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Dia do Arquivista

20 de Outubro

O ARQUIVISTA FACE ÀS NOVAS TECNOLOGIAS: QUE REALIDADE?

Já é tema bastante discutido no mundo arquivístico, que o arquivista terá que adaptar as suas funções à realidade das novas tecnologias da Informação.

De fato, de há trinta anos a esta parte, os suportes da informação sofreram um desenvolvimento a “alta velocidade”.

O conjunto de procedimentos, normas e técnicas de gerar, armazenar, transmitir, processar, recuperar e reproduzir informação teve, nestas últimas décadas de se adaptar e de certa forma, se reinventar, tendo em conta as novas técnicas de criar documentos, através dos computadores e das suas saídas por impressora, discos ópticos e magnéticos, as novas formas de armazenamento através de ficheiros informáticos, discos magnéticos e discos ópticos, os novos instrumentos de distribuir informação, como seja o fax, o e-mail ou em rede, entre tantos outros.

Também ao nível da Gestão da Informação há que adaptar as funções do Arquivista a esta nova realidade. O Arquivista deixou de ser visto como um mero gestor de documentos para passar a ser considerado como um Gestor de Informação.

A sua função deixou de se restringir à administração do uso e transmissão de documentos, para, através da aplicação de teorias e técnicas renovadas da Ciência da Informação, colaborar na criação, modificação e desenvolvimento de sistemas que trabalham a informação bem como toda a sua gestão para o bom funcionamento de uma Organização. Este processo dá ao arquivista a responsabilidade de conhecer todo o processo de produção, utilização, tramitação, classificação e avaliação de informação, independentemente do suporte em que esta se revele.

No mundo das Novas Tecnologias e, no sentido de conseguir uma eficaz gestão da informação com que trabalha, o arquivista terá que gerir o hardware e software necessários à gestão da sua documentação, bem como ter conhecimentos profundos sobre as suas características e as suas capacidades, sob pena de não armazenar e classificar corretamente a sua informação, influenciando de uma forma negativa a consequente recuperação da mesma.

Mas será que atualmente o Arquivista já se depara com esta realidade? Será que as novas tecnologias da informação estão realmente implementadas de uma forma estável nos Arquivos? As Organizações já estão de tal forma computorizadas que será que é necessária a imediata adaptação da profissão arquivista? Embora as organizações ainda estejam bastante dependentes do papel como suporte à sua informação e, se refletirmos sobre o número de computadores por posto de trabalho, seja qual for a profissão ou função, a resposta a todas estas perguntas fica bastante clara.

Atualmente e, para além da informação produzida diariamente pelas Organizações, o Arquivista enfrenta como problema principal, o fato de precisar de se relacionar simultaneamente com informação registada nos mais variados suportes, quer eles sejam analógicos ou digitais.

Por outro lado, depara-se com a necessidade de gerir distintos tipos de acondicionamento de documentos, adaptados à natureza dos diferentes suportes, tendo como principal princípio o uso de critérios e procedimentos idênticos para a classificação, avaliação, selecção e gestão de documentos seja qual for o suporte em que estes sem encontrem. Assim, quando se verifica a implementação de um sistema de gestão de documentos, apoiado numa aplicação eletrónica de documentos, uma realidade já bastante frequente nas nossas organizações, o papel do arquivista em todo este processo mostra-se, na verdade, bastante importante.

Fato que justifica toda esta importância, será a criação e/ou adaptação dos instrumentos de gestão documental, base de apoio a todo este processo. Na verdade, não podemos deixar de controlar, classificar, avaliar, seleccionar e sobretudo recuperar a informação contida nos documentos eletrónicos, devendo ser aplicados os mesmos procedimentos atribuídos aos documentos em suporte papel, claro está, adaptados às novas ferramentas.

Por outro lado, as novas formas de acondicionamento de informação e documentos, como são exemplo os Servidores informáticos, também terão que ser vistos como depósitos digitais, sendo obrigatória a gestão do espaço, tal como nos depósitos de arquivo tradicionais, sendo importante o controlo sobre estes, bem como a sua manutenção, evidenciando-se assim, a igual importância da avaliação e selecção de documentos em suportes informáticos.

