Com o colapso da administração mongol em território islâmico, nos séculos XIV e XV, três novos impérios começam a se formar, partindo da Ásia: o império otomano, na Ásia Menor, o império safávida, na Pérsia, e o império mogol, na Índia. Esses três impérios foram o resultado de séculos de construção e expansão do estado islâmico, e que, no seu apogeu, chegaram a cobrir quase que todo o mundo islâmico. As únicas regiões que ficaram fora de seus domínios foram a África Ocidental e o Sudeste Asiático. Esses três impérios também foram importantes porque foram a ponte que possibilitou a transição do período medieval para o moderno, na história islâmica.
O império safávida, que foi fundado como uma dinastia política, em 1501, foi o segundo grande império islâmico a ser formado. Originou-se de uma seita religiosa e só assumiu a feição de um estado político e militar após 1501. O império safávida também se distinguia dos impérios otomano e mogol, porque era um governo oficialmente xiíta e as diferenças religionas levaram a muitos antagonismos entre eles e seus vizinhos sunitas. Dos três, o império safávida foi o menor e sofreu seu colapso nas mãos dos invasores afegãos, em 1722. Atualmente, corresponde ao Irã.
O império mogol da Índia, que surgiu em 1526, foi o terceiro grande império islâmico a se formar e lutou por muitos anos até consolidar seu território. Ele se beneficiou de uma sucessão de governantes fortes durante os séculos XVI e XVII, muitos dos quais foram capazes de assegurar a sobrevivência do império graças a uma política voltada para a população hindu . Da mesma forma que os impérios safávida e otomano, o império mogol finalmente deteriorou-se e foi absorvido pela expansão britânica promovida na Índia, em meados do século XIX.
O império otomano, que se formou no início do século XIV, foi o primeiro desses três grandes impérios islâmicos. Alcançou o seu ápice por volta de 1600, após o qual começou a entrar num lento declínio, resultante da desorganização interna e da pressão de seus inimigos externos europeus e asiáticos. No entanto, conseguiu sobreviveu até a I Guerra Mundial e se dispersou em 1918. Atualmente, corresponde à Turquia.
O Império Otomano, com sua capital em Istambul, compreendia todos os países de fala árabe, com exceção de partes da Arábia, Sudão e Marrocos. O império também incluía a Anatólia e o sudeste da Europa. O turco era a língua da família governante e as elites militar e administrativa, em sua maioria, compunham-se de convertidos ao Islam, provenientes dos Balcãs e do Cáucaso. A elites religiosa e jurídica eram de diversas origens, treinadas nas escolas de Istanbul e transmitiram um corpo de literatura jurídica em árabe.
O império era um estado burocrático, que comportava diferentes regiões dentro de um único sistema administrativo e fiscal. Foi, também, a última grande expressão de universalidade do mundo islâmico. Preservou a lei religiosa, protegeu e ampliou as fronteiras do mundo muçulmano, preservou as cidades santas da Arábia e organizou a peregrinação a elas. Foi também um estado multi-religioso, reconhecendo e aceitando as comunidades judaica e cristã. Os habitantes muçulmanos das cidades provinciais eram tirados do sistema de governo e dos países árabes, onde havia uma cultura arabo-otomana desenvolvida, preservando a herança e, até certo ponto, desenvolvendo-a em novos rumos. Além das fronteiras, o Marrocos desenvolveu-se de formas diferentes, sob o governo de dinastias próprias, que também reivindicavam uma autoridade baseada na proteção à religião.
No século XVIII, o equilíbrio entre os governos central e locais, dentro do Império, alterou-se e, em algumas partes, famílias ou grupos otomanos locais, tinham uma autonomia relativa, mas permaneciam fiéis aos interesses maiores do estado otomano. Houve uma mudança, também, nas relações entre o império e os estados europeus. O império, que nos primeiros séculos havia se expandido pela Europa, na última parte do século XVIII ficou sob a ameaça militar do ocidente e do norte. As relações comerciais também se modificaram, em razão do fortalecimento dos governos europeus e dos mercadores no oceano Índico e no mar Mediterrâneo. Ao final do século, a elite governante tornou-se consciente do declínio de seu poder e independência, e começou a apresentar suas primeiras tentativas para responder aos novos desafios.
O século XIX vai encontrar uma Europa dominando o mundo. A Revolução Industrial, a mudança no modo de produção, o crescimento da produção em escala e as mudanças nos sistemas de comunicação - a chegada dos navios a vapor, as estradas de ferro e o telégrafo - levaram a uma expansão do comércio europeu, que foi acompanhada de um fortalecimento do poder armado na maior parte dos estados europeus. A primeira conquista de um país árabe foi a da Argélia, pela França. Os estados e sociedades muçulmanos já não mais podiam viver um sistema estável e auto-suficiente. Nessa nova correlação de forças, era preciso criar os meios que garantissem a sobrevivência num mundo dominado pelos outros. Surgem, então, novos métodos de organização militar e administrativa, e de códigos legais moldados de acordo com os europeus. Os primeiros a adotar esses novos métodos foram os governos de duas províncias virtualmente autônomas, o Egito e a Tunísia.
Nas capitais dessas províncias reformistas e nos portos, que expandiram seu movimento em razão do comércio com a Europa, uma nova aliança de interesses se formou entre eles e os comerciantes estrangeiros e uma elite nativa de proprietários de terra e mercadores, comprometidos com o comércio com a Europa. No entanto, as consequências logo se fizeram sentir, quando em muito breve tempo, Egito e Tunísia cairiam sob o controle europeu, seguidos do Marrocos e da Líbia. O Império Otomano também perdeu a maior parte de suas províncias européias e tornou-se um estado arabo-turco.
