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Odontologia

5 - A rede de trabalho odontológico a partir do século XVIII

Antes de conhecer os dilemas existentes em relação ao conhecimento odontológico, é necessário conhecer os praticantes da arte dental e sua inserção no mercado de serviços odontológicos. A posição dos praticantes no mercado pode ajudar a separar o “dentista” típico do charlatão, ou do praticante da arte dentária apenas como ocupação secundária ou complementar.17

As evidências sugerem que a profissão odontológica não evoluiu de um único tipo de praticante, assim como não se constituiu de uma simples combinação de diferentes tipos de artesãos que, por interesses econômicos ou afinidade com a natureza manual do trabalho, já praticavam algumas das atividades dentárias. Ao contrário, as evidências apontam para a competição entre grupos ocupacionais diversos pelo controle profissional do crescente mercado de trabalho odontológico.

Assim, a partir, principalmente, da segunda metade do século XVIII, o mundo social da prática odontológica esteve constituído por uma rede diversa de praticantes, qualificados e não-qualificados na arte dentária; os limites entre eles, notoriamente obscuros. A lista dos grupos ocupacionais envolvidos no mercado da prática odontológica era, de fato, interminável: barbeiros, ferreiros, ourives, relojoeiros, boticários, cirurgiões, médicos, para citar os mais comuns (Hillam, 1991, p.125). Muitos deles prestavam serviços odontológicos como uma atividade complementar à sua atividade de origem; outros se tornaram, com o tempo, dentistas em tempo integral. Além disso, havia os praticantes exclusivos de odontologia, que se intitulavam especialistas na “arte dental”: operadores de dentes, “dentateurs”, “toothdrawers”, “crawcours”, cirurgiões-dentistas, ou simplesmente dentistas.18 A essa lista é preciso acrescentar os “irregulares”: empíricos, mágicos, ambulantes, charlatães, e toda sorte de "aventureiros" (Ramsey, 1988). De fato, nos séculos dezessete e dezoito, praticamente não existiam sanções de ordem legal, através de estatutos ou decisões judiciais, nem requisitos de treinamento formal para o exercício da prática odontológica, sendo inevitável o surgimento de “aventureiros” em torno da florescente atividade da odontologia. É no meio dessa diversidade de grupos ofertantes que se inicia uma verdadeira batalha pelo monopólio profissional, destacando-se a organização de grupos de interesse e a construção de estratégias de legitimação profissional.

5.1. Crescimento profissional: incentivos e restrições

Conforme visto, por todo o século dezessete e anteriormente, apenas um grupo muito pequeno de indivíduos se dedicava ao limitado mercado de serviços dentários, geralmente restrito às camadas mais abastadas da sociedade. Já no século dezoito, principalmente na segunda metade, vimos emergir uma mudança mais significativa nessa área de trabalho, levando ao aumento de grupos ofertantes, especializados ou não. Segundo Hillam (1991), a diversificação e disseminação da arte dentária foram as principais razões do primeiro pico no número de especialistas em odontologia na Inglaterra. É razoável supor que esse fato tenha ocorrido em maior ou menor grau em quase toda a Europa. No entanto, é na virada do século dezenove, impulsionado pelo aumento radical do consumo do açúcar e incremento das doenças bucais, que vamos observar um segundo pico na oferta de serviços bucais, através da proliferação de grupos de praticantes da arte dentária.

De fato, há indícios de que nas cinco primeiras décadas do século dezenove, o número de especialistas em odontologia esteve em franca expansão, desta vez para atender também aos menos afluentes; a universalização da demanda dentária exercia, dessa forma, o papel de fomentador da competição entre os grupos diversos de "especialistas" dentais. Nos Estados Unidos, por exemplo, a falta de restrição corporativa em torno aos grupos ocupacionais possibilitou uma extraordinária expansão na oferta de expertos em odontologia.19 A percepção de que a prática odontológica se tornara altamente lucrativa, encorajava a entrada nesse campo de trabalho.20 De acordo com Schwartz (1954, p.543), “a odontologia americana retirava seus recrutas entre os habilidosos e engenhosos da vida (...) atraídos para a odontologia em função do desafio e da oportunidade”.

