A pancreatite aguda da gravidez é condição pouco freqüente, havendo cerca de 150 casos descritos na literatura até o presente momento.
Sua incidência varia de 0,01 a 0,1%, ocorrendo principalmente em mulheres multíparas, no terceiro trimestre da gravidez e no puerpério (Coblet & Michell, 1972; Wilkinson, 1973; El Mansari & cols. 1996). Sua importância decorre da morbidade e da alta mortalidade com que se reveste, com índices de recorrência pré-parto de até 70% (Bartelink, 1988; Barthel Chowdhury & Miedema, 1998).
Semelhante ao que ocorre em não-grávidas, a litíase de vias biliares é o fator etiológico predominante, estando presente em cerca de 35 a 90% das pacientes 9Trapnell & Ducan, 1975; McKay & cols. 1980; Small, 1980; Everson & cols. 1982; Block & Kelly, 1989).
Para alguns autores, a diminuição da motilidade da vesícula biliar, que ocorre na gestação, secundária ao aumento dos níveis dos hormônios sexuais, predisporia à formação de colelitíase (Small, 1980; Everson & cols., 1982; Hyder & Barkin, 1992).
As gestantes podem, também, desenvolver pancreatite aguda associada à hiperlipidemia (Cameron & cols., 1974, De Chalain & cols., 1991; Suga & cols., 1988).
Nessa eventualidade, a pancreatite ocorre, principalmente, nas hipertrigliceridemias dos tipos I, IV e V de Frederickson (Frederickson & cols., 1978), e o nível de triglicérides parece ser o fator comum entre elas. Recentemente, a mutação do gene LPL (lipase lipoproteína) vem sendo descrita como uma das causas do agravamento da hipertrigliceridemia na gravidez, e conseqüente pancreatite aguda (Suga & cols., 1998).
Entre outras causas mais raras de pancreatite, devem ser citadas: a esteatose hepática aguda da gravidez, a pré-eclâmpsia, a hipercalcemia em geral, o hiperparatireoidismo e as infecções entre estas: a infecção pelo vírus da cachumba ( Thomasom & cols., 1981; Koff, 1981; Sibai & cols., 1986; Goodlin, 1987; Rajala & cols., 1987; Riely & cols., 1987; Inabnet & cols., 1996).
Entre os medicamentos citam-se: hidrodorotiazida, furosemida, sulfas, metronidazol, corticóides, tetraciclinas, estrógenos e metildopa 9 Schiffer, 1966; Ances & McClain, 1971; Mallory & Kern, 1980; Standford & cols., 1988).
Quando ao diagnóstico, diante de um quandro clínico compatível com a doença, com grandes elevações de amilase sérica (cerca de quadro vezes o valor normal), da isoamilase pancreática e da lipase, há alta probabilidade de se tratar de pancreatite aguda 9Malfertheiner & Kemmer, 1991).
A confirmação por ultra-sonografia é fundamental, e , pela facilidade e inocuidade do método, deve ser o primeiro passo para a certeza duagnóstica. Se possível 9no período final da gestação0, e se necessário, pode-se utilizar a tomografia computadorizada 9TC), que constitui método superior ao primeiro na separação entre a forma edematosa e a pancreatite necrotizante 9 Block 7 cols., 1986; Beger & Buchler, 1989; Balthazar, 1989; Buchler, 1991).
Os valores de amilase não se correlacionam com o prognóstico e, nesse sentindo, podem ser adotados os índices prognósticos de Ranson (Ranson & cols., 1974; Ranson, 1982) que, quando apresentam mais três fatores positivos, sugerem mau prognóstico (Howard, 1987; Goebell & Singer, 1987; Bartelink & cols., 1988).
Do ponto de vista prático, devem ser levadas em consideração a presença de hipocalcemia (< 7mg/100ml de cálcio sérico), a insuficiência respiratória e a necessidade de reposição de grandes volumes líquidos, como sinais significativos de doença grave.