Ainda que a cultura islâmica continuasse preservada, uma nova corrente de pensamento emergiu, tentanto explicar as razões da força da Europa e mostrar que os países muçulmanos podiam adotar as idéias e métodos europeus, sem trair suas próprias crenças. Para isso, foi importante os estudiosos das escolas criadas por esses governos reformistas e missionários estrangeiros, que puderam expressar seus conceitos, através de jornais e periódicos. Suas idéias predominantes eram a reforma da lei islâmica, a criação de uma base nova para o Império Otomano, e, no final do século XIX, a idéia do nacionalismo acabou encontrando espaço naquelas sociedades. Afora alguns raros momentos de rebelião, as novas idéias mal tocaram a vida das pessoas no campo e no deserto.
A I Guerra Mundial terminou com o desaparecimento final do Império. De suas ruínas emergiu um novo estado independente turco, mas as províncias arábicas foram colocadas sob controle britânico e francês. Todo o mundo árabe, com exceção de algumas partes da península arábica, estava sob o controle da Europa. O controle estrangeiro trouxe mudanças administrativas e alguns avanços na educação, mas também estimulou o crescimento do nacionalismo, principalmente nas camadas mais instruídas da sociedade.
A II Guerra Mundial mudaria a estrutura de poder no mundo. A derrota da França, a crise financeira européia, em decorrência da guerra, o surgimento dos Estados Unidos e da Rússia como superpotências, iriam determinar uma nova correlação de forças.
A seguir, para que se tenha uma melhor compreensão dos acontecimentos desse período, estabelecemos uma cronologia que melhor poderá orientar no estudo do Islam.
Ibn Batuta (1307d.C - 1377d.C) foi o equivalente árabe de Marco Polo. Fez a volta ao mundo e contou muito do que viu. Em seu livro "Travels in Asia and Africa", não só traça um retrato fiel de si mesmo, com as suas virtudes e fraquezas, como evoca toda uma época. É impossível não sentir uma atração pelo personagem que se revela, generoso em excesso, intrépido, amigo do prazer, mas controlado por uma profunda veia de piedade e devoção, um homem com todas as características de um pecador, mas com alguma coisa de santo.
Em Ladziqiya, embarcamos em uma grande galé pertencente ao genovês, cujo mestre era chamado Martalmin, e partimos para o país dos turcos (*),conhecido como Bilad-ar-Rum (Anatólia), porque era a terra deles em tempos antigos (1). Mas tarde foi conquistada pelos muçulmanos, mas ainda havia um grande número de cristãos por lá, governados pelos muçulmanos turcomanos. Ficamos dez dias no mar e o cristão nos tratou gentilmente e não nos cobrou pela passagem. No décimo dia, alcançamos Alaya, onde as províncias começam. Este país é um dos melhores do mundo; nele Deus reuniu as características que estão dispersas em outras terras. Seu povo é o mais belo, o mais limpo com as roupas, o mais requintado com a comida e o mais amável em toda a criação. Sempre que parávamos nesse território, seja numa hospedaria, ou numa casa de família, nossos vizinhos homens e mulheres (elas não usam o véu), vinham perguntar por nós. Quando partimos, vieram despedir-se de nós como se fòssemos seus parentes ou amigos próximos e era possível ver as mulheres chorando. Eles assam o pão apenas uma vez por semana e os homens costumavam nos presentear com pães frescos no dia em que eram assados, além de deliciosas carnes, dizendo "as mulheres mandaram isto e pedem por suas orações". Todos os habitantes são sunitas ortodoxos; não existem sectários ou heréticos entre eles, mas mastigam hashish (cânhamo indiano) e não vêem mal nisso.
Alaya é uma grande cidade litorânea (2) É habitada pelos turcomanos e é visitada pelos mercadores do Cairo, Alexandria e Síria. A região é dotada de madeira que é exportada de lá para Alexandrietta e Damietta, de onde é levada para outras cidades do Egito. Existe uma cidadela fantástica e magnífica, construída pelo sultão Ala ad-Din, na parte alta da cidade. O qadi da cidade me levou para encontrar com o rei de Alaya, que é Yusuf Bek, filho de Qaraman, sendo que bek, em sua língua, quer dizer rei. Ele vive a uma distância de 10 milhas da cidade. Nós o encontramos sentado no alto de uma colina na praia, com os emires e vizires abaixo dele e as tropas á sua volta.Ele tinha seu cabelo pintado de preto. Eu o saudei e respondi às suas perguntas sobre minha visita à sua cidade e depois que me retirei ele me enviou um presente em dinheiro.
De Alaya segui para Antaliya (Adalia), uma cidade muito bonita (3). Ela abrange uma região imensa, e apesar do tamanho é uma das cidades mais atraentes de serem vistas em qualquer lugar, além de ser muitíssimo populosa e bem projetada. Os habitantes vivem em quarteirões separados, de acordo com as classes. Os mercadores cristãos moram num quarteirão da cidade conhecido como Mina (o porto), que é circundado por muros, os seus portões se fecham à noite e durante o serviço das sextas-feiras. (4) Os gregos, que foram seus primeiros habitantes, vivem em outro quarteirão, os judeus em outro, e o rei e sua corte e os mamelucos em outro, sendo que cada um desses quarteirões é igualmente murado. O resto dos muçulmanos vivem na cidade principal. Rodeando toda a cidade e todos os quarteirões citados, existe um outro grande muro. A cidade possui pomares e produz frutas finas, inclusive um espécie admirável de damasco, a que eles dão o nome de qamar ad-din, que tem uma semente doce em seu interior. Esta fruta é seca e exportada para o Egito, onde é vista como um grande luxo.
