Como se pode observar pelas Tabelas 19 e 20, o grupo Cinemark328 Brasil domina, entre 2001 e 2005, o setor de exibição no Brasil, com a maior quantidade de salas distribuídas pelo país e o maior market-share de público. Sua participação no mercado foi aumentando, gradativamente, desde 2002 e até 2005, enquanto o maior segundo grupo exibidor do país – o grupo nacional Severiano Ribeiro - ia perdendo espaço no mesmo período. Além dessas duas empresas, também a multinacional UCI se encontra, no período analisado, entre os principais exibidores do país, mantendo um marketshare médio de 9,6% nos cinco anos analisados. As três juntas, como se pode confirmar pelas Tabelas 19 e 20, detêm 50% do mercado brasileiro de exibição.
Por se tratarem de multinacionais, os grupos Cinemark Brasil e UCI não dispõem de muitas informações sobre a sua atuação no país e, por isso, não foi possível realizar sua análise coorporativa. Nesse sentido, o mercado exibidor brasileiro também se encontra fechado, como o mercado distribuidor e, por isso, somente alguns exibidores serão detalhados nesse estudo. O mais importante a explicar sobre ambas as empresas é que têm a maior parte das suas salas situadas em capitais de Estados brasileiros ou em grandes cidades do interior do país e, por isso, além de terem o maior número de salas, detêm grande parte do market-share em público. Ambas iniciaram suas operações no país a partir de 1997, trazendo ao circuito nacional o conceito multiplex.
A segunda principal empresa do setor brasileiro de exibição, no entanto, é uma empresa nacional - o grupo Severiano Ribeiro. Justamente por isso, a partir da chegada no país das multinacionais de exibição, para sobreviver concorrência, o grupo realizou inúmeras parcerias, entre 1995 e 2005, alguma delas inclusive com as próprias multinacionais concorrentes. Ainda assim, nota-se que, entre 2001 e 2005, seu market-share caiu de 22% para 12,7%, assim como o seu número de salas, que passou de 170 para 133, depois de viver um período mais positivo entre 2003 e 2004 (quando superou as 200 salas). Mais um dado que comprova o enfraquecimento no período das empresas nacionais de exibição devido à invasão das multinacionais no setor.
Em 1997, por exemplo, o grupo Severiano Ribeiro conseguiu abrir novos complexos multiplexes por meio de uma parceira realizada com a UCI. No mesmo ano, passou também a ser responsável pela administração de algumas salas do grupo Estação, todas na cidade do Rio de Janeiro. Em 2002, enfim, o grupo mudou a sua marca institucional e criou o a rede de cinemas Kinoplex, para denominar seus conjuntos de salas em estilo multiplex. Tem parcerias ainda com os grupos Paris e São Luiz Cinemas.
Outro grupo nacional que atua desde os anos 20 no país e mantém um nível razoável de market-share é a Cinematográfica Araújo. Antiga Araújo & Passos, a empresa é uma das mais antigas do país no setor e, até a década de 80, era um dos maiores grupos de exibição. Num processo de revitalização, depois de passar pela crise do setor devido à criação d VHS, em 1996 o grupo se dividiu em Cinematográfica Passos e Cinematográfica Araújo. Apesar de ter passado por momentos em que perdeu market-share, entre 2001 e 2005, com a abertura de novas salas, em 2005, voltou a ocupar 6% do mercado, como ocupava em 2001.
O restante do mercado está repartido entre pequenas empresas nacionais, das quais a maioria não supera 3% de market-share em público, um cenário que foi mantido praticamente sem modificações substanciais nos anos compreendidos entre 2001 e 2005. No entanto, sobre essas empresas, podem ser feitas algumas observações que ajudariam a entender o comportamento de abertura e fechamento de empresas no período analisado.
Nota-se, por exemplo, que a empresa exibidora Arco-íris Cinemas começou a apresentar índices mais representativos de market-share em público a partir de 2002, o que significa que se expandiu ou simplesmente iniciou as suas operações a partir de então. Ao buscar informações sobre a empresa foi possível verificar que pertence às Organizações Mário Santos, que, em 2001, figurava entre os exibidores brasileiros com 62 salas e 7% de market-share. Seguramente, esse é um exemplo de adaptação ao mercado de uma empresa que converteu sua rede de salas tradicionais em salas multiplexes. A partir de 2002, a Arco-íris Cinemas não parou de crescer em número de salas – todas abertas segundo o conceito multiplex - apesar de não conseguir, no mesmo período, manter o market-share superior a 3%.
