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Chitwan

O Nepal traz sempre associado um imaginário de montanhas brancas e geladas. Mas a maior parte da população vive no Terai, uma estreita planície ao longo da fronteira indiana, onde a selva asiática ainda existe em todo o seu esplendor. É lá o belíssimo Parque Nacional de Chitwan.

CHITWAN, O ÚLTIMO REDUTO DA SELVA ASIÁTICA

O Parque de Chitwan conserva o Terai, a planície que antecede os Himalaias, como este era antes, quando só os tharu, um povo cuja origem ainda não está bem explicada, conseguiam viver permanentemente nesta zona infestada por animais tão mortíferos como o tigre e... o mosquito. Aos tharu foram mesmo atribuídas certas capacidades mágicas, por resistirem à terrível malária desta área de rios, lagos e selva luxuriante. Com o auxílio da OMS, um programa de erradicação da malária teve tanto sucesso que a área é agora a mais densamente povoada e industrializada do que veio a ser o Reino do Nepal; sendo uma área de fácil acessibilidade por comparação com as montanhas do resto do país, de terras férteis, com abundância de água e um clima húmido e subtropical, o Terai transformou-se na despensa do país.

Entardecer no vale de Chitwan, Nepal
Entardecer no vale de Chitwan, Nepal

Certas zonas mais acessíveis, como o vale de Chitwan, foram reservas de caça das Índias Britânicas; em 1911, Eduardo VIII de Inglaterra e a sua comitiva mataram aqui quase cinquenta tigres e dezoito rinocerontes em pouco mais de uma animadíssima semana. Os tharu nunca arredaram pé, mas quando a natureza começou a pedir clemência e foi necessário criar várias zonas protegidas, como o Parque de Chitwan, esta população tradicionalmente caçadora e pescadora viu as suas actividades restringidas.

Hoje, Chitwan é dos últimos redutos de selva asiática: um dos últimos para o urso indiano e o tigre de Bengala, o último para o rinoceronte. O projecto de conservação, integrado no Património Mundial da Humanidade, inclui orfanatos para elefantes e centros de criação de crocodilos palustres, e o seu sucesso tem sido tão estrondoso que já foi necessário aumentar a área do Parque, criando mais espaço para que todos os animais possam viver sem “interagir” demasiado com as populações em redor.

RINOCERONTES E ELEFANTES, MAS NÃO TIGRES

Para nos aproximarmos dos rinocerontes, o melhor é contratar os serviços de uma agência e empoleirar-se no desconforto do dorso de um elefante; é que os bichos, apesar de gordos, são rápidos, e podemos correr o risco de ser “atropelados” por um quando menos esperamos. Mas o resto do Royal Chitwan National Park - ou melhor, uma pequena parte, uma vez que a sua área é de novecentos e trinta e dois quilómetros quadrados - deve ser visitado a pé. Só assim podemos dar de caras com variados familiares de corsos e antílopes, dezenas de símios de vários tamanhos e espécies, muitos crocodilos em meditação enterrados na lama, e autênticos palácios de terra construídos por formigas.

Elefantes, força de trabalho em Chitwan
Elefantes, força de trabalho em Chitwan

Com um pouco de azar, podemos também dar de caras com um rinoceronte, um javali enfurecido ou, pior ainda, um urso indiano, que até nem é grande mas é o animal mais agressivo do Parque, responsável pelas cicatrizes que vemos em algumas caras. Já o tigre, apesar de habitar aqui um número razoável de exemplares, é o rei da ilusão, verdadeiro mágico que se deixa ouvir, mas raramente ver.

O guia segue à nossa frente armado com um pau, e serve de intérprete sempre que nos cruzamos com alguém das aldeias próximas. Todos estão autorizados a entrar no Parque durante o dia, com a condição de saírem durante a noite. É proibida a caça, e o capim, que chega a ultrapassar os quatro metros de altura, só pode ser cortado no fim de Janeiro. Como os fundos do Parque também revertem a favor das comunidades locais, a aceitação destas regras parece ser maioritária - o que beneficia todo o planeta.

Mas, ao percorrer os trilhos desta floresta densa, não conseguimos pensar no benefício do planeta, apenas na extraordinária beleza da luz que trespassa as árvores, na delicadeza das aves brancas que se empoleiram em ramos secos, na banda sonora de trinados e restolhadas que nos rodeia. De vez em quando um veado pára numa clareira, tão surpreendido como nós, antes de seguir caminho com ar arrogante. Macacos insultam-se nas árvores, e gigantescas teias de aranha, ainda salpicadas de orvalho, lembram colares de rainhas egípcias. Atravessamos “pontes” de troncos caídos, acordamos crocodilos enterrados na lama e deixamos o mínimo de migalhas aos pássaros.

Flores de mostarda
Flores de mostarda

No fim de cada dia de caminho, saímos para dormir numa das aldeias próximas, aproveitando para comer uma refeição quente. Quase sempre temos pela frente um mar de flores de mostarda, de um amarelo fosforescente que só se apaga quando a noite fica muito escura. As casas, sempre baixinhas, são feitas de madeira e rebocadas com lama, que depois de seca é pintada com cores claras. Patelas de bosta de vaca e rosários de malaguetas secam nos telhados e cá fora há sempre alguma actividade: mulheres escolhem arroz, varrem o pátio, crianças chegam com lenha para cozinhar. Pavões esvoaçam a gritar, deixando cair penas magníficas, e ocasionalmente passa uma fila de elefantes, que aqui fazem as vezes dos cavalos. Mas é do outro lado do rio, na selva, que estão os maiores mistérios.

É no fundo da floresta que se entrelaçam as raízes voadoras de onde se despenham à nossa passagem alguns macacos suicidas. E é no fundo da floresta que se esconde o tigre, do qual só conhecemos o rugido nocturno e umas pegadas na areia do rio, maiores do que a minha mão. O sol cai como uma bola vermelha e volta a aparecer igualzinho de madrugada, embrulhado num nevoeiro húmido que faz as árvores pingarem como se tivesse chovido. É a essa hora que entramos no barco e voltamos à selva, à procura do tigre. Durante três dias repetimos o ritual e, no fim, já pouco nos importa se o tigre sempre esteve lá, a mirar-nos por trás de uma árvore, ou se nunca existiu.

Fonte: www.almadeviajante.com

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