Ficamos aqui na mesquita da cidade, cuja principal era Shaykh Shihab ad-Din al-Hamawi. Em todas as terras habitadas pelos turcomanos na Anatólia, em cada comarca, cidade ou vila, encontramos membros da organização conhecida como Akhiya, ou Fraternidade Jovem. Em nenhum outro lugar do mundo você encontrará homens tão ávidos em recepcionar os estrangeiros, tão rápidos para servir a comida e satisfazer os desejos dos outros e tão prontos a suprimir a injustiça e a matar os agentes de polícia (tiranos) e os descrentes que se juntam a eles.Um Irmão Jovem, ou akhi na língua deles, é aquele que é escolhido por todos os membros de sua classe social, ou um solteiro, ou entre aqueles que vivem em retiro ascético, para ser o líder. Esta organização também é conhecida como Futuwa, ou a Ordem da Juventude. O líder constrói uma hospedagem e a decora com tapetes, lanternas e outros utensílios necessários.Os integrantes de sua comunidade trabalham durante o dia para ganhar seu sustento e trazem para ele o que ganharam ao final da tarde. Com isso, eles compram frutas, alimentos e outras coisas necessárias à hospedagem. Se um viajante chegar à cidade naquele dia, eles o abrigam na hospedagem; aquelas provisões servempara o seu entretenimento, como convidado deles. Se não houver viajantes eles se reúnem para partilhar a comida e depois de ter comido, cantam e dançam. Pela manhã, retornam a seus afazeres e trazem seus ganhos para o seu líder ao final da tarde. Os membros são chamados de fityan (jovens) e seu líder, como dissemos, é o akhi. (5)
1. Bilad ar-Rum, literalmente "a terra dos gregos", embora usado de um modo geral pelos territórios bizantinos, foi usado mais especificamente para a província fronteiriça da Anatólia. Depois de algumas conquistas temporárias nos primeiros séculos, foi finalmente conquistada pelos turcos seljúcidas entre 1071 e 1081. Ao final do século XIII, toda a península, com exceção das partes que estavam com os cristãos (Bizâncio,Trebizond e Armênia), ou com o governante do Iraque, tinham jurado fidelidade ao sultão seljúcida de Konia, mas um pouco antes de 1300 começou a se desintegrar em pequenos reinos locais, cujos territórios foram aos poucos sendo absorvidos pelo império otomano.
2. O porto de Alaya foi construído por um dos maiores sultões seljúcidas do Rum, Ala ad-Din Kay-Qubad I (1219-1237), e depois dele foi rebatizado. Para os mercadores ocidentais era conhecido como Candelor (de seu nome bizantino kalon oros). O Egito, sendo notoriamente carente de madeira, sempre precisou de importar grandes quantidades para a construção de sua armada, etc.
3. Adaliya, conhecida pelos mercadores ocidentais como Satalia, foi o mais importante entreposto comercial da costa sul da Anatólia, sendo o comércio mais ativo entre os egípcios e cipriotas. O limão ainda é chamado no Egito de addaliya.
4. O fechamento dos portões da cidade e a exclusão de cristãos à noite e durante as horas do serviço das sextas-feiras foi observado até bem recentemente em vários lugares do Mediterrâneo, como Sfaz, provavelmente como uma medida de precaução contra ataques de surpresa.
5. A história das organizações chamadas de futuwa ainda é obscura. Aparecem pela primeira vez no século XII de diferentes formas, e podem estar relacionada com as ordes sufis ou derviches. A palavra futuwa, "coragem", sempre foi usada pelos derviches com um sentido moral, definido como "abster-se da injúria, dar generosamente, e não fazer queixas" e a roupa remendada, marca de um sufi, era chamada por eles de libas al-futuwa, "a roupa da coragem". Era usado num sentido mais agressivo entre as associações dos "Guerreiros da Fé", principalmente porque se degeneraram em bandos de ladrões e é uma referência à cerimônia de admissão num desses bandos em Bagdá, em meados do século XII, onde a calça é citada como al-futuwa simbólico (Ibn al-Athir). Alguns anos mais tarde, Ibn Jubayr encontrou em Damasco uma organização chamada Nubuya, que estava engajada no combate das seitas xiítas na Síria. Os membros da agremiação guerreira, cuja regra era que nenhum membro devia pedir ajuda em razão de qualquer desgraça que pudesse cair sobre ele, elegiam pessoas adequadas e, da mesma forma, agraciava-os com a roupa quando admitidos.
Em 1182, o califa an-Nasir, tendo sido investido com o libas, ou calças, por um shaykh sufi, teve a idéia de organizar a Futuwa como uma ordem de Cavalaria (provavelmente de acordo com o modelo franco), assumiu o comando da ordem e distribuiu libas para príncipes e outros personagens de seu tempo, como sua insígnia. A cerimônia de aceitação incluía colocar a calça de forma solene e beber "da taça da coragem" (ka's al-futuwa), que continha água e sal, ao invés de vinho. A ordem tirou de seus ascendentes sufis, uma genealogia fictícia que ia até o califa Ali, e continuou a existir por algum tempo depois do reinado de Nasir, mas sem o vigor de antes. A Fraternidade que Ibn Batuta encontrou em Konia, e que era diferente das outras agremiações da Anatólia por causa da sua insígnia especial da calça e por sua alegação de descender diretamente de Ali, foi provavelmente um remanescente da ordem fundada pelo califa romântico. As organizações da Anatólia que restaram, parecem ter sido associações comerciais locais com uma forte influência do sufismo, estranhamente combinada com uma tendência política para com o auto-governo local, contra a tirania dos sultões turcos. (Ver Thorning, Turkische Bibliothek, Band XVI (Berlin, 1913), e Wacif Boutros Ghali, La Tradition Chevaleresque des Arabes (Paris, 1919), pp.1-33).
Ibn Said foi um escritor muçulmano espanhol do século XIII. Ele descreve a cultura mourisca dos espanhõis em toda a sua riqueza e também explica as divisões culturais que possibilitaram a conquista cristã da região.
