Para conhecer melhor Coco Chanel, criadora da marca que hoje é dirigida por seu discípulo Karl Lagerfeld, é necessário mudar de perspectiva e tentar trazê-la ao tempo presente. Pense nos dresscodes de hoje em dia. Todos mundo anda pelas ruas de calça jeans, camiseta, vestido curto etc.
De repente, imagine que surge uma pessoa, uma trend-setter, que começa a usar peças de algodão cru grudado ao corpo. Isso mesmo: pequenos flocos de algodão presos à pele, somente para tapar as partes que não podem ficar expostas, de uma matéria-prima completamente crua – que hoje serve apenas para fazer forro de roupas. E aí, de repente, todo mundo adora tanto o conforto e a praticidade que começa a usar. Vira moda.

A comparação é ilustrativa e exagerada, claro. Mas eu ouso dizer que foi mais ou menos isso que a francesa Gabrielle Bonheur Chanel, mundialmente famosa pelo codinome Coco Chanel, fez com a moda de seu tempo.
Ela usou o jérsei, que era um tecido conhecido como menor e aplicado apenas na parte de dentro das peças, para ser a grande estrela de seus tailleurs, vestidos e cardigãs. Ela derrubou os espartilhos e o destaque exagerado às curvas femininas e adotou um estilo que contava com silhuetas retas, quase masculinas, e uma sensualidade que não passava mais pelo explícito.
Ela jogou no lixo os chapéus espalhafatosos do início do século e criou tamanhos reduzidos, com poucos apetrechos, até chegar ao formato de pequenas boinas ou acessórios com abas que ficavam bem próximas à testa. Ou seja: ela foi a mulher que disse “chega, quero conforto” e transformou o modo de se vestir do século 20.
“No fundo, todo mundo sabe um pouco sobre Coco, mas as pessoas nunca se cansam de decifrá-la”, afirma Miti Shitara, professora de História da Moda da Faculdade Santa Marcelina.
Mas é fato que várias nuances da vida da estilista nunca foram compreendidas por nenhuma das inúmeras biografias que existem ao seu respeito. “Sua vida foi uma lenda criada por ela mesma, seu passado, uma série de perguntas que ela respondia de acordo com a ocasião”, afirma a autora Janet Wallach no livro Chanel, Seu Estilo, Sua Vida. E até mesmo nos filmes lançados em 2009 e 2010, que falam sobre recortes de sua história, é possível perceber que mentir era uma especialidade da francesa.
Em Coco Antes de Chanel e Coco Chanel e Igor Stravinsky (com estreia prevista para o dia 20), baseados na vida real da artista, dá para ver uma pessoa de personalidade forte, gênio difícil e obstinação quase masculina. E disposta a praticamente tudo para chegar onde queria.

Chanel nasceu pobre e morreu rica. Teve dezenas de amantes, mas estava sozinha nos últimos dias de vida. Foi aliada dos nazistas e viveu no Hotel Ritz, em Paris, durante quase toda a ocupação da cidade pelos alemães na Segunda Guerra Mundial. Morreu no mesmo local, em 1971, aos 87 anos. Nunca se casou, não teve filhos e nem aceitou o destino previsível que lhe era reservado como órfã e abandonada pelo pai (cujo apelido Coco – a vogal acentuada é o último ‘o’ mesmo – foi ele quem deu, ela assumiria mais tarde). Tendo que aprender a costurar desde muito cedo para conseguir ganhar algum dinheiro, Coco desenvolveu habilidades específicas, mas teve a ajuda inata de uma criatividade fora do comum. E ousadia, característica que esteve com ela durante toda a vida.
Trajetória profissional | Para Chanel, ganhar dinheiro era uma condição radicalmente ligada à sua independência como mulher. Aprendeu a costurar em um internato em Moulins, cidade em que também cantava em bares à noite. Na primeira oportunidade que teve, foi viver como cocote com um oficial da cavalaria francesa que morava em um castelo em Compiègnes, região campestre próxima a Paris. Isso significa que ela vivia com um homem às custas de seu sustento, uma tradição francesa da época e que era uma forma quase garantida de sair da pobreza. Apaixonada por cavalos, ela aproveitou para criar trajes confortáveis para montar, e não usava os vestidos gigantescos que obrigavam as mulheres a sentarem de lado nas selas. Podia ficar estranha, diferente, mas era motivo de inveja da mulherada presa em seus espartilhos apertados.
Aos poucos, Coco foi se dedicando a peças que realmente gostava de fazer: chapéus. Suas ideias sempre partiam de um incômodo genuíno com o desconforto a que outras mulheres se prestavam para parecer elegantes. A palavra de ordem da menina era uma só: simplicidade. Não demorou muito para que as novidades fossem um grande sucesso, o que lhe daria a ideia de vender as peças em Paris – tudo às custas do amante e do novo amor, Boy Capel. Tinha o sonho de trabalhar duro e conquistar seu espaço pelas próprias mãos, mas sempre pode contar com a ajudinha camarada dos homens. Que, aliás, lhe deram casa e uma loja em Paris.

