O domínio do mercado produtivo de cinema no Brasil por algumas grandes produtoras, que igualmente utilizam o apoio financeiro do governo nas suas produções, é outra característica da indústria brasileira de cinema. Podese ver pela Tabela 8 que, mesmo entre as que tiveram mais de R$ 1 milhão e renda total em bilheteria nos dez anos estudados, há aquelas que não conseguiram manter o índice renda/captação maior que um, como a LCBarreto Produções, a Videofilmes Produções ou a Sky Light Cinema.
Além dessas, estão entre essas 34 produtoras, as que rodaram apenas um ou dois filmes durante esses dez anos e, com essas poucas produções, conquistaram renda em bilheteria suficiente para que figurem entre as 34 melhores em renda de 1995 a 2005. Outro dado que se pode observar pela Tabela 8 é a antiguidade das produtoras. Nota-se, pelos anos de lançamento de suas produções, que são poucas as que estão ativas desde o início da retomada, com filmes lançados antes de 1998. Neste caso, estão, por exemplo, LCBarreto Produções, Videofilmes Produções, Renato Aragão Produções e Elimar Produções/Copacabana Filmes.
Pelos anos de lançamento dos filmes, também se pode observar o ritmo de produção de cada uma das produtoras. A HB Filmes, por exemplo, fez dois filmes entre 1995 e 2005 com um intervalo de lançamento entre eles de cinco anos. O mesmo se nota com as duas produções da Rio Vermelho Filmes no período, que têm intervalo de lançamento entre elas de quatro anos, igualmente ao que acontece com as duas produções da Cineluz Produções, com um intervalo também de quatro anos entre seus lançamentos.
Antes de começar, portanto, a descrição detalhada das produtoras consideradas as mais importantes entre as 34 apresentadas na Tabela 8,faz necessário explicar os critérios utilizados para isso. Serão tomados como critérios na escolha das empresas que merecerão destaque:
o ritmo de produção (quantidade de filmes produzidos nos dez anos);
a relação renda/captação
o tempo que essas produtoras levam produzindo.
E, por isso, a primeira produtora a ser analisada, considerada a mais importante em atividades cinematográficas durante o período analisado, será a Diler & Associados.
I. Diler & Associados
Das 34 produtoras apresentadas na Tabela 8, a Diler & Associados é a primeira em ritmo de produção e total obtido em bilheteria durante o período entre 1995 e 2005. Durante os dez anos analisados, apesar de ter utilizado ajuda financeira pública em todos os 15 filmes que produziu, conseguiu renda em bilheteria mais que duas vezes maior que o total de valores subvencionados que captou no mercado por meio das leis de incentivo do governo federal.
Criada em 1994, tem como sócio majoritário o produtor Diler Trindade, além de dois produtores mais - Geraldo Silva e Lilia Alli. Dos 15 títulos produzidos pela Diler & Associados, nove estão entre as melhores bilheterias alcançadas entre 1995 e 2005. Como já foi explicado anteriormente, não é difícil entender o porquê desse sucesso: desses nove filmes, seis são histórias protagonizadas por Xuxa e duas, histórias protagonizadas por Didi, personagem de Renato Aragão. Como a própria produtora afirma no seu site oficial na Internet: “O posicionamento da Diler & Associados como produtora cinematográfica é focado em filmes com objetivos específicos de oferecer entretenimento aos espectadores e lucro aos investidores. Para isso utiliza pesquisas qualitativas e acredita ser fundamental que cada filme, desde sua concepção inicial, tenha o público-alvo bem definido e um rigoroso estudo de viabilidade”.
Por isso, a empresa trabalha constantemente em co-produção com a Globo Filmes e, inclusive, usando atores estrelas da emissora de televisão como seus protagonistas. Além dos filmes rodados com a Xuxa ou com o Didi, também Maria, Mãe do Filho de Deus (2003), Irmãos de Fé (2004), Um Show de Verão (2004) e Coisa de Mulher (2005) foram filmes realizados com atores ou até apresentadores de programas de grande audiência da televisão brasileira. Além dos filmes já citados, completam seu histórico de produções os filmes: Dom (2003), Zico (2003) e Nelson Gonçalves (2001), as únicas produções que se diferenciam em estilo em comparação a um total de 15 filmes produzidos nos dez anos analisados.