Andalus (península ibérica), que foi conquistada no ano 92 da Hégira, continuou por muitos anos na dependência do califado oriental, até que foi arrebatada por um dos sobreviventes da família omíada, que dominou o país e formou ali um reino independente, que legou à posteridade. Durante três séculos e meio, Andalus, governada por príncipes desta dinastia, alcançou o mais elevado grau de poder e prosperidade, até a eclosão de uma guerra civil entre seus habitantes, os muçulmanos, que, enfraquecidos por discórdias internas, tornaram-se presas de cristãos ardilosos, e o território do Islam foi reduzido consideravelmente, tanto que no momento os adoradores do crucificado já detêm grande parte do Andalus em suas mãos e seu país foi dividido em vários reinos poderosos, cujos governantes se ajudam mutuamente sempre que os muçulmanos atacam seus territórios. Isto me traz à lembrança as palavras de um geógrafo oriental que visitou Andalus, no século IV da Hégira (século X d.C), e durante a época próspera do califado de Córdoba. Refiro-me a Ibnu Haukal Annassibi, que, descrevendo Andalus, refere-se a seus habitantes em termos muito desfavoráveis. Como suas palavras exigem resposta, transcreverei aqui toda a passagem. Diz ele:
"Andalus é uma ilha extensa, medindo um pouco menos de um mês de marcha, de comprimento, e vinte e tantos dias de largura. É rica em rios e mananciais, é repleta de árvores e plantas de todo feitio e é suprida com tudo que acrescente conforto à vida; os escravos são gentis e podem ser encontrados por um preço accessível por conta de sua grande quantidade; devido também à fertilidade da terra, que rende toda a espécie de grãos, vegetais e frutas, assim como à quantidade e qualidade de suas pastagens, nas quais inúmeros rebanhos pastam, a comida é excessivamente abundante e barata, e, por isso, os habitantes são dados à indolência e preguiça, permitindo que as camadas mais baixas da sociedade se sobreponham a eles e conduzam seus negócios. Devido a isto, é realmente impressionante como a ilha (isto é, a península) de Andalus ainda esteja nas mãos dos muçulmanos, sendo, como são, um povo de hábitos viciados e de inclinações baixas, mente estreita e completamente destituídos de firmeza, coragem e dos equipamentos militares necessários para enfrentar, cara à cara, as fantásticas nações de cristãos que os circundam de todos os lados e por quem são constantemente assaltados."
Essas são as palavras de Ibnu Haukal, mas, se a verdade deve ser dita, não sei a quem elas se referem. Aos meus compatriotas, certamente que não, ou se forem, é uma calúnia terrível, porque, se há um povo na terra que seja famoso por sua coragem, qualidades nobres e bons hábitos, este povo é o muçulmano de Andalus; e na verdade, sua rápida resposta para lutar contra o inimigo comum, sua constância na defesa de seus princípios religiosos e sua firmeza nas dificuldades e privações de guerra, tornaram-se proverbiais. Portanto, quanto a isso, Ibnu Haukal está decididamente equivocado, porque, como diz o provérbio, "por vezes, a língua do gago é mais eloquente do que a língua da eloquência." Quanto à outra acusação, isto é, a de serem destituídos de sentimentos, sabedoria e talendo, seja no campo ou na administração, queria Deus que o julgamento do autor estivesse correto, porque então a ambição dos líderes não se teria levantado e os muçulmanos não se teriam voltado contra os peitos uns dos outros e desaparecidos no sangue uns dos outros, das armas que Deus o Poderoso colocou em suas mãos para a destruição e aniquilamento do cristão infiel. Mas, perguntamos: Em que discordam aqueles sultões e califas carentes de prudência e talento, que governaram este país por mais de 500 anos e que administraram seus negócios em meio a guerras externa e civil? Será que aqueles guerreiros destemidos eram destituídos de coragem e conhecimento militar, os mesmos que resistiram nas fronteiras do império muçulmano ao choque terrível das inúmeras nações infiéis que habitam dentro e fora de Andalus, cujos territórios extensos cobrem uma superfície correspondente a 3 meses de marcha e dos quais todos correram para as armas na hora de defender a religião do crucificado? E se é verdade que no momento em que escrevo os muçulmanos foram visitados pela cólera do céus e que o Todo Poderoso enviou a derrota e a vergonha aos seus exércitos, devemos pensar sobre isso no tempo quando os cristãos, orgulhosos de seu sucesso, levaram suas armas até a Síria e Mesopotâmia, invadiram os territórios vizinhos ao país, que é o lugar de encontro dos muçulmanos e a cúpola do Islam, cometeram toda a espécie de rapina e depredação, conquistaram a cidade de Aleppo e suas cercanias e praticaram outros atos que estão suficientemente declarados nas crônicas da época? Não, em hipótese alguma é para se pensar nisso, principalmente quando se presta a devida atenção à forma pela qual os muçulmanos andalusos chegaram ao atual estado de fraqueza e degradação. O processo é o seguinte: os cristãos descerão de suas montanhas, cruzarão a planície e farão uma incursão no território muçulmano; lá eles tomarão um castelo e o ocuparão: devastarão o país vizinho, tornarão seus habitantes cativos e então voltarão para seu país com tudo o que puderem pegar, deixando, não obstante, fortes guarnições nos castelos e torres capturados por eles. Nesse meio tempo, o rei muçulmano, em cujos domínios a invasão foi feita, em lugar de se ocupar de seus próprios interesses e cuidar da doença, cauterizando-a, estará declarando guerra a seus vizinhos, e isto ao invés de defender a causa comum, a causa da religião e da verdade, - ao invés de cuidar de seu irmão, se aliará para privá-lo de qualquer domínio que ainda esteja em suas mãos. Portanto, por um mal insignificante em princípio, surgirá uma calamidade irreparável, e os cristãos avançarão mais e mais até que subjuguem todo o país exposto por suas invasões, onde, uma vez estabelecidos e fortificados, dirigirão seus ataques para uma outra parte do território muçulmano e cumprirão a mesma guerra de estragos e destruição. Nada disto, no entanto, existia na época em que Ibnu Haukal visitou Andalus; porque, embora Ibnu Hayyan e outros escritores nos digam que os cristãos começaram a alcançar poder desde a época de Abdul Rahman (912-961) e a incomodar os muçulmanos nas fronteiras, no entanto é evidente que até a eclosão das guerras civis, que irromperam com uma rara violência em todo Andalus, as invasões dos bárbaros nas extensas e desprotegidas fronteiras do império muçulmano não tinham muita consequência.