Ainda no que diz respeito ao acondicionamento da documentação, bem como à sua recuperação, o Arquivista necessita ainda de se preocupar em manter cópias de segurança da informação eletrónica com que trabalha. Os novos suportes digitais, são bastante frágeis e com uma durabilidade, por enquanto, incerta,
sendo necessário a sua reprodução como forma de segurança à informação neles contidos. O Arquivista deve estar atento a esse fato e conhecer bastante bem as características dos mesmos e preocupar-se com a necessária migração da informação de um suporte antigo ou já pouco usado para outros tecnologicamente mais avançados.

Estas são algumas das situações com que os Arquivistas se deparam diariamente no > exercer das funções, o que nos leva a concluir, que em função do avanço constante na Informática e nas Telecomunicações, o maior desafio do profissional de arquivo, será a sua própria renovação e atualização com as novas tecnologias da informação.

Isto, porque se tivermos em conta as mais valias que se poderão tirar dos novos instrumentos informáticos, o Arquivista terá que ter bons conhecimentos do seu manuseamento, no sentido de fazer face às novas necessidades, que com o avançar do tempo se tornarão cada vez mais exigentes e diversificadas.

Fonte: www.ead.pt

Dia do Arquivista

20 de Outubro

O PERFIL PROFISSIONAL DO ARQUIVISTA NA SOCIEDADE DA INFORMAÇÃO

A formação e o perfil profissional do arquivista à luz do paradigma tradicional

Embora o termo “arquivista” seja uma criação relativamente recente, a prática e o exercício profissional que lhe são inerentes remontam a épocas bem recuadas, grosso modo conotadas com o aparecimento da escrita, cerca de seis milénios a. C. Nas origens, os repositórios de informação não tinham propriamente a designação de “arquivos”, nem os responsáveis pela guarda, conservação e disponibilização dos registos de informação eram designados por “arquivistas”. À luz da conceptualização e terminologia atuais seria apropriado falarmos da existência de sistemas de informação desde os tempos mais remotos, sem uma distinção clara entre arquivo” e “biblioteca”, que só acontece bastante mais tardiamente, nem uma profissionalização dos responsáveis pelos núcleos informacionais que as administrações públicas e privadas iam gerando e acumulando no exercício das suas atividades.

Ao longo dos tempos, com a complexificação da sociedade, das estruturas sociais e de poder e com o aumento da literacia, a produção de informação e a necessidade de a registar para melhor potenciar o seu uso a posteriori, foi desenvolvendo uma prática dita arquivística (e também biblioteconómica) que passou a consubstanciar um saber de experiência feito e a dar sentido ao exercício de uma profissão.

O nascimento da Arquivística como disciplina só verdadeiramente pode considerar-se efetivo no século XIX, correspondendo a um amadurecimento do saber empírico milenar e a uma reflexão sobre a prática, com o objetivo de a racionalizar, orientar e, depois, fundamentar de um ponto de vista teórico. Com efeito, a Arquivística é um produto da modernidade e todo o quadro epistemológico que a enforma só foi modelado após a Revolução Francesa. Até então, os arquivos haviam sofrido uma evolução sem sobressaltos e a prática arquivística ganhara expressão em conformidade, ou seja, seguira um percurso que podemos designar por linear. A revolução burguesa de 1789 veio desferir um golpe estrutural nos arquivos e a ideologia liberal, nomeadamente com a emergência do Estado-Nação, estabeleceu uma nova matriz que haveria de consolidar-se de forma paradigmática, ao longo das duas centúrias seguintes, com tal peso que, ainda hoje, se pode considerar que é esse o paradigma dominante, pese embora a crise evidente em que se encontra1.

A nacionalização dos bens das classes detentoras do poder no Antigo Regime, e por arrasto, a passagem para a posse do Estado dos títulos e demais documentos imprescindíveis à gestão admnistrativo-financeira de tais bens foram as razões determinantes para o surgimento, em França, de uma nova “figura” arquivística – os Archives Nationales –, encarregada de custodiar e gerir a informação/documentação nacionalizada. Nasce assim, por decreto, um arquivo que não é um sistema de informação, mas sim uma instituição/serviço que vai ser, acima de tudo, gestora de informação pré-existente e que foi descontextualizada, isto é, retirada do seu habitat original para continuar a ser usada, é um fato, mas já não pelos respectivos produtores.

