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Feitos de Mem de Sá

 

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Padre José de Anchieta

A MEM DE SÁ GOVERNADOR

Epístola Dedicatória

Eis que vês, potentado supremo, quão grande façanha realizou a força do onipotente Deus.

O indômito Brasil já seus anchos orgulhos depôs, e tombou, rendido às tuas armas.

O que dantes, furioso, semeava ruínas e guerras, aprecia os fatores de redentora paz.

O que dantes vivia escondido em sombrias florestas aos templos do Senhor, já pressuroso corre. O que há pouco, cão feroz, roía ossos humanos, sacia com o Pão dos Anjos o coração já manso.

O que há pouco de fauces sedentas, sugava o sangue fraterno voa a desalterar-se nos mananciais divinos.

Foi a própria Onipotência que robusteceu os teus golpes e prostrou a teus pés as inimigas hostes Vês como de nada vales a esses ninhos altivos de pedra toda a estratégia das posições achadas.

Inexpugnáveis embora à força humana as ameias erguidas pelo hábil francês no cimo dessa penha, Aquele que rege com seu braço o universo estrelado e pode com um aceno volvê-lo e revolvê-lo, franqueou-te, ó vencedor, o forte de rochas horrendas e a soberba de sua mole sob os teus pés meteu, nem sofreu te barrassem o passo as flechas aladas nem as balas que vomita a poderosa pólvora, nem tão os pelouros que pelos ares arrota com tremendo fragor o ventre do canhão.

Quando já te faltavam as forças e tua esquadra cedia desfalcada pelo baque de muitos de teus heróis.

Quando já se acabara a pólvora que alimenta o incêndio e que ao fogo voraz vem provocar as iras: Jesus compadecido olhou-te das alturas celestes e veio ele próprio a estender-te a mão.

Rendido às tuas preces, ele ouviu teus pedidos, incutiu terror e pôs o inimigo em fuga.

Já no intimo peito podes fruir gozos nunca provados: é a quadra formosa duma alegria nova.

Já podes exultar entre os vivas deste egrégio triunfo: esta palma ergue-te o nome ao apogeu da glória.

Glorifica ao Senhor, que com seu braço invencível esmagou os inimigos e seus fortins ativos.

Só a ele pertence derrubar sanguinários tiranos calcar ao chão os maus, erguer ao céu os bons.

Aspira aos fulgores, que inundam o palácio celeste, se é que o amor da glória teu coração enleia.

Bem sabes que o brilho fementido do mundo foge ligeiro e leve, e se desfaz na fuga.

Como se esvai pelas fendas da jarra partida o líquido, e baldado é procurar enchê-la.

Assim a honra fugaz, como água, flui e se escapa por entre os dedos que segurá-la tentam.

Se te deres ao lazer silencioso de revolver em teu peito as empresas heróicas dos generais famosos, verás quantos triunfos varreu a lúgubre morte para as águas imundas da infernal voragem.

É que ensoberbecidos negaram ao Senhor sempiterno, que tudo fez no mundo, glórias que alcançaram.

No tênue respiro da vida sorveram vãos elogios e todo o seu cuidado foi sua própria fama.

Se és prudente, pede a Deus uma única glória, a que só vem de Deus, a verdadeira glória!
Se és prudente, rejeita os enganos do mundo que gira, não te acorrente com seus grilhões os pés.

Com suas fraudes enleia, com a face ingênua nos mente:
e não nos deixa erguer a fronte altiva ao céu.

Depois que escalaste as árduas muralhas do forte e a glória de teus louros refulge mais que nunca: não te envolva em suas malhas o soberbo tirano, e, apenas vencedor, te calque aos pés vencido.

Ouve pois as palavras que Jesus, o mestre divino te dirige com lábios que enganar não podem: “Se queres ser perfeito e galgar as alturas celestes, vai, vende o que tens, e dá-o todo aos pobres!”
Vê como ele próprio, porque seus pés são ligeiros, voa como um gigante que não afrouxa o passo:
para que, apressado, seguindo-lhe a esteira sagrada, sacudas pesos mortos e partas livre e leve.

Se te sustarem o passo riquezas e glórias do mundo, Jesus, que não para, te escapará dos olhos.

É certo que a soberba, com seus afãs só compra o inferno e com pouco trabalho o humilde compra o céu!
Se pois com justo ódio desejas vencer o orgulho mundano a Cristo atribui todas as tuas glórias!
Do fundo do coração ao Pai celeste dá graças e rende a Jesus as merecidas honras.

Foi ele quem quis que fosses tu nas regiões brasileiras primeiro propagador de seu bendito nome.

O primeiro a vingar os ultrajes do gentio inumano e dobrar-lhe a cerviz às tuas ordens justas.

Ao peso do teu braço, os altivos Brasis esqueceram seus ferozes costumes e seus sangrentos ritos.

Eia! novo ardor, ancião! extermina as maldades, submete ao Deus eterno essas nações selvagens.

No céu te espera um trono, grande Mem; para aí te convidam os fulgurantes templos do firmamento azul.

Aquele, cujo nomes ensinas a louvar em plagas incultas, até aos astros levantará teu nome.

Entre laudas divinas dar-te-á eterna coroa e o ilumina cetro de seu celeste reino.

Enquanto a fé e a lei de Deus e nome de Cristo forem reverenciados no hemisfério austral, os sucessores que empunharem teu bastão glorioso seguirão tua trilha sem arredar passo.

Vive pois feliz, governando as plagas Brasílicas numa estrada de glória que teus vindouros sigam, para que Cristo expulse o tirano infernal, das terras do Sul e nelas implante os eu reinado eterno!

LIVRO I

As glórias do Pai celeste e sua força divina teu nome, ó Cristo Rei, e teus feitos gloriosos começarei a cantar. Num arrojo gigante, empreenderei a celebrar em versos tuas magnas empresas.

Pois há pouco tua força descerrou uma aurora por entre a escuridão das regiões brasileiras, que o úmido Sul encharca com furiosas rajadas.

Esse vento impele nimbos e arma tremendas borrascas nos altos mares, e cobre com véus de névoas os campos; fustigando com frio a nudeza das gentes.

Já os astros que orvalharam o mundo oprimido brilham de luz mais fulgente, e o sol conduz o seu carro no límpido espaço e, com novos raios, do céu afugenta nuvens densas, dissipa névoas e seca o solo embebido de longas chuvas e, todo-luz em seu disco brilhante enche de claridade as trevas do mundo.

Tu, ó Jesus, ó clara luz do firmamento sereno, ó fulgor sem ocaso, ó imagem do brilho paterno, ilumina-me a mente cega, aclara-me a alma com esplêndidos lampejos. Tu és a fonte ubertosa donde, em torrentes, se inebriam os habitantes celestes.

Fecunda meu coração de copioso orvalho e derrama sobre mim fontes vitais, ondas de vida: Inunda meu peito árido com teus raios divinos: Assim cantarei os prodígios que teu braço potente há pouco operou em favor da gente brasileira, quando fez raiar, rasgando as trevas do inferno, na arcada celeste, esplendoroso arrebol.

Envolta, há séculos, no horror da escuridão idolátrica, houve nas terras do Sul uma nação que dobrara a cabeça ao jugo do tirano infernal, e levava uma vida vazia de luz divina. Imersa na mais triste miséria, soberba, desenfreada, cruel, atroz, sanguinária, mestra em trespassar a vítima com a seta ligeira, mais feroz do que o tigre, mais voraz que o lobo, mais assanhada que o lebréu, mais audaz que o leão, saciava o ávido ventre com carnes humanas. Por muito tempo tramou emboscadas: seguia,
no seu viver de feras, o exemplo do rei dos infernos, que por primeiro trouxe a morte ao mundo, enganando nossos primeiros pais. Dilacerava os corpos de muitos, com atrozes tormentos, e, embriagada de furor e soberba ia enlutando os povos cristãos com mortes freqüentes.

Mas um dia o pai onipotente volveu os olhares dos reinos da luz à noite das regiões brasileiras, às terras que suavam, em borbotões, sangue humano. Então mandou-lhes um heróis das plagas do Norte, um heróis que vingasse os crimes nefandos, que banisse as discórdias, freiasse o assassínio, bárbaro e contínuo, acabasse com as guerras horrendas, abrandasse os peitos ferozes e não sofresse impassível cevar-se em sangue de irmãos queixadas humanas. E já trezentos e doze lustros o tempo volvia. depois que o Criador dos astros, feito homem, saíra do seio da Virgem Maria impoluta, iluminado de esplêndidos fulgores a terra, sepultada, há séculos, no negror do pecado.

Eis que, liberta dos perigos do mar e de há muito esperada, uma esquadra fundeia na baía a que todos os Santos legaram o nome. Trazia, salvo das fauces do oceano, um singular herói, de extraordinária coragem, Mem, que do sangue de nobres antepassados e de seiva ilustre de longa ascendência herdara o sobrenome de Sá. Superiores aos anos, ornam-lhe o rosto barbas brancas e majestosas: alegres as feições, sombreadas de senil gravidade, vivos os olhos, másculo o arcabouço do corpo, frescas ainda, como de moço, as forças de adulto. Muito mais excelente é a alma: pois lha poliram vasta ciência, com a experiência longa do mundo, e a arte da palavra bela. Arraigado no seio traz um amor de Deus, santo, filial, verdadeiro e a fé de Cristo jamais desmentida. No peito, incendiado pelo sopro divino, ferve-lhe o zelo
de arrancar as almas brasílicas às cadeias do inferno.

Ó que faustoso sai, Mem de Sá, aquele em que o Brasil te contemplou! quanto bem trarás a seus povos abandonados! com que terror fugirá a teus golpes o inimigo fero, que tantos horrores e tantas ruínas lançou nos cristãos, arrastado de furiosa loucura! Mas muitas lágrimas doridas a primeira refrega custar-te-á. Nela tombará um filho querido varado de setas, e tingirá as praias de sangue inda jovem, lançando às auras o tênue sopro da vida.

Tu porém leva sempre ante os olhos a glória do Pai celeste: nem males nem a desgraça te dobrem! Para sempre a morte ser-lhe-á mãe da vida com a bela alma acesa no amor da fé verdadeira arrostará a morte que o sublimará à mansão da beleza. Ainda as brônzeas proas não tinham ferrado o litoral. Depois dos trabalhos do mar, muitos e vários, deixaram a costa africana, zona que o sol esbraseia.

Ainda para lá, o céu adverso e as correntes marítimas os retornam com fúria aos fustigos do vento: enquanto ferozes guerras e cruéis injustiças, causa de tantas dores, esperam a energia do chefe. Lá ao longe, cultivam terra feraz uns poucos colonos, Cingidos em redor de altos montes e praias rochosas, por onde o Sul chuvoso solta as rédeas em fúria, ergue ondas revoltas, envolve em névoas, mares e céus e varre com turbilhões de nuvens os campos.

Deu à terra seu próprio nome o Espírito Santo.

Habitam-na portugueses. Guerras horrendas desfecha sobre ela o Tamoio feroz: é este o nome que a fera tribo herdou dos avós. Inúmeros danos causa por toda a parte, talando as culturas em fruto e arrebatando os homens. Afastam-se altivos com a presa e fartam-se de sangue humano os ávidos ventres. eis que se ajuntam, vindos de várias paragens, em magotes cerrados, para arruinar para sempre as aldeias cristãs, ferve-lhes nas veias a raiva a louca paixão da guerra e o apetite da carne humana, batem os corações em fúrias amentes.

Se o braço de Deus não impede esses aprestos ferozes com o socorro celeste, senão dispensa essas tribos altivas que vibram ao incêndio da guerra e ao faro do sangue, em breve a ímpia guerra tudo terá conspurcado e encharcada se verá a terra no sangue dos justos.

Transposto finalmente o oceano, fundeiam no porto.

Sabe então o valente chefe que cruas guerras se aprestam contra os cristãos, tribos ferozes se insurgem de toda a parte, decididas de uma vez para sempre a ferir, matar, devorar a todos os brancos.

O primeiro cuidado do chefe foi erguer logo a mente ao Pai celeste e revolvendo em silêncio todos esses sucessos implorar para os sitiados o auxílio que desce copioso do alto: pois a clemência onipotente, vencida pela prece dos filhos, sobre eles se inclina piedosa. Escolhe depois duas caravelas da armada e manda equipá-las. Envia Fernão à peleja, seu filho querido, ainda na primavera da vida, jovem de coração varonil, alma plasmada nos moldes paternos, enche-lhe o coração de conselhos, e diz-lhe: “aprende, filho, desde os anos mais tenros, a buscar no trabalho as virtudes e a glória, não honras humanas: pois que haverá sobre a terra capaz de encher-te a alma?” No coração insculpido leva o nome de Deus, e, na chama da fé abrasado, onde quer que apertem os trabalhos da guerra, arroja o dique do peito à maldade furiosa.

Vês como gentes cruéis em hordas imensas preparam aos Cristãos batalhas ferozes. De morte humilhante ameaçam agora as cabeças dos pobres colonos, quais tigres cruéis em redor da preia lanhada sorvendo com fauces sedentas o sangue inocente. Que esperança ou que alívio resta ainda aos sitiados? Donde tirar auxílio? com que forças enfrentar inimigo tão sanguinário? com que esforço, tão poucos poderão repelir das aldeias as ondas que avançam? Se é força buscar na fuga a salvação (vergonhoso embora o proceder), se é força deixar ao selvagem lares e férteis campos? lembra-te que mares profundos tolhem a retirada, nem têm naus que sulquem as ondas do pego irado, e salvem a vida pobres que tudo perderam. Eia, pois, sem tardar, lança-te ao mar encrespado e de novo provoca as vagas em naus bem armadas.

Voa em auxílio da pobre gente no que puderes.

Qualquer a sorte que te espera, quaisquer os trabalhos, esforça-te por arrostá-los e suplantá-los com brio. Se a destra onipotente te conservar são e salvo e te conceder, com a derrota do inimigo, o pendão da vitória e desdobrar ao olhar paterno os sinais do triunfo: ditoso dia nos será a ambos! A Deus soberano cumpriremos os votos e renderemos os devidos louvores.

A glória conquistada em guerra pela honra divina te será muito doce: eis, filho, o teu belo futuro!
Se porém por desígnio imutável do Pai sempiterno o último alento te colher na primavera da vida, se a morte te arrancar em plena flor da existência: então te aguardarão imarcescíveis louros e honra perene, glória imorredoura dourará nos céus teus destinos! Trocam-se assim pelo dia eterno efêmeros dias À luta pois com braço forte, e no fundo do peito gravado o nome do Senhor que governa o universo”! Assim falando envia o filho à empresa gloriosa.

Dá-lhe quatro dezenas de companheiros bem equipados, manda soltar ao vento as velas, e à divina clemência roga auspiciar as primeiras estréias do jovem.

De pronto ergue as âncoras a marujada valente e em voz cadenciada puxa as amarras que vai recolhendo em círculos. Volta proas à vaga a marulhar mar em fora, desdobra dos altos mastros o cândido linho, enquanto o vento, bojando as velas, as cordas estira.

O Norte se abate sobre o mar, o casco impelindo e abaulando as velas; voa a lisa proa, cortando o pego espumante, roçando apenas o dorso das ondas.

Ora aqui, ora além fundeia nos litorais rumorosos. Só se abranda o rondo do oceano enraivado, quando a Ursa Maior o bafeja com ventos propícios e a nau, vencida muitas milhas, ferra os diversos portos dos cristãos. Muitos logo aí se oferecem ao intrépido chefe para sócios da empresa e da sorte.

Vai pois o jovem brioso escoltado de cem companheiros ansiosos por domar com as armas a altivez do selvagem.

Já no termo da rota, e perto das aldeias dos brancos, a que vinha socorrer ainda a tempo, penetra na foz espaçosa de grande rio, e remando contra o ímpeto da corrente veloz, se dirige ao acampamento inimigo. Aí ajuntara o gentio forças vindas de toda a região em redor. Das fortificações, umas se ocultam em selvas sombrias do lado em que o sol, deixando o zênite, se engolfa no plaino; outras, escondidas juntos dos litorais arenosos, ouvem o troar das ondas que se enrolam e quebram.

O melhor da mocidade foi destinada a esses lugares: ergueram aí, em vasta construção, três fortalezas cercadas de larga trincheira de troncos gigantes.

Rodeavam cada um dos fortes seis voltas de lenhos, robles descomunais, fincados na terra, ligados a madeiras transversais com cipós da floresta.

Era um muro soberbo: duas torres e três baluartes o reforçavam de cada lado; neles estreitas janelas, quais furos invisíveis, foram deixadas, por onde pudesse o arco estridente soltar a seta ligeira, causando com golpes traiçoeiros feridas de morte.

Aí se ajuntara toda a juventude guerreira de sangue borbulhante e sedento de lutas infames.

Brande as armas feroz: o arco e as setas velozes, o tacape ornado de penas várias, alisado e polido pela mão do bárbaro com o ferro ou dente afiado do porco montês: em todas as suas ferozes usanças é a arma que os serve. Têm também impenetráveis escudos, couros peludos, arrancados ao dorso das feras e endurados ao sol. Pintam os membros robustos com as cores da tribo: tingem com listas vermelhas as faces, a fronte e as meias pernas; o resto do corpo com riscas pretas, tão bem enlaçadas, membro por membro, que imita a pele pintada verdadeiros vestidos, que em nada desmerecem dos que, com o requinte da arte, borda a agulha na mão habilidosa do artista, nem das redes caprichosas, tecidas de fios variados. Outros depenam o peito e as costas de inúmeras aves e tingindo-lhes as penas de variadíssimas cores colam-nas ao corpo, untado todo de visgo.

Outros ornam o topete com asas de pássaros e dependuram muitos enfeites dos penteados cabelos. Com estes e muitos outros adereços, medonhos e feios, cobrem os membros nus os selvagens ferozes.

Ao vê-los o herói, poderosos em número e armas, aí reunidos para saquear barbaramente a gente lusitana toda, estas palavras amargas disse cheio de indignação: “eis aí, companheiros, as hordas cruéis que distilam dos peitos malvados o veneno mortal do furor e do ódio implacável e nos ameaçam com a guerra o completo extermínio.

Contra nós se arrojarão em bloco cerrado, com todas as forças que a raiva esporeia.

Cumprirão seu desígnio nefando, se em estréia brilhante nossas armas não lhes quebrarem o furor sanguinário.

Daqui nasceu toda a guerra. Portanto com peito invencível lancemo-nos, todos, contra as hostes selvagens.

Adiantemo-lhes a morte que contra nós preparavam, e que eles merecem. Eis a hora dos valentes e bravos!
Alento e energia nos dará o Deus poderoso que domina as alturas. Sua mão vingadora sobre o inimigo desumano descerá justiceira.

Vingando as ofensas sacrílegas, sua cólera santa dizimará com a morte as alcatéias ferozes.”
Terminada esta arenga, com armas divinas robustece o peito: com cuidado examina a consciência e a seguir aos pés do sacerdote de Deus se ajoelha, para isso o chefe piedoso consigo o trouxera, e liberta-se do peso das culpas que talvez contraíra. Entusiasmaram-se os soldado: a fala do chefe calara fundo nas almas. Seguindo-lhe o lúcido exemplo purificaram os corações de todas as manchas com a confissão. Lavra nos peitos agora incontido o fogo da guerra, e justa ira lhes ferve nas veias.

Já a noite avançada vencera metade do curso e transmontando-se inclinara para os pousos celestes.

À voz do chefe toda essa mocidade guerreira atira-se às armas, rema contra a corrente, ao encontro do arraial inimigo. O brilho sinistro das armas invade o rio. Branquejam as águas da espuma dos remos.

Saem-lhe ao caminho correndo os cruéis inimigos em chusmas: uns arrojam da terra chuvas de setas, outros coalham as águas de igaras ligeiras e de perto esticam os fortes arcos. Voam zunindo de toda a parte flechas em profusão, gemem os arcos ao romper da seta emplumada, silvam os ares à passagem das flechas, aturdindo os ouvidos dos bravos. Ora a este, ora àquele procura alvejar com golpe certeiro a turba furiosa: com a seta veloz semeia feridas.

Fremindo de raiva luta por afastar aos invasores.