Muitos médicos americanos se voltaram para o exercício da prática odontológica, não apenas motivados pelo potencial de trabalho nessa área, mas porque se encontravam ameaçados pelos sérios conflitos existentes no campo de trabalho da medicina do século dezenove. De fato, na primeira metade do século XIX, a posição social e econômica dos médicos esteve ameaçada pela falta de credibilidade, resultante da ineficiente e duvidosa medicina “heróica” praticada pelos médicos e pela forte competição entre as diferentes "seitas" médicas, com propostas alternativas de cura (Pernick, 1985). Hillam (1991) sugere que algumas famílias médicas na Inglaterra se moveram gradualmente para a odontologia por dois motivos: primeiro, porque o mercado médico estava saturado e, segundo, em razão dos baixos custos envolvidos no treinamento do dentista (sistema mestre-aprendiz); tanto a prática da medicina quanto a da farmácia já se encontravam regulamentadas, exigindo requisitos mais rígidos de entrada para seus candidatos (escolas, associações, licenciamento, etc.). Nos Estados Unidos, o problema parecia ser mais conjuntural, relacionado à crise econômica. Segundo Schwartz (1954,p.544), “por causa da disseminação do desemprego e da falta de legislação, a odontologia foi povoada por praticantes desqualificados, o número de dentistas dobrando durante os dois anos da Depressão (1837-39). Para os dentistas qualificados, status profissional (...) tornou-se uma questão de sobrevivência”.

Um outro fator que contribuiu para a rápida expansão do número de praticantes da odontologia foi a disponibilidade de recursos técnicos; assim, quando o aumento da demanda por serviços bucais se fez mais evidente, nas primeiras décadas do século dezenove, já existia um corpo razoável de técnicas e conhecimentos odontológicos (desenvolvidos no século anterior). A existência desses meios, aliada à natureza manual e mecânica do trabalho odontológico foi, certamente, um facilitador da rápida adesão de praticantes a esse campo.

O incremento da demanda por serviços de odontologia, além promover uma rápida expansão na oferta de dentistas, abriu também a possibilidade de dedicação em tempo integral a essa atividade. Um exemplo de que a prática odontológica teria se tornado comum no início do século XIX, com a possibilidade de dedicação integral dos seus praticantes, pelo menos nos centros urbanos, pode ser constatado na declaração de Joseph Fox:

Uma atenção à aparência do dente; - um desejo de preservá-lo em um estado saudável; - e a necessidade que existe de procurar alívio quando os dentes estão afetados pelas doenças são fontes de considerável ocupação. Nas metrópoles e cidades maiores, homens profissionais, como os dentistas, são capazes de confinar sua prática a esse departamento apenas. (Joseph Fox, 1814, p.ix, grifo nosso).

De fato, o grau de desenvolvimento técnico do trabalho odontológico, somado aos ganhos econômicos gerados, justificava os esforços de dedicação integral a essa nova área de trabalho.21 No campo, nas zonas rurais, a atividade ainda permaneceu como uma ocupação marginal e terreno aberto para a atuação de irregulares e ambulantes por muito mais tempo.

Com efeito, a relativa facilidade de ingresso nesse campo de trabalho representou a abertura de oportunidades ocupacionais numa sociedade cada vez mais competitiva. Com a demanda por serviços dentários mudando em quantidade e qualidade, e os meios de regulamentação da atividade completamente ausentes, os dentistas, qualificados ou não, estavam sujeitos ao mecanismo regulador do mercado. Isso significava a existência de um campo de trabalho extremamente atrativo, especialmente para os que estavam em busca de fama e fortuna. Com a abertura para um imenso leque de praticantes, a competição se tornava cada vez mais acirrada, dificultando as possibilidades de articulação e negociação das diferenças dentro desse campo de trabalho. Essa concorrência pelo lucrativo “negócio” da odontologia estabeleceu as condições necessárias para as demandas de monopólio profissional. Como bem observa Hillam (1991, p.35), “enquanto existe um excesso de demanda, os incompetentes e os sem ética podem ser ignorados e deixados para encontrar seus próprios níveis (...) e quando existe um rápido aumento na oferta, as fileiras são fechadas e o “charlatanismo” é usado como um fator de discriminação”. Na verdade, a proliferação de expertos e a competição no mercado agiram como elementos organizadores da jurisdição, determinando a busca pelo fechamento do mercado odontológico, especialmente, por aqueles grupos interessados em colocar-se em posição de vantagem. Para aqueles que queriam obter benefícios exclusivos do crescente mercado de serviços odontológicos, era imperativo eliminar a competição.

Por isso, na primeira metade do século dezenove, havia estímulo suficiente para que alguns grupos de dentistas liderassem estratégias de fechamento de mercado.22 Faziam parte dessas estratégias os discursos dos cirurgiões-dentistas dirigidos a distintas audiências, aos próprios profissionais da área, ao público leigo e ao Estado - nesse último caso, com vistas à regulamentação da atividade. De fato, os discursos dos dentistas candidatos à profissão evidenciavam uma grande preocupação com a disputa dentro do seu campo de trabalho, tanto da parte dos irregulares - aventureiros e charlatães - quanto entre os próprios praticantes da arte dentária. Esses discursos expressavam os argumentos da profissão, sobretudo, quanto a quem deveria produzir (e, mais tarde, quem poderia) e como deveriam ser produzidos os serviços de odontologia, na tentativa de convencer as audiências da necessidade do monopólio de um único grupo, o dos dentistas credenciados, sobre esse recém-criado campo do saber.

