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Auto Representado na Festa de São Lourenço

 

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Padre José de Anchieta

TEMA

Após a cena do martírio de São Lourenço, Guaixará chama Aimbirê e Saravaia para ajudarem a perverter a aldeia. São Lourenço a defende, São Sebastião prende os demônios. Um anjo manda-os sufocarem Décio e Valeriano. Quatro companheiros acorrem para auxiliar os demônios.

Os imperadores recordam façanhas, quando Aimbirê se aproxima. O calor que se desprende dele abrasa os imperadores, que suplicam a morte. O Anjo, o Temor de Deus, e o Amor de Deus aconselham a caridade, contrição e confiança em São Lourenço. Faz-se o enterro do santo. Meninos índios dançam.

PRIMEIRO ATO

(Cena do martírio de São Lourenço)

Cantam:

Por Jesus, meu salvador, Que morre por meus pecados, Nestas brasas morro assado Com fogo do meu amor Bom Jesus, quando te vejo Na cruz, por mim flagelado, Eu por ti vivo e queimado Mil vezes morrer desejo Pois teu sangue redentor Lavou minha culpa humana, Arda eu pois nesta chama Com fogo do teu amor.

O fogo do forte amor, Ah, meu Deus!, com que me amas Mais me consome que as chamas
E brasas, com seu calor.

Pois teu amor, pelo meu Tais prodígios consumou, Que eu, nas brasas onde estou, Morro de amor pelo teu.

SEGUNDO ATO

(Eram três diabos que querem destruir a aldeia com pecados, aos quais resistem São Lourenço, São Sebastião e o Anjo da Guarda, livrando a aldeia e prendendo os tentadores cujos nomes são: Guaixará, que é o rei; Aimbirê e Saravaia, seus criados)

GUAIXARÁ

Esta virtude estrangeira Me irrita sobremaneira.

Quem a teria trazido, com seus hábitos polidos estragando a terra inteira? Só eu permaneço nesta aldeia como chefe guardião.

Minha lei é a inspiração que lhe dou, daqui vou longe visitar outro torrão.

Quem é forte como eu? Como eu, conceituado? Sou diabo bem assado.

A fama me precedeu; Guaixará sou chamado.

Meu sistema é o bem viver.

Que não seja constrangido o prazer, nem abolido.

Quero as tabas acender com meu fogo preferido Boa medida é beber cauim até vomitar.

Isto é jeito de gozar a vida, e se recomenda a quem queira aproveitar.

A moçada beberrona trago bem conceituada.

Valente é quem se embriaga e todo o cauim entorna, e à luta então se consagra.

Quem bom costume é bailar! Adornar-se, andar pintado, tingir pernas, empenado fumar e curandeirar, andar de negro pintado.

Andar matando de fúria, amancebar-se, comer um ao outro, e ainda ser espião, prender Tapuia, desonesto a honra perder.

Para isso com os índios convivi.

Vêm os tais padres agora com regras fora de hora prá que duvidem de mim.

Lei de Deus que não vigora.

Pois aqui tem meu ajudante-mor, diabo bem requeimado, meu bom colaborador: grande Aimberê, perversor dos homens, regimentado.

(Senta-se numa cadeira e vem uma velha chorar junto dele.

E ele a ajuda, como fazem os índios.

Depois de chorar, achando-se enganada, diz a velha)

VELHA

O diabo mal cheiroso, teu mau cheiro me enfastia.

Se vivesse o meu esposo, meu pobre Piracaê, isso agora eu lhe diria.

Não prestas, és mau diabo.

Que bebas, não deixarei do cauim que eu mastiguei.

Beberei tudo sozinha, até cair beberei.

(a velha foge)

GUAIXARÁ

(Chama Aimberê e diz:) Ei, por onde andavas tu? Dormias noutro lugar?

AIMBIRÊ

Fui as Tabas vigiar, nas serras de norte a sul nosso povo visitar.

Ao me ver regozijaram, bebemos dias inteiros.

Adornaram-se festeiros.

Me abraçaram , me hospedaram, das leis de deus estrangeiros.

Enfim, confraternizamos.

Ao ver seu comportamento, tranqüilizei-me.

Ó portento! Vícios de todos os ramos tem seus corações por dentro.

GUAIXARÁ

Por isso no teu grande reboliço eu confio, que me baste os novos que cativaste, os que corrompeste ao vício.

Diz os nomes que agregaste.

AIMBIRÊ

Gente de maratuauã no que eu disse acreditaram; os das ilhas, nestas mãos deram alma e coração; mais os paraibiguaras.

É certo que algum perdi, que os missionários levaram a Mangueá.

Me irritaram.

Raivo de ver os tupis que do meu laço escaparam.

Depois dos muitos que nos ficaram os padres sonsos quiseram com mentiras seduzir.

Não vê que os deixei seguir — ao meu apelo atenderam.

GUAIXARÁ

De que recurso usaste para que não nos fugissem?

AIMBIRÊ

Trouxe aos tapuias os trastes das velhas que tu instruíste em Mangueá.

Que isto baste.

Que elas são de fato más, fazem feitiço e mandinga, e esta lei de Deus não vinga.

Conosco é que buscam a paz, no ensino de nossa língua.

E os tapuias por folgarem, nem quiseram vir aqui.

De dança os enlouqueci para a passagem comprarem para o inferno que acendi.

GUAIXARÁ

Já chega.

Que tua fala me alegra, teu relatório me encanta.

AIMBIRÊ

Usarei de igual destreza para arrastar outras presas nesta guerra pouco santa.

O povo Tupinambá que em Paraguaçu morava, e que de Deus se afastava, deles hoje um só não há, todos a nós se entregaram.

Tomamos Moçupiroca, Jequei, Gualapitiba, Niterói e Paraíba, Guajajó, Carijó-oca, Pacucaia, Araçatiba Todos os tamoios foram Jazer queimando no inferno.

Mas há alguns que ao Padre Eterno fiéis, nesta aldeia moram, livres do nosso caderno.

Estes maus Temiminós nosso trabalho destroem.