Também um exemplo de adequação ao novo comportamento do mercado é o do grupo exibidor CinemaStar, antigo grupo Roberto Darze. A empresa mudou de nome em 2002 e, por isso, a partir desse momento, já não há dados sobre o grupo Roberto Darze e começam as atividades do grupo CinemaStar, com quase todas as salas localizadas no Estado do Rio de Janeiro, dentro de shopping-centers. De todos os modos, está entre as empresas nacionais que perdeu espaço de mercado por causa da expansão das atividades de alguns grandes exibidores e o início de atividades de novos grupos, por meio dos complexos multiplexes.
A Cinematográfica Passos, que também começava a perder espaço no mercado em 2002, só conseguiu sobreviver no mercado, com razoável participação, quando se transformou na Moviecom Cinemas, abrindo salas mais modernas e melhores equipadas. A partir dessa mudança, a empresa continuou expandindo o número de salas e superou o market-share que detinha em 2001 (de 4,1%), passando cota de mercado de 4,6% em 2005. Suas salas estão repartidas por oito Estados brasileiros, em diferentes regiões. A empresa, no entanto, concentra o seu maior número de salas, quase todas multiplexes, no Estado de São Paulo.
Alguns outros grupos iniciaram ou expandiram suas atividades a partir de 2003. Entre eles estão Cinebox, Cinesystem e Afa Cinemas. Todos esses exibidores têm salas dentro de complexos multiplexes e, alguns, inclusive, têm salas somente dentro desse conceito. Suas operações estão concentradas nas regiões Sul e Sudeste, regiões de maior concentração de salas do país, como foi possível verificar no capítulo anterior.
Estas empresas, de porte mediano se comparadas com os grupos Cinemark e Severiano Ribeiro, desde que iniciaram ou expandiram suas atividades no país, a partir de 2003, vêm ocupando lagunas do mercado deixadas pelas grandes empresas em cidades de pequeno porte, geralmente no interior do país. O que acontece, no entanto, é que - como o mercado exibidor brasileiro ainda está pouco explorado, considerando o tamanho da sua população - assim como as grandes empresas, estas têm se instalado também nas regiões mais desenvolvidas do Brasil.
A expansão das atividades desses exibidores, assim como das atividades de grandes multinacionais no setor de exibição do país (principalmente com a abertura de imensos complexos multiplexes), provocou ainda, no período entre 2001 e 2005, a perda de espaço no mercado para algumas empresas brasileiras.
Entre as que perderam mercado, podem ser citadas como exemplos as exibidoras Sercla e Sul Projeção. A primeira, apesar de ter crescido em número de salas entre 2001 e 2005 (passando de 20 para 33 salas), teve seu market-share reduzido de 3% para 1,3% no mesmo período. Já a Sul Projeção, além de perder participação no mercado, passando de 2,6% para 0,5% entre 2001 e 2005, ainda perdeu algumas salas entre 2001 e 2004
Como foi possível verificar, o setor exibidor brasileiro esteve, entre 2001 e 2005, concentrado nas mãos de algumas grandes empresas, entre estrangeiras e nacionais que, devido à sua forte atuação no mercado no período entre 2001 e 2005, obrigaram medianas empresas do setor a se renovarem, agrupando-se ou modificando sua forma de operar. Essa movimentação para se adequarem ao mercado, no entanto, não alterou o cenário de monopólio das grandes que dominam o setor: a maioria delas, entre empresas pequenas ou medianas, não consegue participação no mercado de mais de 5%, enquanto apenas três das maiores detêm 50%. Além disso, é impressionante a pouca quantidade de empresas exibidoras no país que apresentam números representativos, considerando o tamanho do seu território.
O fato de que o setor exibidor brasileiro esteja concentrado nas mãos de três empresas, entre elas duas internacionais, ainda pode ser responsável pela imposição de barreiras à exibição de filmes nacionais. Para garantir maiores rendimentos por meio de melhores índices de público, essas empresas preferem exibir, portanto, as super-produçoes americanas. Essas super-produçoes, como são distribuídas pelas majors que dominam o setor de distribuição, ainda chegam ao mercado com número de cópias bastante superior ao das produções nacionais. Essa situação excludente ao cinema nacional é explicada nas seguintes afirmações, que refletem ainda uma situação mundial.
