França, o odio da Inglaterra além Mancha, a herança gaulesa combinada com a herança romana, o bilhão de fatores, em suma, que faziam a França de 89. Embora tudo isso predeterminasse o "quatro" Napoleão, esse futuro não poderia ser previsto por nenhum cerebro em virtude da fraqueza do cerebro humano. Pois bem: eu descobri o meio de predeterminar esse futuro — e ve-lo! — Mas é assombroso, professor! É a mais espantosa descoberta de todos os tempos! exclamei de olhos arregalados. Entretanto, permita-me uma duvida. Se esse futuro ainda não existe, como o pode ver? — O 4 antes de ser escrito tambem não existe; no entanto o amigo o vê tão claro no presente 2 + 2 que o escreve incontinenti.

O argumento calou fundo. Pisquei sete vezes, com a testa fortemente refranzida.

— O futuro não existe, continuou o sabio, mas eu possuo o meio de produzir o momento futuro que desejo.

Tonteando pelo tom categorico daquela afirmativa não ousei duvidar, e estava ainda apalermado com a maravilhosa revelação quando miss Jane apereceu, esplendida de formosura.

Esqueci toda aquela altíssima ciencia que já me dava dor de cabeça e regalei os olhos na sua imagem perturbadora.

Saudou-me com um gesto amavel e disse, dirigindo-se ao professor: — Tinha razão, meu pai. Já fiz o corte e lá só vi as eternas brancuras da neve.

E voltando-se para mim: — Tem aprendido muita coisa, senhor Ayrton? — Mais que em toda a minha vida, miss Jane, e começo a bendizer o acaso que me fez vitima de um desastre.

— E está tão no começo ainda! Quando entrar no segredo de tudo e puder ver diretamente uns cortes, o seu assombro vai ser ilimitado.

— Já prevejo isso, senhorita, e...

E engasguei-me. Miss Jane olhara-me nos olhos e eu não era criatura que suportasse de frente um olhar assim. Cheguei a corar, creio, o que inda mais aumentou a minha perturbação. Felizmente a boa criatura, vendo que eu me calava, voltou-se para o professor Benson e disse: — Mas agora, meu pai, treguas ás revelações. O café está na mesa e com uns bolinhos tentadores que eu mesma fiz. Senhor Ayrton, vamos...

CAPITULO VI - O Tempo Artificial

Quando de novo me encontrei com o professor Benson no laboratorio prosseguiu ele na exposição interrompida.

— Onde estavamos, senhor Ayrton? — Na pre-determinação.

— Sim. Foi nesse ponto que Jane nos interrompeu. Pois bem: se tudo inexoravelmente se determina pela influencia reciproca das vibrações, se é isto pura mecanica, embora duma meta-mecanica inaccessivel ás forças da inteligencia do homem, é logico que a predeterminação é possível em teoria.

— E na pratica tambem! aventei eu iluminado de subita ideia.

Homens ha que adivinham ocorrencias futuras. Eu mesmo já tive ocasião de observar comigo um curioso caso de pressentimento lá nos negocios da firma. Veiu-me não sei de onde a ideia de que um freguês ia falir. Disse-o ao senhor Sá, o qual me chamou de tolo. Um mês mais tarde esse freguês abria bancarrota! Nunca me pude explicar isso pois nada conhecia dos seus negocios, nem coisa nenhuma ouvira falar a respeito.

— Esse caso pode ser visto de outra maneira. A ideia de requerer falencia podia estar em ação no cerebro do freguês. Ideia é vibração que repercute em ondas como tudo mais, e certos cerebros possuem bela faculdade emissiva ou receptora. Emitiu esse freguês uma vibração da ideia e o cerebro do senhor Ayrton agiu como polo receptor.

— Mas a leitura das linhas da mão? A quiromante que na Martinica predisse a Josefina, então simples burguesinha crioula, que seria imperatriz da França? — Aí já o caso é diverso, como no de todas as profecias comprovadas. Havemos que conceber certas organizações possuidoras duma faculdade pre-determinante. E não me custa admitir isso, já que construi o pre-determinador.

— Que significa essa nova palavra, professor? — Vamos ao pavilhão vizinho; lá me compreenderá melhor.

Passamos á sala imediata, recinto envidraçado e em forma de funil, cujo bico era uma das tais torres de ferro enxadrezado.

— Aqui temos o nervo ótico do futuro. Chamo a este conjunto "o grande coletor da onda Z." Eu andava de novidade em novidade e por mais alerta que pusesse o cerebro tinha de fazer paradas constantes, pedindo ao professor explicações parciais.

— Onda Z, professor Benson? Ainda não me falou nela.

— Só agora chegou o momento. A multiplicidade infinita das formas, isto é, das vibrações do eter, produz turbilhões ou ondas, que consegui classificar uma por uma e captar por meio deste conjunto receptor que as polariza...

— ?I — Polarizar é reunir tudo num só ponto, num polo.

— Compreendo.

— Este conjunto receptor polariza os turbilhões e os funde numa especie de corrente continua, ou, usando de imagem concreta, de um jacto. Suponha milhões de gotas de chuva a caírem num imenso funil e a sairem pelo bico sob a forma continua de um jorro cristalino. Todas as gotas estão no jacto, mas fundidas e sob outra forma. Assim o meu coletor. Apanha o turbilhão das ondas e as polariza naquele aparelho.

Olhei para o aparelho que o dedo do professor apontava e apenas vi um emaranhado de fios e grandes carreteis de arame, que em calão eu definiria muito bem com a palavra estrumela. Mas guardei o vocabulo, visto que a lição da Groenlandia ainda estava muito fresca em minha memoria.

— Consigo assim, prosseguiu o sabio, concentrar em minhas mãos o presente, isto é, o momento atual da vida do universo, como imensa paisagem panoramica que toda se reflete numa chapa fotografica e nela se conserva latente até que vá ao banho revelador. Quer isto dizer que na corrente continua, invisível como o fluido eletrico, que gira naquele caos aparente de fios, solenoides e bobinas, está tudo quanto constitue o momento universal! Apesar da segurança do velho sabio e da solidez de suas deduções eu permanecia numa vaga duvida. Na minha curteza mental eu achava excessivo estar tudo quanto existe reduzido a tão homeopaticas proporções e, ainda mais, impalpavel e invisível. O professor Benson adivinhou a minha indecisão e esmagou-a como quem esmaga uma pulga.

— Sabe o que é isto? perguntou mostrando-me uma coisinha de minusculas dimensões.

— Uma semente, respondi.

— E que é uma semente? Uma pre-determinação. Aqui dentro está predeterminada uma arvore de colossais dimensões que se chama jequitibá. Se o amigo admite que desta semente, que analisada só revela a presença de um bocado de amido, sais, graxa, etc. Surja sempre, e de um modo fatal, um majestoso jequitibá, porque vacila em admitir um fenomeno semelhante, qual a polarização do momento universal numa semente, que no caso é o fluido que circula no meu aparelho? O simile matou-me de vez todas as veleidades de cepticismo e foi como quem ouve a voz de Deus que dali por diante me entreguei sem reservas ás palavras do sábio.

— Prossiga, doutor, murmurei.

O professor Benson prosseguiu.

— Obtenho, pois, neste aparelho, uma corrente continua, que é o presente. Tudo se acha impresso em tal corrente. Os cardumes de peixes que neste momento agonizem no seio do oceano ao serem apanhados pela agua tepida da Corrente do Golfo; o juiz bolchevista que neste momento assina a condenação de um mujik relapso num tribunal de Arkangel; a palavra que, em Zorn, neste momento, o kronprinz dirige ao ex-imperador da Alemanha; a flor do pessego que no sopé do Fushiama recebe a visita de uma abelha; o leucocito a envolver um microbio malevolo que penetrou no sangue dum fakir da India; a gota d'agua que espirra do Niagara e cai num liquen de certa pedra marginal; a matriz de linotipo que em certa tipografia de Calcutá acaba de cair no molde; a formiguinha que no pampa argentino foi esmagada pelo casco do potro que passou a galope; o beijo que num estudio de Los Angeles Gloria Swanson começa a receber de Valentino...

— A fatura que neste momento o senhor Sá está acabando de somar... Compreendo, professor. Toda a vida, todas as manifestações poliformes da vida, tudo está ali, como o jequitibá, com todos os seus galhos e folhas e passarinhos que pousam nele e cigarras que o elegem para palco de suas cantorias, está dentro da sementinha. Não é isso? conclui radiante.

O professor Benson riu-se do meu entusiasmo e pareceu-me na realidade satisfeito com o discípulo.

— Perfeitamente, amigo Ayrton. Tudo está ali. Pela primeira vez desde que o mundo é mundo consegue o homem esse espantoso milagre — mas só eu sei o que isso me custou de experiencias e tentativas falhas!... Fui feliz. O Acaso, que é um Deus, ajudou-me e hoje me sinto na estranha posição de um homem que é mais do que todos os homens...

Sua fisionomia irradiava tanta luz — a luz da inteligencia, — que só a poderia suportar um inocente da minha marca. Estou convencido de que se outro sabio o defrontasse naquele instante estarreceria de assombro, considerado como Isaias diante das sarças ardentes quando delas trovejou a voz de Jeová. A minha ingenuidade, a minha inocencia mental salvou-me. Hoje estremeço quando penso em tudo isso, como estremeceu Tartarin de Tarascon ao saber que os abismos que com risonha coragem ele arrostara nos Alpes eram de fato abismos e não cenografia como, iludido por Bompard, no momento supôs. Hoje que já nada mais existe do professor Benson a não ser uma lapide no cemiterio, e nada existe senão cinzas do seu maravilhoso laboratorio, se me ponho a analisar esse período da minha vida tenho sensação de que convivi com um Deus humanizado.

O professor Benson falava das suas invenções com tanta simplicidade e me tratava tão familiarmente que jamais me senti tolhido em sua presença — como me sentia, por exemplo, na do Senhor Pato, o socio comendador lá da firma. Sempre que me cruzava com o comendador eu tremia, tanto se impunha aos subalternos aquela formidavel massa de banhas, vestida de fraque, com anel de grande pedra no dedo e uma corrente de relogio toda berloques que nos esmagava a humildade sob a arrogancia e o peso do ouro maciço. Diante do comendador Pato eu tremia e balbuciava; mas diante do professor Benson, um deus, sempre me senti como em face de um igual.

Compreendo hoje o fenomeno e sei que a verdadeira superioridade num homem não o extrema dos "inocentes", como dizia o professor — e por isso chamava Jesus a si os pequeninos. Até na indumentaria aqueles dois homens eram antípodas. Na do comendador, o fraque propunha-se a impressionar imaginações, a estabelecer categorias, a amedrontar os paletós sacos com a imponencia da sua cauda bipartida; na do professor Benson tinha a rouca por unica função vestir um corpo a modo de resguarda-lo das bruscas variações atmosfericas.

Mas voltemos atrás. Ao ouvir dizer ao professor Benson que todo o momento universal estava ali, olhei para a maranha de fios e bobinas com um sentimento misto de orgulho e piedade. Orgulho de ver o Tudo escravizado diante de mim. Piedade, porque havia nisso uma certa humilhação para o Tudo...

A voz pausada do velho sabio tirou-me de tais cogitações.

— Até aqui permanecemos no presente. A onda Z ali captada só diz respeito ao presente, e se eu ficasse nessa etapa de pouco valeria a minha descoberta. Mas fui além. Descobri o meio de envelhecer essa corrente á minha vontade.

— Envelhecer?... murmurei refranzindo a um tempo todos os musculos da cara.

— Sim. Faço-a passar pelo aparelho que tenho no pavilhão imediato e ao qual denominei cronizador. Vamos para lá.

O professor tomou a dianteira e eu o segui, ainda repuxado de musculos faciais. O pavilhão imediato possuia ao centro um novo aparelho tão incompreensível para a minha inteligencia como os anteriores.

— Aqui temos o cronizador, disse o meu cicerone apontando para o esquisito conjunto. Este mostrador, que lembra o dos relogios, me permite marcar no futuro a epoca que desejo estudar.

— ? ! — Perca o habito de assustar-se, porque senão acabará cardíaco. A corrente penetra por este fio, sofre um turbilhonamento e envelhece na medida que eu determino com o movimento deste ponteiro. É como se eu tomasse a semente e por um golpe de magica dela fizesse brotar a arvore aos dez anos de idade, ou aos cinquenta, ou aos cem — ao arbítrio do experimentador. Compreende? — Compreendo...

— E destarte a evolução, que com o decorrer do tempo necessariamente vai ter a vida atual do universo, eu a apresso e a detenho no momento escolhido. Este meu cronizador, em suma, é um aparelho de produzir o tempo artificial com muito mais rapidez do que pelo sistema antigo, que é esperar que o tempo transcorra.

Obtenho um ano num minuto de turbilhonamento; penetro no futuro, no ano 2.000, por exemplo, em 74 minutos. Opera-se durante a cronização uma zoada, que é o som dos anos a se sucederem, som muito semelhante a um eco distante...

— Sei. O que ouvi na hora do almoço.

— Exatamente. Quis Jane visualizar o futuro no ano 2.336, ou seja a 410 anos deste em que estamos. Para isso colocou aqui o ponteiro e abriu o comutador. A corrente envelheceu e automaticamente parou no ponto marcado, isto é, no ano 2.336.

A minha curiosidade crescia. Percebi que chegara ao ponto culminante da descoberta do professor Benson.

— E depois? indaguei ansioso. Para ver, ou como diz o professor, para visualizar esse futuro, como procede? — Devagar!... Consigo, como ia dizendo, envelhecer a corrente até o ponto desejado. Ao obter isso, a evolução determinista que rigorosamente vai dar-se no universo com o decorrer normal do tempo dá-se artificialmente dentro do aparelho. E, chegada ao termo da cronização que visamos, a corrente turbilhonada torna-se estatica, por assim dizer congelada. E fico eu na posse dum momento da vida universal futura — isto é, com o 4 da nossa primitiva imagem do 2 + 2. Resta-nos agora a ultima parte da operação, a qual, por comodidade, executo no meu gabinete. Não notou lá uma especie de globo cristalino? — Foi a primeira coisa que me impressionou neste castelo.

— Pois é o porviroscopio, o aparelho que toma o corte anatomico do futuro, como pitorescamente diz Jane, e o desdobra na multiplicidade infinita das formas de vida futura que estão em latencia dentro da corrente congelada.

— Por que, corte anatomico? indaguei, para não deixar ponto obscuro atrás de mim.

— Nunca esteve num laboratorio de miscroscopia? Com uma navalha afiadissima o anatomista opera um córte na ponta do seu dedo, por exemplo. Tira uma lamina de carne, a mais fina que possa, e estuda-a ao microscopio. A essa fatia do seu dedo chamará ele "corte anatomico". É Jane uma menina muito viva e gosta de falar por imagens, algumas extraordinariamente pitorescas...

A evocação de miss Jane veio perturbar a contensão do espirito com que eu acompanhava as revelações do mestre. Meu espirito cansado repousou nesse gracioso oasis, e foi com infinita inocencia que indaguei: — Que idade tem ela, professor? Mas o velho sabio talvez nem me ouvisse, porque entrou a dar explicações sobre a segunda função que possuía o cronizador: involuir a corrente, rodar para trás — o que permitia cortes anatomicos no passado.

— Mas isso não interessa, aventei levianamente. O passado é velho conhecido nosso.

— Engano. É tão desconhecido como o futuro e o presente.

Desta vez abri a boca, e lá por dentro me soou como tolice a frase do sabio. Mas vi logo que o tolo era eu.

— Do presente que é que sabe o amigo Ayrton? Sabe apenas que está neste minuto conversando comigo. Mais nada. Não sabe nem sequer se os senhores Sá, Pato & Cia. estão a esta hora de falencia aberta.

— Impossivel! Aquela gente é solida como as montanhas!... Só vendem á vista...

— Quantas planícies não marcam hoje o lugar outrora ocupado por montanhas!... Do presente o amigo Ayrton só sabe, isto é, só tem consciencia do que no momento lhe afeta os sentidos.

— Na verdade! exclamei. Nem o meu Ford, que era tudo para mim, sei onde pára...

— E se ignoramos o presente, que dizer do passado? — Mas a Historia? O professor Benson sorriu meigamente um sorriso de Jesus.

— A Historia é o mais belo romance anedotico que o homem vem compondo desde que aprendeu a escrever. Mas que tem com o passado a Historia? Toma dele fatos e personagens e os vai estilizando ao sabor da imaginação artística dos historiadores. Só isso.

— E os documentos da epoca? insisti.

— Estilização parcial feita pelos interessados, apenas. Do presente, meu caro, e do passado, só podemos ter vagas sensações.

Ha uma obra de Stendhal, La Chartreuse de Parme, cujo primeiro capitulo é deveras interessante. Trata da batalha de Waterloo, vista por um soldado que nela tomou parte. O pobre homem andou pelos campos aos trambolhões, sem ver o que fazia nem compreender coisa nenhuma, arrastado ás cégas pelo instinto de conservação. Só mais tarde veio a saber que tomara parte na batalha que recebeu o nome de Waterloo e que os historiografos pintam de maneira tão sugestiva. Os pobres seres que inconscientemente nela funcionaram como atores, confinados a um campo visual muito restrito, nada viram, nem nada podiam prever da tela heroica que os cenografos de historia iriam compor sobre o tema. Eis o presente... Vamos agora ao gabinete, concluiu o professor. O mais interessante se passa lá.

Acompanhei-o, literalmente apatetado. Aquele homem pensava de modo tão diferente de todo mundo que suas ideias me davam a impressão de algo novo e operavam em meu cerebro como luz que invade aos poucos uma sala de museu. Mil coisas que nunca supus existirem em minha cabeça revelaram-se-me de pronto. Coisas mínimas, germes de ideias, antigas impressões recolhidas nos vaivéns do viver quotidiano ressurgiam animadas de estranha significação. Outras, que eram capitais outrora, diluiam-se. O comendador Pato, até vinte dias antes tido por mim como o mais formidavel expoente do genio humano, decaia a irrisorias proporções. Oh, como desejei ve-lo ali em contato com o professor, para gozar a derrocada das ridículas ideias de fraque que ele tinha na cabeça!

CAPÍTULO VII - Futuro e Presente

Ao entrar no gabinete iluminei-me todo por dentro. Estava miss Jane adiante do globo de cristal, absorvida com certeza na visualização de um corte anatomico. Um raio de sol coado pela vidraça transfazia em luz o louro de seus cabelos. Miss Jane era toda atenção. Seus olhos azues verdadeiramente bebiam algum maravilhoso quadro. O professor Benson estacou á porta, fazendo-me gesto de silencio, e assim permaneceu até que a moça desse volta a um comutador e regressasse ao presente.

— Papai, exclamou ela, estou no fim da tragedia, no crepusculo da raça. Dudlee ganhou uma estatua... Boa tarde, senhor Ayrton.

Desculpe-me o estar dizendo a meu pai coisas que nem por sombras o senhor pode desconfiar o que sejam. Compreendo que é indelicado falar em lingua estranha na presença de pessoas que a desconhecem...

A bondade de miss Jane encantou-me; e, como a jovem não me olhasse nos olhos, pude replicar: — Mas tudo nesta casa me é linguagem estranha! O que acabo de ver assombra-me de tal maneira que tão cedo não me reconhecerei a mim mesmo.

— Está fazendo progressos, Jane, disse o professor. O amigo Ayrton compreendeu muito bem a parte teorica da minha exposição.

— Ou compreendi, exclamei, ou pareceu-me compreender. Aqui o professor fala com tal simplicidade e clareza que nem parece um sabio. Conheci um lá na cidade, e grande, a avaliar pela fama, com quem tive de tratar a mandado da firma. Pois confesso que não pesquei coisa nenhuma do que o homem disse. Esse, sim, parecia falar uma linguagem de mim nem sequer suspeitada...

— Não era um verdadeiro sabio, interveio miss Jane. Os verdadeiros são como meu pai, claros e fecundos como a luz do sol.

Mas quer saber o senhor Ayrton o que eu fazia ha pouco? — Não lhe contes ainda, Jane. Explica-lhe primeiro a função do porviroscopio, enquanto vou repousar um bocado. Sou velho e qualquer esforço além do habitual me cansa.

Antes que o professor Benson se retirasse, deu miss Jane um salto na cadeira, leve como a corça, e veiu beija-lo no rosto.

— Este querido paizinho! murmurou, acompanhando-o com os olhos amorosamente.

Depois voltando-se para mim: — Não é uma benção das fadas ter um pai destes? Como sabe conciliar a maxima inteligencia com a maxima bondade! — E com a maxima simplicidade! acrescentei. Não caibo em mim de gosto ao ver o homem que podia ser dono do mundo, se quisesse, tratar-me como se eu fôra alguem.

— Não se espante disso. Meu pai é coerente com as suas ideias.

Todos para ele somos meras vibrações do eter.

— Até miss Jane? — Eu serei vibração de um eter especial, muito afim do que vibra nele, explicou ela a sorrir. Mas, sentemo-nos, senhor Ayrton, que ha muito que conversar.

Já disse que eu era um rapaz acanhado, sobretudo em presença de moças bonitas; mas o ambiente de familiaridade e franqueza daquela casa modificou-me logo. Cheguei até a suportar nos olhos os olhares da linda jovem, sem perder a tramontana como da primeira vez. É que nem remotamente lembrava aquele olhar o olhar malicioso das mulheres que eu conhecera. Fui percebendo aos poucos que de feminino só havia em miss Jane o aspecto. Seu espirito formado na ciencia e seu convívio com um homem superior, dela afastavam todas as preocupações de coquetismo, proprias da mulher comum.

Isso me pôs á vontade. Sentia-me, não um moço em frente de uma donzela, mas um espirito diante do outro.

Aproveitei o ensejo para esclarecer-me a respeito do professor Benson. Soube que era descendente de um mineralogista norteamericano que um seculo antes viera ao Brasil estudar a composição de certa zona aurífera. Gostou da terra e nela se fixou, casando-se com a filha de um fazendeiro de S. Paulo.

— Desse consorcio, explicou miss Jane, só veio ao mundo meu pai, que cedo foi enviado á Europa, onde se dedicou a estudos cientificos. Lá se casou tarde e lá residiu por certo tempo. Veio depois tomar posse dos bens deixados pelo meu avô — e aqui nasci eu. Mas não me lembro de minha mãe. Morreu muito moça, anos 9 anos... Desde essa epoca estabeleceu-se meu pai neste recanto e consagrou-se integralmente á sua invenção. Passou o nosso mundo a resumir-se neste laboratorio. Raras vezes vamos á cidade, pouco interesse, aliás, achando nós dois em seu tumulto.

— Pudera! Quem tem o passado e o futuro nas mãos...

— Realmente é isso. Este aparelho fornece-nos tamanhas maravilhas, que a bem dizer vivemos muito mais no porvir do que no presente. Meu gosto é realizar estudos dos anos mais remotos, e só lamento não ter um cerebro imenso qual o oceano para reter tudo o que vejo. Outra coisa que lamento é não podermos dar a publico a nossa invenção. A bondade de meu pai o impede.

— Não alcanço muito bem o porquê...

— Pretende ele, e com muita logica, que a humanidade não está apta a suportar a revelação do futuro. Acha que a sua invenção cairia no poder de um grupo o qual abusaria da tremenda soma de superioridade que a descoberta lhe concederia. Fosse meu pai um homem vulgar, de pouca sensibilidade de coração, e ele mesmo assumiria o predomínio que receia ver na posse de outrem. Basta dizer que até hoje apenas se utilizou deste invento para reunir o dinheiro necessario á nossa vida e aos enormes dispendios dos seus estudos.

— Agora me lembro, miss Jane, que lá fora é o professor Benson conhecido como um jogador de cambio que jamais perde.

— E assim é. Fizemos experiencia com o marco e o franco e os fatos corresponderam com exatidão ás indicações deste aparelho. Mas meu pai limitou-se a ganhar o necessario para o trem de vida que leva. Estamos na posse de elementos para alcançar o que quisermos, para reunirmos nas mãos a maior soma de ouro com que se possa sonhar. Isso, porém, nos seria de todo inutil. Para que necessitamos da mesquinha riqueza do mundo se nada não nos dá ela que se aproxime do que temos aqui? — Por mais espantosa, miss Jane, que seja a descoberta do professor Benson, espanta-me ainda mais o carater das duas pessoas que estão no seu segredo. Podem ser tudo e não querem ser nada...

— Ser tudo!... Que significa ser tudo? Quando penso nas grandezas do mundo, rio-me delas...

Miss Jane conversou comigo por mais de um hora sobre os mais variados assuntos. E explicou-me depois o funcionamento do aparelho, recorrendo ás suas imagens habituais, tão pitorescas. A corrente perdia no globo de cristal a sua forma concentrada e visualizava-se como numa projeção de cinema, reproduzindo momentos de vida futura cora a exatidão que vai ter um dia.

— Ficamos na posição de um espectador imovel num ponto.

Só vemos e ouvimos o que passa ao alcance dos nossos olhos ou soa ao alcance dos nossos ouvidos. Isso ás vezes dificulta a compreensão de certos momentos da vida futura. Aparecem-nos coisas que não podemos compreender por falta dos elos anteriores da evolução. No ano 3.527, por exemplo, vi na população da França evidentes sinais de mongolismo. Os trajes não lembravam nada do que usam hoje as criaturas em parte nenhuma da terra, nem sequer pude perceber de que seriam feitos. Esqueci-me de dizer que o nosso aparelho não vai além do ano 3.527. Sua potencia pára aí. Focalizado para o ano de 3.528 já dá uma visão de tal modo baça que não distinguimos nada.

Ficamos, eu e meu pai, perplexos ante aquele mongolismo da França.

Só depois, fazendo cortes menos recuados e combinando uns com os outros, conseguimos decifrar o misterio. Tinham-se derramado pela Europa os mongois e se substituído á raça branca.

Não pude conter um gesto de espanto, e fiz tal cara que miss Jane sorriu.

— Que horror! Vai então acontecer essa catastrofe? exclamei.

A jovem sabia respondeu com serena impassibilidade: — Por que, catastrofe? Tudo que é tem razão de ser, tinha forçosamente de ser; e tudo que será terá razão de ser e terá forçosamente de ser. O amarelo vencerá o branco europeu por dois motivos muito simples: come menos e prolifera mais. Só se salvará da absorção o branco da America. E como esta, quantas revelações curiosas! Outra, que muito me impressionou, foi a transformação das ruas que se nota no ano 2.200 em diante. Cessa a era dos veículos.

Nada de bondes, automoveis ou aviões no céu.

— Como pode ser isso, miss Jane? É quasi um absurdo.

— Pois para lá caminhamos. Em cortes sucessivos que fiz de dez em dez anos observei a diminuição rapida dos veículos atuais. A roda, que foi a maior invenção mecanica do homem e hoje domina soberana, terá seu fim. Voltará o homem a andar a pé. O que se dará é o seguinte: o radio-transporte tornará inutil o corre-corre atual. Em vez de ir todos os dias o empregado para o escritorio e voltar pendurado num bonde que desliza sobre barulhentas rodas de aço, fará ele o seu serviço em casa e o radiará para o escritorio. Em suma: trabalhar-se-á á distancia. E acho muito logica esta evolução.

Não são hoje os recados transmitidos instantaneamente pelo telefone? Estenda esse principio a tudo e verá que imensas possibilidades para vir traze-lo. O progresso foi grande, mas repare quando á radiocomunicação se acrescentar o radio-transporte. Outrora, por exemplo, se o senhor Ayrton quisesse fumar um charuto tinha de mandar um criado busca-lo á charutaria; hoje pede-o pelo telefone, mas o charuteiro ainda é obrigado a mobilizar um carregador para vir trazelo.

O progresso foi grande, mas repare que atraso ainda! Mobilizar um homem, isto é, uma massa de 60 ou 70 quilos de carne, faze-lo dar mil ou cinco mil passos, gastando vinte ou trinta minutos da sua vida. só para transportar um simples charuto! Chega a ser grotesco...

— Realmente. Mas no futuro? — No futuro o senhor Ayrton fumará á distancia. Veja quanta economia de tempo e esforço humano! Julguei que miss Jane estivesse a caçoar comigo e até hoje permaneço na duvida. Em seu rosto, porém, não vi a menor sombra de motejo.

— Pode ser, mas... duvidei.

— Esse mesmo "pode ser, mas..." diria um romano do tempo de Cesar se alguem lhe predissesse que um romano do tempo do oleo de ricino não precisaria sair de sua casa para conversar com um cidadão de Paris. Sabe o senhor Ayrton, no entanto, que isso é comezinho hoje e nem sequer admira a ninguem.

— Falar é uma coisa e fumar é outra.

— Hoje, que só temos a radio-comunicação. Mas chegará o dia da radio-sensação e do radio-transporte, com radical mudança do nosso sistema de vida. Os veículos ao sistema corrente desaparecerão um por um. Voltará o homem a caminhar a pé, por prazer, e as ruas se tornarão uma delicia. O senhor Ayrton sabe o que quer dizer uma rua hoje...

— Ninguem melhor do que eu, miss Jane, pois desde menino vivo nelas. Que angustia, que permanente inquietação! Temos que andar com cinquenta olhos arregalados, para prevenirmos trancos e atropelamentos.

— Tudo isso desaparecerá, e adquirirão as cidades uma calma deliciosa, como hoje a de certas aldeias. Vi New York nesse periodo.

Que diferença do atropelado e doido formigueiro de agora! — Deve miss Jane ter observado coisas maravilhosas!...

— Menos maravilhosas do que desnorteantes para as nossas ideias atuais. As invenções vão sobrevivendo no decurso do tempo, umas saidas das outras, e as coisas tomam ás vezes rumo muito diverso do que a logica, com ponto de partida no estado atual, nos faria prever, O professor Benson reapareceu nesse momento e a conversa tomou outro rumo. Eu me achava na situação de um homem que ingerisse um estupefaciente desconhecido. Estava com a minha capacidade de assimilação de ideias esgotada e já com uma ponta de dor de cabeça a dar sinal de que o cerebro exigia repouso. Sem que eu o dissesse, o velho sabio, mais sua filha, compreenderam-no perfeitamente e dali até o jantar só me falaram de coisas repousantes.

Á noite custei a conciliar o sono, o que era natural. Mas sinceramente o digo: o que mais me dansava na cabeça não era o desvendamento do futuro nem as suas abracadabrantes maravilhas, e sim a imagem de miss Jane. A estranha criatura loura, de olhos tão azues, impressionara por igual meu cerebro e meu coração. Comecei a ver nela o verdadeiro tudo; e se me dessem a opinar entre a posse da descoberta do professor Benson e o te-la ao meu lado para o resto da vida, não vacilaria um instante na escolha.

Dormi por fim e, em vez de sonhar com o mundo futuro entrevisto na palestra da moça, sonhei no encanto do presente, todo resumido em conjugal convivencia com o meigo anjo sabio.

CAPITULO VIII - A Luz que se Apaga

No dia seguinte, logo pela manhã, soou-me aos ouvidos uma novidade desagradável. Não passara bem a noite o professor Benson.