Estes porfiam em contrário e avançam cortando a corrente adversa do rio: com incessantes descargas, que a pólvora arroja entre nuvens de negra fumaça e estrondo soturno das parias, castigam o arraial inimigo.

Arrebatado de ardor, com a voz, com o braço o terrível Fernão, seguido dos seus bravos, acossa, dobra e afugenta das águas a chusma dos bárbaros.

Como quando das regiões polares o Norte impetuoso se arremessa ao encalço das nuvens pelos espaços; vencidas, elas debandam em rápida fuga, varrendo os nimbos da altura, o azul imenso floresce no firmamento; estira o vento das fúlgidas asas e vencedor, aspira livre as auras celestes: assim o jovem, seguido de seus valentes, expulsa da superfície do rio as hordas todas dos inimigos.

Estes, apenas alcançam a terra, buscam velozes os arraiais, precipitam-se desordenados qual no mar alto o desencadear do Sul. O temor dá-lhes asas às pernas.

Mal se emboscaram nas elevadas trincheiras obstruíram as entradas com troncos gigantes: urram dentro, atroando os ares com bárbara grita.

Parecia que do céu os astros se despenhavam fragorosamente ou que terrível tufão abatia a floresta, rachando os robles estrondosamente. Uns, da cabaça curva espetada de longos e reboantes canudos, tiram sons cavernosos. Outros sopram horrendamente em búzios recurvos ecoando um som medonho: são os clarins dos selvagens.

Preparam as armas e nesse ínterim, quando um misto de terror e de raiva os agita, eis que o herói aborda a margem do rio e calca firme a areia. Fixa a cada soldado seu posto, vibram os peitos de todos, a passo acelerado avançam pelo longo da praia, de armas em punho. Reluz o ferro das lanças, a espada de dois gumes e o fuzil que as balas vomita com horrível estrondo, quando sobre a pólvora salta a faísca sedenta, levando ao inimigo rápida morte.

Lá avança pelo seco areal, a passo firme, Fernão, esbelto mais que todos os outros , trazendo como um sol prateado nas armas fulgentes.

Enérgico, ateia nos companheiros a chama da guerra, e todos já próximos dos arraiais se atiram a um tempo, a alma em fogo, decididos a romper a trincheira à força de golpes, e acabar com essa gente odienta.

Postam-se em linhas de ataque, do peito indignado rompem brados medonhos: não se atrevem os bárbaros a sair em campo e terçar armas com os sitiantes.

Contentam-se com defender nos fortins e nas cercas esperanças fagueiras. Pelas frestas, deixadas adrede, arroja, uma chuva de flechas, no intuito de impedir aos invasores o assalto dos muros.

Com não menor afinco os nossos atacam e tentam entrar ora aqui, ora ali, lançando, furiosos, inúmeras balas que a pólvora expele com fragor horripilante.

Voam os projéteis zunindo e abrem rombos nos troncos e dizimam hordas selvagens. Em fileira cerrada o general e seus jovens guerreiros investem, expondo os corações valentes à morte. O braço esquerdo no escudo resguarda-os das flechadas, enquanto o direito maneja as armas ruidosas e rompe com o machado impiedoso o muro de robles. A força força as entradas; o ferro rasga as trincheiras, arromba as seis voltas de lenhos, arrancando os madeiros gigantes. Lá se escancaram enormes abertas: atiram-se por elas com estrondo os jovens todos, qual rio raivoso, depois que rompeu com esforço aturado os diques, se espraia nos campos rolando troncos, bosques inteiros, no turbilhão horroroso. Repentinamente, eis que novo terror se apossa dos inimigos ao verem que os heróis com mão de ferro romperam as cercas e com machadinhas ferozes tudo abatem por dentro. Ainda não se esgota a fúria selvagem: nos peitos magoados estuam juntos medo e cólera. Correm todos a um ponto e opondo troncos sustam os invasores e sem perda de tempo cravam-no de mil flechas velozes e os cobrem de chagas.

Aos índios desesperados, acirra-os a certeza da morte. Eis senão quando, desgarrando-se uma seta emplumada corta o espaço silvando horrendamente, vindo cravar-se
pouco abaixo do peito de um soldado e lhe rasga fundo as entranhas. Tomba ele mortalmente ferido e exala para logo o derradeiro suspiro.

Rápido, o selvagem rearma o arco para nova flechada, firma atrás o pé direito e os dois braços robustos distende em sentido oposto: parte a seta ligeira a fincar-se no corpo de um segundo e o prostra estendido por terra em agonia. Ergue a horda selvagem um clamor de vitória, vibram os peitos feros e de furor se avolumam. Ao contemplar a morte cruel dos amigos valentes, o coração magoado do herói e de seus companheiros referve de dor e o fogo da vingança os abrasa até os ossos. Atiram-se como essas feras da Índia que, acostumadas a transportar no dorso gigante fortins de madeira e homens armados para a batalha, se enfurecem à vista do sangue, desordenam co’as patas as fileiras inimigas e arrastam em medonha ruína robustos soldados, escudos e capacetes empenachados.

Assim se inflamaram os guerreiros e a raivar se lançaram contra os ferozes contrários, e atracando-os de perto rasgam chagas mortais com as adagas em punho.

É tudo pressa, tudo azáfama: a este fende-lhe o peito um golpe de espada e a ferida fatal lhe devassa o abismo profundo; raivosamente o selvagem se vira de borco para o chão natal, e morde a terra morrendo.

A outro atravessam as ilhargas com a ponta da lança. A terra geme ao baque do peso; um soluço lhe arranca golfadas de sangue e sacode os membros agonizantes.

A inúmeros outros, as finas espadas lhes varam lados e intestinos; aparecem à luz as entranhas e escapam as vísceras, conspurcando-se a terra.

Acende-se mais e mais a coragem do chefe e seus bravos: derrubam a golpes mortais, muitos selvagens.

Ora decepam braços enfeitados com penas de pássaros, ora abatem com a lâmina reluzente cabeças altivas, faces e bocas pintadas de vermelho urucum, ora partem as frontes salientes entre as covas das têmporas e enchem o Tártaro triste dessas vidas sem rumo.

Soam armas e golpes e gemidos e baques de corpos.

Aqui e ali jazem cadáveres de inimigos crivados de chagas profundas, empastados de pó: a sangueira cobre os arraiais e espumante se embebe na areia.

Não sustenta mais o embate assim dizimada, a horda selvagem. Volta as costas e em fuga apressada abandona as cercas e escapa por portas bem conhecidas.

Mal puderam os inimigos fugir às lanças e temidas espadas e salvar a vida acolhendo-se à segunda trincheira, inútil refúgio do desespero; atrás do muro de troncos se escondem e tapam as entradas com grandes barreiras.

Eis que , não sofrendo demoras, com as armas tingidas no sangue inimigo, Fernão com seus jovens briosos acorre, e olhos na glória, se precipita ao assalto do arraial medroso, e à força de golpes arrombam os robles enormes, abrindo numerosas e largas entradas.

Uma vez dentro estraçalham a fortaleza e trucidam a turba inimiga, ceifando com a espada afiada esses corpos brutais. Junto ao mar o estrondo ecoa medonho enfurece horrendo na praia o soldado matando e enterrando vitorioso na areia corpos aos montes, no inferno vidas que cevavam as carnes em carnes humanas e impinguavam os ventres com o sangue dos homens.

Já não se alonga o combate, já não pensa o inimigo em entesar o arco, e defender a vida com brio.

Tudo é pressa em fugir, não lhes valem de nada os redutos, só resta galgar ligeiro as muralhas do último forte.

Nossas armas gloriosas prostraram o feroz inimigo, rompendo à força as trincheiras com vasta matança.

O general e seu bravo esquadrão, cansados embora do duplo esforço e com os corpos crivados de flechas, conservaram ainda frescas a conhecida energia das almas nobres: vibram de entusiasmo: uma de duas, ou acabar com as hordas bárbaras ou deixar no combate a vida, comprando com o sangue a vitória da pátria. “Triunfadores meus, diz o chefe, vossa espada valente, armas e destras estão tintas ainda do sangue maldito; sem tardar, lancemo-nos contra o inimigo vencido, enquanto o abate o terror das últimas duas batalhas.

Vedes quantos aí estão prostrados a gemer moribundos, quantos outros na fuga receberam mortais ferimentos.

Ou exterminar de vez esta raça felina com a ajuda de Deus, ou sepultar-nos na areia gloriosamente”. A estas palavras, parte. A todos devora o mesmo fogo. Arrojam-se como impetuosa corrente ou como a tempestade negra que revolve o oceano, encapela as ondas, rasga o linho branco das velas, quebra os altos mastros, e, girando três ou quatro vezes as popas as submerge voraz em rápido redemoinho. Quantos estragos não causou então o braço valente do jovem chefe! quantos corpos de guerreiros ferozes arremessou à morte, tomando vingança no sangue inimigo.

Fossem mais crentes os colegas, mais viris os seus braços, fervesse-lhes no peito um sangue mais quente, acompanhassem sempre, lado a lado, o seu chefe, e esse dia marcaria a ruína desses feros selvagens, atirando-os para as sombras eternas do inferno.

Mas, ai! que imensa é a humana inconstância! Estes, mais aqueles começam de vacilar, vai-os prendendo pavor covarde, cada vez maior, ao verem que a onda dos índios cresce, já recuam e se furtam à luta, esgueirando-se insensivelmente, esses covardes sem nome.

Tornam às naus, desligando da margem as barcas.

Abandonam o chefe, que ignora esse ato de infâmia, entre poucos companheiros, o furor da pele renhida.

“Para onde fugis, desgraçados? que medo vil vos assalta o coração sem brio? que inimigo estais perseguindo tão à pressa? Já não vos movem os louros das duas vitórias e as fortalezas que tomastes com a morte de seus defensores? Apavorados de terror indigno, não vos envergonha abandonar assim vosso chefe à fúria dos bárbaros entre tantos perigos, ao peso de tantos trabalhos.

Para onde fugis? Sustai o passo! A maior parte dos vossos sucumbe: voltai pois ligeiros e, ao lado do chefe, valentes destruí o arraial. Para que tanto amor pela vida?”

Enquanto, ardendo em fúrias, o jovem vai fulminante espalhando nos acampamentos os horrores da morte, certo que os seus lutam a seu lado, e em esforço supremo esmagam as hordas bárbaras finalizando a peleja, eis que pouco a pouco em magotes os selvagens acorrem à batalha. Mandam-nos das florestas vizinhas às cercas, para auxílio dos seus e reforço aos que iam cedendo. Por atalhos desconhecidos afluem de todos os lados em grande número. Depois que enxameou essa turba imensa, vai confuso rumor pelas trincheiras e grita desacostumada até às nuvens se ergue.

Tal o arroio sombreado que desce das altas montanhas entre seixos roliços num rolar gorgolhante, depois que a tempestade repentina despejou suas iras, chuvas vergastando montes e bosques e rasgando caminhos às águas que correm a se ajuntar: então ele, soberbo de tanta riqueza, se arroja e arranca à terra das margens troncos gigantes, rola em redemoinho pedras enormes, imitando ora o rumor soturno das ondas ora o rolar do trovão nas alturas celestes. Assim a turba imensa enchia já a cidadela e reanimadas pelo socorro, em luta desigual, apertava uns poucos de heróis, com o furor de vingança que lhes incutia a derrota e a morte dos seus. O alvo principal de seus golpes, incessantes e rijos, é o jovem chefe, que mais e mais se enfurece, admirado de que o inimigo cobre de repente tanta coragem e força: não havia, há pouco, nesses peitos tanto denodo nesses braços tanto vigor... A custo percebeu finalmente que os seus deserdaram, enquanto ele mergulhava na turba, inebriado de sangue, olhos na derradeira vitória.

Ao ver-se abandonado, entre os inimigos, com poucos companheiros, entendendo ser inútil lutar contra tantos, retira-se dos arraiais e pouco a pouco recua na direção do rio, para entrar com seus bravos nas barcas que aí estariam presas. Mas ai! os cobardes menosprezaram as ordens e a vida do chefe e largaram para longe da margem a armada, cederam a um temor vergonhoso: eis o chefe desses cobardes. O herói, em vão magnânimo, ao ver que os companheiros levaram para longe os barcos e que a turba inimiga, em linha de batalha e entre gritos de guerra, começa a apertá-los, brada: “Para onde corremos, colegas? Já não nos resta esperança alguma! O inimigo nos cerca de toda a parte, de toda a parte o oceano! A terra nos falta! buscaremos a armada, cortando com o peito as ondas? para onde nos dirigir-nos no aperto presente? Pois, rompamos à ponta de espada essas hordas!

Paira sobre a nós a morte? — que paire! Oh! que belo deixar por Deus as vidas caras na arena sangrenta e comprar com esse sangue a vida de muitos!”

Disse, e logo (pois já o ataque dos índios não dava lugar a demora), à invocação do nome de Cristo.

com os colegas se arroja contra os selvagens, postado a arrastar na própria morte os corpos de mil inimigos e a rasgar com o punhal reluzente mil feridas sangrentas.

Os inimigos se apinham ao redor e o carregam com gritos de terror e com flechas: não lhes dá a horda descanso, como caçadores à volta do leão que freme asseteado:
ele a raivar ruge horrendamente e feroz ameaça com o olhar torvo, ora este, ora aquele, impertérrito rasga com a boca em sangue os corpos que alcança: Eles o apertam, fincam-lhe lanças nas costas, nos flancos à porfia, até que todo roto de feridas sucumbe e a terra treme ao baque dos membros robustos.

Assim o enxame dos inimigos em cerco cerrado estreitou o jovem: esse o fere com a clava, aquele com setas e em vão ele multiplica esforços. Em algazarra se arrojam
sobre ele. Sem tréguas, apertam-no daqui e dali, insaciáveis. Redobram os golpes: as flechas lançadas de todos os lados já o cobrem todo, as armas tinem, rompe-se a malha da couraça, já não resiste a tantos golpes o escudo.

Copioso lhe inunda o corpo e por completo o abandonaram as forças; a sede lhe queima a garganta e o pobre exala pelos pulmões a alma ofegante.

Já tem o herói o rijo peito crivado de inúmeras setas, o sangue o cobre todo e lhe empana a beleza dos membros. A praia tremeu à sua queda. Tombando os olhos moribundos se cravaram na altura. As próprias selvas e rochas e montes vizinhos e rios, chorando ao som das águas cristalinas, o viram cair ao peso das chagas, e arrancaram dolorosos gemidos. Ó venturoso moço, prostrado na arena sangrenta depois de devastar valente as hordas selvagens, bela morte juncou teu sepulcro de mil setas e corpos. Não te assediou o peito a fome do ouro nem da vaidade; mas a paixão imensa da glória divina e a honra imaculada de Cristo te imola nesse altar, para que sejam tuas feridas a vida de muitos.

Vencido pelo amor da pátria e liberdade dos teus, vergaste a cabeça ante a morte, sob a espada inimiga tombando na juventude em flor, primavera da vida. Sem tremer, desprezaste a terra pelo bem dos amigos, deixaste escapar, pelas chagas abertas, a vida. Grande jovem, eis tua glória! os séculos todos saberão que preferiste morte cruel à desonra de Deus, da pátria e do pai, e que, desconhecendo o temor cobarde, expuseste a vida aos maiores perigos e apagaste, com teu sangue o incêndio da guerra que surgia ameaçador. Lembrar-se-ão os teus Lusos e confessarão agradecidos dever-te tal benefício: graças a tua morte, eles vivem e desfrutam da paz.

Venturoso Jovem, entre os felizes, nas alturas celestes brilha a tua glória irmanada à glória divina.

Privado embora do sepulcro teu corpo, escondido embora no seio da terra ou no ventre dos índios, nada se te dá. Fica-lhes esta glória mesquinha, depois que as hordas ferozes com sua imensa ruína juncaram as fortalezas, e com o sangue selvagem encheram o leito do rio, e dobraram as cervizes altivas à força de golpes, e se lhes abrandaram as iras.

Mandam o chefe das armadas lançar mão dos remos velozes a toda pressa, e abrir vela aos ventos propícios sem demora. Deixam a um tempo a praia e na praia o chefe estendido. As naus deslizam do rio para o mar, varrem com a popa a superfície do pego, e dirigem-se ao porto dos cristãos, que em perigo de morte o governador geral mandara auxiliar da cidade não acabasse com eles o feroz inimigo dos brancos.

Eles, depois dos longos trabalhos da guerra e da fome, depois de mil ameaças do inimigo e perigos de morte, reconhecem enfim, na curva do mar, os navios amigos.

Revigorados de nova esperança, erguem as armas ao alto, os peitos acabrunhados alijam cuidados que pesam. Mal puderam ouvir de perto a voz querida de amigos, e a notícia dos combates horrendos e das morte sangrenta do chefe, os corações soçobram de dor repentina, transbordam as lágrimas pelas faces a mães e esposos, e deixam escapar do peito entre fundos soluços estas queixas desoladoras: “E nós, jovem ilustre, nós, entre mortes tão cruéis, escapamos incólumes!...

Não eras tu o repouso suave que teu pai preparava para a sua velhice? Tu, para nos proteger a cabeça, entregaste a tua à morte sangrenta, aceitaste pelo nosso descanso os duros trabalhos da guerra.

Valia tanto, ilustre chefe, nosso bem comprá-lo com tão duras feridas tuas e tanta amargura de teu amado pai? que sofras tu morte horrorosa, por nossa vida? que sejas pasto do cruel inimigo, e não nos confranjam a nós tuas chagas doridas, nem esse sangue que te escorre pela fronte robusta? Nós, esquecidos de tanto sacrifício? Tanto nos acobarda o amor desta luz transitória e a paixão egoísta de viver, que não nos deixa vingar tua morte em merecida desforra? Ah! vingar-nos-emos!” Abalados por tais pensamentos, sinais de funda tristeza deram todos . Prestam as últimas honras ao chefe e aos companheiros mortos, e as exéquias preparam. Mães piedosas, virgens inocentes, meninos e adultos, velhos vergados ao peso dos anos, dirigem-se à igreja. Junto do altar, coberto e velado por pano de luto, está uma essa: bela faixa branca em forma de cruz abraça o ataúde em todo o seu comprimento.

Cobrem-se de panos pretos também os altares sagrados. Círios em profusão enchem as luzes dos templos.

Segundo o costume dos cristãos recitam o símbolo dos Apóstolos e os mandamentos: então o ministro sagrado envergando paramentos negros oferece preces e súplicas ao Pai celeste e imola qual cordeiro inocente, o corpo de Jesus, vítima das culpas dos homens, que de mãos e de pés os cravos cruéis trespassaram e a morte abateu sanguinolentemente.

Daqui e dali, gemidos e soluços ressoam, e prantos entrecortados por gritos de mulheres; lágrimas correm em rios pelas faces, em altas vozes invocam a bondade do Pai onipotente. Justamente sentidos , abalam com súplicas os excelsos palácios celestes. Os próprios homens deixam correr pelas faces esquálidas grossas bagas. Arrancam suspiros do fundo do peito e com merecidas honras, os tristes funerais acompanham.

Cumpre o sacerdote quanto exige o rito piedoso: oferece pelas almas do chefe e colegas os supremos sufrágios e ajudando-os com uma última prece, faz o giro da essa, asperge-a com a água santa e pronuncia as derradeiras palavras, pedindo o descanso deles na eternidade serena.

A lua resplendente erguera por detrás do oceano seu rosto e completara uma só vez o disco brilhante.

Os guerreiros que tão duros combates e riscos tinham corrido por terra e por mar, retemperam exaustos os membros e refazem as forças. Cicatrizam as feridas abertas
pelas setas velozes, essas feridas inumeráveis recebidas ao lado do chefe, enquanto com as espadas dizimavam o inimigo. Todos os cidadãos e tropas amigas, num só coração e num só grito, arrojam-se à guerra jurando vingar a morte cruel de Fernão, o valente, e aniquilar as hordas selvagens que cercavam a cidade. O inimigo erguera junto aos muros vastas trincheiras, e outras fortificações. Reunira inumerável exército, para desafogar sua raiva louca e ódio descomedido, exterminar o povo cristão em sangrenta matança e saciar as negras fauces e os ventres sedentos de sangue. Sem perda de tempo dirigem à força de remos as rápidas canoas contra a corrente. Distendem-se os duros braços e os músculos saltam. Sulcando as ondas contrárias, voam e em porfiada corrida atracam no local inimigo, e de um salto ágil os pelotões fogosos pulam das barcas, palmilham os litorais adversos, com altos brados invocam o poder onipotente e arrojam-se contra o inimigo.