O exibidor é um negociante com outro qualquer, só quer saber dos lucros. O cinema americano chega ao Brasil a custo zero. Compete com o filme nacional que custa, em média, R$ 3 milhões e só conta com o seu próprio mercado. Além disso, o cinema americano é estável, com oferta contínua. Os títulos de grandes companhias americanas chegam ao exterior já pagos, somente para obter lucros. A receptividade dos filmes nacionais melhoram apenas quando o exibidor identifica que houve um grande investimento na sua estréia. Não participa desse investimento, mas sabe que serão mais promovidos e, por isso, lhe interessam, não importando se são nacionais ou não.
O professor canadense Colin Hoskins aborda o mesmo aspecto de uma forma mais generalizada.
The exact terms agreed between distributors and exhibitors depend on the quality of the film and the relationship between them. The Hollywood majors with their continuing stream of desirable product and their strong market position do not have to enter into weak agreements or allow adjustments. Their position is that if exhibitors want access to their films they must honour the standard contract. Te worry is that this situation limits the role of domestic distributors, with the overall result that domestic feature films cannot reach an audience even in their country of origin. (Hoskins, 1997: 58-60)
Como foi possível constatar pela análise dos dados apresentados, para que a situação descrita acima se modifique, além de proteger as empresas nacionais de distribuição e exibição, é preciso ainda pensar na regulamentação da relação entre elas no momento de legislar sobre o mercado cinematográfico local.
Com uma população de aproximadamente 170 milhões de brasileiros, em 2005, o Brasil contava com 2.045 salas de exibição de cinema e uma audiência total de 89,7 milhões. Como pôde ser visto, no entanto, por meio da análise do mercado brasileiro de cinema, de 1995 a 2005, a potencialidade da sua indústria cinematográfica não se limita apenas a essas cifras. Preço das entradas, volume de espectadores, índice de freqüências das salas, relação entre as empresas que atuam no setor (em produção, distribuição e exibição), além de aspectos sócio-econômicos da população brasileira, são outros fatores que devem ser considerados na análise da estrutura de um mercado cinematográfico como o de Brasil. A avaliação do conjunto desses fatores, entre 1995 e 2005, possibilitou, portanto, a realização do dimensionamento do mercado brasileiro de cinema e a identificação de características específicas sobre o seu funcionamento nos seus três setores: produção, distribuição e exibição.
Em relação ao setor de produção, duas características principais puderam ser observadas. A primeira delas diz respeito à pouca quantidade de filmes produzidos considerado o número de empresas que estiveram ativas no período entre 1995 e 2005: 162 produtoras que foram responsáveis pelo lançamento de apenas 300 filmes nacionais. O dado permite concluir que as atividades das produtoras brasileiras na área cinematográfica não foram estáveis nos dez anos analisados.
Pelo que se pôde constatar por meio dos dados apresentados no capítulo relativo produção, apenas quatro produtoras mantiveram um nível de produção cinematográfica de, no mínimo, quase um filme produzido por ano. Foram elas: Diler & Associados (15 filmes), Videofilmes Produções Artísticas (15 filmes), Conspiração Filmes (nove filmes) e LCBarreto Produções (nove filmes). Essas quatro produtoras representam somente 2,5% de todas as empresas que estiveram ativas no período entre 1995 e 2005 no que se refere à produção de cinema. Com nível de atividade um pouco mais constante que a maioria, está 14,2% das produtoras (23 produtoras), que tiveram três, quatro ou cinco filmes produzidos num período de dez anos. Entre elas, estão: Renato Aragão Produções (quatro filmes), Lereby Produções (três), O2 Filmes (três), Elimar Produções Artísticas/Copacabana Filmes (quatro), Casa de Cinema de Porto Alegre (cinco) e A.F. Cinema e Vídeo (cinco filmes). A maioria das outras produtoras respondeu por apenas um lançamento em todo o período analisado.