O modelo francês, caracterizado pela existência de um organismo estatal tutelando os arquivos, onde passou a desempenhar funções um profissional formado especificamente para esse efeito – o arquivista-paleógrafo treinado na École Nationale des Chartes, instituída em 18212 –, e assente no conceito de “fundo” formulado por Natalis de Wailly em 18413, para impor alguma ordem no caos que se gerara após as incorporações em massa de documentação nos Archives Nationales, rapidamente se replicou em outros países da Europa e passou a constituir a matriz de referência.

O desenvolvimento da Ciência Histórica e do Positivismo, na segunda metade de Oitocentos, e, por inerência, a importância dada ao “documento” como base fundamental para a interpretação e crítica historiográficas, veio colocar os arquivos numa posição instrumental face aos interesses dos historiadores, empenhados em escrever a História das nações4. Desta forma, a Arquivística, de par com outras disciplinas, como a Diplomática, a Paleografia, a Numismática ou a Sigilografia converte-se numa “ciência auxiliar”, passando a ter sentido apenas no quadro da Ciência Histórica, a “verdadeira ciência”. E o arquivista ganha também um estatuto de “auxiliar” do historiador, lendo, transcrevendo, catalogando e indexando os documentos de que este precisa para a sua nobre missão. Começa, pois, a consolidar-se o paradigma custodial e historicista de que, ainda hoje, a Arquivística não se libertou totalmente.

Mas, se por um lado, os arquivos ditos históricos, incorporadores da memória nacional, ganhavam cada vez maior importância e se tornavam progressivamente na face visível da Arquivística, por outro, a atividade humana e social, particularmente no seio das administrações públicas, continuava o seu fluxo contínuo, gerador de informação, que se acumulava progressivamente, exigindo meios para tornar mais eficaz o acesso e a recuperação. No contexto dos organismos produtores, a percepção de que era necessário criar modelos de organização e representação da informação foi o leit motiv suficiente para o aparecimento do célebre “Manual dos Arquivistas Holandeses”5, em final do século XIX, obra que marca a entrada da Arquivística numa nova fase – a da acentuação da sua vertente técnica e de autonomização face à História.

As conjunturas sócio-económicas, políticas e culturais, que antecederam e mediaram as duas Guerras Mundiais, particularmente no que toca ao desenvolvimento tecnológico e ao acelerado crescimento da produção informacional, bem como a necessidade de valorização da informação administrativa como recurso importante para a gestão das organizações, criaram uma dicotomia entre os “arquivos históricos” (archives), ao serviço da cultura e da noção emergente de património, e os arquivos correntes” (records) ao serviço das próprias entidades produtoras, opondo, de forma artificial, duas áreas profissionais que lidavam com o mesmo objeto de estudo e de trabalho.

Vivemos, ainda hoje, sob a influência deste modelo histórico-tecnicista, em que o reforço da componente técnica se tem acentuado, sobretudo nos tempos mais recentes, pelos esforços notórios em prol da normalização descritiva e terminológica6.

Todavia, a ênfase posta nos procedimentos técnicos (classificação, ordenação, descrição, etc.), só por si, não foi suficiente para conferir à Arquivística um estatuto de disciplina científica, pois a falta de fundamentação teórica e metodológica constituiu um forte handicap na afirmação de cientificidade. A Arquivística ganhou um espaço próprio como área de desempenho profissional, mas o paradigma histórico-tecnicista, que enformou a disciplina nos dois últimos séculos e que potenciou a sua autonomização técnica, acabou por constituir um fator de constrangimento, que não possibilitou o salto qualitativo necessário ao desenvolvimento disciplinar quando a “ameaça” tecnológica aos tradicionais documentos em suportes estáticos e a emergência da Sociedade da Informação começaram a colocar novos desafios. Num contexto informacional e tecnológico o paradigma tradicional entrou em crise, mas também desencadeou, no seu próprio seio, os fatores de mudança necessários à superação da própria crise.

A decisiva “revolução discreta”, iniciada ainda no século XIX, do telégrafo, do telefone, da rádio, da fotografia, da televisão, dos computadores e das comunicações por satélite, enfim, a revolução da tecnologia em geral e sua simbiose com a própria informação, veio forjar a emergência de um novo paradigma. A resposta aos desafios, postos pela Sociedade da Informação exige, por conseguinte, renovadas competências para o arquivista, que só se adquirem se houver uma alteração radical nos modelos formativos e nos conteúdos curriculares que irão modelar perfis profissionais inovadores.

