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Napoleão Bonaparte

 

Uma das mais duradouras heranças da Revolução Francesa foi uma confiança ilimitada no poder da vontade humana: acreditava-se que, para resolver qualquer problema, bastaria que o indivíduo tivesse uma fé cega no próprio taco.

Napoleão e seus bisnetos Mussolini e Hitler foram grandes exemplos de personagens históricos que acreditaram, acima de tudo, em si mesmos.

Napoleão Bonaparte
Napoleão Bonaparte

Napoleão Bonaparte nasceu em Ajaccio, na ilha mediterrânea da Córsega, em 1769, ano em que a ilha foi conquistada pela França. Muitos inimigos seus na França diriam mais tarde que ele era um estrangeiro, acusando-o de ter nascido em 1768, quando a Córsega ainda não era francesa. Seu pai, Carlo Buonaparte, aliou-se aos franceses e ocupou altos postos na administração local. Graças à ajuda do governador francês da Córsega, Napoleão pôde cursar a escola real de Brienne e, mais tarde, a Escola Militar Real de Paris. Lá, sua habilidade com a matemática ficou conhecida, e ele juntou-se ao corpo de artilharia, uma espécie de elite intelectual do exército, cujo nível educacional era melhor, e o sangue menos azul, do que o da alta nobreza que dominava o exército francês. Quando veio a Revolução Francesa, Napoleão a recebeu com entusiasmo.

Sua família estava totalmente envolvida com a política local na Córsega, e era esperta o suficiente para fazer parte da ala favorável à França.

Em 1793, a Inglaterra ocupou a Córsega, e sua família foi exilada para o porto francês de Toulon. Essa cidade rendeu-se a uma esquadra inglesa logo em seguida, e Napoleão teve a sorte de ter seu plano de contra-ataque aprovado pelo governo francês da época, a Convenção. Toulon foi reconquistada, e Napoleão tornou-se conhecido como um general de artilharia que tinha grande mérito. Em 1794 Napoleão foi preso, por causa de suas conexões políticas, mas logo foi solto quando o governo da Convenção caiu e o Diretório, muito menos radical, entrou no seu lugar. Quando houve uma rebelião contra o novo governo em Paris, o general comandante das forças leais ao Diretório, Barras, chamou Napoleão para comandar a artilharia do governo. A rebelião foi derrotada e Napoleão foi promovido a major-general, como prêmio pelos seus serviços.

Em março de 1796, Napoleão recebeu o primeiro comando realmente importante de sua carreira: o Diretório, confiante em suas habilidades, nomeou-o para liderar o exército francês que lutava na Itália. Houve quem dissesse de Napoleão que, como ele naquela época havia se casado com a célebre Josefina, que tinha sido amante do general Barras, esse deu o comando na Itália a Napoleão como presente de casamento. Mas isso é uma fofoca histórica.

Na Itália, Napoleão venceu uma série de batalhas, mas foi só depois da vitória contra a Áustria, em Lodi, que ele passou a considerar-se, segundo suas próprias palavras, um homem superior, destinado a realizar grandes coisas. Já nesta época Napoleão tinha tanto prestígio, e suas vitórias davam tanto dinheiro à França, graças aos saques, que ele sentia-se poderoso o suficiente para desafiar o governo do Diretório, quando ambos discordavam sobre algum assunto.

Depois da Itália, Napoleão foi para o Egito, aonde fez o famoso discurso para seus homens ao lado das pirâmides. Os franceses sofreram uma dura derrota na batalha do Nilo, e Napoleão acabou voltando para a França, quando soube que a Itália havia sido perdida. O governo do Diretório pensou em prendê-lo, por ter abandonado seu exército; mas Napoleão já era tão popular, que nada foi feito contra ele. Os franceses estavam cansados de governos revolucionários, queriam estabilidade; Napoleão parecia-lhes ser o homem certo para botar ordem na casa. O Diretório acabou sendo derrubado, e Napoleão tornou-se ditador da França, com o título de Cônsul, copiado dos romanos.

Napoleão travou novas batalhas na Itália, e suas vitórias em 1796 e 1797 tornaram-no famoso em toda a Europa; seu estilo de guerra era uma novidade completa: Napoleão fazia o possível para que seus soldados andassem muito mais rápido do que os do inimigo; mobilidade era sua grande característica.

Para Napoleão, lutar bem significava andar muito; um bom soldado tinha que ser alguém capaz de agüentar longas marchas. Além disso, seus exércitos eram compostos de cidadãos, e não apenas de soldados profissionais, como os dos adversários; os franceses não eram tão bem treinados quanto o inimigo, nem tinham tanta disciplina; em compensação, tinham muito mais iniciativa.

A França foi o primeiro país da Europa aonde o exército deixou de ser uma casta militar vivendo à margem da sociedade; todo francês podia ser convocado para o exército; um dos lemas herdados da Revolução Francesa foi: todo cidadão é um soldado. Por isso a França, o país mais populoso da Europa na época, com mais ou menos o mesmo número de habitantes que a Rússia, podia colocar em armas quase tanta gente quanto todos os seus adversários juntos somados. O próprio Napoleão chegaria a se gabar, mais tarde, que poderia dar-se ao luxo de perder 30 mil homens por mês, uma quantidade absurda de baixas, na época...

Na Itália, Napoleão teve uma de suas primeiras vitórias consideradas imortais, na Batalha de Marengo. Uma série de batalhas e campanhas seguiu-se até que, em 1804, Napoleão sagrou-se Imperador dos franceses. Uma ano depois, em Austerlitz, Napoleão venceu um exército maior do que o seu, composto por soldados austríacos e russos; foi a mais "clássica" das batalhas napoleônicas.

Como escreveu Peter Paret sobre a Batalha de Austerlitz: Nada parecido com esses eventos havia acontecido em anos anteriores. O tamanho dos exércitos dos dois lados era apenas incomum; mas a velocidade e a energia das operações francesas foi única, bem como a habilidade do Imperador no uso da diplomacia e da força para destruir, em poucos meses, o equilíbrio de poder tradicional na Europa. O choque sentido pelos soldados e governos foi profundo; seus efeitos ainda poderiam ser sentidos na confusão e falta de ímpeto no ano seguinte [1806], que contribuíram para a destruição do exército prussiano nas batalhas de Jena e Auerstadt, ajudando a carregar o poderio francês até as portas da Rússia.

A maneira como Napoleão comandava seus exército tinha outras características que vinham de sua personalidade: ele próprio era responsável por todas as decisões mais importantes, o que assegurava completa unidade de comando.

Napoleão era um mestre em atiçar a vaidade de seus soldados, como ele mesmo disse: Todos os homens que valorizam sua vida mais do que a glória da nação não devem fazer parte do exército francês.

A 32a. Brigada de infantaria seria capaz de morrer por mim porque, depois da Batalha de Lonato, eu falei: "a 32a. estava lá, por isso eu estava tranqüilo". O poder que as palavras têm sobre os homens é espantoso.

A força moral, mais do que os números, é a verdadeira responsável pela vitória. Além disso, Napoleão não seria apenas comandante do exército francês; ele seria Imperador dos franceses; desta forma, ele não só podia comandar os soldados, como também tomar todas as decisões políticas importantes, decidindo quando e com quem a França faria a guerra, e por quais motivos. Na história francesa, ele não só foi influentíssimo por causa de seus feitos militares, mas também por causa do que fez na administração civil, incluindo-se aí as leis que estão no Código Napoleônico. Napoleão interessava-se tanto pela política e literatura quanto pela guerra, e considerava-se tão bom governante quanto general. Quanto à literatura, Napoleão era um escritor de segunda categoria, na melhor das hipóteses; até seu admirador Stendhal, esse sim um grande escritor, considerava as Memórias de Napoleão um saco, de tão chatas.

Como disse A.J.P. Taylor de Napoleão: "a lenda napoleônica nunca teria existido, se ela dependesse apenas do que ele escreveu".

Entre 1803 e 1805, Napoleão preparou o melhor exército de toda sua vida, o "Exército da Inglaterra", destinado à invasão daquele país. Se a Inglaterra não tivesse a sorte de ser uma ilha, provavelmente teria sido feita em pedaços; mas a grande derrota naval francesa em Trafalgar, em 1805, pôs por terra o sonho de uma invasão da Inglaterra, coisa parecida com o que aconteceria com Hitler quase 150 anos mais tarde. As vitórias contra os austríacos e russos em 1805, e contra os prussianos em 1806, deixaram Napoleão sem rivais em solo europeu. Mas do outro lado do Canal da Mancha estava o eterno inimigo que não podia ser alcançado.

Napoleão tinha o hábito de pensar antecipadamente como seriam suas guerras e batalhas, e só entrava em combate depois de haver feito um planejamento bastante preciso do que deveria ser feito, o que incluía possíveis modificações em seus planos iniciais, em resposta às ações do inimigo. Ele fazia bastante uso de espiões e patrulhas de cavalaria, procurando sempre descobrir com antecedência o que o inimigo estava fazendo e, se possível, os planos adversários. Napoleão gostava de atacar sempre, e nunca deixava o inimigo derrotado recuar em ordem, mandando seus soldados perseguir o inimigo para que ele não pudesse recuperar-se. Depois de uma batalha ele sempre dava aos seus soldados os parabéns pela vitória, mas nunca os deixava descansar; ao contrário, mandava que eles perseguissem o inimigo, para que este se desorganizasse, ficando sem poder receber reforços ou novos suprimentos e reiniciar a luta.

Se essa foi uma época de rápidas mudanças nas táticas e na maneira como os exércitos eram comandados, por outro lado os armamentos pouco mudaram. Napoleão, no início um general da artilharia, chegou a pensar em pedir que os canhões franceses, que já eram bons, fossem modernizados. Mas essa mudança não ocorreu. Há quem diga que as épocas de rápida mudança tecnológica não são um ambiente apropriado para o aparecimento de gênios...

Em toda a sua carreira, Napoleão nunca lutou uma batalha apenas se defendendo; ele amava atacar. Ele, como Montgomery, sempre deu bastante importância à concentração máxima de forças no lugar mais importante do teatro de operações, e desprezava os generais medrosos que dispersavam seus soldados por muitos lugares, na tentativa inútil de querer defender "tudo".

Seja como for, os especialistas enxergam pelo menos três sérios defeitos no jeito que Napoleão comandava seus exércitos:

a) Como ele decidia tudo, os outros não mandavam nada; sem Napoleão, seus exército ficavam impotentes; praticamente nenhum outro general francês teve a chance de desenvolver por completo suas habilidades militares, já que Napoleão não deixava nada de importante para eles. Com o passar dos anos, os inimigos da França foram aumentando, e seus exércitos tornaram-se maiores e melhores. As operações militares ficaram cada vez mais complexas, e nem Napoleão seria capaz de planejá-las sozinho. Nessa hora passou a fazer cada vez mais falta um grupo de oficiais experientes que pudessem planejar as batalhas antecipadamente (o que os exércitos chamam de Estado-Maior). O exército francês, como o de todas as potências, também tinha o seu Estado-Maior, mas esse nunca apitou nada.

b) O grande erro político de Napoleão foi com relação à Inglaterra, seu inimigo número um. A Inglaterra foi o primeiro país do mundo a industrializar-se, e precisava do mercado europeu para vender seus produtos, principalmente tecidos. Como Napoleão queria que a indústria francesa, mais nova e mais fraca, se desenvolvesse, ele fez o possível para fechar a Europa aos produtos ingleses, o que foi chamado de Sistema Continental.

A família real portuguesa, por exemplo, veio para o Brasil porque os exércitos de Napoleão invadiram Portugal como castigo pelo fato dos portugueses ainda estarem negociando com a Inglaterra. Mas esse tipo de ação transformou a guerra de Napoleão contra a Inglaterra, numa guerra de Napoleão contra toda a Europa. Tão logo Napoleão tinha uma vitória, os ingleses conseguiam juntar um novo grupo de países, em coligações, para enfrentá-lo de novo. Napoleão, com o passar dos anos, passou a ser considerado o Tirano, cuja derrota seria indispensável para que os povos da Europa tivessem paz novamente.

c) Napoleão era um ditador. Um ditador, mesmo que não seja dos mais desumanos, tem tanto poder em suas mãos, é responsável por tantas decisões e atos mais ou menos arbitrários, que acaba quase sempre tornando-se um símbolo vivo de tudo o que há de pior no mundo. Um inimigo do governo é inimigo do ditador, e vice-versa; um inimigo da França tornava-se um inimigo de Napoleão, e um soldado francês que estuprava uma mulher de um outro país era um filhote de Napoleão fazendo propaganda negativa de seu Império. Se Napoleão mandava assassinar um inimigo político, ou quebrava um acordo de paz, ou enviava seus soldados para saquear e oprimir um país inimigo, todas essas coisas acabavam juntando-se e formando uma multidão de inimigos que tudo fariam para derrotá-lo.

No início da era napoleônica, as tropas francesas até chegaram a ser recebidas em alguns lugares, inclusive na Itália, como libertadores. Beethoven e Goethe, os maiores artistas da época, ambos alemães, eram admiradores do Imperador francês.

Porém, com o passar dos anos, Napoleão foi adquirindo, aos olhos dos povos inimigos, a imagem de ser o pior de todos os monarcas, e de nada lhe adiantaria casar-se, pela segunda vez, com uma princesa da família dos Habsburgo, da mais tradicional nobreza européia. Somando todos os prós e contras, o historiador holandês Pieter Geiyl escreveu:

Ele era um conquistador com quem era impossível viver. Ele sempre acabava transformando um aliado num servo, ou pelo menos achava que o relacionamento com seus aliados deveria funcionar acima de tudo a seu favor. Napoleão gostava de disfarçar seu anseio por conquistas com uma cortina cheia de frases bonitinhas sobre Progresso e Civilização. Foi ele quem, em nome de toda uma Europa que pensou achar nele uma chance de ter paz e tranqüilidade, fingiu que era a Inglaterra quem perturbava a todos e era inimiga de todos.

Como o próprio Napoleão disse de si mesmo: No exterior e na França eu só consigo governar graças ao medo que inspiro.

Uma grande novidade que Napoleão trouxe ao exército francês foi quando ele criou a Guarda Imperial, em 1810. Essa seria a elite do seu exército, planejada para ter cem batalhões (cerca de 80 mil homens).

A Guarda tinha todas as armas do exército em si: cavalaria, infantaria e artilharia. Sua moral e companheirismo sempre foram elevados. Mas os melhores homens da Guarda foram perdidos na desastrosa retirada da Rússia, em 1812, morrendo na neve.

A campanha contra a Rússia foi o grande desastre que mudou tudo: como os russos achassem que não seria mais de seu interesse continuar vivendo sem poder negociar com a Inglaterra, Napoleão organizou mais uma de suas expedições militares, desta vez para puni-los. Para isso foi organizado o Grande Exército, 600 mil homens dos melhores, que deveriam acabar com a raça dos russos.

Os russos enfrentaram Napoleão usando o sistema tradicional deles: apesar de não conseguirem vencê-lo na Batalha de Borodino, e mesmo tendo Napoleão conseguido ocupar a cidade de Moscou, os russos não fizeram as pazes com ele, porque sabiam que o tempo, e o General Inverno, estavam a favor deles. O exército francês não poderia vencer um adversário que recusava-se a se reconhecer derrotado; como a Rússia sempre foi muito longe da França, "longe de tudo", o exército francês foi ficando sem abastecimentos, e teve que recuar.

A volta dos franceses, no inverno, foi uma catástrofe: no total os exércitos napoleônicos tiveram mais de 400 mil baixas, e nunca mais seriam tão fortes.

Napoleão ainda lutaria grandes batalhas em 1813 e 1814, mas seus inimigos acabaram conseguindo invadir a França, forçando-o a renunciar ao trono de Imperador em abril de 1814, e a ser exilado na ilha de Elba. No ano seguinte, enquanto a Europa decidia seu futuro político no Congresso de Viena, Napoleão fugiu de Elba, chegando de volta a França em março de 1815.

Desta vez a resposta de seus inimigos foi rápida: Napoleão mal teve tempo de preparar um novo exército, às pressas, e já teve de enfrentar seus inimigos em novas batalhas, sendo derrotado na célebre Batalha de Waterloo, em 18 de junho de 1815. Ele novamente foi forçado a renunciar ao trono, mas dessa vez foi preso na ilha de Santa Helena, a milhares de quilômetros da Europa.

A família Bonaparte era bastante numerosa, e muitos dos irmãos ganharam reinos inteiros do Imperador. José Bonaparte recebeu a Espanha de presente, e seu irmão Luís, o reino da Holanda. Nenhum deles deu-se bem como monarca. Até mesmo os generais de Napoleão herdaram sua "mania de reinar"; um deles, Murat, morreu tentando conservar seu Reino de Nápoles. A capacidade de Napoleão para trabalhar era lendária; se seus homens não morressem nas guerras, o mais provável é que teriam todos morrido de cansaço; só no seu período como Cônsul, Napoleão escreveu mais de 80 mil cartas.

E a maior parte de seus homens o amavam: Napoleão tornou-se tão popular entre os marinheiros e oficiais do navio inglês que o levou para o exílio em Santa Helena, que o comandante do navio ficou com medo que fizessem um motim para libertá-lo!