Nem valas, nem homens sustêm o assalto dos nossos ainda que os embarque e fira a chuva das flechas .

Encarniçam-se, e rompendo por sendas impraticáveis, abatem quanto se lhes ergue diante e acossam os bárbaros, crivando-os de feridas e juncando de mortos o campo.

Também os nossos levam o peito varado de setas.

Seria longo repetir os golpes de cada um dos guerreiros, as vidas que despenharam nos abismos da terra. As armas lançaram no inimigo extermínios medonho.

O sangue correu em riachos que espumejavam: muitos tombaram passados ao fio da espada, muitos, de mãos e pescoço presos, carregaram cadeias. Domado ficou assim seu furor indomável. Cessou finalmente o terror, a altivez e ameaças dos bárbaros; e voltou aos lusos a paz suspirada.

Só depois que as guerras findaram de todo, deixaram os guerreiros as aldeias dos cristãos, bem seguras, com pleno sucesso. Largam as velas ao vento propício.

A terra se afasta e as popas no oceano se engolfam.

Chegam finalmente à presença do ínclito governador.

Como é fácil de imaginar, estava ele ansioso pela sorte do filho e pela dos companheiros.

Ao Pai onipotente orava com fervor dia e noite livrasse os povos cristãos das fauces da morte e exterminasse o furor do feroz inimigo.

Logo que soube da morte cruel do filho extremoso, ainda que o amor sublime de pai lhe estremecia no peito e lhe rasgava a alma com golpe profundo, escondeu no nobre coração a imensa desgraça. A virtude invencível dominou o sofrimento ainda que atroz e consolou o amor dolorido, porque a morte do filho salvou a vida de muitos.

Tão digno foi do filho esse pai e do pai esse filho!

LIVRO II

Mas já as obras que pela honra divina empreendeste e teu entusiasmo operoso estão de mim exigindo os louvores justamente merecidos, ó grande governador lusitano! O Senhor tos dará generoso e coroará teus trabalhos com honras celestes, fiquem embora nossos cantos aquém de tua grandeza.

Pois quem lembrará o tempo das tribos ferozes quando ainda os selvagens não te viam, chefe valente, impor santas normas aos povos e lançar justo freio a uma raça indomável? Que terror então invadia o peito de todos! A quantos , boatos vãos incutiam vergonhoso medo! O bárbaro expandindo sua ira quebrantava as leis santas da mãe natureza e os divinos preceitos do Pai onipotente cevando as queixadas bestiais em corpos humanos! Essa raça selvagem, sem a menor lei, perpetrava crimes horrendos contra os mandados divinos, proferindo impunemente ameaças contínuas e altivos discursos.

Então com arrogância o índio sanhudo olhava para os cristãos, e estes, entrincheirados detrás de seus muros, tremiam de pavor vergonhosos: como quando lobos vorazes, que a fome impiedosa açula e avassala, rangendo os dentes, cobiçam, à ronda do aprisco, espostejar os tenros cordeiros e extinguir a sede ardente no sangue que sugam; lá dentro as ovelhas estremecem e fremem com medo das feras que rondam fora, mal confiadas no aprisco.

Mal pisa o enérgico chefe os litorais brasileiros com os poderes de governador geral que trazia, para logo começa a desterrar de todos os peitos os vãos temores, e a sacudi-los do torpor em que jazem, incendiando-os no amor da verdadeira e única glória.

Determina não sofrer por mais tempo o orgulho dos índios mas castigar com penas graves e justas os públicos crimes.

Um certo bárbaro então, de boca insolente, lançou feroz aos cristãos mil desafios, exprobando-lhes o braço inerte e o peito cobarde, bravateando contra eles terríveis matanças.

Chamava-se Cururupeba em sua língua materna, nome que na nossa significa Sapo Espalmado.

Ao seu insensato orgulho e audaz arrogância infligiu Mem de Sá digna paga, e assim começaram a ter-lhe os brasis grande temor e respeito.

Já não ficarão impunes os crimes que há pouco 23 cometeste, ó Cururupeba, nem tua imensa soberba.

O braço valente dos cristãos lançou-te por terra embora grande multidão dos teus te cercasse, bem armados de flechas ligeiras, dispostos a expor por teu amor a vida a todos os transes.

Mas a alma do grande herói firmada na força divina, não obstante o receio da maior parte do vulgo, resolve impor justo freio ao furor dos selvagens, acalmar os vagalhões desse mar furioso.

Aos trinta homens que de cada aldeia escolhera assim diz: “Ide e trazei-me preso esse louco que tantas ameaças está contra nós vomitando.

Saiba ele enfim que não nos falta braço nem peito!” Assim falou e eles partem em demanda das choças enfumaçadas onde Cururupeba com a chusma dos índios se aninha disposto a medir armas com armas.

Mas quem tudo pode abater com um aceno somente, quem amansa as ondas do mar encapelado e os ventos que as revolvem com sopros furiosos, refreou-lhe a raiva e a inchada soberba apertando-lhe o coração com gélido medo.

Firmes, os nossos não desistem, vão ter às cabanas, cercam-nas, entram-nas e prendem a Cururupeba no próprio esconderijo, e trazem-no preso p’ra fora; tal o sapo escondido na cova, enchendo a pele e a bocarra, parece ameaçar morte cruel com a baba empestada, e mal do buraco o tiram com a mão, desaparecem os sinais da raiva e deixa-se arrastar impotente.

Assim o prenderam indefeso, assim lhe amarraram os punhos e lhe ataram os braços às costas, e o conduziram vitoriosos ao governador em palácio.

E ele que há pouco lançava valentias aos ventos e ameaçava feroz guerras, matanças e orgias, vê-se agrilhoado duramente e jogado na imundície horrível de um cárcere escuro, pagando o merecido castigo de seus crimes antigos.

Não lhe desataram os grilhões, nem daí saiu livre senão depois que a zona oblíqua dos signos viu o sol percorrer a todos em seu rápido carro e passada a do Peixe reviu a constelação do Carneiro, transpondo os altos pórticos do firmamento estrelado.

Entretanto divulgou-se pelas aldeias a nova de que esteva em ferros Cururupeba: terror indizível se apodera dos índios.

Pasmam todos e temem cada qual pela própria sorte: como num bando de pombas, quando cruel gavião arrebata uma nas garras aduncas, as outras em debandada se escondem nos ninhos: a imagem da companheira no desastre recente 24 continua a assustá-las e a entristecê-las ainda.

O piedoso Mem de Sá, desejou depois disto ver adorado o Senhor do céu, do mar e da terra e venerado nas plagas do Sul o nome de Cristo.

Resolve impor leis aos índios que vivem quais feras e refrear seus bárbaros costumes.

Logo desterra a antropofagia cruel: não permite mais que movidos de gula infrene bebam o sangue fraterno, nem mais se violem os santos direitos da mãe natureza e as leis do Criador.

Para logo o ignóbil vulgacho a quem movia ora ambição mal inspirada ora verdadeiro terror, pôs-se a espalhar estes rumores: “que novo governador é este? com que direito posterga as leis antigas e tenta impor novos costumes novas normas de vida a indômitas gentes? Poderá ele agora persuadir a povos selvagens tratados de aliança? deixará a raça brasílica de comer carne humana, banindo do seio de seus filhos ódios cruéis e guerras antigas? Pois se o prazer destes bárbaros, justamente nisso consiste, atirar-se sempre em novas e ferozes batalhas, provocar os outros à guerra em que sempre viveram, rasgar-lhes com as unhas a carne, e piores que tigres, fincar os dentes em lanhos palpitantes de vida: devem agora aprender a esquecer seus furores, criar almas meigas e corações de cordeiro? Acaso não voltará sobre nós o feroz inimigo todas as iras e todos os braços devastando a cidade, se faltarem outros em que saciem a sede de sangue? Como é possível julgar que mudem agora costumes que se embeberam na torrente dos séculos? Poderão os beberrões deixar de encher-se de vinhos, de vomitar o que beberam e de beber novamente o que vomitarão? Não celebrar novas bodas esses devassos e renunciando às antigas não se sujar em novas torpezas? Estes e outros costumes, herdados dos seus antepassados, e transmitidos como direito racial, de há longo tempo, sofrerão impunemente que lhos arranquem agora? Quão pouco conhece o índio altivo quem assim pensa! Quanto se engana quem tenta realizar tais projetos! Não está longe de permitir a ruína do povo!” Tais rumores que corriam, tais as críticas duras que publicamente se lançavam: um só temor o de todos, uma só preocupação, desviar o governador dos seus intentos, dobrá-lo com rogos e súplicas, força-lo a deixar as determinações que tomara tão resolutamente.

Vão ter com ele bem premunidos, reunindo nesta fala o argumento de todos: “Grande governador, a quem Dom João o terceiro nosso felicíssimo rei entregou o governo brasílico; por desígnio da Providência, foi-te confiado o nosso bem, para que em boa paz a todos dirijas e olhes pelo bem estar de todos os súditos.

Agora que abonançou a tempestade da guerra, que leis tencionas impor a esses povos selvagens? Proíbes aos índios as guerras? de que paz fruir poderemos senão se guerrearem entre si, saciando a sede de sangue com que nasceram? De que maneira julgas possível realizar teus desejos? que deixe de comer carne humana o bárbaro que dela gosta? Podem os tigres viver sem a presa e os leões ferozes deixar de despedaçar os novilhos e os lobos perdoar às mansas ovelhas ? Antes deixará a baleia de encher de peixes o bojo, no vasto oceano, antes deixará o gavião, em vôo audacioso librado no espaço, de raptar tímidas aves, e a águia real de garras aduncas de levantar às alturas em revoada a lebre cativa: do que deixarem os brasis de devorar carnes humanas.

Eia pois! pondera teus intentos com reflexões cautelosas.

Não impeça que mutuamente se provoquem à guerra e se matem horrendamente, e, despedaçando seus inimigos, lhes assem a carne no rito paterno e lhe roam os ossos à maneira de cães, celebram as festas dos seus antepassados e não pensem em lançar contra nós os braços ferozes, nem desafoguem em nós suas iras de brutos e sedentos de sangue nos passem ao fio da espada a nós, nossas esposas e filhos, conspurcando de morte toda a cidade.

Tu serás a causa de tão grandes desgraças, tu o responsável único da irreparável ruína e do sangue derramado.

Eis que te avisamos com tempo nós que conhecemos, de há muito, os costumes dos índios, e lhes experimentamos de perto a índole fera.

” Assim falando, eles com acrimônia insistiam erguendo a voz diante do governador: este porém, cujo peito era sacrário de Deus, confiado no poder de Jesus, cujo nome ansiava por tornar conhecido naquelas bárbaras plagas, com ânimo tranqüilo e semblante sereno responde: “Vive o Deus que criou céus, terras e mares ante o qual tremem as abóbadas do firmamento e as colossais muralhas do imenso universo.

Sua destra trar-nos-há auxílio a seu tempo e livrará os cristãos de tantas desgraças.

” Assim disse e destemido põe-se a realizar seus projetos.

Vós, irmãos nossos, habitantes das etéreas moradas, que pisais docemente o pavimento estrelado, e dessas alturas vos interessais pelos nossos destinos, a fim de ocuparmos um dia um trono convosco: dizei-me, eu vos conjuro, as alegrias que desfrutastes por todo o céu! as sinfonias de júbilos que decantastes! as alegres melodias que desentranharam os órgãos celestes! as notas que desferiram trombetas e clarins de vitória! os sons maviosos que jorrou a flauta sonora! que harmonia nas cordas da cítara! que hinos contentes cantastes ao Pai celeste! com que salmos sentidos exaltastes ao som da harpa as glórias de Cristo: quando o índio começou a trocar sua ferocidade por modos mais humanos e a conhecer o nome do Eterno! Vós, que por um pecador que lava seus crimes nas lágrimas do arrependimento, dais as maiores manifestações de alegria por todo o templo celeste, como deveis exaltar com nova harmonia este triunfo de Deus! Começa a bárbara terra a sacudir dos ombros o tirânico jugo do inferno.

Arrancada às trevas do escuro e lúgubre abismo, vai receber a luz divina do Sol sem ocaso, aprender as leis santas do Senhor Jesus Cristo, abraçar-lhe a fé e salutares doutrinas.

Foi por vosso ministério que tão grandes milagres se realizaram.

Vós, mais velozes que os ventos, a nossas plagas trazeis em revoadas contínuas as paternas disposições da Providência divina.

Dizei vós as leis e a ordem que o ilustre e piedoso governador implantou entre povos tão feros, para afinal ser honrado nestas paragens incultas o nome vitorioso, forte e imortal de Jesus! De início para poder jungir esses rudes selvagens ao jugo da lei e moldá-los pela doutrina de Cristo, ordena que deixados recôncavos, campos, florestas, acorram de todas as partes a um mesmo local e aí construam novas casas, ergam novas aldeias e comecem a deixar os antigos costumes de feras; não vagueiem daqui e dali, como tigres, pelos cerrados, sem moradia certa, sempre duma terra p’ra outra, sem nunca fixar-se em aldeias estáveis.

Era de ver como logo deixaram as enfumaçadas malocas, suas cabanas cobertas de palha e suas roças agrestes.

Acorriam de todas as partes, movido da fama e do muito medo que do governador se espalhara; todos se submetiam a si, suas esposas e filhos sem ousar opor-se ou confiar em seus braços e armas.

Decidido assim a impor nova ordem, novos costumes, o magnânimo chefe manda construir quatro aldeias de amplo circuito, nas quais se reunam todos os índios das tabas em derredor e onde aprendam aos poucos, de coração já manso, as leis santas de Cristo.

E porque o ano em quatro estações se divide, que o áureo sol percorre com sua luz fulgurante, fecundando-o com seus raios para que férteis ressurjam as searas e reverdeçam as veigas contentes e fartas, e a um tempo os frutos desejados madurem: assim Jesus, filho unigênito de Deus, com o lume de sua divindade, aclare estes brasis, repartidos em quatro aldeias.

Roçados os tojais, revolvidos os campos ao labutar auspicioso do arado, fecunde ele esta gleba e enfim a esplêndida messe pague aos lavradores os gemidos e as lágrimas que com as sementes lançara, por anos a fio e com o coração aos pulos, encham os celeiros vazios.

Brotam as novas moradias; o índio, nômade há pouco, ergue seu teto que o abrigará muitos anos, e canta, em igrejas novas, o nome de Jesus, reverente.

O pio governador impõe santas leis aos selvagens, e, desterrando costumes e ritos dos antepassados, vínculos que os ligavam ao tirano do inferno e lhes enlodavam as almas de culpas horrendas, substitui-lhes preceitos divinos que cortem abusos, lavem os corações afeiados e os rendam ao jugo de Cristo que, com um único aceno, rege o universo Reconheçam primeiramente o Deus do céu e da terra, a quem os esquadrões dos anjos e os astros celestes, os abismos do inferno e a mole terrestre obedecem: que o reconheçam e lhe cumpram as ordens divinas.

Cessem já as cruas guerras e as sangrentas matanças, o bárbaro costume de espedaçar o inimigo, dessedentar com seu sangue as fauces sequiosas, e devorar carne humana: é só com a morte que se pagará tal crime, sangue por sangue.

Dá força de lei civil a tudo quanto nos manda o Criador e aos renitentes com indignação ameaça.

O terror se apossa de todos, curvam-se as frontes, por tanto tempo rebeldes, ao jugo de Cristo.

Parecia que o próprio Deus lá das alturas celestes, falando ao Chefe, repetia essas mesmas palavras que a ti, ó Patriarca cultivador da parreira, dirigira outrora, quando, refluindo da terra, as ondas do mar tornaram ao seio do abismo, e o solo do colono reapareceu à vazante das águas: “Sujeitas as plagas brasílicas! que o terror e o tremor que inspiras, invada os povos cruéis, que rompendo alianças contra a lei natural, matam e espedaçam os homens, à maneira de feras.

” Também a seus ouvidos soava a voz de Cristo: “Força-os a entrar em meu santuário! que de povos diversos a minha casa transborde!” Assim se expulsou a paixão de comer carne humana, a sede de sangue abandonou as fauces sedentas; e a raiz primeira e causa de todos os males, a obsessão de matar inimigos e tomar-lhes os nomes, para glória e triunfo do vencedor, foi desterrada.

Aprendem agora a ser mansos e da mancha do crime afastam as mãos os que há pouco no sangue inimigo tripudiavam, esmagando nos dentes membros humanos.

Há pouco a febre do impuro lhes devora as entranhas: imersos no lodaçal, aí rebolavam o fétido corpo, preso à torpeza de muitas, à maneira dos porcos.

Agora escolhem uma, companheira fiel e eterna, vinculada pelo laço do matrimônio sagrado que lhe guarda sem mancha o pudor prometido.

Para que lembrar os cantos que outrora entoavam em suas bebedeiras? os gritos com que atroavam os ares medonhamente? as cores com que pintavam os membros? as penas variegadas com que enfeitavam os corpos? A beber, vira-os a aurora do seu róseo carro, e a tarde ao cerrar o dia nos umbrais do horizonte! e a noite negra ao rolar dos altos cumes celestes e a nova amanhã ao despertar sob a força dos raios: já o belo sol, nascido neste segundo dia, engolfara nas ondas azuis seus corcéis, e eles ainda a atufar de vinho os abismos do ventre.

Que espetáculo de sujidões, que visão de torpezas! Que obsceno os gestos dos homens, que impudicos meneios os das mulheres que oferecem as lascivas bebidas! Fartam de vinho o ventre e, cheio, tudo vomitam, e bebem de novo e cheios aos vômito tornam.

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Um vomita, outro apanha na cuia o vômito e o bebe.

Espetáculo horrível! aí se cantavam os feitos antigos e as maldades criminosas dos seus antepassados, e feroz se erguia o ardor da guerra e do sangue, e fervia a paixão de despedaçar corpos humanos, e lançar em vasos novos os membros feitos em postas, pô-los a assar ao braseiro e espetar em caniços os pedaços cortados em pequeninos.

O desejo malvado de todos os crimes, sopitado e pouco a pouco envelhado, despertava e rejuvenescia ao ardor desses vinhos.

Agora, tudo é silêncio! nenhum rumor se levanta das casas em confusão; cessou a loucura, e o descanso tudo cobre delicioso.

Tal qual sob o céu agitado por tenebrosos trovões e varrido de ventos furiosos, Incha o mar, erguem-se as ondas, e os rolos das vagas atirando-se contra os rochedos rouquejam de espuma; e, quando os ventos pousam, calam-se e na lisura dos mares ao sopro do zéfiro, as ondas de repente se amansam.

Já não ousas agora servir-te de teus artifícios, perverso feiticeiro, entre povos que seguem a doutrina de Cristo: já não podes com mãos mentirosas esfregar membros doentes , nem, com lábios imundos chupar as partes do corpo que os frios terríveis enregelaram, nem as vísceras que ardem de febre, nem as lentas podagras nem os braços inchados.

Já não enganarás com tuas artes os pobres enfermos , que muito creram, coitados! nas mentiras do inferno.

Não mais mostrarás ao doente palhas e fios compridos astuciosamente enrolados, nem tua boca enganosa lhe dirá: “vês que doença te tirei com meus lábios do corpo enfraquecido? confia! gozarás já em breve da desejada saúde que te deu minha destra”.

Jaz por terra o velho engano; guarda ao rebanho agora a matilha de Deus, cujos latidos afastam lobos raivosos e traiçoeiros .

Se te prender algum dia a mão dos guardas, gemerás em vingadora fogueira ou pagarás em sujo cárcere o merecido castigo.

Quem cantará a glória que agora se dá ao seu nome, ó Cristo? Que desbarato sofreram as negras fileiras do inferno! Que uivos horrendos ecoaram nos antros da habitação sombria.

Em estertores insanos tremeram o caos da morte e o Flegetonte que arrota chamas devoradoras, e as águas estagnadas da Estige, as ondas do Aqueronte e Cérbero enorme que aterra, com o latir das três fauces, os reinos da treva.