6 - Disputas internas e externas: construindo teorias odontológicas

A competição pela jurisdição da odontologia levantou uma série de disputas e conflitos em torno desse recém-definido campo de trabalho. Primeiro, de dentro da profissão, com a presença de grupos com formas diferentes de pensar e organizar a prática odontológica. Segundo, de fora da profissão, contra pelo menos dois grupos distintos representados, de um lado, pelos charlatães e empíricos, típicos atores da sociedade desregulada do século dezenove e, de outro, pela profissão médica que, conforme vimos, encontrava-se em crise.

Em relação aos conflitos internos à ocupação odontológica, Gies (1926) destaca a existência na América, na primeira metade do século XIX, de dois tipos de dentistas, cujas diferenças estavam relacionadas principalmente às suas origens, da vocação empírica ou mecânica, ou da formação profissional ou científica. O primeiro grupo, certamente o maior, reconhecia e valorizava a odontologia como um próspero negócio. A maioria dos seus praticantes não era escolarizada e, portanto, ignorante no conhecimento das ciências. Por outro lado, eram artesãos altamente qualificados e habilidosos nas artes dos ofícios e competentes no manejo de pequenos instrumentos, bem ajustados ao tipo de trabalho da odontologia. O segundo grupo, menor, era composto basicamente de médicos, que pretendiam definir e organizar a odontologia como uma ciência do ramo da medicina.23 Seus homens, educados nas ciências, detinham, provavelmente, posições e influências na sociedade da época (Gies, 1926).

Parece que ambos dividiam a mesma preocupação, de encontrar uma identidade para a ocupação odontológica e eliminar a competição dos incompetentes. Contudo, alimentavam diferentes pontos de vista sobre o rumo que a odontologia deveria tomar: se em direção ao campo de trabalho médico ou cirúrgico, como mais uma de suas especialidades, ou um caminho de autonomia e independência. Os dilemas se fundamentavam na racionalidade do trabalho odontológico, se atividade científica ou mecânica, ou seja, se arte dental ou ciência dental. Em qualquer dos casos, a crise de identidade teria se intensificado em função do crescimento da concorrência que assolou a odontologia nas primeiras décadas do século dezenove, estabelecendo a necessidade de discriminar quem eram e como deveriam atuar os “verdadeiros” dentistas.

Independentemente dos praticantes possuírem identificação com uma ou outra concepção, arte dental ou ciência dental, o trabalho permanecia puramente mecânico, tanto para os praticantes quanto para a opinião do público, e a formação essencialmente empírica, no tradicional sistema mestre-aprendiz. O texto abaixo exemplifica a permanência desse dilema odontológico ainda no final do século dezenove:

(...)o jovem graduado de várias escolas e universidades, nativas e estrangeiras, pode realmente possuir muito mais conhecimento sobre o que é chamado ciência da medicina do que os velhos praticantes [da Arte Dentária] e ainda você e eu vamos preferir confiar no homem da arte ao invés de no homem da ciência.(Cigrand 1892, p.262, grifo nosso).

O dilema entre arte e ciência dental esteve presente nos debates pela construção de sua identidade profissional. A confusão em torno do assunto foi ressaltada por Cigrand (1892, p.257), que afirmava que os “(...) autores sempre usam a primeira palavra [arte] quando o significado da última [ciência] é inferido e vice-versa”. Na opinião do autor, existia uma arte odontológica e uma ciência odontológica, e cada uma cumpria uma função diferente no desenvolvimento da odontologia. Na realidade, o paradigma da ciência odontológica, liderado por um dos grupos que disputava o monopólio desse campo de trabalho, não era, de forma alguma, hegemônico. Em sua reflexão, Cigrand (1892) vai mais além, ao demonstrar que boa parte dos profissionais da odontologia aceitava, orgulhosamente, o caráter essencialmente mecânico da sua prática:

(...) quando nós tentamos dividir a odontologia entre operativa e protética ou mecânica, nós cometemos uma injustiça com a nossa profissão, e assumimos uma falsa posição para a nossa grande arte, a qual é fundamentada quase que exclusivamente na nossa habilidade como mecanicistas e, sem a qual, num grau muito grande, nós seríamos inúteis. (Cigrand, 1892, p.263, grifo nosso).

Para alguns dentistas, portanto, a divisão da odontologia entre operativa (médica e cirúrgica) e mecânica (protética) era um equívoco, uma vez que ambas dependiam da manipulação mecânica de materiais, por meio de instrumentos. Para Cigrand (1892) seria mais exato descrevê-la apenas como prótese, estrutural e orgânica. Esse ponto de vista parecia rejeitar, pelo menos em princípio, a necessidade de uma abordagem científica para a prática odontológica.