Napoleão, como a maior parte das grandes figuras históricas, era um homem complexo e difícil de julgar; dentro de si, ele possuía, em quantidades extraordinários, a maior parte das qualidades e defeitos do gênero humano: ele podia ser cruel e sangüinário, mas também competente e trabalhador; o duque de Wellington, que venceu Napoleão em Waterloo, dizia que a presença do Imperador no campo de batalha valia por um exército de 40 mil homens; uma das heranças mais revolucionárias deste período foi o novo nacionalismo que tomou conta da Europa: a Prússia, derrotada de forma humilhante pelos franceses em 1806, acabaria passando por uma espécie de ressurreição, até transformar-se no poderoso Império Alemão de 1871, que seria o futuro pesadelo dos franceses.

Depois de tudo somado, e como disse Pieter Geyil em seu livro sobre o que os historiadores franceses disseram de Napoleão: "a discussão ainda continua".

Existem mais de cem biografias de Napoleão; a de Jean Tulard, Napoléon ou le Mythe du Sauveur (Paris, Fayard, nouvelle édition, 1987) é uma boa biografia moderna, crítica e bastante ponderada. Dos biógrafos de Napoleão, talvez o mais famoso tenha sido Georges Lefebvre, cujo livro Napoléon teve sua primeira edição em 1935, em Paris, e foi reeditado pelo eminente historiador francês Albert Soboul em 1953, e republicado numerosas vezes.

O historiador holandês Pieter Geyil escreveu um livro excepcional sobre o que os historiadores franceses disseram de Napoleão, traduzido para o inglês como Napoleon: For and Against (Harmondsworth, Middlesex: Penguin Books, 1989 repr.).

Na época de Napoleão não havia cinema ou TV; foi através de quadros e gravuras que sua imagem difundiu-se pelo mundo da época; dos pintores que retrataram Napoleão, nenhum o fez com tanto sucesso quanto Jacques-Louis David, cujos melhores quadros podem ser vistos em David, número especial da coleção Connaissance des Arts (Paris: Societé Française de Promotion Artistique, 1989).

Felix Markham escreveu o excelente artigo "The Napoleonic Adventure", capítulo XI do volume IX da New Cambridge Modern History (Cambridge: Cambridge University Press, 1980 repr.), um resumo com tudo de mais importante sobre a vida de Napoleão, e sua influência na Europa e no mundo. A citação sobre a Batalha de Austerlitz que aparece acima, foi retirada do artigo "Napoleon and the Revolution in War", de Peter Paret, que aparece na excepcional coletânea Makers of Modern Strategy (Princeton: Princeton University Press, 1986), editada pelo próprio Paret.

Existe toda uma literatura sobre a "revolução na arte da guerra", que ocorreu entre 1790 e 1805, nascida da Revolução Francesa, da qual Napoleão foi o herdeiro. O livro de J.F.C. Fuller, The Conduct of War: a Study of the Impact of the French, Industrial and Russian Revolutions on War and its Conduct (London: Methuen, 1979 repr.) é um dos mais populares sobre o assunto. Michael Howard escreveu uma introdução concisa e abrangente sobre a história da guerra na Europa, a excelente War in European History (Oxford: Oxford University Press, 1976).

O incansável A.J.P. Taylor reuniu sua crítica à edição das Memórias de Napoleão no livro Europe: Grandeur and Decline (Harmondsworth, Middlesex: Penguin Books, 1967), junto com seu artigo sobre o livro de Pieter Geyil, Napoleon: For and Against, citado acima.

Eric Hobsbawn, com certeza o mais eminente historiador "marxista" vivo, escreveu um livro que é um panorama abrangente da era em que Napoleão viveu: The Age of Revolution 1789-1848 (New York: Mentor Books, 1962); traduzido no Brasil como A Era das Revoluções (Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1979).

Para a Revolução Francesa, o livro Cidadãos: Uma crônica da Revolução Francesa (São Paulo: Companhia das Letras, 1989) de Simon Schama, é o que há de melhor.

O próprio Napoleão disse de si mesmo: "que romance é a minha vida"; talvez ninguém tenha descrito Napoleão de maneira tão bem-feita como o grande escritor russo Leão Tolstói. Napoleão aparece no romance Guerra e Paz logo no começo da segunda parte do livro; Tolstói usa seu gênio literário para mostrar um Napoleão imensamente vaidoso e convencido de si mesmo; é inesquecível a cena aonde Napoleão mente que os poloneses irão fornecer-lhe cerca de duzentos mil soldados para o ajudarem a esmagar a Rússia, "lutando como leões".

O próprio Tolstói, para escrever as cenas da Batalha de Borodino que aparecem em Guerra e Paz, inspirou-se no livro do escritor francês Stendhal, A Cartuxa de Parma, aonde o herói "participa" da Batalha de Waterloo, que lhe parece só uma imensa bagunça, aonde ele acaba sendo roubado e jogado de seu cavalo por gente que ele não entende se são soldados ou ladrões. O próprio Stendhal escreveu uma Vie de Napoléon. A Batalha de Waterloo também faz pano de fundo para o famoso livro Vanity Fair, do escritor inglês W.M. Thackeray.

Por ter-se tornado um dos personagens mais conhecidos da história universal, Napoleão teve uma "carreira" no cinema mais longa e bem-sucedida que a de John Wayne; o primeiro filme sobre ele apareceu já no terceiro ano (1897) de vida do cinema: Entrevue de Napoléon et du Pape, dos próprios irmãos Lumière, os inventores da "sétima arte".

Marlene Dietrich estreiou no cinema em Der kleine Napoléon, filme alemão de 1923. Em 1927 apareceu o grande clássico Napoléon, de Abel Gance, com Albert Dieudonné no papel. John Ford fez o filme Napoleon's Barber em 1928. Houve vários filmes sobre a Batalha de Waterloo, e sobre o personagem o Conde de Monte Cristo, do livro de Alexandre Dumas, em que Napoleão "faz uma ponta". Ele também está nos filmes Désirée (1954), Guerra e Paz (1955, versão americana e francesa), Guerra e Paz (1967, versão russa), Love and Death, de Woody Allen (1974), Bandits, de Terry Gilliam (1982), entre dezenas, talvez centenas, de filmes.

Fonte: www.escolavesper.com.br

Napoleão Bonaparte

Napoleão nasceu na Córsega em 1769, freqüentou o colégio militar em Paris. Sua ascensão na carreira militar foi rápida e brilhante. Aos 24 anos, o então tenente de artilharia, apresentou um plano para libertar a cidade de Toulon dos ingleses. O plano foi bem sucedido. E, aos 24 anos, Napoleão foi promovido a general. Dois anos depois, em 1795, foi nomeado comandante do exército do interior, salvando a República do Diretório da ameaça de um golpe dos realistas.

Napoleão governou a França de forma despótica, mas, foi responsável pela consolidação das instituições revolucionárias que se incorporaram definitivamente à vida dos franceses.

Seu próximo sucesso foi a campanha contra a Áustria, em 1796. A bem sucedida repressão ao golpe realista, em 1795 lhe valeu o comando do exército que deveria combater os austríacos na Itália, onde realizou uma campanha fulminante.

Em 1797, a Áustria se retirou do norte da Itália. Os territórios italianos se converteram em repúblicas democráticas. Além dos territórios da península Itálica, a Áustria cedeu a Bélgica e reconheceu o rio Reno como fronteira.

Ao voltar da Itália, Napoleão recebeu a missão de atacar a Inglaterra. Procurou cortar as comunicações inglesas com a Índia, atacando o Egito. Embora o Egito pertencesse aos turcos, era caminho obrigatório dos ingleses para a Índia. Em 1798, Napoleão partiu da França levando um exército de trinta mil homens e uma comissão de sábios e cientistas.

Desembarcou em Alexandria e teve sucesso imediato. Apesar disso, o almirante inglês Nelson, destruiu sua frota em Abukir, no delta do Nilo. Napoleão e suas tropas foram obrigados a ficar no Egito durante mais de um ano. Durante esse tempo, percorreu a região junto com os sábios franceses. Um destes, Champollion, decifraria os Hieróglifos egípcios em 1822.

Enquanto Napoleão percorria o Egito, a Inglaterra formou uma segunda coalizão contra a França revolucionária e tropas austríacas reocuparam o norte da Itália.

Em 1799, Napoleão abandonou suas tropas e voltou em segredo para a França, às vésperas do golpe de Estado do 18 Brumário. Em 1801, às tropas francesas no Egito se renderam.

Ao chegar, Napoleão foi aclamado pelo povo francês.

A situação na França não era muito tranqüila: o Estado estava a beira da falência e a reocupação da Itália pelos austríacos causou um profundo mal estar na população, que deu a vitória aos jacobinos nas eleições. Estes se opunham ao Diretório.

A burguesia francesa aspirava uma paz mais duradoura que lhe permitisse desenvolver seus negócios. Napoleão era o homem indicado para alcançar esta paz. O avanço dos jacobinos inquietava os setores conservadores, liderados pelo astuto abade Sieyés.

Nos dias 9 e 10 de Novembro de 1799 ( 18 e 19 Brumário, segundo o calendário da revolucionário) com o apoio do exército, Napoleão e Sieyés, dissolveram a Assembléia e implantaram uma nova constituição, aprovada pela população. O governo ficou nas mão de um triunvirato; três cônsules liderados por Napoleão.

A queda do Diretório marcou o fim do ciclo revolucionário e o início da consolidação dos princípios da revolução nas instituições francesas. Napoleão, o primeiro cônsul, iniciou uma intensa atividade para consolidar seu poder pessoal internamente e, alcançar a paz no plano internacional.

A constituição do ano VIII foi centralista: dava plenos poderes ao primeiro cônsul. O sistema de eleições indiretas garantiu o predomínio da burguesia. Os poderes dados a Napoleão encobriam uma monarquia de fato.

A segunda coalizão

Após assumir o consulado, Napoleão retomou a luta contra os inimigos da França. Realizou uma segunda campanha na Itália e expulsou os austríacos. A segunda coalizão, composta para Inglaterra, pela Áustria e pela Prússia, chegou ao fim em 1801. No ano seguinte, um plebiscito, outorgou a Napoleão o título de cônsul vitalício.

Durante o consulado, Napoleão reorganizou a França e reformou a máquina administrativa.

Pacificou a sociedade francesa: obteve a reconciliação dos partidos políticos decretando uma anistia e permitindo o retorno dos emigrados.

A igreja perdeu definitivamente os bens que haviam sido expropriados durante a evolução e ficou subordinada ao estado.

Napoleão reconstruiu os povoados que foram destruídos durante a revolução. Construiu estradas e pontes, melhorou o serviços de correios e instalou o telégrafo em várias cidades.

Reorganizou o sistema educacional francês e, em 1808, criou a Universidade da França.

Recuperou as finanças do país: reordenou os impostos e criou o banco da França.

Em 1804, Napoleão criou uma comissão para elaborar um novo código civil. De acordo com o novo código napoleônico, todos os franceses estavam sujeitos às mesmas leis. Os princípios de igualdade e liberdade foram consagrados no código elaborado por Napoleão. Instituiu o casamento civil e o divórcio. As greves foram consideradas ilegais.

O Império

Em Maio de 1804, após um novo plebiscito, Napoleão recebeu o título de Imperador. O para Pio VII presidiu a cerimônia de sua coroação como imperador da França, em Paris. Mas, para deixar claro que o Estado não se submetia a igreja, Napoleão colocou a coroa na sua própria cabeça. Com a criação do império, Napoleão centralizou todos os poderes do Estado. Criou uma nova nobreza, fundada no mérito e no talento.

A terceira coalizão: o duelo entre França e Inglaterra.

A paz com os estrangeiros não durou muito tempo. Em 1803, recomeçou a guerra contra a Inglaterra. Desta vez, o conflito durou mais de uma década. A Inglaterra organizou sucessivas coalizões para conseguir a derrota definitiva de Napoleão.

Dois fatores principais causaram o conflito:

1 - A burguesia Inglesa sentia-se ameaçada pela expansão do comércio e da industria francesa.
2 -
A política imperialista de Napoleão na Europa e nas colônias rompeu o equilíbrio europeu em favor da França.
3 - A Inglaterra contava com importantes recursos para enfrentar o poder francês:

3.1 - A industria inglesa era mais desenvolvida do que a francesa.
3.2 -
Sua posição insular a protegia contra os exércitos franceses.
3.3 -
Sua marinha de guerra lhe garantia o controle dos mares.
3.4 -
Os grandes recursos econômicos da Inglaterra lhe permitiriam reunir contra a França os exércitos de outras potências.

Durante a terceira coalizão, a Inglaterra destruiu a frota franco-espanhola na batalha de Trafalgar, em 1805. A batalha naval de Trafalgar, acabou com as esperanças de Napoleão de invadir as ilhas britânicas e, garantiu aos ingleses o domínio do mar durante mais de um século.

No mesmo ano, a França obteve vitórias significativas no continente, redesenhando o mapa da Europa. Após a derrota da Prússia, Napoleão acabou com o sacro império. Em seu lugar criou a confederação do Reno. Na Itália, criou dois reinos, o da Itália e o de Nápoles.

A quarta coalizão

Em 1806, Inglaterra Prússia e Rússia formaram a quarta coalizão contra Napoleão. Os exércitos franceses derrotaram os prussianos e ocuparam a capital, Berlim. No mesmo ano, Napoleão proclamou o bloqueio continental contra a Inglaterra. De acordo com essa proclamação, nenhum navio inglês podia entrar nos portos da França e de seus aliados, ou seja, nos portos de praticamente toda a Europa.

A Inglaterra respondeu proclamando o bloqueio marítimo da Europa: os contatos com o mundo colonial cessaram.

A Inglaterra tomou as seguintes medidas:

1 - Procurou novos mercados nas colônias.
2 -
Intensificou o contrabando com as colônias Ibéricas na América do Sul, visando compensar a perda dos mercados europeus.

Em 1807, as forças russas foram derrotadas na Polônia. Lã, Napoleão criou o ducado de Varsóvia. Toda a Europa aderiu ao Bloqueio continental, menos Portugal, aliado da Inglaterra e o papado.

Ainda em 1807, tropas francesas atravessaram a Espanha e tomaram Portugal. A família Real portuguesa fugiu para o Brasil, amparada pela esquadra inglesa.

Em 1808, tropas francesas tomaram Roma e prenderam o papa.

Napoleão e a Espanha

A Espanha participou da primeira coalizão contra a França. Depois disso tornou-se sua aliada constante. A perda da frota em Trafalgar motivou sentimentos antifranceses na população espanhola. Com o pretexto de enviar reforços para Portugal, Napoleão invadiu a Espanha. Em 1808, tropas francesas ocuparam Madri. Aproveitando a disputa pelo trono entre o rei Carlos IV e seu filho, Fernando VII, Napoleão os prendeu na cidade de Bayonne. José, irmão de Napoleão, assumiu o trono da Espanha. A partir de então, vários movimentos populares se opuseram a ocupação francesa. Na América espanhola, a prisão do rei da Espanha, detonou o movimento de independência.

As cidades espanholas resistiram à dominação francesa. A guerra de guerrilhas causou muitas baixas ao exército francês. Em 1812, José Bonaparte teve de abandonar Madri, devido às vitórias do General inglês Wellington na Espanha. A partir de então, a resistência a ocupação francesa foi comandada pelas juntas de governo, instaladas em Sevilha e Cádiz. Em 1810, um conselho de resistência convocou as cortes. Em 1812, as cortes promulgaram a primeira constituição da Espanha.

A quinta coalizão

Devido a formação de uma nova coalizão entre a Inglaterra e Áustria contra a França, Napoleão foi obrigado a deixar a Espanha. Após derrotar os austríacos, intruduziu os princípios revolucionários e implementou medidas contra o antigo regime nos territórios recém conquistados.

Aboliu a servidão
Instituiu os princípios de igualdade perante a lei e os impostos
Suprimiu os privilégios existentes
Introduziu um novo código legislativo, baseado no código francês
Nacionalizou os bens da igreja
Reformou a administração do Estado segundo o modelo francês

Mas, o imenso império conquistado por Napoleão tinha um ponto fraco: a Espanha e a Rússia

A campanha na Rússia

No final de 1810, a Rússia resolveu furar o bloqueio continental. Napoleão decidiu empreender uma campanha contra a Rússia. Os preparativos para a campanha demoraram um ano. Napoleão reuniu um exército de seiscentos mil soldados aliados. Em Junho de 1812, o exército multinacional de Napoleão entrou na Rússia.

Ao invés de enfrentar o invasor, os russos abandonavam suas terras e incendiavam tudo. Em Setembro de 1812, o exército de Napoleão chegou até Moscou exausto, mas venceu a batalha. Entretanto, Moscou fora incendiada pelos russos e o exército vencedor ficou sem provisões. No início do inverno começou a retirada do exército napoleônico. O frio e o ataque da cavalaria de cossacos quase dizimaram as tropas de Napoleão. Apenas cinqüenta mil soldados voltaram da campanha contra a Rússia.

A sexta coalizão ( 1813)

A derrota de Napoleão na Rússia precipitou uma sublevação na Prússia e na Áustria que formaram uma nova coalizão com a Inglaterra. Napoleão derrotou os exércitos da Rússia e da Prússia. Enquanto isso, os exércitos franceses estavam sendo derrotados na península ibérica por forças espanholas e e inglesas.

Após a batalha de Leipzig, em 1813, os exércitos de Napoleão abandonaram os principados alemães. A rebelião contra o império se estendeu até a Itália, Bélgica e Holanda. No início de 1814, os exércitos da sexta coalizão invadiram a França a partir da Espanha e do Reno.

Em Março de 1814, os aliados da Inglaterra tomaram Paris. Napoleão foi destituído pelo senado francês abdicando em favor de seu filho, Napoleão II. Os aliados não aceitaram que seu filho assumisse o trono. Assim, Luiz XVIII assumiu o trono da França restaurando a dinastia Bourbon.