Outra informação que também deve ser comentada sobre a empresa e que pode explicar o êxito em bilheteria das suas produções é sobre as suas parcerias em distribuição. Dos seus 15 filmes produzidos nesses dez anos, apenas dois tiveram distribuição realizada por empresa nacional: Zico (2003, distribuição própria) e Nelson Gonçalves (2001, Riofilme). Os outros 13 títulos foram distribuídos por majors americanas com sede no Brasil: Fox, Columbia ou Warner.
Sobre o seu ritmo de produção, a partir do período de retomada do cinema nacional, a Diler & Associados, desde que lançou o seu primeiro filme (Xuxa Requebra, 1999), tem lançado pelo menos uma produção por ano. O ano de 2003, no entanto, merece destaque, já que foi o ano em que a produtora estreou cinco filmes. O fato fez com que a Diler fosse uma das responsáveis pelo fenômeno que foi o ano de 2003 para os números do cinema nacional: o melhor ano de renda em bilheteria desde o início da retomada.
A empresa está sediada na cidade do Rio de Janeiro e tem 27 empregados fixos. Diferentemente da maioria das produtoras brasileiras, como se verá nos próximos sub-capítulos, a Diler & Associados tem como única atividade comercial a produção cinematográfica. Em época de produção, pode chegar a trabalhar com até 350 colaboradores. No seu site oficial na Internet, mantém um link denominado Leis de Incentivo, onde explica a quem se interesse em investir nos seus projetos o que fazer para utilizar as leis vigentes de apoio ao setor audiovisual.
II. Conspiração Filmes
A Conspiração Filmes não está entre as primeiras em número de filmes produzidos entre 1995 e 2005, mas é a segunda com melhores índices de filmes produzidos e relação renda/captação: nove filmes em dez anos e índice renda/captação de 1,678. Como a Diler & Associados, usou recursos subsidiados pelo governo em todas as suas produções realizadas de 1995 a 2005.
A empresa existe desde 1991, quando começou no mercado audiovisual com a produção de musicais e videoclipes. Atualmente, além de atividades na produção cinematográfica, dirige campanhas de publicidade e séries e filmes especiais para a televisão, o que seguramente lhe ajuda a sobreviver financeiramente no mercado de cinema. Nesse setor, teve seu primeiro filme estreado em salas de exibição somente em 1998 (Traição). Em 2005, conquistou a melhor bilheteria do período da retomada, com Dois Filhos de Francisco (2005), que teve 5,3 milhões de espectadores.
Sediada também no Rio de Janeiro e com escritório em São Paulo, a Conspiração Filmes é formada hoje por 15 sócios, além do grupo financeiro Icatu, e conta com cerca de 120 profissionais, entre funcionários e prestadores de serviço. Foi fundada por alguns diretores e produtores das áreas de cinema e publicidade que, atualmente, são bastante renomados no país. Foram eles Arthur Fontes, Cláudio Torres, José Henrique Fonseca, Lula Buarque de Hollanda e Fábio Soares. Com o passar dos anos, outros diretores tornaram-se sócios da empresa, como Andrucha Waddington, Breno Silveira, Carolina Jabor e Vicente Kubrusly.
No que se refere à produção cinematográfica, a Conspiração Filmes produziu, de 1998 a 2005, uma média de um filme por ano. Ao contrário da Diler & Associados, que tem algumas características comuns entre os seus títulos, até 2005, a Conspiração Filmes tinha um histórico de produções bastante variado, desde produções que entraram para o circuito de arte brasileiro e receberam vários prêmios internacionais até filmes bastante apelativos comercialmente, rodados com estrelas nacionais ou até internacionais.
Seus longas-metragens foram distribuídos principalmente por majors americanas (Columbia e Warner) e trabalha constantemente em parceria com empresas internacionais em todos os ramos em que atua. Seus trabalhos para a televisão, por exemplo, costumam ser distribuídos pela HBO Latin América e pelo canal Multishow, entre outros. Assim como a Diler & Associados, a Conspiração Filmes também mantém no seu site oficial um link denominado Projete a Sua Marca em Nossos Filmes, onde enumera razões para que empresas invistam no cinema nacional e explica o funcionamento das leis de incentivo fiscais mantidas pelo governo, além de expor projetos que estão em processo de captação de recursos no mercado.