— Estou velho, meu caro senhor Ayrton, disse-me ele ao encontrar-se comigo. Já sinto cá dentro a maquina funcionar com esforço. Jane ignora o meu estado, mas a pobre menina não me terá por muito tempo na terra. Ficará só. Dei-lhe, entretanto, tal educação, e possue ela tais qualidades de carater, que morrerei feliz.

Saberá agir no mundo como se contasse sempre comigo.

Veio-me aos labios um ímpeto de confidencia. Quis apresentar-me ao professor como o braço forte que se oferecia a miss Jane quando o de seu pai viesse a faltar. Contive-me a tempo. Lembrei-me da minha insignificancia e do pouquíssimo que eu ainda era naquele lar. Limiteime, pois, a confirmar as ideias do velho em relação á filha, dizendo: — Pelo que com ela conversei ontem tive a mesma impressão. É miss Jane uma criatura superior, uma madame Curie capaz de prosseguir nos trabalhos de seu pai, se o quiser.

— Jane o quereria talvez, mas não posso consentir nisso.

Bastam-lhe, para lhe encher a vida, as visões que já teve e a superioridade que adquiriu conhecendo o futuro proximo. Isso lhe permitirá por-se a salvo das contingencias da necessidade. Possue Jane um caderninho onde anotou a cotação dos principais valores de bolsa nestes proximos cinquenta anos. Está assim habilitada a ser detentora do dinheiro que quiser. O dinheiro ainda é tudo para os homens. O estranho dote que deixo á minha filha se resume nesse caderninho de notas... Mas conheço Jane. Extremamente imune ás ambições que atormentam o comum das mulheres, levará um viver apagado, sem exterioridade, toda entregue á vida cerebral, que a tem intensissima.

O professor fez uma pausa, como se o esforço daquelas confidencias o tivesse cansado. Depois, disse: — Realizei o que jamais sonhara nos delirantes sonhos da minha mocidade — e me vejo forçado a levar para o tumulo o grande segredo... Jane não o revelará a ninguem e ainda que o faça não estará na posse da solução tecnica. O senhor Ayrton, unica testemunha presencial de tudo, tambem o não revelará a ninguem.

— Proibe-mo, professor? — Não, não proibo, já disse. Mas se algum dia tiver a ingenuidade de o revelar a alguem, passará por louco, e se insistir, por louco varrido, dos que os homens metem nos hospícios. O instinto de conservação e de sociabilidade é que o vai impedir de revelar o que está vendo aqui.

Miss Jane entrou nesse momento e notei que o velho sabio se contrafazia diante da moça para não denunciar o seu estado de saude. Apesar disso ela observou.

— Um pouco palido, meu pai...

— Sim, mas estou perfeitamente bem. Temos aqui o senhor Ayrton e compete a ti, minha filha, organizar o programa do dia. Pouco posso acompanha-los. Uma delicada experiencia vai absorver-me por algumas horas.

Miss Jane olhou-me com os seus lindos olhos claros e disse: — Escolha, senhor Ayrton. Ontem foi a teoria, hoje começa a ser a pratica. Vai estudar uns córtes. Escolha um momento da vida futura que o interessa.

Miss Jane estava linda como uma rosa desabrochada naquela manhã na roseira proxima do meu quarto. Meus olhos envolveramna num veu de enlevo e se o coração pudesse falar ter-lhe-ia eu dito que só me interessava o presente nela concentrado. Mas respondi de outro modo.

— Sou um leigo em materia de futuro, miss Jane, e nem escolher posso. Deixo isso ao seu inteligente criterio.

— Não tem vontade de ver o que se passará aqui, neste lugar onde estamos, no ano 3000? — Já fizeste esse corte, Jane, interveio o professor.

— Fiz, sim, meu pai, mas será curioso repeti-lo para o senhor Ayrton.

— Perfeitamente, concordei. Ha sempre mais interesse para nós em ver assim futurizado um ponto nosso conhecido do que um desconhecido.

— Pois então, resolveu o professor Benson, comecem por aí e não contem comigo. Vou trabalhar.

Ergueu-se e saiu. Miss Jane acompanhou-o até á porta e ao tornar me disse: — Acho meu pai um tanto abatido hoje. Já está nos setenta anos e velhice é doença...

Uma nuvem de melancolia sombreou-lhe os lindos olhos azues e um breve suspiro lhe escapou do peito. Tambem eu no intimo me sombreei de tristeza, embora mentisse exteriormente, nesse intuito de consolação facil que tais lances impõem.

— Qual! exclamei. O professor é rijo. E com a vida calma que leva ainda viverá muito.

— Assim seja, murmurou Miss Jane, porque não sei o que será de mim sem ele. Acho-me tão identificada com meu pai...

Arrisquei urna pergunta indiscreta: — Nunca pensou em casamento, miss Jane? A moça entreparou, olhando-me entre admirada e divertida.

— Casamento? Ora que coisa interessante, senhor Ayrton!...

Ha de crer que é a primeira vez que tal palavra soa nesta casa? Ca-sa-men-to!...

E repetiu-a diversas vezes como se repetisse uma palavra de som esquisito e nunca antes pronunciada.

— Sim, continuei eu, todas as moças se casam. O amor um dia vem e...

Miss Jane permaneceu alheada, como entregue a profundas cogitações interiores.

— "Todas as moças"... repetiu. Mas serei eu moça? Nunca me analisei, senhor Ayrton. Minha vida tem sido voar de seculo em seculo por esse futuro afora em companhia de meu pai. Sinto que sou apenas um espirito que observa e possue meios de visualizar o que está fora do alcance humano. Será isso ser moça? Amor?... Que é amor, senhor Ayrton? O seu vocabulario é tão novo para mim como deve ser para o seu espírito esta nossa mentalidade futurista. Mas vamos ao que serve. É tempo de operar um corte.

Miss Jane dirigiu-se ao gabinete do porviroscopio e eu acompanhei-a, tomado de espanto diante de um ser tão alheio ao seu tempo e á sua condição. Lá fora, amor e casamento constituem a obsessão unica de todas as mulheres. Em criança, brincam de casar as bonecas. Nubeis, cuidam exclusivamente de casar a si proprias.

Velhas, cuidam de casar ou descasar as outras. Havia, pois, uma mulher no mundo, e formosíssima que não só não pensava em amor e casamento mas á qual tais expressões soavam como vozes ineditas...

Era simplesmente prodigioso! Diante do porviroscopio ela se deteve e depois de algumas explicações me fez colocar no ano 3000 o ponteiro. Em seguida viu num mapa a situação geografica do ponto onde nos achavamos e ensinou-me a mover o ponteiro marcador das latitudes e longitudes.

— Pronto! exclamou. Basta agora abrir esta valvula. A corrente envelhecerá de 1074 anos, que são quantos vão do em que estamos ao ano 3000. Envelhecerá e nos dará sinal disso automaticamente. Mas como o envelhecimento de cada ano consome um minuto, teremos...

Tomou de um lapis e calculou, rapida.

— Teremos de esperar 17 horas e 54 minutos. O relogio marca as nove e, pois, só conseguiremos ter cá o ano 3000 ás nossas ordens entre meia noite e uma da madrugada. Estou afeita a estas observações a qualquer hora da noite, mas não sei se para o senhor Ayrton não será incomodo...

— Absolutamente não. Só lamento não poder satisfazer já, já, a minha curiosidade. Ver um pedaço da nossa terra no ano 3000, que portentosa maravilha! Diga-me alguma coisa, miss Jane, do que me vai ser revelado...

— Não. Não quero prejudicar a sua surpresa. Prefiro falar de aspectos que vi em outros tempos e outros paises.

Lances ha na vida absolutamente indeleveis. Essa tarde que passei com a filha do professor Benson, a ouvir-lhe as revelações do futuro, como esquece-la jamais? Não poderei reproduzir aqui tudo quanto ela me disse; seria compor um catalogo sem fim. A invasão mongolica, o feroz industrialismo da Europa mudado em contemplativismo asiatico, a evolução da America num sentido inteiramente inverso... quanta coisa formidavel! Mas nada me interessou tanto como o drama do choque das raças nos Estados Unidos.

— Esse choque, disse miss Jane, deu-se no ano 2228 e assumiu tão empolgantes aspectos que reduzido a livro dá uma perfeita novela. Não sei se o senhor Ayrton é literato...

— Já fiz um soneto na idade em que todos desovam sonetos...

— Pois se não é poderá tornar-se. O principal para uma novela é ter o que dizer, estar senhor de um tema na verdade interessante.

Ora, eu fornecerei os dados dessa novela e o senhor Ayrton terá oportunidade otima para apresentar-se ao mundo das letras com um livro que a critica julgará ficção, embora não passe da simples verdade futura.

A ideia sorriu-me, e todo me lisonjeei com a opinião que miss Jane fazia das minhas capacidades artísticas.

— Quer tentar? insistiu ela. Contar-lhe-ei com a maxima fidelidade o que vai passar-se. De posse desse material, e depois de pessoalmente fazer varios cortes que o ajudem a formar ideia justa do ambiente futuro, atirar-se-á á tarefa. Desde já asseguro uma coisa: sairá novela unica no genero. Ninguem lhe dará nenhuma importancia no momento, julgando-a pura obra da imaginação fantasista. Mas um dia a humanidade se assanhará diante das previsões do escritor, e os cientistas quebrarão a cabeça no estudo de um caso, unico no mundo, de profecia integral e rigorosa até nos mínimos detalhes.

— Realmente! exclamei. Será romance como os de Wells, porém verdadeiro, o que lhe requintará o sabor. Quanta novidade! — Os leitores andarão pulando de surpresa, e estou já a imaginar as caras de espanto que hão de fazer quando o senhor Ayrton falar, por exemplo, da cirurgia do doutor Lewis.

— Quem era? — Oh, um magico da anatomia, o primeiro que praticou o desdobramento do homem.

Franzi os sobrolhos.

— Desdobramento da personalidade? perguntei.

— Sim, mas desdobramento anatomico. O doutor Lewis, sabio que começou a surgir em 2201, teve a ideia de romper com o plano simetrico do corpo humano. Possuímos dois olhos e dois ouvidos que agem como a parelha de cavalos a puxar no mesmo rumo o carro. Lewis alterou isso. Por meio dum delicado processo cirurgico, desligou — desxifopagou os nervos óticos e auditivos, dando autonomia aos dois ramos. Conseguiu dess'arte que o "desdobrado" pudesse ver uma coisa com o olho direito e outra com o esquerdo, e tambem ouvir ás duplas, com a audição assim desligada.

Miss Jane fez breve pausa, como a recordar. Depois disse: — Lembro-me que no escritorio do Intermundane Herald observei o primeiro desdobrado em ação, primeiro e unico aliás.

— Intermundane Herald, miss Jane? Cheira-me isso a psiquismo...

— E cheira certo. Era um jornal de radiação metapsiquica, que veiu atender á velha sede de liame com os vivos que os mortos sempre manifestaram. Em vez das pobres almas penadas andarem pelo mundo em busca de mesinhas falantes e mediuns, unico meio que possuem hoje de conversar conosco, liam o Intermundane Herald.

— E como se manifestavam? Pois não posso crer que tambem colaborassem nesse jornal...

— Disso se encarregava a Psychical Corporation, dona de grande estação central de Detroit. Afluíam os espíritos para ali e chamavam os vivos pela linha metapsicotonica internacional, como hoje nos chamamos pela linha telefonica.

O meu assombro era grande, embora tocado de uma pontinha de desconfiança. Estaria miss Jane a mangar comigo? Olhei-a firme nos olhos. A lealdade que neles vi era a mesma de sempre.

— Mas, continuou ela, voltando ao meu homem desdobrado direi que pude observa-lo em ação no escritorio do Herald. Estava á mesa de trabalho, a examinar com o olho direito uma gravura antiga e a consultar uma tabua de logaritmos com o esquerdo. Ao mesmo tempo ouvia a musica da moda com o ouvido direito e com o esquerdo atendia a um colaborador do jornal. Ocupava-se em quatro coisas diversas, valendo assim por quatro homens não desdobrados.

— h2...

— E não ficava nisso. Era bem um Homo elevado, não á quarta, mas á sexta potencia, porque ainda recolhia a queixa dum dos espíritos leitores do Herald — espirito rabugento, a avaliar por certos ímpetos nervosos da mão que estenografava.

— E com a outra mão que fazia? — Alisava meigamente um gatinho que lhe sentara no colo.

Encarei-a de novo, firme. Miss Jane não piscou. Logo, era verdade. A experiencia dos olhos que piscam sempre me pareceu infalível na pesca dos potoqueiros.

— Mas não foi coisa que se generalizasse, continuou a moça. A ruptura por intervenção humana dos planos normais da natureza nunca foi bem sucedida. Sobrevinham sempre complicações imprevisiveis á argucia dos sabios, e irremediaveis. Esse pobre desdobrado, por exemplo, acabou logo depois de maneira tragica.

Em vez de persistir na sua sexta potencia, empastelou-se, confundiu-se e acabou não sendo nem sequer um homem apenas, como antes da operação. A mais horrorosa demencia veiu destruir aquela obra prima da cirurgia de 2228. Por esta amostra vê o senhor Ayrton quantos episodios interessantes podem enriquecer a sua novela, concluiu miss Jane.

Fiquei de olhos parados, a cismar.

— Outra coisa que muito me maravilhou foi o Teatro Onírico, prosseguiu ela.

— Que? — O teatro dos sonhos.

— Fiquei na mesma...

— Descobriu-se um processo de fixar na tela os sonhos, como hoje o cinematografo fixa em filmes o movimento material. E dada a riqueza do nosso subconsciente, mar donde emana o sonho, e mar profundo do qual a consciencia não passa da exígua superfície, pode o senhor Ayrton imaginar que maravilhosas representações não se davam nesse teatro. Nem as Mil e Uma Noites, nem Edgard Poe — nada valia um só desses espetaculos onde o contra-regra se chamava Imprevisto. Tornou-se a arte suprema, a mais deleitosa de toda — e ainda uma ciencia. A alma humana só deixou de ser o enigma que hoje é depois que pôde ser assim fotografada em suas manifestações de absoluta nudez. Até então apenas lhe conhecíamos as manifestações vestidas pela Censura, isto é, as suas atitudes.

Miss Jane pausou um bocado, enquanto eu refervia.

Era de maravilhar a transformação que se operava em mim! Vinte dias antes eu não passava de modesto empregado de rua duma casa comercial — e estava agora na iminencia de tornar-me autor de um livro assombroso, capaz de cobrir meu nome de gloria. A ideia desvairoume e a novela principiou a formar-se-me nos miolos com fragmentos de romances lidos em rodapé de jornais. O começo do primeiro capitulo chegou a traçar-se de chofre em minha cabeça: — "Era por uma dessas tardes calmosas de verão, em que o astro rei, rubro como um disco de cobre," etc.

Estava eu nesse devaneio quando um criado penetrou de surpresa no gabinete. Chamou de parte miss Jane e disse-lhe algumas palavras agitadas. Sem pedir licença a moça retirou-se com precipitação.

Fiquei atonito, sem saber o que pensar. Delicada e fina como era, se assim se retirava de minha companhia sem o classico e sorridente "com licença" é que algo de grave ocorria. Fiquei na minha poltrona ainda uns dez minutos com o ouvido atento aos menores rumores, tentando decifrar o misterio. O silencio era absoluto; nem sequer se ouvia o zum-zum do cronizador a trabalhar. Consultei o relogio.

— Dez e quinze. A corrente já está no ano 2001, pensei comigo, ano que não alcançarei. Mas meu filho Ayrton Benson Lobo o alcançará.

Pus-me a sonhar, e os sonhos logo me acalmaram a inquietação produzida pela inexplicavel retirada de miss Jane. Vi-me amado de tão gentil criatura e com ela casado. Por esse tempo já não fazia parte deste mundo o professor Benson. Setenta anos tinha ele; era natural que não durasse muito. Miss Jane ficava só na terra, sem relações sociais, sem sonhos de grandeza mundana. E não seria eu nessa epoca apenas o pobre diabo que era, triste exempregado dos senhores Sá, Pato & Cia. Seria um autor, um romancista! Os jornais dariam meu retrato e me tratariam de "ilustre homem de letras". Talvez até cavasse a Academia. Uma situação social, sem duvida, e das mais bonitas. Poderia aproximar-me da inconsolavel menina e oferecer-me para seu companheiro de vida. Claro que miss Jane aceitaria o meu coração. Viagens depois, mundo a correr — Paris, New York. Levariamos conosco o caderninho das cotações...

— "Olá, senhor corretor, compro mil ações da Niagara Falls Company!" A piedade do corretor vendo esta carinha chupada de brasileiro amarelo comprar ações de uma empresa cuja bancarrota estava iminente! Sorri-se lá consigo e vende-mas, piscando o olho para os seus auxiliares. No dia seguinte noticia nos jornais: Uma jazida de platina encontrada nas terras da Niagara! As ações da companhia centuplicam de valor. Reapareço no escritorio do corretor atonito a fumar um charuto imponente, e vingo-me do seu sorriso de vespera.

— "Hoje vendo, meu caro palerma. O brasileirinho amarelo hoje vende, sabe?..." E lá deixo de novo as ações da Niagara e embolso milhões sonantes... Compro em seguida um hiate, o mais belo e comodo que houver...

No meu sonho julguei ser o capitão do hiate e ia responder-lhe com uma ordem — "Rumo a boreste!", quando ao pé de mim vejo miss Jane, muito transtornada de feições.

— Senhor Ayrton, meu pai passa mal! Venha ve-lo...

Corri atrás dela, tomado de negros pressentimentos. Penetrei no quarto do professor. Lá estava o bom velho no fundo da cama, muito desfeito, dando mais a impressão de um defunto que de um ser vivo.

— Quer que vá buscar um medico? exclamei ansioso ao aproximar-me do enfermo.

— Não, respondeu lentamente a voz cava e debil do professor.

É inutil. Conheço o meu estado e sei que chegou o momento...

A moça atirou-se-lhe aos braços e cobriu-lhe o rosto de beijos convulsos.

— Boa Jane, disse ele, é hora de separar-nos. Tenho confiança em ti e espero que passado o rude momento te conformes com a situação, buscando conforto no estoicismo que te ensinei e de que te dei exemplo em vida. Há já algum tempo que me sentia mal. Ocultava-o a ti para evitar-te um sofrimento inutil. Mas esta noite percebi que chegara o fim. Quando te deixei no gabinete com pretexto de concluir um trabalho, iludi-te, ou, melhor, vim fazer um trabalho muito diverso do que poderias supor. Vim destruir a minha descoberta.

Queimei toda a papelada relativa e desmontei as peças mestras dos aparelhos. O que resta nenhuma significação possue e não poderá ser restaurado. Desfiz em meia hora o trabalho de toda uma vida. Da minha invenção restam apenas as impressões que te ficaram na memoria. E quando por tua vez morreres, tudo se extinguirá...

— Meu pai! exclamou Jane achegando o seu rosto afogueado á face descorada do velho.

— Teu pai, teu amigo, teu companheiro de trabalho...

Não pude conter-me diante do doloroso lance e grossas lagrimas brotaram-me dos olhos. O moribundo não esqueceu o hospede.

Volveu com esforço um olhar para o meu lado e disse em voz cada vez mais fraca: — Adeus, Ayrton. O acaso o trouxe aqui para me ver morrer.

Seja amigo de Jane. Adeus...

Um impulso atirou-me de joelhos ao pé do leito do moribundo; tomei-lhe as palidas mãos e beijei-as tão enternecido como se beijara as de meu proprio pai.

— Adeus, Jane!... foram suas derradeiras palavras.

Fechou os olhos e imobilizou-se. Minutos mais tarde estava apagada a luz daquele cerebro, o mais potente que ainda desabrochou no seio da humanidade...

CAPITULO IX - Entre Sá, Pato & Cia. e Miss Jane

Pobre moça!... vinha eu pensando comigo ao voltar do enterro do professor Benson. Se é grande a dor de perder um bom pai, que dizer de quem perdia tal pai?...

De fato, quasi que com seu pai perdera Jane a sua razão de ser na vida. Desde menina se consagrara a estudos do porvir, e é natural que quem possue tal faculdade de pre-videncia não se preocupe grande coisa com a atualidade. Para nós, encerrados nas quatro paredes dos cinco sentidos, o presente é tudo; mas quão pouco não será ele para uma criatura colocada no tope da montanha, podendo ver tanto a paisagem do que lá passou como a do que vai passar! O magico aparelho do professor Benson deixara de existir, e dele, como dissera o moribundo, só restavam as impressões subsistentes na memoria da filha. Tinha miss Jane, portanto, de refazer sua vida, adaptar-se á condição comum dos pobres seres humanos que só vêem um palmo adiante do nariz.

— Está como eu, murmurei em soliloquio. Passou tambem a pedestre...

Mas vi logo o falso da comparação. Eu podia com o tempo voltar á casta dos rodantes, adquirindo novo automovel. Miss Jane nunca mais alcançaria a onividencia...

O castelo ficava a tres quilometros de Friburgo, pela estrada onde se dera o meu desastre. Ao passar por essa estrada reconheci o ponto e parei á borda do desbarrancado. Estavam ainda patentes os sinais do trambolhão.

— Estranhos caminhos da Interferencia! exclamei comigo mesmo.

Para ver a maravilha das maravilhas e conhecer a mulher que me está iluminando a alma e talvez faça de mim um romancista, foi mister que eu passasse por este precipício aos trancos, e lá fosse parar semi-morto ao fundo da barroca...

Logo adiante, dobrada uma curva da estrada, vi erguer-se o vulto misterioso do castelo, com suas torres metalicas. Parei tomado de viva emoção. Olhei para a singular fabrica e perdi-me em pensamentos de saudade e incerteza.

Entre aquelas paredes duas nobres criaturas humanas me haviam abrigado com extremos de carinho; trataram-me do corpo, salvaram-me a vida e não satisfeitas ainda me revelaram o segredo irrevelado. No castelo conheci a mulher divina que jamais sairá do meu coração. Lá estive em minha casa, como no seio da minha verdadeira familia...

Mas quão tudo mudara! Eu não podia mais continuar naquela situação de hospede depois de morto o hospedeiro. Tinha que afastarme dali — afastar-me do lugar que era na verdade o meu verdadeiro lugar na terra...

O coração confrangeu-se-me dolorosamente e foi com o olhar sombrio e a cabeça baixa que transpus de novo os umbrais do castelo.

Chamei um criado. Por coincidencia apareceu o surdo-mudo que me acompanhara na primeira saída pelos campos. Esqueci-me dessa circunstancia e perguntei-lhe: — Não será possível falar a miss Jane? O criado tambem se esqueceu de que era surdo-mudo e tornou: — Acho inconveniente. Miss Jane recolheu-se em tal estado de abatimento que nenhum de nós se atreve a perturba-la.

Vi que o homem tinha razão. Pedi-lhe papel e, ali mesmo no vestíbulo, tracei o seguinte bilhete: Com o coração alanceado Ayrton despede-se de miss Jane. Volta ao seu fado anterior, cheio, pelo resto da vida, dos sentimentos de gratidão e enlevo que os donos deste castelo encantado lhe despertaram n'alma. Se acha miss Jane que o hospede ocasional lhe merece alguma coisa, permita-lhe que a venha ver de vez em quando .

Entreguei-o ao criado e sai.

Estava outra vez na rua — e nunca avaliei tão bem a sensação do decair. Quando o anjo mau se viu expulso do paraíso a sua impressão devera ter sido igual á minha...

Na curva da estrada volvi um ultimo olhar ao castelo. Lagrimas me vieram aos olhos, e foi com a infinita tristeza de um corvo triste que alcancei a estação de Friburgo. Rodei para o Rio.

Ao apresentar-me no escritorio da firma o assombro do senhor Sá foi enorme. Olhou-me com os olhos arregalados, como se visse aparecer um espetro; depois vincou a testa de todas as temíveis rugas com que tanto nos apavorava e disse: — Muito bem, senhor Ayrton Lobo! Sempre contei com a sua presteza, quando o senhor me andava a pé. Agora, que se deu ao luxo de um automovel, gasta-me vinte e tantos dias numa simples cobrança e aparece-me com essa cara de cachorrinho que me quebrou a panela! Me, me, me, me... tudo para aquele homem se relacionava egoisticamente á sua pessoa...

Procurei acalmar-lhe a furia, contando do desastre e da minha internação numa casa acolhedora. Mas o eter em vibração que era o senhor Sá fôra evidentemente interferido por uma rabanada de saia das furias de Esquilo. Em vez de aceitar a minha escusa, o homem redobrou de acusações.

— E por que me não preveniu? Um empregado decente, logo que se vê numa situação dessas, a primeira coisa que faz é avisar aos patrões. Pensa então o senhor que isto aqui é brincadeira? Não sabe que somos uma firma séria e temos o direito de ser bem servidos? Está despachado. Não nos servem empregados da sua ordem.

Nesse momento um rumor muito meu conhecido denunciou a presença da outra parte da firma. Era o senhor Pato que chegava. Ao ve-lo surgir á porta, dentro do seu formidavel fraque de elasticotine de cem mil réis o metro e todo reluzente de penduricalhos de ouro maciço, confesso que tremi. Olhou-me o homem d'alto a baixo, fulminantemente, e sem dizer palavra foi para um canto confabular com o socio.

Não sei o que disseram. Só sei que ao cabo de dois minutos o senhor Sá voltou-se para mim e indagou: — E o seu automovel? — Perdi-o... respondi com voz sumida.

Sá trocou com o socio um olhar risonho e ironico; em seguida, divertido lá no intimo por uma ideia, humanizou-se.

— Pode ficar na casa, senhor Ayrton, mas compreende o caro amigo que não nos é possível pagar a um moço que anda a pé o mesmo ordenado que pagavamos a um que tinha automovel proprio...

Pronunciou um "proprio" de boca cheia, trocando com o Patrão um novo olhar de malícia.

Resignei-me, já que precisava viver. E murcho, de cabeça baixa, com o espirito a agarrar-se á lembrança de miss Jane, reassumi na casa as minhas velhas funções.

A semana toda passei-a na rua, a trabalhar como um automato. Meu pensamento fugia para longe do que eu executava.

Impossível fixa-lo nas reles coisas que me mandavam fazer, quando havia um ponto luminoso a atrai-lo como íman. Impossível tomar a serio os negocios de Sá, Pato & Cia. depois do deslumbramento daquelas semanas no castelo. Eu já não era mais o mesmo. Era um ser que se dilatara imensamente — e que esperava...

Executei mal as minhas comissões e sofri do senhor Sá varias reprimendas. Ouvia-as, porém, tão absorto nos meus pensamentos que não poderei reproduzir nada do que ele me disse.

Eu aguardava ansioso a chegada do proximo domingo. Iria novamente rever o castelo e extasiar-me ainda uma vez diante da imagem querida.

O domingo chegou. Fui. Miss Jane recebeu-me no gabinete e fez-me sentar na poltrona onde me achava no momento em que o criado a chamou. Encontrei-a serena e resignada, embora com todos os estigmas da sua grande dor impressos na fisionomia. Seus olhos denunciavam o cansaço das lagrimas.

Permaneci calado por uns instantes, sem ter o que dizer. Quem rompeu o silencio foi ela.

— Obrigada, senhor Ayrton. A sua visita me fará bem, me acalmará os nervos, coisa que nunca supus que tivesse... A minha solidão é hoje extrema. Como castigo de ter tido ás mãos o tudo, vejome agora sem nada. Este casarão vazio... os laboratorios já sem função... o porviroscopio, onde passei anos a me deslumbrar com visões ineditas, morto, reduzido a simples materia inerte, sem alma...

A alma de tudo era meu pai...

Alcancei a situação da querida criatura e foi com a alma á boca que lhe disse: — Compreendo como ninguem o seu caso, miss Jane, e sei que até hoje no mundo pessoa alguma num só dia perdeu tanto. Horas apenas convivi com o professor Benson e apesar disso a sua lembrança viverá em mim como não vive a de meu pai. Imagino, pois, a falta que faz ele á sua filha, á sua companheira de estudos e visões...

Miss Jane sacudiu a cabeça como a espantar ideias importunas.

Depois esboçou o sorriso mais triste que inda vi. E com um suspiro murmurou: — Paciencia. Meu pai ensinou-me o estocismo, mas é bem difícil o estoicismo nos grandes momentos de dor. O estoicismo é uma atitude...

Tres horas passei em companhia da desolada jovem, e consegui afinal distrair o seu espirito contando-lhe o meu reaparecimento no escritorio. Chegou a sorrir quando lhe desenhei a imagem hipopotamica do senhor Pato, todo a reluzir berloques de ouro maciço.

— Que felicidade ser como esse homem, agir como ele, formar de si proprio a ideia que ele forma! comentou miss Jane. Ignora tudo, mas não tem a sensação disso. Meu pai era o contrario. Levava ao extremo oposto o conceito da sua propria pequenez — e o senhor Ayrton sabe que se houve no mundo criatura mais que todas as outras foi meu pai... Imagine se tomba nas mãos desse senhor Pato a maquina de sondar o futuro! — Aplica-la-ia em enriquecer-se como dez Cresos, pendurando no corpo tanta quinquilharia de ouro que quando andasse na rua havia de tilintar. E a pobre humanidade, assombrada, era bem capaz de meter-se de joelhos á sua passagem, certa de que resurgira no mundo o Bezerro de Ouro disfarçado em homem.

— Bem razão tinha meu pai em não tornar publica a sua descoberta. Só mesmo um espirito de eleição como o dele poderia resistir ás tentações resultantes, concluiu miss Jane.

Soube nesse domingo muitos detalhes curiosos da vida do professor Benson, e de como chegara á descoberta da onda Z, ponto de partida para o mais.

— Foi o psiquismo que lhe revelou essa onda que resume e reflete a vida universal do momento. O fato de certos indivíduos agirem como polarizadores de uma força desconhecida impresionara profundamente a sua agudissima inteligencia. Meteu-se a estudar o fenomeno sob uma luz nova e chegou a apreende-lo de modo integral. Pobre pai! Falamos depois do nosso romance sobre o choque das raças na America.

— Sim, disse miss Jane animando-se. Contínuo a pensar que o senhor Ayrton não deve perder a oportunidade. Ouvirá de mim tudo o que sei a respeito e escreverá um livro deveras interessante. Não lhe prometo já, já, fazer essas revelações. Neste meu estado, compreende que me seria penoso. Mas o tempo cicatriza, eu sei, e lá chegaremos.

Para mim será até um derivativo á dor da saudade. Dizem que recordar é reviver e eu pressinto que minha vida vai resumir-se nisso: recordar, reviver o que tenho acumulado na memoria. Venha todos os domingos e creia que sua presença me será sempre agradavel — além de que estamos ligados pelo grande segredo...

CAPÍTULO X - Céu e Purgatorio

Regressei á cidade alegre como um pardal depois da chuva. As palavras de miss Jane valeram-me pela abertura do céu. Com que prazer não trabalharia a semana toda estimulado pela perspectiva de ve-la cada domingo! A firma chegou a notar o meu assanha-mento. O senhor Sá olhou-me de soslaio e murmurou para o socio de fraque: — Parece que o seresma viu passarinho verde...