Napoleão foi enviado para a ilha de Elba, onde permaneceu exilado.

O congresso de Viena

Em Novembro de 1814, reis e enviados reais se reuniram no congresso de Viena para desenhar o mapa da Europa pós-napoleônica.

O congresso foi presidido pelo Chanceler austríaco Metternich, defensor do absolutismo.

Dois princípios básicos orientaram as resoluções do congresso:

A restauração das dinastias destituídas pela revolução e consideradas "legitimas"
A restauração do equilíbrio entre as grandes potências, evitando a hegemonia de qualquer uma delas.

A divisão territorial pactuada em Viena, não satisfez a nenhuma das potências participantes: os vencedores cuidaram de seus interesses políticos mais imediatos.

Trocaram territórios entre si para garantir o "equilíbrio" europeu.

A Inglaterra obteve as melhores bases navais.
A Rússia anexou a Finlândia e a Polônia.
Áustria anexou a região dos Bálcãs.
Os principados alemães formaram a confederação alemã com 38 Estados. A Prússia e a Áustria participavam dessa confederação.
A península Itálica continuou abrigando vários principados e repúblicas aristocráticas. A Áustria ocupou o norte.
A Bélgica uniu-se a Holanda e formou o reino dos paises baixos.
A Suécia e a Noruega se uniram.
A Turquia manteve o controle dos povos cristãos do sudeste da Europa.

As fronteiras dos países foram alteradas de acordo com os interesses de seus "legítimos soberanos", ou seja, dos monarcas absolutistas. O problema das nacionalidades e da unidade da Alemanha e da Itália se aprofundou durante todo o século XIX, ocasionando conflitos violentos.

A volta de Napoleão

Tendo em vista os rumos tomados pelo congresso de Viena, Napoleão decidiu abandonar seu exílio na ilha de Elba. Em 1815, desembarcou em Cannes, porto francês, e se dirigiu a Paris. O rei mandou uma guarnição de soldados para prendê-lo, mas estes aderiram a Napoleão. Luiz XVIII fugiu para a Bélgica.

A sétima coalizão

Novamente no poder, Napoleão informou ao congresso de Viena que desejava governar em paz, respeitando as fronteiras traçadas. As potências que haviam derrotado Napoleão anteriormente não aceitaram essa proposta e formaram uma nova coalizão. A sétima coalizão foi formada pela Inglaterra, Áustria, Prússia e Rússia. Napoleão foi derrotado na Batalha de Waterloo.

Desta vez, foi mantido prisioneiro na ilha de Santa Helena, no oceano Atlântico, onde morreu em 1821.

Fonte: www.potyguar.com

Napoleão Bonaparte

Napoleão Bonaparte
Napoleão Bonaparte era bem visto pelo povo

Entre 1799 e 1815, a política européia está centrada na figura carismática de Napoleão Bonaparte, que de general vitorioso se torna imperador da França, com o mesmo poder absoluto da realeza que a Revolução Francesa derrubara.

Napoleão Bonaparte, jovem general corso, começa a se destacar como militar em 1795, quando sufoca uma revolução monarquista em Paris. Depois de ter se destacado na guerra contra a Itália e na Campanha do Egito, Napoleão é escolhido para chefiar o golpe que depõe o Diretório, em 18 brumário.

Em 10 de novembro de 1799 (dia 18 brumário, segundo o calendário republicano) Napoleão Bonaparte, com o auxílio de militares e membros do governo, derruba o Diretório, dissolve a Assembléia e implanta o Consulado, uma ditadura disfarçada.

O golpe de 18 brumário retoma princípios do Antigo Regime e encerra dez anos de lutas revolucionárias que influenciariam profundamente os movimentos de independência na América Latina e a organização dos países da Europa. Em 1804 Napoleão cria o Império, espécie de monarquia vitalícia que se sustenta pelo êxito das guerras e reformas internas.

O Consulado é o período de 1799 a 1804, no qual Napoleão promulga uma nova Constituição, reestrutura o aparelho burocrático e cria o ensino controlado pelo Estado.

Em 1801 declara o Estado leigo, com a subordinação do clero às autoridades seculares.

Em 1804 promulga o Código Napoleônico, que garante a liberdade individual, a igualdade perante a lei, o direito à propriedade privada, o divórcio e incorpora o primeiro código comercial.

Em 1805 a França volta a adotar o calendário gregoriano. Napoleão realiza um governo ditatorial, com censura à imprensa e repressão policial, com o apoio do Exército.

Após um plebiscito, Napoleão coroa-se imperador, em 1804, com o nome de Napoleão I. Intervém em toda a Europa, derrotando as tropas austríacas, prussianas e russas, e passa a controlar a Áustria, Holanda, Suíça, Itália e Bélgica. Avança na Espanha mas enfrenta resistência de guerrilheiros locais. Temendo a expansão napoleônica, a família real portuguesa foge em 1808 para o Brasil, sua colônia na América. Em 1812 o Império Napoleônico incorpora 50 milhões dos 175 milhões de habitantes do continente europeu e introduz as reformas burguesas nos demais países da Europa, quebrando as estruturas feudais remanescentes. Impõe o sistema métrico decimal, implanta o direito moderno e difunde amplamente as idéias de liberdade e igualdade da Revolução Francesa.

Em 1806, Napoleão decreta o Bloqueio Continental contra a Inglaterra, após a derrota dos exércitos franceses em Trafalgar, na Espanha. A França proíbe que qualquer país europeu abra seus portos ao comércio com a Inglaterra. O objetivo é enfraquecer os ingleses e reservar o mercado continental europeu às manufaturas francesas. O bloqueio recebe a adesão da Espanha e da Rússia em 1807. Portugal, aliado da Inglaterra, recusa-se a aderir e é invadido pelas tropas francesas.

Em 1812, a pretexto de punir o abandono do Bloqueio Continental pela Rússia, Napoleão declara guerra a Moscou, mas a campanha, em pleno inverno, é um desastre. Diante da iminência da invasão o governador russo ordena que as pessoas abandonem Moscou e incendeia a cidade. O Exército napoleônico encontra apenas destroços. Dos 600 mil homens, sobram cerca de 37 mil para fazer a retirada.

A derrota de Napoleão na Rússia incentiva a formação de uma coalizão reunindo russos, ingleses, espanhóis, prussianos, suecos e austríacos contra a França. Em 1813, os exércitos aliados conseguem derrubar o sistema napoleônico e libertar a Alemanha, a Holanda e o norte da Itália. Em 1814 tomam Paris e formam um governo provisório, dirigido por Talleyrand, que depõe Napoleão. Ele abdica do posto do imperador e exila-se na ilha de Elba, que obtém como principado. Os Bourbon retornam ao poder e entronizam Luís XVIII, irmão de Luís XVI (guilhotinado durante a Revolução Francesa).

Napoleão, do fundo de seu retiro, não deixava de se informar do que sucedia no continente. Conhecendo as deficiências do governo, sabe que o exército quer vê-lo novamente no comando. Foi em tais circunstâncias que Napoleão fugiu da Ilha de Elba e desembarcou na costa Meridional da França, a 1º de março de 1815. Foi recebido em toda a parte com alegria delirante pelos camponeses e pelos ex-soldados.

A partir de 20 de março de 1815, Napoleão reinará por mais cem dias. A retomada do poder, entretanto, não fez ressurgir o antigo despotismo imperial. O regime se reorganizará através de um “Ato Adicional” à Constituição, tornando-se um império liberal.

Os soberanos coligados, então reunidos no Congresso de Viena, surpreendidos com o acontecimento, renovam a aliança, declaram Napoleão fora da lei e decidem levantar novo exército destinado a destruir de vez Napoleão Bonaparte. Entendendo ser melhor tomar a ofensiva, a fim de frustrar os planos de seus inimigos, Napoleão marcha sobre a Bélgica e vence os prussianos, comandados por Blucher, em Ligny. Dias depois, em 18 de junho, em Waterloo, foi fragorosamente derrotado pelo Duque de Wellington e pelo general Blucher, à frente de um exército coligado. No dia 21 de junho, Napoleão abdicou pela segunda vez, sendo deportado em exílio definitivo para a ilha de Santa Helena, onde morre em 5 de maio de 1821. A dinastia dos Bourbons voltou a reinar na França. Era o fim do império.

Fonte: www.unificado.com.br

Napoleão Bonaparte

Nascido na Córsega, no ano 1769.

Napoleão Bonaparte
Napoleão Bonaparte

Seu pai, Carlo Bonaparte, aliou-se aos franceses e ocupou altos postos na administração local. Graças à ajuda do governador francês da Córsega, Napoleão pôde se inscrever em 1779 na escola militar de Brienne na Champanha e, mais tarde, a Escola Militar Real de Paris.

Foi em Brienne que, para poder ler em paz nos recreios, chegou a construir no pátio da escola uma pequena cabana com folhagens para que não o atrapalhassem. Mas foi na escola de Paris que, estudando com o matemático Monge, sua habilidade com a matemática ficou conhecida.

Foi assim, em meio aos intensos exercícios de matemática, que deixou-se embriagar pela leitura sobre a conquista da cidade santa pelos cruzados, narrada por Tasso no Jerusalém Libertada, experimentando então "as primeiras emoções da glória", como assegurou ao conde de Las Cases, o seu memorialista (Memorial de Santa Helena).

Nada escapava à sua curiosidade.

Além da sua paixão pela matemática, história e pela geografia, devorou Voltaire, Rousseau, D'Alembert, Mably, o padre Raynal com a mesma tranqüilidade que passou pelos clássicos antigos, particularmente pelas máximas de Plutarco e por Tito Lívio, e pelos grandes do teatro francês: Racine, Corneille e Molière.

Após sair da Escola Militar, ele se juntou ao corpo de artilharia, uma espécie de elite intelectual do exército, cujo nível educacional era melhor, e o sangue menos azul, do que o da alta nobreza que dominava o exército francês. Quando veio a Revolução Francesa, 1789, a recebeu com entusiasmo.

Em 1793, a Inglaterra ocupou a Córsega, e sua família foi exilada para o porto francês de Toulon. Essa cidade rendeu-se a uma esquadra inglesa logo em seguida, e Napoleão teve a sorte de ter seu plano de contra-ataque aprovado pelo governo francês da época, a Convenção. Toulon foi reconquistada, e Napoleão tornou-se conhecido como um general de artilharia que tinha grande mérito.

Em 1794 foi preso, por causa de suas conexões políticas, mas logo foi solto quando o governo da Convenção caiu e o Diretório, muito menos radical, entrou em seu lugar. Quando houve uma rebelião contra o novo governo em Paris, o general comandante das forças leais ao Diretório, Barras, chamou Napoleão para comandar a artilharia do governo. A rebelião foi derrotada e Napoleão foi promovido a major-general, como prêmio pelos seus serviços.

O primeiro comando veio em março de 1796: o Diretório, confiante em suas habilidades, nomeou-o para liderar o exército francês que lutava na Itália. Na Itália, venceu uma série de batalhas, mas foi só depois da vitória contra a Áustria, em Lodi, que ele passou a considerar-se, segundo suas próprias palavras, um homem superior, destinado a realizar grandes coisas. Já nesta época tinha tanto prestígio, e suas vitórias davam tanto dinheiro à França, graças aos saques, que ele sentia-se poderoso o suficiente para desafiar o governo do Diretório, quando ambos discordavam sobre algum assunto.

Depois da Itália, foi para o Egito, onde fez o famoso discurso para seus homens ao lado das pirâmides: “Soldados! Lá de cima quarenta séculos vos contemplam...” A missão ao invadir o Egito, desembarcando em Alexandria, era com o objetivo de cortar o caminho britânico para a Índia.

Militarmente mal sucedida, os franceses sofreram uma dura derrota na batalha do Nilo, no entanto esta campanha obteve uma grande realização.

Ao lado dos mil canhões havia um exército de 175 sábios tais como: astrônomos, geômetras, matemáticos, químicos, mineralogistas, técnicos, pintores, poetas...

Esses homens foram os grandes vitoriosos, pois tiveram que “batalhar” para poderem trazer luz ao antigo Egito. Napoleão - tal como o conquistador Alexandre, o grande (que levara, em 334 a.C., um conjunto de especialistas e de filósofos gregos para estudar o Oriente) - queria somar à conquista militar os ganhos científicos que iria revelar ao mundo. Ao abrir o Egito aos olhos da ciência européia iria dar a chance de trazer à luz o passado daquela civilização esquecida e enterrada nas areias de um tempo milenar.

A Pedra Roseta, por exemplo, descoberta próxima à cidade de Roseta (Egito) em 1799, proporcionou a chave que permitiu decifrar a escrita hieroglífica egípcia.

O texto que aparecia no fragmento basáltico era um elogio a Ptolomeu V e estava escrito em demótico, em grego e em caracteres hieróglifos. A versão grega permitiu que Jean François Champollion decifrasse a escrita egípcia. Este achado representou uma contribuição fundamental para a arqueologia egípcia.

Napoleão, apesar de suas vitórias em terra, decidiu voltar para França, pois soube que sua esquadra foi massacrada na batalha naval de Abuquir. O governo do Diretório pensou em prendê-lo, por ter abandonado seu exército no Egito; mas ele já era tão popular, que nada foi feito contra ele.

Depois da Campanha no Egito, Napoleão é escolhido para chefiar o golpe que depõe o Diretório, em 18 brumário.

Em 10 de novembro de 1799 (dia 18 brumário, segundo o calendário republicano) Napoleão Bonaparte, com o auxílio de militares e membros do governo, derruba o Diretório, dissolve a Assembléia e implanta o Consulado, uma ditadura disfarçada

O Consulado é o período de 1799 a 1804, no qual Napoleão promulga uma nova Constituição, reestrutura o aparelho burocrático e cria o ensino controlado pelo Estado.

Em 1804 promulga o Código Napoleônico, que garante a liberdade individual, a igualdade perante a lei, o direito à propriedade privada, o divórcio e incorpora o primeiro código comercial.

Em 1805 a França volta a adotar o calendário gregoriano. Napoleão realiza um governo ditatorial, com censura à imprensa e repressão policial, com o apoio do Exército.

Após um plebiscito, Napoleão coroa-se imperador, em 1804, com o nome de Napoleão I.

Em suma, os franceses estavam cansados de governos revolucionários, queriam estabilidade; Napoleão parecia-lhes ser o homem certo para botar ordem na casa.

A França foi o primeiro país da Europa cujo exército deixou de ser uma casta militar vivendo à margem da sociedade; todo francês podia ser convocado para o exército; um dos lemas herdados da Revolução Francesa foi: todo cidadão é um soldado. Por isso, o país mais populoso da Europa na época, com mais ou menos o mesmo número de habitantes que a Rússia, podia colocar em armas quase tanta gente quanto todos os seus adversários juntos somados. O próprio Napoleão chegaria a se gabar, mais tarde, que poderia dar-se ao luxo de perder 30 mil homens por mês, uma quantidade absurda de baixas, na época.

Seu estilo de guerra era uma novidade completa: Fazia o possível para que seus soldados andassem muito mais rápido do que os do inimigo; mobilidade era sua grande característica. Para ele lutar bem significava andar muito; um bom soldado tinha que ser alguém capaz de agüentar longas marchas. Além disso, seus exércitos eram compostos de cidadãos, e não apenas de soldados profissionais, como os dos adversários; os franceses não eram tão bem treinados quanto os inimigos, nem tinham tanta disciplina.

Em compensação, tinham muito mais iniciativa. Napoleão dizia: «Muitas batalhas são ganhas por uma simples lembrança de guerras passadas. Eu não sou tão bom estrategista como dizem, apenas sou um estudioso de batalhas ocorridas em tempos idos.

Eu conheço todo o desenvolvimento e decisões tomadas pelos notáveis homens que faziam da guerra uma arte, como: Átila, Rei dos Hunos; Alexandre, o Grande; etc.».Ele também gostava de comentar aos seus generais que não se ganhava uma guerra sem cometer erros. Mas, para não serem derrotados, tinham obrigatoriamente de errar menos que o inimigo.

Para ele: " O avanço e o aperfeiçoamento da matemática estão ligados à prosperidade do estado".

Fonte: www.caiozip.com

Napoleão Bonaparte

Introdução 

Um homem de gênio jamais se engana; seus erros são voluntários e portais do descobrimento. (James Joyce, 1882-1941)

Napoleão Bonaparte foi profundamente amado ou odiado em vida e continua a sê-lo ainda hoje, duzentos anos depois. Há algum tempo, quando a influência cultural francesa era maior, ele era amplamente admirado por seus feitos, enquanto seus desacertos eram discretamente varridos para baixo do tapete.

Com a diminuição desta influência, a memória de Napoleão vem recebendo revisões cada vez mais freqüentes, que pendem para o lado oposto: ele passa a ser descrito como um Hitler sem bigodes, um anãozinho despótico e perigoso, modelo de todos os malucos e maluco ele próprio. Ora, reduzir Napoleão a sua própria caricatura e acreditar que esta redução seja a expresão da verdade é má-fé ou estupidez – ou ambas.

Pregar em Napoleão o rótulo de tirano e dar-se por contente é uma perigosa simplificação, tal como seria dizer que Getúlio Vargas não passou de um ditador fascistóide, que mandou Olga Benario para a morte certa na Alemanha. Ora, se isto fosse toda a verdade, quem deu início à indústria de base brasileira? Na História do Brasil, Getúlio é registrado como um estadista que também cometeu atos reprováveis e não como um criminoso que, por mero acaso, tivesse também inaugurado a Petrobrás.