GUAIXARÁ

Vem tentá-los que se moem a blasfemar contra nós.

Que bebam, roubem e esfolem.

Que provoquem muitas lutas, muitos pecados cometam, por outro lados se metam longe desta aldeia, à escuta dos que as nossas leis prometam.

AIMBIRÊ

É bem difícil tentá-los.

Seu valente guardião me amedronta.

GUAIXARÁ

E quais são?

AIMBIRÊ

É São Lourenço a guiá-los, de Deus fiel Capitão.

GUAIXARÁ

Qual? Lourenço o consumado nas chamas qual somos nós?

AIMBIRÊ

Esse.

GUAIXARÁ

Fica descansado.

Não sou assim tão covarde, será logo afugentado.

Aqui está quem o queimou e ainda vivo o cozeu.

AIMBIRÊ

`Por isso o que era teu ele agora libertou e na morte te venceu.

Há também o seu amigo Bastião, de flechas crivado.

GUAIXARÁ

O que eu deixei transpassado? Não faças broma comigo que sou bem desaforado.

Ambos fugirão logo aqui me virem chegar.

AIMBIRÊ

Olha que vais te enganar!

GUAIXARÁ

Tem confiança, te rogo, que horror lhes vou inspirar.

Quem como eu nas terras existe que até Deus desafiou?

AIMBIRÊ

Por isso Deus te expulsou, e do inferno o fogo triste para sempre te abrasou.

Eu lembro de outra batalha em que Guaixará entrou.

Muito povo te apoiou, e, inda que lhes desses forças, na fuga se debandou.

Não eram muitos cristãos.

Contudo nada ficou da força que te inspirou, pois veio Sebastião, na força fogo ateou.

GUAIXARÁ

Por certo aqueles cristãos tão rebeldes não seriam.

Mas esses que aqui estão desprezam a devoção e a Deus não reverenciam.

Vais ver como em nossos laços caem, logo estes malvados! De nossos dons confiados, as almas cederam passo para andar do nosso lado.

AIMBIRÊ

Assim mesmo tentarei.

Um dia obedecerão.

GUAIXARÁ

Ao sinal de minha mão os índios te entregarei.

E à força sucumbirão.

AIMBIRÊ

Preparemos a emboscada.

Não te afobes.

Nosso espia verá em cada morada que armas nos são preparadas na luta que se inicia.

GUAIXARÁ

Muito bem és capaz disso Saravaia meu vigia?

SARAVAIA

Sou demônio da alegria e assumi tal compromisso.

Vou longe nesta porfia.

Saravaiaçu me chamo.

Com que tarefa me aprazas?

GUAIXARÁ

Ouve as ordens de teu amo, quero que espies as casas e voltes quando te chame.

Hoje vou deixar que leves os índios aprisionados.

SARAVAIA

Irei onde me carregues.

E agradeço que me entregues encargo tão desejado.

Como Saravaia sou, aos índios que me aliei enfim aprisionarei.

E neste barco me vou.

De cauim me embriagarei.

GUAIXARÁ

Anda logo! vai ligeiro!

SARAVAIA

Como um raio correrei! (Sai)

GUAIXARÁ

(Passeia com Aimbirê e diz:) Demos um curto passeio Quando volte o mensageiro a aldeia destroçarei.

(Volta Saravaia e Aimberê diz:)

AIMBIRÊ

Danado! Voltou voando!

GUAIXARÁ

Demorou menos que um raio! Foste mesmo, Saravaia?

SARAVAIA

Fui.

Já estão comemorando os índios nossa vitória.

Alegra-te! Transbordava o cauim, o prazer regurgitava.

E a beber, as igaçabas esgotam até o fim.

GUAIXARÁ

E era forte?

SARAVAIA

Forte estava.

E os rapazes beberrões que pervertem esta aldeia, caiam de cara cheia.

Velhos, velhas, mocetões que o cauim desnorteia.

GUAIXARÁ

Já basta.

Vamos mansinho tomá-los todos de assalto.

Nosso fogo arda bem alto.

(Vem São Lourenço com dois companheiros.

Diz Aimbirê:)

AIMBIRÊ

Há um sujeito no caminho que me ameaça de assalto.

Será Lourenço, o queimado?

SARAVAIA

Ele mesmo, e Sebastião.

AIMBIRÊ

E o outro, dos três que são?

SARAVAIA

Talvez seja o anjo mandado, desta aldeia o guardião.

AIMBIRÊ

Ai! Eles me esmagarão! Não posso sequer olhá-los.

GUAIXARÁ

Não te entregues assim não, ao ataque, meu irmão! Teremos que amedrontá-los, As flechas evitaremos, fingiremos de atingidos.

AIMBIRÊ

Olha, eles vêm decididos a açoitar-nos.

Que faremos? Penso que estamos perdidos.

(São Lourenço fala a Guaixará:)

SÃO LOURENÇO

Quem és tu?

GUAIXARÁ

Sou Guaixará embriagado, sou boicininga, jaguar, antropófago, agressor, andirá-guaçu alado, sou demônio matador.

SÃO LOURENÇO

E este aqui?

AIMBIRÊ

Sou jibóia, sou socó, o grande Aimbirê tamoio.

Sucuri, gavião malhado, sou tamanduá desgrenhado, sou luminosos demônio.

SÃO LOURENÇO

Dizei-me o que quereis desta minha terra em que nos vemos.

GUAIXARÁ

Amando os índios queremos que obediência nos prestem por tanto que lhes fazemos.

Pois se as coisas são da gente, ama-se sinceramente.

SÃO SEBASTIÃO

Quem foi que insensatamente, um dia ou presentemente? os índios vos entregou? Se o próprio Deus tão potente deste povo em santo ofício corpo e alma modelou!

GUAIXARÁ

Deus? Talvez remotamente pois é nada edificante a vida que resultou.

São pecadores perfeitos, repelem o amor de Deus, e orgulham-se dos defeitos.

AIMBIRÊ

Bebem cuim a seu jeito, como completos sandeus ao cauim rendem seu preito.

Esse cauim é que tolhe sua graça espiritual.