A mudança inevitável face aos desafios da Sociedade da Informação

A formação de arquivistas (e bibliotecários) começou por ser obtida em contexto de trabalho, ou seja, no seio das instituições (especialmente arquivos e bibliotecas nacionais) em que se exercia a profissão. A partir do século XIX, a nova perspectiva decorrente da Revolução Francesa e da ideologia liberal promoveu o aparecimento de escolas do tipo da École des Chartes e a formação dos profissionais passou a ter aí um locus privilegiado. Era uma formação de matriz historicista e erudita que traduzia, afinal, o modelo francês implantado com o Liberalismo.

Essencialmente a partir de finais de Oitocentos, uma outra via de formação ganhou especial incremento, em diversos países da Europa, com destaque para a França e o Reino Unido, exemplos que, mais tarde, foram seguidos em outros países, nomeadamente nos Estados Unidos da América. Tratava-se da formação conferida pelas associações profissionais, sendo de relevar, a título ilustrativo, o papel da Association des Archivistes Français (AAF) ou o da Society of American Archivists (SAA).

Foi também em finais do século XIX que teve início a formação universitária. Em Itália, universidades como a de Bolonha e a de Macerata começaram a introduzir o ensino da Arquivística, embora inserido em cursos de outras áreas, como a História ou a Jurisprudência7. Mas, apesar de um ou outro caso como estes8, a verdade é que a formação de nível universitário foi, durante ainda algumas décadas, um exemplo de excepção. Com efeito, as associações profissionais, sobretudo as de bibliotecários, como a American Library Association (ALA), a Association des Bibliothècaires Français (ABF) ou a britânica Library Association, lideraram o processo de formação durante muito tempo, sendo só na década de quarenta do século XX que o ensino universitário se pode considerar institucionalizado, quer nos Estados Unidos da América, quer na Europa.

A evolução da Biblioteconomia e o desenvolvimento de uma nova área profissional, designada por Documentação, cujos mentores foram os belgas Paul Otlet e Henri La Fontaine, particularmente após a criação do Instituto Internacional de Bibliografia, em 1895, foi um fator que muito estimulou a inovação, quer ao nível da profissão, quer da própria formação9. Documentalistas e bibliotecários especializados passaram a constituir um novo grupo de profissionais com carácter essencialmente técnico e voltados, de forma decisiva, para os novos suportes de informação e para as questões da tecnologia. Foi, sem dúvida, por via desta corrente documentalista que, no final dos anos cinquenta do século XX, vimos surgir o conceito de Information Science e a sua aplicação nos contextos profissionais10. Concomitantemente, quase de imediato, surgem programas de estudos em Ciência da Informação, sobretudo nos Estados Unidos, estando, alguns deles, integrados em escolas de Biblioteconomia. Contudo, foi preciso esperar até aos anos setenta para se poder considerar que a área da Ciência da Informação estava implantada na formação académica.

A afirmação da Ciência da Informação nos meios universitários e nos contextos profissionais fez-se progressivamente com a participação efetiva dos bibliotecários e dos documentalistas, especialmente os que exerciam a sua atividade ligada informação científica e técnica, mas esse processo deixou, nitidamente, de fora o corpo profissional de arquivistas e de gestores de documentos (records managers). Por um lado, porque os arquivistas tradicionais, ligados aos “arquivos históricos”, continuavam na linha erudita e historicista, desenvolvendo uma atividade mais conotada com a cultura e o património do que com a dinâmica da informação; por outro, porque os gestores de documentos nos contextos organizacionais estavam muito marcados por uma visão administrativista e documental não fazendo, também, a aproximação com o mundo da informação. Este não envolvimento dos arquivistas no processo conducente à emergência da Ciência da Informação foi ainda acentuado após a criação do Conselho Internacional de Arquivos, em meados do século XX, pois este organismo favoreceu um certo corporativismo entre este grupo profissional, unido em torno de questões técnicas e de políticas de conservação do património documental.