Isso se deve principalmente ao esquema de financiamento público vigente no país. Apesar do número de filmes nacionais lançados nas salas de cinema ter aumentado, de 1995 a 2005, de 13 para 42, o setor de produção cinematográfica ainda não pode ser caracterizado como uma indústria autosuficiente porque somente foi viável, entre 1995 e 2005, graças ao esquema de incentivos fiscais sustentado, sobretudo, pelo governo federal.
Esse esquema permite que os produtores, pequenos ou grandes, realizem filmes financiados, de forma total, por investimentos subvencionados de empresas. Foi possível verificar, por exemplo, casos de empresas que realizaram de três a cinco filmes nos dez anos analisados e não conseguiram obter renda em bilheteria total maior do que os recursos subvencionados que usaram para realizá-las.
Essa dependência quase que total dos recursos subsidiados pelo governo por parte das produtoras foi a segunda característica observada pela análise realizada nesse trabalho e que explica porque a maioria das produtoras brasileiras, além da produção cinematográfica, também se dedicam a produções para o setor televisivo ou de vídeos publicitários. À propósito, nesse sentido, pôde-se verificar também como as leis de apoio ao setor cinematográfico do país possibilitam que empresas produtoras como a O2 Filmes e a Conspiração Filmes, completamente consolidadas no mercado audiovisual brasileiro, ainda recorram ao financiamento público de seus projetos cinematográficos e, além disso, mantenham informações sobre como realizar esse financiamento no sites oficiais que têm na Internet.
Outro fator que deve ser comentado é a concentração da maioria dessas empresas de produção cinematográfica no eixo Rio de Janeiro-São Paulo, com exceção de algumas que estão localizadas no sul do Brasil, fato que também limita a capacidade produtiva brasileira em termos de cinema.
No que se refere ao tipo de filmes produzidos no período, foi possível notar que existe uma influência do monopólio de audiência exercido pela rede de televisão TV Globo na escolha do que vai ser produzido. Por uma análise da audiência conquistada pelos filmes nacionais no período, observou-se que praticamente todos os títulos protagonizados por personagens já conhecidos dessa cadeia de televisão foram sucessos de bilheteria, alcançando pelo menos 500 mil em audiência. Conseqüentemente, por isso, as principais produtoras tendem a produzir filmes vinculados a sucessos de audiência da TV Globo.
As Organizações Globo ainda exercem papel importante no setor por meio da sua produtora cinematográfica, a Globo Filmes. A produtora atua no setor prioritariamente por meio de co-produções com produtoras independentes, o que lhe permite usar os recursos subvencionados pelo governo, legalmente autorizados somente a produtoras independentes. Essa estratégia poderia ser conseqüência da falta de uma fiscalização mais rígida da utilização dos recursos sustentados pelas leis de incentivo ao setor audiovisual no país.
É um fato que o sistema de financiamento público no Brasil, vigente entre os anos de 1995 e 2005, aumentou o ritmo de produção cinematográfica no país. Mas também está claro, como foi visto pelos dados apresentados, que esse sistema não impede que os rendimentos da indústria sejam repartidos de forma desigual e que empresas já consolidadas no mercado deixem de recorrer ao financiamento público em prol de produtoras pequenas, que poderiam começar a desenvolver mais volume de atividade no setor por meio desse mesmo financiamento. Nesse sentido, portanto, o sistema de ajuda financeira mantido pelo governo brasileiro ao setor teria que ser revisado. Frente à concorrência imposta pelas majors internacionais que dominam o mercado cinematográfico mundial, essas medidas de proteção ao mercado nacional estão justificadas. No entanto, é preciso visar também à capacidade de concorrência qualitativa da indústria local contra a indústria internacional, e não só a quantitativa.
Se, para produzir, o setor cinematográfico brasileiro depende dos recursos subvencionados pelo governo por meio das leis de incentivo fiscal, para fazer com que as suas produções cheguem às telas de exibição, depende do acesso que têm às majors internacionais que dominam o setor de distribuição no país – o mais estratégico da indústria cinematográfica. No Brasil, essas multinacionais têm o domínio não só da distribuição dos títulos estrangeiros, como também da distribuição das produções locais.
