Abássidas: 749 - 1258. Califas com autoridade universal;
capital principal Bagdá.
Aglábidas: 800 - 909. Tunísia, Argélia
oriental, Sicília.
Alauitas: 1631 até hoje. Marrocos.
Almoádas (al Muwahhidun): 1130 - 1269. Magrebe, Espanha.
Almorávidas (al Murabitun): 1056 - 1147. Magrebe,
Espanha.
Aiúbidas: 1169 - 1260. Egito, Síria, parte
da Arábia ocidental.
Buaihidas: 932 - 1062. Irã, Iraque.
Fatimidas: 909 - 1171. Magrebe, Egito, Síria. Reivindicavam
o Califado
Hafsidas: 1228 - 1574. Tunísia, Argélia oriental.
Hashimitas do Iraque: 1921 - 1958. Iraque
Hashimitas da Jordânia: 1923 até hoje. Jordânia.e
parte da Palestina.
Idrisidas: 789 - 926. Marrocos.
Ilkhanidas: 1256 - 1336. Irã, Iraque.
Mamelucos: 1250 - 1517. Egito, Síria.
Marinidas: 1196 - 1464. Marrocos.
Mogóis: 1526 - 1858. Índia.
Muhammad 'Ali e sucessores: 1805 - 1953. Egito.
Nasridas: 1230 - 1492. Turquia, Síria, Iraque, Egito,
Chipre, Tunísia, Argélia, Arábia oriental.
Omíadas: 661 - 750. Califas, reivindicando autoridade
universal; capital Damasco.
Omíadas da Espanha: 756- 1031. Alegavam ser califas.
Rasulidas: 1219 - 1454. Iêmen.
Rustamidas: 779 - 909. Argélia ocidental.
Sefévidas: 1501- 1732. Irã.
Safaridas: 867 - fim do século XV. Irã oriental.
Samânidas: 819 - 1005. Nordeste do Irã, Ásia
central.
Saudita: 1746 até hoje. Arábia ocidental.
Seljúcidas: 1038 - 1194. Irã, Iraque.
Seljúcidas do Rum: 1077 - 1307. Turquia central e
oriental.
Timuridas: 1370 - 1506. Ásia Central, Irã.
Tulunidas: 868 - 905. Egito, Síria.
A arte islâmica não é a arte de um país ou de um povo em particular. É a arte de uma civilização, formada por uma combinação de circunstâncias históricas: a conquista do mundo antigo pelos árabes, a unificação sob a bandeira do Islam de um vasto território, que por sua vez, foi invadido por vários grupos de povos estrangeiros. Desde o seu início, a orientação da arte islâmica foi em grande parte determinada por estruturas políticas que desconheceram fronteiras geográficas e sociais. Por essa razão, vamos apresentar um quadro da arte islâmica do ponto de vista das diversas influências que chegaram ao poder, governaram e fragmentaram o império muçulmano original.
A natureza complexa da arte islâmica desenvolveu-se na base de tradições pré-islâmicas nos vários países conquistados e é uma síntese perfeitamente integrada de tradições árabes, turcas, mongólicas, hindus e persas, manifestando-se em todas as partes do novo império muçulmano.
O elemento árabe é provavelmente em todos os tempos o mais importante. Ele forneceu a base para o desenvolvimento da arte islâmica, através da mensagem do Islam, a língua de seu livo sagrado, o Alcorão, e a forma árabe de escrita. Esta última transformou-se na mais importante característica isolada de toda a arte islâmica, levando ao desenvolvimento de uma infinita variedade de ornamentação abstrata e todo um sistema de abstração linear, peculiar às diversas formas de arte islâmica e podendo, de uma forma ou de outra, e em todas as suas manifestações, ser reconhecida como de origem árabe.
O elemento turco na arte islâmica, consiste principalmente numa tendência nativa à abstração que os povos turcos da Ásia Central aplicaram a qualquer forma de cultura ou arte com que se depararam em sua longa trajetória. Eles criaram uma inconfundível iconografia turca, com base na importante tradição de motivos figurativos e não figurativos, presentes desde a Ásia Oriental até a Ocidenta. A importância do elemento turco na cultura islâmica pode, talvez, ser melhor apreciada levando-se em conta que a maior parte do mundo islâmico foi governada por povos turcos, do século X ao século XIX.
