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Dia da Reforma Agrária

Comentário

Confira-se a Parte II, especialmente o capítulo IX

Proposição 28

Impugnada

As condições de vida dos trabalhadores rurais são hoje em dia infra-humanas. O único meio de as aliviar é distribuir as terras entre eles, de sorte que o produto de seu trabalho fique todo para eles, em lugar de se desviar na maior parte para os patrões.

A “Reforma Agrária” é, pois, justa e necessária.

Afirmada

Em um país como o nosso, de terras e culturas tão diversas, e em que as condições concretas da existência do lavrador são tão variadas, os meios para melhorar com a necessária presteza estas últimas devem também ser diversos.

Em alguns lugares caberá a formação necessária.

– por processos moralmente lícitos, convém ressalvar – de pequenas propriedades. Em outros será aconselhável temperar o salariado com a parceria. Em outros ainda, será preferível aumentar simplesmente os salários.

A imposição da partilha das terras como solução geral é medida anorgânica, violenta e contraproducente. Ela acarretaráem muitos casos a transferência de bens para mãos que, sem direção superior, serão incapazes de cultivá-los e de lhes aproveitar os frutos.

O desfecho desta carência de direção será a economia totalmente planificada e dirigida pelo Estado, diante do qual o pequeno proprietário inerme ficará exatamente como na URSS um membro de kolkhoze.

Comentário

Confira-se a Proposição 22.

Ainda nas zonas em que sem a partilha não for possível aliviar a situação do homem do campo, ela não será “o único meio”, como pretende a pr oposição impugnada.

Com efeito, mesmo que partilhássemos as terr as, as condições de existência sub-humanas de certos trabalhadores braçais não variariam. Há no Brasil muitos pequenos proprietários que levam em sua gleba uma vida infra-humana, não tanto por pobreza quanto por doença, por indolência e inapetência.

Os problemas econômicos não são, via de regra, meramente econômicos. Eles só se resolvem inteiramente com o concurso de uma boa formação moral.

Ademais, se a capacidade de produção das terras é suficiente para manter os trabalhadores, não se vê por que uma melhora nas condições de salário e de parceria não bastaria para aliviá-los. Este seria, em todo caso, um remédio mais fácil, mais rápido, e sem os riscos patentes dessa imensa aventura que é a “Refor ma Agrária”.

E se a capacidade de produção das terras não é suficiente, para que dividi-las, quando temos nosso “hinterland”, e a estrada Belém-Brasília parece clamar por quem habite suas margens incultas?

Estariam, aliás, todos os nossos trabalhadores agrícolas aparelhados para receberem essas terras e aproveitarem-nas desde logo convenientemente? Não se trata apenas aqui de aptidão pessoal, mas de apetrechamento técnico etc.

A propósito do aproveitamento das terras ainda incultas, marginais da estrada Belém- Brasília e de outras vias de comunicação existentes ou a serem abertas, há um princípio básico, que importa notar. Dado que a condição natural do homem é ser proprietário, não basta que o poder público, sistematicamente, arrende as terras devolutas. O arrendamento é, de si, uma situação legítima mas instável: compreende-se que ele exista, não porém que se generalize a ponto de substituir a propriedade e, pois, a estabilidade que a natureza humana pede. Talvez fosse o caso de estudar, a propósito deste problema, uma judiciosa atualização da enfiteuse. Fazemos esta observação com vistas à experiência de arrendamento de terras que se vem realizando no novo Distrito Federal, e que será analisada na Parte II, Capítulo II.

Proposição 29

Impugnada

É possível que, na execução de tão vasta reforma, sofram acidentalmente os proprietários alguns abusos. Mas estes são menos de temer do que a permanência do grande abuso consistente em que uns passem fome e outros vivam na abundância, quando não em luxo insolente.