Custou a passar o tempo, tanto a minha impaciencia alongava as horas. Mas passou e no domingo, depois de apurar-me na toalete como nunca, e lançar ao pescoço uma gravata nova verde-oliva com pintas de tom mais sombrio, voei, positivamente voei, ao castelo dos meus sonhos.

Já mais senhora de si, nesse dia miss Jane não falou tão exclusivamente de seu pai. Muito falou dele ainda, mas tambem discorreu de outros assuntos, dando começo afinal ás revelações que me serviram de base á novela.

Antes de mais nada externou-se quanto á situação presente do povo americano — e com palavras que me derrancaram as ideias. Sim, porque eu tinha a ingenuidade de posuir ideias assentes sobre o povo americano, apesar da mais absoluta ignorancia da psíquica e rumos que levava esse povo. Ideias pegadas no ar do escritorio, nas palestras dos cafés, na leitura de jornais redigidos por criaturas tão ignaras como eu, ideias que se nos grudam ao cerebro como o pó do asfalto nos adere ao rosto nos dias de calor. Do senhor Sá, por exemplo, ouvi dizer do americano (não a mim, está claro, que me não daria esta honra, mas ao senhor Pato): "Povo sem ideais, o mais materialão da terra. A gente do the biggest..." Era Sá quem o dizia e pois a afirmação me penetrou nos miolos como a propria Certeza. Nesse mesmo dia, num café, como na roda em que me achava se falasse da América, repeti a esmo, entre duas baforadas de um cigarro: — Povo sem ideais, o mais materialão da terra. A gente do the biggest...

Causou sensação, e é provavel que algum dos presentes fosse repetir alem, a bela síntese dos meus patrões — e por aqui se vê como certas ideias circulam á maneira de moeda e vão enriquecer o patrimonio ideologico de um povo...

Quando miss Jane abordou o assunto e de chofre perguntou-me que é que eu pensava do americano, imediatamente a bela sintese sapatesca me veio aos labios: — Povo sem ideais, o mais materialão da terra, a gente do the biggest... murmurei com enfase.

O efeito, porém, falhou. Pela primeira vez não vi na cara de um interlocutor a expressão aprovativa a que eu já me afizera. Miss Jane, ao contrario, sorriu com o inesquecível sorriso do professor Benson e disse: — Essa ideia não pode ser sua, senhor Ayrton. Soa-me a frase feita, das que se recebem no ar sem exame. A um povo que tenta romper com o alcool acha sem ideias? Poderá haver maior idealismo que o sacrifício de formidaveis interesses materiais do presente em vista de benefícios que só as gerações futuras poderão recolher? Se o senhor Ayrton observar um pouco a psique americana verá, ao contrario, que é o unico povo idealista que floresce hoje no mundo. Unico, vê? Apenas se dá o seguinte: o idealismo dos americanos não é o idealismo latino que recebemos com o sangue. Possuem-no de forma especifica, proprio, e de implantação impossivel em povos não dotados do mesmo carater racial. Possuem o idealismo organico. Nós temos o utopico. Veja a França. Estude a Convenção Francesa. Sessão permanente de utopismo furioso — e a resultar em que calamidades! Por que? Porque irrealizavel, contrario á natureza humana. Veja agora a America. Em todos os grandes momentos da sua historia, sempre vencedor o idealismo organico, o idealismo pragmatico, a programação das possibilidades que se ajeitam dentro da natureza humana. Leia Emerson e leia Rousseau. Terá os expoentes de duas mentalidades polares. Não acha o senhor Ayrton que é assim? Apressei-me em achar, se não de todo convencido ao menos vencido por tão ardorosos argumentos. Espantaram-me a fluidez, a clareza, o ímpeto com que miss Jane discordara. Vi bem clara a diferença que existe entre ter ideias proprias, frutos faceis e logicos de uma arvore nascida de boa semente e desenvolvida sem peias ou imposições externas — ser "arvore de natal", museu de ideias alheias pegadas daqui e dali, sem ligação organica com os galhos, donde não pendem de pedunculos naturais e sim de ganchinhos de arame. E comecei a aprender a tambem ser arvore como as que crescem no campo, e a deixar-me engalhar, enfolhar e frutificar livremente por mim proprio. Sinto hoje que a minha arvore mental cresce desafogada no sitio tanto tempo ocupado por uma arvore-cabide, onde Sás, Patos et caterva penduravam papel-ideias, coisa peor que o papel-moeda. Foi com miss Jane que aprendi a pensar.

— Idealista como nenhum outro povo, prosseguiu ela, e do unico idealismo verdadeiramente construtor da atualidade. Acompanhe a vida de Henry Ford, por exemplo, estude-lhe as ideias. Verá que nelas estão todas as soluções que no seu desvario de doida a Europa procura no despotismo. Por mais audacioso que nos pareça o pensamento de Henry Ford, que é ele senão o reflexo do mais elementar bom senso? Todos nós, creia, senhor Ayrton, temos conosco essas ideias, á primeira vista tão novas. No entanto, tamanha é a crosta que nos recobre o bom senso natural que Ford nos parece um messias da Ideia Nova. Ha um aparelho de limpar os tubos das caldeiras por onde passa a chama vinda da fornalha. Esses tubos, com o tempo, vão se encrostando de residuos carbonicos e acabam por se obstruírem. É necessario a espaços proceder-se a uma limpeza. Embora o uso das maquinas de vapor já seja bem velho, só recentemente se inventou o meio pratico de desencrosta-las: o martelo trepidante.

Ford me dá a sensação desse instrumento. É o martelo trepidante que nos desencrosta os tubos do cerebro, obstruídos pela fuligem das ideias falsas. Ninguem melhor do que eu poderá dizer isto de Henry Ford, porquanto devassei o futuro e por toda parte vi reflexos do seu pensamento. É pois o melhor tipo atual do idealista organico.

Sonha, mas sonha a realidade de amanhã. A desaglomeração da industria urbana, por exemplo, a estandardização de todos os produtos, a industria posta na base de uma associação de tres socios — trempe que abrange todas as classes sociais, a simplificação da vida pela eliminação dos milhares de coisas inuteis que hoje consomem tanto material e energia, tudo isso vai realizado no futuro e, no meu entender, com ponto de partida no idealismo pragmatico de Henry Ford.

— Realmente!... exclamei. Agora vejo que fazemos cá uma ideia apressada desse povo.

Eu me sentia cada vez mais desencrostado das minhas ideias falsas ante a vibração do gentil martelinho trepidante que era miss Jane...

— E o mundo americano não podia deixar de ser assim, senhor Ayrton, continuou ela. Note apenas: que é a America, senão a feliz zona que desde o inicio atraiu os elementos mais eugenicos das melhores raças europeias? Onde a força vital da raça branca, se não lá? Já a origem do americano entusiasma. Os primeiros colonos, quais foram eles? A gente do Mayflower, quem era ela? Homens de tal tempera, caracteres tão shakespearianos, que entre abjurar das convicções e emigrar para o deserto, para a terra vazia e selvagem onde tudo era inhospitalidade e dureza, não vacilaram um segundo. Emigrar ainda hoje vale por alto expoente de audacia, de elevação do tonus vital.

Deixar sua terra, seu lar, seus amigos, sua língua, cortar as raízes todas que desde a infancia nos prendem ao solo patrio, haverá maior heroísmo? Quem o faz é um forte, e só com esse fato já revela um belo índice de energia. Mas emigrar para o deserto, deixar a patria pelo desconhecido, isto é formidavel! — Realmente, realmente...

— Pois bem, continuou miss Jane, o processo inicial da America tornou-se o processo normal do seu acrescentamento no decorrer da historia. Ondas sucessivas dos melhores elementos europeus para lá se transportaram. Depois vieram as leis seletivas da emigração, e as massas que a procuravam, já de si boas, viram--se peneiradas ao chegar. Ficava a flor. O restolho voltava... Note o enriquecimento de valores humanos que isso representou para aquela nação.

Miss Jane falava com tanta alma, havia em suas palavras tal força persuasiva, que senti um ímpeto de revolta contra o senhor Sá.

Se esse homem me aparece naquele momento, eu era capaz de erguer contra ele a minha outrora tão humilde mão! — E hoje, prosseguiu miss Jane, hoje que se deslocou para lá o centro economico do mundo? Reflita um bocado na significação, não digo do povo americano, mas do fenomeno americano — o fenomeno eugenico americano. Estados Unidos querem hoje dizer um imenso foco luminoso num mundo de candieiros de azeite e velas de sebo. Todas as mariposas da terra têm os olhos fixos no deslumbrante foco — todos os artistas, todos os sabios, todos os espíritos animados da centelha criadora, que na sua patria não encontram condições propicias de desenvolvimento. Lá, a manhã radiosa de sol. No resto do mundo, varias especies de crepusculos... Cada vez mais vai sendo a Europa drenada de seus melhores elementos — as suas mariposas, e a Europa acabará amarelada pela pigmentação mongolica. Isso vi eu já bem denunciado nos cortes feitos no seculo 25.

— Mas, miss Jane, atrevi-me a dizer, não é logico que tambem invada a America esse asiatismo entrevisto? — Logico por que? O logico é que da semente da couve nasça o pé de couve e da do jequitibá nasça o jequitibá. A semente americana lançada em Plymouth era sã e era de jequitibá. O espirito de casta matou a Asia — do espirito de classe morrerá a Europa. A semente de que nasceu a America não continha em seus cotiledones essas venenosas toxinas.

— Mas deu origem a classes, tambem...

— Deu origem a classes, é certo, e os interesses das classes se tornaram antagonicos. Mas o espirito de exame dos fatos — e outra coisa não quer dizer o idealismo organico — interveio a tempo e harmonizou tais interesses. Quando Ford provou que não ha hostilidade entre o capital e o trabalho e sim mal-entendido — e o provou com o fato da sua formidavel realização, todos os olhos se abriram, e a industria, até ali Moloch devorador da classe que produz e da que consome em proveito da que detem os meios de produção, passou a ser a mais harmonizada das associações. Esse maravilhoso remedio criou a grande barreira contra o asiatismo invasor e ergueu a America do seculo 25 á posição de um mundo sadio e vivo dentro de um marasmo fatalista.

— Está tudo muito bem, adverti eu, mas nos Estados Unidos não penetraram apenas os elementos espontaneos que miss Jane aponta. Entrou ainda, á força, arrancado da Africa, o negro.

— Lá ia chegar. Entrou o negro e foi esse o unico erro inicial cometido naquela feliz composição.

— Erro impossível de ser corrigido, aventurei. Tambem aqui arrostamos com igual problema, mas a tempo acudimos com a solução pratica — e por isso penso que ainda somos mais pragmaticos do que os americanos. A nossa solução foi admiravel. Dentro de cem ou duzentos anos terá desaparecido por completo o nosso negro em virtude de cruzamentos sucessivos com o branco. Não acha que fomos felicíssimos na nossa solução? Miss Jane sorriu de novo com o meigo e enigmatico sorriso do professor Benson.

— Não acho, disse ela. A nossa solução foi medíocre. Estragou as duas raças, fundindo-as. O negro perdeu as suas admiraveis qualidades físicas de selvagem e o branco sofreu a inevitavel peora de carater, consequente a todos os cruzamentos entre raças dispares. Carater racial é uma cristalização que ás lentas se vai operando através dos seculos. O cruzamento perturba essa cristalização, liquefa-la, torna-a instavel. A nossa solução deu mau resultado.

— Quer dizer que prefere a solução americana, que não foi solução de coisa nenhuma, já que deixou as duas raças a se desenvolverem paralelas dentro do mesmo territorio separadas por uma barreira de odio? Aprova então o horror desse odio e todas as suas tristes consequencias? — Esse odio, ou melhor, esse orgulho, respondeu miss Jane, serena como se a propria Minerva falasse pela sua boca, foi a mais fecunda das profilaxias. Impediu que uma raça desnaturasse descristalizasse a outra, e conservou a ambas em estado de relativa pureza. Esse orgulho foi o criador do mais belo fenomeno da eclosão etnica que vi em meus cortes do futuro.

— Mas é horrível isso! exclamei revoltado, Miss Jane, um anjo de bondade, defende o mal...

Pela terceira vez a moça sorriu com o sorriso do professor Benson.

— Não ha mal nem bem no jogo das forças cosmicas. O odio desabrocha tantas maravilhas quanto o amor. O amor matou no Brasil a possibilidade de uma suprema expressão biologica. O odio criou na America a gloria do eugenismo humano...

Como era forte o pensamento de miss Jane! Dava-me a sensação dos fenomenos naturais, ora da brisa que passa e treme a folha das arvores, ora do jorro de sol que tudo ilumina. Seus olhos fulguravam e por vezes eu sentia neles o impeto sereno que os poetas gregos atribuíam a Palas. Meu sentimentalismo sofria com isso. "Poderia vir a amar-me uma criatura assim, tão alta de cerebro?". Tudo me levava a crer que não, e apesar disso eu esperava...

— Entre dar uma solução inepta e não dar solução nenhuma, o americano optou pela ultima alternativa, continuou miss Jane.

— Quer dizer que eternizou o problema, conclui vitorioso.

— A sua eternidade, senhor Ayrton, é bem precaria. Durará apenas mais 302 anos. O inevitavel choque das duas raças dar-se-á em 2228, e a solução...

— Já sei qual será! exclamei muito lampeiro. Um massacre em massa, uma chacina horrorosa!...

— Nada disso.

— Expulsam os negros de lá, então! adverti apressadamente, na minha ansia de adivinhar.

— Nada, nada disso.

Parei atrapalhado, mas num clarão apresentou-se-me a terceira hipotese.

— Dividem o país em duas partes, a negra e a branca! — Nada, ainda. Creio que por mais esforços que o senhor Ayrton faça não adivinhará.

Refleti alguns instantes a ver se me ocorria uma quarta hipotese.

Não ocorreu coisa nenhuma e confessei-me vencido.

— Se a solução não vai ser alguma destas, quer dizer que o caso fica insoluvel, rematei.

— Ao contrario. Será solvido da maneira mais completa, sem sacrifício dos negros existentes e sem transigencia dos brancos. O orgulho é criador, senhor Ayrton e além disso, extremamente engenhoso...

Era hora de retirar-me.

Beijei a mão de miss Jane e saí pela estrada afora a parafusar no tremendo quebra-cabeça. Depois volvi para ela os meus pensamentos e passei a semana inteira a recordar as suas palavras e gestos, num grande enlevo d'alma. O senhor Sá notou-o e disse ao socio: — Isto ou é amor ou é espinhela caida.

Era amor. Em tudo eu via miss Jane. Nas moças que se cruzavam por mim nas ruas eu só via os traços que tinham de comum com miss Jane — esta a linha dos ombros; aquela o tom dos cabelos. Meus sonhos se complicavam estranhamente, mas neles Freud leria claro como numa cartilha infantil. O mundo futuro me surgia caotico, informe, com chins em Paris e homens sem pressa em New York, a conversarem sentados no meio das ruas — e que ruas! Wall Street, Broadway... Depois surgia miss Jane como o Tudo e eu mergulhava em extase.

Amor! Amor!

CAPITULO XI - No Ano 2228

Voltei ao castelo e minha amiga deu começo enfim as suas revelações sobre o choque das raças.

— Decifrou o quebra-cabeças? perguntou-me logo que entrei.

— É dos indecifraveis, respondi — dos indecifraveis para quem não inventou nenhum porviroscopio. Um ponto, entretanto, me intriga.

Acho que a população negra da America é muito pequena em relação á branca para que possa jamais constituir perigo.

— Seria assim, de fato, emendou a moça, se com o crescer do país a proporção se conservasse sempre a mesma. Não foi exatamente isso o que se deu. Enquanto a corrente imigratoria europeia trazia ondas e mais ondas de brancos a somarem-se aos já estabelecidos no país, nada alarmava, nem deixava vislumbrar um futuro agravamento da situação. Mas essas ondas foram diminuindo em virtude dos obstaculos opostos á entrada de imigrantes, e por fim sobreveio um maquiavelico sistema de drenagem. Em vez de entrada franca a quem quisesse vir localizar-se no país, organizou o governo americano em todas as nações do velho mundo um serviço de importação de valores humanos, consistente em atrair para lá a fina flor eugenica das melhores raças europeias. Já aliviada do seu ouro em favor da America, viu-se a Europa tambem aliviada da sua elite.

— Desnataram a pobre Europa! Só deixaram no velho mundo o soro...

— Isso mesmo. Daí a qualificação de maquiavelico dada ao sistema. Os mais perfeitos tipos de beleza plastica, as mais fortes inteligencias, os mais puros valores morais, eram descobertos onde quer que florescessem e seduzidos, de modo a, mais cedo ou mais tarde, se localizarem na Canaã americana. Por fim achou-se o país bastante povoado; e a mentalidade proibicionista, assustada com o espetro do super-povoamento, suplantou a imigracionista. Fecharamse todas as portas ao fluxo europeu e a nação passou a crescer vegetativamente apenas. Data daí a "inflação do pigmento".

Até essa epoca a população negra representava um sexto da população total do país. A predominancia do branco era pois esmagadora e de molde a não arrastar o americano a ver no negro um perigo serio. Mas com o proibicionismo coincidiu o surto das ideias eugenisticas de Francis Galton. As elites pensantes convenceram-se de que a restrição da natalidade se impunha por mil e uma razões, resumiveis no velho truismo: qualidade vale mais que quantidade.

Deu-se então a ruptura da balança. Os brancos entraram a primar em qualidade, enquanto os negros persistiam em avultar em quantidade.

Foi a maré montante do pigmento. Mais tarde, quando a eugenia venceu em toda a linha e se criou o Ministerio da Seleção Artificial, o surto negro já era imenso.

— Ministerio da Seleção Artificial? — Sim. O grande Ministerio, o verdadeiro fator da espantosa transformação sofrida pelo povo americano. O seu espirito criador, a coragem de enveredar por sendas novas sem esperar que outros o fizessem primeiro, deu áquele povo um enorme avanço sobre os demais.

Essas restrições melhoraram de maneira impressionante a qualidade do homem. O numero dos mal-formados no fisico desceu a proporções. minimas — sobretudo depois do resurgimento da sabia lei espartana.

— A que matava no nascedouro as crianças defeituosas? exclamei arrepiado. Tiveram eles a coragem de fazer isso? — Se o senhor Ayrton visse, como eu vi, o resultado dessa e de outras leis semelhantes, só se admiraria da estupidez do homem em retardar por tanto tempo a adoção de normas tão fecundas. Entre cortar no inicio o fio da vida a uma posta de carne sem sombra de consciencia e deixar que dela saia o ser consciente que vai vegetar anos e anos na horrível categoria dos "desgraçados", a crueldade está no segundo processo. A lei espartana reduziu praticamente a zero o numero dos desgraçados por defeito fisico. Restavam os desgraçados por defeito mental.

— De numero infinito...

— Esses foram impedidos de se reproduzirem pela Lei Owen, fruto das grandes ideias pregadas por Walter Owen. Walter Owen foi o verdadeiro remodelador da raça branca na America. Apareceu cento e poucos anos antes do choque das raças com o seu famoso livro O Direito de Procriar, onde lançava os fundamentos do Codigo da Raça, conjunto de leis tão sabias e fecundas em resultados que, podemos dizer, a Era Nova da raça humana datou da sua promulgação. A lei Owen, como era chamado esse Codigo da Raça, promoveu a esterilização dos tarados, dos mal-formados mentais, de todos os indivíduos em suma capazes de prejudicar com má progenie o futuro da especie. Só depois da aplicação de tais leis é que foi possível realizar o grandioso programa de seleção que já havia empolgado todos os espíritos. Os admiraveis processos hoje em emprego na criação dos belos cavalos puro-sangue passaram a reger a criação do homem na America.

— E lá se foram os peludos!...

— Exatissimamente... Desapareceram os peludos — os surdosmudos, os aleijados, os loucos, os morfeticos, os histericos, os criminosos natos, os fanaticos, os gramaticos, os misticos, os retoricos, os vigaristas, os corruptores de donzelas, as prostitutas, a legião inteira de mal-formados no fisico e no moral, causadores de todas as perturbações da sociedade humana. Essas leis está claro que eram fortemente restritivas da natalidade, sobretudo, no começo, quando havia quasi tanto joio quanto trigo. Crescer para a America não equivalia mais a avultar ás tontas em numero, como hoje, e sim a elevar o indice mental e fisico dos seus habitantes. Os Estados Unidos (e o Canadá, que já se fundira neles) cresciam dessa maneira admiravel, se bem que incompreensível para nós hoje, que vivemos em plena licenciosa anarquia procriadora.

Miss Jane tomou folego e prosseguiu: — Mas... o "mas" perturbador de todos os calculos humanos surgiu. Apesar de submetida aos mesmos processos restritivos dos brancos, a raça negra começou desde logo a apresentar um indice mais alto de crescimento. A proporção do negro puro relativa ao branco subiu a um quinto, a um quarto, a um terço, e por fim chegou á metade... Quer dizer que o binomio racial, desprezado na era do crescimento imigratorio e descurado no inicio do regime seletivo, passou a entrar na fase aguda do "resolve-me ou devoro-te".

— Em quantos eram calculados os negros nesse momento? — Na era em que tomamos este corte anatomico do futuro, ano 2228, as estatísticas apresentavam dados alarmantes. Negros, 108 milhões; brancos, 206 milhões. E como o coeficente da natalidade negra acusasse uma nova subida, o instinto de conservação dos brancos eriçou-se nos primeiros arrepios da legitima defesa. Dos muitos alvitres propostos para de uma vez por todas arrancar a America do seu beco sem saida predominavam duas correntes de ideias contrarias, conhecidas por "solução branca" e "solução negra".

A solução branca...

— Já sei! exclamei aflito por acertar uma só vez que fosse. A solução branca era expatriar o negro!...

— Muito bem! confirmou miss Jane, alegre de ter-me proporcionado um inocente prazer mental. Queriam os brancos a expatriação dos negros para o . . .

— Vale do Amazonas! exclamei de novo, radiante do meu sucesso anterior e esperançoso de segunda vitoria. Dias antes eu lera não sei onde uma qualquer coisa que me deixara entrever isso.

— Bravos! Nesse andar vai o senhor Ayrton substituir com vantagem o nosso porviroscopio perdido. Para esse vale, sim. O antigo Brasil cindira-se em dois países, um centralizador de toda a grandeza sul-americana, filho que era do imenso foco industrial surgido ás margens do rio Paraná. Com as cataratas gigantescas ao longo do seu curso, acabou esse fecundo Nilo da America transformado na espinha dorsal do país que em eficiencia ocupava no mundo o lugar imediato aos Estados Unidos. O outro, uma republica tropical, agitava-se ainda nas velhas convulsões políticas e filologicas. Discutiam sistemas de voto e a colocação dos pronomes da semi-morta lingua portuguesa. Os sociologos viam nisso o reflexo do desequilíbrio sanguíneo consequente á fusão de quatro raças distintas, o branco, o negro, o vermelho e o amarelo, este ultimo predominante no vale do Amazonas.

Não pude deixar de estremecer diante das revelações de miss Jane sobre o futuro do meu país.

— Que tristeza, miss Jane! exclamei compungido. Pois vai dar-se isso então? — Não vejo motivos para a sua tristeza, respondeu ela. Acho até que a divisão do país constitui uma solução otima, a melhor possível, dado o erro inicial da mistura das raças. A parte quente ficou a sofrer o erro e suas consequencias; mas a parte temperada salvou-se e pode seguir o caminho certo. A sua tristeza vem da ilusão territorial.

Mas reflita que a muita terra não é que faz a grandeza de um povo e sim a qualidade dos seus habitantes. O Brasil temperado, além disso, continuou a ser um dos grandes paises do mundo em territorio, visto como fundia no mesmo bloco a Argentina, o Uruguai e o Paraguai.

Enchi-me de orgulho patriotico e sem querer levantei-me da cadeira com um hurrah entalado na garganta.

— Vencemos a Argentina, então? Conquistamos todo o Prata? — Errou desta vez, senhor Ayrton. Não houve guerra, nem conquista de qualquer especie. Os povos deste sul abriram os olhos a tempo, viram que a espinha dorsal da zona era o rio Paraná e foram-se arrumando ao longo das suas quedas como costelas, formando um todo unico, mais ligados pelos interesses economicos e geograficos do que por vinculas de sangue.

— Mas a velha rivalidade entre brasileiros e argentinos? — Não passava de uma ingenua voz de sangue. Brasileiros e argentinos, descendentes de lusos e espanhois, encampavam sem o saber o velho antagonismo que sempre dividiu a península iberica.

Mas tantas ondas de sangue novo despejou cá a imigração, que o elemento inicial luso-espanhol foi suplantado e não teve forças para perpetuar a ingenua rivalidade hereditaria — Mas por que dividiram o Brasil? perguntei ainda mal consolado. Era só povoar o norte da mesma maneira que o sul. . .

— Um país não é povoado como se quer, senhor Ayrton, ou como apraz aos idealistas. Um país povoa-se como pode. No nosso caso foi o clima que estabeleceu a separação. Dos europeus só os portugueses se aclimavam na zona quente, onde, graças ás afinidades com o negro, continuaram o velho processo de mestiçamento, acabando por formar um povo de mentalidade incompatível com a do sul.

Mas voltemos á America do Norte. O nosso caso é o americano. Mais tarde revelarei ao senhor Ayrton o que se passou no Brasil e como surgiu a grande Republica do Paraná. Estavamos na solução branca, e direi que todos os brancos americanos só queriam uma coisa: exportar, despejar os cem milhões de negros americanos no vale do Amazonas. Isso, entretanto, constituia uma empresa formidavel ou, melhor, impraticavel, não só em virtude de tremendas dificuldades materiais como por ferir de face a Constituição Americana. O pacto fundamental do grande povo era profundamente sabio, tão sabio que conseguira elevar a antiga colonia inglesa á liderança universal e, pois, gozava de um respeito na verdade supersticioso. Essa carta impedia uma duplicidade de tratamento para cidadãos iguais entre si perante a sua serena majestade de lei substantiva.

Já os negros se batiam por uma solução muito mais viavel e justa.

Queriam a divisão do país em duas partes, o sul para os negros e o norte para os brancos. Alegavam que era a America tanto de uma raça como de outra, visto como saira do esforço de ambas; e já que não podiam gozar juntas da obra feita em comum, o razoavel seria dividir-se o territorio em dois pedaços. Mas como os brancos preferiam continuar no status-quo a resolver o caso por esse processo, o problema racial permanecia de pé, cada vez mais ameaçador.

Dez anos antes começara a aparecer na cena americana um vulto de excepcional envergadura: Jim Roy, o negro de genio. Tinha a figura atletica do senegalês dos nossos tempos, apesar da modificação craniana sofrida por influencia do meio. Tal modificação o aproximava do tipo dos antigos aborigines encontrados por Colombo. Era esse, aliás, o tipo predominante no país inteiro, e cada vez mais acentuado depois que a interrupção da corrente imigratoria permitiu um evoluir etnico não perturbado por injeções estranhas. Até na tez levemente acobreada começava a transparecer nos americanos a misteriosa influencia do ambiente geografico.

— Engraçado! Quer dizer que com o tempo todos iam virando indios...

— Não quer dizem bem isso, e sim que se aproximavam um pouco do tipo amerindio, no que pude observar. Talvez que dentro de vinte ou trinta mil anos a sua hipotese esteja realizada.

Infelizmente o aparelho que meu pai construiu não ia além do ano 3257.

Em Jim Roy a sua semelhança com um mestiço de senegalês e pelevermelha (coisa impossível, pois de ha muito já não existia um só indio na America) acentuava-se pela côr da pele, nada relembrativa da côr classica dos pretos de hoje.

— Influencia do meio? — Não. Não foi isso milagre da influencia do meio, nem era coisa singular, privativa de Jim Roy. Quasi toda a população negra da America apresentava pele igual á sua. A ciencia havia resolvido o caso de côr pela destruição do pigmento. De modo que se Jim Roy aparecesse diante de nós hoje, surpreenderia da maneira mais desconcertante, visto como esse negro de raça puríssima, sem uma só gota de sangue branco nas veias, era, apesar de ter o cabelo carapinha, horrivelmente esbranquiçado.

— Albino? — Não albino. Esbranquiçado — um pouco desse tom duvidoso das mulatas de hoje que borram a cara de creme e pó de arroz...

— Barata descascada, sei.

— Mas nem eliminando com os recursos da ciencia o caracteristico essencial da raça deixavam os negros de ser negros na America. Antes agravavam a sua situação social, porque os brancos, orgulhosos da pureza etnica e do privilegio da côr branca ingenita, não lhes podiam perdoar aquela camouflage da despigmentação.

Era Jim Roy na realidade um homem de imenso valor. Nascera fadado a altos destinos, com a marca dos condutores de povos impressa em todas as facetas da sua individualidade. Como organizador e menear talvez superasse os mais famosos organizadores surgidos entre os brancos. A historia da humanidade poucos exemplos apresentava de uma eficiencia igual á sua. Consagrara-se desde muito jovem á execução dum plano de genio, traçado nas linhas mestras com a mais perfeita compreensão do material humano sobre que pretendia agir.

— Está me lembrando o velho Moisés...

— Jim Roy conseguira o milagre da associação integral da população negra sob a bandeira dum partido político cujas forças, coletadas por extensa cadeia de agentes distritais, vinham, como fios telefonicos, ter á estação central da sua chefia suprema. Sempre sabias e construtoras, suas instruções desciam com autoridade de dogmas sobre todas as celulas da Associação Negra (era o nome do partido) e as fazia moverem-se como puros automatos. Esta abdicação, ou melhor, esta sujeição consciente e consentida de todas as vontades a uma vontade unica aperfeiçoara-se de tal modo que no ano da tragedia a situação politica dos Estados Unidos passou de fato a depender do lider negro.

— Passou a depender dele como? Pois não eram os negros apenas cem para duzentos milhões de brancos? — Não se impaciente, senhor Ayrton. Temos que ir por partes.

Disse eu que a situação politica da America passou a depender de Jim Roy e foi fato. Mas antes de lá chegarmos temos que fazer um rodeio politico. Gosta de politica, senhor Ayrton? — Nem eleitor sou, miss Jane.

— E da politica feminina? — Essa desconheço. Suponho, entretanto, que ha de ser mais felina que a dos homens...

CAPITULO XII - A Simbiose Desmascarada

— Mais felina, sim, e muito mais pitoresca, prosseguiu miss Jane. Não imagina o senhor Ayrton como o cerebro da mulher é rico de estratagemas, e com que ardor conduzem elas uma campanha politica. Vinha daí que o proximo pleito se desenhava renhidissimo.

Ia a republica dos Estados Unidos eleger dentro de poucos dias o seu 88.° presidente, proporcionando assim a um mundo perturbado por sucessivas mudanças de forma politica um exemplo de fixidez na forma inicial só comparavel ao passado monarquico da Inglaterra. Os velhos partidos Democratico e Republicano haviam-se fundido num forte bloco sob a denominação de Partido Masculino. Mesmo assim não se via seguro da vitoria, porque o partido contrario, o Feminino, dispunha de maior numero de vozes. Estava pois em jogo o prestigio político do homem, batido pelo da mulher em todos os campos de atividade e a defender agora o seu ultimo reduto — a presidencia da republica. Até então nenhuma mulher conseguira alcançar ao posto supremo, embora no pleito anterior miss Evelyn Astor houvesse perdido por insignificante minoria.