O elemento persa na arte islâmica é talvez mais difícil de definir; parece consistir numa atitude poética, peculiarmente lírica, uma tendência à metafísica, que no domínio da experiência emocional e religiosa, leva a um extraordinário florescimento místico. As principais escolas de pinturas muçulmanas, desenvolveram-se no Irã, tendo por base a literatura persa. Não somente uma iconografia compelta, como também uma imagística específica, abstrata e poética em sua concretização, e sem paralelo em qualquer outra parte do mundo muçulmano, foram criadas no Irã, em fins do século XIV e no século XV
Muito embora esses três elementos da cultura islâmica sejam por vezes claramente definíveis e distintos, e cada qual contribua mais ou menos, em partes iguais, para o desenvolvimento da arte islâmica, quase sempre se acham tão intimamente entrelaçados e integrados, que não se pode muitas vezes distingui-los com nitidez. Todas as regiões do mundo muçulmano compartilham numerosas características artísticas fundamentais, que tornaram a totalidade do vasto território uma unidade étnica e geográfica supranacional, apenas comparado, na história da cultura humana, por idêntico domínio do MUNDO ANTIGO, por Roma.
Através dos tempos, as religiões, de um modo geral, fizeram uso de imagens figurativas para transmitir a essência de suas convicções. Para o Islam, no entanto, essa arte figurativa assume aspectos de idolatria, motivo porque ele se utilizou de palavras ou letras, em formas e tamanhos diversos, para a transmissão de seus princípios religiosos. Os muçulmanos passaram a usar a arte da caligrafia como expressão religiosa, e, no decorrer do tempo, a arte da escrita tornou-se uma arte muito respeitada.
Segundo o sábio muçulmano Yasin Hamid Safadi, "a supremacia da palavra no Islam está refletida na aplicação universal da caligrafia. Escrever imprime as características de lugar a todas as espécies de objetos - objetos de uso cotidiano, assim como a superfície de paredes inteiras, mobiliário das mesquitas, o exterior e interior das mesquitas, dos túmulos e da Caaba, o mais famoso santuário islâmico. "
A caligrafia arábica foi a forma primeira de arte da expressão visual e da criatividade islâmica. Através da vasta geografia do mundo islâmico, a caligrafia é um símbolo que representa unidade, beleza e poder. Os princípios estéticos da caligrafia são um reflexo dos valores culturais do mundo muçulmano. Uma investigação minuciosa das diferenças estéticas entre a caligrafia árabe e não árabe poderia fornecer um caminho para a compreensão do espírito essencial de cada cultura.
O alfabeto arábico alcançou um elevado nível de sofisticação. Uma construção islâmica pode apresentar inúmeros estilos de escrita em suas paredes, janelas ou minaretes. Muitas das inscrições não se referem necessariamente ao Alcorão, mas, também, aos hadices do profeta, e que estão em sintonia com os objetivos religiosos do prédio. Uma inscrição, por exemplo, pode dar significado à construção, esclarecendo sua função.
A história da caligrafia arábica significa a integração da arte com a erudição. Através da beleza abstrata das linhas, a energia flui entre as letras e palavras. Todas as partes estão integradas ao todo. Essas partes incluem espaços positivos e negativos e o fluxo da energia que abre caminho juntamente com a interpretação do calígrafo. A caligrafia arábica não é simplesmente uma forma de arte, mas envolve representações divinas e morais, de onde ela adquire sua reputação sublime. Sua beleza abstrata nem sempre é facil de ser compreendida, mas esta beleza pouco a pouco acaba por se revelar ao olhar perspicaz.
De acordo com estudos contemporâneos, a escrita árabica é um ramo das escritas semitas, nas quais as consoantes estão representadas. A escrita arábica desenvolveu-se comparativamente em um breve espaço de tempo. O árabe tornou-se um alfabeto muito usado e hoje é o segundo em uso, perdendo somente para o alfabeto romano.
Os árabes eram um povo basicamente nômade. Antes do surgimento do Islam, viviam uma vida dura, mas tinham uma cultura fecunda que se expressava na escrita e na poesia. Bem antes de se tornarem uma nação islâmica, os árabes reconheciam o poder e a beleza das palavras. A poesia, por exemplo, era uma parte essencial da vida cotidiana e as habilidades lingüísticas eram exibidas na literatura e na caligrafia. Os primeiros árabes nutriram um grande apreço pela palavra falada e mas tarde, pela sua forma escrita.