III. VideoFilmes Produções
Apesar de não ter o índice renda/captação maior que um, o que representa que tenha usado mais recursos financeiros públicos do que captou de renda entre 1995 e 2005, a VideoFilmes Produções merece destaque como produtora no Brasil pelo seu ritmo estável de produção e pelo tempo que leva produzindo. A empresa está entre as poucas que produz desde o início da retomada e pode ser considerada a principal produtora brasileira de cinemaarte.
Fundada em 1987 por Walter Salles e seu irmão, o documentarista João Moreira Salles, a empresa começou inicialmente voltada para a produção de documentários para a televisão, mas atualmente é especializada na realização de documentários e filmes de longa-metragem para o cinema ou para a televisão.
Walter Salles é considerado o principal nome entre os cineastas surgidos na década de 1990 e, certamente, o mais conhecido no mercado internacional. Seu terceiro longa-metragem, Central do Brasil (1998), acumulou mais de 40 prêmios, entre eles o Urso de Ouro de melhor filme e o Urso de Prata de melhor atriz no Festival de Berlim de 1998, além do Globo de Ouro de melhor filme em língua estrangeira em 1999. Internacionalmente, dirigiu a produção pan-americana Diários de Motocicleta (2004), sobre as viagens de Che Guevara pela América Latina antes da revolução cubana, e o drama de horror Água Negra (2005), produção americana da Touchstone Pictures e Buena Vista Entertainment, estrelado por Jennifer Connelly, John C. Reilly e Tim Roth.
Constantemente, a capacidade da VideoFilmes de investir em produções de arte no Brasil é associada à participação da família Moreira Salles na fundação e administração do Unibanco. No entanto, financeiramente, não se pode comprovar a influência dessa relação na produtora.
Entre 1995 e 2005, a VideoFilmes produziu um total de 15 filmes. Ao contrário da maioria das produtoras brasileiras, a produtora, nos dez anos analisados, sempre recorreu a empresas nacionais para distribuir os seus títulos e não utilizou ajuda financeira do governo apenas em dois deles, o que significa que, no Brasil, inclusive a produtora de tão renomado diretor faz uso do apoio financeiro que o governo põe à disposição de projetos audiovisuais. Como as outras duas produtoras comentadas anteriormente, a ViodeFilmes também tem a sua sede na cidade do Rio de Janeiro.
IV. LCBarreto Produções
Antiga Filmes do Equador, a LCBarreto Produções, igualmente que a VideoFilmes Produções, merece ser comentada pela quantidade de filmes produzidos nos dez anos analisados e, principalmente, pelo tempo que leva atuando no mercado audiovisual brasileiro, apesar de sempre haver usado mais recursos públicos nas suas produções do que o que pôde obter de renda em bilheteria com as mesmas.
Foi a LCBarreto Produções a produtora de Dona Flor e seus Dois Maridos, lançada em 1976, vista por mais de 12 milhões de brasileiros, maior público da história do cinema brasileiro. Desde a sua criação, no início da década de 60, produziu mais de 80 filmes e, no período entre 1995 e 2005, nove filmes, deixando de lançar títulos apenas nos anos de 1996 e 2004. Além de se dedicar à atividade cinematográfica, também realiza filmes publicitários, vídeos corporativos, programas especiais para a televisão, documentários, vídeo-clips, trilhas sonoras, jingles e spots publicitários. Elabora também ações de merchandising.
É a produtora da família Barreto, com Luiz Carlos Barreto ao mando. Jornalista, repórter e fotógrafo, Luiz Carlos Barreto começou no cinema em 1961, como co-autor do roteiro e co-produtor do filme O Assalto ao Trem Pagador. Trabalha constantemente em conjunto com a sua esposa, Lucy Barreto, e a sua filha, Paula Barreto. Além disso, seus filhos – Bruno e Fábio Barreto – estão entre os diretores mais importantes do cinema brasileiro.