As majors entraram pouco a pouco no mercado brasileiro, a partir de 1995, quando a produção nacional começava a se recuperar e, em 2005, eram responsáveis por mais de 30% dos títulos de produção local. A vantagem comercial sobre os distribuidores nacionais permite às majors fazerem seus lançamentos com uma média de 200 cópias, enquanto os distribuidores nacionais o fazem com uma média de 30 cópias. Conseqüentemente, são elas as que detêm a maior cota de mercado em público nacional, ainda que não tenham distribuído o maior número de filmes no período.
O domínio do setor de distribuição pelas majors internacionais é fator determinante no comportamento da indústria cinematográfica como um todo. Ao se encontrarem no meio da cadeia industrial, as majors influenciam fortemente o setor de produção e exibição cinematográfica do país, que ficam à mercê dos acordos comerciais que lhes são impostos. O setor produtivo depende delas para chegar s telas de cinema e o setor exibidor, para ter acesso a produções que, provavelmente, serão rentáveis em bilheteria. Diante, portanto, de distribuidores e exibidores locais sem expressão no mercado, sua única opção é se render às exigências das majors para tentar alguma prosperidade no setor.
No que se refere ao setor de exibição, como foi possível verificar, o setor exibidor brasileiro esteve, entre 2001 e 2005, concentrado nas mãos de algumas grandes empresas, entre estrangeiras e nacionais que, devido à sua forte atuação no mercado no período entre 2001 e 2005, obrigaram medianas empresas do setor a se renovarem, agrupando-se ou modificando sua forma de operar. Essa movimentação para se adequarem ao mercado, no entanto, não alterou o cenário de monopólio das grandes que dominam o setor: a maioria delas, entre empresas pequenas ou medianas, não consegue participação no mercado de mais de 5%, enquanto apenas três das maiores detêm 50%. Além disso, é impressionante a pouca quantidade de empresas exibidoras no país que apresentam números representativos, considerando-se o tamanho do seu território.
O fato de que o setor exibidor brasileiro esteja concentrado nas mãos de três empresas, entre elas duas internacionais, ainda pode ser responsável por mais uma barreira à exibição de filmes nacionais. Para garantir maiores rendimentos por meio de melhores índices de público, essas empresas preferem exibir, portanto, as super-produçoes americanas. Essas super-produçoes, como são distribuídas pelas majors que dominam o setor de distribuição, chegam ao mercado ainda com número de cópias bastante superior ao das produções nacionais, o que provoca um cenário excludente ao cinema nacional.
Essa exclusão pôde ser comprovada pela análise da audiência aos filmes brasileiros. Durante o período estudado, observou-se que, anualmente, de todos os filmes nacionais estreados, uma média de apenas três filmes por ano alcançava mais de um milhão de espectadores e somente cinco por ano passavam de 500 mil espectadores, enquanto a maioria das produções nacionais não ultrapassava nem os 100 mil em público. De todos os filmes lançados com mais de 500 mil em público, a partir do início das atividades das majors no Brasil, quase todos foram distribuídos pelas mesmas majors, em condições comerciais incomparáveis aos filmes locais distribuídos por empresas nacionais.
Outro problema do setor exibidor brasileiro, como foi possível constatar, é a pouca quantidade de salas em proporção ao seu tamanho populacional. Um dos fatores que explicaria esse problema seria a concentração da maioria das salas de exibição nas regiões ou cidades mais populosas ou desenvolvidas do país. Essa característica poderia estar provocando a saturação de determinados mercados em detrimento da exploração de novos mercados com potencial consumidor. Obviamente, a concentração das salas nas regiões mais desenvolvidas e populosas do país, dá a essas mesmas regiões os melhores índices de freqüência ao cinema como um todo.
Aqui também se deve levar em consideração o aspecto demográfico brasileiro. Apesar de ter um território com 8,5 milhões de quilômetros quadrados, o Brasil ainda tem regiões que apresentam ocupação de menos de um habitante por quilômetro quadrado, o que explicaria a pouca quantidade de salas em proporção ao seu tamanho. Por último, outro obstáculo ao desenvolvimento do setor de exibição do país seria o preço do ingresso, que, durante os dez anos analisados, sempre esteve acima da media de poder aquisitivo do brasileiro.