Perdidos no bacanal seus espíritos se encolhem em nosso laço fatal.

SÃO LOURENÇO

Não se esforçam por orar na luta do dia a dia.

Isto é fraqueza, de certo.

AIMBIRÊ

Sua boca respira perto do pouco que Deus confia.

SARAVAIA

É verdade, intimamente resmungam desafiando ao Deus que os está guiando.

Dizem: “Será realmente capaz de me ver passando?”

SÃO SEBASTIÃO

(Para Saravaia:) Serás tu um pobre rato? Ou és um gambá nojento? Ou és a noite de fato que as galinhas afugenta e assusta os índios no mato?

SARAVAIA

No anseio de devorar as almas, sequer dormi.

GUAIXARÁ

Cala-te! Fale eu por ti.

SARAVAIA

Não vás me denominar, pra que não me mate aqui.

Esconda-me, antes, dele.

Eu por ti vigiarei.

GUAIXARÁ

Cala-te! Te guardarei! Que a língua não te revele, depois te libertarei.

SARAVAIA

Se não me viu, safarei.

Inda posso me esconder.

SÃO SEBASTIÃO

Cuidado que lançarei o dardo em que o flecharei.

GUAIXARÁ

Deixa-o.

Vem de adormecer.

SÃO SEBASTIÃO

A noite ele não dormiu para os índios perturbar

SARAVAIA

Isso não se há de negar.

(Açoita-o Guaixará e diz:)

GUAIXARÁ

Cala-te! Nem mais um pio, que ele quer te devorar.

SARAVAIA

Ai de mim! Por que me bates assim, pois estou bem escondido? (Aimbirê com São Sebastião )

AIMBIRÊ

Vamos! Deixa-nos a sós, e retirai-vos que a nós meu povo espera afligido.

SÃO SEBASTIÃO

Que povo?

AIMBIRÊ

Todos os que aqui habitam desde épocas mais antigas, velhos, moças, raparigas, submissos aos que lhes ditam nossas palavras amigas.

Vou contar todos seus vícios, Em mim acreditarás?

SÃO SEBASTIÃO

Tu não me convencerás.

AIMBIRÊ

Têm bebida aos desperdícios, cauim não lhes faltará.

De ébrios dão-se ao malefício, ferem-se, brigam, sei lá!

SÃO SEBASTIÃO

Ouvem do morubixaba censuras em cada taba, disso não os livrarás.

AIMBIRÊ

Censura aos índios? Conversa! Vem logo o dono da farra, convida todos à festa, velhos, jovens, moçocaras com morubixaba à testa.

Os jovens que censuravam com morubixaba dançam, e de comer não se cansam, e no cauim se lavam, e sobre as moças avançam.

SÃO SEBASTIÃO

Por isso aos aracajás vivem vocês freqüentando, e a todos aprisionando.

AIMBIRÊ

Conosco vivem em paz, pois se entregam aos desmandos.

SÃO SEBASTIÃO

Uns aos outros se pervertem convosco colaborando.

AIMBIRÊ

Não sei.

Vamos trabalhando, e ao vícios bem se convertem à força do nosso mando.

GUAIXARÁ

Eu que te ajude a explicar.

As velhas, como serpentes, injuriam-se entre dentes, maldizendo sem cessar.

As que mais calam consentem.

Pecam as inconseqüentes com intrigas bem tecidas, preparam negras bebidas pra serem belas e ardentes no amor na cama e na vida.

AIMBIRÊ

E os rapazes cobiçosos, perseguindo o mulherio para escravas do gentio.

Assim invadem fogosos...

dos brancos o casario.

GUAIXARÁ

Esta história não termina antes que desponte a lua, e a taba se contamina.

AIMBIRÊ

E nem sequer raciocinam que é o inferno que cultuam.

SÃO LOURENÇO

Mas existe a confissão, bem remédio para a cura.

Na comunhão se depura da mais funda perdição a alma que o bem procura.

Se depois de arrependidos os índios vão confessar dizendo: “Quero trilhar o caminho dos remidos”.

— o padre os vai abençoar.

GUAIXARÁ

Como se nenhum pecado tivessem, fazem a falsa confissão, e se disfarçam dos vícios abençoados, e assim viciados passam.

AIMBIRÊ

Absolvidos dizem: “na hora da morte meus vícios renegarei”.

E entregam-se à sua sorte.

GUAIXARÁ

Ouviste que enumerei os males são seu forte.

SÃO LOURENÇO

Se com ódio procurais tanto assim prejudicá-los, não vou eu abandoná-los.

E a Deus erguerei meus ais para no transe ampará-los.

Tanto confiaram em mim construindo esta capela, plantando o bem sobre ela.

Não os deixarei assim sucumbir sem mais aquela.

GUAIXARÁ

É inútil, desista disso! Por mais força que lhes dês, com o vento, num dois três daqui lhes darei sumiço.

Deles nem sombra vereis.

Aimbirê vamos conservar a terra com chifres, unhas, tridentes, e alegrar as nossas gentes.

AIMBIRÊ

Aqui vou com minhas garras, meus longos dedos, meus dentes,

ANJO

Não julgueis, tolos dementes, por no fogo esta legião, Aqui estou com Sebastião e São Lourenço, não tentem levá-los à danação.

Pobres de vós que irritastes de tal forma o bom Jesus Juro que em nome da cruz ao fogo vos condenastes (Aos santos ) Prendei-os donos da luz! (Os santos prendem os dois diabos )

GUAIXARÁ

Basta!

SÃO LOURENÇO

Não! Teu cinismo me agasta.

Destes provas que sobejam de querer destruir a igreja.

SÃO SEBASTIÃO

(A Aimberê:)

Grita! Lamenta! Te arrasta! Te prendi!

AIMBIRÊ

Maldito Seja! (Preso os dois fala o Anjo a Saravaia que ficou escondido)

ANJO

E tu que está escondido será acaso um morcego? Sapo cururu minguá, ou filhote de gambá, ou bruxa pedindo arrego? Sai daí seu fedorendo, abelha de asa de vento, zorrilho, maritaca, seu lesma, tamarutaca.