— Quem era essa bicha? Alguma chefa do partido feminino? — Sim, uma chefa que insistia na sua candidatura, e agora com mais probabilidade de vitoria, visto como era possível que o grande líder negro se deixasse levar pela sedução dos seus argumentos e desse apoio ao Partido Feminino.

Do outro lado o senhor Kerlog, presidente em exercício e candidato á reeleição, só via possibilidade de exito se obtivesse o concurso de Jim, como sucedera no pleito anterior.

As melhores estatísticas davam ao Partido Masculino 51 milhões de vozes, ao Partido Feminino 51 e meio e á Associação Negra, contados os votantes de ambos os sexos, 54 milhões. A proxima eleição dependeria pois exclusivamente da atitude do grande negro.

— Miss Evelyn Astor! exclamei. Lindo nome. Já me estou simpatizando por essa criatura, que talvez esteja no meu proprio calcanhar. Havia de ser linda, não? — De fato, nessa criatura habilissima, rica de todos os dotes da inteligencia, da cultura e da maquiavelica sagacidade feminina, se juntava um elemento perturbador, novo no jogo político presidencial: a sua rara beleza fisica.

Embora, graças á vitoria da eugenia, fosse regra a beleza, em vez de exceção como hoje, mesmo assim a formosura de miss Evelyn Astor se destacava de modo obsedante. Ninguem a defrontava sem sentir-se envolvido por uma aura de harmonia transfeita em força de dominação.

Em todas as epocas as mulheres dotadas de beleza sempre dominaram, atrás dos tronos como favoritas, na sociedade como cortesãs, no lar como boas deusas humanas, mas sempre por intermedio do homem — o despota, o amante, o marido, detentores em sua qualidade de machos de todas as prerrogativas sociais. No futuro a dominação da beleza feminina não se fará mais por intermedio do macho. Éra da Harmonia, a beleza se tornará uma força pura, como pura expressão que é da harmonia.

Nesse ano de 2228 já a mulher vencera o seu estagio de inferioridade política e cultural, consequencia menos duma pretensa inferioridade do cerebro, como dizia miss Elvin...

— Miss Elvin? — Espere. Menos de uma pretensa inferioridade de cerebro do que de uma organização cerebral diversa da do homem e, portanto, inapta a produzir o mesmo rendimento quando submetida ao mesmo regime de educação. Mis Elvin... Como está assanhado o senhor Ayrton! Não se contentou com a mulher futura que já lhe dei, miss Astor, e quer outra? Que ilusão a de miss Jane! Eu queria apenas, de todas as mulheres passadas, presentes e futuras, uma só — a que me falava naquele momento, tão alheia ás emoções borbulhantes em meu coração...

— Miss Elvin era a autoria de Simbiose Desmascarada, um livro que graças á alegria do estilo e ao fulgor dos argumentos vinha causando verdadeira reviravolta no publico. A ideia central de miss Elvin cifrava-se em que a mulher não constituía a femea natural do homem, como a leoa o é do leão, a galinha do galo, a delfina do delfim. A femea natural do homem ele a repudiara em epoca recuadissima — e tudo levava a crer na extinção desse pobre animal.

Repudiara-a e tomara para si, como os antigos romanos fizeram ás sabinas, a femea de um outro mamífero de vagas semelhanças anatomicas com o Homo. Supunha miss Elvin que seriam anfíbios esses "sabinos" pre-historicos, assim romanamente despojados das suas femeas. E recreando a imaginação com um pouco de fantasia, chegou a descrever num segundo livro de igual sucesso o "mas sacre dos sabinos" quando, do seio das ondas acudiram ás praias em defesa das raptadas metades. Vinha daí o carater ondeante da mulher. "She was false as water", já o dissera Shakespeare.

— Que topete! exclamei. Pelo que vejo as mulheres do futuro não beneficiaram grandemente os miolos com o remedio da eugenia...

— O senhor Ayrton está um pouco passadista e corre muito depressa no Ford das suas conclusões, respondeu miss Jane com doce ironia. Nada ha mais fecundo do que a ventilação das ideias aceitas, do que o abalo violento em certas bases mentais. Põe-nas á prova e revelam-lhes alguma racha ou lacuna, se as ha. Com o seu exagero, miss Gloria Elvin não ressuscitou o sabino — mas quantas consequencias indiretas não brotaram da sua revolta! — Retiro o topete, miss Jane; continue.

— Pois o Homo suplantou o mamífero adverso e de posse da femea alheia veiu através das idades tentando um equilíbrio sexual impossível. A falsa femea, o ser estranho ligado a ele por simbiose, sempre resistiu ao seu domínio, apesar de um processo de domesticação multi-milenar. Todas as formas de vida em comum, todos os modos de associação sexual existentes na natureza foram tentados sem sucesso. O harem muçulmano, a poligamia, a monogamia, a bigamia, a poliandria, o hetairismo, nada produzia bons resultados; e a mulher, por voz unanime dos poetas e pensadores, se viu classificada como um ser incompreensível.

Miss Elvin desvendou o misterio. Não era um ser incompreensivel.

Era apenas diferente.

Mais fraca em força física e, portanto, escravizavel, a sabina defendeu-se da tirania do raptor com o manejo de uma arma perigosissima, a dissimulação — reflexo ainda do carater ondeante do seu elemento primitivo, o mar. Quando no mundo surgiu o feminismo, toda a gente supôs que a solução do problema da mulher estava em nivela-la ao homem pela cultura e igualdade de direitos.

Erro cascudo, demonstrou miss Elvin. A cultura como a criara o homem não se adaptava ao cerebro da mulher, de funcionamento especialissimo e sempre influenciado por certas glandulas misteriosas.

Falhou por isso o feminismo. De toda a sua agitação só veio a resultar uma coisa; a feminista, a odiosa mulher-homem, que pensava com ideais de homem, usava colarinhos de homem, conseguindo com isso apenas...

— ...não ser homem nem mulher, conclui eu, lembrando-me duma sufragista do meu conhecimento.

— Perfeitamente. Os estudos de miss Elvin modificaram por completo os termos de equação sexual. Basta de simbiose, dizia ela; basta de vida em comum em troca de serviços recíprocos. A mulher passa doravante a viver vida autonoma; e se ainda permanece ao lado do "gorila" no antigo status-quo sexual, será a titulo provisorio apenas e em vista unicamente dos interesses proliferantes das especies respectivas. Porque miss Elvin não perdia a esperança de promover o descobrimento e a ressurreição do sabino pre-historico...

— Irra! exclamei com uma pontinha de despeito. Está aí: a coisa unica que o homem jamais previu: o surto de uma especie rival! — De fato. Os arrojos de miss Elvin punham calafrios na espinha do Homo. Ela tirava todas as consequencias logicas da sua teoria, chegando ao extremo de pregar guerra de morte contra o "insolente raptor".

Miss Astor era elvinista e, pois, a sua candidatura á presidencia inquietava de modo duplo o Partido Masculino. Sua vitoria coroaria o movimento feminino com a unica sanção que lhe faltava, a do poder; seria, se não o crepusculo do dominio dos homens (já de bases corroidas pelas vitorias parciais da mulher), pelo menos uma humilhante diminuição.

O problema americano se complicava assim da mais imprevista maneira. Alem do aspecto etnico — o inevitavel choque da raça branca com a negra, — surgira o aspecto, como direi? especial, isto é, o conflito das duas especies de mamíferos — Homo e Sabinas — cuja simbiose fôra denunciada.

O lider masculino, o Presidente Kerlog, tinha esperanças de um acordo com Jim Roy. Jim era homem e havia de inclinar-se para a facção do seu sexo. Com miss Evelyn Astor é que não enxergava possibilidades de entendimento. Tivera com a formosa antagonista uma conferencia, mas a sua impressão, resumida em poucas palavras na presença do ministerio, fôra inquietante.

— "Não nos entendemos, declarou ele. As palavras que nós homens usamos têm na boca de miss Astor um sentido diverso. Em certo ponto tive a sensação de que estavamos eu a falar inglês e ela a responder-me em hebraico, lingua que positivamente desconheço.

Estou quasi convencido de que nasceu nas mulheres alguma glandula nova..." — "Ou perderam alguma glandula velha", rosnou da sua poltrona Berald Shaw, o pachorrento ministro da Equidade.

CAPITULO XIII - Política de 2228

Nessa mesma reunião ministerial, prosseguiu miss Jane, o Presidente Kerlog teve palavras de fazer refletir os ouvintes.

— "O nosso predomínio vejo-o ameaçado, se não de ruína, pelo menos de fundas transformações. Avoluma-se a onda negra — e a ela resistiriamos se a cisão elvinista não viesse enfraquecer o nosso peso político. Mas o eleitorado branco está cindido, e agora mais que nunca vai funcionar a massa negra como o fiel da balança dos destinos da America. Venceremos, pois o concurso de Roy, embora negaceado para nos extorquir concessões, virá infalivelmente á ultima hora.

Imagino com que horror não verá ele os progressos do sabinismo! Mas havemos de confessar que é precaria a situação do nosso partido, com a vida assim dependente da boa vontade de um manhoso lider negro..." — Que concessões queria Jim Roy? perguntei.

— Essa mesma pergunta fez ao senhor Kerlog o ministro da Seleção Artificial. "Quer, respondeu o presidente, uma entente no terreno seletivo. Insiste na atenuação da lei Owen." Os rigores desta lei tinham-se agravado no ano anterior, com o fim muito claro de fazer cair o índice do crescimento negro. Isso contrariava a política racial de Jim Roy, toda resumida em favorecer a expansão do seu povo até o ponto que lhe permitisse forçar o branco á divisão do país.

Por coisa nenhuma queriam os brancos transigir no terreno restritivo da Lei Owen — seria um suicídio. Mas a situação metera a política naquele buraco: ou ceder ás exigencias de Jim Roy ou assistir á vitoria das mamíferas rebeldes.

Quando o presidente terminou a sua exposição calaram-se os ministros por algum tempo, de queixo preso. Qualquer das hipoteses não agradava ao macho branco. Mas como a sabedoria pragmatica consiste cm acudir primeiro ao perigo mais proximo, foi acordado ceder ás exigencias do lider negro.

Os ministros retiraram-se dessa reunião de tal modo apreensivos que não viram, no quadro onde se estampavam de minuto em minuto as comunicações dos agentes do governo, um radio que naquele momento acabava de inscrever-se em letras luminosas: Miss Astor está em conferencia com Jim Roy.

O Presidente Kerlog fixou os olhos no quadro informativo e permaneceu uns instantes a morder uma espatula de vidro flexível como aço.

— "Não a entendi", murmurou, "não nos entendemos em nossa conferencia. Mas com Jim vai ela falar a velha linguagem inteligível..." Mordiscou ainda por algum tempo a espatula. Depois ergueu-se, risonho.

— "Mas não vencerá o orgulho sexual de Roy! Jim Roy é homem e vê como eu o perigo da vitoria sabina..." — Que curioso devia ter sido esse encontro de miss Astor com Jim Roy, dois seres tão distantes! disse eu.

— Realmente, concordou miss Jane. O ve-los um defronte do outro no gabinete de trabalho da grande elvinista lembrava acareação de garça do Amazonas com raposa branquicenta da Siberia. Eram dois seres sem a menor aproximação de aparencias externas, formando um quadro proprio como nenhum outro para ilustrar a teoria de miss Elvin. Parecia até inconcebível que por tanto tempo fossem as duas criaturas classificadas na mesma especie pela ciencia macha. A radiosa beleza da Sabina mutans (assim a zoologia de miss Elvin classificava a ex-femea do Homo sapiens) iradiava um verdadeiro halo de fascínio. Criatura nenhuma envolvida por essa aura conseguia libertarse dos seus amavios magnetizadores. Miss Astor, se falava, não era por necessidade de falar, porque convencia pela presença. Mas achava-se naquele momento em face do talvez unico representante da especie antagonista imunizado contra a ação catalizadora da beleza. Jim Roy valia pelo símbolo da força. A raça espezinhada confluira-se toda nele, transformando-o num feixe de energias indomaveis. Em toda a sua vida publica jamais esse negro dera um só passo ou pronunciara uma só palavra que se não norteasse pela grande ideia que trazia embutida no cerebro. Não era um indivíduo, Jim. Era a propria raça negra por um milagre de compressão posta inteira dentro de um homem.

Miss Astor o sentiu imediatamente. Percebeu que tinha diante de si uma força insubornavel e inseduzivel. E, compreendendo o inutil dos volteios de onda em torno de rocha tão dura, abordou de frente o assunto.

— "O choque das raças vai dar-se, disse ela. Precipita-se. Será um conflito tremendo, mas só no caso de estar no poder o homem branco, criador do odio ao negro. Tudo mudará, se em vez desse implacavel inimigo comum estivermos no poder nós mulheres". Jim Roy franziu os sobrolhos.

— "Inimigo comum, sim, prosseguiu miss Astor. Ambas somos suas escravas; mas se a escravização dos teus, Jim, data de seculos, a nossa data de milenios. Caso o poder supremo venha ter ás mãos da mulher, o choque se atenuará, porque saberemos ser conciliantes, e haverá enorme economia de sofrimento futuro, se operar-se sem demora a aliança política do elvinismo com o elemento negro. Acresce uma circunstancia: os negros são conhecedores dos processos do macho branco e sabem muito bem o que dele podem esperar. Mas desconhecem os processos femininos; dada a contradição de ideias e sentimentos que hoje afasta as sabinas do gorila evoluído, só têm vantagens a esperar da vitoria elvinista".

E foi por aí além miss Astor. Mostrou-se palavrosa e abundante, visto que sentia falhar ante a firmeza do grande líder negro o prestigio da sua "ação de presença".

Jim Roy ouviu-a com serena impassibilidade, sem que um sorriso ou ruga de apreensão lhe quebrasse a calma das feições, e ao responder limitou-se a promessas ondeantes, fechado em formulas vagas e de duplo sentido.

Finda a conferencia miss Astor permaneceu imovel na sua poltrona, a refletir.

— "Como este diabo assimilou bem a lingua da velha diplomacia, a lingua que parecendo dizer alguma coisa não dizia nada!" E quando naquele mesmo gabinete se reuniram suas amigas e colaboradoras, ansiosas por conhecerem os resultados da enterite com Jim Roy, foi com o olhar cismarento que miss Astor murmurou: — "Qualquer coisa me diz que o lider negro incuba um plano secreto..." — "Contra quem?" — "Ignoro-o. Nada ha de deduzir das suas palavras, perfeitas palavras de diplomata. Mas o meu senso divinatorio não mente, Jim vai trair..."

CAPITULO XIV - Eficiência e Eugenia

— O aspecto da vida americana, continuou miss Jane, mudara muito por efeito das invenções e de um grande principio peculiar ao yankee.

Quem olhasse de um ponto elevado o panorama historico dos povos, veria, na França, uma flamula com tres palavras; na Inglaterra, um principio diretor, Tradição; na Alemanha, uma formula, Organização; na Asia, um sentimento, Fatalismo. Mas ao voltar os olhos para a America perceberia fluidificado no ambiente um principio novo — Eficiencia.

Só a America encontrara o Sesamo que abre todas as portas. Só a America, portanto, era Ação num mundo a insistir em caminhos errados e sempre a oscilar entre dois polos — Agitação Esteril e Marasmo Fatalista.

O principio da Eficiencia resolvera todos os problemas materiais dos americanos, como o eugenismo resolvera todos os seus problemas morais. Na operosidade e uniformidade do tipo, aquele povo lembrava a colmeia das abelhas. Quasi não havia distinguir um indivíduo de outro, pois tomar um homem ao acaso era ter nas mãos uma poderosa unidade de eficiencia dentro de um admiravel tipo de ariano peleavermelhado.

As mulheres não mais evocavam fisicamente as suas avós, magras umas, outras gordas, esta toda nadegas, aquela uma tabua ou de normes seios e dentes de cavalo — verdadeira coleção de monstruosidades anatomicas. Nem recordavam socialmente as pobres cativas de dantes, forçadas a girar no triangulo de ferro — casamento, celibato á força ou promiscuidade.

Finas sem magreza, ageis sem macaquice, treinadas de musculos por meio de sabios esportes, conseguiram alcançar a beleza nervosa das eguas puro-sangue — o que trouxe a decadencia do hipismo. Já não necessitavam os homens de dedicar-se aos cavalos para satisfação da ansia secreta da beleza perfeita...

— Que pena ter-se perdido o porviroscopio do professor Benson! exclamei. O que eu não daria para uma espiadela nesse maravilhoso futuro!... Lindas, então, assim? perguntei levemente assanhado.

— E habeis, respondeu miss Jane. Competiam com o homem em todas as profissões num absoluto pé de igualdade, realizando o velho ideal da independencia. Os filhos lhes pertenciam e não ao progenitor, sistema matriarcal muito mais dentro da natureza, visto como o filho é mais da mãe do que do pai na proporção de nove meses para meio minuto.

Tossi uma tossezinha de encomenda; miss Jane não o percebeu e continuou: — O caracteristico mais frisante dessa epoca, toda via, estava na organização do trabalho. Todos produziam. Muito cedo chegou o americano á conclusão de que os males do mundo vinham de tres pesos mortos que sobrecarregavam a sociedade — o vadio, o doente e o pobre. Em vez de combater esses pesos mortos por meio do castigo, do remedio e da esmola, como se faz hoje, adotou solução muito mais inteligente: suprimi-los. A eugenia deu cabo do primeiro, a higiene do segundo e a eficiencia do ultimo. Aliviada da carga inutil que tanto a embaraçava e afeava, pôde a America aproximar-se de um tipo de associação já existente na natureza, a colmeia — mas a colmeia da abelha que raciocina.

— Que maravilha! exclamei pesaroso de ter vindo ao mundo cedo demais. E o governo, miss Jane? Deixou de ser essa calamidade que é hoje? — Os princípios da eficiencia tambem haviam penetrado no organismo governamental. Deixou o governo de sugerir a lembrança dos hediondos "sistemas de parasitismo" de outrora e de hoje, como a realeza de França ou o devorismo orçamentario de certas republicas nossas conhecidas, onde fazer parte do estado é conquistar o direito á inação da piolheira vitalicia — dormir, apodrecer na sonolencia da burocracia que não espera, não deseja, não quer, não age — suga apenas. Tudo isso desapareceu, todas essas baixas formas de parasitismo. Tornou-se o estado americano uma organização em coisa nenhuma diversa das organizações particulares. Apenas maior e com funções privativamente suas.

— Sempre sob o sistema representativo? — Sim. O sistema representativo persistiu. Mas só eram eleitos homens cujo viver social os apontava como seres de escol pela força e equilibrio do cerebro. Não constituía uma situação sujeita a disputas, o ser deputado ou senador. Era uma contingencia. Os homens de elite viam-se colocados nesses postos naturalmente, como o melhor musico das orquestras sobe naturalmente á cadeira da regencia. O equilibrio mental tornou-se perfeito — mas apenas da parte dos homens. As mulheres, não obstante o levantamento físico e moral, permaneciam variaveis como no tempo de Francisco I.

— Souvent femme varie...

— Sim. Conquistaram a mais perfeita igualdade de direitos, mas ondeavam, arrastadas pelo vento das ideias. Trocaram o souvent do bom Francisco I pelo toujours de miss Elvin. Como a simplicidade dos trajes fizera desaparecer a hoje obsedante preocupação da moda, talvez em virtude do vinco mental elas mudaram a moda para o campo das ideias. O elvinismo, por exemplo, avassalou as mulheres americanas com a tirania do nosso cabelo á la garçonne. Excelentes mães de família e otimas esposas batiam-se pelo "sabino" com inconsciencia de pasmar. Mas chegadas em casa despiam o cerebro da extravagancia e beijavam na testa o Homo que na rua vinham de condenar como "infame raptor".

O orgão de miss Elvin — Remember sabino! mantinha a exaltação dos espíritos num constante estado de fervura.

— Ainda havia jornais nesse tempo? — Sim, mas jornais nada relembrativos dos de hoje. Eram radiados e impressos em caracteres luminosos num quadro mural existente em todas as casas.

— E os cegos? — O cego ficou para trás, Cegueira, mudez, surdez, estupidez, tudo isso não passava de reminiscencias dum tempo de que os homens sorriam com piedade.

O radio que temos hoje é um simples ponto de partida. Vale como valem para a eletricidade moderna as primeiras experiencias de Volta. Descobriram-se novas ondas, e o transporte da palavra, do som e da imagem, do perfume e das mais finas sensações tacteis, passou a ser feito por intermedio delas. A consequencia logica foi uma grande transformação da vida. Pelo sistema atual vai o homem para o serviço, para o teatro, para o concerto — um ir e vir que constitue um enorme desperdício de energia e é o criador dos milhões de veículos atravancadores do espaço, bondes, autos, bicicletas, trens, aviões e outros. Com a fecunda descoberta das ondas hertzianas e afins, e sua consequente escravização aos interesses do homem, o ir e vir forçado se reduziu a escala minima. O serviço, o teatro, o concerto é que passaram a vir ao encontro do homem. Foi espantosa a transformação das condições do mundo quando a maior parte das tarefas industriais e comerciais começou a ser feita de longe pelo radio-transporte. Para dar uma ideia do que isso representava de economia de esforço e tempo, basta vermos o que era o jornal de miss Elvin. Pelo sistema atual, o colaborador ou escreve em casa o seu topico ou vai escrevelo na redação; depois de escrito, passa-o ao compositor; este o compõe passa-o ao formista, este o enforma e passa-o ao tirador de provas; esse tira as provas e manda-o ao revisor; este o revê e envia-o ao corretor; este faz as emendas e. . . e a coisa não acaba mais! Ê uma cadeia de incontaveis elos, isto dentro das oficinas, pois que o jornal na rua dá inicio á nova cadeia que desfecha no leitor — correio, agentes, entregadores, vendedores, o diabo.

— Já estive numa oficina de jornal e sei o que é isso. Puro inferno...

— Pois toda esta complicação desapareceu. Cada colaborador do Remember radiava de sua casa, numa certa hora, o seu artigo, e imediatamente suas ideias surgiam impressas em caracteres luminosos na casa dos assinantes.

— Que maravilha!...

— Sim, não houve industria que como a do jornal não sofresse a influencia simplificadora do radio-transporte — e isso tirou ao viver quotidiano a sua velha feição de atropelo e tumulto.

As ruas tornaram-se amaveis, limpas e muito mansas de trafego.

Por elas deslizavam ainda veiculos, mas raros, corno outrora nas velhas cidades provincianas de pouca vida comercial. O homem tomou gosto no andar a pé e perdeu os seus habitos antigos de pressa. Verificou que a pressa é indice apenas de uma organização defeituosa e antinatural.

A natureza não criou a pressa. Tudo nela è sossegado. Parece coisa muito evidente isto; no entanto foi a maior descoberta que fez o povo mais apressado do mundo...

— Realmente! exclamei, chocado pelo imprevisto daquele aspecto do futuro. Eu que por assim dizer moro na rua, só com este quadro da rua futura já me estou assombrando com o horror da rua moderna.

E, no entanto, se miss Jane nada me revelasse continuaria a ter como muito natural o tumulto de hoje.

— O habito não nos deixa ver os defeitos, e daí a vantagem de convulsões como a de miss Elvin. O grande obstaculo ao progresso sempre foi o habito, a ideia feita, a preguiça de constante exame do unico problema material da vida — o do transporte.

— Unico? — Sim, unico. Tudo é transporte na vida, senhor Ayrton, e o tumulto de hoje vem das imperfeições dos nossos sistemas de transporte. Tudo é transporte! A minha voz transporta ideias do meu cerebro para o seu. Esse livro que o senhor tem nas mãos é um sistema de transporte de impressões mentais. Que faz a firma Sá, Pato & Cia. senão transportar mercadorias de um lado para outro, com o fim ultimo de transportar para as burras dos socios o dinheiro dos clientes? E que é o dinheiro senão um maravilhoso e engenhosissimo meio de transporte? — For isso são as moedas redondas...

— Rodinhas... O homem deu o primeiro grande passo em materia de transporte com a invenção da roda. Mas ficou nisso.

Repare que a nossa civilização industrial se cifra em desenvolver a roda e extrair dela todas as possibilidades. Daqui a seculos, quando for possível ao homem uma ampla visão do seu panorama histórico, todo este período que vem do albor da historia até nós e ainda vai prolongarse por muitas gerações receberá o nome de Era da Roda. Mas do ano 2200 em diante começará o seu declínio e em 3000 e tantos estará passada. Num corte anatomico dessa epoca vi certo museu nos arredores de Pittsburgh que muito me impressionou — o Museu da Roda. Dormiam nas vitrinas, como dormem hoje os machados de silex dos nossos avós, as modalidades infinitas de rodas sobre as quais ainda gira hoje a civilização, desde o rodízio brutesco dos carros de boi até a minima engrenagem dos relogios de pulso. O radio matará a roda, concluiu miss Jane.

Pus-me a refletir naquilo e a comparar a estreiteza do meu cerebro com a amplidão do cerebro da filha do professor Benson.

Quantas rodas tinha ele mais do que o meu! E como rodavam bem lubrificadas as rodinhas do cerebro de miss Jane, todas postas sobre mancais de bilhas...

— De tudo quanto miss Jane acaba de expor concluo que a vida nos Estados Unidos passou a ser um céu aberto, comentei eu.

— Não vou até lá, contraveio ela. Havia uma pedra no sapato americano: o problema etnico. A permanencia no mesmo territorio de duas raças dispares e infusiveis perturbava a felicidade nacional.

Os atritos se faziam constantes e, embora não desfechassem como outrora nas violencias da Ku-Klux-Klan, constituíam um permanente motivo de inquietação.

A ideia do expatriamento para o vale do Amazonas tinha um ponto fraco: só podia ser voluntaria e o negro não se mostrava inclinado a trocar a cidadania americana por outra qualquer. O processo cientifico de embranquece-los aproximava-os dos brancos na côr, embora não lhes alterasse o sangue nem o encarapinhamento dos cabelos. O desencarapinhamento constituía o ideal da raça negra, mas até ali a ciencia lutara em vão contra a fatalidade capilar. Se isso se désse, poderia o caso negro entrar por um caminho imprevisto, a perfeita camouflage do negro em branco, Tal saida, entretanto, era apenas um sonho dos imaginativos impenitentes. E como a repartição do país em duas zonas não fosse forma aceita pelos brancos, iam os Estados Unidos entrar no seu 88.° período presidencial com o mesmo problema que trezentos e trinta e nove anos antes preocupara o grande George Washington.

Enquanto miss Jane falava, naquele tom impessoal e frio de sabio a fazer conferencia publica, toda ela cerebro e cultas expressões na boca, eu, humano que sou, envolvia-a nos meus ternos olhares de carneiro amoroso, e essa minha excessiva atenção á parte corporea da encantadora vidente me fez perder muita coisa interessante das suas revelações. Distraia-me, preso áquele lindo presente de olhos azues sempre a pairar pelas eras futuras. Quando, por exemplo, ela entrou a descrever o tipo dos negros descascados do ano 2228, confesso que perdi metade das suas observações. Achava-me no momento a namorar o mimoso lobulo da sua orelha esquerda, onde brincava um raio de sol. Esse fio de luz acendia-lhe em ouro a penugem finíssima e o tornava do roseo translucido de certos veios da agata. Perdi-me no gracioso pedacinho de carne, como a sua dona andava perdida em plena despigmentação do seculo XXIII. A poesia falou em mim e uma imagem lirica entreabriu a pieguice das suas petalas. Lembrei-me do baiser de Rostand, point rose sur l'i du verbe aimer, e perpetrei coisa melhor: depor naquele ninho de colibri o ovinho de um beijo...

Depois filosofei e pareceu-me apreender uma grande verdade: a beleza não passa de um total de parcelas que a mão da Harmonia soma.

Que terriveis torneiras abre o amor! Mas ao chegar naquele ponto das suas revelações, miss Jane ergueu os olhos para o relogio. Em seguida apertou o botão da campainha.

Veio um criado.

— Chá, disse ela.

Eu já sabia da significação do chá, engenhoso ponto e virgula com que miss Jane punha fim ás nossas palestras domingueiras.

Regressei á cidade mais apaixonado do que nunca pela encantadora filha do velho sabio — sábia tambem ela, mas, ai! bem pouco feminina... O Amor que ardia em meu peito não a contagiava.

Talvez nem sequer o percebesse. Ou percebera desde o inicio e dissimulava? Mulher, mulher... Sabina vingativa — false as water...

Fiquei na duvida. Seria miss Jane um puro espirito, uma vibração de eter jamais interferida, ou tinha nervos como as demais, coração, sensibilidade como todas as mulheres? No dia seguinte, no escritorio, notou o patrão o ar distante com que eu colecionava umas faturas. Meu pensamento estava longe da firma, vogando em pleno período da simbiose desmascarada. Não sei por que motivo o senhor Sá mostrava-se nesse dia alegre e familiar.

Vira o passarinho verde, com certeza. Tão familiar e alegre que em certo momento me atrevi a fazer--lhe uma pergunta: — Acha o senhor Sá que é a mulher a femea natural do homem? O honrado negociante não respondeu, mas fulminou-me com tais olhos que achei prudente esgueirar-me para a sala vizinha com o pacote de faturas na mão. Vim a saber depois que em conferencia com o senhor Pato ele chegara á conclusão de que a queda no precipício me tinha evidentemente "perturbado as faculdades mentais"...

CAPITULO XV - Vesperas do Pleito

No proximo domingo voei mais cedo ao castelo, ansioso pela continuação das revelações de miss Jane.

Encontrei-a triste.

— Aconteceu-lhe alguma coisa? inquiri inquieto.

— Nada! respondeu-me num suspiro. Saudades de meu pai apenas. Estive ontem no cemiterio e minha dor reavivou-se. Como ainda sinto pungente o desfalque sofrido pela sinfonia do universo com a perda de sua nota mais bela!...

A tristeza de minha amiga contagiou-me de tal modo que quando dei por mim uma lagrima me descia pelo rosto.

Miss Jane, comovida, apertou-me a mão. Irmanavamo-nos dia a dia, á medida que as nossas afinidades se iam revelando. Afinidades mentais e de sentimento. Apesar da aparente divergencia das nossas ideias, eu sentia que no fundo pensavamos da mesma forma. Quem ali nos visse a conversar da vida futura, juraria sermos amigos velhos ou parentes muito proximos — e outra não era a minha impressão.

Parecia-me conhece-la de seculos, e nunca ter convivido com outra pessoa. A menor sombra que passasse pela sua alma logo se refletia na minha. Suas alegrias eram as minhas e minhas as suas tristezas.

Como me punha feliz aquela doce convivencia...

Mas a nuvem passou afinal e pude ve-la de novo entregue aos acontecimentos do ano 2228.