Com Napoleão ocorre a mesma coisa: seus erros foram imensos; mas seus acertos também foram - e sobrepujaram seus equívocos. E estes, aliás, sempre foram, de uma forma ou outra, cometidos em função da enorme complexidade da política européia (enquanto a morte da esposa de Prestes não tinha o menor sentido para a política brasileira).

Além disso, converter Napoleão em bandido implica, quase automaticamente, elevar seus inimigos à categoria de heróis – ora, examinando-se a História da Inglaterra, descobre-se que, em 1839, ela tornou-se a primeira nação moderna traficante de drogas, na Guerra do Ópio: portanto, não há santidade em nenhum dos lados do conflito.

Napoleão disse que um homem verdadeiramente grande sabe colocar-se acima dos acontecimentos a que deu causa; e isto é particularmente verdadeiro em seu próprio caso. Napoleão não provocou nenhuma das guerras em que se envolveu; estava em jogo a supremacia européia e estas guerras viriam, com ou sem sua presença e, ao fim e ao cabo, terminariam fatalmente sendo vencidas pela Inglaterra. O fato de, por algum tempo, ter parecido que a França poderia sobrepujar seus inimigos é, em grande parte, produto da espantosa atividade e da fantástica força de vontade de Napoleão.

Um julgamento final não é o objetivo deste site: ele se propõe apenas a expor, de um modo sucinto e (tanto quanto possível) neutro, os eventos principais de uma carreira prodigiosa, sob qualquer ponto de vista.

Juventude 

Ajaccio, Córsega, 15 de agosto de 1769. Um ano depois de aquela ilha ser comprada de Gênova pela França, nasce uma criança, batizada com o nome corso de Napulione, filho de Carlos-Maria Buonaparte, advogado do Conselho Superior daquela ilha, e de Maria Letícia Ramolino.

É o segundo de uma prole de oito: José, Napoleão, Elisa, Luís, Pauline, Carolina e Jerônimo, por ordem de nascimento.

Sua família faz parte da pequena nobreza insular, com origem em Florença, na Toscana.

No século XII, havia três ramos desta família: o primeiro, com sede em Treviso, extinguiu-se em 1397; o segunda, chamado de os Buonaparte de San-Miniato, extinguiu-se em 1570; o terceiro estabeleceu-se principalmente entre Gênova e Veneza. Um membro deste terceiro ramo, L. Maria Fortunato Buonaparte, fixou-se em Ajaccio em 1612, sendo o bisavô do recém-nascido. 

Em 1778, Carlos-Maria Buonaparte é nomeado representante da Córsega na corte de Luis XVI, onde permanecerá por vários anos; assim, a figura fundamental do pequeno Napulione é sua mãe. Adiantada para sua época, exige que seus oito filhos tomem banho todos os dias, quando o comum é fazê-lo uma vez por mês, se tanto (Napoleão conservará este hábito por toda a vida, tomando prolongados banhos muito quentes todos os dias). Sua firme disciplina cria influências duradouras sobre o voluntarioso caráter de Napulione.

Antes que ele complete nove anos, seu pai encaminha-o à França continental, para prosseguir seus estudos.

Em 1779, ingressa na escola militar de Brienne, em Champanha, um dos doze colégios que acolhem os filhos da nobreza pobre.

Ele ali permanecerá durante cinco anos: bom aluno, mas áspero e taciturno, Bonaparte não é bem aceito por seus camaradas. Fala francês com carregado sotaque italiano, que jamais perderá de todo. Gosta de isolar-se para meditar e sente profunda aversão aos franceses, aos quais acusa de serem os opressores dos corsos. É um leitor voraz, que faz anotações detalhadas de tudo o que lhe cai sob os olhos.

Apesar disso, distingue-se apenas em Geografia e Matemática, tendo também se dedicado ao atento exame de obras como a História universal de Políbio, as Vidas paralelas de Plutarco ou a Expedição de Alexandre, escrita por Arriano de Nicomédia, livros que terão profunda influência em seu espírito. Ele mostra já uma propensão para a arte do comando, chefiando os jogos militares de que participa.

Napoleão Bonaparte
Bonaparte com 16 anos de idade, retratado por um colega

Em 1784, morre seu pai, deixando-lhe a mãe em sérias dificuldades para custear os estudos de seus filhos: José passa a estudar Direito, Luciano é matriculado no seminário de Aix-en-Provence e suas irmãs são educadas por Madame Campan. Bonaparte, que precisa encontrar uma renda para sustentar a família, é considerado apto a prestar o concurso de ingresso na Escola Militar de Paris, a fim de completar sua formação.

É admitido como cadete-fidalgo em 22 de outubro e, estudando o Tratado de Bezout dia e noite, conclui sua formação em 10 meses em lugar dos 4 anos normais. Em setembro de 1785, ele entra na artilharia, no Regimento de la Fère, em Auxone, sendo nomeado segundo-tenente em Valence em 1787. É então um jovem esguio, de aproximadamente 1,68 m de altura, estatura mediana para um francês de seu tempo. 

Quando estala a Revolução Francesa, em 1789, o tenente Bonaparte acha-se em Paris e assiste à invasão das Tulherias pelo povo. Volta à Córsega por diversas vezes, onde Pasquale Paoli lidera o movimento de independência da ilha.

Bonaparte é eleito chefe da Guarda Nacional em 1792. Porém, a execução do rei, em 21 de janeiro de 1793, provoca uma revolta dos partidários da independência. Os bonapartistas apóiam a Revolução, enquanto os paolistas são partidários de uma monarquia moderada, nos moldos ingleses. Estoura uma guerra civil e a família de Napoleão, cuja residência foi saqueada pelos paolistas, é obrigada a deixar a ilha precipitadamente com destino a Toulon, em junho de 1793, indo estabelecer-se em Marselha.

Ascensão no exército 

Napoleão Bonaparte
A tomada de Toulon

Em 28 de agosto de 1793, realistas e soldados estrangeiros (ingleses, principalmente) ocupam Toulon, porto no Sul da França. Bonaparte, já capitão de artilharia, continua apoiando a Revolução e, no mesmo ano, é enviado ao cerco destinado a livrar Toulon da presença britânica. Concebe um plano eficaz e o submete a seus superiores, mas eles não lhe dão importância; nada acontece até que o comando das operações é entregue a um velho soldado, o general Dugomier, que percebe seu valor e o adota.

Em dezembro de 1793, o ataque é realizado com sucesso, em conformidade com seu plano, e Bonaparte é encarregado de comandar a artilharia. Este episódio lhe vale o posto de general-de-brigada; é-lhe oferecido um comando no exército que combate os insurgentes do Oeste. Bonaparte não aceita e permanece em Paris.

Bonaparte torna-se amigo do irmão mais moço de Robespierre; quando este político é derrubado, em 27 de julho de 1794, Bonaparte é preso como suspeito por algum tempo e logo libertado. Posto em liberdade, permanece em Paris sem nenhuma função efetiva, até que, em 1795, explode naquela capital a chamada Insurreição do Vindimiário, meio realista, meio baderneira, que ameaça derrubar o governo.

Paul François Jean Nicolas, visconde de Barras, comandante do Exército do Interior, propõe-lhe combater a sublevação. Bonaparte aceita; não tem tropas suficientes para fazer frente à multidão que se aproxima, mas, à última hora, um jovem oficial de cavalaria, Joachim Murat, traz-lhe alguns canhões, obtidos no subúrbio. Bonaparte não hesita em fazer fogo sobre a multidão indefesa (mais tarde, ele dirá que limpara as ruas de Paris com um “sopro de metralha”). É uma carnificina, mas que lhe dá ascendência sobre o Diretório. Alguns dias depois, Barras se torna um dos cinco membros do Diretório e Bonaparte é promovido a general de divisão e o substitui no comando do Exército do Interior. 

Campanha da Itália 

Napoleão Bonaparte
Josefina

Nesta época, ele é apresentado a Maria Josefa Rosa Tasher de La Pagerie, viúva de um oficial guilhotinado pela Revolução, mãe de duas crianças (Hortênsia e Eugênio) e ex-amante de Barras (e de muita gente importante mais). Ela consegue ser apresentada a ele, mas é completamente pega de surpresa quando o general se apaixona por ela e a pede em casamento. Um tabelião, amigo de Josefina (assim Bonaparte a chamava, por não gostar do nome Rosa), desaconselha aquela união, pois o pretendente, a seu ver, é “apenas mais um desses generais sem comando, que só de seu têm a espada e o manto” . Barras, porém, mostra-se encantado com a idéia de livrar-se de sua ex-amante e a estimula a desposar o general magriço e petulante (como presente de casamento, acena com a chefia do Exército da Itália). Bonaparte é nomeado em 2 de março de 1796, casa-se com Josefina uma semana depois e, passados alguns dias, assume seu novo posto.

A República da França está envolvida em mais uma guerra contra a Áustria, que domina a Europa central e o Norte da Itália. Incumbe ao exército chefiado por Bonaparte a função secundária de atrair alguma atenção dos austríacos, cabendo ao corpo principal das forças republicanas, a Oeste, a tarefa de derrotá-los. 

As aparências são de que Bonaparte não possa conseguirá sequer cumprir seu papel de coadjuvante: ele comanda um exército Brancaleone de 40.000 homens mal nutridos, mal vestidos e mal equipados, sem nenhum moral; seu próprio general conta apenas 24 anos de idade e só participou do cerco de Toulon.

Desenvolvendo uma atividade espantosa, porém, ele arrasta seus soldados e vence em o exército austríaco do general Beaulieu, mais numeroso e melhor equipado, em Montenote, Lodi e Arcole. A seguir, vence o exército sardo nas batalhas de Millesimo e de Mondovi em abril de 1796. Os sardos pedem um armistício, assinado em Cherasco, em 28 de abril de 1796.

Em 18 dias, dois exércitos são vencidos em cinco batalhas: Bonaparte começa a fazer-se respeitado por suas tropas e a tornar-se popular na França.

Do lado austríaco, Beaulieu é substituído por Wurmser, que será batido por Bonaparte nas batalhas de Castiglione (agosto de 1796) e Bassano (setembro de 1796). Wurmser é, por sua vez, substituído por Alvinczy, que será derrotado na batalha de Arcole (novembro de 1796).

Em janeiro de 1797, Alvinczy retorna à Itália com um exército de 45.000 homens e é vencido de novo na batalha de Rivoli (janeiro de 1797), sendo obrigado a capitular em 2 fevereiro de 1797. Na primavera, Bonaparte vence o exército austríaco do arquiduque Carlos em Tagliamento (março de 1797), depois na batalha de Tarvis (abril de 1797) e outra vez na batalha de Neumarkt (abril de 1797). Depois desta última derrota, os austríacos pedem um armistício. A Áustria, representada pelo arquiduque Carlos, negocia um tratado desfavorável em Campo-Formio em outubro de 1797.

O exército de Bonaparte fizera o que o corpo principal do exército francês não conseguira: vencera a guerra. 

Napoleão Bonaparte
A Batalha de Arcole

Nesta campanha, Bonaparte capturou 160.000 prisioneiros, tomou 2.000 canhões e 170 bandeiras. Em um ano de lutas, quebrara as regras da estratégia então vigentes e deu início a uma nova era da história militar. Sua notável série de triunfos resultou de sua habilidade em aplicar um conhecimento verdadeiramente enciclopédico dos assuntos militares a situações reais. Durante a campanha da Itália, Bonaparte utilizou (como os outros generais da Revolução) o primeiro sistema de telecomunicações do mundo, o semáforo de Chappe. Era também um mestre tanto no uso da espionagem e dos ardis, bem como demonstrava ser possuidor de um incomum instinto para saber onde, quando e como atacar.

Sua estratégia repousa em princípios simples: atrair o inimigo a um terreno escolhido, identificar um ponto débil em suas linhas e concentrar com habilidade o ataque neste ponto, dividindo as forças adversárias para batê-las uma de cada vez.

A tática era também simples: uma nuvem de soldados atirando a esmo progredia sem ordem definida, esgotando o inimigo pelo fogo cerrado. A infantaria atacava então, abalando as linhas inimigas pela massa. A cavalaria era usada para romper as forças inimigas em pedaços e perseguir os fugitivos.

A celeridade era considerada por Bonaparte como elemento essencial: segundo ele, a rapidez nas manobras permitia multiplicar “massa por velocidade”.

Na Itália, Bonaparte toma consciência de seu poder.

O sucesso nos campos de batalha garante-lhe enorme popularidade, tanto na Itália quanto na França: ele cria uma pequena corte se forma a seu redor em Milão. Em 1797, por intermédio do general Augereau, Bonaparte organiza uma manobra política que lhe permite afastar muitos realistas do poder em Paris e preservar a república jacobina.

Campanha do Egito 

Ao voltar da Itália, em outubro de 1797, Bonaparte persuade o Diretório a levar a guerra ao Egito, de onde ele imagina poder cortar à Grã-Bretanha o domínio sobre a Índia; o Governo já lhe teme a popularidade e aceita a idéia. Em 23 fevereiro de 1798, o projeto é apresentado a Barras. Em abril, é criado o Exército do Oriente, colocado sob as ordens de Bonaparte, que decide que a expedição será cientifica, ademais de militar.

Assim, integrarão a expedição matemáticos, engenheiros, astrônomos, químicos, farmacêuticos, médicos, mais de 150 cientistas das mais diversas áreas do conhecimento (durante esta campanha será descoberta a Pedra de Rosetta, que será o ponto de partida para a decifração dos hieróglifos por Jean-François Champollion; como um todo, a expedição científica será muito mais importante que a militar). 

Em 19 de maio de 1798, Bonaparte deixa Toulon com o grosso da frota francesa e consegue escapar à perseguição da frota britânica de Nelson. Em 10 e 11 de junho de 1798, os franceses tomam Malta, pois Bonaparte tem necessidade de assegurar as comunicações ulteriores com a metrópole.

Em 19 de junho, depois de haver deixado uma guarnição de 3.000 homens no lugar, a frota se dirige a Alexandria, aonde chegará em 1° de julho e que será tomada em 2 de julho, depois de uma curta resistência.

Bonaparte deixa 3.000 homens em Alexandria e começa a subir o Nilo. O primeiro combate verdadeiro acontece em Chebreïs em 13 de julho, onde os cavaleiros mamelucos são facilmente derrotados, graças ao uso da artilharia.

Em 21 de julho, ocorre a batalha das Pirâmides de Gizeh, quando Bonaparte vence outra vez o exército dos mamelucos (reza a lenda que, antes desta batalha, Napoleão teria dito a suas tropas: “Soldados, daquelas pirâmides quarenta séculos vos contemplam”, mas, ao que tudo indica, as pirâmides não são visíveis do local onde se travou o combate). Em 24 de julho, Bonaparte e seu exército entram no Cairo.

Em 1° e 2 de agosto, um desastre: a frota francesa é quase inteiramente destruída em Aboukir pelos navios de Nelson. Por conseqüência, os britânicos dominam o Mediterrâneo e Bonaparte torna-se prisioneiro de sua conquista. Em 9 setembro, encorajados por esta derrota, os turcos declaram a guerra à França. 

Bonaparte manda o general Desaix perseguir Murad Bey até o Ato Egito, completando assim o domínio do país. Estimulados pelos ingleses e pelos turcos, os mamelucos sobreviventes sublevam a população do Cairo contra os franceses em 21 de outubro de 1798.

A rebelião é impiedosamente reprimida: Bonaparte restabelece a situação pelo terror, mandando decapitar um enorme número de insurgentes, expondo suas cabeças à multidão e bombardeando a Grande Mesquita do Cairo. Por fim, com a decretação de anistia geral, a calma retorna. 

Em 1799, o Sultão envia tropas para combater os franceses. Em 10 de fevereiro, Bonaparte deixa o Cairo com o seu exército e bate os turcos em El-Arich e Gaza, na Palestina. Em 7 de março, a cidade de Jafa é tomada e pilhada pelos franceses; declara-se no exército francês a peste (doença infecciosa causada pela bactéria Yersinia pestis). Em 19 de março, Bonaparte sitia sem sucesso a fortaleza de São João d’Acre.

Em 13 de abril, os cavaleiros de Junot põem em fuga os cavaleiros otomanos na batalha de Nazaré e, em 16 de abril, na batalha do monte Tabor, Bonaparte e Kléber esmagam o exército enviado pelo Sultão para aliviar o assédio a São João d’Acre. Napoleão determina que os soldados franceses doentes sejam mortos por meio de ópio, mas o médico-chefe da expedição, René-Nicolas Dufriche, barão Desgenettes, recusa-se a cumprir tal ordem.

Diante disto, Napoleão determina o transporte dos doentes para Jafa. Quando o exército francês é obrigado a deixar a cidade, Napoleão consegue que seu farmacêutico-chefe ministre láudano  (um derivado do ópio) aos doentes em estágio terminal (há quem atribua a morte destes homens a um incêndio). 

De volta a Acre, Bonaparte tenta em vão, de 24 de abril a 10 de maio, tomar a cidade; assim, em 17 de maio de 1799, decide abandonar o cerco e retornar ao Egito. Seu objetivo era invadir o Oriente Médio, chegar à Índia (então colônia britânica), dominá-la e reentrar na Europa por terra, à frente de um exército multinacional. Em 14 de junho, chega ao Cairo e, em 25 de julho, bate os turcos na batalha de Abukir.