SARAVAIA

Ai vida, que me aprisionam! Não vês que morro de sono?

ANJO

Quem és tu?

SARAVAIA

Sou Saravaia Inimigo dos franceses.

ANJO

Teus títulos são só estes?

SARAVAIA

Sou também mestre em tocaia, porco entre todas as reses.

ANJO

Por isso és sujo e enlameias tudo com teu negro rabo.

Veremos como pateias no fogo que a gente ateia.

SARAVAIA

Não! Por todos os diabos! Eu te dou ovas de peixe, farinha de mandioca, desde que agora me deixas, te dou dinheiro aos feixes.

ANJO

Não te entendo, maçaroca.

As coisas que me prometes em troca, de onde roubaste? Que morada assaltaste antes que aqui te escondeste? Muito coisa tu furtaste?

SARAVAIA

Não, somente o que falei.

Da casa dos bons cristãos foi bem pouco o que apanhei; Tenho o que trago nas mãos, por muito que trabalhei.

Aqueles outros têm mais.

Para comprar cauim aos índios, em boa paz, dei o que tinha, e demais, pois pobre acabei assim.

ANJO

Vamos! Restitui-lhes tudo o que tiveres roubado.

SARAVAIA

Não faças isto, estou bêbedo, mais do que o demo rabudo da sogra do meu cunhado.

Tem paciência, me perdoa, meu irmão, estou doente.

Das minhas almas presente farei a ti, prá que em boa hora as cucas lhes rebentes, Leva o nome destes monstros e famoso ficarás.

ANJO

E onde lhes foste ao encontro?

SARAVAIA

Fui pelo sertão a dentro, lacei as almas, rapaz.

ANJO

De que famílias descendem?

SARAVAIA

Desse assunto pouco sei.

Filhos de índios talvez.

Na corda os enfileirei presos todos de uma vez.

Passei noites sem dormir, nos seus lares espreitei, fiz suas casas explodir, suas mulheres lacei, pra que não possam fugir.

(Amarra-o o anjo e diz:)

ANJO

Quantas maldades fizeste! Por isso o fogo te espera.

Viverás do que tramaste nesta abrasada tapera em que pro fim te pilhaste.

SARAVAIA

Aimberê!

AIMBIRÊ

Oi!

SARAVAIA

Vem logo dar-me a mão! Este louco me prendeu.

AIMBIRÊ

A mim também me venceu o flechado Sebastião.

Meu orgulho arrefeceu.

SARAVAIA

Ai de mim! Guaixará, dormes assim, sem pensar em me salvar?

GUAIXARÁ

Estás louco, Saravaia Não vês que Lourenço ensaia maneira de me queimar?

ANJO

Bem junto, pois sois comparsas, ardereis eternamente.

Enquanto nós, Deo Gratias!, sob a luz da minha guarda viveremos santamente.

(Faz uma prática aos ouvintes) Alegrai-vos, filhos meus, na santa graça de Deus, pois que dos céus eu desci, para junto a vós estar e sempre vos amparar dos males que há por aqui.

Iluminado esta aldeia junto de vós estarei, por nada me afastarei — pois a isto me nomeia Deus, Nosso Senhor e Rei! Ele que a cada um de vós um anjo seu destinou.

Que não vos deixe mais sós, e ao mando de sua voz os demônios expulsou.

Também São Lourenço o virtuoso, Servo de Nosso Senhor, vos livra com muito amor terras e almas, extremoso, do demônio enganador.

Também São Sebastião valente santo soldado, que aos tamoios rebelados deu outrora uma lição hoje está do vosso lado E mais — Paranapucu, Jacutinga, Morói, Sariguéia, Guiriri, Pindoba, Pariguaçu, Curuça, Miapei E a tapera do pecado, a de Jabebiracica, não existe.

E lado a lado a nação dos derrotados no fundo do rio fica.

Os franceses seus amigos, inutilmente trouxeram armas.

Por nós combateram Lourenço, jamais vencido, e São Sebastião flecheiro.

Estes santos, em verdade, das almas se compadecem aparando-as, desvanecem (Ó armas da caridade!) Do vício que as envilece.

Quando o demônio ameaçar vossas almas, vós vereis com que força hão de zelar.

Santos e índios sereis pessoas de um mesmo lar.

Tentai velhos vícios extirpar, e as maldades cá da terra evitai, bebida e guerra, adultério, repudiai tudo o que o instinto encerra.

Amai vosso Criador cuja lei pura e isenta São Lourenço representa.

Engrandecei ao Senhor que de bens vos acrescenta.

Este mesmo São Lourenço que aqui foi queimado vivo pelos maus, feito cativo, e ao martírio foi infenso, sendo o feliz redivivo.

Fazei-vos amar por ele, e amai-o quanto puderdes, que em sua lei nada se perde.

E confiando mais nele, mais o céu se vos concede.

Vinde à direita celestial de Deus Pai, ireis gozar junto aos que bem vão guardar no coração que é leal, e aos pés de Deus repousar.

(Fala com os santos convidando-os a cantar e se despede) Cantemos todos, cantemos! Que foi derrotado o mal! Esta história celebremos, nosso reino inauguremos nessa alegria campal! (Os santos levam presos os diabos os quais, na última repetição da cantiga choram)

CANTIGA

Alegrem-se os nossos filhos por Deus os ter libertado.

Guaixará seja queimado, Aimbirê vá para o exílio, Saravaia condenado! Guaixará seja queimado, Aimbirê vá para o exílio, Saravaia condenado!

(Voltam os santos)

Alegrai-vos, vivei bem, vitoriosos do vício, aceitai o sacrifício que ao amor de Deus convém.

Daí fuga ao Demo-ninguém! Guaixará seja queimado, Aimbirê vá para o exílio, Saravaia condenado!

TERCEIRO ATO

Depois de São Lourenço morto na grelha o Anjo fica em sua guarda, e chama os dois diabos, Aimbirê e Saravaia, que venham sufocar os imperadores Décio e Valeriano que estão sentados em seus tronos.

ANJO

Aimbirê!
Estou chamando você.
Apressa-te ! Corre! Já!