Essa não era a posição dos defensores da ciência dental. De fato, o médico Chaplin Harris, conhecido por ter fundado a primeira escola de odontologia nos Estados Unidos, em 1840, defendia uma posição científica para a profissão; para ele, apenas a ciência podia dar distinção ao profissional, pois “sem [a ciência], ele é incapaz de exercitar todas as obrigações que pertencem apropriadamente ao dentista” (AJDS, Vol. I, No. I, 1839, p.52). Com o tempo, o discurso da ciência dental superaria o discurso mecanicista dos tradicionais praticantes da odontologia, muito embora o dilema entre ciência e arte fosse permanecer por um tempo muito mais longo.24

Independentemente da persistência desse dilema, o discurso da Ciência Dental tinha um impacto muito positivo no cumprimento das estratégias de profissionalização dos dentistas; os homens da ciência atraíam mais respeito das audiências a que serviam (o público) do que o faziam os trabalhadores manuais, principalmente numa sociedade como a americana, que acreditava na racionalidade e na “verdade” da ciência moderna como a chave do desenvolvimento humano. De fato, os próprios praticantes “mecanicistas” seriam, mais tarde, rendidos aos encantos e vantagens do poder proporcionado pelo status de profissão.25

Além de resolver os dilemas e as disputas internas ao campo de trabalho da odontologia, os dentistas tiveram também que se dirigir às audiências externas, movimentando-se em, pelo menos, duas direções: ao reconhecimento profissional, especialmente pela profissão médica, e ao reconhecimento social, em relação à sua credibilidade pública. Para obter reconhecimento e domínio sobre a jurisdição odontológica, eles ainda teriam que considerar a luta contra o charlatanismo. Dito de outra forma, para almejar a confiança do público, os dentistas tiveram, primeiro, que se alinhar em torno a uma única identidade profissional, da ciência dental e, segundo, eleger duas frentes de batalha: uma, contra a profissão médica, pela igualdade, e outra, contra os charlatães, pela supremacia.

Como parte das estratégias, incluía-se a elevação dos padrões qualificativos do cirurgião-dentista para um nível semelhante ao dos médicos, tendo como requisito básico a formação do dentista nas ciências médicas, anatomia, fisiologia, cirurgia, patologia e terapêutica. Reproduzindo-se as mesmas bases de formação da profissão médica, sem, contudo, agregar-se a ela, facilitar-se-iam a eliminação dos empíricos e charlatães e a delimitação da autonomia do trabalho odontológico.

Para completar a estratégia de controle do campo de trabalho, era preciso obter apoio da opinião pública, o que ocorreria por meio da construção de argumentos que pudessem modificar a imagem odontológica perante o público. Os elementos para isso já existiam: os dentistas tinham os problemas dentários e as soluções odontológicas; faltava construir argumentos persuasivos para convencer as audiências sobre sua competência exclusiva e importância singular nos assuntos que diziam respeito aos dentes e à boca.26

7 - A autoridade das metáforas na definição da imagem profissional

As estratégias utilizadas pelos dentistas para se colocarem como uma profissão socialmente útil, perante suas audiências, podem ser encontradas nos discursos presentes no processo inicial de criação das primeiras instituições odontológicas americanas (escolas, jornais, associações), os quais revelam os esforços devotados a expressar sua competência exclusiva para tratar dos assuntos da odontologia.27 Conforme se verá adiante, destacam-se, nesses discursos, as metáforas e imagens criadas a partir da dor e sofrimento humanos como base para a construção de uma nova abordagem da odontologia: a da ciência dental.

7.1. Buscando reconhecimento profissional: arte dental e ciência dental

A definição da natureza do trabalho da então arte dentária esteve presente em quase todas as literaturas odontológicas de meados do século dezenove, nos Estados Unidos. De fato, as questões sobre arte mecânica tanto quanto ciência odontológica foram temas discutidos, ali, com freqüência. As demandas para suplantar a imagem “mecanicista” que o público tinha com respeito à arte dental tiveram um papel de protagonista na luta pelo status profissional. Isso significava superar a imagem de “ocupação mecânica” e, ao mesmo tempo, construir uma imagem de “ocupação científica”. Não havia unicidade clara de pensamento; algumas lideranças odontológicas radicalizavam em torno da abordagem científica enquanto que outras acreditavam que a habilidade e destreza manuais eram as categorias que, de fato, sustentavam a credibilidade do trabalho odontológico.

Os partidários de uma ou outra posição em relação à natureza do trabalho odontológico estiveram em sérios confrontos, especialmente no que diz respeito à abordagem mecânica. Num artigo sobre a necessidade de qualificação do cirurgião-dentista, publicado no primeiro periódico odontológico, nos Estados Unidos, em 1839, o escritor declarava que

(...) é uma visão equívoca sobre o assunto (...) que muitos consideram [a odontologia] uma ocupação meramente mecânica, e acreditam que qualquer um possua o menor grau de tato e habilidade manual para praticá-la. (AJDS, Vol. I No. III, 1839, p.7).