Em todos os níveis em que atua, trabalha em parceria com outras empresas do setor audiovisual. Um delas é a Moviart, uma das maiores produtoras de filmes publicitários do Brasil. No setor cinematográfico, tem como empresas parceiras a Warner Bros. Entertainment Inc., a Paramount, a Globo Filmes e a Miravista. Além disso, dos nove títulos que produziu entre 1995 e 2005, dois deles foram distribuídos pela Columbia TriStar Pictures. Nesse sentido, no entanto, a produtora não mantém um padrão: optou quase que igualmente por distribuidores nacionais ou internacionais.
Entre os títulos que produziu, merecem destaque O Quatrilho (1995) e O que é isso, Companheiro? (1997). Ambos tiveram especial importância na reconquista do público nacional desde 1995, sobretudo porque foram candidatos ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro de seus respectivos anos, o que pode ser considerada praticamente uma campanha de marketing gratuita. Suas produções cinematográficas não obedeceram a um estilo comum, variando entre aventuras voltadas para o público infantil, dramas intensos, comédias com estrelas da TV Globo e até documentários. Nos nove filmes que realizou nos dez anos analisados, não utilizou recursos subvencionados apenas em um deles. Trata-se de mais uma produtora cinematográfica sediada na cidade do Rio de Janeiro.
No seu site oficial, por meio do link Cinema Dá Dinheiro: Não é Rolo, a produtora é mais uma que explica por que investir em produções cinematográficas e faz um resumo das leis de apoio ao setor em vigência no momento.
V. Casa de Cinema de Porto Alegre
A Casa de Cinema de Porto Alegre está entre as melhores produtoras brasileiras por ter bom ritmo de produção, em comparação com a maioria das produtoras do país, e um índice positivo de renda/captação. Nos dez anos analisados, teve um total de cinco títulos lançados nas salas de cinema. É uma das únicas produtoras, entre as principais brasileiras, situadas fora do eixo Rio de Janeiro-São Paulo. Tem a sua sede na cidade de Porto Alegre, Rio Grande do Sul, região sul do Brasil.
A produtora foi criada em dezembro de 1987 por um grupo de cineastas gaúchos que já trabalhavam em conjunto desde o início dos anos 80. Em sua primeira fase, a Casa foi uma cooperativa de 11 realizadores, reunidos em 4 pequenas produtoras, que passaram a ter um espaço comum para trabalhar a distribuição dos filmes já realizados e o planejamento e realização dos próximos projetos. A partir de 1991, a empresa então se tornou uma produtora independente, com seis sócios. São eles: Carlos Gerbase, Giba Assis Brasil, Jorge Furtado, Ana Luiza Azevedo, Nora Goulart e Luciana Tomasi, todos profissionais do setor de cinema, entre roteiristas, diretores e produtores. Tem cinco empregados fixos e conta com 14 colaboradores.
Além de produzir filmes de longa-metragem, a produtora produz vídeos e programas de televisão (especiais e séries), organiza cursos de roteiro e de introdução realização cinematográfica, fóruns de debates e programas eleitorais para a televisão. Tem parceria com grandes grupos de mídia, como TV Globo, a RBS TV e o Channel 4 inglês e com as distribuidoras internacionais Columbia e Fox, que são as que distribuem os seus filmes.
Desde 2000 e até 2005, a Casa de Cinema de Porto Alegre teve cinco filmes estreados nas salas de cinema do Brasil, dois deles com mais de 500 mil espectadores. Apesar de haver utilizado os recursos subvencionados pelo governo em todas as suas produções desse período, a produtora conseguiu obter mais renda em bilheteria com as mesmas produções do que os recursos captados no mercado.
VI. Copacabana Filmes
Além de estar entre as produtoras com mais filmes produzidos nos dez anos analisados (quatro) e ter um índice renda/captação maior que um, a produtora teve especial papel para a retomada do cinema nacional, já que foi a responsável pelo filme Carlota Joaquina, Princesa do Brazil (1995). Criada em 1993 e com sede na cidade do Rio de Janeiro, como a maioria das produtoras brasileiras, a Copacabana Filmes também se dedica à produção de teatro e ópera, à distribuição de filmes, à organização de eventos ligados a produtos culturais e à publicidade.