Mas, voltando ao nosso assunto. Durante os primeiros anos após a conquista, o governo do Andalus foi conferido a comandantes militares indicados pelos vice-reis da África, os quais eram, eles mesmos, indicados pelos califas de Damasco. Estes governantes congregaram em suas mãos o comando dos exércitos e o poder civil, mas, sendo removidos tão logo eram nomeados, ou depostos por insurreições militares, reinava muita confusão e desordem no estado, e o estabelecimento e consolidação do poder muçulmano no Andalus foram frustrados. Não foi senão após a chegada de um omíada a Andalus que se pode dizer que o edifício do Islam passou a repousar em fundações sólidas. Quando Abdul Rahman Ibn Mu'awiyeh conquistou o país, quando cada rebelde se submeteu a ele, quando todos os seus opositores juraram obediência a ele, e sua autoridade foi universalmente reconhecida, então sua importância cresceu, sua ambição se espalhou mais amplamente e ele e seus sucessores mostraram o maior esplendor de sua corte, e de suas pessoas e de seu séquito, assim como o grande contingente de oficiais e funcionários do estado. No início, eles se contentaram com o título de Benti-l-khaliyif (filhos dos califas), mas no curso do tempo, quando os limites de seu império tinham se ampliado consideravelmente em razão de suas conquistas, eles passaram a se denominar Omara-l-mumenin (príncipes do crentes). De um modo geral, sabe-se que a força e a solidez de seu império consistiam principalmente na política perseguida por esses príncipes, a magnificência e o esplendor com que cercavam sua corte, na admiração reverencial que inspiravam a seus súditos, o rigor inexorável com o qual eles puniam toda agressão aos seus direitos, a imparcialidade de seus julgamentos, sua presteza na observância da lei civil, o respeito e atenção para com os instruídos, cujas opiniões eles respeitavam e seguiam, chamando-os e admitindo-os em seus conselhos, e muitas outras qualidades brilhantes, como provam os frequentes relatos que aparecem nos trabalhos de Ibnu Hayyan e de outros escritores; como, por exemplo, o de que sempre que um juiz convocava um califa, seu filho, ou qualquer outro de seus mais queridos favoritos, a aparecer em sua presença como testemunha num caso jurídico, quem quer que fosse o convocado, deveria ir em pessoa - mesmo o califa, independente do respeito pela lei - e se um súdito, por temer incorrer no desagrado do mestre.
Mas, quando este princípio salutar e justiça imparcial desapareceram, começou a decadência do império, seguindo-se sua completa ruína. Já observei que os príncipes daquela disnatia eram, no início, do estilo Omard-bnci-l-khalafa (emires, filhos dos califas), mas no final eles assumiram o título de Omara-l-mumenin (príncipes dos crentes). Isto continuou até a época infeliz da guerra civil, quando os membros sobreviventes da família real odiavam-se uns aos outros e quando aqueles que não tinham nobreza nem as qualidades exigidas para honrar o califado pretendiam e queriam tomá-lo; quando os governadores das províncias e os generais dos exércitos se declararam independentes e se rebelaram, tomando o título de Moluku-t-tawdyif (reis dos pequenos estados), e quando a confusão e a desordem atingiram o seu auge. Esses reinos insignificantes, sobre os quais lê-se a khutbah (sermão da sexta-feira) para os califas da casa de Marwan - em cujas mãos nenhum poder permaneceu - enquanto outros proclamavam os sultões abássidas e reconheciam seu Imam, todos começaram a exercer os poderes e a usar os símbolos da realeza, assumindo até títulos e nomes de antigos califas e imitando em tudo o comportamento e esplendor dos reinos mais poderosos - uma coisa que eles eram capazes de realizar em razão dos grandes recursos dos países que eles governavam - porque, embora Andalus fosse dividida em vários reinos insignificantes, no entanto, tal era a fertilidade da terra e a quantidade de impostos arrecadados dela que o chefe de um estado pequeno podia às vezes mostrar uma corte maior em esplendor do que a do governante. Contudo, o maior entre eles não hesitou em assumir, conforme já observei, os nomes e títulos dos mais famosos califas do oriente, como por exemplo, Ibnu Rashik Al-kairwini diz que Abbd Ibn Mohammed ibn 'Abbad tomou o sobrenome de Al-mu'atadhed, e imitou em todas as coisas o modo de vida e comportamento do califa abássida Al-mu'atadhed-billah.