Neste momento, o Diretório, temeroso de uma invasão da França após uma série de derrotas impostas pela Segunda Coalizão, ordena-lhe a volta à França. Bonaparte, que não dispunha de nada mais que um exército enfraquecido e doente, tendo perdido sua marinha, deixa o comando do exército do Egito ao general Kléber e retorna (Kléber se mostrará um excelente administrador e, em 20 de março de 1800, vencerá os turcos na batalha de Heliópolis. Esta vitória permitirá à França conservar o Egito, mas Kléber morrerá assassinado, em 14 de junho de 1800, no Cairo, no mesmo em que Napoleão vencerá a batalha de Marengo.

O sucessor de Kléber, o general Menou, capitulará em 31 de agosto de 1801, diante das forças turco-britânicas depois de haver perdido 13.500 homens, principalmente vítimas das epidemias. Depois da Paz de Amiens, os soldados franceses restantes serão repatriados em navios ingleses).

Napoleão desembarca em Fréjus em 9 de outubro de 1799, após haver outra vez escapado por milagre à esquadra britânica durante os 47 dias da travessia. No caminho que o leva a Paris, ele é aclamado pela população. 

O Golpe de 19 Brumário

Chegando à capital, o general se entende com Charles-Maurice de Talleyrand-Périgord, um homem aristocrático, inteligente, paciente, frio, desleal e, acima de tudo, político experimentado e fino conhecedor das forças em jogo.

Bonaparte assume o comando em chefe do exército para manter a ordem em Paris durante as assembléias, que serão transferidas para Saint-Cloud sob o pretexto do perigo jacobino (o que não era totalmente falso). O essencial dos acontecimentos ocorre no 19 Brumário (9 de novembro de 1799), em Saint-Cloud.

Os revisionistas pretendem a demissão coletiva dos cinco diretores, mas a idéia não é unânime e as assembléias prolongam-se; Bonaparte se impacienta e decide intervir. Perante o Conselho dos Quinhentos, faz um discurso desastrado, muito mal recebido pelos deputados, que o acusam de querer instaurar uma ditadura.

Bonaparte é obrigado a sair da assembléia, mas volta a dominar a situação com a ajuda de seu irmão Luciano, que preside os Quinhentos. Luciano evita que seja votada a proposta que põe Bonaparte fora da lei e vai procurar Murat, que traz a tropa e invade a assembléia; justifica esta intervenção dizendo que alguns deputados haveriam tentado agredir Bonaparte.

Este se torna o homem forte da situação, embora continue aferrado às formalidades jurídicas: consegue que os deputados permaneçam em Saint-Cloud e votem a decisão de que sejam nomeadas comissões para preparar uma nova constituição. 

No dia seguinte, o Diretório encontra-se extinto e, em seu lugar, são nomeados três cônsules: Bonaparte, Sieyès e Ducos. É o Consulado Provisório, começo de um novo período da História francesa. Roger Ducos é dedicado a Bonaparte, enquanto Sieyès pretende desempenhar um papel efetivo no novo governo. 

O trabalho de redigir a constituição é confiado oficialmente a duas comissões legislativas formadas por deputados dos Quinhentos e dos Anciões; na prática, é Sieyès que vai propor um projeto, que se mostrará, porém, muito complexo e inteiramente insatisfatório para Bonaparte: ele prevê a instauração de um regime democrático fundado sobre um poder legislativo forte, tricameral. O executivo seria reduzido a uma magistratura vitalícia honorífica e a dois cônsules com funções limitadas.

Bonaparte aproveita as fraquezas deste plano para impor seu próprio projeto. De 4 a 13 de dezembro de 1799, ele reúne as duas comissões em seu gabinete para elaborar o texto da nova Carta, cuja redação final fica a cargo de Daunou, que já havia redigido a constituição do Ano III. 

A assim chamada Constituição do ano VIII é adotada em comitê restrito em 13 de dezembro de 1799. Ela se inspira em parte no projeto de Sieyès, mas integra as idéias políticas de Bonaparte, principalmente no que concerne ao poder executivo, nominalmente exercido por um triunvirato no qual Bonaparte é o Primeiro Cônsul, ocupando Cambacérès e Lebrun o segundo e o terceiro postos. Cambacérès foi deputado da Convenção; especialista em Direito, foi ministro da Justiça sob o Diretório. Lebrun é um partidário da monarquia moderada e um especialista das finanças. Sieyès será relegado ao posto de presidente do Senado.

A Constituição entra em vigor em 25 de dezembro de 1799. Ela marca uma ruptura com as precedentes, pois não faz nenhuma referência aos direitos humanos ou à defesa das liberdades. Foi feita sob medida para Bonaparte, cujo nome menciona, algo espantoso em um documento supostamente concebido para se aplicar a todos, sem distinção. O Primeiro Cônsul é o verdadeiro chefe do Executivo. Tem o poder de nomear para as principais funções públicas e detém alguma iniciativa em matéria legislativa. É também investido de importantes funções em diplomacia e, naturalmente, nos assuntos militares. Seus colegas tornam-se seus meros assessores.

O poder legislativo é dividido em quatro assembléias (parlamento quadricameral):

Conselho de Estado redige os textos legislativos;
Tribunato (composto de cem deputados) discute as leis sem votá-las;
Corpo legislativo ou Corpo dos mudos (300 membros) adota ou rejeita as leis;
Senado verifica se a lei é conforme com a Constituição.

Reformas do Consulado

Bonaparte mantém as aparências democráticas, mas organiza um poder autocrático que se acentua com o tempo. O Primeiro Cônsul corrige pessoalmente os atos legislativos que não lhe sejam satisfatórios. Tudo é cuidadosamente organizado e controlado por ele. 

O Consulado se instala oficialmente em 1° de janeiro de 1800. Desde o começo do novo regime, Bonaparte tenta reconciliar os partidos e pôr termos às divisões nascidas da Revolução. Ele convida o clero a voltar à França e negocia a liberdade de culto já em 28 de dezembro de 1799.

Napoleão suprime a “Loi des otages” (Lei dos Reféns), que permitia a prisão dos membros da família de um emigrado. Interrompe-se a venda dos bens nacionais e torna-se possível conseguir ter o nome riscado das listas de emigrados (ser mencionado nestas listas implicava a perda dos direitos civis – em 1802, Bonaparte concederá anistia geral aos emigrados). 

Há ainda regiões que escapam ao controle do Estado, sobretudo no Oeste do país, onde se constata uma instabilidade crônica; ali, Bonaparte encarrega-se de negociar a cessação dos distúrbios militares, obtendo uma trégua com os chefes da insurreição.

Desta forma, no começo de 1800, Bonaparte conseguiu a pacificação quase total do Oeste, em particular da Vendéia, apoiando-se principalmente sobre o clero. Ainda que restem alguns problemas locais, como na Normandia, o país, em 1802, está quase inteiramente pacificado, seja pela negociação, seja pela presença militar. 

Bonaparte entende que, para durar, o regime deve repousar sobre um Estado sólido, estruturado e confiável. 

De início, é preciso restabelecer as finanças públicas, o que se faz por uma reforma fiscal. O Consulado herda do Diretório quatro impostos diretos, mas mal consegue recebê-los. Para resolver o problema de caixa, é criado, em janeiro de 1800, o Banco da França. É um banco privado, com o suporte do governo, que faz empréstimos ao Tesouro por conta de receitas tributárias futuras. Como resultado, já em 1802 o Orçamento encontra-se equilibrado. Com a reforma monetária de 1803, o Estado assegura para si o monopólio da emissão da moeda; o franco germinal é fixado no padrão-ouro. 

Concordata

A Revolução Francesa abolira, ou tentara abolir, a religião, buscando o Estado absolutamente leigo. Ora, Bonaparte considera o sentimento religioso um elemento de estabilização da sociedade; e religião, na França, significa catolicismo, a religião professada pela esmagadora maioria dos franceses.

Assim, ele busca um entendimento com o Papa Pio VII, chegando à Concordata de 1801, que permite que, a partir de 1802, a Igreja seja reorganizada em sessenta dioceses, com novos bispos, e um clero “burocrático”: os bispos são indicados pelo chefe do Estado e recebem sua investidura canônica do Papa. O clero é remunerado pelo Estado e tem por função assegurar a paz, a coesão social e o respeito às leis.

Outros pontos da Concordata: o catolicismo é declarado “a religião da grande maioria dos franceses"; tolerância religiosa para judeus e protestantes; a igreja renuncia a reclamar as terras confiscadas durante a Revolução; o calendário gregoriano é restabelecido. 

A organização da sociedade: o Código Civil, o aparato judiciário e as classes sociais

Bonaparte deseja codificar as regras da sociedade e reconstruir o tecido social, depois da destruição do sistema vigente durante o Antigo Regime. Voltaire dizia que, cruzando a França, ele trocava mais vezes de leis que de cavalos.

À véspera de revolução, havia na França cerca de 366 pequenos códigos, agrupados em dois grandes sistemas: ao Norte, vigia o Direito costumeiro, germânico (semelhante ao direito anglo-saxônico); ao Sul, o Direito derivado do Direito romano e do Direito canônico (parecido com o adotado no Brasil). A tudo isto se juntavam os decretos reais e os 14.000 decretos lançados pela Revolução. 

O Código era uma antiga aspiração revolucionária, mas não havia o mínimo de condições políticas e sociais para empreender sua elaboração, até que, em 12 de agosto de 1800, Napoleão encarregou Cambacérès de supervisionar a Comissão encarregada do Código, presidida pelo jurista Tronchet. 

Os cinco grandes princípios jurídicos que presidiram sua redação foram:

1- unidade do direito – um só direito, aplicado a todos em todo o território francês;
2- unidade da fonte jurídica - somente o Estado tem competência de elaborar as leis e os decretos, cabendo aos tribunais apenas interpretá-las;
3- caráter completo do direito - todos os novos litígios devem ser regulados por um só e mesmo direito;
4- independência do direito - princípio obediente ao Espirito das Leis enunciado por Montesquieu
5- evolução do direito - o direito deve adaptar-se à modificação das mentalidades.

No dia 21 de março de 1804, após quase quatro anos de reuniões e discussões, das quais o Primeiro Cônsul por vezes participa ativamente, entra em vigor o Código Civil, que une as conquistas revolucionárias ao Direito pré-existente.

O Código consagra alguns princípios básicos e mesmo corriqueiros nos dias de hoje: igualdade de todos perante a lei, separação entre Estado e Igreja, casamento civil, direito ao divórcio, liberdade de culto e de profissão, direitos iguais de todos os filhos na sucessão causa mortis.

É um código burguês: o casamento encontra-se incluído dentre os modos de aquisição da propriedade, protegida de todas as formas. O direito das obrigações evolui das relações feudais, ente senhor e servo, para as modernas relações contratuais, celebradas entre iguais. 

Curiosamente, Bonaparte cria uma obra-prima e não entende seu alcance, pois proíbe-lhe a interpretação: para ele, tudo se achava claro, dispensando a hermenêutica. 

A Justiça, ministrada em nome do povo, é um dos pilares do novo Estado. Os juízes, magistrados profissionais, em princípio inamovíveis, são eleitos pelos cidadãos; estabelece-se o instututo do júri. Em março de 1800, Bonaparte procede a uma reforma judiciária pela qual são eleitos os juízes de paz, com jurisdição e competência reduzidas. 

A falta de segurança pública existente leva Bonaparte a criar um aparato policial centrado no Ministério da Polícia, confiado a Joseph Fouché. Além da preservação da ordem, a polícia encarrega-se da repressão política e, eventualmente, de pesquisas de opinião pública.

Restringem-se as liberdades de expressão, reunião e circulação. Para controlar os opositores, adotam-se as prisões preventivas, como a que encarcerou o Marquês de Sade. 

A sociedade do Consulado é hierarquizada não em função da classe, mas da fortuna e da notabilidade. Há uma dualidade entre uma elite de notáveis, os cidadãos mais ricos (aproximadamente 100.000 pessoas) e o restante da população. Listas de notáveis são estabelecidas em cada departamento, preenchidas pelos 600 maiores contribuintes – ou seja, os mais ricos. Estas listas servem para a designação para as diversas funções, inclusive para a composição das assembléias. É um viveiro onde o Estado busca seus funcionários e representantes, um prelúdio para a nobreza do Império.

A sociedade é supostamente igualitária quanto às oportunidades, mas Bonaparte sente necessidade de estabelecer alguma honraria para assinalar aqueles que lhe servem; assim, ele cria a Legião de Honra, que existe até hoje, a mais elevada condecoração do governo francês e uma das mais ilustres do mundo.

A supressão da oposição

Napoleão Bonaparte
Bonaparte, Primeiro Cônsul

Bonaparte deseja governar acima dos partidos e das instituições. Em 1802, o poder legislativo é completamente extinto e o Consulado torna-se um regime autoritário, sem espaço para opositores. 

Os jacobinos, por terem sido contrários ao Golpe de Estado do 18 brumário, tornam-se as primeiras vítimas da reação que se segue. A ameaça jacobina é real, como mostram os muitos projetos e conspirações contra o Primeiro Cônsul; em resposta, Bonaparte exclui da vida política 34 deputados são banidos, e 19 aprisionados. O jacobinismo é controlado pela polícia, embora Bonaparte se apresente como o herdeiro e o garante dos princípios da Revolução. 

No fim do Diretório, os realistas reorganizam suas redes, principalmente no Oeste e Sudoeste, regiões fortemente monarquistas. Desde fins de 1799, Bonaparte tem enviado emissários aos realistas, como Hyde de Neuville, para colocar um fim à insurreição. Alguns deles esperam usar Bonaparte para restaurar a monarquia, fazendo dele um intermediário para a volta de Louis XVIII; este chega mesmo a escrever-lhe, em 20 de fevereiro de 1800, para pedir-lhe que se afaste em seu favor.

Bonaparte recusa e a atitude dos realistas muda: eles passam a tentar eliminá-lo. Após algumas ações espetaculares, os realistas são também controlados pela polícia. Apesar da severa repressão, os movimentos persistem, pois os realistas têm uma base segura na Inglaterra, onde se encontra a maioria dos emigrados.

Os liberais sustentaram Bonaparte desde o começo; a maior parte aprovou o 18 brumário e o restabelecimento da ordem. Porém, eles são fiéis aos princípios de 1789 e não querem avançar no sentido de um regime autoritário. Benjamin Constant é o chefe e porta-voz da oposição até 1802. Ele protesta contra os atentados à liberdade, sobretudo os tribunais especiais, onde não há júri e que lhe parecem atentados à Justiça. Trata-se, porém, de uma oposição mitigada, que só se faz ouvir pontualmente, como ao eliminar um primeiro projeto de código civil, que lhe pareceu muito conservador. Houve também manifestações contra a Concordata de 1801 e contra o estabelecimento da Legião de Honra, que lhes pareceu uma renovação das classes sociais do Antigo Regime. 

Em 1802, Bonaparte “depura” as assembléias, eliminando um quinto de seus componentes, inclusive Benjamin Constant. São substituídos por gente fiel ao regime, como Luciano, seu irmão. 

A oposição persiste durante alguns meses, principalmente na imprensa; Bonaparte censura e suprime jornais, transformando a imprensa em mero veículo de propaganda (o melhor exemplo é o Monitor Universal, cujas notas, sem nenhum compromisso com a realidade, são muitas vezes redigidas por Bonaparte em pessoa, especialmente aquelas que respondiam às diatribes ou maledicências publicadas nas gazetas inglesas). Em 17 de janeiro de 1800, apenas treze periódicos circulam em Paris.

Política externa

Napoleão Bonaparte
Toussanint Louvertue

Bonaparte decide acabar com as guerras externas.

Para ele, o regime depende da paz que ele irá construir, desde que em bses seguras: assim, é preciso ser, outra vez, um vitorioso.

En 1800, Bonaparte ataca e vence outra vez a Áustria: derrotados em Marengo por Napoleão, em Hohenlinden por Moreau, na planície do Pó por Brune na Toscana por Murat, os austríacos se separam da Segunda Coalizão e assinam o Tratado de Lunéville em 9 fevereiro de 1801. O reino de Nápoles também cede e Alexandre da Rússia conclui em segredo uma convenção de paz com Bonaparte em 10 de outubro de 1801.

No Reino Unido, o primeiro-ministro William Pitt perde seu cargo em 13 de março de 1801. Os ingleses propõem a paz; Bonaparte aguarda os resultados da expedição ao Egito, mas ela fracassou depois do assassinato de Kléber e da perda do exército sob o comando de Menou. Assim, as preliminares por fim são encetadas em Londres, em 1º de outubro de 1801. O Congresso de Amiens principia em 5 de dezembro seguinte, reunindo a República Francesa, o Reino de Espanha e a República Batava (a Holanda) e de um lado e o Reino Unido e o Império Otomano, de outro. 

A Paz de Amiens é assinada em 27 de março de 1802, no Hôtel de Ville. Ela estipula que todos os territórios tomados por ambas as partes serão devolvidos, com exceção da Ilha de Trindade e do Ceilão, deixadas aos ingleses. O Cabo da Boa Esperança volta para os holandeses, fixam-se as fronteiras entre a Guiana francesa e a portuguesa, dentre outros pontos. O estatuto da Ilha de Malta e de sua antiqüíssima ordem de cavaleiros é precisamente estabelecido e sua independência colocada sob a guarda do Reino Unido e da França. 

A França vende a Luisiânia aos Estados Unidos da América em 20 de outobro de 1803.

Em 1802, com o intuito de reanimar a economia debilitada das Antilhas, Bonaparte pratica seu mais reprovável ato: restabelece a escravidão nas colônias, enviando um exército de 34.000 homens a São Domingos (Haiti), sob as ordens do general Leclerc. O exército aprisiona o grande líder negro Toussaint Louverture (ele morrerá no cárcere, no Forte de Joux, no Doubs, em 7 de abril de 1803; o exército francês será exterminado pela febre amarela; o próprio Napoleão, no futuro, assinará um decreto extinguindo a escravidão).