Choraram nas sombras eternas os monstros informes e o bando das fúrias: todo o antro de Satanás aterrado reboou pelas escuras cavernas em mugidos horrendos.

Gemeu o monstro infeliz, chorou a fera cruel, Lúcifer, de lhe terem arrancado dos dentes a presa.

Foge de tua face, ó Cristo Rei, a escamosa serpente e sepulta-se na treva justiceira da eterna geena.

Mal começaram a brilhar as vitoriosas bandeiras do teu triunfo, as vitoriosas bandeiras da cruz, por entre os povos brasílicos que outrora envolvera em espirais mortíferas e envenenara diabolicamente e arrastava à força ao profundo do inferno: estarreceu de horror o desgraçado e uivando atirou-se no abismo, e deixou-te, os reinos que a ti pertenciam e que ele há tanto usurpara.

Teus são os brasílicos reinos , onipotente Jesus, que com o próprio sangue os compraste e com morte horrenda e sofrimento indizível os arrancaste das garras do malvado tirano.

Canta-te por isso a gente inculta merecidos louvores, conhece teu nome, ante o qual estremece a beleza dos anjos, os antros do inferno e a imensidade da terra: só dele depende a felicidade dos míseros homens.

Mas, porque narrar por miúdo quanto, inspirado por Cristo, realizou o piedoso chefe? Proclama-nos os fatos.

Erguem-se templos; não se firmam em marmóreas colunas nem se talham de blocos brilhantes de Paros ou nítido jaspe não brilham de pratas novas, e lustrosos marfins, nem de áureas palhetas, ou alfaias preciosas do Ganges: firmam-se na fé de Cristo e adornam-se dos santos preceitos do Onipotente; é aí que a chama celeste incendeia de amor divino os simples corações dos Brasis, e lhes cobre as pobres almas de verdadeiras riquezas.

O chefe piedoso os ergueu e quis dedicá-los a celestes patronos: a Paulo foi consagrado o primeiro, àquele que ensinou aos gentios a doutrina de Cristo, e pelo nome do Senhor Jesus sofreu dissabores, muitos e enormes enganos e grandes trabalhos, duros naufrágios no mar e mil perigos na terra, e dando a cabeça ao ferro alcançou brilhante triunfo.

Foi a segunda igreja dedicada ao apóstolo Tiago, primeiro dos doze a oferecer o pescoço à espada, e derramar seu precioso sangue em morte afrontosa, enquanto exalta com voz corajosa o nome do Mestre.

Coube a terceira a João, o amigo predileto de Cristo: distinguiu-o entre os demais a fúlgida glória de sua nívea candura.

Tão forte amor lhe abrasava o peito fiel, que entre espadas furiosas teve a coragem de seguir o Mestre até os tormentos terríveis da cruz.

Aí mereceu receber a maior honra da terra, ouvir do Senhor moribundo as derradeiras palavras: “Eis aquela que em seu seio de imaculada pureza me concebeu e a seus níveos peitos me nutriu pequenino! será ela a tua mãe e serás tu seu filho!” As últimas torres erguidas, foram a ti consagradas.

ó Divino Espirito Santo: é teu sopro que enche os espaços celestes, as vastidões do mar e da terra.

Tu inspiras alma aos viventes, purificas o imundo, iluminas as trevas e de luz inundas as mentes e vais morar no íntimo sacrário do peito.

Tu, quando Deus levantava as muralhas do mundo as do céu e da terra, e os mares azuis, só com seu Verbo, pairavas sobre as águas e abrindo as asas divinas acalentava o abismo.

Tu, com teu sopro suave, fecundas os rios, as torrentes e as fontes perenes, para dar vida às almas, e com teu fogo divino lhes abrasa o seio: a Ti, ao Padre e ao Filho, uma só e mesma divindade, um só poder e grandeza, pelos séculos sem fim glória igual seja dada! Ressoam sem cessar nesses templos os mistérios sagrados: aí aprendem os Brasis os hábitos santos de Cristo.

Lá os ajuntou de toda a parte a mão firme do chefe.

Agora se podem admirar as multidões numerosas, que acorrem aos templos de Deus, quando a face de aurora se envolve pouco a pouco em seu véu cor de rosa, e quando o sol se precipita no abismo dos mares.

Cada qual exalta a seu Pai com os termos que sabe: aqui brada a fé sincera, aqui a mulher mais o homem aprendem o amor de Deus, guardam seus mandamento e bebem sequiosos a linfa da doutrina celeste.

Aqui os meninos inocentes que não mancharam a vida de crime algum, aqui as virgens de intata pureza aprendem a cantar em coro alternado hinos sagrados e a modular teu nome, ó amável Jesus! Que alvoroço alegre vai entre os habitantes celestes, entre os coros angélicos! e, que doçura de cantos! Como se lançam à terra, à maneira de fúlgido raio, modulando teu nome, ó amável Jesus! Que alegrias imensas invadem o coração delicado da Virgem Mãe, que pode encerrar em seu seio ao Onipotente que o palácio do céu e a grandeza do mundo não podem abarcar! Quanto a boa mãe rejubila ao ouvir nas plagas brasílicas o nome de Cristo, o nome santo de seu Filho e Senhor exaltado! Nesses templos imensa multidão de inocentes, manchados não por crimes próprios, mas só pela culpa do primeiro Pai e por isso sujeitos ao império da morte, se orvalham e renascem nas linfas sagradas, e, livres já da mancha, no limiar primeiro da vida, arrebatados em massa, voam para os templos eternos, para gozar perenemente da face de quem os criara.

Aí também, os que, sob o peso das próprias maldades se vergaram ao jugo satânico, à força de prantos e dores, lavam as manchas contraídas e, confessando seus crimes, esperam do Senhor o perdão dos seus erros.

Aí, os raios ardentes do sol a estiolar sem piedade, as chuvas, as sedes, as fomes a atormentar de contínuo esses heróis, irmãos unidos num só coração, ufanos do nome de “companheiros de Cristo Jesus”.

Dobra-os o trabalho assíduo e o cuidado incessante de arrancar os Brasis às trevosas fauces do abismo, de conduzi-los para a luz serena dos céus, a curar-lhes almas e corpos, dias e noites a fio.

O nome, que a região etérea de joelhos adora, que a caterva infernal reverencia prostrada, que a terra inteira, curvada ao chão, humilde venera, o nome augusto de Cristo, foram eles quem por primeiros em altos brados o proclamaram em plagas brasílicas.

Eles lançaram as sementes do Verbo divino em campos bravios, e arado em mão revolveram, longos anos, uma terra dolorosamente infecunda.

Foram os primeiros a cantar o sublime triunfo da cruz, o martírio do Cordeiro inocente e sua morte nefanda, a vitória de Cristo morto sobre o tirano do inferno, o sangue de Deus, verdadeiro manancial salvador.

Só agora, ó Cristo amoroso, depois que os Brasis dobraram a cerviz altiva ao teu jugo e abraçaram a fé verdadeira, depois de tantos suores, começam de ser consolados.

Alegrias novas despontam Começa a soprar do céu um prazer todo novo que afaga qual brisa suave os membros cansados, e penetra docemente as almas e aos corações doloridos soergue: então o descanso alastra pela quadra tranqüila, e refaz aos lavradores peitos e braços caídos da faina incessante, e à mente infunde nova alegria, esperanças novas, não a prostre vencida o trabalho.

Já agora os campos do Brasil se cobrem de flores formosas, nem mais se confiam a areal as sementes, mas a terra vencida pelo trabalho do arado, regada por chuvas generosas, aquecida por raios do Sol divino, em profusão dá-lhes seus frutos.

Fugiu o áspero inverno, fugiram as frias geadas aos ardores do sol, e os peitos de pedra em seu gelo já se não obstinam: almas de feias culpas manchadas limpam-se e inflama-se.

Friezas de outrora são chamas de amor de Deus.

Tal qual o inverno se afasta embuçado em seu manto de brumas, quando começa na terra a soprar com seu murmúrio amigo a brisa mimosa, e o sol com seu brando calor a superfície lhe afaga: então, madre fecunda, ela se abre em tesouros e os campos, seu regaço verde, são todos renovação, e beleza, e a alegria do rosto se expande em prados ridentes.

Então riem as searas, engalana-se a quadra formosa, flores voltam a pintar os ramos em que as florestas se abraçam copas são tetos de verdura, a ave desafoga em trinados a garrulice.

Então a vide, farta de seiva, rebenta em tenros frutos e frondes, contente, e estende rasteiros os braços, e por toda a parte a cabeleira dos ramos.

Fértil de tufos novos; então com seus anéis a gavinha sai da cepa materna; folhas seivosas se espalma e em breve o pâmpano está vergando ao peso dos cachos.

Já a noite negra foge, fecha-se a porta ao inferno trevoso, já não vomita suas labaredas a horrenda fornalha.

O príncipe do mundo, escorraçado do austral hemisfério, atroa as cavernas escuras com mugidos de raiva.

Só a Cristo Jesus, eterna vida, se cantam louvores: as bandeiras fulgurantes do augusto Rei se desfraldam e a obra da cruz rebrilha imortal.

Rei é Cristo e seu império se estende na terra, nas ondas do espaço, e de direito inalienável reclama para si as plagas brasílicas.

Que teu nome e teu preço e tua glória inefável se espalhe pelo mundo inteiro, ó Cristo, honra dos céus, e a plaga austral ecoe eternamente, Jesus, o teu nome! Com que alegria, por tantos bens, o Chefe piedoso rende graças ao Pai Celeste do intimo d’alma, como estua de amor! como cuida que a fé e a piedade sinceramente se cultivem! Redobra cuidados ingentes, que não lhe concedem sossego aos membros cansados.

Se quisesse estreitar em versos tantos feitos ilustres de um coração abrasado no amor ardente de Cristo, seria sobre humana tarefa, e ao profundo dos mares o peso imenso arrastaria minha frágil barquinha antes de poder lançar âncora em porto seguro.

Faltar-me-iam para logo as parcas harmonias do verso perante a abundância das glórias a ser celebradas.

Mas a paixão fremente de cantar o nome divino me arrebata: é doce subir às montanhas celestes e beber nas fontes de Deus, e, expulsas as trevas da mente e firmado o passo por entre as incertezas da vida, haurir das regiões etéreas a luz da beleza.

A recente cidade do Salvador florescia em doce sossego, e a nova assembléia dos cristãos, com plácido aspecto, cantava os louvores de Deus: nenhum temor inquietante os oprimia: nem boatos de guerra futura vinham sequer turbar a bela paz renascente.

Depois que deixaram a terra os ímpios bandos do inferno, cessara por toda a parte a fúria louca da guerra.

Fulgiam dias serenos, e o céu com luzes mais vivas acossavam para longe as nuvens sombrias das almas.

Jorravam dos lábios carmes celestes a Cristo, e os peitos tranqüilos respiravam as doçuras da paz, enquanto de bocas bárbaras ressoavam louvores divinos.

Eis que de súbito triste notícia alarma a cidade e crava nos corações de todos o punhal do desgosto, e gemem os homens e gemem inocentes crianças.

O mar azul, no meio das águas distingue uma terra, não longe daqui, na direção do sul borrascoso.

Solo fértil, ornado de bela e eterna verdura: promissoras sementes lhe enchem os sulcos fecundos, e os campos alegres se esmaltam de canas de açúcar.

Habitavam-na tranqüilos os Lusos, muitos anos havia, e nunca o peito lhes arfara ao sobressalto da guerra, mas comerciando com as vizinhas gentes selvagens, desfrutavam o dom da tranqüilidade amorosa.

Mas agora os índios tudo abateram em súbito ataque, rompendo as doces cadeias da antiga amizade.

Começaram a encher-se de altivez e fereza, a arrasar os campos ricos e pingues searas, a incendiar com fachos cruéis as casas vizinhas, a trespassar os próprios homens com setas farpadas e, inesperadamente, a prostrá-los mortos por terra.

É assim que o borrascoso sul de repente se arroja às naus que sulcam tranqüilas a vastidão do oceano, e os altos céus ribombam e em incessantes coriscos se iluminam, enquanto o vento sopra em turbilhão furioso e as ondas se incham e engolem os navios incautos.

Os índios os cercam e tentam rendê-los à míngua, homens e mulheres, meninos e tenras donzelas.

Começa a atormentá-los a fome: e o feroz inimigo junto aos muros os ameaça altivo, destrói às flechadas criações e rebanhos.

Invade os sitiados terror doloroso.

Quando o ilustre Chefe ouviu a triste notícia, gemeu e do fundo da alma soltou este suspiro: “Terão a sua paga!” Chama os principais da cidade.

Acorreram todos e ansiosos esperavam atentos a resolução do Chefe.

Começa então por estas palavras: “Um crime horrível perpetrou o feroz inimigo: incendiou campos e casas aos cristãos e açulado de furor selvagem deu morte cruel a inocentes.

Como creio, cidadãos, chegou até vós esta fama.

Cercados na vila, sob o fraco amparo dos muros, sofrem os nossos o furor e as iras sem freio dos selvagens: e trazem as vidas pendentes de um fio.

Nestas aflições, é forçoso levar-lhes socorros, e a causa pede que eu próprio vá auxiliá-los”.

Eles objetaram: “ Não é seguro deixar nossos lares, ilustre chefe, e abandonar os índios há pouco sujeitos: se daqui te afastares, todos eles de um salto criarão novos brios e, fora de si pelo exemplo do fato recente, atacarão a cidade e os templos com fúria desumana, derrocando-os a ferro e a fogo”.

Isto diziam.

Mas o herói nutria uma grande esperança no íntimo d’alma: postos os olhos nas alturas celestes, donde sabia vir-lhe o auxílio, roga socorro ao Criador e Senhor dos Céus, da terra e dos mares, pedindo reverente que os passos lhe firme.

Assim estribado na força do braço divino, prepara-se a arrancar os sitiados da angústia suprema.

Sem paciência para demoras, manda tocas as trombetas chamando à guerra: latejam brios nos peitos dos moços e na rude mão do soldado brilham as armas terríveis.

O índio moço sobraça o arco em forma de lua, pronto a seguir o Chefe, com ardor, para a guerra.

Assim alegres todos subiram às naus equipadas a arrostar as fúrias do mar.

Foi em Junho, tempo em que o Sul com chuvas e fúrias horrendas domina a vastidão do oceano, corre espaços que turbilhonam por entre os nimbos que os cingem.

Tudo fervia então sob a carga das águias celestes e o Sul encapelava a vasta planície cerúlea e tão alto a erguia que aos nautas barrava o caminho.

Mas, apenas embarcaram e se soltaram os cabos e a âncora alçada desprendeu o dente recurvo, Deus onipotente, que com um aceno dirige as estrelas e tira dos seus tesouros os indômitos ventos, limpou os espaços e reprimiu as furiosas lufadas.

Amaina as ondas e afaga o mundo com o sopro do Norte, e ao amplexo dos ventos favoráveis entumecem as velas.

E já as naus sulcam as águas azuis do oceano que se rasgam em salto, e avança a quilha embreada.

Vencido o primeiro dia segue-se noite tranqüila de céu sereno, todo rutilante de estrelas; esta cedeu lugar a um sol esplendente que veio erguer o escuro véu da noite ao mundo desperto.

Mal atingira os cumes do firmamento sereno quando a armada ferrou o litoral desejado e os nautas calcaram jubilosos a praia querida.

Apenas pisou em terra, dignas graças o Chefe rendeu a Deus: imitaram-no os fiéis companheiros.

Guias à frente, decidido sai à procura do inimigo atroz que se acolhera a fundas florestas.

Ia todo o exército pisando as calcinadas areias dos curvos litorais até chegarem às altas montanhas que separam da praia as habitações dos selvagens.

Lançam-se à escalada, e a pé atingem o cume do monte e no negror da noite, penetram nas escuras florestas, por trilhos estreitos por onde os conduz o caminho.

Já densa treva envolvera a imensidade da terra e os carros da noite rolavam no mais alto dos céus, quando chegaram a um posto, no meio do bosque, coberto de impressionante negror.

Águas o cercam, recolhidas de todas as partes, que tudo cobrem de lodo e fazem desse lodaçal um pântano imenso.

Há aí estreitíssima ponte, lanço de longo trajeto: astucioso o selvagem fabricou-a de fino madeiro, para tornar suas casas inacessíveis aos inimigos e afastar para longe todo o perigo de ataque: julgava assim inexpugnáveis suas aldeias.

Mas, que há inacessível ao Senhor Deus, que outrora partiu as águas do Mar Vermelho sob os pés do seu povo e fê-lo passar, de plantas enxutas, os fundos do abismo? Também agora ele próprio guiou os seus como chefe e fez com que sem perigo passassem as pontes estreitas.

Transpôs o chefe a vasta lagoa no escuro da noite, firmando o pé nos troncos por três milhas ao longo.

Já se aproximavam dos fumegantes tetos selvagens: o próprio chefe exorta seus homens a serem valentes, a despedaçar o inimigo de Cristo em renhido combate.

Adiantam-se ligeiros, já quase tocam as tabas, da qual em seu posto: dirigem preces ardentes a Cristo Jesus, general da milícia celeste.

Arrojam-se ao inimigo desprevenido de tanto perigo e lhe pagam com merecida morte a morte de tantos.

Ecoam no silêncio da noite os gritos de guerra: a este decepa a lâmina a cabeça há pouco indomável, àquele fere nas costas, vara ao outro o ventre adiposo.

Uns tombam com o peito crivado de setas farpadas, a muitos a lança trespassa a ilharga e fundo lhes crava o coração: as armas estão quentes do sangue que bebem.

Os restantes fogem encobertos pelas sombras da noite, e se embrenham nas florestas.

Então o vencedor exultando entrega as aldeias à voragem das chamas ferozes.

A labareda lambe o céu ao sonido das palhas e ilumina as matas envoltas nas trevas da noite.

Vencem as chamas e tudo reduzem a um monte de cinzas, enquanto às nuvens sobem enruivadas centelhas.

Quatro aldeias devorou a vingança do fogo, até que a aurora veio desdobrar o véu fulgente do dia e a lâmpada do sol resplendeu no horizonte.

Já o punhado dos bravos se afasta a caminho da praia, contente de ter infligido ao selvagem merecido castigo.

As ondas do mar agitado referviam na praia, deixando ao recuo das vagas um rolo de espumas.

Eis que à pressa acode numeroso o feroz inimigo.

Nuvens de setas silva nos ares.

Vêm eles tão furiosos sobre os cristãos cansados dos esforços da noite, que não percebem as ciladas: pois apenas chegado à praia, nosso herói manda alguns esconder-se no recesso do bosque e aí sem rumor ficar à espreita, enquanto os outros prosseguem em passo apressado.

Crendo que os nossos fugiam, o inimigo se lança em corrida veloz, afagando vã esperança.

Enquanto correm soltando gritos ferozes, cai-lhes pelas costas em rijos golpes o troço escondido, lançando os corpos à cova, e as almas ao lago do inferno.

Assim a matança que preparavam voltou-se contra eles.

Como quando o tigre feroz, subjugado atrozmente por fome de vários dias, confiado nas sombras da noite, penetra sob escura grade, que grandes trocos massudos tornam pesada.

Estarrece do outro lado tremendo o cão preso num cercado e amarrado pela negaça.

O tigre, picado da fome e da imagem da preia presente, avança para rasgar-lhe as carnes e cevar-se com elas e desalterar-se no jorro do sangue: mas então de repente a malha enorme de troncos desaba-lhe em cima e com o peso imenso o imprensa no chão, enraivado.

Assim caíram os inimigos vencidos pela cilada.

Poucos escaparam à lança e a rútila espada dos cristãos que os cercavam.

Alguns em corrida ligeira atiravam-se às ondas e através das vagas bravias deslizavam velozes e a poder de rudes braçadas venciam enormes espaços do mar agitado: era a última e fugaz esperança dos infelizes.

Mas Deus que criou os céus e deu ao heroísmo do Chefe a vitória na terra, deu-lhe também no oceano.

Os brasis que seguiam a bandeira de Cristo e as armas do Chefe, atiram-se às ondas de um salto e sem perda de tempo cortam as vagas como golfinhos, quando pelas sendas do mar vão no encalço dos peixes.

Clava na mão esquerda, com a direita no corte das ondas, com os pés por remos, sulcam as planícies encapeladas do vasto abismo, e caem sobre o inimigo que foge.