A escrita árabica deriva da nabatéia, que, por sua vez, vem da aramaica. Os nabateus eram árabes semi-nômades que viviam numa área que se extendia desde o Sinai e norte da Arábia, até o sul da Síria. Seu império incluía as cidades de Hijr, Petra e Busra. Embora o império tenha acabado em 105 d.C, sua língua e escrita tiveram profundo impacto sobre o desenvolvimento do alfabeto arábico.
Arqueólogos e linguistas analisaram e estudaram inscrições nabatéias, que representam um estágio de transição mais avançado para o desenvolvimento de caracteres arábicos, como o namarah, do famoso poeta pré-islâmico Imru´al Qays, que data de 328 d.C. Uma outra inscrição, datando do século VI, confirma a derivação da escrita arábica do nabateu e assinala o nascimento de formas escritas arábicas distintas.
Na década de 650 d.C, foram consignadas, por escrito, as primeiras versões completas do Alcorão, numa forma denominada Jazm, que revela uma influência nabatéia. Esta, por sua vez, influenciou, o desenvolvimento da escrita cúfica, de traço vigoroso e angular, que durante séculos se tornou o meio mais popular de recordar o Alcorão sagrado. Simultaneamente, desenvolveram-se outras escritas cursivas com fins burocráticos e privados, e, em meados do século X, já estavam fixadas as seis escritas clássicas da caligrafia islâmica: Thuluth, Naskh, Muhaqqah, Raihani, Tawqi e Riqa.
A escrita do norte da Arábia foi a primeira a ser introduzida e estabelecida na parte nordeste da Arábia. Durante o século V, as tribos nômades árabes, que viviam nas áreas de Hirah e Anbar, usaram esta escrita. Na primeira parte do século VI, a escrita dessa região alcançou Hijaz, na Arábia oriental. Acredita-se que Bishr ibn Abd al-Malik, e seu sogro, Harb ibn Umayyah , tenham introduzido e popularizado o uso deste alfabeto na tribo coraixita do profeta Mohammad, e que foi adotado, com entusiasmo, por outras tribos das cidades vizinhas.
O jazm é o alfabeto arábico mais antigo de que se tem referência. Acredita-se que era uma forma mais avançada do alfabeto nabateu. As letras rígidas, angulares e bem proporcionadas do alfabeto jazm iriam influenciar mais tarde o famoso alfabeto kufi, a escrita cúfica, de uma pequena cidade do Iraque.
Os instrumentos típicos do ofício de calígrafo incluiam penas de junco e pincéis, tesouras, uma faca para cortar as penas, um tinteiro e um apontador. A pena de jundo, segundo Safadi, era a preferida pelos calígrafos islâmicos. Esta pena, chamada de cálamo, ainda é um instrumento importantíssimo para o verdadeiro calígrafo. Os juncos mais procurados eram oriundos das terras costeiras do Golfo Pérsico. Os cálamos eram objetos valiosos e foram comercializados por todo o mundo muçulmano. Um escriba versátil precisava de diferentes cálamos, a fim de alcançar os diferentes graus de delicadeza. Moldar um junco exigia do escriba habilidades excepcionais. Além disso, tinham um conhecimento meticuloso de como identificar a melhor vareta que fosse adequada para ser uma boa pena, como aparar as pontas e como cortar as varetas exatamente no centro, a fim de que o corte tivesse metades iguais. Uma boa pena era cuidadosamente guardada e, algumas vezes, passava de uma geração a outra. Outras vezes, ela era enterrada com o calígrafo quando ele morria.
Eram usadas tintas de muitas cores, incluindo o preto, o marrom, o amarelo, o vermelho, o azul, o branco, a prata e o ouro. O preto e o marrom eram as cores mais frequentemente usadas, porque sua intensidade e consistência podiam variar enormente. Muito calígrafos davam instruções de como preparar a tinha, mas muitos guardavam em segredo suas receitas. A tinha feita pelos persas, hindus e turcos conservavam seu frescor por um tempo considerável. A preparação da tinha levava muitos dias e envolvia complicados processos químicos. Por causa de seu poder de preservar o conhecimento e levá-lo a todo os recantos do mundo, a tinta era comparada com a água e o calígrafo como uma pena nas mãos de Deus.