O filme Carlota Joaquina, Princesa do Brazil (1995) foi resultado de um projeto conjunto da atriz Carla Camurati e da produtora Bianca de Felippes, que estreavam no cinema como diretora e produtora, respectivamente. Depois de dois anos de produção, em 1995, as duas rodaram o país com cópias do filme, num trabalho inédito de distribuição independente. O filme, além de conquistar um público de quase 1,5 milhão de pessoas, teve 20 mil cópias em vídeo vendidas, numa época em que as produções brasileiras não ultrapassavam a marca de cinco mil fitas.
Como se dedica a inúmeras outras atividades dentro do setor cultural, a produtora lançou um filme no cinema a cada três anos. Somente quatro filmes produzidos pela empresa não foram distribuídos pela própria Copacabana Filmes, responsável também pela distribuição de filmes nacionais que não são de produção própria, como Janela da Alma (2002, Ravina Produções) e Bellini e a Esfinge (2002, Afrodisia Flores Produções). Dos quatro filmes que produziu, somente o primeiro (Carlota Joaquina, 1995) não usou ajuda financeira pública, concedida por meio das leis de incentivo fiscal.
VII. O2 Filmes
Produtora de um dos filmes brasileiros mais vistos internacionalmente (Cidade de Deus, 2002), a O2 Filmes merece destaque por ser a maior produtora independente na América Latina no que se refere ao seu complexo de estúdios. Sua sede principal, na cidade de São Paulo, tem 2.400 m2, onde oferece instalações para equipes de produção e salas reservadas para produção executiva.
A produtora foi criada por Fernando Meirelles e Paulo Morelli que, depois de passarem 10 anos produzindo programas para a televisão por meio da produtora Olhar Eletrônico, criada por eles mesmos, ampliaram os negócios para o cinema publicitário e a transformaram na O2 Filmes. Desde 1991, então, a O2 Filmes trabalha para inúmeras agências brasileiras de propaganda, presta serviços de produção para o mercado internacional e produz séries de televisão, documentários e videoclipes. Seu primeiro longa-metragem para o cinema foi lançado em 2001 (Domésticas). Desde então e até 2005, fez mais dois filmes, entre eles Cidade de Deus (2002), um dos maiores públicos do período da retomada. A edição do filme – rápida, em imagens curtas e impactantes - também foi considerada inovadora e pode haver sido conseqüência da experiência do diretor em publicidade e videoclipes.
Também com uma filial na cidade do Rio de Janeiro, a produtora conta com 14 diretores fixos e produz em média 400 comerciais por ano. Seus sócios são os diretores Fernando Meirelles e Paulo Morelli e a produtora Andrea Barata Ribeiro. Apesar de toda essa estrutura industrial e financeira, a produtora utilizou recursos apoiados pelo governo em todos os seus longasmetragens. A distribuição das suas produções, dentro do país, foi feita tanto por empresas nacionais (Lumière e Pandora) como internacionais (Buena Vista).
VIII. Renato Aragão Produções
A Renato Aragão Produções é a produtora do ator, idealizador e produtor de filmes Renato Aragão. Começou sua carreira na televisão, com a criação do grupo humorístico Os Trapalhões, em 1960. O programa do grupo passou por várias emissoras de televisão até se consagrar na TV Globo, principal rede de televisão brasileira, convertendo-se em uma de suas melhores marcas em audiência, principalmente nos anos 80. Até 2005, ainda tinha contrato de exclusividade com a cadeia de televisão.
Desde os anos 70 até 2005, Renato Aragão foi responsável pela produção de cerca de 40 filmes dirigidos ao público infantil e relacionados a aventuras com o grupo humorístico ou, mais recentemente, com o grupo já desfeito, ao personagem interpretado por ele, o Didi. Treze filmes estrelados e produzidos por Aragão figuram entre as 20 maiores bilheterias do cinema brasileiro nas décadas de 1970 e 1980. Sua produtora detém todos os direitos dos filmes relacionados com o personagem e o antigo grupo humorístico Os Trapalhões.