Voa das ondas fendidas a espuma, ao sopro do vento, já se aferram aos malparados fugitivos e travam combates horrendos e entre as ondas bravas vibram golpes ferozes.

Já se erguem nos altos cabelos das ondas do mar indignado, já desaparecem nos seios profundos da vaga que se abre, redobrando sem cessar os seus golpes.

Na praia ao longe os soldados contemplam as lutas e pasmam das rijas batalhas que se travam nas águas.

Como quando as baleias sobem do fundo do abismo e se acolhem às enseadas do litoral brasileiro na quadra em que se entregam ao serviço da espécie: então travam combates ferozes ao soçobro das ondas e lançam até as nuvens jatos de água espumante: Atônitos na praia os homens assistem à luta gigante dos monstros descomunais entre as vagas encapeladas.

Elas desfecham golpes tremendos e horrendas feridas com as caudas e dentes agudos, até que as ondas vomitem os cadáveres monstruosos às areias da praia.

Assim nossos índios, em pleno mar, a braços com as ondas vibram golpes terríveis: a uns despedaçam, a outros já semimortos puxam-nos, enlaçando-lhes os longos cabelos com a mão esquerda, enquanto com a direita cortam as vagas e vitoriosos arrastam até as praias a presa, indo depor aos pés do Chefe os corpos de seus inimigos, e despedaçando aos semivivos os crânios com os rijos tacapes.

Acautelai-vos todos quantos não experimentaram a força destes brasis e os julgais cobardes de alma e moles de corpo, e desprezais como um brinco suas rústicas armas.

Vede que audácia furiosa pode caber-lhes no peito, que feixe rijo de músculos os braços e as pernas: quão temíveis serão os que tão velozes cortam as águas e tão valentes se arrojam às braçadas com o mar agitado e tão ferozes desfecham golpes no meio das ondas, como outros em terra firme, quando ferem de morte! Logo todos os batalhões, prostrados os inimigos, seguem pelas praia sinuosos em direção da cidade.

Vêm-lhes ao encontro em bando alegre as mulheres, as meninas e meninos cantando em coros unidos os louvores de Deus onipotente que prostrou o inimigo com as próprias forças e aniquilou as hordas selvagens, com o poder de seu braço e livrou de todo o perigo os batalhões fiéis, concedendo-lhes volta feliz, e arrancando-os ilesos dentre tantos combates.

Então rendem todos justas graças, do íntimo d’alma, a ti, Sá ilustre, escolhido por Deus dentre muitos milhares, para domar esta gente rebelde e com justa vingança esmagar as tropas selvagens e afastar a ameaça que pesava cruel sobre a cabeça dos sitiados.

Já as mulheres, atroando os céus de alegria, te entoam, ó vencedor, cânticos de merecidos louvores, como outrora as donzelas de Judá exaltaram ao grande filho de Jessé, que com pedra roliça, apanhada na torrente e atirada por rústica funda, quebrou a cabeça e prostrou ao soberbo Golias, terror dos lares pátrios, ameaça do recinto divino.

Todos então transpõem os umbrais do templo sagrado que a piedade terna dos fiéis a ti dedicara, ó Mãe do Redentor, Virgem Maria, que em tua beleza unes a maternidade divina à virgindade perfeita, Quando há pouco o inimigo devastava as risonhas searas e em tropel tudo reduzia a escombros e cinzas, entregara também este templo a sacrílegas chamas.

Porisso agora entoam a Deus dignos louvores e glórias: ressurge nova a alegria, foge p’ra longe a tristeza e com ela os gemidos de há pouco, os prantos e dores, enfim a cidade despe a veste de luto pesado.

Para que relembrar agora o terrível incêndio com que o nobre Chefe abrasou os segundos redutos? Redobrou-lhe os brios a glória do triunfo alcançado e vibrou de novo a espada da vingança e a acha de bronze.

Não cessara, de todo, o mal, ainda a altivez dos selvagens não se curvara, ainda a alguns o terror não dobrara as cervizes soberbas.

Eis que de toda a parte acorrem jovens valentes prontos a arrostar a morte na luta ou a infligi-la de vez ao Chefe.

Uns aos outros se inflamam para o combate com estas palavras: “Nós, nós que fazemos, jovens de peitos robustos, que tanto luto nos causam uns pouco guerreiros? Ah! porque nos consomem chamas cruéis os redutos? Nós nos ocultamos, medrosos, nas brechas escuras e nelas buscamos abrigo, como tímidas corças: eles intrépidos em nossas próprias casas nos queimam e nos despedaçam, quais feros leões de fauces tremendas, e com nossas esposas nos levam os filhos cativos.

Oh! porque não preferimos morte gloriosa na guerra como fizeram nossos pais? Contra o inimigo corramos acossando-o em batalha feroz e com setas ligeiras varemos-lhe o peito ou, senão, que o nosso não tema afrontar a morte bela e cravar-se na ponta da espada.

Assim não morreremos, pelo menos sem alguma desforra!” Inflamados com tais ditos os índios se enchem de raiva e de negro furor: dirigem-se para a cidade, apostados ou a matar o Chefe ou morrer fatalmente.

É a disjuntiva cruel.

Já a rápidos passos o bando se adianta e os corpos nus cobrem a praia.

Todos fortemente armados: leva as setas a esquerda e sustém os arcos recurvos que pendem dos ombros.

A direita empunha o tacape, trabalhado com arte e polido, ornado em derredor de penas de aves variadas: com ele os antropófagos rompem a cabeça dos cativos.

Todos eles vem pintados de variegada plumagem que em parte se fixa ao penteado de longos cabelos; parte, a modo de pulseiras, cinge os membros robustos; parte, em forma de coroa, com grande arte disposta, lhes circunda a cabeça.

Entremeiam-se às brancas as penas amarelas, às vermelhas as verdes e todo o conjunto brilha pela variedade.

Alvos pedaços de mármore pendem dos lábios furados ou verdes pedrinhas de vívido brilho.

Como quando, acabadas as chuvas, a quadra formosa adorna de florinhas multicores as ervas, e na floração das árvores sorriem as verdes florestas: Tal o aspecto do bando a serpear pelas curvas da praia.

Já se achegava a multidão bem perto das casas, quando o Chefe, a quem jamais cilada nenhuma colheu de improviso, sai ao encontro dos índios que avançam em tropel.

Leva adiante a cruz vencedora do supremo Rei.

Logo travam a luta: gritos horrendos enchem a vastidão do mar que perto reboa.

Primeiro com dardos de arremesso e rápidas setas combatem à distância.

Começam a cair trespassados os inimigos, a estorcer-se feridos na areia sequiosa e em golfadas de sangue exalar o derradeiro suspiro.

Com a proteção de Deus os nossos causam inúmeras chagas e nenhuma recebem.

Com furor atacam o inimigo já fraco, de perto, e enterram-lhe a lança de lâmina larga nos corpos e encharcam de sangue as espadas luzentes.

Empapada ficava a praia e cheia de corpos: sobre montes de cadáveres os soldados avançam: Alguns dos vencidos recuam, fogem, em altas montanhas se escondem: em matos cerrados já não se sentem seguros: vagueiam por aqui, por ali à maneira de ovelhas, que o leão carniceiro persegue com dentes vorazes e desgarra medrosas por ínvios desertos, ou como laboriosas abelhas que a negra fumaça expulsa da colmeia.

Assim por caminhos estreitos se precipitam e se embrenham pelos matos esconsos.

Sob o rigor do frio, entregue às chuvas e fomes, sucumbiu a maior parte: a morte lhe domou a altivez! O temor da guerra cruel invade os destroçados: começam a abrandar os brios ferozes do coração indomável.

Já desejam reparar os danos da ruptura das pazes.

Vão ter com o ilustre Chefe e imploram sua aliança e direitos de amigos.

Leis que impuser, sejam quais forem, prontificam-se a cumpri-las.

Pedem paz e perdão.

Recebe-os com mansidão o Chefe valente.

Dá-lhes a paz e mais as leis.

Em seguida lhes manda que se abstenham de festas sangrentas, onde dantes soíam cevar-se em carne humana, como feras vorazes.

Reunam-se em aldeias, onde possam aprender a lei santa e os mandamentos divinos do Pai celestial.

Comecem finalmente a sacudir dos ombros o jugo do tirano cruel e voltar à justiça de Cristo.

Submetem-se alegres à invencível bandeira do Rei supremo e regozijam-se de seguir no futuro as divinas campanhas de Cristo.

LIVRO III

Já nossa mente fatigada perfez longas viagens nas eriçadas planuras do mar, nas densas florestas da terra.

Já percorreu litorais, dantes jamais palmilhados.

Convidam-me feitos maiores, forçam-me a seguir soldados, lançar-me de novo às ondas revoltas e desbravar os recessos da floresta sombria.

Guerras de maior vulto me restam por cantar, mais gloriosas empresas do magnânimo Chefe.

Que ruínas e mortes espalhou seu valor triunfante, de quanto sangue tingiu as ensombradas florestas sopeando o furor do bárbaro, vós, ó celestes irmãos inspirai-mo! Alta progênie, vós habitais os templos supernos e a bondade do Rei celestial vos deu como guias ao grande Chefe, para ajudá-lo, a seus tempos, nos múltiplos trabalhos das expedições e da guerra, e para abalar de pavor os corações inimigos.

Os triunfos obtidos do feroz inimigo, agora domado, picaram de júbilo o peito de todos, num alvoroço de paz suave.

Mas, eis que, acompanhada de justa tristeza, chega de repente notícia que desterra a alegria 42 da cidade do Salvador.

Enquanto ao longo da praia três cristãos lançavam insidiosas redes aos peixes, foram cruelmente presos e arrastados pelo inimigo que os trucidou com injusta e bárbara morte.

Mal ouviu a notícia, o Chefe, ferido no íntimo d’alma, ergueu os olhos ao céu.

Não se esqueceu que tudo sucede por permissão divina; mas disse consigo estas palavras: “Creio chegado o grande dia em que a bárbara tribo receberá em morte o cruel castigo que pedem tantos crimes cometidos, tanto sangue inocente vertido.

” Sobem às naus sem demora, e entre o clamor dos marujos rangem as amarras retesas: para o Sul voltam as popas.

Desliza a quilha alcatroada e singrando o oceano aporta no seguro remanso da remansosa baía.

Entra na cidade logo o herói com o séquito grande.

Recebem-no com longas aclamações, música e danças, como um vencedor em triunfo: mas ele abalado por dor imensa, prepara-se para vingar as mortes injustas com a chama e a espada.

O incêndio do peito indomável não sofre demoras.

Então envia ao feroz inimigo embaixadores que exijam se lancem em cordas e entreguem a ele os assassinos, que sofrerão o merecido castigo pelo crime cometido, pagando morte por morte.

Hesitam a princípio os bárbaros, tomados de medo.

Ondas de opiniões os arrastam em vários sentidos: entregarão aos enviados os criminosos, metidos em apertadas cordas, ou antes os livrarão, apiedados, das fauces da morte? De um lado o medo do Chefe os aperta do outro o amor e cuidado fraterno os coíbe.

Assim à onça parida acossam com inúmeros dardos os caçadores que lhe vão roubar os filhotes: nem o medo das armas, nem a cruel perspectiva da morte lhe permitem parar um momento, nem a ânsia materna lhe consente a fuga do posto e o abandono do ninho.

Mas houve uns loucos, a quem a desenfreada sede de sangue atiçava mais ativa em labaredas de raiva os peitos ferozes.

Tinham chegado altivos, há pouco, de suas terras natais, onde há o tempo já tinham sofrido cruel matança das hostes cristãs, comandadas pelo ilustre Chefe.

Ainda ferozes os corações explodiam: “Hesitar ainda? Não, não ceder! Esse terror vergonhoso expulsai-o do peito! Perante esquadrões de mulheres de que serve tremer? A vosso lado estamos para ensinar-vos o modo de exterminar completamente o inimigo”! Animados por tais palavras, desterram do peito os temores, erguem a cabeça orgulhosos e remetem ao Chefe valente estes mesmos dizeres.

Quem poderia sofrer tal afronta? Apressa-se o Chefe para devastar em guerra tremenda 43 o soberbo inimigo.

Manda arrolar de todas as partes batalhões de indígenas já submissos ao jugo de Cristo.

Preparam todos eles seus arcos e flechas farpadas e esses escudos fabricados com couros de feras tão duros que são impenetráveis às setas ligeiras.

Arrebatados de ardor, os peitos selvagens suspiram pelos belos riscos da guerra.

Inflama-se além do ordinário a mocidade lusa.

Anseiam partir e domar essas hordas com o braço carregado de vingança.

Rufam tambores em rouco som.

Ajustam-se as armas: ao peito a couraça, o capacete à fronte.

Enverga este uma pele de anta, aquele se envolve em malha de liso algodão que frustra o corpo ao golpe das setas velozes.

A maior parte não carrega o corpo com armas algumas para livre de peias poderem seguir no encalço aos inimigos em fuga e alcança-los em corrida ligeira.

Cintilam as espadas e os chuços de larga ponta de ferro, os escudos de couro e de metal luzidio.

Irrequieto, o cavalo morde o freio, aspirando auras de guerra.

Tudo se alvorota: o furioso ardor guerreiro se apossa da cidade inteira, cada qual se entrega à respectiva tarefa diligente: tine por toda a parte o ferro das armas.

Tal qual na primavera, quando o céu se lava de nuvens, saem dos fundos cortiços as abelhas em busca das flores e por aqui, por ali recolhem contentes o pólen, zumbem entre as ervas e, felizes com as patas douradas, voltam para a colmeia, onde distilam o orvalho suave, o mel para o próximo inverno: tudo é vida e trabalho na faina alegre do lar.

Rouqueja a escura oficina; todas se aplicam à labuta, cada qual no seu posto: cuidam estas das crias, aquelas do mel destilado, Outras afastam os zangãos que indolentes descuram Todo trabalho, e, para gastar-lhes o mel que devoram, se metem entre as abelhas procurando esconder-se, mas elas os detém e fincando-lhes os ferrões os destroçam, e em linhas cerradas até aos umbrais da porta de entrada varrem os cadáveres dos infelizes vencidos.

Dispostos todos em ordem, entram já pelas ondas.

Coalhado de naus, o mar espuma debaixo dos cascos.

São naus, são barcas e igaras, nas quais os Brasis se atrevem à luta com vagas encapeladas.

Ao sopro do Sul macio as velas incharam e em breve ferraram as praias da terra inimiga.

Situada no poente e erguida em picos de montes, parece topar com a fronte as grimpas celestes.

Separada por entradas do mar que a invade olha para a cidade dos Portugueses fundada ao nascente do sol com inclinação para o norte.

44 De há muito tempo que brancos não tinham pisado essa terra.

Cercados de toda a parte por densas florestas, os inimigos habitavam em escarpados rochedos, como leões ferozes metidos em escuras cavernas.

Ardorosos os nossos põem-se ao caminho de dia e de noite: ao peso da chuva e de mil outros incômodos , abrem picada com a foice curva, abatem florestas, tine o machado, geme o tronco, e ei-los à vista do primeiro forte, fundado no cume de monte elevado em ladeira escarpada.

A bandeira da cruz na vanguarda, atacam-no de rijo, abalando os céus com a grita.

Acodem as hordas contrárias e com flechas impedem a subida aos soldados: horrenda fúria a todos inflama.

O horror cruel da guerra se espalha: já os selvagens começam a tombar feridas: ao baque dos corpos a terra estremece e fica toda juncada de mortos.

Caem já aos índios brutais os brutos braços e pernas.

Já se não fiam de suas flechas e ocas: embrenham-se em vergonhosa fuga pelos matos e no escuro dos bosques se escondem.

O soldado prossegue e vence ardoroso o píncaro do monte, desfechando golpes tremendos e semeando a morte nas hordas que fogem.

Ficaram os troncos da selva tintos do sangue inimigo.

Depois que as armas prostraram o inimigo e a batalha o lançou nas tocas dos bosques, como alcatéia de lobos que os lebréus aterram e dispersam com latidos ferozes: alegres acampam todos desfrutando o triunfo.

Descansavam já esquecidos dos trabalhos pesados, quando de súbito uma voz, de boca em boca voando, se espalha e cresce e perturba a paz dos guerreiros.

Dizia-se que um braço fora cortado e roubado a um cadáver dos muitos que aí prostrado s deixara o inimigo.

Furtara-o talvez algum índio dos nossos, vencido do antigo costume, para devorá-lo em segredo.

Mal chegou o rumor aos ouvidos do Chefe piedoso manda apregoar em voz alta por todos os bandos a ameaça de morte para quem se manchou de tal crime, senão restituir esse braço e o não ajuntar quanto antes ao corpo do qual o cortara às escondidas de todos.

Tão grande amor de Cristo lhe inflamara o desejo de abolir os costumes cruéis dessa bárbara gente! Estremeceram todos, um calafrio lhe correu pelos ossos ao ladrão; foi-se depressa e repôs às ocultas o manjar mal havido e em vão cobiçado! Já Vésper no céu acendera os fogos dos astros e os soldados a uma descantam os louvores divinos, enchendo de melodia aquelas solenes alturas.

Os batalhões brasílicos e as lusitanas coortes 45 juntos louvam a Deus, e ao Pai celeste com preces inclinam aos seus desejos; e ao Senhor poderoso, que num sopro liqüefaz os cumes dos montes, Cristo e a todos os bem aventurados com súplicas pedem derrotem os inimigos.

Com o coração ardoroso esperam as futuras pelejas e refazem as forças.

Já a aurora afastara do céu as sombras da noite despojando as terras do negro manto de trevas; erguem-se lestos, decididos a exterminar o inimigo e devastar-lhe com a vingança do fogo todas as casas.

Avançam em ordenadas fileiras pela selva, coberta de verde ramagem, e a quantos inimigos encontram dão morte cruel; devastam os campos e lançam nas ocas o incêndio.

Infatigável o soldado ora arroja seus passos a montes altos, ora desce ao fundo dos vales, ora se arrasta por sendas difíceis, até que altíssimo cume de monte escarpado põe termo ao longo caminho.

Aí fundo vale parece descer ao abismo do inferno, sombreiam-no impressionantes matos de densa folhagem, divide-o em duas partes uma torrente em cascatas, que enche toda a floresta do seu rouco murmúrio.

O monte, que ao lado se ergue, se vai às nuvens, de altura, áspero de escalar; só existe caminho, e difícil, por estreito trilho.

Assombram à direita e à esquerda precipícios medonhos e rochedos inacessíveis.

No cume do monte se alinham as defesas, formadas de grandes troncos de árvores e de pedras enormes.

Aí se aglomera a flor da juventude inimiga.

Estremecem a princípio os nossos e desfalecem à vista do cabeço que julgam inexpugnável: incute-lhe forças Aquele que abala o mundo com um aceno de fronte.

Exortam aos companheiros os chefes do exército: “Vamos! confiança no Pai dos céus: confiança em Deus poderoso que move os astros! Ele próprio com sua força divina esmagará o feroz inimigo.

Jovens, à cidadela! passo firme e avante!” Então precipitam-se os jovens tentando a escalada.

Ribomba o céu aos clamores, ecoam as escarpas, respondem os vales profundos.

As hordas selvagens contratacam de cima do monte, levantam o grito de guerra que reboa na altura, e vibram fremindo os arcos; furor guerreiro os sacode, e logo despejam do alto uma chuva de flechas, cobrindo os cumes verdejantes como uma nuvem.

Assim, quando o vento Sul flagela às vezes os campos, o granizo despoja dos seus belos cachos as vides e denso saltita sobre os tetos tragicamente soando.

Há um frêmito de horror nas matas.

Os inimigos resistem com denodo aos assaltantes, rolando pedras enormes.

46 Mas aos esquadrões de Cristo nem flechas nem pedras conseguem parar; o soldado, em fileiras cerradas se arroja teimoso, vence as escarpas, despede certeiro dardos de arremesso.

Chegam às mãos: foge o selvagem.

Persegue-o, alcança-o, mete-lhe a espada, vara-lhe o peito.

A uns a lança de ponta aguda atravessa a ilharga, abrindo à luz do sol as profundas cavernas da vida e levando a morte aos membros pela larga ferida.

Outros tombam, fendida a fronte a golpes de espada, a outros trespassa o coração a seta ligeira.