Enquanto a dinastia omíada ocupou o trono de Córdoba, os sucessores de Abdul Rahman inspiraram em seus súditos o amor a eles, misturado com admiração reverencial; isto eles conseguiram cercando sua corte de esplendor, mostrando grande brilho sempre que apareciam em público, e empregando outros meios a que eu já me referi,não sendo necessário repetir que eles continuaram até a época da guerra civil, quando, tendo perdido a afeição do povo, seus súditos começaram a olhar com desconfiança para a despesa pródiga e a pompa extravagante com que se cercavam. Então chegou Benf Hamud, descendentes de Idris, de 'Ali Ibn Abi Talib, que, tendo tomado o califado das mãos de Benf Marwan, governou por algum tempo a maior parte de Andalus. Esses príncipes mostraram também grande ostentação e assumiram os mesmos títulos dos califas abássidas, seguiram seus passos em tudo que se referisse aos assuntos da corte e das pessoas; por exemplo, sempre que um munshid queria exteriorizar alguns versos em louvor ao soberano ou a qualquer assunto particular, o poeta ou peticionário era levado à presença do califa, que ficava sentado atrás de uma cortina e falava sem se mostrar.Assim, quando Ibnu Mokond Al-lishboni (de Lisboa), o poeta, apareceu na presença de Hdjib de Idris Ibn Yahia Al-hamyudi, que havia se proclamado califa de Málaga, para recitar o seu kassidah que é muito conhecido pelas rimas em min, quando chegou na parte que diz
O semblante de Idris, filho de Yahya, filho de Alf, filho de Hamild, príncipe dos crentes, é como o nascer do sol; ofusca os olhos daqueles que olham para ele.Deixe-nos ver, deixe-nos agarrar os raios daquela luz, porque esta é a luz do mestre dos mundos.
o próprio sultão abriu a cortina que o velava e disse ao poeta: "Olhe, então" e mostrou-se bastante afável com Ibn Mokena e o recompensou magnanimamente.
Mas, quando, em decorrência da guerra civil, o país se viu dividido em vários principados insignificantes, os novos monarcas seguiram uma linha política bem diferente; porque, querendo ser mais populares, eles tratavam seus súditos com uma familiariedade maior e tinham uma relação mais frequente com todas as classes sociais; muitas vezes visitavam as tropas e as províncias; chamavam a sua presença médicos e poetas e queriam ser tomados desde o começo de seus reinados, como os patronos da ciência e literatura: mas, até isso contribuiu para a diminuição da autoridade real, que se tornava, a cada dia, menos ameaçadora; além disso, o uso dos exércitos muçulmanos durante as longas guerras civis para lutarem entre si, não era bem visto pelos habitantes das diferentes províncias; os laços que os uniam tornaram-se fracos e vários estados independentes foram criados, cujos governos passavam de pai para filho, da mesma forma que o império de Córdoba tinha sido transmitido aos filhos e herdeiros dos califas. Assim, separados uns dos outros, os muçulmanos começaram a se considerar membros de diferentes nações e a cada dia ficava mais difícil uni-los em torno de uma causa comum; e devido às suas divisões e à inimizade mútua, assim como aos interesses sórdidos e à ambição extravagante de alguns reis, os cristãos conseguiram atacá-los e subjugá-los, um após o outro. No entanto, com a chegada de Beni 'Abdu-l mumen, todos aqueles estados se juntaram em um e todo Andalus reconheceu sua dominação e continuou por muitos anos a ser governado por seus sucessores, até que a guerra civil eclodiu de novo, Ibn Hud Almutawakel, se rebelou e encontrando o povo de Andalus contrariado com os almoádas e ansiosos por abalar seu jugo, ficou fácil para ele tornar-se senhor do país. No entanto, Ibn Hud seguiu a política de seus antecessores (os reis dos pequenos estados); ele até ultrapassou-os em loucura e ignorância as normas de um bom governo, porque ele costumava caminhar pelas ruas e mercados, conversando e rindo com as camadas mais baixas da população, fazendo perguntas e praticando atos inadequados para a sua elevada condição e que ninguém tinha antes visto um sultão praticar, a ponto de se dizer, não sem razão, que ele não parecia um rei. Loucos, e o vulgo ignorante parecia, é verdade, olhar com espanto e prazer para esta intimidade, mas, como o poeta disse são coisas que fazem os loucos rir, mas cujas consequências os sensatos aprenderam a temer. Esses sintomas foram crescendo até chegar às cidades populosas e as províncias mais extensas tornarem-se presas dos cristãos e todos os reinos foram tomados das mãos dos muçulmanos.
Uma outra circunstância muito grave acrescentou mais um ingrediente à calamidade geral, isto é, a facilidade com que o poder trocava de mãos. Quem quer que tenha lido atentamente sobre o que dissemos a respeito do modo de alcançar e usar o poder real em Andalus, precisa se convencer que nada era tão fácil, principalmente nos últimos tempos, até chegar a isto. O processo é o seguinte: sempre que se sabe que um cavaleiro ultrapassa seus compatriotas em coragem, generosidade ou qualquer outra qualidade que faça essa pessoa querida pelo vulgo, o povo apega-se a ele, toma seu partido, e acaba por proclamá-lo rei, sem levar em consideração sua ascendência ou se seu sangue é real ou não. O novo rei então transmite o estado como uma herança para seu filho ou parente mais próximo, e assim uma nova dinastia se forma. Como prova disso, posso citar um caso que aconteceu entre nós: um certo capitão ficou famoso pelos feitos e vitórias conseguidas sobre o inimigo, assim como por seu caráter generoso e liberal em relação aos cidadãos e ao exército; subitamente, seus amigos e partidários resolveram levá-lo ao trono; e não pararam de trabalhar, de chamar o povo para as suas fileiras e de lutar contra seus opositores, até que o objetivo deles estivesse cumprido e que seu amigo estivesse firmemente estabelecido no trono. Agora o povo do oriente está mais cauteloso no que se refere à sucessão e às mudanças na dinastia reinante; evitarão por todos os meios possíveis e farão o melhor para deixar o poder em mãos da família reinante, ao invés de permitirem que dissenções e discórdias minem as fundações do estado e introduzam a dissolução e corrupção no corpo social.