A partir da retomada do cinema nacional e até 2005, a Renato Aragão Produções, também sediada no Rio de Janeiro, produziu quatro filmes, dois deles em co-produção com a Globo Filmes. Não utilizou recursos subvencionados apenas em dois filmes produzidos durante o período. Como suas produções, distribuídas em geral pela Columbia, estão entre as de melhor público do período da retomada, manteve um índice renda/captação bastante positivo nos dez anos analisados, de 4,543. Voltadas para o público infantojuvenil, três produções da Renato Aragão Produções estão entre as melhores bilheterias do período da retomada, além de outras duas produções protagonizadas pelo personagem Didi, produzidas pela Diler & Associados, a principal produtora em número de filmes e renda nos dez anos do período estudado.
IX. Globo Filmes
Das 34 produtoras de melhor renda total em bilheteria com produções lançadas entre 1995 e 2005, a Globo Filmes é a única que não utilizou nenhum tipo de recursos subvencionados pelo governo federal161 e, por isso, já merece ser comentada, apesar de ter apenas três filmes como produção própria.
Criada em 1998, a Globo Filmes é mais uma produtora sediada no Rio de Janeiro. Braço de cinema das Organizações Globo, seus principais trabalhos, desde que foi criada e até 2005, foram em co-produções. No total, a produtora co-produziu, com produtoras independentes, 32 filmes do mesmo período. Somente um desses 32 filmes não usou nenhuma ajuda financeira do governo federal. Por fazer parte do maior conglomerado de mídia da América Latina, as Organizações Globo, suas produções têm campanhas de lançamento garantidas em todos os seus meios de comunicação. O resultado se pode ver pelos melhores índices de bilheteria alcançados entre 1995 e 2005. Das 30 melhores produções em bilheteria durante os dez anos estudados, 22 são co-produções da Globo Filmes.
Algumas dessas produtoras com que a Globo Filmes co-produziu têm apenas um filme produzido durante todo o período analisado ou, se têm dois, ambos são co-produções com a Globo Filmes. Nesse caso, estão as produtoras Lereby Produções, Natasha Enterprises, Nexus Cinema e Vídeo, Missão Impossível Cinco Produções, Rio Vermelho Filmes e Spectra Mídia Produções. Apesar de pequenas e de terem produzido, no máximo, três filmes entre 1995 e 2005, cada uma dessas produtoras conseguiu bom índice de bilheteria para suas produções, o que pode ser explicado pela parceria mantida com a Globo Filmes.
Um caso especial é o da Lereby Produções. Trata-se da produtora de Daniel Filho, ator e diretor de cinema e televisão, que atua no mercado audiovisual desde a década de 50. Personalidade renomada do cinema brasileiro, Daniel Filho é diretor e produtor também da Globo Filmes, além de produzir filmes com a Lereby Produções. Todas as produções da Lereby Produções realizadas entre 1995 e 2005 foram feitas em co-produção com a Globo Filmes.
Outro exemplo de produtora que tem todos os filmes produzidos em co-produção com a Globo Filmes é o da Missão Impossível Cinco Produções. Durante o período de captação de recursos no mercado, por meio das leis de incentivo fiscal, para a produção de Os Normais (filme homônimo de uma famosa série cômica da TV Globo), em 2002, o projeto teve o seu direito de captação suspendido pelo Ministério da Cultura devido à participação da Globo Filmes na produção. A Globo Filmes, de acordo com a lei, não pode ser beneficiada por essas leis, por não se tratar de uma produtora independente.
A Missão Impossível Cinco Produções pertence a um executivo da TV Globo, Eduardo Figueira. O vínculo do executivo com a TV chamou a atenção do Ministério da Cultura para a possibilidade de a Globo Filmes estar usando um artifício para conseguir autorização para captar recursos pelas leis de incentivo. Ao final, Eduardo Figueira conseguiu comprovar que a produtora era independente da Globo Filmes, que teria participação minoritária no projeto, e captou no mercado R$ 1,5 milhão para a realização do filme.