AIMBIRÊ

Aqui estou! Pronto! O que há!
Será que vai me pender
de novo este passarão?

ANJO

Reservei-te uma surpresa:
tenho dois imperadores
para dar-te como presa.
De Lourenço, em chama acesa, foram ele os matadores.

AIMBIRÊ

Boa! Me fazes contente!
À força os castigarei,
e no fogo os queimarei
como diabo eficiente.
Meu ódio satisfarei.

ANJO

Eia, depressa a afogá-los.
Que para o sol sejam cegos!
Ide ao fogo cozinhá-los.
Castiga com teus vassalos
estes dois sujos morcegos.

AIMBIRÊ

Pronto! Pronto!
Sejam tais ordens cumpridas!
Reunirei meus demônios.
Saravaia, deixa os sonhos, traz-me de boa bebida que temos planos medonhos!

SARAVAIA

Já de nego me pintei, ó meu avô jaguaruna, e o cauim preparei, verás como beberei nesta festa da fortuna.
Que vejo? Um temiminó? Ou filho de guaianá? Será esse um guaitacá
que à mesa do jacaré
sozinho vou devorar?
(Vê o Anjo e espanta-se.)
E este pássaro azulão,
quem será que assim me encara?
Algum parente de arara?

AIMBIRÊ

É o anjo que em nossa mão
põe duas presas bem raras.

SARAVAIA

Meus capangas, atenção!
Tataurana, Tamanduá,
vamos com calma por lá,
que esses monstros quererão
por certo me afogar.

AIMBIRÊ

Vamos!

SARAVAIA

Ai, os mosquitos me mordem!
Espera, ou me comerão!
Tenho medo, quem me acode.
Sou pequenino e eles podem
tragar-me de supetão.

AIMBIRÊ

Os índios que não se fiam
nesta conversa e se escondem
se os mandam executar.

SARAVAIA

Têm razão se desconfiam,
vivem sempre a se lograr.

AIMBIRÊ

Cala a boca, beberrão,
só por isso és tão valente,
moleirão impertinente!

SARAVAIA

Ai de mim, me prenderão,
mas vou por te ver contente.
E a quem vamos devorar?

AIMBIRÊ

A algozes de São Lourenço.

SARAVAIA

Aqueles cheios de ranço?
Com isto eu vou mudar
meu nome, de que me canso.
Muito bem! Suas entranhas
sejam hoje o meu quinhão.

AIMBIRÊ

Vou morder seu coração.

SARAVAIA

E os que não nos acompanham sua parte comerão.
(Chama quatro companheiros para que os ajudem.)
Tataurana, traze a tua muçurana.
Urubu, jaguaruçu, traz a ingapema. Sús Caborê, vê se te inflama pra comer estes perus.
(Acodem todos os quatro com suas armas)

TATAURANA

Aqui estou com a muçurana e os braços lhe comerei; A Jaguaraçu darei o lombo, a Urubu o crânio, e as pernas a Caborê

URUBU

Aqui cheguei!
As tripas recolherei, e com os bofes terei a panela a derramar.
E esta panela verei minha sogra cozinhar.

JAGUARUÇU

Com esta ingapema dura as cabeças quebrarei, e os miolos comerei.
Sou guará, onça, criatura, e antropófago serei.

CABORÊ

E eu que em demandas andei aos franceses derrotando, para um bom nome ir logrando, agora contigo irei estes chefes devorando.

SARAVAIA

Agora quietos! De rastros, não nos viram. Vou à frente.
Que não escapem da gente.
Vigiarei. No tempo exato ataquemos de repente.
(Vão todos agachados em direção a Décio e Valeriano que conversam)

DÉCIO

Amigo Valeriano minha vontade venceu.
Não houve arte no céu que livrasse do meu plano o servo do Galileu.
Nem Pompeu e nem Catão nem Cesar, nem o Africano, nenhum grego nem troiano puderam dar conclusão a um feito tão soberano.

VALERIANO

O remate, grão-Senhor desta tão grande façanha foi mais que vencer Espanha.
Jamais rei ou imperador logrou coisa tão estranha.
Mas, Senhor, esse quem é que vejo ali, tão armado com espadas e cordel, e com gente de tropelvindo tão acompanhado?

DÉCIO

É o grande deus nosso amigo, Júpiter, sumo senhor, que provou grande sabor com o tremendo castigo da morte deste traidor.
E quer, para reforçar as penas deste rufião, nosso império acrescentar com sua potente mão, pela terra e pelo mar.

VALERIANO

Mais me parece é que vem a seus tormentos vingar, e a nós ambos enforcar.
Oh! que cara feia tem!
Começo a me apavorar.

DÉCIO

Enforcar?
Quem a mim pode matar, ou mover meus fundamentos?
Nem a exaltação dos ventos, Nem a braveza do mar, nem todos os elementos!
Não temas, que meu poder, o que os deuses imortais me quiseram conceder, não se poderá vencer pois não há forças iguais.
De meu cetro imperial pendem reis, tremem tiranos.
Venço a todos os humanos, e posso ser quase igual a esses deuses soberanos.

VALERIANO

Oh, que terrível figura!
Não posso mais aguardar, que já me sinto queimar!
Vamos, que é grande loucura tal encontro aqui esperar.
Ai! ai! que grandes calores! Não tenho nenhum sossego.
Ai, que poderosas dores! Ai, que férvidos ardores, que me abrasam como fogo!

DÉCIO

Oh, paixão!
Ai de mim, que é o Plutão chegando pelo Aqueronte, ardendo como tição a levar-nos de roldão ao fogo do Flegetonte.
Oh, coitado que me queimo! Esse queimado me queima com grande dor!
Oh, infeliz imperador! Todo me vejo cercado de penas e de pavor, pois armado o diabo com seu dardo mais as fúrias infernais, vêm castigar-nos demais.
Já nem sei o que hei falado com angústias tão mortais.

VALERIANO

O Décio, cruel tirano!
Já pagas, e pagará Contigo Valeriano, porque Lourenço cristão assado, nos assará.