Nos anos setenta, ao nível do ensino universitário, especialmente nos Estados Unidos da América, assiste-se a uma progressiva integração do ensino da Arquivística em escolas de Biblioteconomia e de Ciência da Informação, mas esta aproximação é fruto de um política de racionalização de recursos e não o resultado de uma fundamentação teórica e epistemológica unificadora de uma mesma área de estudos. O estímulo para a harmonização das formações dos bibliotecários, arquivistas, documentalistas e cientistas da informação surgiu, a partir de 1974, pela mão da UNESCO, conjugando esforços da International Federation of Library Associations and Institutions (IFLA), da Federação Internacional de Documentação (FID) e do Conselho Internacional de Arquivos (CIA)11. Mas, apesar destas preocupações internacionais e dos estudos desenvolvidos em torno do problema da harmonização da formação, os efeitos práticos foram muito pouco significativos12. No caso da Arquivística, pode ainda dizer-se que a tendência para a harmonização se atenuou em finais da década de oitenta e que surgiu mesmo uma “corrente” defensora da autonomia disciplinar e da procura de uma identidade profissional específica.

Mas, apesar desta visão corporativista e, afinal, favorecedora da manutenção do modelo tradicional – pesem embora os esforços desenvolvidos para uma unificação disciplinar e profissional de arquivistas e gestores de documentos, subsidiários duma perspectiva mais integradora, baseada na ideia de um ciclo vital único dos documentos de arquivo e na necessidade de gerir todo esse continuum da produção informacional de forma integrada e sistemática13 –, a revolução tecnológica e digital tornou inevitável a mudança de paradigma e está a arrastar definitivamente a Arquivística para o campo da Ciência da Informação, já que o objeto de estudo e de trabalho é um só: a Informação.

Com efeito, se definirmos Informação como conjunto estruturado de representações mentais codificadas (símbolos significantes) socialmente contextualizadas e passíveis de serem registadas num qualquer suporte material (papel, filme, banda magnética, disco compacto, etc.) e, portanto, comunicadas de forma assíncrona e multi-direccionada14, somos obrigados a rever criticamente a noção de “documento” e, por consequência, a de “Ciências Documentais”.

Passando da noção estática de “documento” (mensagens registadas num suporte material), que configura o objeto de estudo da Arquivística e das Ciências Documentais, para a noção dinâmica de “informação”, que atrás definimos, e que postulamos como objeto da Ciência da Informação, temos desde logo de aceitar que uma das múltiplas consequências que daí decorre é a da alteração profunda do perfil profissional de quem exerce atividade neste campo do saber. Logo, o tradicional arquivista, conservador de testemunhos ou guardador de documentos ao serviço da investigação, particularmente a histórica, terá de se assumir como um gestor e estruturador da informação, gerada, usada e acumulada como memória em qualquer contexto orgânico e funcional. A própria designação “arquivista” perde sentido se passarmos a falar de informação contextualizada e pensada sistemicamente, pois a distinção ou a fronteira entre arquivos, bibliotecas ou centros de documentação é ténue, imprecisa, ou mesmo desprovida de fundamento, e corresponde sobretudo a uma caracterização dos serviços/instituições (de grande cunho cultural e instituídos somente após a Revolução Francesa) que custodiam e gerem informação, as mais das vezes produzida em contextos orgânicos que lhes são alheios.

Naturalmente que este profissional da informação do século XXI carece de uma formação em novos moldes, alicerçada nos suportes teórico-metodológicos da Ciência da Informação15. Em breves palavras, poderá dizer-se que o modelo formativo que consideramos necessário para a renovação do perfil desse profissional deverá:

combinar um conjunto de disciplinas nucleares da área da Ciência da Informação, de carácter obrigatório, com disciplinas de áreas interdisciplinares (Ciências Sociais e Humanas, Informática e Computação, Administração e Gestão), que constituem uma complementaridade indispensável;

anular as separações artificiais entre pretensas especializações de “Arquivo” e “Biblioteca/Documentação”, por não haver justificação, do ponto de vista epistemológico, para tal distinção;

fazer a síntese com a área dos Sistemas (Tecnológicos) de Informação, uma vez que, hoje, a tecnologia é absolutamente indissociável da Informação (na génese, uso e preservação).

Preparado no quadro deste modelo formativo, o arquivista da era pós-custodial, seja ainda designado desta forma ou venha a ter um título mais pós-moderno, será fundamentalmente um Profissional da Informação, com uma formação de base, suficientemente sólida e abrangente, que lhe permitirá exercer funções em qualquer contexto orgânico produtor/manipulador de fluxo informacional. Mas, estará devidamente preparado para atuar, também, em contextos de alguma especificidade, seja no âmbito de sistemas de informação organizacionais ou em serviços de arquivo especializados, porque o seu referencial teórico reporta sempre ao campo do saber que lhe dá identidade – a Ciência da Informação.

Fonte: ler.letras.up.pt

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