O papel foi introduzido em 751 d.C, vindo da China para Samarcanda. Este foi o marco decisivo na arte da escrita e desempenhou papel importantíssimo nas inúmeras invenções subsequentes e que reformariam a caligrafia arábica. Este novo meio de comunicação escrita teve um impacto decisivo sobre todos os aspectos da civilização islâmica.
O papel era feito de algodão e, algumas vezes, de seda ou outras fibras, mas não de madeira. Ele era polido com uma pedra lisa, como a ágata ou o jade antes que o calígrafo começasse a escrever. Linhas de orientação quase invisíveis eram traçadas com uma ponta e as letras ficavam sobre essas linhas.
Uma vez pronta, a composição caligráfica podia ser copiada de tempos em tempos pelos mestres dos mais diferentes lugares, tão distantes quanto a Índia ou Istanbul. Como em muitas artes tradicionais, dava-se menos importância às inovações e mais à imitação dos grandes mestres, tanto contemporâneos quanto os antigos. Apesar disso, alguns mestres foram notáveis inovadores.
De todos os elementos da arte islâmica o mais importante é a religião. A multidão de pequenos impérios e reinos que tinham adotado o Islamismo sentiu-se - apesar de orgulhos e ciúmes - antes e sobretudo muçulmana, e não árabe, turca ou persa. Todos sabiam, falavam e escreviam de forma regular o árabe, a língua do Alcorão. A caligrafia é a suprema das artes islâmicas, e a expressão mais típica do espírito muçulmano. "O teu Senhor - declara a primeira revelação - ... ensinou com o cálamo, ensinou ao homem o que ele não conhecia."
Além disso, como Deus falou em árabe, por intermédio do anjo Gabriel, e as suas palavras foram escritas, pela primeira vez em árabe, a língua e a escrita árabes foram consideradas como tesouro inestimável por todos os muçulmanos. Só entendendo-as os homens poderiam esperar compreender o pensamento de Deus. Não podiam ter uma missão mais importante que a de conservar e transmitir tesouro tão precioso; e os muçulmanos demonstraram a sua gratidão, fazendo-o com toda a arte de que foram capazes.
Foi uma das primeiras a evoluir. Ganhou popularidade depois de ser redesenhada pelo famoso calígrafo Ibn Muqlah, no século X. O seu sistema abrangente de proporção deu à escrita naskh um estilo bem característico. Mais tarde, ela foi reformulada por Ibn al-Bawaab e outros, que a transformaram numa escrita digna do Alcorão - muitos exemplares do Alcorão foram escritos em naskh, mais do que qualquer outro tipo de escrita. Tendo em vista que é relativamente fácil de ler e de escrever, a escrita naskh teve grande aceitação por parte da população em geral.
A escrita naskh é normalmente feita com traços pequenos horizontais e as curvas são cheias e profundas, os traços retos e verticais e as palavras geralmente bem espaçadas. Atualmente, a naskh é considerada a escrita suprema para quase todos os muçulmanos e árabes em todo o mundo.
A escrita kufi (cúfica) foi a escrita sagrada dominante nos primórdios do Islam. Ela foi criada após o estabelecimento das duas cidades muçulmanas de Basra e Kufa, na segunda década da era islâmica (século VIII). Tinha medidas proporcionais específicas, juntamente com uma angulosidade e linhas quadradas bem pronunciadas. Tornou-se conhecida como a escrita kufi. Essa escrita exerceu um profundo efeito em toda a caligrafia islâmica. Em contraste com as linhas verticais, a escrita kufi tem linhas horizontais que são prolongadas. É uma escrita consideravelmente mais larga do que alta. Ela foi escolhida para ser usada em superfícies oblongas. Com sua construção geométrica, a escrita kufi podia ser adaptada em qualquer espaço e material, desde os pequenos quadrados de seda até os monumentos arquitetônicos deixados por Timur (Tamerlão), em Samarcanda.
Como a escrita kufi não se sujeitava a regras rígidas, os calígrafos a empregaram sem qualquer esquema de concepção ou execução para as suas formas ornamentais. A escrita assumiu diversas formas, ora com um fundo floral, com desenhos geométricos, ou formas geométricas interligadas, inclusive círculos, quadrados e triângulos - formando palavras, etc. Essas versões foram aplicadas a superfícies de objetos arquitetônicos, incluindo superfície de estuque, madeira,metal, vidro, mármore, têxteis, etc.