O Império

A Constituição do Ano VIII outorgava o poder a Bonaparte por dez anos. Em 1802, o Senado sugere que seu mandato se torne vitalício. Bonaparte impõe então que se vote um senatus-consulta pré-existente, que já previa a vitaliciedade de seu cargo, obtendo, ademais, o direito de nomear seu sucessor. O senatus-consulta é aceito pelo povo, aplainando o caminho para a monarquia. 

A Constituição do Ano X diminui ainda mais as assembléias e aumenta o poder do Senado no plano legislativo.

Desde fevereiro de 1800, Bonaparte reside nas Tulherias, onde vai progressivamente instalando uma corte cada vez mais complexa, sobretudo depois de 1802. Ele passa a viajar pelas províncias, o que lembra o cerimonial das visitas reais do Antigo Regime. Desta forma, Bonaparte deseja afirmar o Estado em um país cujos dirigentes, durante dez anos, não tiveram identidade visual. Depois da Concordata, Bonaparte reinstala uma capela nas Tulherias e assiste à missa todo os domingos.

Em 24 de dezembro de 1800, uma bomba é preparada para eliminar o Primeiro Cônsul, mas só explode alguns segundos depois da passagem do coche onde ele se encontra.

Bonaparte escapa ileso: apenas os vidros do veículo se partiram. Fouché, ainda Ministro da Polícia, consegue provar que o atentado foi causado pelos realistas, embora Bonaparte se encontre persuadido de que a culpa seja dos Jacobinos. 

Bonaparte estende sua influência sobre a Suíça, impondo-lhe as atuais instituições descentralizadas, e sobre a Alemanha. Com a volta ao poder de William Pitt, o Jovem, uma disputa a propósito de Malta serve de pretexto aos ingleses para declarar, em 1803, outra guerra à França, organizando a Terceira Coalizão e insuflando a oposição realista. 

Bonaparte reage mandando seqüestrar, em solo estrangeiro, Louis Henri de Conde, Duque de Enghien, que se declarara herdeiro do trono francês, e determinando sua execução depois de um simulacro de julgamento. O Duque é fuzilado em 23 de março de 1804, sob vagos protestos do Reino Unido, da Rússia e da Áustria. Em 18 de maio do mesmo ano, no palácio de Saint Cloud, é proclamado o Império Francês. 

De uma certa forma, o Império nasceu de um pedido do Senado.

Bonaparte havia se tornado mais que um mandatário: convertera-se ele próprio numa instituição (recorde-se que a Constituição anterior o mencionava explicitamente).

Acreditava-se que ele seria o garantidor da ordem, que se perderia com seu eventual desaparecimento. Entendia-se que, se seu carisma fosse transmitido a um título, ficariam asseguradas as conquistas da revolução (principalmente a igualdade, pois a liberdade há muito tempo fora deixada de lado). As primeiras moedas imperiais ainda trazem a inscrição “Napoleão Imperador - República Francesa”. 

Napoleão é coroado Imperador do Franceses em 2 de dezembro de 1804, e, em 26 de maio de 1805, recebe a coroa de Rei da Itália. Sua sagração foi um espetáculo de propaganda.

Para começar, o Imperador não foi a Roma para ser ungido pelo Papa, como os imperadores germânicos: ele obrigou Pio VII a ir a Paris para a cerimônia.

A própria coroação foi ainda mais singular: Napoleão tomou o diadema nas mãos e coroou-se a si mesmo, de frente para o público (e de costas para o Papa).

Depois, coroou a imperatriz Josefina. O Papa limitou-se a proclamar "Vivat Imperator in aeternum!". Esta encenação, destinada a demonstrar que Napoleão devia seu título a si mesmo e a mais ninguém, havia sido prévia e minuciosamente acertada com Pio VII, que, portanto, não foi pego de surpresa, como reza a lenda (à véspera da coroação, Napoleão chamou o tabelião que havia desaconselhado Josefina a casar-se com ele e, mostrando-lhe a espada de Carlos Magno e o manto da coroação, disse-lhe: “Lembra-se do conselho que deu a Josefina? Pois bem, eis minha espada e meu manto”).

A sagração de Napoleão foi meramente simbólica: seu cargo já era vitalício e hereditário antes da proclamação do Império.

Napoleão incorpora símbolos que remetem à Roma imperial, aos reis merovíngios e a Carlos Magno: as águias e abelhas que se vêem no brasão imperial são ecos deste passado com o qual se tenta criar um vínculo sólido.

Como parte desta simbologia, cria-se um estilo de decoração (o estilo Império), com móveis supostamente decalcados nos seus congêneres da antiga Roma. Na verdade, trata-se de um lance de propaganda e design: de um lado, sob a forma de um mobiliário suntuoso, a instituição do Império “entra na moda” e é levada para o interior dos lares franceses; por outro, trata-se de móveis fáceis de serem executados em grandes quantidades, com muitas peças planas ou torneadas, aos quais são aplicados elementos decorativos elaborados. A indústria começa a se preparar para a produção maciça de bens de consumo.

Em 1808, Napoleão, na tentativa de consolidar-se politicamente, cria a nobreza do Império: ela começa com a própria atribuição do título de príncipe aos membros da família imperial e, em 1806 e 1808, criam-se os títulos de duque, conde, barão e cavaleiro. Com isto, Napoleão visa a amalgamar a nobreza do Antigo Regime e a burguesia revolucionária, implantando uma elite estável e, supostamente, confiável. Esta nova nobreza é uma forma de recompensar aqueles que prestam serviços ao Império e não implica maiores privilégios (ao contrário do que acontecia no Antigo regime), exceto o direito de ter um brasão e o “majorato” – um conjunto de bens de raiz que não é partilhado na sucessão causa-mortis e cuja posse é condição necessária para que o título fosse transmitido (solidariamente com o próprio título).

Era sobretudo uma “nobreza de serviço”: 68 % de seus membros eram militares e 22%, funcionários públicos.

Ulm e Austerlitz  

Em 1804, a paz definitiva depende de neutralizar o Reino Unido, o que pareceria impossível diante da superioridade da marinha inglesa.

Assim, ele concebe, com o Almirante Louis René Levassor de Latouche-Tréville, um ousado plano diversional: concentrar momentaneamente o maior número de navios possível no Canal, evitando que os ingleses fizessem o mesmo. Para tanto, a esquadra franco-espanhola sairia do Mediterrâneo, atraindo os ingleses até às Antilhas e regressaria rapidamente, unindo-se às esquadras de Brest e Rochefort, que avançariam para a Mancha. Nessa altura concretizar-se-ia a invasão. Latouche-Treville falece antes de tentar executar este estratagema e Napoleão o confia ao Almirante Villeneuve (a primeira parte do plano transcorre como previsto, mas Villeneuve será surpreendido em Trafalgar, ao sul da Espanha, e a frota imperial será aniquilada). 

Napoleão mantém seu “Grande Exército” estacionado ns cercanias de Boulogne, preparado para invadir a Grã-Bretanha, à espera da esquadra de Villeneuve.

Enquanto aguardam, as tropas são treinadas e recebem freqüentes visitas do Imperador, para manter elevado seu moral. Em meados de agosto, Napoleão recebe a notícia de que a esquadra de Villeneuve atrasara-se e de que há movimentação na Europa central, onde as tropas russas avançam para se unir às austríacas. Os prussianos e o napolitanos, a soldo dos ingleses, também parecem dispostos a se unir contra a França. 

Napoleão não troca o certo pelo duvidoso: a invasão da Inglaterra era um projeto, a ameaça austro-russa uma realidade. Assim, em menos de 20 dias, Napoleão levou seu imenso exército em marcha acelerada de uma ponta a outra da Europa. O exército austríaco, sob o comando de Mack, compreende 80.000 homens e acha-se colocado no alto Danúbio, à volta de Ulm, no Wurtenberg, perto da fronteira com a Baviera, esperando que Napoleão atravesse a Floresta Negra. Está errado; o Imperador contorna os austríacos mais ao norte e arremete para o sul, colocando o grosso do seu exército entre Ulm e Viena e cortando a retirada a Mack. Este pode escapar enquanto a manobra não se completa, mas é iludido por Karl Schulmeister, alemão a serviço dos franceses, que se infiltrou no Estado-maior austríaco à custa de fornecer (com a permissão de Napoleão) informações corretas sobre o dispositivo francês. Schulmeister leva Mack a acreditar na ocorrência de um levante em Paris contra Napoleão, que seria obrigado a retirar suas tropas para voltar à capital. Como Mack duvide, Napoleão manda imprimir (no próprio acampamento) um número falsificado de uma gazeta de Paris que traz notícias desta revolução imaginária. Sentindo-se seguro, Mack permanece em Ulm até ser completamente cercado pelos franceses. Os marechais de Napoleão aconselham-no a bombardear a cidade, mas o Imperador sabe que este banho se sangue seria desnecessário; efetivamente, intimado a render-se, Mack capitula com todo o seu armamento em 20 de outubro de 1805.

O resultado da batalha foi (mais) uma prova do brilhantismo de Napoleão: apenas 5.980 baixas (mortos ou feridos) do lado francês, contra 12.000 baixas austríacas e 30.000 prisioneiros; consta que outros 30.000 escaparam, mas, destes, 10.000 foram mais tarde feridos ou mortos e o resto capturado. 

O General Mack se rende em Ulm

A Áustria mantinha na Itália um exército de 90.000 homens, comandados pelo Arquiduque Carlos, mas ele se encontra em xeque pelo Marechal Massena, à frente de 50.000 soldados. Napoleão avança à toda pressa sobre Viena, que ocupa sem resistência. Mais a leste, em Olmutz, o exército do Czar Alexandre (com 75.000 homens) reúne-se ao remanescente do exército do Imperador Francisco José (18.000 homens); Napoleão dispõe de 75.000 homens (mais 7.000 soldados de Davout, que aguardam em Viena), mas o verdadeiro perigo está na possibilidade de a Prússia decidir-se a entrar na guerra contra a França, o que poderia mais que duplicar aqueles efetivos.

O Imperador tem urgência em terminar a campanha antes que isto aconteça e, para tanto, encena uma pequena comédia: propositadamente, deixa vulnerável o flanco direito de seu exército e envia emissários propondo a paz ao imperador russo e ao austríaco. 

A pedido de Napoleão, o Czar envia um plenipotenciário impondo condições humilhantes à França; Napoleão finge estudar tal proposta, hesita, suspira, e termina por repudiá-la fingindo-se desesperado, mas disposto a vender caro sua derrota.

O emissário russo cai como um pato e tranqüliza o estado-maior astro-russo, que adota o “plano Weyrother”: uma movimentação principal de encontro ao fragilizado flanco direito francês e ataques diversionários ao flanco esquerdo francês. 

Em 2 de dezembro de 1805, ou seja, no primeiro aniversário da coroação de Napoleão, a planície de Austerlitz (hoje Slavkov, na República Checa) será o palco da Batalha do Três Imperadores (da França, da Rússia e da Áustria – embora este último não estivesse realmente presente no local). É inverno e os lagos da região estão congelados.

O norte do campo de batalha é dominada pelos montes Santon (210 m de altura) e Zuran (260 m); neste, encontra-se Napoleão no começo da refrega. No centro da planície, ergue-se o outeiro de Pratzen, com cerca de 12 m de altura e encostas suaves. Napoleão ocupa e abandona este outeiro antes da batalha, como uma isca.

Ele imagina que seus inimigos, ao enviar o grosso de sua tropa para envolver-lhe o flanco direito, estarão enfraquecendo o próprio centro, onde pretende atacar. Para ajudar a defender seu débil flanco direito, ordena a Davout que venha em passo forçado de Viena (os soldados de Davout cobrirão 110 km em 48 horas e serão fundamentais para o desenlace da batalha).

A batalha começa às 8:00 h e, como previsto, as tropas russas atacam o flanco direito francês, mas sem sucesso: seus ataques são mal coordenados e os franceses ou mantém suas posições ou as recuperam, quando perdidas. Começam a chegar os primeiros homens de Davout. 

Por volta das 9:00 h, o Imperador ordena a Soult que tome o outeiro de Pratzen, comentando: "um sopro mais forte e esta guerra acaba".

Saint-Hilaire e Vandamme, comandantes de Soult, encarregam-se do ataque. Saint-Hilaire avança sobre o outeiro, coberto por uma espessa névoa que é dissipada de repente por um sol incomumente brilhante (o lendário “Sol de Austerlitz”). Os russos que ocupavam Pratzen são surpreendidos pelo avanço francês e recuam depois de uma hora de luta feroz. Um pouco ao norte, Vandamme prossegue na investida.

Napoleão desloca-se de Zuran para Pratzen e manda reforçar o ataque de Vandamme. Os russos ainda reagem, mas são afastados pela cavalaria pesada de Napoleão. 

Napoleão Bonaparte
Batalha de Austerlitz

Por volta das 14:00 h, o exército austro-russo encontra-se dividido em dois, como pretendia Napoleão. Daí em diante, ao norte, apesar da bravura dos russos, uma bem-coordenada série de ataques franceses conseguiu impor a superioridade napoleônica. 

O foco de Napoleão desloca-se para o sul: a divisão de St. Hilaire e parte do III Corpo de Davout levam o pânico às tropas inimigas que lá se encontram. Os soldados russos tentam fugir atravessando o lago de Satschan, que é alvejado pela artilharia de Napoleão. O gelo se parte e um número incerto de russos (algo entre 200 e 2.000 homens) morre afogado.

Embora as estatísticas sejam pouco precisas, estima-se que tenha havido, entre os franceses, 1.288 mortos e 6.993 feridos, com perda de uma única bandeira; do lado oposto, 16.000 mortos, 11.000 prisioneiros, com perda de 185 canhões e 45 bandeiras. Para alguns, esta batalha é comparável à de Cannae, em que Aníbal venceu os romanos. Finda a batalha, chega um enviado do Rei da Prússia, levando a declaração de guerra à França. Diante da vitória do Imperador, deixa a declaração no bolso e felicita-o efusivamente.

Em 26 de dezembro de 1805 Áustria e França assinam o tratado de Pressburg, pelo qual a Áustria reconhece o território francês definido pelos tratados do Campo Formio (1797) e Lunéville (1801); cede também territórios a Bavária, Wurttemberg e Baden, que eram aliados alemães de Napoleão, e concorda em pagar 40 milhão de francos como indenização de guerra. Veneza é entregue ao reino da Itália. 

Em 12 de julho de 1806, 16 Estados alemães deixam o Sacro Império Romano-Germânico e assinam o Rheinbundakte - o Tratado da Confederação do Reno, cujo protetor é Napoleão. Em 6 de agosto, cedendo a um ultimato de Napoleão, Francisco II declara extinto o Sacro Império, embora mantenha o título de Imperador. Nos anos seguintes, 23 outros Estados alemães irão se juntar á Confederação, permancendo fora apenas a Áustria, a Prússia, o Holstein dinamarquês e a Pomerânia sueca (a região da Alsácia-Lorena já era parte da França). 

Em 1806, a Prússia provoca novo conflito, sendo derrotada numa campanha de impressionante rapidez que culmina na Batalha de Jena, em 14 de Outubro de 1806, espelhada na brilhante vitória de Davout em Auerstaedt.

O Bloqueio Continental e Tilsit

Após a vitória de Austerlitz, Napoleão assina aquilo que foi chamado de o mais perigoso de seus decretos: aquele datado de Berlim (seguido de outro congêre, datado de Milão) que, em 21 de novembro de 1806, impôs o chamado Bloqueio Continental, segundo o qual nenhum país poderia mais comerciar com o Reino Unido.

O desastre de Trafalgar mostra a Napoleão que a Inglaterra tornou-se militarmente invulnerável: do outro lado do Mar da Mancha, protegida por sua frota, ela é inatingível pela França, completamente privada de navios. Em carta envida a seu irmão Luís, rei da Holanda, Napoleão manifesta a intenção de reconquistar as colônias francesas por terra e vencer o mar também por terra. A Inglaterra mostra-lhe o caminho, bloqueando todos os portos entre Brest e Hamburgo.

Em resposta, o Imperador retoma uma idéia já empregada anteriormente (sem sucesso) pela França: a vedação total ao comércio com o Reino Unido.

As diferenças entre a experiência napoleônica e as anteriores estão na absurda extensão da medida (toda a Europa dela deveria participar) e em sua natureza: não se tratava apenas de impedir que uma ou outra cidade fosse abastecida por mar, porém de levar à bancarrota a economia mais poderosa do Velho Mundo, impedindo-a tanto de importar do Continente produtos essenciais, como o trigo, quanto de exportar para lá seus produtos, principalmente as fibras têxteis (algodão e lã), que representavam mais de 50% do total das exportações inglesas. 

O plano tem uma falha fundamental e óbvia: nem a Europa pode dispensar as mercadorias fornecidas pelos ingleses (principalmente as de origem colonial, como açúcar de cana), nem a Inglaterra depende apenas da Europa para sobreviver. Um problema suplementar encontra-se no fato de que a França, depois do conturbado período da revolução, não tem um parque industrial capaz de suprir adequadamente a demanda do continente europeu. Como resultado, o contrabando fervilha, a ponto de acabar por ser tolerado e mesmo regulamentado (em 12 de janeiro de 1812, será promulgada uma lei autorizando a importação de mercadorias proibidas, sujeitas à tributação de 40% de seu valor). As receitas tributárias aduaneiras despencam, o sistema permite que matérias-primas oriundas de colônias inglesas entrem na França sob a bandeira de países neutros, o custo de produção para a indústria francesa vai à alturas e ela se mostra incapaz de repassá-lo integralmente aos preços. 