— Na vespera da 88.a eleição presidencial, prosseguiu miss Jane, o país apresentava o grave aspecto desses instantes de imobilidade precursores de tormenta. Como que a armazenar forças para uma explosão tragica, todos os homens permaneciam silenciosos, num estado de repouso muito semelhante a cansaço por antecipação.

Só nos arraiais femininos era intenso o reboliço. Estavam as sabinas seguras da vitoria e lá com as diretoras do movimento já repartiam os despojos da batalha.

Devo dizer que a presidencia de uma elvinista não inquietava grandemente os homens de espirito filosofico. Sabiam muito bem como o poder modifica as ideias dos que lhes galgam as cumeadas. E havia até curiosidade pela vitoria sabina por parte dos homens de temperamento artístico — dos que só encaram o mundo através de prismas esteticos.

Já a massa masculina enxergava na vitoria de miss Astor o fim do tradicional predomínio do homem na terra.

— Eram ainda as eleições ao nosso sistema de hoje? — As eleições do seculo 23 em nada lembravam as de hoje, consistentes na reunião dos votantes em pontos prefixados e no registro dos votos. Tudo mudara. Os eleitores não saíam de casa — radiavam simplesmente os seus votos com destino á estação central receptora de Washington. Um aparelho engenhosissimo os recebia e apurava automatica e instantaneamente, imprimindo os totais definitivos na fachada do Capitolio.

De ha muito se havia eliminado as hipoteses de fraude, não só porque a seleção elevara fortemente o nivel moral do povo, como ainda porque a mecanização dos tramites entregava todo o processo eleitoral ás ondas hertzianas e á eletricidade, elementos estranhos á política e da mais perfeita incorruptibilidade.

Mas só os habitantes de Washington gozavam do privilegio de ler no Capitolio os numeros decisivos. O resto da população americana tambem os lia e na mesma hora, mas em suas proprias casas.

Certo que estava da vitoria, o partido feminino delirava no antegozo de um prazer inedito: bater o macho em seu reduto supremo — a Presidencia da Republica! Na antevespera das eleições miss Elvin organizou em Washington uma passeata memoravel.

— Ainda havia disso? perguntei.

— Já não havia disso, respondeu miss Jane. Miss Elvin apenas ressuscitou a velha praxe a titulo de curiosidade estetica. Como vemos hoje exposições de arte retrospectiva, teve ela a ideia de organizar coisa semelhante — uma passeata á nossa moda, com discursos em rançoso estilo retorico, nos quais se expusessem á luz do dia caducas imagens ha muito aposentadas. Reuniu um lote de dez mil correligionarias para um desfile diante do Capitolio. Cada qual traria uma bandeirola ou cartaz onde se caricaturassem de maneira cruel os homens ou se inscrevessem legendas insultantes — Abaixo o macaco glabro! Morram os raptores! Viva o sabino! Basta de gorilas evoluídos! Essa manifestação realizou-se á noite — e por falar em noite...

como imagina que eram as noites desse tempo, senhor Ayrton? — Como as de hoje, ora essa! Talvez com menos grilos, respondi.

— Pois saiba que nenhum espetaculo futuro me surpreendeu tanto como as noites das cidades americanas. A noite urbana que temos hoje não passa da noite natural picada de focos luminosos — um jogo, portanto, de sombra e luz. O que lá vi não recordava essa alternativa. Sofrera completa mudança a iluminação artificial — tamanha como a do transporte depois da vinda do radio. Inventara-se a luz fria. Por dentro e fora eram pintadas as casas de uma tinta de luar, que dava ás cidades o aspecto de emersas de um banho de fosforo. Paredes, muros, telhados, todas as superfícies dimanavam um palor uniforme de sonho. Mas o escuro é tão necessario ao homem como o luminoso, de modo que todas as casas possuíam comodos não revestidos de luar ou apenas aquarelados de leve. Que deliciosas penumbras vi no Oblivion Park, em Eropolis!...

— Quê? Havia Eropolis, a cidade do Amor? — Sim. Uma cidade das Mil e Uma Noites erguida no mais belo recanto dos Adirondacks e exclusivamente dedicada ao Amor. Para lá iam os enamorados, os casados em lua de mel, nela só permanecendo durante o período da ebriedade amorosa. O senhor Ayrton com certeza já amou e sabe como o amor desabrocha as criaturas em flores e perfumes. Pois imagine um eden criado pela fantasia de todos os grandes amorosos — Dante, Petrarca, Romeu, Leandro, de colaboração com todas as grandes amorosas, Julieta, Hero... Imagine a rainha Mab a provocar sonhos nesses inebriados, e Ariel a realiza-los com o carinho que punha nas comissões de Prospero. O bafo de Caliban nem de leve embaciava os marmores de Eropolis — a maravilha suprema das artes humanas ao serviço do Amor.

Nada lembrava ali o organismo que é uma cidade comum — mixto de orgãos nobres e vísceras de funções humilhantes. Em vez de ruas geometricas, meandros irregulares, ganglionados magicamente de pelouses e moitas nupciais. Sumiam-se nelas os amorosos passeantes e em tais ninhos de doçura trocavam o beijo que elabora o porvir. Tudo fôra planejado em Eropolis com o intento de dar ás criaturas as mais finas sensações esteticas, de modo que os seres ali concebidos já se plasmassem em beleza e harmonia desde o contacto inicial dos gametos.

Os filhos de Eropolis passaram a constituir uma elite na America — a nova aristocracia dos filhos do Amor e da Beleza.

Suspirei. Vi-me em Eropolis de mãos dadas a miss Jane, olhos nos seus olhos e em tal enlevo amoroso que todas as maravilhas da nova ilha de Calipso eram como se não existissem para mim...

— Mas deixemos em paz a cidade do Amor, disse minha amiga fechando o delicioso parentesis. Trepada a uma estatua fronteira ao Capitolio espera-nos a irrequieta miss Elvin com o seu discurso flamante, perfeitamente vieux jeu.

— "Eis", dizia ela apontando para o Capitolio com ademanes dos nossos oradores mitingueiros, "eis o simbolo da Bastilha masculina que será amanhã tomada de assalto! É a casa-mestra da força, a odiosa cabina das manivelas que dirigem tudo. Ali têm habitado os peores monstros da humanidade. Moraram ali Gengis-Kan, Cesar, Luis 14, Frederico da Prussia, Pedro o Grande, Crornwell, todos os gorilas cesareos que através dos seculos vêm trazendo preso ao seu carro de triunfo um ser de especie diferente, arrancado ao companheiro natural por um gesto de violencia e rapina!" e por aí além...

O presidente Kerlog ouviu pelo seu receptor de bolso a curiosa arenga e disse com muita filosofia ao ministro da Equidade: — "Parece grotesco tudo quanto ela diz, no entanto a historia mostra que nós homens temos sido arrastados por fabulas ainda mais grosseiras".

— "Isso só prova", retrucou Berald Shaw, "que miss Elvin está errada. Homens e mulheres somos positivamente da mesma especie..." E enquanto a passeata de miss Elvin barulhentamente prosseguia no seu percurso, voltaram os ministros á conferencia, retomando-lhe o fio no ponto em que a arenga da sabina os interrompera.

— "Dentro de 48 horas tudo estará resolvido, disse o Presidente, e conto com a reeleição. Apesar de não haver obtido de Jim Roy promessa formal, estou absolutamente certo de que ele nos dará os votos negros. Deve neste momento estar apreensivo, o pobre Jim, com o discurso de miss Elvin. Se ela nos trata a nós brancos de gorilas, que expressões reservará para os pretos de Jim?" — "Mas miss Astor tambem conta com os votos negros", disse o ministro da Seleção Artificial.

— "Engano. Miss Astor espera de Jim uma traição. Ora, a traição para miss Astor significa não votar em seu nome. Logo, está convencida de que Jim Roy nos dará os votos negros." — "E nesse caso derrogaremos a lei seletiva?" — "Sem duvida. O pigmento reclama contra o rigor excessivo da Lei Owen. Isso aliás pouco importa, porque antes dos maus efeitos da derrogação dessa lei já teremos solvido o problema. Os ultimos estudos tecnicos da exportação dos negros para a Amazonia já se acham conclusos. Jim é habil e domina como despota a massa negra.

Havemos de nos entender. Havemos de impor-lhe por bem ou por mal a solução branca. No momento o caso se resume em obtermos dele o concurso eleitoral, pois quem lá pode saber que rumo tomarão os acontecimentos caso vençam as elvinistas? É impossível protelar por mais tempo com paliativos ilusorios a solução do binomio racial. Ou expatriamos os negros já, ou dentro de meio seculo seremos forçados a aceitar a solução negra, asfixiados que estaremos pela maré montante do pigmento." — "Destruído, aliás...

— "Oh, antes o não fosse! A mim chega a me repugnar o aspecto desses negros de pele branquicenta e cabelos carapinha. Dão-me a ideia de descascados ..." — E miss Astor? perguntei. Continuava perplexa? Miss Jane respondeu: — A poucos passos da Casa Branca tambem miss Astor conferenciava com varias sumidades do seu partido.

— "Estás ministra, minha cara Dorothy Glynor, se vencermos..." dizia ela a uma linda criatura candidata ao Ministerio da Educação Social.

— "Se?..." fez. Dorothy Glynor. "Pois ainda admite duvidas depois da entente com Jim Roy?" — "Tudo me leva a crer que Jim Roy não perderá a oportunidade de ajudar-nos a apear o macho branco inimigo tradicional da sua raça. A logica me conduz a esse raciocínio, mas acima da logica ha em mim uma voz interna, uma ressonancia que raro falha — e essa voz me diz que Jim vai trair..." — "A nós?" — "Não sei. Sinto no ar a traição, e sinto-a tão forte que ando presa de um estranho mal estar. É com esforço que procuro conter os meus nervos. O entusiasmo com que me apresento em campo não passa de mera atitude. O que ha em mim — e cada vez mais angustiante — é uma profunda depressão nervosa..." Miss Evelyn Astor estava á sua mesa de trabalho, em permanente comunicação com todos os distritos do país. Recebia de minuto em minuto informações animadoras, mas ouvia-as quasi desatenta. O imenso entusiasmo reinante nos arraiais femininos — entusiasmo que ela mesma acendera com suas famosas irradiações — só não contagiava a sua autora. Miss Astor metia os olhos do pressentimento pela fachada do Capitolio e não lia lá o seu nome...

Bem outra se apresentava a situação nos arraiais de Jim Roy. A população negra permanecia numa especie de calma fatalista, aguardando com insidiosa quietude de pantano a senha que o grande lider ficara de irradiar uma hora antes do pleito. Até esse momento a formidavel massa de cincoenta e tantos milhões de votantes conservarse- ia neutra. Tinham compreendido as imensas vantagens da coesão e delegação de todas as vontades numa só, além de que depositavam em Jim Roy uma fé que nem Moisés merecera do povo hebraico. Qualquer coisa de majestade havia naquele oceano submisso — escravo de novo, escravo como sempre, mas desta vez escravo por heroico e livre consentimento.

CAPITULO XVI - O Titã Apresenta-se

— Fôra o pleito marcado para as onze horas da manhã e duraria apenas trinta minutos, continuou miss Jane. Em meia hora o assombroso fenomeno de um bloco de 150 milhões de criaturas a imprimirem em símbolos numericos a sua vontade na fachada do Capitolio completar-se-ia de maneira perfeita.

— Jim Roy avisara aos seus agentes distritais de que só ás dez da manhã revelaria o nome do candidato em que os negros tinham de votar. Esses agentes, por sua vez, radiariam aos eleitores das respectivas zonas a esperada senha.

Ás nove e meia Jim recolheu-se á sua sala de trabalho no palacio da Associação Negra e fechou-se por dentro.

Apesar da solidez dos seus nervos o lider cavilava...

Ás 9 e 45 aproximou-se da janela e correu os olhos pelo casario de Washington. O panorama que viu, entretanto, não foi o da cidade.

Descortinou todo o lugubre passado da raça infeliz. Viu muito longe, esfumado pela bruma dos seculos, o humilde kraal africano visado pelo feroz negreiro branco, que em frageis brigues vinha por cima das ondas qual espuma venenosa do oceano. Viu o assalto, a chacina dos moradores nus, o sangue a correr, o incendio a engulir as palhoças.

Depois, o saque, o apresamento dos homens palidos e das mulheres, a algema que lhes garroteava os pulsos, a canga que os metia dois a dois em comboios sinistros tocados a relho para a costa. Viu, como goelas escuras, abrirem-se os porões dos brigues para tragar a dolorosa carne do eito. E recordou o interminavel suplicio da travessia... Carga humana, coisa, fardos de couro negro com carne vermelha por dentro, A fome, a sede, a doença, a escuridão. For sobre as cabeças da carga humana, um tabuado. Por cima do tabuado, rumores de vozes. Eram os brancos. Branco queria dizer uma coisa só: crueldade fria...

Viu depois o desembarque. Terra, arvores, sol — não mais como em Africa. Nada deles, agora — nem a terra, nem as arvores, nem o sol. Caminha, caminha! Se um tropeça, canta-lhe o latego no lombo. Se cai desfalecido, trucidam-no. A caravana marcha, tropega, e penetra nos algodoais...

Viu Jim viçarem luxuriosos os algodoais da Virgínia depois que o negro chegou. Além das chuvas havia a rega-los agora o suor africano — suor e sangue.

Viu dois seculos de chicote a lacerar carne e outros dois seculos de lagrimas, de gemidos e lamentosos uivos de dor. E viu a America ir saindo dessa dor, como a perola, filha do sofrimento do molusco, nasce na concha...

Viu depois a Aurora da noite de duzentos anos: Lincoln. O Branco Bom disse: "Basta!" Ergueu exercitos e das unhas de Jefferson Davis arrancou a pobre carne-coisa.

As algemas cairam dos pulsos mas o estigma ficou. As algemas de ferro foram substituídas pelas algemas morais do pária. O socio branco negava ao socio negro a participação de lucros morais na obra comum. Negava a igualdade e negava a fraternidade, embora a Lei, que paira serena acima do sangue, consagrasse a equiparação dos dois socios.

E viu Jim que Justiça não passava de uma pura aspiração — e que só ha justiça na terra quando a força a impõe.

— "Hei de fazer-me força e impor a justiça", murmurou o grande negro.

Em sua testa profunda ruga se abriu. Seus olhos se cerraram e Jim permaneceu imovel, como que siderado por uma ideia de gigante.

Soou a primeira badalada das dez. Era o momento de radiar a esperada senha.

O titã despertou. Dirigiu-se para a cabina emissora. De passagem deteve-se diante de um busto de Lincoln e disse, pausadamente, pondo-lhe a mão sobre o ombro: — "Tu começaste a obra, Jim vai conclui-la..." Penetrou na cabina. Vacilou um instante em face do aparelho que lhe ia veicular a vontade. Contraiu os musculos num sorriso de senegalês descorticado — e pronunciou finalmente com voz segura a palavra secreta que até ali escondera: — "O candidato da raça negra é Jim Roy".

CAPITULO XVII - A Adesão das Elvinistas

Arregalei os olhos de surpresa. Nem por sombras eu havia imaginado aquela hipotese e confessei-o a miss Jane.

— A surpresa não foi unicamente sua, senhor Ayrton. Alguns minutos passados depois do gesto decisivo do formidavel Jim Roy, e cinquenta milhões de eleitores negros recebiam a imprevista senha como se recebessem violenta pancada no cranio. A sensação de atordoamento foi geral. Pelo cerebro dos despigmentados passara tudo, menos aquilo. Nem um negro sequer imaginara tal hipotese.

Mas a perturbação foi se desfazendo, e á medida que se ia desfazendo iam se iluminando as caras com um sorriso novo no mundo. Um sorriso sem significação, puramente reflexo. O sorriso do grilheta que nasceu de algemas ao pulso e de subito as vê se esvaírem em nevoa ao contacto de magico talismã.

— "Livre, apenas? Não! Tambem senhor, agora..." O sigilo das comunicações radiadas era perfeito.

Onda que partisse com recado para fulano jamais errava de porta ou se deixava transviar pelo caminho. Mesmo assim miss Astor, cujo maquiavelismo de espirito não extremava a rubra ideologia elvinista dum maravilhoso senso das realidades, conseguira feliz exito na caçada que armou á onda portadora da senha de Jim Roy. Não corromperia a onda, de si incorruptível, mas corromperia um dos seus destinatarios — talvez o unico agente infiel de quantos tinha Jim a seu serviço. Logo que recebeu a senha, esse espião chamou miss Astor ao aparelho das comunicações reservadas.

Estava ela a postos, na séde do partido, rodeada do seu ardente estado maior. Mal soou o chamado, deixou as companheiras e literalmente atirou-se ao fone adivinhando do que se tratava. A viva expressão de curiosidade do Seu rosto, porém, demudou-se em derrocada.

Seus olhos arregalaram-se e seus labios, subitamente brancos, tremeram.

Vendo o transtorno de feições da chefa suprema, o estado-maior elvinista acudiu inquieto.

— "Que ha? indagou miss Elvin, agarrando-a pelos ombros.

Resolveu Jim votar com Kerlog?" Miss Astor quis responder mas não pôde. Sentiu uma nuvem turvar-lhe a vista, uma zoeira nos ouvidos, um turbilhão no cerebro.

E descaiu para trás, desmaiada.

— Como as de hoje... murmurei contente com aquele desmaio.

Miss Jane prosseguiu.

— O panico apossou-se incontinenti do estado-maior elvinista e transformou a sala num rodamoinho de lindas baratas tontas. As sabinas entraram a correr de um lado para outro trefegamente a agarrar-se entre si, a gritar. Mas a voz aguda de miss Elvin se fez ouvir e as conteve: — "Se Evelyn desmaiou, é que recebeu uma terrivel noticia, e a unica noticia terrivel que Evelyn poderia receber é a da adesão de Jim a Kerlog. Logo, estamos derrotadas..." E os olhos da sabina despediram uma terrivel faisca de odio — não político, não sexual apenas, mas especial, sentimento inedito do mundo e de pura criação elvinista. Miss Elvin cerrou o punho e ergueu-o na direção do Capitolio, ao mesmo tempo que uivava qual loba ferida: — "Não importa, Kerlog! Recorreremos aos grandes meios — á sabotagem, á boicotagem do gorila!" — "Bravos! gritaram as elvinistas, recompostas da momentanea desorientação. Viva o boicote!" Miss Elvin rangia os dentes.

— "Os infames monstros jamais poderão prever o plano infernal de sabotagem que contra eles organizei! Parecem ignorar, esses orgulhosos gorilas, que a natureza os criou de uma carne toda ela calcanhares de Aquiles. Convido as sabinas presentes para uma reunião amanhã em minha casa a fim de estudarmos a aplicação imediata do plano diabolico. Ás oito horas lá todas!" — "Bravos! Bravos! Sabotemos o gorila!" A grita fez efeito de sais nos nervos da chefa desmaiada. Miss Astor entreabriu os olhos, passou as mãos pelo rosto como a afastar as ultimas sombras e, reentrando na posse dos seus sentidos, ergueu-se de pé. Circunvagou pelo ambiente o olhar ainda trocado e em tom de misterio exclamou por fim, como se estivesse a falar consigo propria: — "É indispensavel um entendimento com Kerlog. Tudo mudou..." O espanto das elvinistas atingiu o auge. Estarreceram todas, de olhos arregalados e bocas entreabertas. Não compreendiam nada.

Miss Astor prosseguiu: — "Temos de nos aliar de novo ao homem..." — "Nunca! rugiu miss Elvin, escarlate de furor. Transigir, nunca!..." O relogio da sala interrompeu o tumulto com o pingar das onze — a hora eleitoral.

— "Sim, declarou pausadamente miss Astor. Sim, porque já não se trata de um mero choque político entre as duas facções da raça branca. Trata-se da luva que nos vem de lançar ao rosto a raça negra.

Jim Roy neste momento já deve estar eleito Presidente da Republica..." Se uma granada de gás estupefaciente houvera explodido na sala, outro não seria o aspecto daquelas sabinas apalermadas pelo inaudito da surpresa. Transformaram-se em verdadeiras mulheres de Lot, mudas e imoveis, com os olhos cravados na lider feminina.

Miss Astor continuou: — "Não me enganavam os meus pressentimentos! Eu senti que Jim traira. Ide ver na fachada do Capitolio o seu nome vitorioso..." As elvinistas precipitaram-se para a janela e leram no frontão do monumento o nome de Jim Roy! Depois de 87 presidentes brancos surgia o primeiro negro, eleito por 54 milhões de votos. Miss Astor obtivera 50 milhões e meio e Kerlog 50 milhões e pico. Apesar de disporem de um eleitorado quasi duplo do contrario, os brancos perdiam a presidencia graças á cisão entre os dois sexos provocada pelo elvinismo...

Foi instantanea e radical a mudança que se operou nas mulheres. Apreenderam num relance todas as consequencias possíveis do golpe negro e tomaram-se de furiosa crise de sentimentalismo amoroso pelo homem branco, ser mau, opressivo, injusto, não havia duvida, mas afinal de contas o marido milenar da mulher. Mal com ele, peor sem ele. Estava tão longe o hipotetico sabino...

Miss Astor tomou a palavra e fez-se a interprete do pensamento dominante.

— "Mulheres! Eis as consequencias da nossa loucura! Divorciamo-nos do nosso velho companheiro sexual e..." — "Companheiro ilegítimo!" aparteou miss Elvin.

— "Seja, mas nem por isso menos companheiro. Divorciamo-nos dele, declaramos-lhe guerra, difamamo-lo, e a paixão nos cegou a ponto de não vermos o polvo que espiava a brecha afim de envolver o Capitolio nos seus tentaculos! Ah, Kerlog, que injusta fui contigo recusando a fusão partidaria que me propunhas! E como fui cruel respondendo ás tuas leais palavras com anfigurís em linguagem sabina! Vejo bem claro agora o nosso erro e, embora reconhecendo as queixas que a mulher tem do macho, tambem reconheço que sem o concurso dele nada valeríamos no mundo. Bastou um momento de divorcio para que a raça branca se visse nesta horrível situação: apeada do domínio e á mercê de uma raça de pitecos que, essa sim, tem contas terríveis a justar conosco..." Palmas e bravos estrepitaram. Só miss Elvin, irredutível no seu sonho, conservara-se de pé atrás.

— "E as minhas teorias? uivou ela. Que importa um momentaneo incidente eleitoral em face do fulgor das minhas ideias? Voto contra a aproximação com Kerlog e protesto contra o movimento de fraqueza, essa crise amorosa que vejo nas palavras de Evelyn! Proponho o prosseguimento da luta com redobrado ardor.

Submissão de novo, nunca!..." Mas nem uma só voz se ergueu para apoia-la. Suas palavras tiveram como resposta um silencio de cemiterio. Estava morto o elvinismo e de cinzas varridas todos aqueles cerebros e corações.

Diante do silencio da assembleia ainda mais se exaltou miss Elvin, rompendo em apostrofes violentíssimas contra o "gorila pelado" e o "sentimentalismo ovelhum" das suas companheiras.

Dessa vez não foi o silencio de cemiterio que acolheu sua arenga.

Foi a assuada.

— "Fora! Abaixo o sabino! Viva o Homo! Viva o macho forte que suplantou o macho fraco!..." — "Sim, perorou miss Astor, viva o homem! Macho natural ou não, neto do gorila ou não, é ele o nosso marido pela milenar consagração dos fatos. Sempre vivemos ao seu lado, ora escravas, ora deusas, mas como irmãs de peregrinação nesta vida. Peludas que eramos ainda, e lá no fundo das idades já o ajudavamos a afiar o machado de silex com que nos amparou das agressões do Urso speleus.

Comemos juntos bifes crus de megaterios. Juntos nos derramamos por todos os recantos do globo e conseguimos a dominação hoje absoluta. Juntos subimos aos tronos e juntos fomos lançados ás feras do circo. De mãos dadas compusemos á sublime epopeia do amor — poema que principiou com a Vida e só com ela terá fim... O sabino, ainda que existisse, seria um fraco. O raptor valia muito mais do que esse hipotetico bicho marinho, só existente, talvez, na imaginação exaltada da nossa querida miss Elvin..." — "Era o peixe-boi, o pesado animalão que os homens arpoam no Amazonas..." aparteou miss Dorothy Glynor.

— "O homem é o gorila, o gorila, o gorila..." urrava miss Elvin possessa.

— "Pois viva então o gorila! concluiu miss Astor e os aplausos foram delirantes. Fique miss Elvin com o boi do mar que nós ficaremos com o nosso velho e tradicional gorila. Á Casa Branca!..." E numa verdadeira revoada precipitou-se para a Casa Branca o bando das ondeantes mamíferas com miss Astor á frente. Só ficou no recinto a sabina teimosa, a bater o pé e uivar para as cadeiras vazias: — "Gorila, gorila, gorila, gorila..." Nesse ponto miss Jane parou para tomar folego, enquanto eu dizia: — Toma! Como tenho muita honra de ser neto do meu avô gorila, exulto com a derrota dessa renegada. Mas... e Kerlog, miss Jane? Como recebeu ele a noticia da vitoria do negro? — O presidente Kerlog recebeu o resultado do pleito com um asombro igual ao das mulheres, embora muito diferente na sua exteriorização. Convicto do apoio de Jim Roy a um dos partidos brancos, chegara a admitir por hipotese o triunfo de miss Astor; mas lá no intimo contava com o seu. De modo que quando na fachada do Capitolio surgiu o nome de Jim Roy, a sensação que o empolgou foi de pesadelo. Kerlog apalpou-se e beliscou as carnes a ver se dormia. Não era pesadelo, não. Era coisa peor — fato. E como a hipotese da eleição de um negro nem por sombra lhe houvesse passado pela ideia, o seu desnorteamento fez-se absoluto.

Kerlog reclinou-se sobre a secretária e permaneceu durante alguns instantes imovel, com a cabeça apoiada nas mãos. Dava tempo a que a ideia nova da eleição de um presidente negro penetrasse em seu cerebro, criando lá pelas circunvoluções um quadro inexistente. Custou a aboletar-se essa ideia. Não cabia em quadro nenhum e punha arrepios em todos perto dos quais passava...

Mas o 87.° Presidente possuía uma solida organização mental; reagiu contra o golpe e logo reentrou no controle dos seus espíritos.

Tomou um gole d'agua e dirigiu a palavra aos atonitos ministros presentes.

— "Chegou afinal a crise prevista ha seculos e de maneira surpreendente. A hipotese que acaba de realizar-se creio que jamais passou pelo espirito de nenhum americano, branco ou preto. É obra exclusiva de Jim Roy e explica a paciencia com que vem ele automatizando a massa negra. Mas o fato está consumado. É um desafio, uma luva lançada ao rosto da raça branca, á qual nos cumpre dar troco. Não apresento nenhuma ideia porque não a tenho — ainda não houve tempo de se formarem ideias em meu cerebro.

Creio que o mesmo se dará com todos os presentes..." Um movimento geral de cabeças apoiou suas palavras. Todos os ministros se achavam na mesma situação de espirito.

Kerlog prosseguiu. Fez ver a que terrivel impasse a loucura das mulheres arrastara o país, situação insoluvel caso elas persistissem em se "desgorilarem" de sua ascendencia.

— "E dado o modo de pensar é falar da líder feminina, disse ele, não prejulgo o que esteja agora se passando pelo cerebro de miss Evelyn Astor. Mas é indispensavel a todo o transe um entendimento com ela. É indispensavel promovermos a harmonia dos partidos brancos, porque só a união da raça branca nos salvará." O ministro da Paz tomou a palavra (as guerras haviam cessado no mundo depois que aos ministros da Guerra se substituíram os ministros da Paz) e disse: — "Acho inutil qualquer debate neste momento. A situação é obscura e..." Não pôde acabar. Um tropel reboou nos corredores. Era o bando elvinista que penetrava, com miss Astor á frente.

Kerlog empalideceu. Os extremismos daquela facção eram tantos que ele previu qualquer coisa semelhante aos assaltos histericos das antigas sufragistas britanicas. E apertou o botão da campainha de alarma, chamando a postos os guardas.

Miss Astor avançou para ele. Num instintivo gesto de defesa, Kerlog recuou em sua poltrona, vendo claramente definida a agressão iminente. Os ministros lançaram-se das suas cadeiras em socorro do chefe supremo.

Era tarde, Miss Astor agarrara o presidente Kerlog pelo pescoço...

Agarrara-o não para o estrangular, mas para o beijar entre lagrimas e soluços de comoção.

— "Kerlog, querido Kerlog! Venho em nome de todas as mulheres pedir perdão ao Homo, em ti representado, da loucura a que miss Elvin nos arrastou. Diante dos supremos interesses da raça ofendida, cessa o divorcio sexual. Volta a mulher de novo aos braços do seu velho companheiro de peregrinação pelo mundo..." Mal vindo do espanto, tonto ainda, o presidente Kerlog apenas murmurou: — "A que horas, miss Astor! A que horas vem falar-me lingua compreensivel!..." — "Perdoa, Kerlog! Foi uma nuvem que passou." — "Mas lá estão as terriveis consequencias impressas na fachada do Capitolio." — "Que importa? O que a mão do negro escreveu a tua apagará." — "Facil de dizer, miss Evelyn. Dentro da criatura civilizada dorme um troglodita. Receio que a exasperação desperte esse monstro." — "Temos tudo por nós, o numero e a superioridade mental." — "Mas temos contra nós o momento, o impulso, a colera, a vingança — as velhas inferioridades adormecidas mas não mortas.

Receio que a America se inunde de sangue...

Miss Astor emudeceu por um momento, com os seios ofegantes.

Depois disse: — "E agora? Que vamos fazer?" Kerlog respondeu com finura: — "Vamos vencer. O perigo existia enquanto a palavra vamos só representava metade da raça branca. Se miss Astor me traz o concurso da metade rebelde, tudo muda ..." A ex-sabina desprendeu-se do pescoço presidencial e gritou, voltada para as suas companheiras: — "Cerremos fileiras em torno de Kerlog! É ele o nosso lider supremo — lider da raça, e acaba de traçar o incoercível programa branco: "Vencer!" Viva Kerlog!" Um burra delirante saudou as suas palavras.

— "Viva Kerlog! Viva o Homo!" O ministro da Educação Social interveio malicioso: — "Alia-se de novo então ao "gorila pelado", miss Astor? — "Sim, respondeu ela, mais formosa do que nunca, tanto a sua fisionomia irradiava de entusiasmo. Acabamos de fazer uma grande descoberta: o sabino de miss Elvin não passa de um estupido boi de mar. Viva, portanto, o velho gorila!" — "Viva! Viva!..." E a onda feminina derramou-se barulhentamente pelos corredores afora, até despejar-se pelas escadarias.. .

Aliviado de um grande peso Kerlog voltou-se para os ministros e repetiu risonho o verso de Shakespeare: — "She is false as water,..

— "Mas de muita força catalítica, rosnou o ministro da Equidade. Cura pela ação da presença ..." O ponto e virgula com torradas veio interromper naquele dia as revelações de miss Jane. Retirei-me mais interessado do que nunca no desfecho da crise americana do seculo 23.

CAPÍTULO XVIII - O Orgulho da Raça

Passei a semana agitado, menos com as revelações do ano 2228 do que com a impassibilidade de miss Jane.