Afirmada

A divisão das terras não remediaria convenientemente a situação lamentável e sub-humana em que vivem muitos trabalhadores rurais215. Daria, além disto, lugar a um grande abuso contra os médios e grandes proprietários, privados de seus bens sem vantagem alguma para o País: antes com grave dano para este216.

De outro lado, ela at ribuiria esses bens a proprietários novos que, em muitos caos, se mostrariam incapazes de fazer um uso acertado deles217. Por fim, essa partilha deixaria intactas as terras devolutas; ou só as cederia a título de arrendamento, o que seria, nas condições atuais, outro abuso. Em suma, a “Reforma Agrária” é o abuso dos abusos.

Comentário

Evidentemente, toda grande reforma acarreta abusos acidentais inevitáveis. Quando ela é necessária e justa, o receio desses abusos só pode deter os egoístas e os pusilânimes. Não é, porém, neste terreno que se situa a questão. A “Reforma Agrária” é em si mesma um abuso muito maior do que o que ela visa remediar.

Proposição 30

Impugnada

Afirma-se que a “Reforma Agrária” levará à socialização total. Cumpre não exagerar. A aplicação dos princípios socialistas à agricultura não importa em que eles sejam estendidos à indústria, ao comércio ou aos imóveis urbanos.

Um país pode, perfeitamente, estar coletivizado no campo e ter a iniciativa privada florescente nas cidades.

Afirmada

Se hoje se admite que ao poder público compete decretar arbitrariamente a abolição da propriedade rural média e grande, é lógico que amanhã ele se sinta no direito de abolir todas as outras formas de propriedade, no campo como nas cidades, quer seja imobiliária, industrial ou comercial. Uma coisa convida, aliás, à outra, pois o regime exclusivo de pequenas propriedades sujeita virtualmente todas ao Estado218. Munido ele desse poderio político e econômico imenso, ficarão automaticamente à sua mercê os patrimônios urbanos industriais, comerciais e imobiliários.

Comentário

O assunto desta proposição não é tratado na Parte II. Inserimo-la aqui pela afinidade que tem com as anteriores. Uma observação a respeito dela basta. Talvez haja comerciantes e industriais desavisados que pleiteiem a “Reforma Agrária”, sem perceber que abrem mão do princípio da propriedade privada, base de sua prosperidade. Se não o amor à justiça, pelo menos o instinto de defesa de seus próprios interesses deveria levá-los a maior circunspecção.

Capítulo IV

Deve a opinião católica pronunciar-se sobre a “Reforma Agrária”

O pronunciamento de um ou mais Bispos nunca envolve a Igreja toda, nem sequer todo o Episcopado de um país. Cada Bispo fala por si. E depende só e diretamente do Papa, Vigário de Jesus Cristo. Assim, embora dois dos autores deste trabalho estejam revestidos do caráter episcopal, ele não envolve outra responsabilidade que não a dos que o escreveram.

Não obstante, é compreensível que algum leitor pergunte se, sendo religiosa a esfera da Igreja, é legítimo que Bispos ou católicos leigos tomem a doutrina católica como critério para analisar a “Reforma Agrária”, que é em si matéria econômica e social. Ademais, também é compreensível que eclesiásticos ou fiéis, lendo este trabalho, se perguntem se do ponto de vista da Igreja é ele oportuno nas atuais circunstâncias. É para atender às per guntas de uns e outros que escrevemos este capítulo.

Proposição 31

Impugnada

A “Reforma Agrária” é assunto econômico e social. Ela não interfere com a Religião.

A Igreja nada tem a dizer, pois, a respeito.

Afirmada

A Igreja Católica é a depositária, a mestra e a defensora da lei de Deus. Cabe-lhe, pois, ensinar quais os atos humanos conformes ao Decálogo, e quais os que lhe são contrários. Há um mandamento que diz: “Não roubarás”. Compete Igreja declarar se a “Reforma Agrária” é, ou não, contrária a esse mandamento.