O Bloqueio terá repercussões, mas nenhuma delas coincidirá com as expectativas do Imperador: é verdade que a economia francesa é beneficiada com o mercado cativo que se abre para ela. Consegue desenvolver tecnologias inovadoras tais como a da obtenção do açúcar da beterraba (em substituição ao açúcar de cana oriundo dos trópicos) e a fiação mecanizada do linho. Por outro lado, o Bloqueio arruína suas cidades portuárias, como Nantes, Bordéus e Marselha. Os demais países experimentam os efeitos da invasão dos produtos franceses (mais caros) e da taxação proibitiva na exportação de seus próprios produtos para a França; seus portos também sofrem enormemente (a própria Holanda, governada pelo rei Luís, irmão de Napoleão, será tão relapsa em aplicar as normas do Bloqueio que o Imperador terminará por anexá-la à França, em 9 de julho de 1810). No curso do Bloqueio, os Estados Unidos da América, indiretamente envolvidos no conflito, incrementam sua própria industrialização, assim como os estados alemães (principalmente a Prússia).

Quanto ao inimigo visado por Napoleão, as conseqüências são pífias: efetivamente, privado do mercado composto pelas economias do Império, o “povo de lojistas”, como lhes chamava Napoleão, vê suas exportações para o Continente baixarem de 55% para 25% do total, entre 1802 e 1806. Porém, se, no começo, há algum desemprego nas fiações de algodão, privadas de sua matéria-prima, não ocorre nenhuma convulsão social séria. Em 1807, uma boa colheita de trigo poupa a Inglaterra de recorrer à importação deste cereal e intensificam-se as vendas inglesas para a Rússia, Portugal e Escandinávia. O Bloqueio é um fiasco.

O Tratado de Tilsit

Se o objetivo do Bloqueio não era o simples protecionismo (que já teria sido um feito considerável), mas o estrangulamento de uma economia, nenhum país da Europa, dentro ou fora do Império, poderia comercializar com a Inglaterra. Assim Napoleão assina em Tilsit (pequena cidade da Prússia oriental, hoje Sovietsk, na Rússia), durante uma encenação que se pretendia espetacular, solene e impressionante, um tratado com o tzar Alexandre I, dividindo a Europa entre as duas potências (mais tarde, Napoleão afirmará que aquele tinha sido o dia mais feliz de sua vida).

Na verdade, há dois tratados: o primeiro, secreto, datado de 7 de julho de 1807, autoriza o tzar, em troca do apoio contra a Inglaterra durante cinco anos, a tomar a Finlândia à Suécia e para desmembrar o Império Otomano (uma cláusula prevê a partilha dos territórios otomanos entre Rússia e França). O segundo, público, assinado dois dias depois, cria o Reino da Vestfália e o Ducado de Varsóvia, com territórios tomados por Napoleão à Prússia. Dantzig (hoje Gdansk, na Polônia) torna-se uma cidade livre. Além disso, a Prússia deve aderir ao Bloquieo Continental e ter seu exército reduzido a 42.000 homens. A assinatura do Tratado pôs fim à quarta coligação contra a França.

A aventura Peninsular: Portugal e Espanha 

O Bloqueio Continental apresentava um flanco exposto em Portugal. Com uma economia subdesenvolvida, no sentido estrito do termo, Portugal é dependente da Inglaterra, dependência esta declarada na prática pelo Tratado de Methuen, assinado em 27 de dezembro de 1703. Segundo ele, a Inglaterra se comprometia a adquirir os vinhos de Portugal (com taxas alfandegárias reduzidas), enquanto os portugueses se comprometiam a adquirir os tecidos ingleses. Isto gerava, além de outras seqüelas, um crônico déficit comercial que devia ser coberto com crescentes remessas do ouro de Minas Gerais para Londres. Diante da pressão do Imperador, Portugal tenta manter-se neutro, mas esta neutralidade é vista como um mero ardil para conservar intactos seus laços com a Inglaterra. 

Diante da relutância portuguesa em aderir ao Bloqueio, Napoleão solicita à Espanha permissão para que suas tropas transitem por seu território para chegar a Lisboa, o que lhe é negado.

Os acontecimentos se precipitaram: Napoleão ocupa a Espanha, destronando Carlos IV de Bourbon e substituindo-o por seu irmão José; Junot invade Portugal, mas o aparato governamental português fuge a tempo para sua maior colônia, o Brasil. O Reino de Nápoles (até então também uma possessão do ramo siciliano dos Bourbon) é entregue ao Marechal Joaquim Murat, casado com Elisa, irmã de Napoleão.

O resultado é desastroso, muito além do imaginado pelo Imperador. Uma força expedicionária britânica é deslocada para Portugal e, integrada a tropas portuguesas, começa a fustigar os exércitos de ocupação franceses, que, embora empreendam três campanhas (em 1808 de 1810 e 1811), vão sendo lentamente empurrados de volta.

Uma parte da população espanhola também se rebela e, ainda que selvagemente reprimida, cria um problema insolúvel para Napoleão: ele se vê obrigado a imobilizar 300.00 homens na Espanha, que enfrentam, por um lado, uma guerrilha que não podiam vencer e, de outro, as tropas regulares portuguesas e inglesas comandadas por Arthur Wellesley, futuro duque de Wellington. 

A Guerra Peninsular terá como conseqüência o afrouxamento dos liames coloniais e a facilitação dos movimentos de independência ibero-americanos (na Venezuela, com Bolívar; no Chile, com O’Higgins; na Argentina, com San Martin). No Brasil, já elevado à categoria de reino unido, a independência será bem mais simples, não passando de uma clonagem da monarquia lusitana, com todas as mazelas da Metrópole agravadas e aclimatadas aos trópicos.

O ápice do Império 

Aproveitando-se do fato de que as melhores tropas do exército francês patinhavam no atoleiro espanhol, a Áustria ataca de novo.

Na confusa batalha de Aspern-Essling, em 21 e 22 de maio de 1809, Napoleão, pela primeira vez na vida, deixa o campo de batalha sem uma vitória conclusiva: houve mais de 21.000 baixas entre os franceses e morre o Marechal Lannes, um de seus melhores comandantes, cuja perna foi arrancada por uma bala de canhão. Em 5 e 6 de julho de 1809, ou seja, seis semanas depois, Napoleão, no mesmo local, derrota os austríacos na batalha de Wagram.

Usando de um ardil e de ataques violentos e bem coordenados de seus marechais, especialmente Macdonald, Napoleão triunfa sobre o Arquiduque Carlos, comandante austríaco.

O confronto é uma carnificina: 80.000 mortos e feridos, somados ambos os lados. Napoleão estava deixando de ser o comandante sutil de antes para tornar-se, cada vez mais, adepto de soluções simplistas, baseadas na superioridade numérica e no uso intensivo da artilharia. Ainda assim, a Áustria dobra os joelhos e pede a paz, quatro dias mais tarde, assinando o Tratado de Schönbrunn, no palácio de mesmo nome, em 14 de outubro de 1809.

Napoleão está cansado de ter a Áustria como um perigo em seu flanco e está resolvido a impedi-la de voltar a ser uma grande potência: o tratado é leonino e obriga a Áustria, entre outras cláusulas, a ingressar no Bloqueio Continental e a entregar a Napoleão territórios nos Bálcãs e em Trieste (eles são juntados à França com o nome de Províncias Ilíricas); cede também áreas para a Bavária e para o Ducado de Varsóvia.

O casamento de Napoleão e Josefina não havia dado um herdeiro ao trono. As irmãs do Imperador detestam a cunhada e não perdem oportunidade de apresentar mocinhas dóceis a seu poderoso irmão; um dia, uma destas amantes eventuais engravida e Napoleão, seguro de não ser estéril, divorcia-se e busca uma noiva à sua altura dentro de uma das casas reais européias. Depois de hesitar entre uma princesa russa e uma austríaca, decide-se pela Áustria e obtém a mão de Maria Luísa, filha de Francisco I, vinculando sua casa à mais tradicional dinastia européia, os Habsburgos.

Em 11 de março de 1810, o enlace é feito por procuração, sendo o Imperador representado pelo Arquiduque Carlos, tantas vezes derrotado pelo Imperador (o fruto desta união será uma criança enfermiça, nascida em 20 de março de 1811 e batizada Napoleão Francisco José Carlos Bonaparte [Napoléon François Joseph Charles Bonaparte], que receberá o título de Rei de Roma e, mais tarde, o de Duque de Reichstadt.

Será também chamado de l’Aiglon [o Filhote da Águia], nome de uma peça teatral escrita por Edmond Rostand, que terá sua vida por tema. Depois que seu pai abdicar do trono, o menino converter-se-á em apenas uma lembrança incômoda e viverá solitário no castelo de Schoebrunn, perto de Viena, longe de sua mãe, que se casará de novo e será governante de Parma. A tuberculose extinguirá sua vida, tão apagada quanto a de seu pai foi brilhante, quando ele contar 22 anos de idade).

À época do casamento, o Império alcança seu ápice, com a incorporação de territórios do norte de Alemanha, bem como do reino de Holanda, depois da abdicação forçada de Luís.

O desastre da Rússia 

O Bloqueio Continental continua a mostrar suas fragilidades. Havendo aderido ao Bloqueio por força do Tratado de Tilsit, a economia russa perdera seu principal mercado – a Inglaterra. Alexandre reabre parcialmente suas fronteiras, favorece o comércio com os países neutros e, ademais, tributa enormemente as mercadorias francesas (seda, vinho, bens de luxo). Isto podia não ser uma simples provocação, pois os impostos aduaneiros eram uma importante fonte de renda para os governos da época, mas era inaceitável – afinal, a França era aliada da Rússia. Em represália, Napoleão anexa as cidades de Bremen, Hamburgo e Oldemburgo, pertencentes ao cunhado de Alexandre, o que agrava a situação. 

Napoleão não deseja a guerra, mas sente que ela é inevitável, a partir do momento em que Alexandre rompe o Bloqueio.

Em 27 de abril de 1812, ele escreve ao Tzar: "Eu compreendi que a sorte foi lançada e que essa Providência invisível, cujos direitos e cujo império eu reconheço, decidiu esta questão, assim como tantas outras."

Concebe um plano simples: avançar rapidamente em território russo, obrigar Alexandre a combater, fazê-lo recuar até Moscou, separar a Polônia da Rússia, restaurar sua autoridade e, assim, completar o sistema continental. Mas ele está desanimado, apreensivo. Planeja cuidadosamente a expedição, pois sabe que desta vez não será possível, como sempre fizera, sustentar seu exército com os recursos locais; não está seguro de si quanto sempre foi. 

O czar monta uma rede de espionagem e descobre a posição das tropas francesas na Alemanha e o quadro de seus movimentos; seus auxiliares concebem a estratégia de desgastar o inimigo evitando grandes confrontos, fatigando-o com manobras. Alexandre I, desde maio, vem reunindo um enorme exército, que deveria chegar a 900.000 homens, incluindo cossacos e milícias populares. Este exército está sendo agrupado bem no interior (Moldávia, Criméia, Cáucaso, Finlândia e outras), longe do local de entrada do exército francês.

Por isso, em junho de 1812, os russos só conseguem colocar cerca de 280.000 homens e 934 canhões na fronteira ocidental, distribuídos em três exércitos: ao norte, o 1° Exército, com 160.000 homens, comandado pelo general e ministro da guerra Mikhail Bogdanovich Barclay de Tolly. Ao centro, o 2° Exército, de Pyotr Bagration, general e príncipe da Geórgia, tinha 62.000 homens. Ao sul, o 3° Exército, do general Pyotr Alexander Tormasov, contava 58.000 homens. A campanha começa na madrugada do dia 24 de junho de 1812, quando o grande exército napoleônico cruza o Niemen.

O Grande Exército napoleônico soma 600.000 homens no começo da invasão. Era uma força multinacional, que incluía 300.000 Franceses, belgas e holandeses, 95.000 poloneses, 35.000 austríacos, 25.000 italianos, 24.000 bávaros, 20.000 saxões, 20.000 prussianos de 17.000 da Westphalia, 15.000 suíços e 3.500 croatas.

Sem condições de contra-atacar, os russos se retiram para o interior do país. Em 8 de julho, Alexandre I conclama o povo a combater os franceses; a Igreja Ortodoxa o apóia. Cossacos, camponeses e até ciganos se alistaram aos milhares na milícis populares. Mesmo assim, em 23 de julho, o marechal Davout bloqueia a passagem do general Bagration em Mogilev (na atual Bielorússia) e impede sua reunião com Barclay e, por extensão, a reação russa. 

O avanço começa em meio a um terrível calor, sucedido por uma chuva torrencial, fazendo as estradas intransitáveis. Os cavalos começam a morrer; o cheiro de suas carcaças é sufocante. Napoleão não se incomoda e continua a entrar em sua armadilha. Quando chega a Vitebsk, o exército já perdeu um sexto de seu efetivo, sem nenhum combate. Napoleão não permite que as tropas se reorganizem e desdenha os avisos dos serviços de saúde e de logística. 

Napoleão entra em Smolensk quase sem resistência, mas a cidade está em chamas. Sente-se animado com isto, entendendo que a Rússia não terá forças defender suas cidades, e determina que se prossiga no avanço. Seus colaboradores lembram que o verão termina em setembro, mas em vão.

Chegam a Viazma, também incendiada e Napoleão faz troça: "Essa gente põe fogo em suas próprias casas só para nos impedir de nelas passar uma noite". 

Em 7 de setembro de 1812, em Borodino, à beira de um pequeno afluente do rio Moscova, Napoleão finalmente encontra o exército inimigo entrincheirado numa posição formidável, bloqueando a estrada de Moscou. As forças russas, comandadas por Mikhail M. Kutuzov, eram quase tão numerosas quanto as francesas, e, no dia, houve o confronto. Napoleão está um pouco adoentado e limita-se a ordenar um ataque frontal, sem qualquer sutileza.

Napoleão perde 58.000 homens, incluindo 48 marechais; os russos, quase a metade de seu exército: 66.000 baixas, inclusive o general Bagration. Às 5 horas da tarde, o inimigo se retira em boa ordem; as perdas francesas são tão grandes que Napoleão desiste de persegui-lo. Uma vitória de Pirro.

Moscou está deserta em 14 de setembro, quando Napoleão nela entra. Nenhuma delegação do tzar, ninguém, nada. Na noite seguinte, começa um incêndio, ordenado pelo governador da cidade, que manda retirar as bombas de água antes de evacuá-la. O vento atiça as chamas e, depois de quatro dias, só restam escombros e cinzas.

Napoleão recusa-se a aceitar a verdade e permanece quatro semanas acampado entre os destroços de sua conquista.

Continua trabalhando normalmente: o decreto que (re)cria a Comédie Française é datado de lá.

Imagina conseguir alimentar e reorganizar seu exército enquanto aguarda que o czar negocie, mas este recusa-se a receber os enviados do Imperador e avisa: "A minha campanha ainda vai começar".

A maioria de seus marechais deseja o retorno. Sinistras notícias de invasões chegam da Espanha. E, como se isso não bastasse, os destacamentos cossacos começam a ameaçar a retaguarda do exército. Em 18 de outubro, depois de ordenar a explosão do Kremlin, Napoleão se conforma em bater em retirada.

Restam-lhe ainda 100.000 homens e 500 canhões, acompanhados de carroças repletas de saque – peles, prata, porcelana e seda. 

Em 4 de novembro, cai uma nevasca; no dia 9, a temperatura chega aos 26° C negativos e continua baixando. Os soldados mal conseguem andar, quanto mais resistir aos constantes ataques dos cossacos, liderados pelo chefe Matvey Ivanovich Platov. Quando essa turba finalmente alcança os suprimentos guardados em Smolensk, saqueia os armazéns e destrói boa parte dos alimentos, que poderiam ter durado o inverno inteiro. 

Em 16 de novembro, sob um frio de -32° C, os franceses chegam ao rio Berezina (na atual Bielorússia) e descobrem que caíram em uma armadilha. À margem do rio, aguardam-nos os 20.000 homens que constituem a retaguarda francesa; a cavalaria e artilharia estão intactas, a tropa descansada. Com horror, eles vêem aproximarem-se os andrajosos sobreviventes do Grande Exército, doentes, famintos e desacorçoados. Nas duas margens do Berezina, 120.000 russos aguardam, enquanto Napoleão conta com apenas 30 mil combatentes realmente aptos. Perto da aldeia de Borissov, existe uma ponte semidestruída, sobre a qual as baterias do almirante Tchitchakov mantêm fogo pesado.

Um oficial descobre que, a cinco léguas dali, Borissov, na aldeia de Studianka, pode ser erguida uma ponte sobre cavaletes. Napoleão garante a margem direita, com 400 homens. Na manhã do dia 26, a ponte fica pronta e os soldados começaram a atravessar. A maioria recusa-se a fazê-lo, animada por encontrar na aldeia pão e madeira para fogo. Em 27 de novembro, os retardatários apressam-se, a passagem é caótica.

Em outros pontos, unidades tratavam de conter as dos russos, sem nenhuma ajuda. No dia 28, outras levas passam. Em 29 de novembro, os que restam fazem o caminho em pânico, sob a temperatura que caíra a –30° C. 

No dia 14 de dezembro de 1812, 10.000 homens cruzam o rio Niemen de volta. Deixaram para trás 550.000 mortos. No lado russo, morreram 250.000 soldados efetivos e 50.000 irregulares, entre milícias cossacas e populares. Era o fim de um sonho.