Pelo solo escorre negro sangue, as matas se encharcam da muita sangueira.

Aqui e ali corpos nus e sem vida jazem nos caminhos e fundos recessos dos bosques.

Quem poderá contar os gestos heróicos do Chefe à frente dos soldados, na imensa mata! Cento e sessenta as aldeias incendiadas, mil casas arruinadas pela chama devoradora, assolados os campos, com suas riquezas, passado tudo a fio da espada! Choraram a perda dos pais os filhos queridos, carpiram as mães inconsoláveis a perda dos filhos, a esposa, agora viúva, chora a morte do esposo.

Morreram muito à míngua perdidos na selva, e, fato horroroso! com as próprias mãos, pais desumanos mataram os filhos que pelos bosques os seguiam chorando, para que o choro deles não atraísse o inimigo.

O terror se estendeu, estendeu-se o luto profundo: tudo eram lágrimas, prantos e espectros de morte.

Já há quinze dias, a estrela da manhã, ressurgindo do fundo oceano à frente do carro do sol resplendente, contemplava nosso exército a percorrer densas matas, incendiar casas, talar campos, matar inimigos.

Era tempo de voltar aos lares, rever as igrejas, casas de Deus, levando em triunfo o pendão da vitória.

Mas o feroz inimigo ardia em ira indomável, como a ursa terrível, a que há pouco roubaram as crias.

Desgostoso da vida e de uma tranqüilidade forçada, resolve atacar os batalhões que voltam sem ordem.

Já estes chegam às barcas, quando os assalta o selvagem sem medo à lâmina da espada e aos mortíferos tiros.

Em seu peito valente, o Chefe não sofreu tal descaro: manda retroceder aos soldados e ele próprio se atira aos inimigos que atacam, sobraça a lança medonho, esporeia o cavalo e lhe solta as rédeas inteiras.

O animal fogoso se lança ferindo a terra e atropela com as patas ferradas e esmaga esse bando de loucos.

O herói, com o braço fulminante, vai vibrando seus dardos; com o peito varado lado a lado, vão tombando os selvagens.

Os soldados, atrás do Chefe, juncam de mortos a praia.

47 O resto do bando foge para o esconso abrigo das matas.

Embarcam pois os nossos em demanda das praias amigas, e ferram finalmente o porto as quilhas cansadas.

Logo que o herói, cercado de seus batalhões triunfantes, pisou terra, ressoaram de toda a parte louvores ao Deus eterno.

“É ele que estende as trevas da noite, qual negro manto, por toda a vastidão do universo; e ilumina o mundo com a luz suave da aurora.

É ele quem prova os mortais com a pobreza penosa e cumula de dádivas largas e abundante fartura.

Ele quem deprime as alturas até o fundo dos vales e ergue as terra chãs até a altura dos astros.

Ele mostrou as forças divinas da destra potente e os milagres de seu braço; expulsou os soberbos dos desígnios de seu coração, e de seus tronos sublimes aos poderosos: aos pequeninos ergueu às alturas, e dadivoso cumulou de muitos bens e riquezas aos que a negra fome oprimia, deixando famintos os ricos; aos débeis encheu de força e aos cheios de força despojou, quebrou-lhes os escudos, partiu-lhes os arcos.

Ei-los prostrados, os fortes! e com eles armas e dardos: o medo e o pavor invadiu os bandos selvagens.

Estupefatos estarreceram, como mármores rijos.

Como o pó se desfaz e dispersa ao sopro do Norte furioso, assim se desfizeram os bárbaros à vista de Cristo e foram despenhados nos escuros abismos da morte” Assim descantavam todos, as mães e as esposas, os meninos e os velhos trêmulos.

Eles todo o tempo ansiosos, enquanto os soldados cristãos devastavam o solo inimigo, erguiam preces e mais preces ao Deus das batalhas, para que refreasse a cólera e o furor dos selvagens, e o exército fiel alcançasse completo triunfo.

Já agora exultam de gozo, já tudo revibra de ruidosa alegria, entregam-se a danças e cantam à volta do grande Chefe, desfraldando a bandeira da cruz vencedora e das cinco chagas que tu, ó Cristo, sofreste em teu corpo exangue pelo gênero humano, e que domaram para sempre o feroz tirano do inferno.

Os canhões em salva vomitaram tiros horrendos com ribombo medonho, enchendo o céu de fumaça.

Tudo dá sinais de desusada alegria: ressoam as casas em festa, as ruas se apinham de gente, que aclama o Chefe e o precede ao templo sagrado.

Aí o exército, que tornara são e salvo, entre louvores e justas ofertas, rende a Deus graças do íntimo d’alma.

Depois acompanham o Chefe ilustre até ao seu paço.

Três vezes a aurora afugentara dos céus os astros noturnos e a fronte orvalhada lhe brilhara aos raios solares, 48 quando apareceram, singrando o mar, com muitos remeiros, algumas canoas: vinham em direção da cidade e traziam os inimigos que tantas guerras e derrotas prostraram.

A que vêm? porque agora visitam os litorais inimigos de boa mente? que trazem? Armados os guerreiros esperam.

Eis que pisam a praia e vêm arrastando dois índios de braços nus amarados, de cerviz e fronte caídas, outrora tão altivos.

Suas mãos estão úmidas ainda do sangue cristão que derramaram há pouco.

Colocam-nos aos pés do Governador e suplicam, já tímidos, que deponha ira e expulse do peito o justo rancor: “De nosso sangue sorveu a terra bastante, dizem eles, tingimos de rubro as nossas florestas com o sangue dos pais, dos irmãos e dos filhos queridos.

Choram a morte de suas esperanças as mães desgraçadas, os filhos procuram, ainda em vão os pais que o sepulcro escondeu.

No fundo das matas a fome impiedosa corta com morte horrenda a vida dos errantes.

Derrocou as aldeias todas a fúria do incêndio; os campos talados pela guerra não nos dão o sustento.

Os dois principais e cruéis assassinos dos homens.

que junto da praia lançavam as redes de pesca, conseguiram, fugindo, escapar à terrível vingança de teu braço.

Ei-los aqui: nós tos entregamos agora: lavem com o sangue sua culpa, paguem vida por vida! Vencidos, pedimos paz: já não recusam os ombros o peso da sujeição.

Dá-nos a paz, nós to pedimos, ó Chefe! Impõe-nos as leis que quiseres, que nós as cumprimos.

” O Governador ouviu com bondade essas palavras e respondeu: “Se vos fiz guerra cruel de extermínio, devastando os campos e lançando em vossas moradas o incêndio voraz, levou-me a isso vossa audácia somente.

Já agora, esquecidos os ódios, vos concedemos contentes a aliança e a paz que quereis e sentimos vossa desgraça.

Porém, deveis vós observar as leis que vos dito.

” Manda então que refreiem suas rixas contínuas que expulsem do peito a crueldade e o hábito horrendo de saciarem o ventre, à maneira de feras raivosas, com carnes humanas.

Também lhes ordena que guardem os mandamentos do Pai celeste e a lei natural e ergam igrejas ao eterno Senhor das alturas em seu torrão natal; aí serão instruídos na lei divina e de vontade abraçarão com os filhos a fé de Cristo, porta única do caminho do céu, Além disso, tudo quanto roubaram dos Cristãos às ocultas ou por assalto, em tantos anos, os próprios escravos mortos ou devorados, tudo pagarão e mais os tributos.

Para logo, submissos executam os preceitos divinos, 49 desejosos de abraçar a fé e ouvir a palavra da salvação e conhecer o nome de Cristo Jesus.

Finalmente, ó Bárbaro, se abriram as portas de ferro de teu coração, por tantos anos fechadas! Enfim, o teu peito mais duro que o bronze fundido já se abranda e tua alma despe a dureza de pedra! Essa raça altiva, apaixonada por guerras sangrentas, acostumadas, de há tanto, a devorar, como tigres, carnes humanas e a viver impune em altos rochedos, sem jamais acertar o aperto de mão dos Cristãos, eis que jaz vencida e submete a cerviz alterosa ao jugo da lei.

A que lançava ameaças terríveis, há pouco, livra-se agora das cadeias do inferno, escapa das fauces do leão que rugia à sai volta e entra para o teu rebanho, ó Jesus, bom pastos! Tu lhes embebe os seios áridos com o orvalho divino, como chuva abundante que nuvens prenhes derramam, e lhes abrandas as almas, duras como blocos de mármore.

Como outrora, às tuas ordens , a natureza aterrada arrojou um rio de água do penhasco sequioso: assim agora corações-rochedos se abrandam.

Regadas pelas tuas águas, fecundadas pela torrente da palavra divina, suas almas serão novas fontes.

Depois que tais feitos realizara o Chefe piedoso por amor da fé, e, firmado na força divina de Cristo potente, destroçara o feroz habitante dos montes inacessíveis, terror dos cristãos tantos anos: prepara-se para ir às praias, onde bárbara gente espostejara a muitos cristãos juntamente com o Bispo, conspurcando as mãos ferozes com sangue inocente.

Talvez agrade conhecer os derradeiros sucessos do Bispo.

Serei breve: mais uma vez renovo forçado a dor passada às almas, provoco o pranto dos olhos e reabro com o verso cicatrizadas feridas.

Era o tempo, em que ao sopro do Sul o nauta abandona as praias brasílicas em direção dos reinos que jazem sob o Boieiro que guia seu carro de estrelas.

O Bispo, com inúmeros cidadãos, embarcou mar em fora da cidade do Salvador, rumo ao litoral das Espanhas.

Os ventos propícios enchiam o bojo das velas e alisavam o oceano, como um afago celeste às naus que sulcavam as ondas do mar espumoso.

De repente trovões começam de ouvir-se rolando na amplidão do céu, medonhos relâmpagos chispam do embate das nuvens e as alturas se desfazem em raios.

O vento Sul se atira torcendo em vórtices as ondas e sacode em turbilhões horrendos o mar tenebroso, que se enfurece ao peso da borrasca, ergue em montanha 50 as águas turvadas e as lança raivoso às alturas.

Tudo é confusão: range ao embate das ondas inchadas a nau que os ventos fustigam com as cordas da chuva.

O piloto já brada do alto da popa: “Marujos, recolher velas, depressa! soltar as enxárcias.

.

” “sopra o Sul, depressa!” ergue-se a grita da gente, precipitam-se todos a uma a soltar as amarras, e sobem velozes aos mastros e recolhem as velas e abatem as vergas.

Tudo ferve em tumulto feroz! o terror invade a todos e a todos agita.

Entra o medo, já tremem de horror e o espectro da morte se agarra teimoso aos olhos espavoridos da gente.

Do alto da popa lança-se então a âncora , para firmar com o dente férreo a nau: última luz de esperança! Mas uma onda em montanha se quebra contra o costado, arranca das mãos a corda e arroja a nau às alturas.

A tempestade horrenda em rugidos imenso se assanha cada vez mais contra o mar e, prostrando-o às rajadas revolve e arroja montanhas de água espumosa.

Próximas já estão as praias da bárbara terra onde o índio feroz habita, em inacessíveis florestas, ocas escuras que ressumam densa fumaça: Entre cantos contínuo o bárbaro coze seus vinhos sobre grandes fogueiras e enche de uivos o espaço.

Aí a terra está sempre empapada no sangue dos pobres prisioneiros, a quem os malvados esmagam as cabeças com crueldade.

Pendem dos tetos escuros carnes humanas, assadas ao fumo das brasas, enquanto os crânios desnudados dos cabelos e os ossos despojados das carnes se colocam à entrada das portas.

As ondas ameaçavam os nautas de morte iminente: todos com o Bispo procuravam abalar com as preces os céus: um rio de lágrimas lhes banhava o semblante e gemiam: “Pai bondoso dos céus e tu, Cristo benigno, que nos preparas? dizei-nos : permitirás que morramos no meio das ondas, ó Pai? que sejamos vil pasto dos peixes vorazes? A morte que nossas culpas merecem será esta? Socorre compassivo estes teus infelizes, pelos quais suportaste as ondas do mar agitado de tuas Paixão e te submergiste na tempestade da morte.

Se nossos pecados movem o furor da tua justiça que te aplaque a inocência: porque morrer as crianças? que crime fizeram elas?.


Vem auxiliar teus remidos, Redentor nosso, não nos trague o negro abismo dos mares.

Desgraçado que somos! ao naufrágio das almas pelo pecado segue-se o naufrágio dos corpos no mar.


e tu não nos ouves.

Não nos castigues logo, dá ao arrependimento seu tempo, Cristo bondoso, para lavarmos nossos crimes com prantos.

” 51 Assim em vão oravam, assim de contínuo gemiam.

O oceano cruel em turbilhão os acomete de flanco e por desgraça arroja a nau sobre duros rochedos.

Assaltam-na as ondas que esbravejam de escuma, batem-na contra os escolhos e com roncos furiosos e despedaçam: soltam-se as tábuas, ameaçam os mastros medonha ruína.

Eis que alguns se atiram às ondas para salvar-se a nado: mas a onda torva os arrasta, os envolve e os atira aos rochedos brancos de espuma.

Outros de melhor parecer num escaler se acomodam e à força de muitos remos se dirigem à praia.

Mal desembaraçados, com os corpos úmidos d’água salgada, para o logo o gentio malvado lhes sai ao encontro: traz no peito feroz o ardil preparado, e dá provas de fingida amizade; acolhe os cansados e necessitados náufragos e os conduz às ocas traidoras.

Põe-lhes alimento, acende fogueiras para aquentar-lhes os corpos gelados e os membros que tiritam de frio.

A que excessos não obrigas os corações dos selvagens, ó execranda fome de carne humana! Apressada, a turba feroz percorre as aldeias vizinhas, prepara arcos e flechas, aconselha as foices recurvas e tacapes pintados, enquanto os outros, com vozes amigas e mesa posta, enganam aos que nada de mal suspeitavam.

Afinal descobrem as ciladas e gemem: “salvos do abismo e das tormentas do mar, será possível que agora sejam espostejados, por dentes selvagens, míseros corpos que o mar furioso poupou? Só isso faltava à sua desgraça?” Fogem pois dos antros traiçoeiros e buscam as praias de novo: pressurosos percorrem areais ignorados homens alquebrados pelo trabalho, delicadas donzelas e pacíficos meninos.

Oh! se houvesse algum modo de escapar às fauces cruéis! Mas já o feroz inimigo lhe corre ao encalço e enche as praias de hórridos brados, insultando aos desgraçados.

Já voam as setas de longe e trespassam, sem dó nem piedade, ora uns, ora outros.

Os golpes destroçam a pobre multidão indefesa: como quando lobos dos montes se abatem sobre um rebanho de mansas ovelhas: lá vão horrendos, pungindo da fome, ameaçando mortes; os cruéis dentes se fincam nas goelas das vítimas, rasgam e sugam o sangue e devastam com muitas mortes a grei inocente.

Chegam por fim a um rio de leito profundo que lhes barra o caminho.

De um lado as águas os cercam, do outro, em transportes de fúria cruel, o inimigo os ataca.

Começa a matança: a este mil setas varam o peito todo ensangüentado, àqueles o tacape parte a cabeça, a outros o ferro da espada rasga as entranhas.

52 O chão estremece ao baque dos corpos feridos, e o sangue em borbotões tinge as brancas areias.

Oh! quem conteria as lágrimas, quem do fundo do peito não arrancaria gemidos, ao ver morrer as donzelas de morte ignóbil.

Cruéis despedaçam com golpes ferozes os delicados corpos, fincam-lhes paus sem pudor nem respeito, e assim as arrastam com fúria pelas praias bravias.

Espetáculo infame e indigno de ver-se! Que sentimento experimentaste, malvado, ao perpetrar tais crueldades? que ódio penetrou teu coração feroz ao trespassares tenras carnes com paus agudos, ó sangüinário? ao arrastares pelas praias do mar que gemia despedaçados corpos femininos, e ao contemplares todo o litoral em sangue empoçado? Entretanto, sobre troncos amarrados com vime flexível o Bispo atravessa o vasto espaço do rio.

Da parte contrária acodem os cruéis inimigos, vencem a distância a nado por vaus já bem conhecidos.

Espumam as águas: entre gritos horrendos, preparam-se os índios à matança impiedosa.

Corre o Bispo para a úmida praia e, caindo, seus joelhos cansados se afundam na areia.

Ergue mil preces ao Pai celeste, e nos termos que pode, assim fala ao bando furioso: “Sou eu, sou eu mesmo o grande abaré! porque procurais dar-me a morte?” mas que suspiros lhes dobrariam os loucos intentos, que queixumes ou lágrimas? seria mais fácil comover leões da África ou leopardos ferozes do que com rios de prantos dobrar esses selvagens acostumados a fartar o ventre com carnes humanas.

Assim clama ele em vão, ajoelhado na praia.

Rápido, vem-lhe ao encontro, pela parte contrária o desalmado inimigo, de espada em punho.

Cego de raiva, com a foice recurva lhe fende pelo meio a cabeça, afeiando a fronte ungida, com ferida de morte: ele caindo forma na margem vasta mancha de sangue.

Os membros todos lhe desfalecem aos poucos: em breve, espetáculo lastimável, exala o derradeiro suspiro.

Foi este o fim do grande Prelado, quem por primeiro regeu as plagas brasílicas, de báculo, mitra e tiara.

Glorioso outrora, ei-lo estendido na margem do rio, cadáver inundado de sangue, e, ó cena horrível! todo despido, todo ferido, sem a paz do sepulcro.

Assim o braço impiedoso deu morte infamante a muitas vidas, juncou a terra de cristãos, imolados cruelmente, banhando as praias com sangue inocente.

Ei-los que jazem nus os corpos dos portugueses crivados de enormes feridas, mesa posta à rapina das aves e à gula não menos feroz dessa bárbara gente.

53 Muitos poucos escaparam à matança, escondidos em densas florestas.

Passados mil riscos de mar e de terra chegaram por fim ao refúgio cristão a cidade e aí deram notícia de tão inesperado desastre.

Quem terá palavras para narrar a dor que pungiu os corações de todos? os gritos loucos das mães, aí! pobres mães! que tanto choraram os filhos perdidos! Soltas as tranças ao colo, arrancam de dor os cabelos, arranham com unhas crispadas as faces em pranto, e ferem de contínuo os peitos com os punhos cerrados.

Também os filhos órfãos choram seus pais falecidos, o irmão lamenta a irmã que a morte roubou impiedosa, a irmã ao irmão assassinado barbaramente, a esposa ao companheiro querido que a deixa viúva.

Dão todos largas ao pranto e às muitas lágrimas juntam a indignação pela morte nefanda do Bispo.

Lamentos, fundos gemidos e queixas sentidas enchem de longos rumores todas as casas.

Estava o Governador valente decidido a vingar-se dessas mortes cruéis e a domar o feroz inimigo com represálias: se maiores combates não o chamassem a outro campo.

Maiores trabalhos pela honra de Cristo e pela conquista da verdadeira glória o esperam.

LIVRO IV

Longe daí, onde o Sul proceloso com chuvas freqüentes açoita as terras e os plainos imensos do mar turbulento, aonde chega o sol, completado quase o giro do ano e percorridos em seu carro de luz os signos celestes: os inimigos tem seus campos voltados para as túmidas ondas do oceano, e numerosas aldeias junto às áridas praias, e outras muitas sitas ao ocidente, pouso do Zéfiro, construídas ora nos campo, ora em meio de densas florestas.

Estes provocam em guerra contínua aos portugueses cujas povoações não distam muito das deles.

Aprisionam os homens traiçoeiramente, saqueiam as propriedades sem guarda, lançam o incêndio nos campos e cometem mil assassínios em freqüentes sortidas.

Com eles tratam, ávidos do comércio da bárbara gente, os Franceses; trocam mercadorias, e com luzentes espadas, foices, anzóis, tesouras em grande número, amansam os corações ferozes dos índios e recebem em troca o pau brasil, que serve para tingir de vermelho as vestes, a acre pimenta, aves variegadas e os animais que imitam as maneiras humanas.

De há pouco tempo, com o correr silencioso dos anos, erguem a cabeça altivos e arrastados pela cobiça querem para si o que os lusos com grande trabalho alcançaram.

Movidos pois de furiosa coragem usurpam reinos alheios, fundam em altos rochedos fortaleza possante e a cingem com todas as armas.