Foi a primeira escrita formulada no século VII, durante o califado omíada, mas só se desenvolveu completamente no final do século IX. Embora muito raramente tenha sido usada para escrever o Alcorão, a escrita thuluth gozou de enorme popularidade como uma escrita ornamental e foi muito usada para as inscrições caligráficas, títulos, cabeçalhos, etc. É ainda a mais importante de todas as escritas ornamentais.
Ela se caracteriza pelas letras curvas, apresentando pequenos traços, como farpas, na parte de cima das letras. As letras são ligadas e algumas vezes entrecortadas, produzindo, assim, uma fluência cursiva de grandes e complexas proporções. A escrita thuluth é conhecida por seus traços elaborados e por sua incrível plasticidade.
A escrita riqa, também chamada de ruq´ah, evoluiu das escritas naskh e thuluth. Ainda que tenha uma afinidade maior com a escrita thuluth, a escrita riqa tomou uma direção diferente, ficando mais simplificada. As formas geométricas das letras são semelhantes às da thuluth, porém são menores e com mais curvas. Ela é arredondada e estruturada de uma forma mais densa, com pequenos traços horizontais.
A escrita riq´ah foi uma das favoritas dos calígrafos otomanos e sofreu muitas modificações nas mãos do shaikh Hamdullah al-Amasi. Mais tarde, ela foi revista por outros calígrafos e foi até transformar-se na escrita mais popular e a mais amplamente usada. Hoje, a escrita riqa é a preferida para a caligrafia no mundo árabe.
As escritas cursivas também foram rapidamente utilizadas para a tanscrição alcorânica, trazendo novas possibilidades para o êxito de efeitos decorativos. E surgiram, assim, as outras quatro escritas importantes: as de Tumar, Ghubar, Taliq e Nastaliq, que, embora não se tornassem populares entre os árabes, foram durante quase quatro séculos a escrita favorita dos muçulmanos do Irã, da Turquia e da Índia.
Acredita-se que foi uma escrita desenvolvida pelos persas, de uma antiga e pouco conhecida escrita árabe, chamada firamuz. Taliq, também chamada de farsi, é uma escrita cursiva modesta, aparentemente em uso desde o início do século IX.
O calígrafo Abd al-Hayy, da cidade de Astarabad, parece ter desempenhado um papel importante no início da escrita. Ele encorajou seu patrono, xá Ismail, a estabelecer as regras básicas da escrita taliq. Atualmente, ela goza de aceitação entre os árabes e é o estilo caligráfico entre os muçulmanos persas, hindus e turcos.
O calígrafo persa Mir Ali Sultan al-Tabrizi desenvolveu uma variedade mais leve e elegante de estilo que ficou conhecida como nastaliq. No entanto, os calígrafos persas e turcos continuaram a usar o taliq como escrita para as ocasiões especiais. Nastaliq é uma palavra composta que deriva de naskh e de taliq. A nastaliq foi muito usada nas antologias, épicos, miniaturas e outros trabalhos literários, mas não para o Alcorão.
Os exemplos de caligrafia como motivo ornamental encontram-se por todo o lado: nas pedras dos túmulos e nos têxteis, nas ânforas, nas armas e nos azulejos, adaptando as formas mais surpreendentes na decoração dos edifícios. As palavras do Alcorão são importantes como forma de embelezamento das mesquitas que elas adornam. Há quatorze séculos, muçulmanos de todas as partes do mundo vêm escrevendo, em árabe, os versículos do Alcorão nas mais variadas formas de caligrafias.
Durante o século VI, os muçulmanos herdaram a tradição e o conhecimento científico da antiguidade. Preservaram, elaboraram, fizeram uma releitura e, finalmente, passaram-na para a Europa. Foi nessa época que a dinastia omíada manifestou seu interesse pela ciência. Foi o século que para os muçulmanos correspondeu às luzes da filosofia, da descoberta científica e do desenvolvimento, enquanto que a Europa mergulhava no que se convencionou chamar a Idade das Trevas. Os árabes desse tempo assimilaram o conhecimento persa e a herança clássica dos gregos, adaptando-os às suas próprias necessidades e formas de pensamento.