Comentário

Admite-se comumente que nossa civilização é cristã. Considera-se mesmo que seu mais belo florão é o título de cristã.

Ora, que é uma civilização cristã senão aquela em que todas as esferas da vida pública e privada, os costumes, as instituições, a cultura, a arte, a economia, a política e as leis recebem o influxo do Evangelho? Nestas condições, não é possível afirmar que a Igreja não tem influência moral alguma a exercer sobre a economia brasileira.

Nos tempos já remotos em que o laicismo positivista imperava no Brasil, havia a tendência a isolar a Religião da vida. Hoje essa tendência já desapar eceu quase por completo.

Muitos há que supõem que a questão social tem por única ou principal causa a pobreza do operariado. De tal sorte que, se se resolvessem os problemas materiais deste, as relações entre as classes voltariam rapidamente à normalidade, sem qualquer interferência da Igreja.

Esta tese, professada por não poucos proprietários, tem um ressaibo de materialismo e, pela preponderância que concede à economia, não pode deixar de ser vista com simpatia por socialistas e comunistas. A doutrina católica lhe é frontalmente contrária.

Considerada em suas últimas conseqüências, a proposição impugnada nega à Igreja qualquer ação na vida dos povos e das civilizações.

Textos Pontifícios

Pio IX condeno u a proposição impugnada

Proposição condenada: “A Igreja nada deve ordenar que restrinja as consciências dos fiéis, com respeito ao uso das coisas temporais”219.

A questão social é principalmente moral e religiosa

“Alguns professam a opinião, assaz vulgarizada, de que a “questão social” como se d iz, é somente “econômica”; ao contrário , porém, a verdad e é que ela é principalmente moral e religiosa, e, por este mesmo motivo,

deve ser sobretudo resolvida em conformidade com as leis d a moral e da religião220 .

A questão social é, no seu sentido mais profundo, uma questão religiosa

“A questão social, diletos filhos, é sem dúvida também uma questão econômica, mas é muito mais uma questão que diz respeito à regulação ordenada do consórcio humano, e, no seu mais profundo sentido, uma questão moral e portanto religiosa”221 .

A “Reforma Agrária” sendo por vários títulos um do s aspectos da questão social, aplica-se-lhe adequadamente este ensinamento.

A “Reforma Agrária” enqua nto questão moral está na alçada da Igreja

São Pio X afirmou que a Religião é a “regra suprema e soberana senhora quando se trata dos d ireitos do homem e dos seus d everes”222 .

Sem a Igreja os problemas sociais não têm solução

A Igreja é “a única que pode trazer verdadeira luz tanto no campo social, como em q ualquer outro campo”223.

A questão social “é de tal natureza que, a não se apelar para a Religião e para a Igreja, é impossível encontrar-se-lhe uma solução eficaz”224 .

A solução dos problemas materiais do operariado não basta para resolver a questão social

“Admita-se, ... que seja concedido um duplo salário àqueles que alugam o seu trabalho; admita-se que a duração desse trabalho seja reduzida; admita-se mesmo que o preço dos alimentos seja favorável: entretanto, se o operário escutar essas doutrinas que ouve expor de ordinário, se seguir esses exemplos que o convidam a libertar-se de todo o respeito para com a Vontade Divina e adotar costumes depravados, necessariamente suced erá que se esgotem os seus bens e o fruto dos seus labores. A dura experiência mostra quanto é angustiosa e miserável a vida da maior parte dos operários que, apesar de receberem salário bastante elevado em troca de poucas horas de trabalho, se entregam à corrupção dos costumes, desligando -se por completo da disciplina da Religião”225 .

“Por toda parte, faz-se hoje apelo aos valores morais e espirituais; e com razão, porq ue o mal que há de ser combatido é, antes de tudo, considerado, em sua primeira fonte, mal de natureza espiritual, e dessa fonte é que nascem, por lógica diabólica, tod as as mo nstruo sidades do comunismo. Ora, entre os valores morais e religiosos tem incontestavelmente preeminência a Igreja Católica. Logo , exige o próprio bem da humanidade que se não ponham obstáculos à sua atuação.