Os esforços dos dentistas concentraram-se em edificar uma noção de que para a prática da odontologia era indispensável uma alta qualificação; única forma de considerá-la um ramo importante dos serviços de saúde. Como bandeira de luta, portanto, estava a formação nas ciências médicas básicas e o deslocamento da arte mecânica, até então principal componente do trabalho odontológico, para uma posição secundária. A idéia era de que, ao equiparar sua formação com a médica, eles adquiririam crédito e estima por parte dos integrantes daquela profissão. Era preciso conquistar, pois, os médicos para formar aliados a favor do bem-estar público e contra “as selvagerias dos empíricos, que infestavam a sociedade” (AJDS, vol. I, N.º I, 1839, p.2).

Na verdade, os dentistas atribuíam sua falta de estima à concepção corrente de que a odontologia era uma ocupação mecânica. “Por que a prática de odontologia mantém-se num nível tão baixo de estima pelo público?”, perguntava-se um articulista do AJDS, em 1840. E deduzia:

Até o momento, o público, raramente, tinha tido a capacidade de distinguir entre o homem da ciência e o aventureiro imprudente. A odontologia tem sido uma das três cidades de refúgio dos ignorantes e desafortunados; e, muito freqüentemente, quando apresentadas à mente de um indivíduo opções para esquematizar sua existência, entre trabalhar num escritório de governo, alistar-se no exército, ou praticar a odontologia, essa última opção era preferida, por ser mais acessível do que a primeira, e menos laboriosa do que a segunda.(AJDS, Vol.I No. II, 1840, p. 121).

Chapin Harris, participante ativo do grupo de líderes organizadores das primeiras instituições odontológicas, era um dos que advogava a necessidade de elevar a prática odontológica e de construir uma imagem diferenciada (científica) para a odontologia, perante a opinião pública. Para ele, era uma questão crucial a construção da idéia da ciência para além dos atos “mecânicos” da prática odontológica (sem, por outro lado, desistir dos mesmos, já que eram assuntos intrínsecos à odontologia).28 O trecho abaixo, de sua autoria, ilustra essa posição:

(...) não é suficiente que os dentistas saibam como extrair e restaurar dentes e, mesmo, substituir a perda desses órgãos por outros artificiais; ele deve estar ciente de todas as suas associações mórbidas tanto quanto das de suas partes contíguas, se ele quiser ser útil como sua profissão é capaz de torná-lo. (...) Se a prótese de dente apenas for a preocupação, um homem pode ser experto e mesmo habilidoso; ele pode ser capaz de suprir a perda de um simples órgão, e daí por diante até uma dentadura inteira, sobre os mais corretos princípios da arte dental, e ainda ser incapaz de exercer todas as obrigações que pertencem apropriadamente ao dentista. Em resumo, ele pode ser um profundo mecanicista, e completamente versado naquele ramo relacionado com la protheses des organes buccoux, como os franceses a denominam, e ainda ser deficiente em muitas outras qualificações que são essenciais para um apto praticante da cirurgia dental.(Harris, C. AJDS, Vol.I No. III, 1840, p.54).

7.2. Lutando contra a invasão da prática odontológica.

Como se tem observado, ultrapassar as metáforas de arte mecânica constituía-se numa estratégia para atingir, ao mesmo tempo, dois grupos: os charlatães e demais “irregulares” e a profissão médica. Os charlatães e empíricos de toda a sorte ameaçavam os princípios nobres e altruísticos da profissão com a enganação e a busca de lucro fácil. O mecanismo ideal para lidar com tal problema era o estabelecimento de instituições de formação profissional, dificultando o ingresso de empíricos para a profissão. Assim, ao mesmo tempo em que restringia a entrada de ignorantes, servia para elevar a profissão “à dignidade da ciência, e promover a respeitabilidade...” (AJDS, op. cit.).

Deduz-se, daí, que a criação de uma imagem científica estava estreitamente ligada ao processo de escolarização da odontologia, uma vez que se concebia a ciência como um privilégio das instituições destinadas a esse fim. Na verdade, a urgência em estabelecer fronteiras entre o homem educado, adequadamente treinado, e os leigos e empíricos faz parte das estratégias de profissionalização com vistas a eliminar a competição e proteger o mercado (Freidson, 1970; Larson, 1977).

A profissão médica, por outro lado, era encarada como um outro grupo que podia ameaçar o desejo de conquista desse espaço profissional. Embora os dentistas estivessem desejosos de obter reconhecimento, como um “ramo da ciência médica”, eles também estavam interessados em sua independência e, em especial, no controle do próprio mercado.29 A conquista da jurisdição profissional se baseava, portanto, no estabelecimento de uma distinção entre o trabalho odontológico e o trabalho médico, como pode ser observado na citação:

[dos] graduados de medicina, que têm voltado sua atenção a esse ramo da arte de curar, muitos têm demonstrado eles mesmos inteiramente incompetentes para exercer com sucesso suas obrigações (...) quando [o charlatanismo] é praticado sob a sanção do diploma médico, a enormidade do crime é dez vezes maior...(AJDS, Vol.I No. III, 1840, p.54).