AIMBERÊ

Ô Castelhano!
Bom Castelhano parece!
Estou bem alegre mano, que Espanhol seja o profano que no meu fogo padece.
Vou fingir-me castelhano e usar de diplomacia com Décio e Valeriano, porque o espanhol ufano sempre guarda a cortesia.
Oh, mais alta majestade!
Beijo-vos a mão mil vezes, por vossa grã-crueldade pois justiça nem verdade guardastes, sendo juizes.
Sou mandado por São Lourenço queimado, levá-los à minha casa, onde seja confirmado vosso imperial estado em fogo, que sempre abrasa.
Oh, que tronos e que camas eu vos tenho preparadas, nessas escuras moradas de vivas e eternas chamas de nunca ser apagadas!

VALERIANO

Ai de mim!

AIMBIRÊ

Vieste do Paraguai?
Que falais, em Carijó.
Sei todas línguas de cor.
Avança aqui, Saravaia!
Usa tu golpe maior!

VALERIANO

Basta! Que assim me assassinas, não tenho pecado nada!
Meu chefe é a presa acertada.

SARAVAIA

Não, és tu que me fascinas, ó presa bem cobiçada.

DÉCIO

Ó miserável de mim, que nem basta ser tirano, nem falar em castelhano!
Que é do mando em que me vi, e o meu poder soberano?

AIMBIRÊ

Jesus, Deus grande e potente, que tu, traidor, perseguiste, te dará sorte mais triste entregando-te em meu dente, a que, malvado, serviste.
Pois me honraste, e sempre me contentaste ofendendo ao Deus eterno.
É justo pois que no inferno, palácio que tanto amaste, não sintas o mal do inverno.
Porque o ódio inveterado do teu duro coração não pode ser abrandado, se não for já martelado com a água do Flegeton.

DÉCIO

Olha que consolação para quem se está queimando!
Sumos deuses, para quando adiais minha salvação, que vivo estou me abrasando?
Ai, ai! Que mortal desmaio!
Esculápio, não me acodes?
Oh, Júpiter, porque dormes?
Que é do vosso raio?
Por que é que não me socorres?

AIMBIRÊ

Que dizeis?
De que mal vós padeceis?
Que pulso mais alterado.
É grande dor de costado este mal, que morreis!
Haveis de ser bem sangrado!
Há dias que esta sangria se guardava para vós que sangráveis, noite e dia, com dedicada porfia aos santos servos de Deus.
Muito desejo eu beber vosso sangue imperial.
Oh, não me leveis a mal que com isso quero ser homem de sangue real.

DÉCIO

Que dizeis? Que disparate, e elegante desvario!
Joguem-me dentro de um rio antes que o fogo me mate, ó deuses em que confio!
Não quereis socorrer-me, ou não podeis?
Ó malditos fementidos, ingratos desconhecidos, que pouco vos condoeis de quem fostes tão servidos!

Se agora voar pudesse, vos iria derrocar dos vossos tronos celestes, feliz, se a mim me coubesse no fogo vos projetar.

AIMBIRÊ

Parece-me que é chegada a hora do frenesi, e com chama redobrada, a qual será descuidada dos deuses a quem servis.
São armas dos audazes cavaleiros que usam palavrório humano.
E por isso, tão ufano, hoje vindes acolhê-los no romance castelhano.

SARAVAIA

Assim é.
Pensava dar, de revés, golpes de afiados aços mas enfim, nossos balaços se chocaram através com bem poucos canhonaços.
Mas que boas bofetadas lhes reservo para dar!
Os tristes, sem descansar, à força de tais pauladas com cães hão de ladrar.

VALERIANO

Que ferida! Tira-me logo esta vida pois, minha alta condição, contra justiça e razão veio a ser tão abatida que morro como ladrão!

SARAVAIA

Não é outro o galardão que concedo aos meus criados, senão morrer enforcados, e depois, sem remissão, ao fogo ser condenados!

DÉCIO

Essa é a pena redobrada que me causa maior dor: que eu, universal senhor, morra morte desonrada na forca como traidor.
Ainda se fosse lutando, dando golpes e reveses, pernas e braços cortando, como fiz com os franceses, acabaria triunfando.

AIMBIRÊ

Parece que estais lembrando, poderoso imperador, quando, com bravo furor, matastes, traição armando, Felipe, vosso senhor.
Por certo que me alegrais e se cumpre meus anseios ante desabafos tais, porque o fogo em que queimais provoca tais devaneios.

DÉCIO

Bem entendo que este fogo em que me acendo merece-me a tirania, pois com tão feroz porfia aos cristãos martirizando pelo fogo os consumia.
Mas que em minha monarquia acabe com tal pregão pois morrer como ladrão é muito triste agonia e dobrada confusão.

AIMBIRÊ

Como? Pedis confissão?
Sem asas quereis voar?
Ide, se quereis achar aos vossos atos perdão, à deusa Pala rogar.
Ou a Nero, esse cruel carniceiro do fiel povo cristão.
Aqui está Valeriano, vosso leal companheiro, buscai-o por sua mão!

DÉCIO

Esses amargos chistes e agressões me acrescentam em paixões e mais dores, com tão profundos ardores como de ardentes tições E com isto crescem mais os fogos em que padeço.
Acaba, que me ofereço em tuas mãos, Satanás, ao tormento que mereço.

AIMBIRÊ

Oh, quanto vos agradeço por esta boa vontade!
Eu, com liberalidade quero dar-lhe bom refresco para vossa enfermidade.
Na cova onde o fogo se renova com ardores perenais, os vossos males fatais aí terão grande prova das agruras imortais.

DÉCIO

Que fazer, Valeriano, bom amigo!
Testemunharás comigo desta pena envolvido na cadeia de fogo, deste castigo.

VALERIANO

Em má hora! Já são horas...
Vamos logo deste fogo ao outro fogo eternal, lá onde a chama imortal nunca nos dará sossego.
Sús, asinha!
Vamos à nossa cozinha, Saravaia!

AIMBIRÊ

Aqui deles não me afasto.
Nas brasas serão bom pasto, maldito quem nelas caia.