Se de outra forma se proceder, e, ao mesmo temp o, se pretenda alcançar essa finalidad e com meio puramente econômicos e políticos, cai -se na trama de perigoso erro. E, quando se exclui a Religião da escola, da educação, da vida pública, e se põem em ridículo os representantes do Cristianismo e seus ritos sagrados, porventura não se fomenta o materialismo de onde tira a sua origem o comunismo? Nem a força, aind a a mais bem organizada, nem os ideais da terra, sejam embora os maiores e os mais nobres, podem d ominar um movimento que tem p or base precisamente a demasiada estima dos bens terrenos”226 .

A insubstituível eficácia da Igreja na luta contra o socialismo

“... para afastar esta peste do so cialismo, a Igreja possui uma força como nunca tiveram nem as leis humanas, nem as repressões dos magistrados, nem as armas dos soldados”227.

Pio XI afirmo u q ue é “a fé cristã que assegura as bases do direito e da justiça social”, e que é “o espírito de fraternidade e caridade inculcado pelo Evangelho, o único que pode g arantir uma sincera colaboração entre as classes”228.

“Não haveria socialismo nem comunismo, se os que governaram os povos não houvessem desprezado os ensinamento s e maternais conselhos da Igreja”229 .

A Igreja deve promover a civilização cristã

São Pio X afirmou que a Igreja deve “restaurar em Cristo não só o que concerne pro priamente à missão divina da Igreja, qual é a de guiar as almas a Deus, mas também o q ue deflui desta missão divina, que é, co mo foi dito, a civilização cristã”230 .

A Igreja, Mestra e fundamento da vida das nações e dos povo

“A obra imortal do Deus de Misericórdia, a Igreja, se bem que em si e por sua natureza tenha por fim a salvação das almas e a felicidade eterna, é entretanto, na própria esfera das coisas humanas, a fonte d e tantas e tais vantagens, que as não poderia proporcionar mais n umerosas e maiores mesmo quando tivesse sido fundada sobretudo e diretamente em mira a assegurar a felicidade desta vid a. Co m efeito, onde quer que a Igreja tenha penetrado , imediatamente tem mudado a face das coisas e impregnado os costumes públicos não somente de virtud es até então desconhecidas, mas ainda de uma civilização tod a nova. Todos os povos que a têm acolhido se distinguiram pela doçura, pela equidade e pela glória dos empreendimentos”231 .

“A Religião Cristã soube velar e prover tão completamente a tudo que é útil aos homens que vivem em sociedade, que parece, na frase de Santo Agostinho, nada mais ter podido fazer para tornar a vida agradável e feliz, ainda que não tivesse tido outro intuito que o de proporcionar e aumentar as vantagens e os bens desta vida mortal”232

Proposição 32

Impugnada

Cumpre à Igreja apoiar a “Reforma Agrária”, sob pena de se expor aos maiores riscos. Com ef eito, se as classes dirigentes não tomarem a iniciativa pacífica dessas transformações, as classes oprimidas as levarão a cabo pela revolução. E será mil vezes pior

De outra parte, se a Igreja não levantar essa bandeira, parecerá solidária com os abusos do regime agrário atual e atrairá contra si o furor da massas. Com isso, haverá apostasias, perseguições e calamidades sem conta. À Igreja compete, em vez de enfrentar as situações, adaptar -se a elas para as influenciar

Afirmada

A Igreja não pode calar-se ante a . injustiça e menos ainda f azer-se paladina desta, quaisquer que sejam as conseqüências daí decorrentes.

Ela pode e deve agir contra os abusos da estrutura agrária atual, sem contudo condenar suas linhas-mestras, que são boas. Às classes dirigentes compete orientar o País e não ceder frente aos demagogos.