Entre nós, a mudança de dinastia é uma constante e o atual governante de Andalus, Ibnu-l-ahmar, é um outro exemplo do que eu adiantei. Ele foi um bom soldado, e teve muito sucesso em algumas incursões contra os cristãos, cujos territórios ele invadia frequentemente, saindo, à frente de seus seguidores, de um castelo chamaddo Hisn-Aijanah, onde ele geralmente ficava. Sendo um homem astuto e versado em todos os estratagemas de guerra, raras vezes ele partia numa expedição sem retornar vitorioso e carregado de despojos, razão por que ele acumulou grande riqueza e o número de partidários e seguidores cresceu consideravelmente. Por fim, sendo tomado pela ambição de conseguir o poder real, ele, a princípio, mandou que suas tropas o proclamassem rei; em seguida, saindo de sua fortaleza, ele tomou posse de Córdoba, marchou para Sevilha, ocupou-a e matou seu rei Al-baji. Depois, ele dominou Jaen, a mais forte e importante cidade de toda Andalus, devido a seus muros e à posição que ela ocupa, conquistou igualmente Málaga, Granada e seus distritos, e assumiu o título de Amiru-l-moslemin (príncipe dos muçulmanos); e, no momento em que escrevo, ele é obedecido em toda Andalus e todos procuram sua proteção e aconselhamento.
Na África ocidental, o sal e a comida dominavam o comércio no deserto de Sahara (sahr, em árabe significa deserto), e incluía também ouro, marfim, penas de avestruz, casco de tartaruga e peles. Quando os árabes chegaram à África, o comércio aumentou por causa do camelo. Os camelos eram vitais porque eles podiam viajar mais de 100 km por dia, isto é, duas vezes mais do que os bois de carga ou os cavalos, e também podiam resistir ao calor do dia e ao frio da noite. Os bérberes estavam envolvidos no comércio de longa distância. Os comerciantes árabes compravam o ouro da antiga Gana - a terra do ouro, e financiavam as caravanas bérberes. Desta forma, o Islam se espalhou muito rapidamente e as transações comerciais ficaram bem mais fáceis. A expansão do comércio muçulmano pelo deserto depois de 750 d.C, deu um novo e maior incremento à região.
Em 1067, o cronista andaluzo al-Bakri, escrevendo na então famosa cidade andaluza de Córdoba, no sul da Espanha, mas passando as primeiras informações sobre os viajantes e comerciantes trans-saarianos, descreveu Gana como um estado grande e poderoso. Ao escrever sobre a corte do rei normando, Roger II da Sicília, al-Idrisi relatou como os governantes de Gana passavam o tempo, recepcionando com os mais pródigos banquetes que alguém jamais tinha visto antes.
No entanto, foi o Mali, na África ocidental, que chamou a atenção para o mundo muçulmano, por causa de seu governante, Mansa Musa, irmão de Abu Bukhari (famoso por ter enviado milhares de navios cargueiros para as Américas em 1330), com sua famosa peregrinação a Meca, em 1324-1325, chegando ao Cairo com uma enorme caravana que incluía 100 camelos carregados de ouro. Musa demonstrou sua generosidade distribuindo grandes quantidade de ouro no Egito, abalando, assim, a moeda local. Este fato criou o mito europeu da África ocidental como um lugar de imensas riquezas, onde até os escravos vestiam ouro. Ao completar o Atlas Mundial em 1375, o cartógrafo Cresques, de Maiorca, mostrava o rei do Mali sentado num trono, segurando um globo (uma imensa pepita de ouro) e o cetro, no centro da África ocidental, enquanto os comerciantes de toda a África do Norte marcham vigorosamente para seus mercados. O ouro transformou-se no produto básico de exportação para a Europa, sendo que pelo menos 2/3 do suprimento mundial de ouro vinha da África ocidental. Monarcas dos mais distantes países, como a Inglaterra, cunhavam suas moedas com o precioso metal africano.
Mansa Musa incentivou o desenvolvimento do ensino e da expansão do Islam. Nos primeiros anos de seu reinado, Musa enviou sábios sudaneses para a universidade marroquina de Fez. No final de seu reinado, esses sábios fundaram seus próprios centros de ensino e de estudo alcorânico, principalmente em Timbuktu, que mais tarde transformou-se em um importante centro para os comerciantes e estudiosos muçulmanos, tanto sudaneses como bérberes.
Menos de 20 anos depois da morte de Musa, o viajante bérbere, Ibn Batuta, depois de trinta anos de observação acurada, ainda viajava incansavelmente para cima e para baixo pelo mundo muçulmano, esteve no Mali. Escreveu: "Os negros possuem algumas qualidades admiráveis. Raras vezes são injustos e têm mais horror à injustiça do qualquer outro povo ... Há uma segurança total neste país. Nem o viajante nem o seu habitante temem ladrões ou homens violentos." (E.W.Bovill, 'The Golden Trade of the Moors)
Timbuktu alcançou o seu auge em fama e fortuna no século XVI. Falando para uma platéia italiana, no início do século XVI, Leo Africanus descreveu Timbuktu como a cidade do ensino e das letras, onde o rei, além de dispor de um exército de 3000 cavaleiros e uma infantaria enorme, financiava de seu próprio tesouro "muitos magistrados, doutores e religiosos". "Aqui em Timbuktu", assinalou ele, "existe um grande mercado de livros dos países bérberes e ganham muito mais com a venda dos livros do que com qualquer outra mercadoria.". A reputação de suas escolas de teologia e direito espalhou-se até a Ásia muçulmana. Esta época do Mali, seria mais tarde lembrada como a idade de ouro da prosperidade e da paz.
No final dos Anos Negros, com a Europa ocidental em crise, começaram a surgir pequenos reinos no Sudão ocidental e central. Inúmeros reis africanos, entre eles Mansa Musa e Sonni Ali, gozavam de fama no Islam e na cristandade, por causa de sua riqueza, brilhantismo e conquistas artísticas para seus vassalos. Suas capitais eram grandes cidades muradas, com muitas mesquitas e, pelo menos duas, Timbuktu e Jenne, tinham universidades que atraíam estudiosos e poetas de muito longe. Seu poder vinha de uma combinação de força militar e alianças diplomáticas com os líderes locais; seus juízes praticavam a justiça; seus burocratas administravam os impostos e controlavam o comércio, a viga mestre daqueles estados.