DÉCIO

Aqui abrasado estou!
Assa-me Lourenço assado!
De soberano que sou vejo que Deus me marcou por ver seu santo vingado!

AIMBIRÊ

Com efeito quiseste abrasar a jeito o virtuosos São Lourenço.
Hoje te castigo e venço e sobre as brasas te deito para morrer, segundo penso.
(Sufocam-nos e entregam aos quatro beleguins, e cada dois levam o seu.)
Vinde aqui e aos malditos conduzi para em bom queimarem, seus corpos sujos tostarem, na festa em que os seduzi para cozidos bailarem
(Ficam ambos os demônios no terreiros com as coroas dos imperadores na cabeça.)

SARAVAIA

Sou o grande vencedor, o que as más cabeças quebra, sou um chefe de valor e hoje me decido por me chamar Cururupeba.
Como eles, mato os que estão em pecado, e os arrasto em minhas chamas.
Velhos, moços, jovens, damas, tenho sempre devorado.
De bom algoz tenho fama.

QUARTO ATO

Tendo o corpo de São Lourenço amortalhado e posto na tumba, entra o Anjo com o Temor e o Amor de Deus, a encerrar a obra, e no fim acompanham o santo à sepultura.

ANJO

Vendo nosso Deus benigno vossa grande devoção que tendes, e com razão, a Lourenço, o mártir digno de toda a veneração, determinam, por seus rogos e martírio singular, a todos sempre ajudar, para que escapeis dos fogos em que os maus se hão de queimar.
Dois fogos trazia n’alma, com que as brasas resfriou, a no fogo em que se assou, com tão gloriosa palma, dos tiranos triunfou.
Um fogo foi o temor do bravo fogo infernal, e, como servo leal, por honrar a seu Senhor, fugiu da culpa mortal.
Outro foi o Amor fervente de Jesus, que tanto amava, que muito mais se abrasava com esse fervor ardente que co’o fogo, em que se assava, Estes o fizeram forte.
Com estes purificado como ouro refinado, padeceu tão crua morte por Jesus, seu doce amado.
Estes vos manda o Senhor a ganhar vossa frieza, para que vossa alma acesa de seu fogo gastador, fique cheio de pureza.
Deixai-vos deles queimar como o mártir São Lourenço, e sereis um vivo incenso que sempre haveis de cheirar na corte de Deus imenso.

TEMOR DE DEUS

(Dá seu recado.)
Pecador, sorves com grande sabor o pecado, e não ficas afogado com teus males!
E tuas chagas mortais não sentes, desventurado!
O inferno como seu fogo sempiterno, Já te espera, se não segues a bandeira da cruz, sobre a qual morreu Jesus para que tua morte morra.
Deus te envia esta mensagem com amor, a mim que sou seu Temor me convém declarar o que contém para que temas ao Senhor.
(Glosa e declaração do recado.)
Espantado estou de ver, pecador, teu vão sossego.
Com tais males a fazer, como vives sem temer, aquele espantoso fogo?
Fogo que nunca descansa, mas sempre provoca a dor, e com seu bravo furor dissipa toda a esperança ao maldito pecador.
Pecador, como te entregas tão sem freio ao vício extremo?
Dos vícios de que estás cheios engolindo tão às cegas a culpa, com seu veneno.
Veneno de maldição tragas sem nenhum temor, e sem sentir sua dor, deleites da carnação sorves com grande sabor.
Será o sabor do pecado muito mais doce que o mel, mas o inferno cruel depois te dará um bocado bem mais amargo que o fel Fel beberás sem medida, pecador desatinado, tua alma em chamas ardida.
Esta será a saída do deleite do pecado.
Do pecado que tu amas Lourenço tanto escapou que mil penas suportou, e queimado pelas chamas, por não pecar, expirou.
Ele a morte não temeu.
Tu não temes o pecado no qual et tem enforcado Lucifer, que te afogou, e não ficas afogado.
Afogado pela mão do Diabo pereceu Décio com Valeriano, infiel, cruel tirano, no fogo que mereceu.
Tua fé merece a vida, mas com pecados mortais quase a tiveste perdida, e teu Deus, bem sem medida, ofendeste, com teus males.
Com teus males e pecados, tua alma de Deus alheia, da danação na cadeia há de pagar com os danados a culpa que a incendeia.
Pena sem fim te darão dentre os fogos infernais teus deleites sensuais.
Teus tormentos dobrarão, e tuas chagas mortais.
Que mortais são tuas feridas pecador. Porque não choras?
Não vês que nestas demoras, estão todas corrompidas, a cada dia pioras?
Pioras e te confinas, mas teu perigoso estado, na pressa e grande cuidado com que ao fogo te destinas, não sentes, desventurado?
Oh, descuido intolerável de tua vida!
Tua alma está confundida no lodo, e tu vais rindo de tudo, não sentes tua caída!
Oh, traidor!
Que negas teu Criador, Deus eterno, que se fez menino terno por salvar-te.
E tu queres condenar-te e não temes ao inferno!
Ah, insensível!
Não calculas o terrível espanto, que causará o juiz, quando virá com carranca muito horrível, e à morte te entregará.
E tua alma será sepultada em pleno inferno, onde morte não terá mas viva se queimará com seu fogo sempiterno!
Oh, perdido!
Ali serás consumido sem nunca te consumir.
Terás vida sem viver, com choro e grande gemido, terás morte sem morrer.
Pranto será teu sorrir, sede sem fim te abeberra, fome que em comer se gera, teu sono, nunca dormir, tudo isto já te espera.
Oh, morfio!
Pois tu veras de continuo ao horrendo Lucifer, sem nunca chegar a ver aquele molde divino de quem tiras todo o ser.
Acaba já de temer a Deus, que sempre te espera, correndo por sua esteira, pois não lhes vai pertencer se não lhe segues a bandeira.
Homem louco!
Se teu coração já toco, mudar-se-ão alegrias em tristezas e agonias.
Olha que te falta pouco para fenecer teus dias.
Não peques mais contra Aquele que te ganhou vida e luz com seu martírio cruel bebendo vinagre e fel no extremo lenho a cruz.
Oh, malvado! Ele foi crucificado, sendo Deus, por te salvar.
Pois, que podes esperar, se foste tu o culpado e não cessas de pecar?
Tu o ofendes, ele te ama.
Cegou-se por dar-te a luz.
Tu és mau, pisas a cruz sobre a qual morreu Jesus.
Homem cego, porque não começas logo a chorar por teu pecado?
E tomar por advogado a Lourenço que, no fogo, por Jesus morreu queimado?
Teme a Deus, juiz tremendo, que em má hora te socorra, em Jesus tão só vivendo, pois deu sua vida morrendo para que tua morte morra.

