A Importância dos Livros
Era uma vez…
Hoje mais do que nunca, estamos conscientes da importância que a leitura desempenha no desenvolvimento do ser humano. Através dela aprendemos o mundo, investigamos de onde vimos e para onde vamos, ajuda-nos a pensar e reflectir, a conhecer os outros e a nós mesmos. Ela é fundamental para ocuparmos o tempo quando não sabemos o que fazer e a descontrair quando andamos demasiado ocupados. Divertenos, inquieta-nos, transporta-nos para longe e faz-nos sonhar! Mesmo que de olhos bem abertos!
Por isso criticamos a sorte de quem não lê e facilmente nos deixamos invadir pelo pânico quando os nossos filhos não gostam de livros! E não raras vezes a culpa morrerá solteira, após tentativas de atribuir o mal à televisão que é muito absorvente, aos jogos de computador que têm muito movimento, ao século XXI por ser demasiado visual…
Reza a sabedoria popular que “é de pequenino que se torce o pepino” e o gosto pela leitura não é excepção. Uma criança pequenina interessa-se por livros por saber que estes encerram histórias e mensagens magicamente diluídas, aguçando-lhe o apetite por vir a decifrar aquele código.
Assim é importante ter contacto e valorizar os livros, ouvir os adultos contar histórias, ver as imagens levando a criança a reconstituir a história a partir da mensagem retida, ajudando-a a caminhar pela sequência literária comum que se inicia com a ilustração concreta (tipo Anita ou livros de Animais), seguindo os contos de fadas, a banda desenhada, os livros de aventuras até chegar aos diários, romances, ficção ou poesia.
Os Contos de Fadas ajudam no crescimento psicológico ao transportarem mensagens fundamentais que estimulam as crianças no seu processo de aculturação, estruturação da personalidade e melhor adaptação à realidade que as rodeia. Embora a nossa sociedade seja diferente daquela que marcou a época em que foram criadas, a mensagem que os contos encerram é intemporal. As crianças envolvem-se facilmente nos enredos porque sentem que o tipo de problemas das personagens são semelhantes aos que as atormentam: não é portanto de estranhar que estas histórias se mantenham vivas no nosso inconsciente colectivo e que sejam transmitidas ao longo das gerações.
A agressividade contida nestes contos é necessária para que a criança consiga “arrumar” internamente as suas emoções violentas, angústias e sentimentos negativos, mobilizando competências para fazer face às adversidades com que irá deparar-se ao longo da vida. A agressividade é exposta de forma controlada, sem danos irreversíveis, onde no final há sempre uma vitória inequívoca do bem contra o mal. Ensinamos assim que “o crime não compensa”. Ao “contar um conto” os pais poderão assim “acrescentar um ponto”, estimulando a criatividade, integração e desenvolvimento em geral.
Não devemos assim valorizar uma forma de leitura em detrimento de outra: a banda desenhada do Tio Patinhas e o Asterix tem tanta importância como “Os Cinco” ou, mais recentemente, o Harry Potter. Em determinados momentos cada uma desempenha o seu papel de “era uma vez” e “foram felizes para sempre”, contendo os ingredientes necessários para a adaptação desenvolvimental, para a riqueza psicológica e estimulação de necessidades emocionais típicas da infância, ajudando quem as lê a identificar-se, a imaginar, criar e sonhar.
Daniel Pennac justifica a falta de hábitos de leitura na medida em que os pais passam de um “Estado de Graça”, onde adormecem os filhos com histórias de encantar desenhando, noite após noite, um ritual de uma autêntica dupla indissolúvel, para um “Paraíso Perdido” onde, por volta dos 3/4 anos, o contador de histórias esgota a paciência e vê-se ansioso por passar o testemunho. A solução para esta ansiedade dá-se no “Tempo de Escola” onde os pais parecem estar autorizados a depositar o futuro do “ler, escrever e contar” nas mãos desta entidade. É neste momento que incitamos o nosso filho a ser ele a ler, transformando a decifração de cada letra e sílaba num “parto complicado”, perdendo-se o sentido das palavras na sua composição.
A criança fica frustrada e desgostosa enquanto que nós pais, visivelmente ansiosos, começamos a tecer comparações com outras crianças, a culpar uma possível preguiça ou a descobrir uma pseudo-dislexia como elementos cerceadores de uma apetência inata. Segundo o mesmo autor, urge assim fazer a “reconciliação da trindade” criança-pais-livros, reencontrando o prazer partilhado de um bom momento de leitura onde, entre os inúmeros afectos, competências e emoções partilhadas, se respeitem os 10 direitos inalienáveis do leitor: o direito de não ler, o direito de saltar páginas, o direito de não acabar um livro, o direito de reler, o direito de ler não importa o quê, o direito de amar os heróis dos livros, o direito de ler não importa onde, o direito de saltar de livro em livro, o direito de ler em voz alta e, finalmente, o direito de não falar do que se leu.
Nas férias que se avizinham conte histórias, construa um diário de férias, jogue às palavras proibidas e palavras começadas por, invente palavras (como se chama a árvore que dá estrelas, o aparelho que faz chover ao contrário ou o animal de estimação do anjo da guarda), jogue ao jogo dos contrários (onde tudo tem que ser dito ao contrário: se está quente - é frio; se é sim – é não), explorem provérbios, músicas e lenga-lengas, viaje em cenários hipotéticos (se não nascesse o sol, se pudéssemos estar em dois sítios aos mesmo tempo) e invente novos episódios para as histórias infantis.
Escreva assim a história do desenvolvimento do seu filho, para amanhã se recostar e ler um conto com final feliz!
Boas Leituras!
Cláudia Saavedra
Fonte: www.eb23-julio-saul-dias.rcts.pt