Mais ainda: com o coração infeccionado pela heresia, e com a mente opressa pelas trevas do erro, não só todos se afastam do reto caminho da crença, mas procuram perverter, assim dizem, com falsas doutrinas os míseros povos índios, de todo ignorantes.

O Governador prepara uma esquadra para expulsá-los das terras mal havidas: esquipa com armas luzentes muitas naus e as enche de escolhidos soldados.

Chega o dia em que manda largar porto à esquadra: desligam-se as amarras e ouve-se a grita alternada com que disfarçam o trabalho penoso os marujos endurecidos às intempéries dos sóis e das chuvas.

Uns puxam as cordas entesadas pelo peso avultado e enrolam-nas no cabrestante ao passo que sobem: enfim aparece a âncora nas fortes mãos.

Outros abrem as velas bojudas e erguem ao alto as antenas.

Uns sobem à ponta dos mastros firmando, nos nós e nas redes das muitas cordas, as mãos e os pés.

Outros seguram o leme com os braços robustos e todo o peito.

Fora, o oceano rouqueja ao redor; dentro, entre clamores variados fervilha a faina.

Para as plagas do Sul voltam-se as proas, enchem-se em bojo as velas, ao sopro do Norte assobiam as enxárcias estiradas, muge o mar sob o peso das popas e a quilha calafetada rasga profundo sulco nas ondas.

Finalmente junto às desejadas praias as popas deslizam e de noite fundeiam no porto: presa ao cabo traseiro a âncora denteada morde o chão e firma os navios.

Quando a aurora em seu manto de luz trouxe ao mundo o novo dia, eis que aparecem nos altos rochedos as torres soberbas, cingidas de toda a sorte de armas, e as fortificações escavadas em vivo granito.

Por acaso, nessa ocasião, os Franceses se achavam dispersos pelas várias aldeias dos índios; poucos vigias guardavam a fortaleza.

Ao avistar a esquadra, apavoram-se os guardas.

Dá o toque de recolher a corneta estridente e a todos chama à fortaleza o sinal da fogueira.

Daqui e dali acorrem todos e apressados se acolhem aos ninhos altaneiros, como fazem as pombas quando em dia cálido, ao sopro do Norte, vagueiam pelos prados em busca do variado biscato campestre: Mas se o vento Sul se levanta e negrejam as nuvens e se entrechocam nimbos e se ouvem trovões reboando no céu escuro: então fogem rápidas, deixam os campos e, ruflando asas, se escondem nos pombais sossegados.

Uma nau francesa carregada de inimigos e armas estava surta no interior do porto sinuoso.

Por ordem do Governador para lá se dirige pequena galé, que a ataca e rende: salvam-se apenas a nado os índios com os franceses acolhendo-se à praia.

A nau rendida é ligada à popa da nossa: a fortaleza tenta impedir-lhe a volta com projéteis incendiários e o monstro de ferro vomita suas bolas de fogo.

Com a ajuda divina, em vão as balas cortam os ares: antes, a pólvora explode no paiol inimigo a um centelha, e o fogo em turbilhão num momento envolve e engole desprevenidos a sete soldados.

Infelizes! começam já a sentir as chamas do inferno em que os ímpios corações, manchados pela heresia, sofrerão o eterno castigo que seus crimes merecem.

Mas.

viu o piedoso chefe que tal guerra só se faria a peso de muito sangue e ao preço e muitas cabeças.

Compassivo, preferiu evitar a crueza da guerra e tenteando a via da paz, ao general dos Franceses mandou estes dizeres num pequenino bilhete: “A fama, general gloriosos, te canta como excelente em feitos prestantes, e longa experiência da guerra e também as belas artes todas te poliram a alma.

Não creio pois que te hás de lançar a empresa tão árdua para defender uma causa injusta, contra todo o direito divino e humano, com a morte de tantos soldados.

Essa terra que habitas é nosso domínio intangível: pois que a conquistou o trabalho esforçado dos lusos.

Se te aprouver abandonar nossos reinos, de grado, como ordena o nosso e vosso rei, será suprimida toda a ocasião de manchar nossas destras com sangue, e nada sofrerá por isso a tua honra de chefe.

Doutro modo, decididos estamos a atacar sem piedade a fortaleza e a travar horrendo e cerrado combate, manchar as mãos de sangue e a tingir de vermelho as naus, os rochedos e as praias brancas de areia.

Fa-lo-ei contra a vontade, testemunha me seja Deus aqui presente: tu só darás conta tremenda do que suceder, no tribunal do Senhor.

Responsável tu só o será dos crimes, das ruínas e sangue que se derramar: do alto do céu nos contempla Cristo que um dia virá julgar-nos os atos da vida.

” Às linhas do Governador, assim respondeu o Francês: “Qual seja melhor ou mais justo partido, ótimo chefe, não cabe a mim decidi-lo, é alçada daquele por cuja ordem habito os litorais do Brasil: foi ele quem me confiou a defesa do forte.

Foi mandado de Henrique, o soberano, a fortíssima torre, que vês, ergue a fronte até os lumes celestes.

Sem ordem do grande Francisco, a quem coube por dita o governo da França, que dirige os destinos da pátria de cetro ilustre na mão e coroa na fronte, jamais abandonarei essas muralhas que erguemos.

Vive eternamente o juiz do universo que pesa as culpas de cada homem em rigorosa balança: Ele me guardará as mãos puras de todo o atentado e livres de todo o sangue: tu vê bem a guerra que intentas.

Temos grande soma de munição, espadas luzentes, artilharia rija, dardos incendiários, armaduras para proteger os corpos afeitos a guerras contínuas.

Tudo enfim está bem preparado: aqui estou eu a postos para defender os rijos muros da fortaleza.

Vamos pois! prontos estamos para a defesa do forte”! Esta a resposta que o chefe Francês remeteu ao herói.

Que cega loucura, ó Francês altivo, que soberba tamanha, que incêndio de cólera te invadiu a cabeça? Rejeitas a paz que te oferecem? Com que auxílio confias conservar a vida? Cruéis batalhas te aprestam a morte, nem pouparão a pequeno nem grande.

Tanta confiança te inspira o alcantil desse forte? Sim, mas não é fácil ao Senhor, desde seus fundamentos arrasar garbosas cidades e espatifar contra o solo altaneiras torres? Ele que sacode as muralhas do mundo e com um aceno aterra os firmamentos celestes? Enquanto correm estas negociações de uma parte e de outra o general português manda pedir à cidade, que se ufana do nome ilustre do Mártir Vicente, enviem reforços e tropas índias de auxílio.

Inflamaram-se os corações: preparam ligeiros naus velozes e armas e, sem tardar, conforme o pedido, chegam, e com eles a flor dos guerreiros brasis, na mãos esquerda o arco e na direita as rápidas flechas.

Vejo com seu Irmão de Ordem um sacerdote adestrado armado com o raio inflamado da palavra divina, membro da Companhia de Cristo Rei, para o soldado confessar suas faltas e lavar suas almas das manchas, antes de entrar no combate, onde talvez deixe a vida.

O restante do povo os ajuda, erguendo preces ao alto; todo o sexo piedoso, com as crianças e os velhos, suplicam ao Senhor e aos Santos do céu a vitória.

E que direi dos Jesuítas e dos ministros sagrados? Dia e noite, com fervor sua mente e seus lábios se voltam ao Pai celeste, ao Filho divino e ao Espírito Santo a se atribui igual felicidade, igual poder e igual glória nas moradas eternas.

Pedem-lhe que os auxilie e dê aos nossos guerreiros a mais gloriosa vitória e o mais estrondoso triunfo.

Foram eles, estou certo, que com seus gemidos e queixas comoveram os céus e lhes abriram as portas da graça; eles que, dardejando do peito ardente setas de fogo, moveram o Pai eterno a prostrar o inimigo, incutir-lhe terror e afugentá-lo para longe do forte.

Vinte vezes a aurora erguera ao mundo o manto de trevas, desdobrando sua púrpura sobre o pálido rosto.

O Governador prepara-se para o ataque do forte: reúne os conselhos dos chefes, ainda que saiba a relutância de todos.

Diziam eles que não era possível com armas algumas escalar o forte, cercado por rochas enormes, defendido por construções numerosas.

Mas o chefe magnânimo tinha a peito acima de tudo propagar a fé.

Apoiado de força divina, sozinho opõe-se a todos e não sofre que o dobrem discursos alguns: atira-se ousado contra o impossível e procura vencer os perigos da empresa que intenta: tal o rio, que lavradores represam com grandes barreiras de troncos e desviam para outras bacias, vai pelos campos vizinhos em regas estreitas, mas continua a lutar com esforço contra a represa, até que, forte pela massa das águas, rompe a muralha e em turbilhão se alarga como vasto oceano.

Logo que se reuniram todos os maiorais em conselho, o governador expõe o desígnio que guarda no peito, e no meio da assembléia profere estas palavras: “Chegamos, senhores, ao termo: estou enfim decidido a atacar a fortaleza altiva: bem sei a posição estratégica do lugar e as construções montadas de inúmeras peças, os muitos braços do inimigo e os Franceses postados a perder a vida ou salvar o forte a preço de sangue.

Mas que são essa forças para a onipotência divina? Porventura é difícil arrasar as torres mais altas ao Senhor que a um aceno faz tremer o palácio celeste? Não é ele homem a tremer de batalhões de soldados embora cruéis: ele desconhece os terrores dos homens.

Ele incutirá forças e ajudará compassivo a causa do justo e do fiel e com a destra potente abaterá e esmagará o inimigo, castigando co’a morte corações ímpios, vazios da fé verdadeira.

Confiados pois na força do Deus invencível, lancemo-nos à grande empresa para glória divina.

Preceda-nos o estandarte fulgente do triunfo de Cristo, e a desejada vitória seguirá a bandeira da Cruz!” Esse grito que o chefe arrancou do peito ardoroso arrastou todos ao seu parecer: já o peito dos bravos se acende no anseio das batalhas furiosas.

Estuam as almas impacientes de ir arrasar as fortificações francesas e entregá-las às chamas, ou generosas perder a vida em morte gloriosa pela causa santa da fé e da gloria divina.

O próprio chefe, conduzido em batel, passa em revista a todos e manda que as naus avancem em ordem.

Distribui seus homens: que todos cumpram seu cargo e guardem seu posto, quando começar o combate e se atirarem à refrega.

Então purifica sua alma das culpas e a fortifica com as armas de Cristo, caindo de joelhos aos pés do ministro sagrado.

Muitos imitaram o belo gesto do chefe e de coração sincero lhe seguiram o exemplo, purificando suas almas, manchadas de culpas.

Chegara o dia que veria as batalha sangrentas de corpo a corpo, e de bandeira contra bandeira.

Do alto da popa o almirante toca a trombeta, os homens em entusiasmo ardente se erguem de um salto, lançam mão à obra, arregaçam os braços robustos e com grande grita recolhem os cabos pesados para soltar a proa.

Abrem as velas bojudas que a aura suave, vinda do vasto oceano enche imediatamente com o afago do sopro.

O sol volve seu carro de ouro ao completar a subida íngreme do céu.

As proas em bico fendem as túrgidas ondas em demanda das ameias da fortaleza inimiga.

Há uma ilha pequena no meio da vasta baía que o mar rodeia, de todas as partes, de ondas: cercam-na rochas e as praias do continente vizinho donde saem as naus que vão para o oceano através de estreitas portas, as quais divide uma laje pela metade.

Aí outrora construíram um forte os Franceses: porém carregou-o a força das ondas.

Agora esta outra ilha ergue suas torres ferozes, forte por sua rochas inacessíveis, fervendo ao embate do mar furioso e gemendo ao som de grutas soturnas.

Para o lado do ocaso se levanta a pequena colina: uma que outra palmeira ao longe a cobre de sombra com seus verdejantes leques.

Perto dessa colina está enorme rochedo talhado todo ao redor pelo picão tenaz.

Em cima da pedra imponente se eleva o baluarte altivo, prenhe de artilharia.

Mais além há uma pequena altura e à sua direita uma cisterna, com casa dum lado e doutro, repleta de água.

Bombardas numerosas defendem as estreitas veredas.

Entre estas e a cisterna há enorme abertura, onde as ondas remugem espumando de raiva.

Ponte de um pau dá estreita passagem por cima do abismo.

Transposta esta, do lado da aurora esplendente, depara-se um monte que parece subir às estrelas, com escarpas a pique em redor.

É impossível subir por aí ao cume, ou descer de lá para baixo.

Um só caminho escarpado e estreito conduz à altura: talhou-o na pedra, à força de golpes teimosos e muito suor, o duro picão dos Franceses.

E protegeu-o com baluartes de alvenaria.

No cume ergue-se a torre sob armação de grossos madeiros defendida por bombardas e pela estratégia do posto: o rochedo todo é inacessível e se lança às alturas qual gigantesca montanha e inexpugnável penhasco.

Assim pois os navios, túrgidos de brisa os velames, vêm sulcando a planície do mar: em direção do oriente, já volvem as naus maiores para, do meio das ondas, atacar a fortaleza com suas terríveis muralhas.

Canoas velozes, prenhes de soldados e armas fulgentes, se dirigem ao litoral crivado de escolhos e atacam a colina das palmeiras, onde os franceses postaram inumerável guarnição de selvagens, que a defendam afastando os esquadrões portugueses.

Bem sabia o Francês que essa fortaleza altaneira só daí podia ser atacada pior flechas e balas.

mas de nada adianta às pobres forças humanas provocar o Onipotente: o chefe inspirado pelo alto manda volver à esquerda, que o Sol refulgente desperta quando sobre os corcéis da aurora deslumbra o oceano.

Manda voltar velas às outras naus e tomar de corrida a praia para onde forte arroio corre de altas florestas e se mistura ao mar.

Era para que o incauto inimigo cresse nos apertava grande falta de água e enganado por essa idéia abandonasse a colina.

Foi um instante: apenas viu o bando inimigo que as naus a velas cheias voavam para esta abertura, precipita-se da colina em desordem e sobe às canoas ligeiras e deslizando no dorso das vagas ocupa o litoral sinuoso e em vertiginosa carreira se atira às torrentes marulhantes afim de poderem afastar das águas límpidas ou trucidar nossos guerreiros.

Loucos! deveriam ter ficado no sítio marcado para afastar do acesso à colina os soldados intrusos, único posto que permitia o ataque do forte.

Mas aguilhoada pela paixão infrene do sangue, a instável multidão em vão se arroja e furiosa e tresloucada vence o grande espaço de areia.

Entretanto, voltando as velas com vento propício nossos barcos armados ferraram a colina das palmas.

Sem hesitar um momento, de todas as naus os guerreiros rompem como chama de fogo, pelo meio das rochas, escalam de um salto a colina, ocupam-lhe os cimos, escavam fundas trincheiras e no alto do cume fincam vitoriosa a bandeira da cruz resplendente.

Outros correm às naus e entre gritos possantes arrastam o falcão: num momento, ei-lo postado no cume a vomitar incêndios, da boca tremenda, e a arrojar pelouros, forçando a cantaria das casas.

Já as balas de ferro arrombam a casa e os madeiros se desmoronam: responde feroz o Francês arrojando balas que zunem.

Entretanto nosso bronze gigante atira globos incandescentes do navio fronteiro.

Fere duas vezes a casa, abala-a com toda a força; e solapa a grande mole: as vigas partidas desabam em ruína.

Fogem os Franceses e pelos penhascos, seguros a cordas, apressados se escapam ao alto refúgio da torre.

Em grita, nossos valentes se precipitam do outeiro das palmas e seguem de vencidas aos fugitivos.

Ultrapassando as ruínas da primeira casa, se arrojam com ímpeto ardente à segunda colina.

Ocupam as águas que a cisterna recolhe, defendendo-se num parapeito de terra elevada.

Entretanto trovejam horrendas as altas muralhas e com tiros tremendos espedaçam e arrombam os navios fundeados no meio das águas.

O bruto canhão vomita em chamas pedras e balas e cobre o azul do céu de negra fumaça.

O troar medonho acompanha o fogo incessante, ribombam os céus e geme os espaços imensos, ringe a terra ao peso do fragor horroroso, freme o mar mugindo em longo murmúrio.

Dir-se-ia que todo o universo saltara dos eixos: tamanhos eram o estrondo, a grita e o fogo das balas! Para o lado do áureo levante, estava postada junto de um baluarte uma bombarda de metal amarelo sobre rodas de ferro.

De boca enorme, o monstro arrotava penhascos e balas de metal, molestando à vontade com tiros contínuos as naus: fere as popas e arromba um e outro flanco, estilhaça mastros e pranchas com fragor espantoso.

Ora aponta a esta, ora àquela, e espedaça com um só tiro mortífero os corpos de muitos soldados.

Os conveses se inundam de sangue.

Já não mais podem as naus continuar fundeadas.

Livres das amarras fazem-se ao mar avariadas.

O sol mergulha seu carro luzente nas ondas, e Vésper desdobrara seu manto noturno de trevas e na abóbada celeste brilhavam mil luzes de estrelas.

Não se dormia no acampamento; cada qual preparava suas armas.

Da colina das palmeiras o falcão continuava a bater o alto da torre, arrotando bolas de fogo.

Ressoam vozes e gritos de mulheres nas casas.

Manda entretanto o governador fortificar por inteiro as trincheiras.

Uns contra as balas enchem de pedra e terra grandes canastras tecidas de vime flexível.

Outros retiram das naus os canhões e os arrastam com o fragor gigantesco de suas rodas pesadas, e os colocam em postos escolhidos erguendo em redor um parapeito de terra.

Depois esperam impaciente as batalhas temerosas do dia seguinte.

Já os primeiros clarões afastavam as trevas da noite e a aurora tingia o mar com seus raios serenos, já o sol da orla do horizonte se lançava à corrida que espalharia mais uma vez a luz pelo mundo: quando refulgem no alto as falanges francesas armadas de espadas e longas lanças; os corpos cobertos de reluzentes couraças.

Armados de flechas aí se acham também os selvagens que tinham voado à aguada, para derramar o sangue dos lusos, quando nossas naus voltaram e deixaram as praias com as águas, ajuntando-se aos seus e enganado o inimigo cruel que nutria feliz esperança.

Viram-se então enganados, fremiram terríveis em vão, acalentando cruéis desejos, de novo vencem num vôo a praia já em vão percorrida e deslizam nas canoas ligeiras até conseguirem grimpar pelas rochas espumosas ao alto da fortaleza.

Nossas naus tentaram com balas estorvar-lhes o acesso: quanto preferiram eles subir à colina das palmas!.

Portanto, índios e franceses, multidão numerosa, atiram-se ao campo inimigo.

Seus gritos abafam o rumor do oceano.

Pressurosos lhes vêm ao encontro os outros.

Travam-se de mãos.

Ferve duro o combate de uns e de outros.

Cortam o ar as flechas zunindo de parte a parte.

Geme os arcos ao golpe da corda, e a bala metálica sibila rente às cabeças.

É um incêndio o ardor da luta.

A terra se crava de inúmeras setas, o espaço imenso se tolda e o céu se cobre sob o denso granizo das flechas.

Assim, depois que o Sul chuvoso deixou de regar campos verdes e bosques, e os trovões já cessaram de sacudir os nimbos; quando arde a atmosfera sob um sol causticante: sai das entranhas da terra a formiga, e, deixando os profundos lares maternos busca nova casa, pouco a pouco, junto das portas avulta o cicio, ergue-se em enxame cerrado sobre as quatro asinhas e libra-se nas auras ligeiras e forma densa nuvem sobre nossas cabeças.

De parte a parte voam nos ares as flechas velozes e o combate flutua daqui e dali, com sorte indecisa.

Não cedem estes, nem aqueles recuam vencidos; nem estes arredam pé, nem voltam as costas aqueles.

Enfim, com os membros quebrados do longo trabalho e rendidos pelo esforço da luta renhida, afastam-se os dois exércitos de tácito acordo, este para o acampamento, aquele para o forte altaneiro.

Entretanto, de um de outro lado, vomita chamas horrendo o canhão; voam incessantes as balas traçando riscos de luz, na densa fumaça, entre sons pavorosos.

Ora é a bombarda inimiga que arromba o casco das naves, ora é o nosso canhão que fere a torre altaneira, partindo traves e parapeitos e portas e trancas.