7.3. A ciência da dor de dente

Conforme vimos, a incorporação de uma ciência dental funcionou como elemento imprescindível no discurso da vanguarda odontológica profissional, a partir de meados do século dezenove, nos Estados Unidos:

O período finalmente chegou quando a profissão à qual pertencemos assume uma posição de comando aos olhos do público e desafia com sucesso as rivalidades com as outras vocações lucrativas dos homens. Esse fato não é menos auspicioso para a sociedade como um todo do que é para os que professam a ciência dental, e para os que praticam a arte dental.(Discurso Inaugural, AJDS, Vol. I No. I, 1839,p.3, grifo nosso).

Os dentistas ou, pelo menos, seus representantes, tinham reconhecido a importância das ciências básicas (anatomia, fisiologia, patologia) e da terapêutica, para o desenvolvimento científico da profissão. Era necessário, ainda, desenvolver os elementos que fundamentavam essas ciências. Dentre o vasto material publicado, a partir do qual os dentistas construíram uma imagem científica da profissão, um elemento parece ter sido extremamente importante, talvez a matéria-prima para o processo de profissionalização da odontologia, até porque está relacionado com uma das mais alusivas e subjetivas tarefas do trabalho odontológico, a dor de dente, conforme sugere o texto abaixo:

Elas [as doenças bucais] são algumas vezes sintomáticas de algumas outras doenças, e esse é o caso em que se requerem outros remédios além dos tópicos; e, como poderiam eles ser prescritos por uma pessoa ignorante da patologia e da terapêutica (...)? Por exemplo, a odontalgia é, algumas vezes, resultado da gestação; outras vezes, do estado desordenado do estômago ou do aparelho digestivo... Então, pode-se perceber que no tratamento de muitos males da boca, os remédios sistêmicos serão requeridos...(Address of the Publishing Committee, to their professional brethren throughout the United States of America, AJDS, Vol. I, No. I, 1839, p.53).

A escolha da dor de dente como elemento estratégico do discurso dos dentistas explica-se por três motivos principais: primeiro, pelas metáforas fisiológicas intrínsecas ao problema, ao invés das metáforas mecânicas; segundo, pelo significado antropológico relacionado à dor; e, finalmente, pelos resultados empíricos decorrentes da necessidade de enfrentamento do problema, que resultaram, conforme veremos, na descoberta da anestesia pelos dentistas.

Na verdade, as metáforas associadas à morte, ao sofrimento e à dor têm sido vastamente aplicadas para justificar, antropologicamente, o poder quase “sagrado” da Medicina.30 Morris (1991, p. 1-2), em um trabalho interessante sobre dor, destaca o significado de tais metáforas para a medicina, ao afirmar que “nossa cultura - o mundo moderno, ocidental, industrial e tecnocrático tem tido sucesso em persuadir-nos de que a dor é simples e puramente um problema médico. Quando pensamos sobre dor, quase que instantaneamente formulamos uma cena que inclui médicos, drogas, ungüentos, cirurgia, hospital, laboratórios, e formas de seguro saúde”.

A transcrição das metáforas da dor para o campo da odontologia pode ajudar a entender a eficácia das estratégias de conquista de autonomia e poder profissional, utilizadas pelos dentistas no seu processo de profissionalização. Apesar de, geralmente, não se constituir a dor como causa direta da morte, ela desafia as ciências biomédicas. Morris (1991) destaca o mistério existente em torno da dor e sua ligação com o desconhecido, desafiando a própria profissão médica, que quase nada sabe sobre ela. Segundo o autor, a idéia de lidar com esse mistério pode prover um complemento útil, e mesmo necessário, à retórica científica da conquista. A dor é algo que quase intrinsecamente pede por interpretação, ou seja, por ser uma experiência subjetiva, necessita de “autoridade” para ser abordada. É a partir dessa interpretação sobre a dor e da análise do material publicado pelos cirurgiões-dentistas durante o período de sua profissionalização que defendemos a teoria de que a dor de dente pode ter sido um elemento fundamental na construção do discurso da ciência dental, justificando a utilidade social da odontologia como profissão.