A Campanha da França 

Quando se encontra na na Polônia, Napoleão recebe uma notícia estarrecedora: em Paris, o general Malet havia tentado depor o governo, anunciando a morte do imperador. A impostura foi descoberta, os culpados castigados; mas o golpista exibe arrogância no tribunal em que é julgado. "O senhor tem cúmplices?", pergunta-lhe o juiz. "Tenho. A França e o senhor, caso eu tivesse sido bem-sucedido". Essa tentativa frustrada impressiona o imperador, que abandona suas tropas para voltar a Paris.

Desde 1811, a economia francesa encontra-se debilitada; a situação política é caótica.

A volta de Napoleão é aclamada por seus partidários: espera-se que a ordem seja retomada, mas o mal já está feito. 

Forma-se a Sexta Coalizão, que comprende o Reino Unido, a Rússia, a Espanha, Portugal, Prússia, Áustria, Suécia e alguns pequenos estados alemães. 

Napoleão ainda obtém duas vitórias apertadas, Lützen (2 de maio) e Bautzen (20 de maio), mas em nenhuma delas pôde ser chamada de definitiva, embora levem ao breve armistício de Pleiswitz: pressionado, Napoleão assina, em 4 de junho de 1813, um cessar-fogo até 20 de julho e que foi prolongado até meados de agosto. 

Imediatamente depois da conclusão deste armistício, Metternich, o astuto ministro das relações exteriores da Áustria, convida Napoleão a aceitar a mediação da Áustria para uma paz geral. Metternich não deseja que Napoleão perca seu trono, pois imagina que a Rússia e a França sejam necessárias para o equilíbrio de forças da Europa. Assim, propõe que Napoleão permaneça com a Itália e a Holanda, a Alsácia-Lorena e a Confederação do Reno; em troca, a França devolveria as Províncias Ilíricas, bem como os territórios do Norte da Alemanha, permitindo também a reocupação da Polônia ocidental pela Prússia. O Imperador, porém, não está disposto a fazer concessão de espécie alguma; ele manda Caulaincourt estudar a proposta, mas pretende aproveitar o prazo do armistício apenas para reconstituir sua cavalaria, enquanto seus adversários fazem o mesmo para atrair a Áustria para seu lado.

Em 26 e 27 de agosto, Napoleão arrebata a vitória de Dresden. Em outubro de 1813, organiza seu exército em Leipzig, enquanto os prussianos se aproximam vindos de Wartenburg, os austríacos e russos de Dresden e as forças suecas avançam pelo norte. No total, os franceses somam 190.000 soldados, enquanto os aliados dispõem de quase 330.000 homens, com abundante artilharia de ambos os lados.

A batalha dura de 16 a 18 de outubro, até que Napoleão, vendo-se derrotado, ordena a retirada de seus soldados.

O número de baixas é incerto: algo entre 80.000 e 100.000, de parte a parte.

En 1814, forma-se nova aliança entre a Inglaterra, a Rússia, a Prússia e a Áustria. Este, embora só disponha de um corpo de recrutas bisonhos (os “Maria-Luísa”), ainda obtém inacreditáveis vitórias nas batalhas como Brienne, Champaubert e Montmirail. Mas a Campanha da França deveria ser o canto do cisne do estrategista genial. Paris é ocupada em 31 de março de 1814, graças a uma traição de Marmont, e, pressionado por seus marechais, Napoleão abdica em 6 de abril em favor de seu filho.

Os inimigos exigem mais: querem a rendição incondicional e ele abdica novamente em 11 de abril. Supondo (acertadamente) que seus inimigos pretendem separá-lo da Imperatriz e de seu filho, tenta o suicídio na noite de 12 de abril, ingerindo ópio; a droga, porém, provoca-lhe náuseas tão terríveis que o Imperador termina por vomitá-la e se salva. 

Os Cem Dias 

O Tratado de Fontainebleau (11 de abril de 1814) exila Napoleão na Ilha de Elba, onde ele conservará o título de Imperador. É-lhe prometida uma pensão de 2.000 francos, a permissão de levar consigo uma escolta de 400 militares; suas propriedades retornarão à coroa. Napoleão dispõe ainda de três milhões de francos e da ajuda eventual de seus familiares. 

Em 4 de maio, o Imperador desembarca em Elba e é recebido com entusiasmo pelos habitantes. Porém, a pensão não é paga e ele experimenta dificuldades em se manter e a sua pequena corte. A ilha tem reservas de minério de ferro, que geram resultados muito modestos, obrigando o Imperador a se apropriar da renda das minas, pertencente à Legião de Honra. Sua saúde não é boa; ele sofre de freqüentes acessos de vômito. 

Com Luís XVIII, a dinastia dos Bourbon é restabelecida em França, mas torna-se imediatamente impopular. O Imperador é informado disso e de que o exército é-lhe majoritariamente favorável. Tem notícia de complôs para raptá-lo ou assassiná-lo e, temendo esta situação, aumenta a quantidade de seus soldados, aos quais não pode pagar. Chegam rumores de que será transferido a uma ilha muito mais distante que a de Elba; diante disto, ninguém pode desembarcar sem ser interrogado e sem permissão escrita de Cambronne, comandante da Guarda.

Napoleão recusa um plano de ir à Itália para unir-se a Murat e tentar recuperar o título de Rei da Itália. Em segredo, manda preparar uma flotilha e em 26 de fevereiro de 1815, embarca de volta à França. 

O Imperador desembarca em Golfe-Juan em 1° de março de 1815, dando início ao fugaz restabelecimento do Primeiro Império, conhecido como os Cem Dias – um período unanimente reconhecido como um dos mais fascinantes da lenda napoleônica.

No dia anterior, Napoleão ditara sua proclamação, endereçada ao povo francês e ao exército, em que o Imperador faz sua famosa exortação: “[...] a águia, com as cores nacionais, voará de campanário em campanário até as torres de Nôtre-Dame”.

Napoleão evita passar pela realista Provença e procura atingir Grenoble.

Em 7 de março, a 30 km ao sul desta cidade, no vilarejo de Laffrey, defronta-se com o regimento encarregado de detê-lo; depois de mandar hastear a bandeira tricolor e entoar a Marselhesa, encaminha-se para os soldados e grita: “Soldados do 5°, sou vosso Imperador. Reconhecei-me”.

A seguir, entreabre sua famosa sobrecasaca e completa: “Se houver dentre vós um soldado que queira matar seu imperador, aqui estou”.

Encantada, a tropa o aclama e coloca-se sob suas ordens.

Napoleão entra sem dificuldades em Grenoble e principia o Vôo da Águia, seu retorno a Paris, que pode ser melhor acompanhado nas manchetes do Monitor Universal:

0 de março: O Ogro Corso desembarcou em Golfe-Juan
11 de março: O Tigre chegou a Gap
12 de março: O Monstro dormiu em Grenoble
13 de março: O Tirano cruzou Lyon
18 de março: O Usurpador foi visto a sessenta léguas de Paris
19 de março: Bonaparte galopa, mas nunca entrará em Paris
20 de março: Napoleão estará amanhã diante de nossas muralhas
21 de março: O Imperador chegou a Fontainebleau
22 de março: Sua Majestade Imperial e Real entrou ontem em seu castelo das Tulherias de permeio a seus leais súditos.

A energia de Napoleão, porém, esgota-se com esta jornada épica. Em Paris, ele se vê às voltas com a necessidade de organizar um Estado e de se reinventar. Sabe que nem ele nem a França são os mesmos; ele foi humilhado, traído e apupado pela massa; entende que não pode mais governar apenas pela força, é preciso reinar pelo consentimento popular e, principalmente, reconciliar os franceses, pertençam à burguesia ou ao “populacho”. 

Com isto, Napoleão abdica de seu próprio carisma: ele se transforma, reúne-se com Benjamin Constant, seu antigo oponente, para discutir uma constituição moldada no liberalismo, contrariando os republicanos, que esperam que o Imperador retome a Revolução, afaste-se da burguesia, persiga os nobres e levante a nação para que ela retome sua energia e esmague os inimigos. Benjamin Constant, porém, deseja mudar a soberania absoluta (do governante ou do povo) em soberania relativa do povo, limitada pelo respeito alheio.

Em 23 de abril de 1815, é promulgado o “Ato Adicional às Constituições do Império”, que outorga aos franceses mais liberdade do que eles experimentaram em quinze anos: o poder legislativo é exercido pelo Imperador e pelo Parlamento, composto de duas assembléias, a Câmara dos Pares, composta de membros hereditários nomeados pelo Imperador, e a Câmara dos Representantes, eleitos por cinco anos em sufrágio censitário (restrito a quem pudesse comprovar uma determinada renda). Os ministros tornam-se penalmente responsáveis. Garantem-se os direitos e liberdades individuais, suprime-se a censura; Napoleão, por fim, abole a escravatura (esta abolição será reconhecida pelo Tratado de Paris, de 20 de novembro de 1815, mas permanecerá como letra morta).

Esta solução de compromisso não agrada a ninguém. Os jacobinos não aceitam uma câmara de Pares hereditários, por verem nela resquícios da aristocracia; os bonapartistas não encontram seu lugar num regime parlamentar; os liberais não acreditam na sinceridade do Imperador e preferem os Bourbons. O Ato é referendado por um plebiscito, mas dois terços dos eleitores deixam de votar. Nas eleições para a nova assembléia, outra abstenção, agora da metade dos eleitores. 

Napoleão não tem mais os auxiliares de antes: para atender aos jacobinos, nomeia Carnot ministro do Interior e Fouché ministro da Polícia, mas o primero está velho e esgotado e o segundo continua a ser um completo canalha. Davout, ministro da Guerra, é incapaz de montar um Estado-maior à altura das necessidades do momento.

Waterloo e Santa Helena 

No Congresso de Viena, manejando as divisões entre os inimigos de Napoleão, a diabólica habilidade de Talleyrand obtém enormes vantagens para a França, mas tudo pára com a volta do Imperador.

Os monarcas não admitem a legitimidade popular de que Napoleão ainda goza e decretam: "A vontade do povo francês, ainda que plenamente constatada, não seria menos nula e ineficaz” ("Le voeu du peuple Français, s'il était pleinement constaté n’en serait pas moins nul et sans effet"). 

Napoleão compreende que sua situação é desesperadora e tenta convencer as potências estrangeiras de suas intenções pacifistas, mas em vão. Napoleão deve mais uma vez enfrentar os inimigos que ameaçam invadir a França. Os ingleses e prussianos encontram-se na Bélgica, os austríacos e russos se aproximam.

Napoleão decide atacá-los o quanto antes, em separado e derrotá-los um de cada vez: a mesma tática inaugurada por um obscuro general na Itália, há quinze anos atrás.

Aguardam-no 68.000 homens (25.000 britânicos de 17.000 belgo-holandeses, 10.000 de Hanover, 7.000 de Brunswick, 6.000 hommes da King's German Legion e 3.000 nassovianos), comandados pelo Duque de Wellington: grandalhão, aristocrático, arrogante, sem muita imaginação, mas resoluto e frio, um mestre na defesa. Sua tropa, bem treinada, vem de um passado de vitórias sob seu comando. Wellington conta ainda com a chegada dos 72.000 prussianos liderados pelo Marechal Blücher von Wahlstatt, um velho de 73 anos cheio de ódio aos franceses e cujo maior desejo é capturar e fuzilar Napoleão. 

Napoleão reúne um exército e avança até a Bélgica. O marechal Ney comanda a ala esquerda do exército e recebe a missão de dominar Quatre-Bras. Ney perde tempo demais e permite o reforço das tropas inimigas.

Mesmo assim, a princípio, as coisas parecem correr como esperado: em 16 de junho, Ney bate Wellington em Quatre-Bras, mas a vitória não é definitiva. Por seu turno, Napoleão consegue deter os Prussianos em Ligny e chama o corpo de reserva de Ney para cortar a retirada de Blücher; Ney não compreende esta ordem e chama sua reserva de volta. Como resultado, este corpo vagueia de um lado para o outro, sem ajudar a ninguém. Blücher perde 12.000 homens, mas retira-se em boa ordem. No dia seguinte (e só então) o Imperador confia o comando da ala direita (com 34.000 homens) ao marechal Grouchy e lhe ordena que persiga os prussianos.

Grouchy, porém, não sabe como fazer isto e permite que Blücher escape.

Blücher havia prometido juntar-se a Wellington no monte Saint-Jean e o comandante britânico para lá se dirige. Ney não se dá conta disto senão quando é tarde demais e um temporal transformou os campos num enorme atoleiro. Wellington entrincheira sua tropa por sobre a colina e atrás dela.

No dia 18 de junho, Napoleão, com 50.000 homens, aproxima-se  de Wellington, mas não ataca: ele aguarda que o sol seque o terreno para poder posicionar sua artilharia. O ataque só começa às 11:30.

O Imperador não parece ter um plano definido: ele espera apenas quebrar a resistência do centro inimigo por meio de um ataque direto encosta acima. Manda chamar Grouchy, mas Soult, chefe do Estado-maior, não manda mensageiros suficientes à sua procura (que, no entanto, estava próximo o bastante para ouvir o fragor da batalha). Ele não é encontrado e, mesmo ouvindo os canhões da batalha, aferra-se à ordem de perseguir os prussianos, que conseguiram fugir sem dificuldades (o Imperador afirmará, mais tarde, que Grouchy havia descoberto o segredo de desaparecer  com seus 34.000 homens e 108 canhões, como se a terra o houvesse engolido). 

A barragem de artilharia não atinge os soldados de Wellington, protegidos por detrás da colina. Os ataques dos soldados franceses são rechaçados pelos britânicos.

Enquanto a infantaria se reagrupa, começam a aparecer os primeiros prussianos: é preciso vencer o centro de Wellington a qualquer custo. O Marechal Ney faz repetidas cargas de cavalaria, mas sem ajuda da infantaria e dirigidas ao lugar errado; elas são repelidas pelos ingleses.

Se, nestes ataques, Ney tivesse o apoio da Guarda Imperial, talvez tivesse sucesso: a Guarda era um corpo de elite que jamais fora vencido: em muitas ocasiões, sua mera presença em campo decidia uma batalha. Mas Napoleão teme engajar sua última reserva e aguarda. Ney fracassa, mas os ingleses estão no fim de sua resistência.

Neste momento, chegam os prussianos. Napoleão pode retirar-se ou ficar e lutar; ele decide lutar e manda o corpode infantaria da Guarda atacar Wellington, mas sem apoio da cavalaria de Ney, que foi inutilmente destroçada.Quando estão a quarenta passos das linhas inglesas, Wellington dá ordem de atirar e, em um minuto, caem quatrocentos franceses. A Guarda hesita e recua. O restante do exército entra em pânico. Wellington ordena que seus homens avancem. Pior ainda, os prussianos estão já completamente engajados na batalha; o Imperador não consegue realinhar seus homens e foge, pela primeira e última vewz em sua vida. 

De volta a Paris, a multidão reúne-se diante do palácio e pede-lhe que entregue armas ao povo e resista. Mas Napoleão já não tem forças para tanto e abdica pela segunda vez em 22 de junho de 1815 (desde a fuga de Luís XVIII e sua entrada em Fontainebleau, passaram-se 94 dias completos). 

O Imperador está atordoado. Sabe que Luís XVIII pretende fuzilá-lo, mas deixa escapar a oportunidade de fugir para a América. Esquecido de que os ingleses, de longa data, planejam exilá-lo, entrega-se ao comandante do navio Bellerophon.

Imagina que receberá asilo na Inglaterra, mas é simplesmente feito prisioneiro e fica sabendo que será despachado para Santa Helena, no Oceano Atlântico, a 1.900 km da África e 2.900 km do Brasil: um rochedo no no meio do nada. Napoleão protesta veementemente, mas termina por se resignar.

Leva consigo alguns poucos auxiliares: seu antigo ajudante de campo, o general Barão Gourgaud; Emmanuel de Las Cases, com seu filho, de mesmo nome; o general Conde de Montholon e o general Conde de Bertrand, ambos acompanhados de suas esposas, bem como alguns serviçais: Saint-Denis, chamado Ali, Noverraz, Pierron, Archambault e outros.

A ilha mede apenas 122 km². No lugar mais inóspito está Longwood, onde o Imperador deverá morar.

A princípio, Napoleão consegue um tratamento razoavelmente digno; ele se afeiçoa a uma jovem, Betsy Balcombe, de treze anos de idade: pode-se dizer que foi sua única oportunidade de ter uma vida quase normal. Com a chegada de um novo governador, Hudson Lowe, a coisa se transforma.

Hudson detestava pessoalmente Napoleão e segue à risca as instruções de carceragem: como um funcionário de um campo de concentração nazista, não faz mais que seguir ordens, mas não é necessário mais que isto (Napoleão deverá experimentar o mesmo inferno pelo qual ele próprio fizera passar Toussaint Louverture, anos antes). 

Napoleão compreende que só lhe resta burilar a própria lenda; dita a Las Cases e a outros companheiros suas memórias. Sua saúde declina. Napoleão está tuberculoso, deprimido e obeso (no futuro, será levantada a hipótese de que ele está sendo envenenado por Montholon, cuja esposa seria amante do Imperador; aparentemente, porém, nem o envenamento nem tal relação encontram-se suficientemente provados). 

Em 5 de maio de 1821, depois de uma torturante agonia, ele morre. Seu corpo é autopsiado e constata-se uma perfuração em seu estômago, que é atribuída ao câncer. Em 1840, ele é exumado e transportado para Paris, indo repousar nos Invalides. 

Fonte: seaworker.vilabol.uol.com.br

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