AMOR DE DEUS

(Dá seu recado)

Ama a Deus, que te criou, homem, de Deus muito amado!
Ama com todo cuidado, a quem primeiro te amou.
Seu próprio Filho entregou à morte, por te salvar.
Que mais te podia dar, se tudo o que tem te dou?
Por mandado do Senhor, te disse o que tens ouvido.
Abre todo teu sentido, porque eu, que sou seu Amor, seja em ti bem imprimido
(Glosa e declaração do recado)
Todas as coisas criadas conhecem seu Criador.
Todas lhe guardam amor, pois nele são conservadas, cada qual em seu vigor.
Pois com tanta perfeição sua ciência te formou homem capaz de razão, de todo o teu coração ama a Deus, que te criou!
Se amas a criatura por se parecer formosa, ama a visão graciosa desta mesma formosura por sobre todas as coisas.
Dessa divina lindeza deves ser enamorado.
Seja tua alma presa daquela suma beleza homem, de Deus muito amado!
Aborrece todo o mal, com despeito e com desdém, E pois, que é racional, abraça a Deus imortal, todo, sumo e único bem.
Este abismo de fartura, que nunca será esgotado; esta fonte viva e pura, este rio de doçura, ama com todo cuidado.
Antes que criasse nada já a alma majestade te havia a vida gerado.
e tua alma, abrasada com eterna caridade.
Por fazer-te todo seu com amor te cativou e, pois que tudo te deu, dá tu todo o maior que é teu a quem primeiro te amou.
E deu-te alma imortal e digna de um Deus imenso, para que fosses suspenso nele, esse bem eternal, que é sem fim e sem começo.
Depois, que em morte caíste com vida te levantou.
Porque sair não conseguiste da culpa em que te fundiste, seu próprio filho entregou.
Entregou-o por escravo, deixou que fosse vendido, para que tu, redimido do poder do leão bravo fosses sempre agradecido.
Para que não morras, morre com amor bem singular.
Pois, quanto deves amar a Deus que entregar-se quer à morte, por te salvar.
O Filho, que o Padre deu, a seu Pai te dá por pai, e sua graça te infundiu, e quando na cruz morreu, deu-te por mãe sua Mãe.
Deu-te fé com esperança, e a si mesmo por manjar, para em si te transformar pela bem aventurança.
Que mais te podia dar?
Em paga de tudo isto, oh, ditoso pecador, pede apenas teu amor.
Despreza pois todo o resto por ganhar a tal Senhor.
Dá tua vida pelos bens que Sua morte te ganhou.
És seu, nada tens de teu, Dá-lhe tudo quanto tens, pois tudo o que tem te deu!

DESPEDIDA

Levantai os olhos ao céu, meus irmãos.
Vereis a Lourenço reinando com Deus, por vós implorando junto ao rei dos céus, que louvais seu nome aqui neste chão!
Daqui por diante tende grande zelo, que Deus seja sempre temido e amado, e, mártir tão santo, de todos honrado.
Terei seus favores e doce desvelo.
Pois que celebrai com tal devoção seu claro martírio, tomai meu conselho: sua vida e virtudes tende por espelho, chamando-o sempre com grande afeição.
Tereis, por seus rogos, o santo perdão, e sobre o inimigo perfeita vitória.
E depois da morte vós vereis na glória a cara divina, com clara visão.

(LAUS DEO)

QUINTO ATO

Dança de doze meninos, que se fez na procissão de São Lourenço.

1º) Aqui estamos jubilosos tua festa celebrando.
Por teus rogos desejando Deus nos faça venturosos nosso coração guardando.

2º) Nós confiamos em ti Lourenço santificado, que nos guardes preservados dos inimigos aqui Dos vícios já desligados nos pajés não crendo mais, em suas danças rituais, nem seus mágicos cuidados.

3º) Como tu, que a confiança em Deus tão bem resguardaste, que o dom de Jesus nos baste, pai da suprema esperança.

4º) Pleno do divino amor foi teu coração outrora.
Zela pois por nós agora! Amemos nosso Criador, pai nosso de cada hora!

5º) Obedeceste ao Senhor, cumprindo sua palavra.
Vem que nossa alma escrava de teu amor, neste dia te imita em sabedoria.

6º) Milagroso, tu curaste teus filhos tão santamente.
Suas almas estão doentes deste mal que abominaste, Vem curá-los novamente!

7º) Fiel a Nosso Senhor a morte tu suportaste.
Que a força disto nos baste para suportar a dor pelo mesmo Deus que amaste.

8º) Pelo terrível que és, Já que os demônios te temem, nas ocas onde se escondem vem calcá-los sob os pés, pra que as almas não nos queimem.

9º) Hereges que este indefeso corpo no teu assaram, e a carne toda queimaram em grelhas de ferro aceso.
Choremos, do alto desejo de Deus Padre contemplar.
Venha Ele neste ensejo nossas almas inflamar.

10º) Os teus verdugos extremos treme, algozes de Deus.
Vem, leva-nos como teus, que ao teu lado ficaremos assustando estes ateus.

11º) Estes que te deram morte ardem no fogo infernal.
Tu, na glória celestial gozarás, divina sorte.
E contigo aprenderemos a amar a Deus no mais fundo do nosso ser, e no mundo longa vida gozaremos.

12º) Em tuas mãos depositamos nosso destino também.
Em teu amor confiamos e uns aos outros nos amamos para todo o sempre.
Amém.

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