A orientação terapêutica é semelhante à utilizada em não-grávidas, sendo seu principal objetivo pôr a glândula em repouso, reduzindo os estímulos à secreção de enzimas pancreáticas. Assim, o tratamento é inicialmente conservador; utilizando-se de jejum, sonda nasogástrica (para aspiração da secreção gásatrica), reposição hidroeletrolítica adequada (por via intravenosa) e medicamentos para alívio da dor antiespasmódicos, por exemplo (Meyer & cols., 1991; Fuller & cols., 1981).
Deve ser realizada monitorização cuidadosa nas pacientes consideradas graves. Na evolução, cuidado especial deve ser dado à possibilidade de complicações, como pseudocistos e abscessos.
Os efeitos benéficos da somatostina e dos agentes bloqueadores dos receptores H2 (cimetidina, ranitidina) não foram demonstrados até o presnete (Goff & cols., 1982; Loimdice & cols., 1984). No entanto, estes últimos continuam sendo usados rotineiramente 9Limberg & Kommerell, 1980).
A terapêutica antiprotease, com a aprotinina (Trasylol ? ),também não mostrou qualquer benefício (Trapnell & cols., 1974; Goebell & Singer, 1987). O uso de cantibióticos, apesar de controverso quanto ao momento mais adequado, é adotado quando a pancreatite está associada à colecistite ou à colangite, bem como nos casos de pancreatite necrotizante com cisto infectado ou necrose (Meyer & cols., 1991).
Se houver falha terapêutica com as medidas citadas, a nutrição parental prolongada (NPP) pode ser instituída (Weinberg, 1982; Ginesco & cols., 1984 Kirby & col., 1988; Faintuch & cols., 1989).
Se a causa da pancreatite for litíase biliar persistente, a possibilidade de esfincrerotomia endoscópica deve ser aventada, principalmente no final da gravidez ( Barthel, Chowdhury & Miedema, 1998). Em presença de pancreatite aguda grave, se apesar dos cuidados mencionados não houver resposta adequada da paciente e, pelo contrário surgir necessidade de reposição de grandes volumes, a terapêutica cirúrgica deve ser proposta, apesar da alta mortalidade.
Finalmente, o seguimento da gravidez por ultra-sonografia é freqüentemente necessário para o diagnóstico precoce das complicações já mencionadas.
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Fonte: www.fcm.unicamp.br

Pâncreas
A pancreatite aguda é uma inflamação do pâncreas que se caracteriza por dor no abdome de forte intensidade acompanhada de vômitos. Estes sintomas aparecem de forma súbita, ou seja, de um dia para o outro, o que na maioria das vezes requer internação por um período médio de 3 a 7 dias, no caso de inflamação leve .
Esta inflamação é causada principalmente por pedras na vesícula que passam pelo canal da bile (colédoco) e chegam ao pâncreas, causando a inflamação. Outros problemas como ingestão alcoólica, alterações graves de triglicérides e medicações, entre outros, podem também causar pancreatite aguda.
A pancreatite aguda pode se apresenta na forma leve em 80% das vezes, porém é considerada grave em cerca de 20% dos casos. Nestes casos graves existe risco de complicações como infecções, insuficiência renal, insuficiência respiratória, podendo levar até mesmo à morte. Nesta situação o paciente pode necessitar de uma Unidade de Terapia Intensiva para o tratamento mais adequado.
O tratamento da pancreatite aguda é feito nos casos leves com jejum, soros e analgésicos. Nos casos graves o uso de medicações especiais, antibióticos e cuidados específicos podem ser necessários, de acordo com cada caso.
É importante o tratamento da causa da pancreatite aguda, para que após a melhora do quadro o paciente não volte a ter novo surto. Por exemplo, no caso de cálculos na vesícula o tratamento é a remoção da vesícula.
Fonte: www.pancreas.com.br