Os trabalhadores rurais brasileiros não são, aliás, chacais sedentos de sangue, dos quais é necessário recear tudo.

Comentário

Algumas considerações de menor relevo sobre a proposição impugnada. A Igreja não é “classe dirigente” porque ela não é classe. Por sua natureza e sua missão, abrange em si todas as classes.

O Clero, sim, pode ser chamado uma classe. Mas sua posição é, enquanto tal, muito peculiar. Pois se o Clero, como as outras classes, forma um meio bem definido, e pela dignidade de sua missão se situa nas esferas dirigentes, deve entretanto conviver intimamente com todas as classes.

À mesa do grande como do pequeno, é natural que ele se sente, ocupando sempre o mesmo lugar: de ministro e representante de Jesus Cristo. Isso lhe facilita a sublime missão de pregar e promover a paz entre as diversas camadas sociais. Aquela paz que Santo Agostinho definiu muito bem como sendo, não uma tranqüilidade qualquer, mas a tranqüilidade da ordem233.

Essa missão, o Clero deve desempenhá-la, não para evitar o “furor das massas”, mas para seguir a Jesus Cristo, Príncipe da Paz. E isto ainda que no cumprimento dela seja necessário enfrentar a sanha feroz da demagogia. Haverá quiçá em tal caso “apostasias, perseguições e calamidades”. Esta perspectiva não amedronta o bom Sacerdote, ciente de que em meio a elas a Igreja nasceu e como uma árvore frondosa cobriu toda a terra.

Textos Pontifícios

Erro co ndenado por São Pio X: a Igreja deve adaptar-se à vida civil para a influenciar Proposição modernista: “Deve mudar-se a atitude da autoridade eclesiástica nas questões políticas e sociais, de tal sorte que não se intrometa nas disposições civis, mas procure amoldar-se a elas, para penetrá-las do seu espírito”234 .

Proposição 33

Impugnada

O papel da Igreja é ser a favor dos pobres contra os capitalistas. Ela deve, pois, apoiar a atual campanha pela “Reforma Agrária”.

Afirmada

A Igreja não é contra os capitalistas, nem cont ra o capitalismo em si. Ela é tão somente contra os abusos deste e contra os maus capitalistas. Já f icou demonstrado que a “Reforma Agrária”, além de injusta, é nociva ao País todo, aos pobres como aos ricos. O amor aos pobres não leva, pois, a abraçar tal Reforma”.

Comentário

A palavra “pobreza” pede um esclarecimento. Cumpre distinguir entre os que são absolutamente pobres, isto é, os que, empregados ou desempregados, vivem em condição sub- humana; e os relativamente pobres, isto é, os que vivem em condições suficientes e dignas, mas constituem a parte menos abastada da população.

A pobreza dos primeiros constitui uma situação da qual a Igreja se condói maternalmente, e que ela faz o possível para eliminar ou, pelo menos, mitigar. Pode-se dizer que o êxito nesta tarefa é até uma glória especificamente sua, pois não pode ser alcançado sem o concurso inapreciável da caridade cristã. Aos pobres deste gênero a Igreja ama como um tesouro que lhe foi particularmente confiado por Jesus Cristo, ama-os como a mãe extremosa ama o filho doente, junto ao qual representa a título especial a Providência de Deus. A Igreja, pois, é a favor dos pobres. É isto para ela um ponto de honra.

Mas uma coisa é ser pura e simplesmente a f avor dos pobres, outra é ser a favor deles contra os ricos, os poderosos ou os nobres. Se é disto que se trata, cumpre distinguir: contra os maus ricos, que oprimem os pobres, contra os governos que os acabrunham com impostos e confiscam toda a propriedade particular em favor do Estado, sim.