Pela primeira vez na história da humanidade, a teologia, a filosofia e a ciência puderam ser harmonizadas em um todo unificado, graças à capacidade islâmica de conciliar o monoteísmo com as provas da ciência, ou mais adequadamente, a fé com a razão. Talvez, um dos motivos que pode explicar esse desenvolvimento da ciência seja o mandamento de Deus para que as leis da natureza sejam exploradas. A idéia é admirar a criação por sua complexidade, admirar o Criador por sua habilidade. Talvez por causa dessa crença é que as contribuições do Islam à ciência alcançaram os diversos ramos do pensamento, inclusive a matemática, a astronomia, a medicina e a filosofia.
As culturas persa e hindu tornaram-se parte da herança islâmica no campo da Matemática. No século VII, durante a existência do Profeta, um matemático muçulmano hindu desenvolveu o símbolo "zero", que viria a revolucionar o estudo da matemática e tornar possível as grandes conquistas nesse campo, não só muçulmanas, mas de toda a humanidade.
Palavras como "algebra" e "algorítimo" foram, na verdade, tiradas do vernáculo árabico e traduzidas para o latim. Foi um matemático muçulmano que formulou, explicitamente, a função trigonométrica. A palavra "seno" é uma tradução da palavra arábica "jayb". Al-Khwarizmi escreveu o mais antigo livro sobre matemática, conhecido somente na versão traduzida. Ele apresentou mais de 800 exemplos de cálculo de integração e equação, que viriam a ser adotados pelos neo-babilônios. Os muçulmanos introduziram os algarismos arábicos na Europa e ensinaram aos ocidentais as convenções mais adequadas ao conceito aritmético. O "zero" e os algarismos arábicos são a base da ciência dos cálculos, conforme é conhecida hoje.
Na primeira metade do século IX, os números exponenciais, incluindo o zero, foram usados por al-Khwarizmi, para substituir as letras. Na segunda metade desse mesmo século, os muçulmanos da Espanha desenvolveram numerais ligeiramente diferentes na forma, huruf al-ghubar, originariamente usado em conjunção com um tipo de ábaco de areia. Leonardo Fibonacci, de Pisa, que havia sido discípulo de um mestre muçulmano, publicou um trabalho que permanece um marco na introdução dos numerais arábicos.
No início do século IX, cálculos matemáticos estimulavam o desejo de repostas para o movimento celeste. Esta curiosidade introduziu um novo campo no conhecimento humano, o da Astronomia. Uma das aplicações mais importantes da Astronomia é o cálculo para o horário das cinco orações diárias, que todo muçulmano faz. Ele é definido de acordo com a posição do sol, movendo-se de leste para oeste. As primeiras tabelas conhecidas, feitas para tal propósito, são datadas do século X, e são instrumentos importantes usados pelos muçulmanos.
O magnífico relógio do sol, que Ibn al-Shatir contruiu no ano de 1371 para enfeitar o minarete principal da mesquita omíada de Damasco, confirma a exatidão dos cálculos. O relógio mostra as horas do dia relativas ao nascer do sol, ao meio-dia e ao por-do-sol. Há, também, curvas especiais para as horas relativas ao amanhecer e ao anoitecer. O relógio do sol mede o tempo para cada hora das cinco preces diárias.
Ibn al-Sarraj inventou uma série de astrolábios, quadrantes, grades trigonométricas e outros instrumentos que foram extremamente inovadores na época e que mais tarde foram utilizados pelos europeus quando iniciaram as grandes navegações para a descoberta de novos mundos.
Al Khwarizmi, o gênio matemático, aplicou suas descobertas ao novo campo, de onde ele compôs as mais antigas tabelas planetárias. Seu trabalho serve de referência e foi traduzido para o latim no século XII, por Gerard de Cremona. O primeiro observatório astronômico foi construído em Jundaysabur, sudoeste da Pérsia, sob a direção de Sind ibn-'Ali e Yahia ibn-abi-Mansur. Sendo o astrônomo do califa, ele elaborou uma carta dos movimentos celestes. Os astrônomos de Al-Mamun, o califa abássida, fizeram muitas observações originais. Uma das mais notáveis é a medida do meridiano, próximo a Mosul. O objetivo era determinar o tamanho da terra e a sua circunferência, na suposição de que ela fosse redonda.