Eu ardia, positivamente ardia, e traia o meu amor em todos os meus olhares e gestos; mas a enigmatica jovem não dava ar de o perceber. No começo a admiti como um puro espirito, uma Cassandra sem nervos nem sangue. Depois duvidei da existencia de tais puros espiritos e passei a ver em miss Jane uma "desentendida". Talvez que me julgasse muito inferior a si e adotasse semelhante atitude como o meio mais facil de guardar as distancias. Mas era-me impossível conciliar isso com a amizade que ela me demonstrava e sobretudo com o ter só a mim no mundo depois de perdido o pai. Se de fato me julgasse inferior ou indigno de sua pessoa, certo que já me teria afastado do castelo. Não havia duvida, miss Jane fazia-se de desentendida...

Firmei-me nessa ideia e concebi um plano de ataque — uma demonstração amorosa que a arrancasse da sua marmorea impassibilidade. Ou tudo ou nada. Ou dava-me o coração ou punhame no olho da rua.

Restava saber uma coisa só — se no momento da demonstração a timidez não me trairia a vontade...

Quando chegou o domingo, levantei-me mais cedo e fui ao mercado de flores. Comprei as mais belas violetas e a sobraça-las parti para Friburgo no primeiro trem. Lá me dirigi ao cemiterio onde repousavam os restos do professor Benson. Pela segunda vez eu levava flores ao jazigo do pai da maior maravilha do seculo — miss Jane...

Ao transpor o portão do pequeno cemiterio meu coração bateu.

Vi de longe um vulto querido a espalhar rosas sobre o tumulo do velho sabio. Aproximei--me com um pressentimento n'alma — "é hoje"...

— Tambem aqui? disse miss Jane ao avistar-me, estendendo para mim a sua mão gelada pelo frescor matutino.

Vi que era chegado o momento. Armei-me de todas as coragens e comecei: — Miss Jane, eu...

Mas engasguei. Já estava ela de olhos muito fixos no tumulo, com o ar de quem repete mentalmente o "morrer... dormir... sonhar, quem sabe?" de Shakespeare. Estava puro espirito em excesso...

Ficamos os dois silenciosos por alguns momentos. Depois miss Jane falou, como respondendo a si propria e sempre de olhos cravados no tumulo: — Nem ele! Nem ele que penetrava o passado e o futuro adiantou um passo na decifração do enigma da vida...

Enguli de vez o meu proposito. Não era o momento. O formoso Hamlet de faces roseas, cabelos afogados em boina de veludo negro e corpo revestido de perfeito tailleur, pairava muito distante de mim.,.

Apesar disso tomei-lhe a mão e apertei-a de novo, suavemente.

Miss Jane olhou-me nos olhos com a funda melancolia dos que penetram no mui longe das coisas — e nada vêem do que vai por perto.

Dali seguimos juntos para o castelo, sem que a paisagem nem o ar fino da manhã dissipassem a tristeza dela e a minha decepção. No castelo, por uma hora, só falamos do professor Benson, com longos intervalos de silencio — intervalos de silencio em que eu lamentava a coexistencia de puros espíritos em corpos assim tão perturbadores.

Depois do almoço, o primeiro que fiz em sua companhia, a nuvem das saudades passou e retomamos a nossa excursão pelo ano 2228.

— Onde estavamos? principiou ela.

— Em Kerlog, já libertado do pesadelo elvinista, respondi.

— Sim, é isso. As mulheres aderiram ao Homo e tudo mudou, como era natural. A raça branca formava novamente um bloco unido e apto a organizar a resistencia.

— Mas a impressão do golpe de Jim? Como o recebeu o país? perguntei suspirando.

— Com estupefação. Pela primeira vez na vida de um povo ocorria um fato que interessava a todos os seus componentes, sem exceção de um só. E como ninguem, a não ser Jim Roy, houvesse esperado por aquele desfecho, facil é de imaginar o grau de assombro do espirito publico.

A estupefação dos brancos derrotados não era menor que a dos negros vencedores. Haviam estes agido como automatos; deram o voto a Roy como o dariam a Kerlog, a miss Astor, ou o não dariam a nenhum dos tres, se tal fosse a senha recebida. E agora olhavam-se uns para os outros num estonteamento de vitoria em absoluto inedito para eles.

Quanto ás consequencias possíveis, nem de um lado nem do outro ninguem podia prever coisa nenhuma. Extenso demais era o fenomeno para ser abarcado por uma cabeça e, alem disso, não tinha precedentes na historia.

Só no dia seguinte é que o acesso de estupefação coletiva principiou a decair. As celulas do imenso organismo social foram saindo daquele penoso estado de anestesia para entrar na fase inversa da exaltação. O velho desprezo racial do branco pelo negro transformavase em colera, e o recalcado odio do negro pelo branco, arreganhando os dentes, entreabria um monstruoso sorriso de revanche.

Lentamente despertava a massa negra do longo letargo de submissão e tremia de narinas ao vento, como o tigre solto na jungle.

Toda a barbarie atavica, todos os apetites em recalque, rancores impotentes, injustiças padecidas, todas as vergastadas que laceraram a sua pobre carne até o advento de Lincoln, e depois de Lincoln todas as humilhações da desigualdade de tratamento — essa legião de fantasmas irrompeu da alma negra como serpes de sob a lage que mão imprudente levanta. E a raça maior que o da mesquinha liberdade fisica, passou a sonhar o grande sonho branco da dominação...

Tomado de receios ante a imensidade daquele despertar, Jim Roy auscultava os fremitos do seu povo e media a tarefa ingente que lhe pesava sobre os ombros. Se não conseguisse manter açaimado o monstro e submisso á sua voz de comando, a momentanea vitoria breve se transformaria num horrendo cataclismo. Jim Roy amava a America. Nós alicerces do colossal edificio o cimento ligador dos blocos fôra amassado com o suor dos seus ancestrais. A America surgira do esforço braçal de um, dirigido pelo esforço mental de outro, e pois tanto lhe falava a ele ao sangue como ao do mais orgulhoso neto dos pioneiros louros.

De instante a instante recebia comunicações dos seus agentes dando conta do estado d'alma da massa. A pantera negra distendia os musculos entorpecidos, com os olhos a se rajarem de sangue...

Jim tremeu. Sabia conter os nervos da fera, dominar-lhe todos ímpetos instintivos. Além disso via o seu já imenso prestigio de lider acrescentado com o de Presidente eleito — mas estaria em seu poder sofrear o maremoto africano? Não faria dele um dique impotente a borrasca a desenhar-se? Jim sentia no ar as ondas de fluidos explosivos, um perfeito ambiente de polvora. O solo latejava pulsações vulcanicas. Jim tremeu diante de sua obra — e sem vacilar foi ao encontro de Kerlog. O momento impunha a conjugação da sua força com a do lider branco.

Defrontaram-se os dois chefes como duas forças da natureza, contrarias nos seus destinos, inimigas pela voz do sangue, mas irmanadas no momento por um nobre objetivo comum.

No primeiro ímpeto Kerlog apostrofou o chefe negro.

— "Vê tua obra, Jim! A America transformada num vulcão e ameaçada de morte!" O negro cravou no lider branco os olhos frios, por um instante animados de estranho fulgor.

— "Não minha, Presidente Kerlog! Não é minha esta obra. É sua, é dos seus, é de Washington, é de Lincoln. Os brancos mentiram na lei basica. E ou confessam que mentiram ou reconhecem que a situação é perfeitamente normal. Que aconteceu, Presidente Kerlog? Houve um pleito e as urnas liberrimas conferiram a vitoria a um cidadão elegível. Acha o Presidente Kerlog que o Pacto Constitucional sofreu lesão? Naquele peito a peito Jim Roy dominava o adversario.

— "Mas não se trata disso, continuou ele. O momento não é para recriminações — e em materia de recriminações o Presidente Kerlog bem sabe que jamais um branco venceria um negro... O fato está consumado; e como chefes supremos das duas raças a nós só incumbe atender á salvação comum. Se não contivermos de redeas presas os dois monstros — o monstro da ebriedade negra e o monstro do orgulho branco, a chacina vai ser espantosa..." — "Ninguem sabe disso melhor que eu, retrucou o chefe da nação. Nos estados do Sul já lavra o incendio ..." O negro deu um salto.

— "Jim o apagará! Jim manterá presa em cadeia de aço a pantera africana. Ele a domina com os olhos como o soba a dominava no kraal donde a cupidez dos brancos a tirou. Jim é rei!" Era tal a firmeza com que o grande lider negro emitia aquelas palavras que o tom de superioridade do branco se demudou em admiração. Kerlog viu que tinha diante de si, não um feliz aventureiro político, mas uma dessas incoercíveis expressões raciais a que chamamos condutores de povos. Pela primeira vez enfrentava um homem que era algo mais que um homem. E do fundo do coração Kerlog lamentou que a incompatibilidade racial o separasse de tamanho vulto.

Jim prosseguiu: — "Mas só o farei se por sua vez o Presidente Kerlog açaimar o orgulho branco. Eu domino os meus com o olhar e a palavra. O Presidente Kerlog domina com a força do estado. Em nossas mãos está pois a paz da America." O lider branco baixou a cabeça. Meditava.

— "Pois salvemos a America, Jim! disse erguendo-se. Açaima tu a pantera negra que meterei luvas nas unhas da aguia branca." Um leal aperto de mão selou aquele pacto de gigantes.

— "Mas a pantera que conte com o revide da aguia! continuou o lider branco depois que as mãos se desapertaram. A aguia é cruel..." Jim Roy retesou-se de todos os musculos como a fera que se põe em guarda.

— "Ameaça-nos como sempre? Ameaça-nos até 110 momento em que a America ou rompe a sua Constituição e afoga-se num mar de sangue ou submete-se ao meu comando?" Kerlog olhou-o firme nos olhos e murmurou com nitidez de lamina: — "Não ameaço. Previno lealmente. Vejo em ti uma força demasiado grande para que eu a enfrente com palavras. Estamos face a face não dois homens, sim duas almas raciais arrostadas num duelo decisivo. Não fala neste momento o Presidente Kerlog. Fala o branco de crueldade fria, o mesmo que vos arrancou do kraal, o mesmo que vos torturou nos brigues, o mesmo que vos espezinhou nos algodoais. Como ha razões de estado, Jim, ha razões de raça.

Razões sobrehumanas, frias como o gelo, crueis como o tigre, duras como o diamante, implacaveis como o fogo. O sangue não raciocina, como os filosofos. O sangue sidera, qual o raio. Como homem admirote, Jim. Vejo em ti o irmão e sinto o genio. Mas como branco só vejo em ti o inimigo a esmagar..." O largo peito de Jim Roy arfava. A fera ancestral nele alapada transpareceu no fremir das ventas grossas.

— "E não trepidará o branco em esmagar a America se for condição para esmagar o negro?" rugiu.

Kerlog retrucou calmamente como se pela sua boca falasse o proprio deus do Orgulho: — "Acima da America está o Sangue".

Jim baixou a cabeça. Viu aberto á sua frente o eterno abismo.

O sangue branco tinha a dureza do diamante. Armado de mais cerebro, dos vales dos Ganges partira para a ousada aventura conquistadora e vencera sempre e não cedera nunca. Era o nobre, o duro, o eterno senhor cujo raio fulmina. Era o criador. Do rude instinto de matar do troglodita extraira a sua grande arte, a Guerra.

Forjara a espada, dominara o gás que explode, violara o profundo das aguas e a amplidão dos ares. E com esse feixe de armas incoercíveis rodeara como de baionetas o diamante do seu Orgulho.

Tudo isso, num clarão, viu Jim Roy naquele homem que sereno o arrostava. E o que ainda havia de escravo no sangue do grande negro vacilou. Jim sentiu--se como retina ferida pelo sol. Mas sem demora reagiu. Ergueu-se e mais firme que nunca disse com dureza de rocha na voz: — "Seja! E porque assim é, dei o supremo golpe. A America é tão sua como minha. Tenho-a nas mãos. Vou dividi-la." — "A justiça está contigo, Jim. Manda a justiça dividir a America. Mas o Sangue está acima da justiça. O Sangue tem a sua justiça. E para a justiça do Sangue Branco é um crime dividir a America." Jim novamente baixou a cabeça e emudeceu. Pela segunda vez sentia-se como a retina ofuscada pelo sol.

O Presidente Kerlog aproximou-se dele e, com as mãos nos seus ombros largos, disse: — "Vejo-te grande como Lincoln, Jim, e é com lagrimas nos olhos que contemplo a tua figura imensa, mas inutil... Adeus.

Atendamos ao instante, açaimemos as nossas raças — mas não fique entre nós sombra de mentira. O teu ideal é nobilíssimo, mas á solução de justiça com que sonhas só poderemos responder com a eterna resposta do nosso orgulho: Guerra!" E os dois seres humanos subsistentes no imo dos dois lideres raciais abraçaram-se com lagrimas...

Miss Jane fez uma pausa, atenta á minha comoção. Aquele duelo de gigantes agitara fundo o meu ser. Tive a impressão de que jamais a historia oferecera lance mais grandioso — nem mais cruel. Vi claros inumeros pontos até ali obscuros na marcha da caravana que do fundo das idades vem vindo a entredegolar-se com sanhudos odios.

Vi um sonho de Ariel esfumado nas alturas — a Justiça Humana; e vi na terra, onipotente, a Justiça do Sangue — um raio cego...

— E depois? perguntei. Voltou a paz á America? — Sim, respondeu miss Jane. Os dois lideres entraram a agir de pronto. A ação de um foi tão rapida e segura como a do outro. A pantera negra recolheu as garras e a aguia branca enluvou as unhas.

Mas o beluario negro sentia-se ferido. As palavras que a raça branca pusera na boca de Kerlog cravaram-se-lhe no coração como as zagaias dos seus avós no peito dos leões africanos — mortalmente...

CAPITULO XIX - Burrada

Para descanço do meu espirito miss Jane passou a falar do movimento feminino, tema que muito me interessava.

— O partido elvinista, disse ela, desapareceu do cenario nacional como neve exposta ao fogo. Poderosíssimo na vespera, tão poderoso que batera seu adversario, o partido masculino, por meio milhão de votos, achava-se agora reduzido a uma só partidaria: miss Elvin. Todas as mais haviam aderido aos homens escandalosamente, como se lá no intimo nunca tivessem ansiado por outra coisa.

O tempo ia passando e miss Elvin não se recompunha do formidavel trambolhão sofrido. Para o meeting marcado em sua casa no dia das eleições não aparecera ninguem, e atirada a uma poltrona do salão deserto a irredutível sabina permaneceu até tarde da noite, furiosa, com os olhos cravados no aparelho por onde irradiara a ultima proclamação do Remember Sabino! — Ultima, miss Jane? — Ultima, sim, porque esse jornal havia morrido de subito colapso. Todas as assinantes haviam cortado a ligação, e se miss Elvin tentasse radiar uma só palavra que fosse ve-la-ia perder-se virgem de ouvidos pelos intermundios siderais.

A um canto da sala havia um enorme gorila empalhado, com um dístico insultante: "O avô do ladrão". Era olhando para aquela bestial carcaça avoenga que miss Elvin compunha as suas terríveis catilinarias contra o Homo sapiens, ao qual jurara descer da sua posição de macho natural da mulher, — Mas haveria sinceridade nisso? perguntei.

— Sinceridade estetica evidentemente, forma de sinceridade tão legitima como outra qualquer.

Não entendi muito bem. Miss Jane dizia ás vezes coisas um tanto acima da minha debil compreensão...

— Essa teoria, prosseguiu ela, fez carreira e exerceu uma função muito curiosa na America: congregar todas as femeas que por uma circunstancia ou outra se desavinham com os machos — esposos, noivos ou namorados, e foi com esses elementos que se constituiu o partido elvinista. Partido instavel, aliás, e sempre renovado.

Diariamente nele se inscreviam milhares de adeptas e se eliminavam outras tantas. Entravam as brigadas com o homem e saiam as reconciliadas...

Mesmo assim miss Elvin elevou muito alto as suas construções, chegando até, como já disse, a criar ciencias novas, adaptadas á mentalidade das mulheres.

A Universidade Sabina fez furor. Não tinha séde ao sistema de hoje, como aliás a maioria dos estabelecimentos de ensino da epoca. As lições eram radiadas diretamente para a residencia das alunas. A ciencia elvinista possuía seus metodos proprios, nada semelhantes aos da velha ciencia dos homens. Em aritmetica, por exemplo 2 + 2 não era forçosamente igual a quatro. Era igual ao que no momento conviesse.

— Vejo, disse eu, que é bem verdade o "nada ha de novo debaixo do sol". Para quanta gente hoje a verdadeira matematica não é essa! Mas como era a ciencia sabina, miss Jane? Fale-me dela.

Miss Jane explicou que o grande principio da ciencia sabina era admitir como base de tudo a veneta; e como a veneta é de si feminina e instavel nenhuma das ciencias novas, inclusive as matematicas, possuía base fixa. Tudo ondeava, como o mar donde procediam as sabinas. E por absurdo que isto nos pareça, a nós deste presente educado na rigidez da velha ciencia de Aristoteles e Bacon, as teorias de miss Elvin trouxeram ao espirito humano a sua contribuição de beleza. Foi a vitoria do furta-côr, da onda, do reflexo fugidio do loie-fulerismo, contrapostos á côr fixa., á rididez do cubo, á constancia equacional dos termos. Isso se adaptava maravilhosamente á agilidade do pensamento mulheril, e foi justamente essa feição sedutora, amavel e liberrima da teoria que determinou o enlace de todas as mulheres para o terreno político, operando a cisão branca.

— Qualquer coisa como o futurismo de hoje, não acha? — Isso. Teorias de repouso, com base num sutil malabarismo de logica, que servem para romper o monotono de certeza, de verdade, da coisa tida e havida como justa. O espirito humano nelas se recreia e se espoja, como se espoja na poeira o cavalo cansado.

Miss Elvin, entretanto, ao invés de mostrar-se desolada com as consequencias do seu movimento só via o lado pessoal do desastre.

Fôra violenta demais a sua queda. O sonho maravilhoso erguera-a ás nuvens e a sabina acabou convencida de que era de fato messianica. E como tinha o genio impulsivo, não podia conter o furor diante da deserção até das amigas mais proximas.

Em certo momento, no dia do grande meeting, miss Elvin olhou para a cara bestial do gorila empalhado como quem olha para um inimigo de carne. O monstro, de dentes á mostra, parecia sorrir-lhe ironicamente.

— "Venceste ainda uma vez, meu celerado! Mas a crise passará e justaremos contas..." disse ela atirando-lhe á cara uma veneranda Origem das Especies de Charles Darwin.

Estava plenamente convicta de que quando o país reentrasse na normalidade resurgiria o partido sabino. A onda fôra-se. Mas o proprio da onda é ir e vir.

— "She is false as water..." repetiu miss Elvin por sua vez, espraiando o olhar para o futuro.

E assim foi. Quando o país recaiu na paz de sempre, o Remember Sabino! reapareceu e houve um perfeito da capo do elvinismo, como nas musicas...

Miss Jane fez pausa. Notou talvez que eu estava inquieto, em luta com alguma ideia. E não errara. Qualquer coisa me dizia que era o momento de declarar a minha sopitada paixão. O sangue estuavame nas veias e por fim a palavra de amor que romperia a barreira assomou-me á boca. Mas ao chegar á boca transformou-se, e o que saiu foi uma filha da timidez disfarçada em curiosidade: — E miss Astor? perguntei.

— Essa irradiava de contentamento, como se o reatar relações com o difamado Homo lhe houvesse correspondido a um secreto anelo do coração. Durante o período agudo da agitação elvinista operarase uma completa ruptura entre os membros dos dois partidos, e miss Astor chegou a zombar de Kerlog, por quem possuia uma séria inclinação sentimental. O desfecho inesperado das eleições, entretanto, viera romper a frieza e aproximara-os de novo, fato que a enchia de secretas esperanças. As demais elvinistas, já saudosas do macho tradicional, tambem aproveitaram o ensejo para uma reconciliação — e é de crer que nunca houvesse maior safra de beijos na America.

Remexi-me na poltrona. Tanto beijo lá longe e uma criatura humana a definhar ali por falta de um só...

— Isso explicava, continuou a desentendida miss Jane, o estranho fenomeno de só as ex-adeptas de miss Elvin demonstrarem uma clara e inquieta alegria justamente na hora mais pressaga da nação.

Enquanto todos se entregavam a penosas cogitações, colhidos pela angustia do momento, as ex-sabinas vogavam em pleno mar de uma doce lua de mel.

A crise de ternura não passou desapercebida ao ministro da Seleção Artificial.

— "Vai altear-se o índice dos nascituros brancos, disse ele a um colega no momento em que subiam os degraus da Casa Branca para a reunião do ministerio. Prevejo o congestionamento de Eropolis..." Kerlog já lá estava no salão do conselho, mais sereno do que na vespera; embora ainda cheio de rugas na fronte. A conferencia com Jim Roy abalara-o profundamente. Sentira que não era o negro um ambicioso vulgar, como tinha suposto. Via agora em Jim uma nobre alma de patriota, capaz do supremo heroismo de sacrificar-se pela America. E graças a seu concurso podia o governo estudar com a necessaria calma a gravíssima situação.

Reunidos todos os secretarios, quem primeiro falou foi o ministro da Paz, antigo juiz cujo respeito pela Constituição tinha algo de supersticioso.

— "Refleti durante a noite sobre o caso, disse ele, e cheguei á conclusão de que a nós só compete uma coisa: mostrar-nos fieis á memoria dos instituidores da nação. A lei basica existe e a nossa missão suprema é faze-la cumprir. Foi eleito um cidadão americano tão elegível como o senhor Kerlog ou miss Astor. Governo que somos, a lei nos obriga a aceitar o fato, mantendo a ordem e empossando Jim Roy no dia que a lei manda." — "Perdão! interveio o ministro da Equidade. Creio que o senhor Kerlog não nos convocou para o exame formal do problema. Seria inutil, sobre infantil. O problema transcende a esfera politica e tornase racial. Neste momento não estamos aqui como secretarios de estado e sim como brancos afrontados pelos negros. Acima das leis políticas vejo a lei suprema da Raça Branca. Acima da Constituição vejo o Sangue Ariano. O negro nos desafia. Cumpre-nos aceitar a luva e organizar a guerra." Kerlog sorriu. Via o seu ministro expender as mesmas razões que ele lançara contra Jim. A voz do Sangue, sempre...

A discussão foi breve. Tirante o ministro da Paz, todos apoiaram o ponto de vista do ministro da Equidade — e Kerlog encerrou a audiencia com estas palavras: — "Possuimos uma delegação politica e com os poderes que ela nos outorga não podemos resolver um problema de sangue. Meu pensamento é que se convoque a convenção da Raça Branca. Como ha razões de estado, tambem ha razoes de raça que nos cumpre ouvir e atender." A ideia foi unanimemente aprovada.

— O que admiro, comentei eu, é a concisão e firmeza dessa gente da America futura. Se fosse entre nós hoje, que barulheira, que discurseira de não acabar mais! — Tem razão, senhor Ayrton. A uma criatura de hoje que assistisse aos acontecimentos do ano de 2228 nos Estados Unidos, nada espantaria tanto como o alto controle de si proprio que o homem revelava. Nada de tumulto, de anarquia individualista, de desnecessarias violencias na linguagem e nos atos. É que os processos seletivos tinham banido da sociedade os tarados, inclusive os retoricos. Todas as perturbações do mundo vinham da ação anti-social desses maus elementos. Até á vitoria pratica do eugenismo, a desordem humana raiara pelo destempero e não podia deixar de ser assim, visto como um alcoolatra, um retorico ou um burocrata tinham tanta liberdade de encher o mundo de futuros pensionistas das prisões, dos prostíbulos e das camaras de deputados como um homem são de o povoar de silenciosos homens de bem. A má semente humana gozava de tantos direitos como a semente que abrolhou em Lincoln. E a caridade, a filantropia, a assistencia publica em materia de defesa social, não faziam senão despender enormes quantidades de dinheiro e esforço na criação de hospitais, asilos, hospícios, prisões, casas de congresso, repartições publicas, isto é, abrigos para os produtos logicos da má origem. A ideia de seleção da semente, de ha muito vitoriosa na agricultura e na pecuaria, só não se via aceita no campo que mais deveria interessar ao homem. Uma velha ideologia mística vinda da Asia hebraica, e um falso conceito de liberdade vindo do 89 francês, a isso se opunham tenazmente. Quando em 2031 Owen propôs a lei espartana, a resistencia ainda se mostrou forte; mas o alto progresso do espirito da America permitiu-lhe a vitoria. Pouco depois, quando o mesmo Owen formulou a lei da esterilização dos tarados, embora fosse colossal o numero dos atingidos, já se revelou menor a resistencia e a lei venceu por esmagadora maioria.

Bastou um seculo de inteligente e sistematica aplicação dessas leis aureas para que o povo americano se alçasse a um grau de elevação física, mental e moral que nem o proprio Owen chegara a sonhar. Fecharam--se as prisões e com elas os hospitais, os hospícios e asilos de toda especie. E os sociologos da epoca entraram a assombrar-se da estupidez dos seus ancestrais...

— ... que passavam a vida lutando contra os produtos do mal sem terem a ideia de suprimi-lo com supressão da má semente.

Até a miseria, cancro julgado pelos velhos filosofos como contingencia humana, viu-se gradualmente extinta á proporção que o progresso seletivo operava os seus logicos efeitos. Com ela desapareceram automaticamente a prostituição e as formas baixas do crime.

O direito de reprodução passou a ser regido pelo Codigo da Raça, o mais alto monumento da sabedoria humana. Só quem apresentasse a serie completa de requisitos que a Eugenia impunha — requisitos que assegurassem a perfeita qualidade dos produtos, é que recebia o ministerio da Seleção Artificial o brevet de "pai autorizado".

— Mas realmente parece incrível, miss Jane, exclamei com horror, que ainda hoje tenha o direito de ser pai quem quer! Morfeticos ha ali na roça que botam no mundo anualmente pequeninos lazaros. E ninguem vê, ninguem diz nada, todos acham que está tudo direito. ..

Eu sentia-me a ferver, com impetos de pular para a rua e berrar para todos os ventos: — Burrada!...

Miss Jane acalmou-me a furia e prosseguiu: — E não parava aí a intervenção seletiva. Se um "pai autorizado" pretendia casar-se, tinha de apresentar-se com a noiva a um Gabinete Eugenometrico, onde lhes avaliavam o indice eugenico e lhes estudavam os problemas relativos á harmonização somatica e psiquica. Caso um deles não atingisse o índice exigido, poderiam contrair nupcias mas sob a condição de infecundidade.

— Como é claro e inteligente isso! exclamei. Burrada!...

— Reproduzir a especie tornou-se um ato de altíssima responsabilidade, já que era de altíssima relevancia para o progresso da especie. A ideia de exigir habilitações oficiais para certos atos da vida é velha — mas exclue o ato de dar vida á prole futura. Exige o estado de hoje habilitação brevetada para quasi tudo, para que um homem trabalhe no fôro, construa uma casa, cure uma dor de barriga...

— enrole uma pílula ...

— ...mas nada exige de quem pretende dar vida a um novo ser humano, elo inicial, muitas vezes, de uma cadeia sem fim de desgraçados ou criminosos.

— Burrada! Burrada... exclamei deveras revolta do contra a estupidez vigente. E como não ser assim, se qualquer Sá ou qualquer Pato dirige a opinião? Depois que meu ímpeto de revolta serenou, voltei a interpela-la acerca de um ponto que andava a espicaçar a minha curiosidade.

— E o casamento, miss Jane? Já falou diversas vezes em casamento e estou curioso por saber se essa palavra em 2228 diz o mesmo que hoje.

— Diz e não diz, respondeu miss Jane. Nos casamentos em que o fim era a procriação, o estado intervinha com olhos de lince. Sendo o objetivo a prole sã de corpo e alma, compreende o senhor Ayrton que todo o rigor era pouco para evitar desvios funestos ao futuro da raça.

As criaturas autorizadas a procriar constituíam uma especie de nobreza. Todos as respeitavam como as eleitas da especie, preciosas linhas diretrizes do amanhã. O supersticioso acato que mereciam outrora os duques, marqueses e barões por mercês arbitrarias de tronos e solios pontifícios, passou a caber aos pais pelo simples fato de serem pais. Ser pai valia por um diploma de superioridade mental, moral e fisica, conferido pela natureza e confirmado pelos poderes publicos.

Esse casamento aproximava-se do nosso em muitos pontos. Era tambem dissoluvel. Mas conquanto dissoluvel, raro se dissolvia: a harmonização pre-nupcial dos Gabinetes Eugenometricos quasi não dava oportunidade a erros.

Nos outros casos os conjuges uniam-se e desuniam-se com a maxima liberdade e desembaraço. Nada tinha que fazer o governo em um contrato bilateral onde só valia a vontade dos contratantes.

— Quer dizer que o numero dos divorcios cresceu espantosamente...

— Ao contrario, diminuiu como nunca se esperou. E diminuiu em virtude da unica imposição que a lei fazia a esses contratos: as férias conjugais obrigatorias.

— ? ! — Sim, férias. A experiencia psicologica demonstrou que o mal do casamento vinha mais do enfaro reciproco dos conjuges do que da essencia dessa forma de associação sexual. Instituiram-se as férias, como temos hoje as forenses, as colegiais, etc. E essa separação periodica agiu com tamanha eficacia que os casais passaram a ter duas luas de mel por ano, luazinha após as férias pequenas e lua cheia após ás grandes. Não houve mais necessidade de recorrer-se ao violento drastico do divorcio, como o temos hoje. O suave laxante das férias limpava os conjuges das toxinas do enfaro e renascia-lhes o amor ao petit-feu das saudades.

— Puro ovo de Colombo! exclamei. Estou vendo que tudo é ovo de Colombo na vida. ..

— Será, mas o Colombo deste ovo só apareceu no seculo XXIII.

Foi Johnston Coolidge, autor do famoso livro Toxinas Conjugais, concluiu miss Jane.

Pela primeira vez fui eu quem pôs fim a um domingo. Estava ansioso por voltar á cidade e nos cafés, na rua, no escritorio, prégar a eugenia e insultar a estupida gente que não vê as coisas mais simples. A consequencia foi que só dormi pela madrugada. E sonhei, agitado.

Sonhei a cidade tão limpa dos seus aleijões que ficava reduzida unicamente a duas criaturas de mãos presas — eu e miss Jane...

CAPÍTULO XX - A Convenção Branca

Desta vez não tive paciencia de esperar novo domingo. Havia um feriado no meio da semana e aproveitei-o para voar ao castelo antes do almoço. Delicioso almoço! Figurei-me durante ele já marido da gentil hospedeira e dono do castelo. Cheguei a olhar com olhos de proprietario através das vidraças, por onde se viam terras e mais terras otimas para a cultura. Mas foi momentaneo o meu deslize. Do fundo d'alma eu só queria ser dono do coraçãozinho que palpitava no seio da castelã.

Tomamos café na varanda e em seguida miss Jane retomou o fio da historia.