Para estes valem as palavras de Jesus Cristo: “Mais fácil é um camelo passar pelo fundo de uma agulha do que um r ico entrar no Reino dos Céus”235, e as do Livro da Sabedoria: “Os poderosos serão poderosamente atormentados”236. Mas contrária aos nobres, aos ricos ou aos potentados bons, que cumprem retamente sua alta missão, a Igreja não é. Antes, ela os apoia maternalmente e os cerca do prestígio e da consideração que fazem jus.

Uma comparação esclarecerá o assunto. Assim como a Igreja é pelos pobres, é também pelos órfãos e pelas viúvas, pelos anciãos e pelos doentes. Quer isto dizer que ela é contra quem não for viúva nem órfão, quem for moço ou sadio? Evidentemente não. Só será contra quem perseguir os órfãos e viúvas, quem oprimir os velhos ou os doentes.

Do mesmo modo, ela não é contra os que não são pobres, mas contra os que perseguem os pobres ou lhes negam o que de direito lhes pertence.

Em suma, como foi dito237, a Igreja é a favor de uma sociedade com classes harmonicamente hierarquizadas e ligadas umas às outras pelo amor de Jesus Cristo. Seu desvelo materno se estende também aos relativamente pobres, mas a título algum tanto diverso. Ama-os como filhos, e especialmente como filhos pequeninos, que entretanto precisam menos de seu apoio.

Mas, assim como é justo que a mãe ame os filhos doentes e pequenos, porque tais, justo é que ame os filhos robustos e bem sucedidos, regozijando-se e dando gr aças a Deus pelo êxito destes. Em conseqüência, a Igreja se rejubila maternalmente com a prosperidade dos seus filhos da classe média e alta, e os convida a retribuírem este amor por uma atitude justa e generosa em relação aos necessitados.

Considerações Finais

As pessoas recebem na eternidade o prêmio ou o castigo merecido por seus atos. Por isto, Deus às vezes concede a felicidade terrena ao ímpio, recompensando-o aqui por algum bem praticado e reservando a punição para depois da morte. De outro lado, não é raro que o justo pague neste mundo, com sofrimentos diversos, algum mal que tenha feito, e seu prêmio lhe seja dado principalmente na outra vida. Pode, pois, acontecer aqui que o bom seja por vezes infeliz, e o ímpio, feliz.

Em relação aos Estados, faz ver Santo Agostinho, a situação é outra. Também eles estão sujeitos à justiça de Deus. Mas como no Céu e no inferno não haverá nações, cumpre que estas sejam premiadas ou punidas já neste mundo. De onde ser a nação virtuosa normalmente feliz; e a pecadora, infeliz.

Desejamos, pois, preservar nosso amado Brasil de dolorosas perspectivas afastando-o da “Reforma Agrária”, contrária à lei de Deus. Exprimimos o desejo de que todos os brasileiros, e mais particularmente todos os católicos, usem para tal os meios legais a seu alcance.

No momento em que a classe dos agricultores, há tanto tempo dividida e lesada, se encontra a sós frente a um risco inegável, é sem interesses pessoais de qualquer ordem, mas movidos pelo desejo de defender seus direitos, porque fundados no Decálogo e no bem comum, que publicamos este trabalho.

Como católicos, desejamos aqui externar quanto apreço nos merece a agricultura, tão respeitável em si, tão propícia à prática da virtude e à salvação das almas.

Como brasileiros, com prazer aproveitamos esta ocasião para dizer aos agricultores quanto reconhecimento lhes temos, por todo o bem que nosso País lhes deve.

Tudo isto nos põe à vontade para lhes apresentar algumas ponderações.

A desigualdade social e econômica é em si mesma legítima e necessária. Mas, hoje mais do que nunca, ela só se faz aceitar de bom grado quando a elite une a um verdadeiro senso de hierarquia de valores, um cuidado extremo em reconhecer os dir eitos dos que lhe são subordinados.