A estratégia de co-produções da Globo Filmes tem dois lados. Por um lado, ajuda produtores pequenos a realizarem projetos de grande repercussão nacional. Por outro lado, coloca o seu nome em grandes êxitos de bilheteria da produção brasileira, mas, como o faz como co-produtora, possibilita que suas parceiras consigam utilizar os recursos subsidiados pelo governo, reduzindo seus próprios investimentos nessas co-produções. Nesse sentido, para José Joffly, produtor e diretor brasileiro, a estratégia da empresa é prejudicial à indústria cinematográfica:
O Brasil não consegue legislar sobre as emissoras de televisão, concessionárias de um serviço público. Nos paises europeus, por exemplo, os canais de TV não podem produzir diretamente sua programação. Os conteúdos são terceirizados e as produtoras de audiovisual podem contar com os recursos das emissoras. A televisão é parceira de 90% dos filmes produzidos na Europa. A questão aqui só é mais grave porque, ao contrário dos outros paises do mundo, a televisão não sofre qualquer legislação e a produção não é terceirizada para produtores independentes. A própria emissora, na realidade é, mais que tudo, uma grande produtora. Isso deixa os produtores reféns da ocasional política favorável ao cinema. O que conferiria estabilidade à produção seria a parceria com as emissoras de televisão.
A produtora Mara Mourão tem a mesma opinião.
Em todos os outros países do mundo existem leis que obrigam as TVs a produzir conteúdo audiovisual independente. Aqui temos a TV Globo num modelo único no mundo: uma empresa que produz, exibe e distribui. Deixando muito pouco espaço para a produção independente.
Os altos índices de bilheteria das produções e co-produções da Globo Filmes também podem ser explicados pela influência do monopólio em audiência que mantém a TV Globo no país. Dos 35 filmes produzidos pela Globo Filmes, entre produções próprias e co-produções, sete são histórias protagonizadas pela apresentadora infantil Xuxa ou pelo humorista e apresentador infantil Renato Aragão, com o seu personagem, o Didi. Outros quatro filmes também são versões de séries da TV Globo ou histórias protagonizadas por apresentadores infantis de programas com altos índices de audiência.
Além desses, dois filmes da produtora foram transmitidos antes pela TV Globo e, só depois do seu êxito na emissora, levados às salas de cinema. Todas essas produções estão entre as 43 melhores em bilheteria no período compreendido entre 1995 e 2005. Tomando-se em consideração todos os filmes em que teve participação a Globo filmes, como produtora ou coprodutora, a empresa tem 30 filmes entre as produções de mais de 500 mil em público, lançadas entre 1995 e 2005, dos 43 filmes que alcançaram essa marca no mesmo período. O número representa quase 70% dos filmes de melhor bilheteria nesses dez anos.
Além de produzir e co-produzir, a Globo Filmes, desde 2004, apóia financeiramente o lançamento de filmes de produtoras independentes no Brasil. A modalidade de apoio só é válida para filmes já finalizados, com distribuidora definida e data de lançamento planejado. Esse modelo visa maior exposição do filme na época do lançamento, através do investimento em chamadas publicitárias nas regiões metropolitanas de São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Brasília e Recife, considerados os principais mercados do país. Entre os filmes produzidos de 1995 a 2005 que foram contemplados com esse apoio financeiro para o seu lançamento estão A Pessoa é para o que Nasce (2005, TV Zero Produções), Coisa Mais Linda (2005, Vitória Produções Cinematográficas), Benjamim (2004, Dueto Produções) e Dom (2003, Diler & Associados)
X. Outras Produtoras.
Além das produtoras consideradas as mais importantes, entre as 34 empresas que conseguiram melhor renda de 1995 a 2005, há ainda produtoras que se encaixam em duas situações distintas no que diz respeito ao número de filmes produzidos e ao índice renda/captação.
Como as ajudas oferecidas pelo governo ao setor audiovisual permitem que uma produtora produza sem fazer praticamente nenhum investimento próprio, há casos de empresas que realizaram de três a cinco filmes nos dez anos analisados e não conseguiram obter renda em bilheteria total maior do que os recursos subvencionados que usaram para realizá-las177. Estão entre esses casos as produtoras Sky Light Cinema (quatro filmes; índice renda/captação de 0,260), A. F. Cinema e Vídeo (cinco filmes; 0,311), Morena Filmes (três filmes; 0,363), Raccord Produções (três filmes; 0,609), Grupo Novo de Cinema e TV (cinco filmes; 0,529), Ravina Produções (cinco filmes; 0,229) e Cinematográfica Superfilmes (cinco filmes; 0,223).