— A elevação do índice eugenico-mental do povo da America no ano do choque das raças já era notabilissima; o modo como agiu a Convenção Branca o demonstrou mais uma vez. Falar em convenção é lembrar a Convenção Francesa, aquele tumulto utopico que fez retorica ás toneladas e decepou cabeças aos montões, como se a produção de frases e a redução de vidas pudesse aumentar o trigo dos celeiros, causa real de todos os males da França.

A Convenção Branca de 2228 nem por sombras lembraria o redemoinho alto-falante de 1789.

Já na composição desse corpo representativo nada se fez como outrora. Os convencionais não penetraram nele pela força dos azares eleitorais e sim por um processo novo de delegação. Todos os ramos da atividade americana tinham á sua testa, naturalmente levados a esse posto pelo grau de eficiencia mental demonstrado, homens que mereceriam o nome de chefes naturais, ou lideres natos. Como hoje é Henry Ford o lider nato da industria americana em virtude da higidez universalmente reconhecida das suas ideias e realizações, assim naquele tempo cada ramo de atividade possuia um lider natural, mantido nessa situação por consenso unanime. Funcionavam tais chefes naturais como orgãos especialissimos, apices, vertices, cimos, estações centrais, bulbos raquideanos da classe. Ninguem lhes discutia as ideias de decisões, sumulas sempre da mais alta sabedoria possível no momento — e o chefe cujas ideias passavam a ser discutidas via-se logo automaticamente apeado dessa posição.

De modo que foi facílimo convocar a Convenção Branca. Alem de já estarem naturalmente indicados, os convencionais se resumiam em seis criaturas, respetivamente lideres da industria, do comercio, das finanças, da arte, das ciencias e das letras. Eram eles os senhores George Abbot, morador em Detroit e chefe da industria das bonecas falantes, o supremo encanto das crianças americanas; John Perkins, morador em Hudson, onde mantinha um pequeno comercio de peles de lontra branca; Harmsworth, diretor do Banco Universal; John Leland, criador da Puericultura Estetica; John Dudley, pai da côr numero 8 e autor de 72 invenções; e finalmente Dorian Davis, poeta de um soneto unico sobre o qual se achava a America dividida em dois imensos grupos — os que tinham como defeituoso o quarto verso e os que o tinham como uma forma de beleza só perceptível no futuro.

O Presidente Kerlog não encontrou dificuldades em reunir a Convenção. Radiou uma sucinta mensagem na qual pedia a cada uma das classes sociais a indicação do seu representante para o exame do impasse criado pela vitoria dos negros. Uma hora depois o aparelho receptor do Capitolio registrava os seis nomes previstos, só não havendo unanimidade quanto á indicação do representante das letras.

Os que consideravam defeituoso o quarto verso do soneto de Davis preferiram votar em branco.

Dois dias mais tarde congregavam-se na Casa Branca os seis expoentes supremos da raça, sob a presidencia do senhor Kerlog.

Solenidade de protocolo, nenhuma. Eram homens simples no trajar e nos modos, criaturas nada relembrativas dos figurões que se reunem hoje em conferencias internacionais, vestidos de soleníssimas sobrecasacas e com solenerrimos tubos de chaminé reluzentes nas cabeças, como se a plumagem dos perus influísse alguma coisa nas ideias dos perus.

Sentaram-se os seis expoentes e ouviram a breve exposição de motivos do chefe do estado. Declarou este que ocupava apenas um posto politico e se via numa emergencia racial. Nada fizera, nem faria, antes que a suprema delegação da raça definisse com rigor o caso e lhe estabelecesse um rumo. Como governo, executaria em seguida o veredictum altíssimo. Pedia, pois, aos presentes que lhe dessem as "razões da raça".

Os convencionais ouviram-no com amavel atenção e passaram a conversar de outros assuntos, como se estivessem num garden-party.

— "A minha ultima boneca", disse George Abbot, "alem de falar, cose, varre e lava roupa", na perfeição. Tenho uma netinha de seis anos que está positivamente encantada.. .

Ao lado dele Harmsworth confessava que ainda não lera o soneto maravilhoso.

— "Falta de tempo?" indagou Davis.

— "Não. Ha em minha casa uma harmonia perfeita sobre o asunto e receio perturba-la adotando um ponto de vista discordante..." Já Leland debatia com Dudley a possibilidade da côr numero 9 e propunha um lindo nome para essa possível filha futura do espetro solar.

Á encasacada e encartolada gente de hoje parecerá estranho que homens de tal envergadura e em momento tão angustioso, assim puerilmente se recreassem num congresso presidido pelo chefe da nação. É que os nossos medalhões, envenenados pela retorica e pelo atitudismo não alcançam certas formas da ultra beleza, nem compreendem certos segredos de ultra psicologia.

Justamente porque era gravíssima a decisão que iam tomar, e na realidade decisiva para os destinos do genero humano, procuravam manter a serenidade de espirito com repousantes trocas de ideias gentis, enquanto nas profundas dos respectivos cerebros a sentença suprema se elaborava.

Passados quinze minutos nesta recreação espiritual, John Leland ergueu-se e disse com grande calma, depois de grafar num papel meia duzia de sinais: — "Senhor Presidente, minha ideia está formada e eu a consigno nesta moção, que tenho a honra de submeter a votos. Vou le-la".

Fez-se no recinto um augusto silencio. Se ainda houvesse moscas no ano 2228 poder-se-ia ouvir alguma voar na sala. Todos sentiam que a Raça Branca ia falar a palavra ultima, a palavra de sentença do mais alto tribunal que ainda se reuniu no mundo.

Leu Leland a sua moção, sucinta e nitida como era de esperar.

Sua voz soou como um dobre a finados. Apesar da firmeza de animo dos convencionais, sentia--se que estavam todos de alma tensa como corda de violino em ponto de romper-se. Fugira-lhes das faces o sangue; até o senhor Kerlog, sempre rosado, parecia um vulto de cera.

Quando o ultimo eco da moção Leland morreu naquele ambiente de tumba, todas as cabeças se inclinaram para o peito e todos os olhos se fecharam. A Raça Branca elaborava o seu voto decisivo...

Alguns minutos transcorreram assim. Ao cabo o Presidente Kerlog murmurou: — "Está a votos a moção Leland".

O primeiro que se ergueu foi Dudley.

— "Voto com Leland", disse ele e sentou-se. Ergueu-se em seguida Harmsworth e disse: — "Voto com Leland".

O terceiro foi Abbot, que murmurou sem levantar-se da cadeira: — "Idem".

Os outros limitaram-se a dar igual voto com uma simples indicação de cabeça.

Estava lavrada a sentença de ponto final do negro na America? Sem verborreia, sem inutil dispendio de retorica, sem citação dos gros bonnets da etnologia e da sociologia, a Suprema Convenção da Raça Branca traçara o diagnostico e dera o remedio exato.

O Presidente Kerlog pronunciou mais meia duzia de palavras e... pronto! concluiu miss Jane.

Confesso que fiquei desapontando. Quando miss Jane abordou aquele assunto preparei-me para ouvir coisas tremendas. Uma Convenção! A Convenção da Raça Branca! Nunca no mundo se reunira congresso mais alto e proposto a fins mais terríveis. Esperei portanto qualquer coisa de tão eloquente como um jacto de seis Mirabeaus, multiplicados por seis Dantons. Em vez disso, um homem que apresenta uma breve moção e mais cinco sujeitos ultra pacíficos que a aprovam friamente — alguns até com a cabeça, sem se erguerem das suas poltronas. Era demais! — Só isso, miss Jane? exclamei com cara de espectador roubado.

— Só, respondeu ela, muito divertida com o meu logro. Que mais queria? Mính'alma de latino espalhafatoso não se conformava com a falta de espalhafato.

— Eu queria uma tempestade com raios e trovões. Queria um Jeová tonitroando na sarça ardente. Ou, pelo menos, eloquencia, que diabo! — Haverá maior eloquencia do que a da precisão absoluta? Não me convenci. Não ia comigo tanta frieza. Meu sangue quente pedia barulho, berros, murros na mesa, desaforos... Resignei-me, porém, e minha curiosidade tomou pé.

— Mas, afinal de contas, que é que dizia a moção Leland? indaguei.

— Ignoro, respondeu miss Jane. Foi secreta. Só o Presidente, os seis convencionais e depois os tecnicos do estado tiveram conhecimento dos seus termos.

Miss Jane sorria. Ocultava-me qualquer coisa, com certeza para me surpreender no fim. Não insisti e, resignado, disse-lhe: — Continue, miss Jane...

Miss Jane continuou.

CAPÍTULO XXI - Uma Dor de Cabeça Historica

— Quando os convencionais deixaram a Casa Branca o último a despedir-se foi o senhor John Dudley, pai da côr numero 8 e autor das 72 invenções.

Era esse Dudley um velhinho de olhar muito vivo e alegre, cuja inteligencia tinha fama de ser a mais pronta da America, a mais facetada e contornante. Apreendia tudo instantaneamente, sob todos os aspectos possíveis.

Ao apertar a mão do Presidente Kerlog, disse ele com ar enigmatico: — "Faço votos para que o senhor Presidente descubra a solução pratica com a mesma facilidade com que o senhor Leland descobriu a solução teorica. Isso lhe trará, talvez, uma certa dorzinha de cabeça. Se por acaso se agravar essa dor de cabeça e não ceder a nenhum sedativo, lembre-se deste seu criado e chame-o.

Quero ter a honra de curar uma dor de cabeça historica...

Disse e saiu a sorrir. Kerlog ficou uns instantes a meditar naquelas palavras enigmaticas, que traziam evidentemente uma intenção oculta. O homem das setenta e duas invenções nada dizia ás tontas.

— "Será que John Dudley possue de sua invenção alguma famosa super-aspirina?" pensou consigo o chefe de estado. Mas o tumulto das preocupações governamentais fe-lo em breve esquecer-se do incidente.

A semana que se seguiu á Convenção foi o peor momento de vida que ainda passou um presidente americano. O ministerio vivia em reuniões continuas, e era de fuga que aqueles homens tomavam algum repouso. A tarefa de manter o país em calma, de evitar a explosão das duas masas prenhes de eletricidades contrarias e suscetiveis de explosão ao menor choque, agravava-se com a premencia de solver o caso dentro da formula votada pelos convencionais. Mas entre propor com toda a frieza uma solução daquelas e descobrir os meios de possibiliza-la, ia um abismo.

O ministro da Paz chegou a irritar-se.

— "São facílimas as soluções dessa ordem", disse ele. "Creio até que se em vez de seis velhos lideres reunissemos aqui seis crianças de escola, o resultado seria o mesmo. É absolutamente impraticavel a formula Leland." O Presidente Kerlog possuía um carater mais obstinado do que o do seu ministro. Assim foi que objetou: — "Costumamos chamar impraticavel ao que não praticamos ainda. Lembre-se de Colombo com o ovo..." — "Perfeitamente", contraveio o ministro, "mas já se passou uma semana e não nos ocorre saída. Estou cansado de examinar as sugestões dos nossos tecnicos, todas absurdas, porque em grau maior ou menor implicam o emprego da força, o que seria desencadear a tormenta. As sugestões de hoje — sete! — parecem-me tão idiotas como as anteriores.

Na realidade assim era. Debaixo do mais absoluto segredo cerca de cinquenta tecnicos do estado, dos mais habeis que se puderam reunir, davam aos miolos as maiores torturas para afastar do remedio proposto por Leland o termo coação.

Os ministros já manifestavam sintomas de surmenage. Horas e horas perdiam a debater o caso, e nem no sono tinham repouso; o trabalho mental subconsciente os torturava de pesadelos.

No oitavo dia o Presidente apareceu na sala de trabalho a cheirar um frasco de sais. Era a dorzinha de cabeça prevista por John Dudley. No decimo dia essa dor agravou-se de modo a inspirar receio aos ministros. Felizmente a memoria do senhor Kerlog funcionou a tempo e fe-lo recordar-se das palavras do convencional Dudley ao despedir-se.

— "A dor de cabeça mata-me", radiou ele para o homem das 72 invenções. "Acuda-me com o remedio, caro Dudley!" Naquele mesmo dia, á noite, reapareceu John Dudley na Casa Branca, sendo logo introduzido nos aposentos particulares do Presidente.

— "Benvindo seja!" disse este com a mão na testa. "A cabeça estala-me e a dor não cede a sedativo nenhum. Acuda-me com a sua ultra-aspirina." John Dudley sorriu com malicia.

— "Ouça-me", disse ele, "ouça-me com atenção que sarará dentro de cinco minutos. O seu mal cura-se com um topico que só eu possuo." E Dudley começou a falar. Ao cabo do segundo minuto, o Presidente Kerlog tirava a mão da testa. Ao fim do terceiro sorria. Ao quinto, saltava da poltrona e vinha apertar nos braços o terrível velhinho.

— "Maravilhoso!... Mas então é assim absoluto o efeito?" — "Fiz todas as experiencias e tirei todas as contra provas," respondeu Dudley. "O efeito é absoluto!" — "Sem dor, sem lesão, sem que o paciente sequer o suspeite?" — "Exatamente!" Kerlog sorria, com o olhar distante. O problema que em vão a política tentara solver, a ciencia resolvia por um processo magico.

— "Efeito duplo, então?" insistiu o Presidente.

— "Triplo, aliás", retrucou o malicioso sabio.

O presidente fez cara de surpresa.

— "Sim, pois cura tambem as dores de cabeça historicas..." Kerlog sorriu e novamente abraçou o homem das 73 invenções, — Miss Jane, disse eu interrompendo: está a senhora a judiar comigo! Macacos me lambam se percebo qualquer coisa...

— Uma pontinha de mistério é indispensavel no tempero dos romances, respondeu a linda criatura. O senhor Ayrton vai ser romancista; deve pois ir aprendendo o sutil segredo da dosagem dos ingredientes...

Miss Jane estava a brincar comigo, não havia duvida. Punha fogo ao estopim de minha curiosidade e deixava-o a arder...

No dia seguinte, continuou ela, reapareceu na Casa Branca o senhor John Dudley, desta vez sobraçando um esquisito embrulho — um embrulho fôfo, como se contivesse cabelos humanos.

Entrou e passou uma boa hora em conferencia com o Presidente e mais os seus ministros.

O que lá houve ninguem conseguiu saber. Só se soube que, finda a reunião, ao descerem a escadaria, disse o ministro da Paz ao da Equidade: — "O eterno ovo de Colombo! Bem dizia o Presidente que era necessario teimar..." — "E que lindos ficam os cabelos!" comentou o da Equidade.

"Não só se alisam, como afinam e se tornam sedosos. O peixe morrerá pela carapinha, não ha que ver..." — Miss Jane... comecei eu, interrompendo-a nesse ponto.

A moça, porém, tapou-me a boca e deu o sinal do chá.

Fiz a cara de compunção com que sempre recebia o tal ponto e vírgula. Mas errei.

— Não faça esse bico de criança, disse miss Jane com a sua finura habitual. O chá é apenas virgula. O senhor Ayrton está convidado a jantar aqui.

Meu coração deu cabriolas dentro do peito, e arrastado por um impulso incoercível tomei... a mão da minha amiga e beijei-a. A mão! Apenas a mão! Timidez — teu nome era Ayrton Lobo!...

— Mas o enigma dos cabelos, miss Jane? Decifre-mo logo, que estou a arder de curiosidade, pedi-lhe logo depois do chá.

— Uma historia muito simples, senhor Ayrton. John Dudley dedicava-se, havia longo tempo, ao estudo do cabelo negro, esperançado em descobrir o meio de alisa-lo e torna-lo sedoso e absolutamente igual ao da raça branca — e muito se falou na America, alguns anos antes, nos admiraveis resultados das suas experiencias. Até 2228, porém, o sabio não havia tornado publica essa invenção, que seria a 73.a. E ninguem mais pensava no caso quando, dois dias depois da sua conferencia particular com o Presidente Kerlog, esvoaçou pelos Estados Unidos uma noticia de sensação: John Dudley havia enfim resolvido o difícil problema capilar.

Os raios Omega, de sua descoberta, tinham a propriedade miraculosa de modificar o cabelo africano. Com tres aplicações apenas o mais rebelde pixaim tornava-se não só liso, como ainda fino e sedoso como o cabelo do mais apurado tipo de branco. Os raios Omega influíam no foliculo e destruíam nele a tendencia de dar forma elíptica ao filamento capilar. Vencido este pendor para a forma elíptica, cessava o encarapinhamento, que não passa de mera consequencia mecanica.

Como é de supor, imensa foi a repercussão da noticia. Cem milhões de criaturas reviravam para o ceu os olhos agradecidos. Os negros chegaram a tomar-se de puro extase, convictos de que das Alturas descera a pugnar por eles alguma alta divindade, como outrora os bons deuses do Olimpo. Mal repostos ainda da emoção consequente á vitoria de Jim Roy, outra os empolgava agora — e esta mais fecunda, pois redundaria num aperfeiçoamento físico da raça.

Já o pigmento fôra destruido e, embora o esbranquiçado da pele não se revelasse côr agradavel á vista, tinham esperança de obter com o tempo a perfeita equiparação cutanea. Vir agora, e assim de chofre, o resto, o cabelo liso e sedoso, a supressão do teimoso estigma de Cam, era, não havia duvida, sinal de um fim de estagio. Reduzidas desse modo as duas características estigmatizantes da raça, o tipo africano melhorava a ponto de em numerosos casos provocar confusão com o ariano. Entre a miss naturalmente branca e loura e a negra despigmentada e omegada pelo processo Dudley, era quasi nula a diferença.

— Mas a côr dos cabelos? perguntei eu, sempre curioso de minucias.

— Côr de cabelo bem sabe o senhor Ayrton que não é coisa que dependa da natureza e sim da moda. Hoje, por exemplo, é moda o louro, e nas ruas só vemos louras — louras que amanhã aparecerão de cabelos negros como asas de corvo, se assim o determinar a moda.

Logo em seguida á noticia, estupefaciente como pitada de cocaína, incorporou-se a Dudley Uncurling Company, que estabeleceu em todas as cidades, e nestas em todos os bairros, Postos Desencarapinhantes, como hoje vemos surgir Postos de Vacinação nos anos em que irrompe a varíola. Esses postos multiplicaram-se ao infinito e de um modo magico, como se uma força oculta empurrasse a Dudley Uncurling Company ao desencarapinhamento da America negra ao menor espaço de tempo possível.

Era dos mais simples o processo. Tres aplicações apenas, de tres minutos cada uma. Tais facilidades juntas ao custo mínimo — dez centavos por cabeça — fizeram que os negros acorressem aos postos como cães famintos a bofes fumegantes. A vida americana chegou a sofrer um colapso. Só se falava em raio Omega, em foliculo, em seção elipsiforme e mais capilotecnicas. A principio irritaram-se os brancos com o que chamavam a segunda camouflage do negro, por fim passaram a divertir-se com o espetáculo deveras curioso da subita transformação capilar de cem milhões de criaturas. As fabricas de pentes, grampos, loções, shampoos, brilhantinas, tinturas, etc, trabalhavam dia e noite sem conseguirem atender á subitanea procura de tais produtos.

Cabelereiros novos surgiam em todos os cantos e por mais que trabalhassem não davam conta do recado. As negras, sobretudo, viviam num perpetuo sorrir-se a si proprias, metidas dentro de um céu aberto. Passavam os dias ao espelho, muito derretidas, penteando-se e despenteando-se gozosamente. O seu envelo ao correrem as mãos pelas macias comas omegadas levava-as a esquecer o longuíssimo passado da humilhante carapinha. Brancas, afinal! Libertas afinal do odioso estigma! Neste ponto da narrativa um raio de luz chofrou-me o cerebro.

— Adivinho tudo agora, miss Jane! gritei batendo na testa.

Adivinho a verdadeira solução do problema negro na America! Nem expatriação, nem divisão do país. Apenas branqueamento do negro, igualificação com o branco! decifrei eu, contentíssimo com a minha tacada.

Mas vi logo que errara de novo. No sorriso com que ela esfriou o meu entusiasmo percebi uma pontinha de piedade pela minha argucia — pela minha pobre argucia... Mas era tão boa miss Jane que não teve animo de humilhar-me, como devia. Disse apenas, delicadamente: — Quasi, quasi adivinhou! Está pertinho...

Como um caramujo cutucado, encolhi-me na poltrona donde me erguera no assomo de ardor divinatorio, e para disfarçar a rata estranhei aquele desvio do assunto principal: — Mas a que vem esse incidente dos raios Omega no nosso romance, miss Jane? A moça respondeu de lado: — Joga xadrez, senhor Ayrton? Eu só jogava no bicho, mas menti, corando de leve: — Assim, assim.

Pois nesse caso deve saber que nas partidas bem jogadas um humilde movimento de peão tem tanta importancia para o xeque-mate como um espetaculoso movimento de rainha. Considere este capitulo capilar um movimento de peão e ouça agora o que vou dizer de miss Astor.

— Movimento de rainha... rosnei.

Miss Jane aprovou com um olhar a minha agudeza.

— E de rainha amorosa!completou.

— Amor em 2228? Ainda haverá semelhante coisa em tempo tão recuado? — O amor é eterno, senhor Ayrton e além de eterno invariavel.

O que Dafnis sussurrou ao ouvido de Cloé lá nos fundos da Grecia de Longus, sussurraria miss Elvin a um "gorila pelado" de 2228, se porventura descresse do sabino e aderisse ao Homo, como suas companheiras o fizeram.

Pus em miss Jane os meus olhos de carneiro flechado e suspirei. Seria capaz de "sussurrar" ao meu ouvido uma criatura que assim tão cientificamente falava do amor?

CAPITULO XXII - Amor! Amor!

Miss Jane continuou: — Depois de sua espaventosa adesão ao Homo, a líder do partido feminino caiu em si. Percebeu que o desvairamento no dia da vitoria negra lhe quebrara a soberba linha das belas atitudes e a transformara numa perfeita louca á moda das velhas sufragistas britanicas. E envergonhou-se. Que pensaria dela o Presidente Kerlog? Como teria o lider branco, lá no intimo, recebido aquele arroubo de sinceridade explosiva? Miss Astor amava a Kerlog. A nobre figura do Presidente, sua firmeza no governo, sua agilidade de espirito e sua serenidade de força construtiva, seduziam-na de modo incoercível. E talvez até que no fundo toda a atuação política de miss Astor não visasse outro fim além de aproxima-la do lider branco, por emparelhamento num mesmo nivel de prestigio social.

— Por que então contrapos-se a ele nas eleições? perguntei sapatescamente.

— Porque a linha reta da mulher é sempre torta. Elvinismo, senhor Ayrton!... Matematica, ciencia elvinista! Dois mais dois igual...

ao que convem. Mas miss Astor errava, se acaso se supunha diminuída na opinião de Kerlog. O presidente era Homo e, apesar de todos os progressos da eugenia, um Homo tão sensível ao contacto feminino como... como o senhor Ayrton, por exemplo.

Corei forte. Momentos antes havia eu, sem o querer, está visto, tocado com o meu pé o mimoso pé de miss Jane, e não pude esconder a corrente eletrica que me percorreu o corpo. Seria que miss Jane, sempre tão desentendida, aludia a esse fato? Estava a minha amiga um tanto diferente naquela tarde. Menos impassível que de costume e assim como quem quer e não quer, como quem vai e não vai, como quem diz e não diz. Apesar de toda a minha pouca penetração feminina eu sentia isso, adivinhando nela os primeiros estremecimentos da mulher.

— E já que era assim sensível, continuou a jovem, o amplexo que no momento do perigo pôs miss Astor em contacto com Kerlog calou fundo nas celulas presidenciais e impregnou-as disso que os homens chamam desejo.

Tive vontade de perguntar a miss Jane como as mulheres chamavam isso que os homens chamam desejo — mas me faltou a coragem.

— E daí por diante, sempre que a razão do senhor Kerlog se punha a pesar os prós e contras relativos a miss Astor intervinham as celulas abraçadas, colocando na concha dos prós a tara da saudade — e lá se ia a frieza da razão do senhor Kerlog. Pobre razão humana.

Pobre hoje, pobre em 2228!. . . E tanto era assim, que logo depois da invasão da sala pelas elvinistas arrependidas o senhor Kerlog comentou o fato nestes termos, dirigindo-se ao ministro da Equidade: — "Miss Astor sempre se apresentou diante de mim envolvida em atitudes, belas, não resta duvida, porque ha sempre beleza em todos os seus movimentos — mas atitudes que me chocavam como falsas.

Nem uma só vez a vi ao natural. Foi preciso que o desastre sobre viesse e o terror se apossasse de sua alma para que eu a conhecesse como sempre desejei conhece-la: mulher." E lá consigo recordava a doçura do seu abraço.

Esse abraço ficou. Os dias se foram passando. Veio a Convenção Branca. Veio a dor de cabeça. Veio o omeguismo. Nada apagava das celulas cervicais do senhor Kerlog a impressão do doce contacto.

Certa vez, reunido o ministerio, os ministros perceberam que o Presidente olhava muito amiude para o relogio. O assunto em debate era o progresso do desencarapinhamento dos negros, materia de especial atenção para o chefe do estado. Especial e demorada — menos naquele dia. Naquele dia o Presidente atropelava os seus auxiliares como que desejoso de encerrar mais cedo a reunião.

As informações estatísticas apresentadas pela Dudley Uncurling Company deviam ser bastante favoraveis, a avaliar-se pelo sorriso com que o lider branco as recebera.

— "Estamos no fim," disse ele. A ciencia resolveu de fato o grave problema etnico — e que magistral solução! Em vez de expatriar o negro ou dividir o país...

— "Desencarapinha-lo!" completou, piscando o olho, o ministro da Seleção.

Todos se entreolharam com certo ar de velhacaria. O da Equidade disse: — "O binomio racial passa a monomio. Só o ariano é grande e Dudley é o seu profeta." Eu cocei a cabeça num gesto muito lá do escritorio.

— Mas, então, miss Jane, a solução é mesmo a que eu adivinhei — a igualificação das raças!...

Miss Jane tossiu uma tossezinha de encomenda e desconversou: — O neologismo está bom, senhor Ayrton. Por mais rica que seja uma lingua, a expressão humana tem sempre necessidade de palavras novas. "Igualificação" — muito bem! Encolhi-me no fundo da minha poltrona.

— Mas, continuou ela, o relogio do senhor Kerlog, consultado pela decima vez, marcava tres horas. O Presidente ergueu-se e deu por finda a reunião. Os ministros sairam. Na escada disse o da Paz ao da Equidade: — "Notou a impaciencia de Kerlog?" — "Notei sim. Estava inquieto..." — "Cherchez..." — "Não é necessario. Se ninguem resiste á ação catalitica de miss Evelyn, quem lhe resistirá ao contacto?" Riram-se, e lá se foram cada qual para o seu lado.

Não erraram os dois ministros. Logo depois miss Evelyn Astor parava em frente da Casa Branca e agil como as deusas — ou as amorosas — subia as escadas.

Foi introduzida incontinenti.

— "Benvinha seja a minha formosa rival", disse com o mais amavel dos seus sorrisos o Presidente flecha do.

— "Ex, aliás, Presidente Kerlog!" respondeu a encantadora Circe com um sorriso que era outra flecha.

— "Abandona então a política? Não insiste na sua candidatura?" — "Abandono. Perdi a confiança nos meus nervos. Além disso, mudei de ideia a respeito de um homem..." — "Fazia mau juizo dele?" — "Mau não. Erroneo, apenas. Vejo hoje que esse homem está no seu lugar." — "Obrigado, miss Astor", exclamou o Presidente. "Recebo a sua alta homenagem como ao premio dos premios." — "Pague-me então com outra. Líder que ainda sou de um partido, creio merecer a confiança do lider branco. Não é justo que eu conheça o pensamento intimo do governo relativo á questão negra?" O Presidente Kerlog sorriu com afetada diplomacia.

— "Segredos de estado, miss Astor!..." — "E já houve algum segredo de estado que não fosse conhecido das... mulheres de estado?" retrucou a ex-sabina com vivacidade.

Kerlog, bom esgrimista, tinha fama de pronto nas replicas.

— "As rainhas, as favoritas de outrora, eram de fato cofres, lindos cofres de segredos. Hoje, porém, que não ha mais rainhas nem favoritas, só podem conhecer os segredos de estado as..." Parou. Embebeu os olhos nos de miss Astor. Viu neles o que procurava e concluiu numa gentil mesura: — "... as Presidentas!" Miss Astor fez ar de desapontada e armou bico de criança a quem negam doce.

— "Quer dizer que só conhecerei tal segredo quando for eleita Presidenta..." Os olhos de ambos encontraram-se de novo e meteram-se pelas respectivas almas a dentro. Liam-se os dois amorosos como em livros abertos.

— "Crê então, miss Astor, que só as eleições fazem Presidentas?" Nova cara de desentendida, novo bico de criança. A coitadinha não percebia coisa nenhuma e foi mister que o lider branco dissesse tudo: — "Esposa do Presidente, Presidenta é..." — Novo olhar... ia dizendo eu.

Miss Jane atalhou-me: — Não. Desta vez os olhos ficaram em paz. As mãos de Kerlog é que se estenderam para miss Astor. As de miss Astor foram-lhes ao encontro. Uniram-se no eterno gesto das mãos amorosas que se unem — e... o silencio que diz tudo se fez entre aqueles dois admiraveis tipos de gorilas evoluidos.

A minha amiga parou, a olhar-me muito firme nas mãos, como Kerlog, mas não tive animo de declarar-me. A sua superioridade amedrontava-me ainda.

Miss Jane fez uma pausa de alguns segundos — essa pausa de quem espera e não vê chegar. Por fim disse, como que inconscientemente desapontada: — Quer que continue ou prefere aqui uma linha de reticencias? Eu não queria coisa nenhuma. Eu só queria estender as mãos como Kerlog e embeber meus olhos nos de Jane e ficar assim a vida inteira. Mas os musculos me traíram miseravelmente. "Qual!" pensei furioso comigo mesmo. "Quem nasceu para empregado de Sá, Pato & Cia., não chegará nunca a esposo da filha do professor Benson..." Miss Jane (pareceu-me) deixou escapar um imperceptível suspiro de despeito e rematou a historia do duo presidencial com desinteresse evidente.

— O mais o senhor Ayrton imaginará, disse ela. O ano 2228 em materia de amor não se distinguia dos anteriores. O dialogo de Adão e Eva é talvez a coisa unica que não sofre grande influencia da evolução. Ás vezes até involue...

Tocou a campainha.

— Ponha o jantar, disse com certa secura ao criado que apareceu. E traga uma aspirina.

— Sente alguma coisa? indaguei com timidez.

— Um fio de dor de cabeça apenas, foi a sua breve resposta.

Que jantar frio e desenxabido aquele! Quando me vi fora do castelo, desabafei.

— És um animal de rabo, senhor Ayrton, e bem mereces o desprezo com que o senhor Sá te trata!...

E furioso dei varios beliscões nos musculos covardes que me falharam o movimento de mãos talvez mais oportuno da minha vida.

— Asno, asno, asno!... fui-me repetindo pelo caminho todo.

Estupido eter que não age nem quando interferido por uma interferencia tão clara...