Chanel fazia alta-costura. “Na época, todas as peças eram caras mesmo. Feitas a mão, sem o ready-to-wear que só apareceria na década de 40, com tecidos que eram muito caros”, explica a professora Miti. Desde o começo, então, fazia moda para quem podia comprar, e não era qualquer pessoa. Tinha de ter dinheiro suficiente para investir em peças exclusivas e, assim, tornar-se requintada e refinada como exigiam os círculos sociais da elite a que Chanel também passou a pertencer.
Logo, ela passou a ganhar páginas de editoriais de moda de revistas internacionais por criar modelitos inovadores. A década de 20 foi frutífera e marcante para a carreira da estilista, com alguns marcos principais: o encurtamento das saias até a altura dos joelhos, o lançamento do pretinho básico e a adoção da calça comprida como vestimenta feminina de uma vez por todas. Isso para citar alguns exemplos.
A pele bronzeada como símbolo de saúde também é um hábito criado por Chanel, que ficou comum a partir da década de 30, no lugar dos semblantes pálidos. As roupas sem excessos de tecidos e adornos facilitavam a vida da mulher que queria se emancipar, tornar-se independente, ter facilidade para se movimentar – e, consequentemente, trabalhar. A conquista de todas as mulheres que queriam se considerar modernas era praticamente certeira.

Pós-Guerra | Chanel fez escolhas polêmicas para continuar na Cidade-Luz durante a Segunda Grande Guerra, e pagaria o preço por isso mais tarde. Em 1940, ela fugiu para a vila de Pau, no sudoeste da França, e fechou as portas de sua oficina em Paris – ela continuaria vendendo o famigerado Chanel nº 5 para oficiais alemães durante a ocupação nazista. Depois de algum tempo no refúgio, ela foi convidada a voltar a Paris pelo espião (e barão) Hans Gunther von Dincklage, com quem manteve um relacionamento até o fim do conflito. Se afastou de todos os amigos, que a consideravam uma traidora.
Com a derrota dos nazistas em 1944, 6.091 mulheres acusadas de colaborar com os alemães foram presas, desnudas e exibidas em praça pública com os cabelos raspados. Chanel também foi capturada, mas acabou livre desta humilhação por pouco – e devido às boas ligações com ingleses que havia estabelecido no início de sua carreira.
O pior para seu orgulho foi enfrentar o sucesso de outro estilista, que passava a se tornar criador dos grandes objetos de desejo das mulheres do pós-guerra: Christian Dior. Ele reinventava saias volumosas, espartilhos e barbatanas sob tecidos que aumentavam os seios para agradar as pessoas que tinham passado tantos anos sob as privações que as batalhas haviam trazido à França.
Milimetricamente, Chanel planejou a sua volta. Não é difícil imaginar o quanto ela se sentiu pessoalmente confrontada com aquele acesso de feminilidade de Dior. Aproveitando-se das rendas advindas com a popularidade de sua fragrância, que havia sido a mais vendida de todos os tempos no mundo, ela permaneceu alguns anos no anonimato e vendendo apenas acessórios (as famosas bijoux, bijuterias finas que imitavam as joias que ela ganhara de presente durante tantos anos) bolsas e poucas peças de roupa.

Mas em 1954, resolveu dar um basta à resignação e começou a desenvolver uma nova coleção. O desfile aconteceu em Paris e foi execrado pela imprensa, que já não queria mais as roupas simples de Chanel e consideraram a marca “antiquada”, visto sua semelhança com o que tinha feito na década de 20. Tailleurs de tweed com debruns em cores sóbrias, vestidos de náilon com babados em camadas, saias e casacos de comprimento um pouco abaixo do joelho e sapatos bicolores não agradaram aos presentes. Jornais ingleses definiram o desfile como “uma retrospectiva melancólica”. O caso é que as mulheres comuns continuavam querendo conforto, e Chanel recuperou aos poucos seus dias de ouro. Quando lançou a segunda coleção, no fim de 54, já era novamente um grande sucesso.

Mitos | É fato: a moda do século 20 precisaria de alguém como Coco Chanel para poder chegar ao que se tornou. Sua importância é inegável e a Maison Chanel hoje representa tradição e ousadia, caminhando assim sob o olhar atento de Karl Lagerfeld. Mesmo assim, algumas inovações são erroneamente atribuídas a Coco que, na maior parte das vezes, se apropriou de algo que já havia sido feito e imprimiu sua marca pessoal. Era um gênio, mas bastante esperta. Conheça algumas de suas adaptações mais famosas:
Sapato bicolor| Existia desde o século 19. O que Coco fez foi escurecer a biqueira com tons de azul marinho e preto por cima de beges e cinzas, o que dava a impressão de o pé ser menor.
Tailleur| O conjunto de saia, blusinha e casaco não foi invenção de Chanel. Esta combinação já existia desde o século anterior, mas foi Coco quem a tornou famosa.
Uso de calça| Muitos atribuem a ela somente, mas a calça em mulheres é responsabilidade da escritora vanguardista Aurore Dupin que, mais ou menos em 1830, já usava looks totalmente masculinos.
Em seguida, a feminista Amelia Bloomer (sim, criadora dos shorts bloomers) também adaptou a peça às meninas. Mas foi Coco quem popularizou esse uso.
Fonte: blogs.estadao.com.br