Por outro lado, estão as produtoras que fizeram, no máximo, dois filmes nos dez anos analisados, e também usaram mais recursos subvencionados pelo governo do que o que conseguiram alcançar de renda total em bilheteria com suas produções. São exemplos de produtoras nessa situação: Tietê Produções (dois filmes; índice renda/captação de 0,536), EMB Promoções (um filme; 0,700), Anima Produções (um filme; 0,407) e Start Desenhos Animados (um filme; 0,356).
Um caso especial é o da produtora Brasil 1995, que fez um único filme nesses dez anos e não usou nenhum recurso subvencionado pelo governo, apesar de ser uma produtora independente. Sua única produção, no entanto – Todos os Corações do Mundo (1996) – gerou renda em bilheteria de um pouco mais de R$ 1 milhão e a explicação pode estar no fato de que se tratava de um documentário sobre o Campeonato Mundial de Futebol de 1994, quando a seleção brasileira foi campeã depois de 24 anos sem vencer.
O cenário produtivo brasileiro, pelo que se pode concluir por meio dos dados apresentados, basicamente, está dominado por umas poucas grandes produtoras e depende quase que totalmente das ajudas governamentais existentes. As produtoras, sejam grandes ou pequenas, no entanto, dependem ainda das negociações com os distribuidores, para fazerem seus títulos chegarem às salas de cinema do país. O próximo capítulo, portanto, se dedicará a explicar o funcionamento do setor de distribuição cinematográfica no Brasil.
3 - A Distribuição Cinematográfica no Brasil
Uma distribuidora cinematográfica é a responsável, dentro da indústria cinematográfica, por fazer o filme chegar ao consumidor final - o espectador - seja por meio das salas de exibição, seja diretamente às suas casas, por meio dos DVDs, ou inclusive aos aparelhos de TV, quando vende os direitos de exibição dos filmes a emissoras de televisão de sinal aberto o pago. Neste capítulo, no entanto, o objetivo é descrever e analisar o funcionamento do mercado de distribuição de filmes no Brasil relacionado somente à sua exibição em salas de cinema.
Por estar situado entre os setores de produção e exibição e negociar com ambos, pode-se dizer que o setor de distribuição tem o papel mais importante dentro indústria cinematográfica. Uma distribuidora adquire os direitos de um título e se responsabiliza por vendê-lo: negocia com os exibidores, realiza e executa o plano de publicidade e participa inclusive das negociações com as cadeias de televisão e os operadores de transmissão por cabo. Por isso, pode ter influência direta no processo de produção, já que muitos produtores utilizam, durante a produção de um filme, capital adquirido pela venda antecipada dos direitos do mesmo a uma distribuidora; e tem influência nas condições em que o título será exibido, já que é a responsável por negociar aonde será exibido e quantas cópias colocará no mercado exibidor. Como funciona o processo de distribuição de filmes de forma global e sua importância na indústria cinematográfica podem ser compreendidos com algumas afirmações do professor canadense Colin Hoskins.
Feature film producers around the world are in the same situation as US independents – they possess no distribution network to ensure that their product reaches consumers. Such independents sometimes sell completed films outright to the majors (the so-called ‘negative pick-ups’, because it is the negative of the completed film that is being acquired). Alternatively, the majors may take on distribution of such films on a contract basis. Or, smaller – sometimes national – distributors, or even the producers themselves, may carry out the distribution function. The average filmgoer knows very little about distribution and the distribution function. In the feature film business, producers rely on distributors to reach exhibitors and final consumers while exhibitors in turn rely on distributors for a steady supply of product attractive to audiences. (…) The early Hollywood dominance of the film industry was not based on favourable production conditions but rather on an early emphasis on distribution and exhibition strategy. (Hoskins, 1997: 52)
No Brasil, as afirmações de Hoskins se confirmam. Como acontece em todo o mercado cinematográfico global, o setor de distribuição está dominado pelas majors181 americanas, tanto no que diz respeito à distribuição de filmes estrangeiros no país como à distribuição de filmes nacionais no mercado doméstico. O próximo apartado se dedicará a avaliar as atividades das distribuidoras cinematográficas no país no que diz respeito aos títulos de produção local, entre 1995 e 2005.