A semana que se seguiu foi a mais desastrosa da minha vida. Na segunda-feira briguei com varios amigos, atirei com uma xícara de café á cara dum garçon e cheguei a ir parar na policia.

Terça-feira pela manhã bebi tres garrafas de cerveja e contra todos os meus habitos fui assim para o escritorio. O senhor Sá olhoume de esguelha por varias vezes. Por fim, notando a má vontade com que eu fazia o serviço, piou: — Comeu cobra? Tive ímpetos de morde-lo. Mas era o patrão e recolhi os dentes.

Sá insistiu: — Comeu cobra, moço? — Não comi coisa nenhuma. Eu lá como? Quem ama lá come? respondi de mau modo.

— Hum! fez ele. Percebo agora. De ha muito venho notando que já não me é o mesmo. Não me dá atenção ao serviço, atropela-me tudo. O Pato me disse ontem...

Estourei a boiada.

— Importa-me lá o Pato! O Pato lá diz ontem! Patão choco é o que ele é! Patíbulo... Patíbulo de fraque!...

O assombro do senhor Sá chegou ao auge. Um empregado tratar assim ao comendador Manoel Pereira Pato, socio da firma, dono de cinco mil apolices, irmão do Santíssimo Sacramento, provedor da Santa Casa. .. E tamanho foi o seu assombro que o pobre homem engasgou Continuei no meu estouro: — Estou farto sabe? Isto por cá não passa de uma burrada.

Mas a Lei Owen rompe aí qualquer dia e quero ver! E a lei espartana tambem! E outras leis terríveis, leis de dar cabo do canastro, entende? Seletivas! O senhor Sá continuava mudo, de boca aberta, num estarrecimento de assustar um homem com menos cerveja no estomago.

Olhei para ele firme e senti uma impressão comica. Disparei na gargalhada.

— Parece o Presidente Kerlog quando soube da vitoria do Jim! Ah! Ah! Ah!... Não sabe quem é Jim? Sabe nada... Era um lider! O lider negro. Negro descascado. Despigmentado, entende? Omegado! Um bicho! Um...

Não pude continuar. Senti revolução no estomago e ignominiosamente destripei um "mico" de marcar epoca no austero escritorio dos senhores Sá, Pato & Cia.

Não me lembro de mais nada, a não ser que fui posto no olho da rua violentamente.

Amor! Amor! Amor!

CAPITULO XXIII - A Derrocada de um Titã

Mas sarei, e o que me curou foi um filme que andava a empolgar as multidões — A Fera do Mar, por John Barrymore. Havia nele um beijo como nunca no mundo se dera outro igual. Um beijo shakespeariano, um beijo força-da-natureza.

Eu como de habito assistia á fita pensando em miss Jane e ligando todas as cenas ao meu amor. No momento do beijo vi-me a beija-la e tal foi o meu ímpeto que cravei as unhas numa coisa gorda que pousara no braço da minha poltrona.

— Sêo bruto! berrou uma voz.

Olhei. Uma velha matrona de bigodes e verruga no nariz fulminava-me com os olhos.

Ergui-me numa tontura e saí. O ar frio da noite serenou-me.

Errei longo tempo pelas ruas desertas, até que em certo ponto me pilhei a monologar em voz alta: — Mas não me escapa! Agarro-a e dou-lhe o beijo de John Barrymore! Quero ver onde vai parar aquela impassibilidade de puro espirito. "Interfiro-a" e quero ver...

Quarta, quinta, sexta, sabado... Uf! como custou a chegar o domingo! Miss Jane recebeu-me com a serenidade antiga, curada já da sua momentanea fraqueza.

— Um pouco palido, senhor Ayrton! Esteve doente? — Um fiozinho de nervoso, miss Jane, mas já passou.

— Aborrecimentos lá na firma com certeza...

— Talvez, miss Jane. Está-me envenenando este negocio de viver os domingos no ano 2228. Não suporto mais a burrice, a cegueira, a suficiencia destes "sapatões" que atravancam o mundo com os seus horríveis fraques internos e externos.

Miss Jane consolou-me.

— Paciencia, senhor Ayrton. A vida é cheia de maus pedaços — mas ha bons pedaços para os que sabem esperar...

Passei a lingua pelos beiços, já agitado.

— Jim Roy por exemplo... continuou ela.

— Ah, sim, o negro... gemi com displicencia, como quem se recorda de uma coisa muito distante. Naquele momento eu estava muito longe de Jim Roy.

Miss Jane, porém, conseguiu recolocar-me no ano 2228.

— Jim Roy, por exemplo, ia ter o seu bom pedaço. Embora não compreendesse a calma dos brancos e ainda tivesse a tinir na cabeça as crueis palavras de Kerlog ditas naquele encontro, passou a aceitar como fato consumado o seu triunfo. O perigo passara. O perigo era o choque das duas raças, uma embriagada com a vitoria, outra ofendida no seu orgulho. Para isso contribuiu não só o vigor de Kerlog como tambem o oportunismo da 73.ª invenção de John Dudley. Que maravilhoso derivativo! A furia desencarapinhante dos negros fe-los se esquecerem completamente da política. Datava de tres meses a entrada em cena dos abençoados raios Omega, e pelas estatísticas oficiais 97% da população negra estava já omegada. Mais uma semana, e os ultimos postos se fechariam por falta de carapinha a alisar. Que magnifico dividendo iria distribuir a Dudley Uncurling Company! Até Jim se omegara e o seu aspecto impressionava agora mais do que nunca. Tornara-se um admiravel tipo de branco artificial, diverso dos brancos nativos, apenas pela grossura dos labios, saliencia zigomatica e chateza do nariz.

Jim entretanto não se sentia o mesmo. Diminuirá o seu vigor.

Aqueles impulsos ferozes, a violencia selvagem que tantas vezes deflagrava em sua alma forçando-o a impor-se a mascara do self-control, estavam morrendo nele. Já não era com ardor belicoso que, derramando o olhar da imaginação sobre o rebanho dos cem milhões de negros, sentia em si a possança de um novo Moisés. Cansaço, talvez, No ardor da luta os musculos operam prodígios de resistencia. O abatimento só vem depois da vitoria. Jim sentia o abatimento da vitoria depois de haver gozado até á exasperação o delírio do triunfo.

Ia realizar um ideal. O problema negro da America teria com ele no governo a unica solução justa.

— "A America ê nossa" monologava. "O branco não quer vida em comum? Dividamo-la. Jim dividirá a America!" Avaliava muito bem os obstaculos tremendos que haviam de embaraçar a sua ação. Mas com pulso forte saberia quebrar todas as resistencias. E que gloria para a raça negra caber a ela o gesto decisivo na eterna questão! E que vitoria o ve-la atestar ao mundo uma capacidade evolutiva e de realizações igual á do branco! Moço ainda que era, havia de dar-se inteiro á nova republica negra e encaminha-la aos mais gloriosos destinos.

E Jim sonhava o maior sonho que ainda se sonhou no continente.

Na vespera do dia da posse estava ele á noite em sua residencia particular, solitario como sempre e imerso como sempre no seu grande sonho, quando alguem bateu.

O lider negro despertou e franziu a testa. Não esperava ninguem, não marcara encontro com pessoa alguma...

— "Está ai um homem branco natural", veio dizer-lhe um criado.

— "Que entre", respondeu Jim, ainda com as rugas do "quem será?" na testa.

Breve pausa. Subito, a porta do gabinete abre-se e...

— "O Presidente Kerlog!..." exclamou Jim, surpreso da inesperada visita.

O lider branco, palido como no dia da Convenção, entrou.

Aproximou-se vagarosamente do lider negro e pos-lhe a mão sobre o ombro num gesto de piedade comovida.

— "Sim, o Presidente Kerlog, o branco que vem assassinar-te, Jim..." Aquelas estranhas palavras desnortearam o lider negro, cujos sobrolhos se franziram interrogativamente. Por mais esforço que fizesse não penetrava o sentido da estranha saudação. Mas sorriu e disse: — "A raça branca não poderia prestar maior homenagem á raça negra do que elegendo para carrasco de Jim Roy tão nobre chefe.

Que arma escolhe para a missão que traz, Presidente Kerlog? Veneno dos Borgias ou lamina de aço?" O tom faceto de Jim Roy não desanuviou o ar sinistro do lider branco, antes o fez ainda mais doloroso.

— "Minha linguagem não é figurada, Jim. Venho de fato assassinar-te, repito".

Jim continuou a sorrir.

— "E eu repito: com o punhal de Brutus ou com o veneno dos Borgias?" Kerlog encarou-o com infinita piedade e disse: — "Arma peor, Jim. Trago na boca a palavra que mata..." O sorriso que pairava nos labios do negro começou a desaparecer.

— "Ninguem admira mais", prosseguiu Kerlog, "ninguem respeita mais o lider negro do que eu. Ouso até afirmar que dentro da America branca só eu o justifico e compreendo de maneira absoluta. Vejo nele um avatar de Lincoln, o sonhador de um sonho imenso de justiça. O homem que ha em Kerlog rende ao homem que ha em Jim todas as homenagens. Mas o branco que ha em Kerlog vem friamente assassinar com a palavra que mata o negro que ha em Jim Roy..." Tonto pelo imprevisto rumo que ia tomando o duelo, o lider negro nada replicou. Limitou-se a verrumar com os olhos o seu antagonista como para extorquir--lhe o pensamento oculto. A pausa que se fez foi lugubre. Mas Jim logo readquiriu a sua habitual firmeza e disse com ironia dolorosa: — "Não creio que o Presidente Kerlog possua a palavra que mata.

O peito de Jim tem couraças por dentro. Quatro seculos de martírio nas torturas fisicas da escravidão e nas torturas morais do pária enfibram a alma de quem resume cem milhões de irmãos. O peito de Jim traz couraças de rinoceronte por dentro. Couraças á prova das palavras que matam..." — "Trazia..." emendou mansamente o lider louro. O Jim de hoje não é mais o titã que o Presidente Kerlog recebeu na Casa Branca.

Quando o corisco fulmina a sequoia, a arvore solitaria continua de pé, porém outra.

O negro pressentiu a verdade daquilo. Recordou-se de que já não era o mesmo. Mas como Kerlog o adivinhava? Como penetrava assim no seu imo? Ele não confessara a ninguem a subitanea queda da sua força vital, e nada a definia melhor do que a imagem do lider branco: arvore siderada onde a seiva já não circula...

Jim, entretanto, reagiu; retesou-se de todas as suas energias em declínio e disse com glacial firmeza: — "Não importa, Presidente Kerlog. A Casa Branca restituirá amanhã a Jim Roy a força que o cansaço da vitoria lhe roubou." Kerlog pousou a mão sobre o ombro do lider negro e disse com profunda piedade: — "Não subirás os degraus da Casa Branca, Jim..." O negro deu um salto de pantera acuada e explodiu: — "Por que? Acaso conspiram os brancos contra a Constituição? Querem o crime?" Seu peito arfava.

— "Nada disso", retrucou suavemente Kerlog. "Não penetrarás na Casa Branca porque lá não cabe Sansão de cabelos cortados. Tua presidencia seria inutil. Tudo é inutil quando o futuro já não existe.

O tom misterioso de Kerlog impacientava o negro, que sentia algo de terrível prestes a revelar-se.

— "Diga tudo, Presidente Kerlog, diga essa palavra que mata!" gritou ele irritado.

O lider branco deixou cair novas palavras de misterio e tortura, cortantes como o fio das navalhas.

— "Tua raça foi vítima do que chamarás a traição do branco e do que chamarei as razões do branco." O negro esboçou um rictus de odio.

— "Traição!... E é o Presidente Kerlog quem justifica a traição!..." — "Não justifico, Jim, consigno-a. Não ha traição quando a senha é Vencer." Jim sorriu com desprezo.

— "A moral branca..." — "Não ha moral entre raças, como não ha moral entre povos.

Ha vitoria ou derrota. Tua raça morreu, Jim..." O negro imobilizou-se. Suas narinas entraram a afiar. Suas feições se decompunham horrorosamente.

— "Tua raça morreu, Jim". — repetiu Kerlog. "Com a frieza implacavel do Sangue que nada vê acima de si, o branco pôs um ponto final no negro da America." Jim quedou-se um instante imovel, como que adivinhando.

— "Os raios Omega!" exclamou afinal num clarão, agarrando os braços de Kerlog com os dedos crisapdos.

— "Sim", confirmou Kerlog. "Os raios de John Dudley possuem virtude dupla... Ao mesmo tempo que alisam os cabelos..." Os olhos de Jim saltaram das orbitas. Seu transtorno de feições era tamanho que o lider branco vacilou de piedade. A raça cruel, porém, reagiu nele. E, surda, quasi imperceptível, aflorou em seus labios a palavra fatal: — "... esterilizam o homem." Nem Shakespeare descreveria o aspecto do lider negro no momento em que a palavra assassina lhe despedaçou o coração. Um terremoto d'alma aluiu por terra o titã. Fe-lo tombar sobre a poltrona, com esgares de idiota, encolhido como a criança inerme que vê serpente. Breves crispações de musculos passearam-lhes pelas faces. Dobrou o corpo sobre a secretária. Imobilizou-se.

O lider branco aproximou-se daquela massa de titã extinto, afagou-lhe a pobre cabeça omegada e disse com voz rompida de soluços: — "Perdoa-me, Jim..."

CAPITULO XXIV - Crepusculo

O inesperado desenlace do drama negro da America deixou-me tonto por varios minutos. Depois que voltei ao normal miss Jane prosseguiu: — No dia seguinte a essa noite tragica devia realizar-se a posse do 88.° presidente americano, James Roy Wilde, vulgarmente Jim Roy, negro de raça pura nascido em Sonora aos 23 de abril de 2188, doutor em ciencias de governo pela Escola Tecnica de Direção Social, despigmentado em 2201 e omegado vinte dias depois da vitoria nas urnas.

Lider inconteste da raça negra, para a qual sonhava um destino altissimo, merecia ainda dos brancos um respeito semelhante ao que na velha Roma o patriciado conferia aos libertos de excepcional valor. Era Jim um liberto do pigmento.

O choque das raças fôra prevenido, o que valeu por nova vitoria da eugenia. A sociedade, livre de tarados, viu-se no momento do embate isenta dos perturbadores ao molde dos retoricos e fanaticos cujas palavras outrora impeliam as multidões aos peores crimes coletivos. A exasperação branca do primeiro momento breve desapareceu. O bom senso tomou pé e o ariano pôde filosofar com a necessaria calma. A opinião corrente admitia não passar a vitoria negra de um curioso incidente na vida americana. Oriunda de cisão sexual do grupo ariano, fôra golpeada de morte no proprio dia das eleições pela adesão das sabinas ao Homo. O proximo pleito restabeleceria o ritmo quebrado e do incidente nada restaria no futuro além de um pouco mais de pitoresco na historia da America — qualquer coisa como na serie dos papas, o pontificado da papisa Joana.

A serenidade dos brancos reforçava-se ainda na confiança que todos depositavam em seus lideres reunidos em convenção. Embora se ignorasse o que os chefes natos haviam decidido no concilio secreto, nem por sombras ninguem admitia que a ideia lá vencedora não fosse a mais eficiente e justa do ponto de vista racial.

Do outro lado os negros, passada a crise de entusiasmo do primeiro momento e dada a fé que lhes merecia Jim Roy, entraram mais a gozar as delicias do "omeguismo" do que a deslumbrar-se com uma vitoria política evidentemente precaria. E assim a mais inesperada surpresa da vida americana não trouxe nenhuma das calamidades publicas que fatalmente acarretaria no passado — no tempo em que o desprezo da seleção humana deixava a sociedade encher-se de perigosissimos bubões infecciosos.

Na vespera da posse de Jim, por precaução contra qualquer violencia, Kerlog, de combinação com Abbot, fez irradiar a noticia do novo brinquedo inventado por esse encantador das crianças. Tratava-se de uma nova bonequinha que sabia dansar o tango da moda com perfeição de maravilhar a gente grande e mergulhar em extases de sonhos a criançada.

A criança tinha na America de 2228 uma importancia capital.

Toda a vida do país girava-lhe em torno, Era a criança, além do encanto do presente, o futuro plasmavel como a cera. Os maiores genios da raça se consagravam a estuda-la, para com tão ductil materia prima irem esculpindo a obra unica que apaixonava o americano — o Amanhã. E a tal grau chegou a afinação da Puericultura Estetica, a sublime arte definida por John Leland, que uma imaginativa de hoje, desta epoca em que o homem, absorvido nos horrores da luta pelo pão, quasi ignora a existencia da criança, nem de leve pode apreender o que significava em 2228 a Realeza do Baby. Realeza sim, como foi na velha França a dos ultimos Luises divinizados. Em vez, porém, de toda a vida da nação revolutear em roda de um pachá como Luis 14, girava em torno da Aurora Humana. Sua Majestade Baby era o Luis 14 do seculo.

Em virtude disso é que o governo americano combinou com o senhor Abbot o lançamento da nova boneca nas vesperas da posse de Jim, como o melhor meio de prevenir a explosão de qualquer resíduo anti-social ainda subsistente na alma americana. E foi assim que o dia da posse chegou sem prenuncios da menor tormenta.

Subito, porém, ás primeiras horas da manhã, o radio encheu a America de uma nova sensacional: Jim Roy amanhecera morto em seu gabinete de trabalho! Violentissimo foi o abalo publico, dada a coincidencia de sobrevir essa morte justamente no dia da posse do Presidente eleito.

Os negros viram nisso um golpe de força dos brancos, e estes ficaram em suspenso, na duvida se seria um deliberado ato de violencia resolvido pelos convencionais ou uma das muitas surpresas de que é fertil o acaso. Chegou a haver por parte dos negros um instintivo movimento de revolta. Implantou-se-lhes nos cerebros a convicção do crime, e a velha selvageria racial rajou de sangue os olhos da pantera.

Foi passageiro, entretanto, o assomo. Aquela quebreira vital que Roy havia percebido em si ganhara tambem toda a massa negra. O fatalismo ancestral sobrepairou á raiva e o imenso corpo sem cabeça, num recuo de instinto, repos-se no lugar humilde donde o tirara a vitoria de Roy.

A rã a que o vivisseccionista extrai o cerebro passa a viver uma vida muscular cujos movimentos são apenas reflexos. Assim a população negra americana a partir do momento em que a morte de Jim Roy lhe arrancou o encefalo. Agitava-se ainda, viva — mas perdera o orgão coordenador de movimentos para fins definidos.

O segredo quanto á ação esterilizadora dos raios Omega conservava-se absoluto. Além do ministerio, dos tecnicos do estado, de John Dudley e de miss Astor, já esposa do Presidente Kerlog, ninguem mais o conhecia. Dos negros um só tivera a sua revelação, Jim Roy — mas levara-o consigo para o forno crematorio.

Procederam-se a novas eleições e foi reeleito Kerlog por 100 milhões de votos. Normalizou-se a vida da America. Sua Majestade Baby reentrou no monopolio de toda a atenção, por um instante desviada pelo choque das raças.

Um fato entretanto fez-se notado. Meses depois do aparecimento dos raios Omega o indice da natalidade negra caiu de chofre. Março, precisamente o nono mês a datar da abertura dos primeiros postos desencarapinhantes, acusa uma queda de 30%. Esta porcentagem subiu ao dobro em abril e chegou a 97% em maio. Em junho as estatísticas só registravam 122 negrinhos novos.

Em agosto fechavam-se os postes e a Dudley Uncurling Company distribuía o seu dividendo.

Tornou-se impossível guardar por mais tempo aquele segredo de estado — e nem havia razões para isso. O fato caiu no domínio publico por meio de uma mensagem irradiada pelo Presidente Kerlog, o documento que até hoje, na vida da humanidade, mais fundo calou na alma do homem. Dizia essa peça, para sempre memoravel: "O governo americano vem dar conta ao povo do golpe de força a que foi arrastado em cumprimento da suprema deliberação dos chefes da raça branca, reunidos em palacio no dia 7 de maio de 2228. Foi aprovada nessa assembleia a moção Leland, resumida nestas palavras: "A convenção da raça branca decide alterar a Lei Owen no sentido de incluir entre as taras que implicam a esterilização o pigmento negro camuflado... A raça branca autoriza o governo americano a lançar mãos dos recursos que julgar convenientes para a execução desta sentença suprema e inapelavel." Assim autorizado, o governo procurou agir de modo a evitar perturbações na vida nacional: estava em estudos da materia quando John Dudley apareceu com a revelação da virtude dupla dos raios Omega. Adotado esse maravilhoso processo, operou-se a esterilização dos homens pigmentados pelo unico meio talvez em condições de não acarretar para o país um desastre. O problema negro da America está pois resolvido da melhor forma para a raça superior, detentora do cetro supremo da realeza humana".

Nem a noticia da vitoria eleitoral de Roy, nem a revelação dos raios Omega, nem a nova da morte do negro causaram tão profunda impressão como a fria mensagem do presidente reeleito.

Brancos e pretos a receberam com igual asombro — seguido logo de uma sensação de alivio por parte dos primeiros e de uma sensação nova na terra por parte dos segundos.

Pela primeira vez na vida dos povos realizava-se uma operação cirurgica de tamanha envergadura. O frio bisturi de um grupo humano fizera a ablação do futuro de um outro grupo de cento e oito milhões sem que o paciente nada percebesse. A raça branca, afeita á guerra como a ultima ratio da sua majestade, desviava-se da velha trilha e impunha um manso ponto final etnico ao grupo que a ajudara a criar a America, mas com o qual não mais podia viver em comum.

Tinha-o como obstaculo ao ideal da Super-Civilização ariana que naquele territorio começava a desabrochar, e pois não iria render-se a fraquezas de sentimento, nocivas á esplendorosa florescencia do homem branco.

A raça ferida na fonte vital pendeu sobre o peito a cabeça como a planta a que o podador estrangula a circulação da seiva. Ia passar. Esteril como a pedra, iria extinguir-se num crepusculo indolor, mas de tragica melancolia.

E passou...

Decenios mais tarde, no maravilhoso jardim americano onde só abrolhavam camelias de petalas levemente acobreadas pela força misteriosa do geo-ambiente, erguia-se, ao alto do monumento de gratidão erigido pelo socio branco em homenagem ao socio negro, o busto do velhinho magico que em 2228 curara a dor de cabeça historica do 87.° Presidente...

CAPITULO XXV - O Beijo de Barrymore

O desfecho do drama racial da America comoveu-me profundamente.

Não ter futuro, acabar... Que torturante a sensação dessa massa de cem milhões de criaturas assim amputadas do seu porvir! Por outro lado, que maravilhoso surto não ia ter na America o homem branco, a expandir-se liberrimo na sua Canãa prodigiosa! Se somos, se existimos, se apesar de todos os males da vida tanto a ela nos apegamos, é que no intimo do nosso ser a voz da persistencia da especie nos ampara. A meio da vida de cada criatura já é a prole o que lhe dá coragem de a viver até o fim. O celibatario, ser que vale por triste ponto final, sente-se um corpo estranho no tumulto biologico — quasi um amaldiçoado. Que dizer de um povo inteiro assim amputado da sua descendencia? A ver-se envelhecer sem um choro de criança que o faça pensar no amanhã? Dia final.

Dia já em crepusculo rapido para uma noite eterna...

Fosse eu um filosofo e teria ali materia para esmoer o cerebro no imaginar e re-imaginar a infinita maravilha do formidando quadro.

Mas não era filosofo. Quem ama não filosofa, apenas suspira — e eu suspirava de comover penedos.

— Jane, Jane, Jane!... como se repetia em minha boca febrenta essa palavra e com que extase meus ouvidos a ouviam! Lembrei-me do romance. Senti que era talvez o caminho mais curto para alcançar o coração da filha do professor Benson. Lanceime a ele. Comprei uma resma de papel e com furiosa sofreguidão fiz e refiz o primeiro capitulo, entusiasmado com os períodos redondos e cantantes que me saiam da pena. Burilei-o qual um soneto, aprimorei-o de todos os arrebiques da forma, orientado por modelos que me pareceram os melhores. E nunca me hei de esquecer da ansia com que corri ao castelo com a minha obra em punho! Ia pelo caminho prelibando a surpresa de miss Jane ante aquela forte revelação dum genio literario que morreria latente se esse meu anjo bom lhe não provocasse o surto.

Encontrei-a na varanda, radiosa na formosura avivada pelo ar fino da manhã. Sem sauda-la, fui logo gritando de longe, com infantil alegria: — Já fiz o primeiro, miss Jane! O primeiro capitulo! E estou ansioso por ouvir a sua opinião...

— Bravos! exclamou ela. Não esperei que tão rapidamente pusesse mãos á obra.

Abri o meu pacote de tiras em belo cursivo e entreguei-lhas com quem á sua dama entrega a mais preciosa das gemas. Impossível que após sua leitura miss Jane não me desse o seu amor.

Vendo a minha sofreguidão, ali mesmo a jovem as leu, enquanto meus olhos avidos acompanhavam em seu rosto o efeito da narrativa.

Mas, ai de mim, tudo saiu bem ao contrario do esperado... Miss Jane atenuou quanto pôde a sua critica, delicada e gentil que era; mas não logrou impedir que de volta á cidade eu rasgasse em mil pedaços a minha obra prima e pela janelinha do vagão, melancolicamente, os lançasse ao vento. Azedei a semana inteira e no proximo domingo reapareci no castelo de mãos vazias.

— Não refez então o capitulo? indagou ela logo que entrei.

— Oh, não, miss Jane. Suas palavras abriram-me os olhos.

Convenci-me de que não possuo qualidades literarias e não quero insistir, retruquei com ar ressentido.

— Pois tem que insistir, foi a sua resposta. Em nome da nossa amizade o exijo, e pelas qualidades que vi em germe no seu primeiro escrito tenho a certeza de que fará a obra como é mister.

— Confesso, miss Jane, que a sua apreciação do ultimo domingo me desalentou, e ainda permaneço sob essa impressão...

— Que vaidosos os moços! Lembre-se de meu pai. Quantas vezes fazia e refazia a mesma experiencia, com uma paciencia de beneditino! Por isso venceu. Lembre-se do esforço incessante de Flaubert para atingir a luminosa clareza que só a sábia simplicidade dá. A enfase, o empolado, o enfeite, o contorcido, o rebuscamento de expressões, tudo isso nada tem com a arte de escrever, porque é artificio e o artificio é a cuscuta da arte. Puros maneirismos que em nada contribuem para o fim supremo: a clara e facil expressão da ideia.

— Sim, miss Jane, mas sem isso fico sem estilo...

Que finura de sorriso temperado de meiguice aflorou nos labios da minha amiga! — Estilo o senhor Ayrton só o terá quando perder em absoluto a preocupação de ter estilo. Que é estilo, afinal? — Estilo é... ia eu responder de pronto, mas logo engasguei, e assim ficaria se ela muito naturalmente não mo definisse de gentil maneira.

— ... é o modo de ser de cada um. Estilo é como o rosto: cada qual possue o que Deus lhe deu. Procurar ter um certo estilo vale tanto como procurar ter uma certa cara. Sai mascara fatalmente — essa horrível coisa que é a mascara...

— Mas o meu modo natural de ser não tem encantos, miss Jane, é bruto, grosseiro, inhabil, ingenuo. Quer então que escreva desta maneira? — Pois certamente! Seja como é, e tudo quanto lhe parece defeito surgirá como qualidades, visto que será reflexo da coisa unica que tem valor num artista — a personalidade.

Refleti comigo uns instantes e disse por fim: — Está bem, miss Jane. Vou tentar mais uma vez. Vou escrever como sair, sem preocupação de especie nenhuma — nem de gramatica, e verá que horror...

— Isso! exclamou ela encantada. Acertou. Isso é que é escrever bem. Refaça o primeiro capitulo com esse criterio e traga-mo no proximo domingo. Serei franca como o fui na tentativa anterior, e se me parecer que de fato não tem as qualidades precisas, di-lo-ei francamente e não pensaremos mais nisso.

De regresso ao meu quartinho humilde, nessa mesma noite dei começo á obra. O meu amuo, consequente á vaidade literaria ofendida, ainda não passara de todo, e resolvi escrever mal, de um jacto, com a intenção deliberada de desapontar miss Jane. Ela me condenaria a segunda tentativa, punhamos um ponto final na literatura e passaríamos a cuidar de outra coisa. Escrevi até madrugada, sem rasuras, sem escolha de palavras, como se estivesse a correr no meu saudoso Ford ao acaso das estradas sem fim. Ao soarem tres horas atirei com a caneta e fui dormir o sono mais pesado da minha vida. No dia seguinte fui ve-la.

— Aqui está, miss Jane, o horror que me saiu da pena.

Escrevi de acordo com a sua receita e nem coragem tive de reler.

Condene-me de uma vez e passemos a cuidar de outra coisa.

Miss Jane tomou as tiras e logo ao fim da primeira abriu a expressão que na tentativa anterior eu tanto ansiava por ver. E nesse estado de extase sofrego permaneceu até o fim.

— Ótimo! exclamou. O senhor Ayrton acaba de revelar-se um verdadeiro escritor — impetuoso, irregular, incorreto, ingenuo, mas expressivo, original e forte. Ha aqui verdadeiros achados de expressão.

Faça o livro inteiro neste tom que eu lhe garanto a vitoria.

Olhei para a minha amiga quasi com rancor, tão certo estava eu da ironia de suas palavras.

— Tem coragem de ser assim impiedosa com o pobre Ayrton? murmurei em tom magoado.

Ela olhou-me nos olhos fixamente, sem dizer palavra, e nos seus lindos olhos azues vi refletida com tamanha nitidez a pureza de sua alma que logo me envergonhei do meu ímpeto, filho exclusivo da ignorancia.

— Não, meu amigo! disse-me por fim. Sou incapaz de ironia. O que acabo de dizer é a fiel expressão do meu pensamento. Estas paginas estão cheias de defeitos, mas dos defeitos naturais ao primeiro jacto de toda obra sincera e espontanea. São as rebarbas que com a lima o fundidor suprime. Mas se noto defeitos que a lima tira, não noto nenhum vicio literario, e por isso considero otimo o começo do seu romance. Faça-o todo nesse tom e fará a obra que imagino. O trabalho de rebarba deixe-o comigo. Sou mulher e paciente. Deixe-me o menos e faça o mais. Seja o fundidor apenas, o obreiro que cria o grande bloco e não perde tempo com detalhes subalternos.

Calaram fundo no meu coração aquelas palavras. Vi nelas um interesse mais de amorosa do que de simples amiga — de amorosa que o é sem o saber. Imergida que sempre vivera em suas visões do futuro, e sempre presa da mais intensa atividade cerebral, miss Jane ignorava-se.

Olhei-a com o coração nos olhos. O "puro espirito" viu em mim a taça cheia em excesso, cuja espuma se derrama — e perturbou-se. Seus olhos baixaram-se. Seu peito ofegou.

Era o ceu. Atirei-me como quem se atira á vida, e esmagueilhe nos labios o beijo sem fim de John Barrymore. E qual o raio que acende em chamas o tronco impassível, meu beijo arrancou da gelada filha do professor Benson a ardente mulher que eu sonhara.

— Minha, afinal!...

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