Já o sol transpusera o zênite de sua carreira e volvia para o mar seus corcéis apressados.

Os Franceses, como não puderam num primeiro combate reconquistar em contra ofensiva as águas perdidas, espumam de raiva e aguilhoados pelo despeito retomam o combate, fiados em armaduras agora.

Cingem o peito com a couraça luzente, e a cabeça com o capacete.

A mão empunha a espada recurva e a veste de malha cobre o corpo de alguns dos maiores.

Assim armados, se precipitam da penha, cercados pela chusma dos índios.

Brandem as espadas que chispam ao sol fronteiro e cortam o ar com golpes freqüentes.

Sem temor algum transpõem a estreita ponte de um tronco.

Começa a chover denso granizo de flechas: sem cessar os inimigos distendem os arcos e os tiros.

Crivam de inúmeras feridas as fileiras contrárias.

Fúria de parte a parte, de parte a parte golpes tremendos.

Mas os Franceses, com o peito protegido de rija couraça, já não combatem com dardos, lançam mão das espadas e se lançam à luta e com ousadia se esforçam por afastar das águas perdidas os arraiais inimigos.

Já as forças começam faltar aos nossos, cansados de tanta peleja, já lhes nasce o desejo da fuga: largar aos Franceses que avançam as águas tomadas.

Eis senão quando um tiro da nossa bombarda arrebata a dois franceses encouraçados, varando de um golpe couraças e peitos altivos.

Com que fulminados rolam estraçalhados no chão pernas e braços, e o sangue que salta tinge armas e pedras em volta.

Fogem os outros arrastando os corpos despedaçados dos infelizes colegas e rápidos galgam o forte.

Entretanto os cavalos do Sol relinchavam já próximos do pouso da tarde.

Com a morte de muitos as naus se afastaram da terra.

Não mais bombardeiam os muros da torre elevada: imenso cansaço prostrara os batalhões que pelejavam em terra, tão porfiadamente.

Não há meios algum para o cerco do forte altivo, rodeado todo de íngremes rochas, peças de fogo, valentes franceses e ferozes selvagens.

Ademais um caminho reúne grandes montes de pedras para prostrar e esmagar os soldados que tentem escalar a montanha: é esta a única senda de acesso ao forte.

Quem ousará galgar tal muralha? E eis que um cuidado maior acresce ao cansaço, surge um estorvo que não podiam sequer esperar.

Na guerra de mar e de terra, gastara-se a pólvora toda, esse pó, que a mão do destro operário fabrica de vivo enxofre, de negro carvão e de nitro em grande fornalha, pó que alimenta a chama furiosa e aumenta de muito o poder desse elemento.

Que farão dora em diante? com que forças o forte será atacado, se o fogo mortal com golpe incessante deixar de derrocar as posições inimigas? contínuos cuidados vários começam a angustiar soldados e chefes.

Com que estratagemas se acolherão aos navios eles e os canhões, de tal sorte que não o sinta o inimigo? A dúvida e o medo de um grande desastre os oprime.

Referve o anseio cruel no fundo de todos os peitos e a imagem do perigo já paira em todos os olhos.

Então, como creio, o governador, no silêncio da angústia, arrancou do coração vozes queixosas, pedindo ao Pai celeste o auxílio que as forças humanas não lhe queriam dar.

Com olhos cravados na altura lançava para o céu estas palavras de prece: “Ai! porque nos entrega, supremo Criador do universo, sem recurso nenhum, aos últimos riscos da vida? Bem vês que nossas forças, rendidas por imenso trabalho, já não podem subsistir.

Como podes deixar que sejamos o opróbrio do inimigo? porque zombarão de teu nome esses bárbaros? porque há de o francês conspurcado pelo crime feio da heresia, insultar teus soldados cristãos e fiéis? A coragem nos abandonou por completo, não resta outra força; compadece-te tu, senão perecemos! Olha, Pai Celeste, para os que carecem de todo o recurso.

Estende a mão bondosa e sinta teu furor justiceiro.

a raça inimiga.

Se soltares as rédeas da ira, o próprio espaço se armará de feixes de luzes, lançará em combate suas torrentes de dardos, e com a destra oculta arrojará seus raios ferozes, incendiando do bojo das nuvens o forte altaneiro.

Vamos, apressa-te, corre em auxílio e levanta os que estão a cair; e aos povos selvagens e ímpios castiga-os! experimentem o imenso poder de teu braço nossos contrários! enfim arranca dos perigos presentes o exército cristão que te ama e respeitoso te adora e por tua glória se atira às mais duras pelejas”.

Ouviu o Rei celeste estas vozes, ouviu juntamente as que os jesuítas e os povos fiéis nesse tempo arrancavam do peito, abalando com gemidos e prantos as portas do céu compassivo.

Não houve demora.

Oh! quem pudera sequer imaginar de que modo haveriam os ferozes Franceses de abandonar um forte tão firme pela natureza e tão seguro pela arte da guerra? Mas, eis que Deus chama um ministro do exército alado Manda-lhe que corte os espaços com as céleres asas afugente os inimigos do posto altaneiro, insuflando-lhes o terror pelas trevas da noite.

Cumprem-se as ordens: voa ele veloz pelas nuvens e segue-o de aspecto horrendo e impassível, esquálido e lívido, o terror: envolve-o um manto de sombras e ruflam as asas negras pelos céus nevoentos.

Apresenta duras feições, a morte sangrenta, cruéis grilhões com ranger de correntes e ferros, suplícios vingadores prenhes de extermínio e de sangue.

Tal foi o monstro horrendo, miserável e feio que, às ordens forçosas do Senhor do universo, um ministro alado, membro da hierarquia celeste, lançou incontinente dentro das muralhas francesas.

Apenas o terrível temor transpôs os umbrais altaneiros da primeira porta, já todos dentro começam a empalidecer; tremem, e pelos membros lhes côa gelado pavor.

Em breve é a fuga por rochas e ondas.

Sem demora, sem descanso: o temor agarra-se aos ossos.

Parecia que o horror cercara saídas e portas, e logo, logo espadas vingadoras e dardos agudos e chamas devoradoras se comprimiam às portas.

Tudo incute terror a essas mentes turvadas, e ameaça, aos valentes de há pouco, morte cruenta.

Do lado em que o Sol se lança à corrida brilhante do dia, por rochedos abruptos, todos ele, agarrados em cordas, muito longas e armadas de nós numerosos, vão-se acolhendo a barcas e através de ásperas rochas e de agitadas ondas buscam o litoral dos selvagens, deixando o forte erguido em formidável penhasco, construções descomunais e inexpugnável rochedo.

Tamanho era o terror que o Senhor Deus onipotente lhes metera nas mentes e corações apavorados! Nos aflitos arraiais lusos espalha-se em breve o boato da fuga pelos rochedos e abandono do forte.

Erguem-se todos à pressa, com a ânsia de verem esses muros desertos e atingem a parte mais alta do penhasco, e fincam logo a cruz vencedora no cimo do forte e aclamam o nome santo de Cristo.

Pasmam da construção gigante, dos rochedos em roda todos a pique, protegendo em suas dobras edifícios recentes, dos escolhos em que o mar espuma horrificamente.

O próprio governador, olhando todo esse posto, que forças humanas jamais com arma nenhuma poderiam arrasar, do íntimo peito canta louvores ao deus eterno, que tomou o monte e o forte altaneiro e com a força de seu braço afugentou o inimigo.

Ó muito amado de Deus, ancião venerando, por quem batalham os astros da altura e pelejam o céu e os corpos angélicos, a quem dos fortes celestes envia auxílio o Pai onipotente: tu, quando forças humanas não podiam trazer-te socorro, com tuas preces arrancadas do fundo do peito, atraíste aos teus desejos o soberano do mundo, para apoiar teus combates com sua força divina.

Eia, novo ânimo, ancião, no templo celeste terás por destino a glória, e os coros dos anjos te cingirão com a coroa de rei triunfante: depois de sujeitares a Cristo os litorais brasileiros e ensinares a venerar o nome santo de Cristo.

Entram finalmente nas casas desertas.

Dentro se achava número enorme de munições, cuja força não pode segurar os Franceses.

Mas não se encontrava ali a imagem da cruz resplendente, nem a dos santos que habita, o reino dos céus, por cujos merecimentos e preces o Rei supremo se inclina ao perdão e abranda piedoso a cólera justa e santa, protege os reinos terrestres e enche de dons abundantes as almas humanas.

Encontrava-se aí um grande móvel, cheio de livros que encerram doutrinas crivadas de impiedades e erros.

Martim Lutero os compôs com mente perversa e mandou a seus filhos observá-los à risca.

Enraivado, muitas blasfêmias arrojou contra o papa, Sumo Pontífice e contra a Igreja, esposa de Cristo.

Muitas outras vomitou de seus lábios impuros João Brêncio, raça de Lutero e digno de infâmia paterna: e o petulantes Melanton de coração mal cheiroso.

Também aí estava a fera que os abismos do inferno há pouco arrotaram de suas vasas imundas, dragão inchado de todo o veneno que o mundo preparou em seus monstros.

É Calvino, a serpente de coleio variado e horrendo, que abraça no rolo de suas espirais o forte, vibra olhares de fogo e agita a língua trífida em ruídos de morte.

É este quem te protegerá contra força celeste Ó ímpio francês? estes são os arcos, estas as balas de fogo que para ti preparaste? Calvino vencer a Cristo, Senhor do céu e da terra? em que fúrias ardentes te consumias, que loucura de ti se apossava quando, desprezando a bandeira triunfante de Cristo, pensavas defender com teus venenos de monstro os muros do forte? Não sabias que o dragão que habitava as cavernas do inferno, caíra outrora vencido, quando Cristo estendeu os braços nus sobre o lenho, santificando com rios de sangue o horrendo madeiro? Eis o digno prêmio que teus feitos merecem! Assim alegres todos, no meio do forte vencido descantam os louvores do Pai onipotente.

Erguem um altar: o sacerdote, na veste sagrada, celebra o banquete augusto do pão sacrossanto, que jamais fora aí celebrado: a geração de Calvino rejeita com impiedade o alimento celeste, nem crê que as espécies de pão encerram a Cristo.

Então, os soldados vencedores, depois da matança, atiram-se ávidos aos mal adquiridos bens dos Franceses, carregam com eles as naus triunfantes, e arrastam os canhões que tão negras ruínas causaram lançando seus fogos.

Geme sob a massa enorme as rodas de ferro com horrendo ruído: o batel que os acolhe mal pode levar aos navios esses pesos gigantes.

Arrasam até aos últimos fundamentos o forte e abatem todos os bastiões com mãos impiedosas.

Tudo se desmorona, geme a terra ao baque dos pesos.

Com loucos alaridos ajuntam as toras enormes em altas fogueiras.

Obras que há pouco erguiam a fronte até as estrelas, jazem agora por terra em pedaços, presa do fogo voraz: a chama se ceva sem freio.

A fumaça cobre o céu de escura fuligem, e em nuvens densas escurece os orbes celestes, e luzem as águas rumorosas aos clarões da fogueira.

Como quando o lavrador encerrou nos celeiros as douradas espigas, despojando de seus frutos os campos: então lança fogo às hastes secas, sobre a fumaça às alturas, a relva ao longe vai crepitando, enquanto os campos se cobrem de escuros resíduos.

Assim ruiu o forte francês desde as cimeiras, e o fogo num momento reduziu a cinzas esses muros altivos.

Foi Deus quem domou essas iras sem freio, foi ele que lhes esmagou a soberba: Cristo, sim Cristo que rege os destinos humanos, a quem obedece o mundo das orbes, de quem treme a terra espaçosa, o céu brilhante e o inferno de sombras trevosas.

A força de teu braço realizou estes milagres, Cristo poderoso; tu meteste no coração dos Franceses o medo cruel, de ti fugiu a multidão dos malvados, e aterrorizada abandonou as gigantescas muralhas; a ti somente se deve, a ti, Jesus, esta glória! Tu reges com teu cetro os vastos globos do espaço, e com um aceno guias o mundo brilhante dos astros volvendo no eterno giro as arcadas celestes.

A ti obedece o sol e a luz com seu ciclo de fases, os orbes sidéreos, o misterioso lume celeste e o oceano transparente dos espaços imensos, a aurora de raios claros e Vésper que cora, as estrelas do Sul e os astros fulgurantes do Norte, a primavera e o inverno de gélidas brumas.

Tu governas os abismos e os litorais rumorosos do mar, habitado de monstros, e suas ondas em luta; quando queres, o mar, ao sopro turbulento dos ventos, se indigna e ergue em seus braços tempestades medonhas.

De novo, ao teu mando, o vento indômito deixa sua raiva, e as ondas mansas guardam fundo silêncio.

A ti obedece a terra, tu lhe fecundas o seio com as águas das altas nuvens, e ela à tua ordem, das prenhes entranhas jorra seus alegres presentes, seu variado tesouro! Tu sustentas a vida a quanto animal se abriga sob o teto celeste, pintas as aves de cores e lhes concede a todas librar pelos espaços diáfanos as penas ligeiras.

Tu é único Senhor do mundo, tu dos globos celestes é o Criador imenso, que tudo moves, coevo do Pai e do Espírito Eterno, eterno laço de amor.

Tu, quando criaste os astros do céu sempre em giro e as legiões angélicas, habitantes felizes da altura, derrubaste das sedes etéreas, como folha que rola, a Lúcifer orgulhoso de seu esplendor deslumbrante, e ambicioso do cetro divino.

Lançaste-o nos antros do fogo eterno com muitos milhares de seus companheiros, e em vão o dragão te ameaça com os dentes e a cauda.

Tu, quando a raça de Adão, inchada de orgulho, intentava até às estrelas levantar uma torre, de tijolos cozidos ao fogo e de negro betume, que tocasse com o vértice o firmamento celeste e que lembrasse a sua glória: tu, desceste da altura, lhes confundiste a língua e com ela todas as obras; dispersaste os homens por várias regiões do universo, deixando inacabado esse momento do orgulho.

E, como foi que outrora experimentou tua força o Faraó que dominava as sete bocas do Nilo, quando o agitado Mar Vermelho parou de estupefato, rasgou em meio as ondas e mostrou longo abismo? Tu abriste ao teu povo uma estrada segura pelos plainos profundos do mar e nesses mesmos abismos afogas o rei e sepultas seus carros de bronze.

Quando as águas do Jordão enchiam ambas as margens e mal cabiam em seu leito, a uma tua palavra se dividiram e volveram atrás: uma parte parou e se ergueu à guisa de monte, e a outra continuou a correr para o mar.

Passaram seguras, de pés enxutos, pelos vaus secos do rio, as fileiras, admirando ao lado a montanha de águas suspensas.

De ti recebeu a merecida pena de morte Jericó, a ímpia cidade das palmas, quando ruíram ao toque das trombetas sagradas as altas muralhas e se desmoronaram desde os seus alicerces mais fundos.

Então o teu povo invadiu e devastou vitorioso a cidade inteira e exterminou a fio de espada jovens velhos e até indefesas mulheres.

E que grandes extermínio feriu o exército dos Filisteus que cercavam com tantas forças um povo sem armas, quando, contigo à frente, Jonatas, soldado animoso, rastejando de mãos e pés, passou os terríveis rochedos com suas rudes arestas, e derrotou a multidão inimiga! Ao medo horrível que lhes incutiste, eles fugiam, enquanto o jovenzinho, veloz como um raio, prostrava com seus golpes batalhões de inimigos! O céu, o mar, a terra imensa, todos te temem, tudo está sujeito ao teu poder, e até os infernos estremecem ao teu nome.

Tu, depois que a serpente enganara nosso primeiro pai e sepultara o gênero humano sob o peso do pecado, tu, para lhe renovares a vida te abrigaste ao seio da Virgem Mãe; respiraste auras humanas e nascido iluminaste as trevas da terra, enriquecendo com dons celestes a pobreza do mundo.

Sofrendo em tua carne inocente horrendos trabalhos e morte de cruz , arrancaste às fauces da morte aquele a quem afeava o labéu do pecado, e lançaste aos antros sombrios o tirano do inferno.

Penetrando nas férreas prisões do limbo vizinho, soltaste os cativos e devastaste as regiões da tristeza.

Ao livrar das trevas os presos, irritou-se em suas cavernas o dragão infernal.

Tu o prendes em cadeias de fogo e em vão ele uiva seus gemidos horrendos.

Quebras o poder à morte e calcas aos pés o inferno.

Sai das regiões inferiores cheio de troféus majestosos e sobes às alturas do céu entre nimbos de glória.

Vencedor aplaudido.

Celebras teu ilustre triunfo sentando-se à destra do Pai, muito além das estrelas: Com o cetro e a coroa, recebes o reino que mereceste.

Salve, artífice do mundo, Jesus, Glória do céu; poderes e reinos te temem, veneram-te todos os climas, onde quer que chegue o Sol com seus raios, e excede tua magnificência as alturas celestes.

Já o teu nome se espalha até aos confins do universos, ó Cristo, como torrente de penetrante perfume, chegando até aos Japões, os mais afastados da terra.

Arrancadas às trevas e iluminada pelo sol fulgurante da luz divina, também virá um dia adorar-te a nação que se ceva agora em carnes humanas.

A terra em que sopre o Sul, conhecerá o teu nome e ao mundo austral advirão os séculos de ouro, quando as gentes brasílicas observarem tua doutrina Glória imensa a ti, ó Pai bondoso; glória, ó Filho imensa a ti; ó Espírito, glória imensa a ti! Tu que concebeste pelo Santo Espírito ao Filho do Pai eterno, glória a ti, ó Virgem!.

FIM

APÊNDICE DA EDIÇÃO 1563 AO ILUSTRE MEM DE SÁ

Por muito tempo, herói, esteve oculta a sublime majestade veneranda de teu coração generoso, digníssima do poder, em limites alguns estreitado, fadada a suster os raios torvos de Marte sangrento, restaurar no mundo, por razão ou força, os séculos d’ouro.

Enfim te enviaram como governador a essas plagas da gente austral, avessa a leis e tanta vez opressora, sacudindo (ó maravilha) de nossa cabeça seu jugo.

Mas a Morte feroz foi, como sempre, invejosa de teus feitos.

Então lastimada chorou a terra guerreira ao ver roubar um jovem, em cuja fronte brilhava quanto pareceu a outro pai fugir em Ascânio.

Fora ele que do nobre sangue te nascera primeiro, digno de que tal fama lhe celebrasse os destinos na morte qual eles a concederam a tais pais, quando nascia, digno de que a glória lhe preferisse à vida o sepulcro.

A morte, digo, saltando em tão grande duelo, arrebatou esse penhor, último consolo paterno.

Reservado a qualquer risco e conduzido contigo por horrendos abismos, atormentara-o o oceano nas curvas ondas.

Já não afaga os tenros braços inglório, mas no campo de batalha, cobertos de armas, ativo prostra corpos de inimigos, e grava nos astros que brilham eternamente eterna lembrança.

Átropos já em chamas, mas inda não satisfeita, esforça-se por mergulhar tais triunfos nas águas do negro Letes.

Na rápida torrente arrebata das mãos vencedoras as palmas verdejantes da idade áurea dos Portugueses; para que o olvido da hórrida noite cubra a luz dos fatos com as trevas eternas.

Enquanto impiedosa prepara às tuas glórias e foice com que ocultara os dois filhos, astros fulgentes do mundo, ralentada pelo número das obras, seguindo-a pelas costas, aproxima-se Francisco, filho segundo, ilustre, vestido com as armas douradas da Apolo.

Com elas de improviso a agride, e rapidamente rouba-lhe das mãos as verdes palmas, e à morte vencida arranca os mesmo troféus que a cruel se dispunha a roubas a teus filhos, aos teus feitos e fama.

Pois esta, sangrando monumentos a sucessos gloriosos, poupou um merecido renome às fauces do tempo devorador; e a luz que tu, chefe ilustre, concedes aos filhos nascidos ao mundo, ele sozinho a restaura a ti, aos teus feitos, a seus irmãos, como vida que não se extinguirá jamais nos tempos vindouros.

Com razão pois nada perdeste, caríssimo pai: pois vive um filho, por quem os mais te revivem, e séculos felizes te sagrarão a vitória.

Estas poesias, fê-las editar Francisco de Sá, filho de Mem de Sá.

FIM

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