Antes de tudo, é preciso considerar que, sob as condições econômicas apresentadas sobre o Brasil nesse trabalho, a maioria da população brasileira não tem recursos financeiros suficientes para investir na indústria do entretenimento, entre elas, o cinema. O sistema de ajuda financeira mantido pelo Estado até 2005 apresenta, como foi possível verificar, inúmeras falhas, mas os problemas sociais brasileiros devem ser levados em consideração no momento de revisá-lo. Além de fortalecer seu apoio aos setores locais de distribuição e exibição, e não só priorizar o financiamento da produção, poderiam ser pensadas medidas que convertessem o cinema no Brasil numa opção de ócio mais popular.
De todos os modos, a análise realizada nesse trabalho sobre a indústria cinematográfica brasileira permitiu que se chegasse às seguintes conclusões:
O setor de produção está concentrado nas atividades de algumas poucas empresas, que ainda são dependentes dos recursos subvencionados por meio das leis de incentivo fiscal existentes. Nesse setor, ainda se vê necessária também uma maior colaboração entre o meio televisivo e cinematográfico;
O setor de distribuição local é débil e, como o que ocorre em quase todos os países do mundo, não consegue competir com o domínio das majors internacionais. Nesse sentido, as leis de apoio ao setor em vigência até 2005 não conseguiram atuar de forma eficaz;
No setor de exibição, os principais problemas são a pouca quantidade de salas, sua concentração nos maiores centros urbanos e o preço médio do ingresso, considerado caro para o poder aquisitivo médio do brasileiro. Também a entrada dos complexos multiplexes no país não se deu de forma a melhorar de forma significativa a audiência nacional ao cinema;
Todos esses pontos, em conjunto, geram um comportamento vicioso da indústria cinematográfica brasileira. Ainda que o ritmo da sua produção tenha aumentado entre 1995 e 2005, sem uma boa conexão entre os setores de distribuição e exibição, a produção nacional não encontra a audiência que deveria. Em conseqüência, os títulos nacionais, produzidos basicamente com recursos subvencionados, não recuperam em bilheteria os investimentos realizados e o que conseguem recuperar geralmente é repartido - de forma desigual e com vantagens para as majors distribuidoras - entre produção, distribuição e exibição.
Bibliografia
ALBARRAN, Alan B., Media Ecomomics: Understanding Markets,
Industries and Concepts. Ames, Iowa: Iowa State University Press, 1996.
ALMANAQUE ABRIL. Brasil 2002. Editora Abril. Rio de Janeiro: Janeiro, 2000.
AUGROS, Joel. El Dinero de Hollywood. Paris: Éditions L´Harmattan, 1996.
BOLAÑO, César. Globalización y monopolios en la comunicación de América Latina:
hacía una economía política de la comunicación. Buenos Aires: Biblos, cop.
1999.
BONNELL, René. La Vingt-cinquième Image – Une Èconomie de l´Audiovisuel. Francia:
Gallimard, 2006.
CANCLINI, Nelson García; MANTECÓN, Ana Rosas e RUIZ, Enrique Sánchez. Situación
Actual y Perspectivas de la Industria Cinematográfica en Mexico y en el Extranjero.
Guadalajara, Mexico: Instituto Mexicano de Cinematografía, 2006. - Mercados
y públicos de cine en los países del MERCOSUR (Octavio Getino, Mexico, 2006)
CHAUDHURI, Sony. Contemporary World Cinema. Edinburgh: Edinburgh University
Press, 2005.
CORLETO, Gustavo Buquet. El Poder de Hollywood. Madrid: Fundación Autor, 2005.
COSTA, Pere-Oriol. Realitat i Perspectives de la Televisió Local. Barcelona:
Diputació, D.L., 1992.
DOYLE, Gillian. Understanding Media Economics. London: Sage, 2002.
ESTEINOU MADRID, Javier. Economía Política y Medios de Comunicación. México:
Trillas, 1990.
FERGUSON, Marjorie. Economía política y estudios culturales. Barcelona: Bosch,
1998.
GATTI, André P. RioFilme: uma distribuidora de filmes nacionais (1992-2000).
Campinas: Departamento de Multimeios del Instituto de Artes de la Unicamp,
17de mayo de 2002.
GETINO, Octavio. Cine Iberoamericano – Los Desafíos del Nuevo Siglo. Buenos
Aires: Ciccus, 2007.
GETINO, Octavio. Cine y televisión en América Latina: producción y mercados.
Buenos Aires: CICCUS, 1998.