Pode-se observar, em meados do século dezenove, a emergência de uma teoria sobre a dor de dente ou, pelo menos, o aparecimento de um campo de investigação sistemática sobre o assunto relacionado à odontologia. No artigo “Observações sobre a Dor de Dente”, publicado no AJDS, por S. P. Hullihen, o autor destacava a importância do conhecimento e tratamento científico da dor de dente:

Devem existir poucas coisas em cirurgia mais equivocadas do que chamar cada afecção dolorosa dos dentes de “dor de dente”, e tratar todas elas como se fossem uma doença específica... As dores de dente originam-se, geralmente, de causas locais, algumas vezes diferindo materialmente uma das outras... Com esses destaques, devo proceder separadamente no tratamento das diferentes causas da dor de dente, adotando a seguinte ordem: 1ª)dor de dente decorrente da exposição de um nervo; 2ª)decorrente de fungos do nervo; 3ª)decorrente de confinamento de pus na cavidade interna do dente; 4ª)decorrente de um estado doente do periósteo cobrindo a raiz; 5ª) decorrente da “symphaty”.31 (AJDS, Vol. I, No. II, 1840, p.105-106).

Na verdade, a odontalgia foi largamente classificada e utilizada como um problema que necessitava da intervenção de uma autoridade competente para estabelecer seu diagnóstico e terapêutica. Para tanto, exigia-se conhecimento científico que provesse

capacidade de interpretação do problema, o que distanciava o tratamento da dor de dente daquilo que era considerado uma “arte meramente mecânica”. Nesse sentido, a dor de dente foi classificada e investigada como um estado mórbido de múltiplas causalidades. O estudo sistemático e “científico” da dor, bem como a elaboração de teorias, serviram como matéria central para os discursos de defesa da ciência dental e de autoridade profissional nesse campo de conhecimento.

Uma carta escrita pelo médico J. E. Snodgrass, endereçada ao Editor do AJDS e, posteriormente publicada, indicava a dor de dente como causa da morte de seu pai:

A ação inflamatória cresceu gradualmente, até que todo o osso inferior da maxila (...) pareceu estar envolvido. Tinha chegado, agora, naquele estado que é chamado, em linguagem comum, de dor mandibular. (...) Eu não tenho a menor dúvida de que a odontalgia foi a causa indireta da sua morte repentina. (...) porque, se as influências de uma simples odontalgia produziram a catástrofe que eu aqui descrevi, o caso vai falar por si próprio, em tons que deveriam acordar a comunidade para o sentido dos perigos a que incorrem por aquilo que eles estão acostumados a chamar de uma “mera dor-de-dente” (...). Muitas das dores de cabeça de que a gente ouve falar, eu estou inclinado a acreditar, poderiam ser amplamente aliviadas, se não completamente banidas, por umas poucas visitas à cadeira odontológica. (AJDS, Vol. II, N.º 2, 1841, p.141, grifo nosso).

A autoridade científica do dentista para julgar e agir sobre a dor de dente justificaria a eliminação dos leigos e incompetentes, como única forma de proteção do público contra os riscos e danos causados pelo desconhecimento da matéria dental.

7.4. Dor de dente e credibilidade pública

Os dentistas dirigiram as metáforas associadas à dor e ao sofrimento dela decorrente para o público. Numa nota pública divulgada em decorrência da fundação do “Baltimore College of Dental Surgery”, em 1840, o autor declarava que

Não existe nenhuma boa razão para a posição inferior que os cirurgiões-dentistas são obrigados a tomar, em comparação com homens de profissão. Por que o cirurgião, que amputa um membro, ou trata uma úlcera, tem estima mais alta do que aquele que confina sua atenção às doenças da boca e da arcada dentária? É o conhecimento do primeiro adquirido com trabalho mais laborioso? É a sua qualificação o resultado de experiência mais cuidadosa e pesquisa mais perseverante? As operações para as quais ele é chamado requerem maior julgamento ou maior precisão do que aquelas relativas ao praticante da odontologia? Nenhum homem ciente dos fatos, em cada caso, irá responder afirmativamente a essas questões. Ele que devota sua vida ao alívio dos sofrimentos dos seus companheiros é um homem respeitável; e aquele que traz conhecimento, cuidadosamente adquirido, para ajudar neste objeto, é um homem científico - não importa se seus esforços estão dirigidos para o alívio de uma febre, ou para remoção de uma dor - para salvar uma vida ou para torná-la mais confortável - o objeto, a honra, o motivo é o mesmo, - e, assim deveria ser, no respeito àqueles que estão a serviço daquilo.(AJDS, Vol. I, No. I, 1840, p.120, grifos nossos).