Empenhem-se pois nossos agricultores, por iniciativa própria, e sem parecerem arrastados a isto pela demagogia revolucionária, em preparar seriamente o soerguimento das condições de vida dos trabalhadores rurais. Para tanto, sejam ciosos de lhes pagar sempre o salário justo, familiar e não inferior a um mínimo razoável. Sejam propensos a admitir outras medidas com o mesmo fim, quando couberem, como a parceria, ou a difusão da pequena propriedade pelo sistema de loteamentos, que já se pratica, e outras análogas. Procur em criar nos seus empregados apreço sempre maior pela poupança, pelo asseio e pelo bom-gosto no lar.

Não ignoramos, aliás, que tal pr ograma não depende só da classe dos agricultores, já tão onerada, mas de todo um conjunto de circunstâncias, entre as quais a compreensão do próprio trabalhador.

No conceber o progresso deste último, cumpre, como já dissemos 308, incutir nele o desejo não só de bem-estar como de prosperidade, embora não o transformando em citadino nem em burguês. Ademais, um sadio regionalismo deve velar por que se conserve e até se aprimore para o homem do campo todo o ambiente peculiar à sua respectiva zona.

Conselhos, aspirações vagas, palavras, dirá talvez alguém. Por que não traçar um programa concreto, fundar uma obra, fazer enfim algo de palpável?

A cada qual sua tarefa. Não somos agricultores, mas homens de estudo. Cientes de quanto pode em qualquer assunto a fixação de princípios básicos claros e verdadeiros, conjugamo-nos para de todo o coração dar ao problema o contributo que de homens de estudo, modestos embora, se pode esperar. Pertence aos agricultores o campo das realizações.

Mas um ponto há, que em geral se ressalta insuficientemente, e que deve servir de fecho a esta Parte I. A questão agrária ora agitada no Brasil é um aspecto da questão social. E esta, segundo ensinam os Papas, não é principalmente uma questão econômica, mas moral309. Onde os homens são maus, nada pode ser bom. E a questão moral, todo bom católico o sabe, é essencialmente religiosa. A chamada moral leiga e sem Deus nada pode.

Uma verdadeira formação religiosa deve, pois, ser o meio primordial de se resolver a questão agrária. E neste sentido cabe ao proprietário um grande papel.

Deve ele favorecer quanto possa o culto católico e a instrução religiosa na fazenda, para crianças e para adultos. Ademais, evitando ser em sua propriedade os perpétuos ausentes, devem ele e os seus dar o exemplo aos empregados, freqüentando os Sacramentos, presidindo às orações em comum e ministrando instrução catequética quando não houver Sacerdote que o faça. Seus trajes e os dos membros de sua família sejam compostos e recatados. Façam quanto puderem para regularizar as uniões ilegítimas. Reprimam o alcoolismo e o jogo, favoreçam as boas diversões.

Consagrem ao Sagrado Coração de Jesus e ao Imaculado Coração de Maria seu lar e a fazenda toda, convidando os trabalhadores a que repitam a consagração em suas respectivas casas.

Essas e outras medidas poderão assegurar o Reinado de Jesus Cristo no campo. E onde Jesus Cristo entra, cessam as divisões, as lutas de classe, as injustiças e os vícios.

Nesta via, cônscio de seu direito, atue e lute intensamente o agricultor para defender o que é seu. Faça-o por amor à justiça e à civilização cristã.

O homem que luta por seus direitos merece respeito. O que luta por princípios e ideais verdadeiros merece, mais do que isto, admiração.

Que Nossa Senhora, que de seu trono sagrado de Aparecida rege todo o Brasil, conceda a este trabalho a graça de contribuir para o bem com vistas ao qual foi escrito: a concórdia das classes numa sábia e harmoniosa hierarquia, em que sejam respeitados os direitos proporcionados dos grandes e dos pequenos, segundo a lei de Deus. Em suma, a paz verdadeira, que é a tranqüilidade da ordem310 ou, em termos mais altos, a paz de Cristo no Reino de Cristo.

Fonte: www.pliniocorreadeoliveira.info

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