GETINO, Octavio. Negociación e Integración en el Sector Cinematográfico y
Audiovisual en los Países del MERCOSUR - Antecedentes y Experiencias. Obervatorio
MERCOSUR Audiovisual (OMA). Reunión Especializada de Autoridades Cinematográficas
y Audiovisuales del MERCOSUR y Estados Asociados (Recam). Buenos Aires: 2006.
GUBACK, Thomas H. La Industria Internacional del Cine. Madrid: Fundamentos,
cop. 1980.
HOSKINS, Colin. Global Television and Film – An Introduction to the Economics
of the Business. New York: Oxford University Press, 1997.
JACKEL, Anne. European Film Industries. London: British Film Institute, 2003.
LANGE, André. The Financial Situation of the Various Branches of the European
Union Audiovisual Industry. Taormina: Italian Presidency of the European Union,
European Audiovisual Observatory, 15 -16 de noviembre de 2003.
MARICH, Robert. Marketing to Moviegoers - A Handbook of Strategies. Burlington,
USA: Elsevier Inc., 2005.
MATHIEN, Michel. Économie Générales des Médias. Paris: Ellipses Édition Marketing
SA, 2003.
MILLER, Toby; GOVIL, Nitin; McMURRIA, John e MAXWELL, Richard. Global Hollywood.
London: British Film Institute, 2001.
MURCIANO, Marcial. Estructura y Dinámica de la Comunicación Internacional.
Barcelona: Editorial Bosch, 1992.
ORSINI, Silvana. Cinema deve crescer de 5% a 10% em 2007. São Paulo, Gazeta
Mercantil, 6 de fevereiro de 2007.
SCHILLER, Herbert I. Comunicación de Masas e Imperialismo Yanqui. Barcelona:
Gustavo Gili, D.L, 1976.
SQUIRE, Jason E. The Movie Business Book. New York: Simon & Schuster,
2004.
VOGEL, Harold L. Entertainment Industry Economics. Cambridge: Cambridge University
Press, 1994.
WASCO, Janet. How Hollywood Works. London: Sage Publications Ltd,, 2003.
Fontes Estatísticas
ABRAPLEX, Associação Brasileira das Empresas
Exibidoras Cinematográficas
Operadoras de Multiplex.
- Mercado Brasileiro. São Paulo: 2004.
- Dados Abraplex. São Paulo: 2004.
ANCINE, Agência Nacional de Cinema. Dados do Mercado. Brasília: 2007.
ARQUIVO NACIONAL, Centro de Informação de Acervos dos Presidentes
da
República.
EUROPEAN AUDIOVISUAL OBSERVATORY
- European cinema attendance down in 2005 yet national films improve their
performance. Strasbourg: 9 de febrero de 2006.
- Press Release. Strasbourg: 21 de marzo de 2003.
- Public Funding for the European Film Industry Grows as Companies Financial
Situations Weaken. Strasbourg: 18 de octubre de 2002.
- Focus 2006 – World Film Market Trends. Strasbourg: 2006.
FILME B.Database Brasil 2001-2005..
FGV/CPDoc, Fundação Getúlio Vargas/Centro de Pesquisa
e Documentação
de História Contemporânea do Brasil.
IBGE, Instituto Brasileiro de Geografia y Estatística, www.ibge.gov.br
INTERNET MOVIE DATABASE, www.imdb.com
IPEA, Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada, Ipeadata, www.ipea.gov.br
KINOFORUM, Associação Cultural Kinoforum. Guia Brasileiro 2006
de
Festivais de Cinema e Vídeo. Rio de Janeiro: Pólen Editorial,
2006.
MEDIA Salles, White Book of the European Exhibition Industry – Volume
2.
Londres: 1994.
MINISTÉRIO DA CULTURA DE BRASIL, www.cultura.gov.br
MPAA, Motion Picture Association of America
- US Entertainment Industry: 2005 MPA Market Statistics. Los Angeles: 2006.
- US Theatrical Market: 2005 Statistics. Los Angeles: 2006.
- MPA Snapshot Report: 2005 International Theatrical Market. Los Angeles:
2006.
OECD, Organisation for Economic Co-Operation and Development,
www.oecd.org
SCREEN DIGEST.
Todas as edições entre 1994 e 2006.
Fonte: www.eptic.com.br