Discursos como esse foram sistematicamente utilizados para construir uma base de confiança perante o público e uma noção geral da utilidade profissional, no sentido de prover o dentista de prestígio e autoridade, ingredientes fundamentais da ideologia profissional. Associados a essas metáforas estavam os esforços para elaborar uma teoria ou um conhecimento mais sistematizado sobre as odontalgias. Dessa forma, suspeitamos que, inicialmente, o “paradigma” da dor de dente teve um papel determinante em assegurar um espaço próprio para os dentistas, ao lado da ciência médica – a dor de dente justificando a existência de um campo diferenciado da ciência médica; - o diagnóstico e tratamento da dor de dente resultando em especificidade e autoridade profissionais dos dentistas perante os médicos e perante a opinião pública. 32

O trecho abaixo, de autoria de Chapin A. Harris, resume essas observações:

(...) enquanto a cirurgia odontológica puder ser praticada sem considerações sobre a qualificação de seus praticantes, nós não precisamos esperar uma confiança generalizada acerca de sua utilidade; muito menos, o respeito para aqueles engajados no exercício de suas tarefas. O fato de já ter ela [a odontologia] encontrado respeitabilidade e caráter pela sua utilidade, - o fato de já ter ela sido estimada pela sofrida humanidade, pelo alívio que sempre proporciona à mais torturante dor, e o fato de ela trazer freqüentemente a verdadeira saúde para aqueles que sofrem de doenças debilitantes, devem ser atribuídos àqueles praticantes que, (...) tendo devotado a ela o mais ardente zelo e escrupulosa integridade (...), tenham-na praticado apenas na sua maior perfeição.(AJDS, Vol. I. No. III, 1839, p.53, grifo nosso).

8 - Descoberta da anestesia: a consolidação da profissão odontológica

A imagem de dor e medo associada à odontologia tem-se mantida associada à mentalidade do público por um longo tempo. Inicialmente, pela manifestação aguda e pandêmica das doenças da boca e por não haver outra possibilidade que não fosse uma assistência odontológica dolorosa. Porém, mesmo com o aperfeiçoamento das técnicas de anestesia, alguma forma de dor e desconforto é quase que uma decorrência ‘natural’ do tratamento odontológico. De fato, só recentemente a odontologia tem apresentado alguma eficácia no sentido de impedir, ainda que para algumas camadas da população, a manifestação aguda das doenças bucais. Se a imagem da profissão ainda é negativa, por colocar em evidência sua ineficácia profissional, no passado, ela serviu de base para a construção das suas estratégias de profissionalização. Primeiro, como matéria básica para desenvolver os argumentos de necessidade do treinamento nas ciências biomédicas para os candidatos ao exercício da odontologia e, segundo, como estímulo para o desenvolvimento técnico da profissão, que pode ser exemplificado pela descoberta da anestesia por um dentista.33 De fato, a introdução da anestesia, em 1846, serviu para amenizar os problemas de duas áreas candidatas à profissionalização: a cirurgia e a odontologia. Apesar da polêmica inicial gerada sobre o uso e eficácia da anestesia, a nova descoberta se espalhou numa velocidade sem precedentes.34

Não há dúvida de que tal descoberta contribuiu para aumentar a autoridade da profissão odontológica. Um problema que logo se apresentou foram as mortes causadas pelo seu uso indiscriminado, colocando em risco a vida dos indivíduos que buscavam um simples tratamento dentário:

(...) cada saltimbanco que consegue eliminar um joanete, e dignifica-se com o título de calista; cada dentista ambulante, que arranca fora um dente ou obtura uma cavidade com amálgama (...) podem-se armar com um aparelho de inalação e com uma garrafa de material anestésico, com os quais eles esperam usar o público.(Special Committee of the American Society of Dental Surgeons, 1848, apud Pernick 1985 p.63).

A necessidade de regulação do uso da anestesia passou a ser demandada pelas profissões e apoiada pela própria sociedade, já que nem a medicina nem o público queriam declinar das suas vantagens, ou seja, a possibilidade de alcançar melhores resultados nos tratamentos médicos e dentários sobre inúmeras doenças e problemas de saúde. O uso privativo da anestesia por profissionais treinados, por sua vez, justificou maior controle do campo de trabalho odontológico, ao restringir seu exercício apenas aos iniciados na matéria.

A descoberta da anestesia agiu como um fator importante no processo de profissionalização odontológica. Da mesma forma agiram muitas outras descobertas que se seguiram, principalmente nas últimas décadas do século dezenove, mas então os dentistas já estavam completamente cientes de suas habilidades para convencer o público da necessidade de atuação exclusiva de profissionais cientificamente treinados no campo de trabalho odontológico.

Apesar dos conflitos existentes em relação à sua identidade profissional, a odontologia, cuja formação profissional baseia-se nas ciências médicas, foi a forma que predominou no mundo ocidental, assim como predominante foi a organização da profissão de forma autônoma e independente da medicina. Esse fato, que assegura a demarcação de uma jurisdição própria, cujo domínio pertence a dentistas credenciados, qualifica a odontologia como uma profissão moderna, o que significa dizer que ela possui um padrão organizacional de trabalho especializado, cujos atributos principais incluem: (i) ocupação integral de seus membros; (ii) existência de aparatos institucionais de auto-regulação; (iii) treinamento padronizado em habilidades e conhecimentos esotéricos; (iv) status social e (v) autonomia técnica (Abbott, 1988, Freidson, 1970, 1994).

 

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