A meta dos portugueses era transformar seu pequeno estado europeu em um vasto império afro-indiano. A presença dos portugueses na África ocidental e central objetivava nada menos do que construir um império na África, desde o ocidente até o oriente - do oceano Atlântico até o oceano Índico - uma grande rota que cruzasse o continente e que serviria diretamente como um caminho imperial que se conectasse com o império indiano. O império afro-indiano era o grande projeto de Portugal. A corte de Lisboa tinha planejado bem. Para um estado tão pequeno como Portugal, uma ambição maior do que o continente europeu. E, então, ousando o suficiente para operacionalizar o plano, isto obrigou a um grau de organização e coragem que possibilitou a muitos pequenos grupos de homens seguirem adiante, conquistando e dominando.
Portugal esperava que, ganhando acesso direto às regiões produtoras de ouro da África ocidental, o metal iria se transformar em sua maior fonte de riqueza nacional. Uma vez conquistado o acesso à África ocidental, a riqueza financiaria as explorações até a ponta da África, e dali até a Índia. Finalmente, ao alcançar a Índia, via sul, os portugueses desviariam as rotas comerciais da Ásia ocidental, controladas pelos muçulmanos. Sob as ordens do Vaticano, os portugueses navegaram ao longo da costa da África ocidental, ocupando inúmeros portos. Os primeiros portugueses não eram comerciantes ou aventureiros particulares, e sim oficiais com a missão real de conquistar o território e promover a divulgação do cristianismo.
Em 1434, Gil Eanes ousou navegar além do mar onde o oceano Atlântico supostamente terminava e os navios lançavam-se ao vazio, e em 1488, os portugueses chegaram à desembocadura do grande rio Congo na África ocidental. Primeiro chegaram à costa africana ocidental em 1470. Ali construíram um forte chamado Elmina (a mina) para proteger seu entreposto comercial dos navios europeus rivais. Pelo tratado de Alcacovas, a Espanha reconheceu o direito de Portugal explorar a costa africana e o Papa concedeu indulgências àqueles que tivessem tomado parte na construção de Elmina. São Jorge da Mina, seu nome completo, personifica a natureza religiosa e comercial dos europeus do século XV.
Em 1497,Vasco da Gama partiu de Lisboa, em Portugal. Os portugueses que viajavam com ele eram homens do Renascimento católico e seus sucessores estavam sob a influência da Contra-Reforma. A cultura e a religião para eles eram tão misturadas, que não era possível dizer onde o católico terminava e o Renascimento português começava. Ao contrário das primeiras expedições portuguesas, Vasco da Gama continuou a navegar, descendo a costa ocidental da África, contornou a ponta sul da África, continuando ao longo da costa oriental africana. Com a ajuda de um navegador árabe, emprestado do Malindi, atual Quênia, Vasco da Gama entrou no oceano Índico.
Basicamente os portugueses esperavam que, ao entrar no oceano Índico, a partir do sul, eles pudessem afastar os muçulmanos, que dominavam o norte da África e o Meditérrâneo. Os portugueses queriam tirar dos muçulmanos o controle do comércio de especiarias, sedas e outros produtos da Índia e da China, trazê-los para a Europa ocidental em navios e vendê-los com um lucro considerável. Afinal de contas, os portugueses também sabiam que os mercadores egípcios tinham ficado ricos com o comércio entre o Mediterrâneo e o oceano Índico, onde os egípcios cunhavam suas próprias moedas de ouro e o dinar fatimida tinha se tornado a unidade básica de troca internacional nas cidades do Swahili, na costa oriental africana.
Onze meses após iniciar a viagem, Vasco da Gama chegou à cidade de Calicute, no dia 20 de maio de 1498. De início, ele encontrou hostilidade por parte dos mouros, árabes e africanos, mas ao que tudo indica, ele conquistou a simpatia do rajá hindu do Malabar. Vasco da Gama disse aos primeiros indus que encontrou na costa do Malabar que ele tinha vindo buscar "cristãos e especiarias". Os cristãos que ele tinha em mente eram um povo legendário, que devia ser resgatado do cerco muçulmano e que tinha ajudado a ele em sua cruzada. Provavelmente eles eram os vassalos do misterioso Prester John e eram na verdade os abissínios, a quem Vasco da Gama nunca encontrou. Os cristãos que ele encontrou eram os "sírios" do Travancore, provavelmente residentes ali desde o século IV a.C., e desconhecidos na Europa.
Vasco da Gama retornou com uma mensagem do rajá hindu, que dizia: "Vasco da Gama, um nobre de sua corte, visitou meu reino e me deu grande prazer. Em meu reino existe muito cravo, canela, gengibre, pimenta e pedras preciosas. O que quero de seu país é ouro, prata, coral e escarlate."
Uma segunda expedição, que consistia de 20 navios e 200 soldados, sob o comando de Cabral, foi mandada para lá em 1500. Suas instruções eram no sentido de começar com a pregação e se fracassasse, continuasse com a firme determinação da espada. Ao alcançar Calicute (depois de estar na costa do Brasil, primeiro) Cabral criou fábricas, tendo em vista a hostilidade dos nativos. Em 1502, o rei de Portugal obteve do papa Alexandre VI uma bula papal indicando-o " senhor da navegação, conquista e comércio da Etiópia, Arábia, Pérsia e Índia". Naquele ano, Vasco da Gama viajou de novo para o oriente, com uma frota composta de 20 navios. Começava, então, a Cruzada, a cristianização, a conquista e o "comércio" da África oriental e da Índia.
Fonte: geocities.com