Na Espanha, os estudos sobre Astronomia foram incentivados após a segunda metade do século X. O sistema aristotélico foi reproduzido, com a representação dos movimentos celestes. Abu al-Qasim Maslamah al-Majriti, de Madrid, o mais antigo astrônomo muçulmano espanhol, editou e corrigiu as tabelas planetárias de Al-Khwarizmi. Entre os títulos de Al-Majriti, estava o de ser al-hisab, isto é, o matemático, porque ele era considerado o mestre do conhecimento matemático. Cerca de quatorze anos mais tarde, as tabelas planetárias de al-Battani foram traduzidas para o latim, por Plato de Tivoli. Copérnico, mais tarde, iria citar Al-Battani em seu livro "De Revolutionibus Orbium Coelestium". Al-Zarqali, o mais notável observador astronômico de sua época, imaginou um tipo de astrolábio que comprova o movimento do apogeu solar em relação às estrelas. Al-Bitruji desenvolveu uma nova teoria do movimento estelar.
Os astrônomos árabes deixaram no céu os traços imortais de suas descobertas. São os nomes de estrelas, incorporadas às línguas européias, uma infinidade de termos técnicos, como azimuth (as-sumut), nadir (nazir), zenith (as-samt), todos derivados do árabe, o que só vem comprovar o rico legado do Islam para a Europa cristã.
Ibn Sina, mais conhecido como Avicena, recebeu o título de "Príncipe da Medicina". Seu trabalho mais consagrado é Al-Qanun Fil-Tibb, o " Cânone da Medicina". Ele é um dos maiores nomes da história da Medicina. Aos dez anos conhecia de cor o Alcorão, e aos doze, discutia sobre Direito e Lógica. Ele achava que a medicina era um assunto fácil. "Quando eu estou em dificuldade", ele disse, "consulto minhas anotações e rezo ao Criador". Em seu livro, ele mostrou muitos aspectos da medicina. Classificou as causas e os sintomas das doenças. Dizia que as doenças são causadas por um desequilíbrio das quatro qualidades elementares do corpo: calor, frio, húmido e seco. Elas são provocadas por uma composição, ou conformação, defeituosa das partes do corpo, que provocam o trauma. A causa das doenças está ligada ao ambiente e à psicologia. Entre elas, está o tradicional esquema das doenças "não naturais", oriundas do ar, do excesso ou falta da alimentação e da bebida. Seu livro também discute os cuidados com a conservação da saúde em partes separadas, pediátricas, adultas e geriátricas.
A peste negra assolou a Europa em meados do século XIV, deixando os cristãos desamparados. Enquanto isso, Ibn-al-Khatib, um clínico de Granada, escreveu um tratado, no qual ele elabora uma defesa sobre a teoria do contágio:
"Para aqueles que dizem 'como posso admitir a possibilidade de infecção, quando a lei religiosa a nega', respondemos que a existência do contágio é constatada pela experiência, pela investigação e pela evidência de relatórios confiáveis. Estes constituem argumento sólido. O contágio se torna claro ao investigador, quando observa como ele, que está em contato com pessoas doentes, pega a doença, ao passo que aquele que não tem o contato fica a salvo, e como se dá a transmissão através de roupas e recipientes."
A circulação do sangue e a idéia da quarentena veio da indicação empírica sobre o contágio e foi descoberto por Ibn al-Nafis. Em 943, Ibn Juljul, de Córdoba, tornou-se um físico famoso com a idade de 24 anos, compilou um livro, que era um tratado especial sobre drogas, encontrado na Andaluzia, na península ibérica. Ibn Masawayh escreveu o mais antigo tratado sobre Oftamologia. O livro, entitulado al-Ashr Maqalat fi al-'Ayn é o mais antigo texto sobre a matéria. No uso curativo das drogas, alguns avanços fantásticos foram feitos pelos muçulmanos. Eles criaram as primeiras boticas e a mais antiga escola de Farmácia.
O Príncipe da Medicina, Avicena, também foi um filósofo. A Filosofia naquele tempo era definida como o conhecimento da causa verdadeira das coisas. Ele foi o primeiro árabe a criar um sistema filosófico que é completo. De seus estudos iniciais da Lógica ele se voltou para o estudo da Física e da Metafísica, por sua própria iniciativa. Tornou-se mentor de muitos físicos, e aos dezoitos anos dominava a Lógica, a Física e a Matémática, e não havia nada mais que ele pudesse aprender a não ser concentrar-se na Metafísica. Seu mais importante tratado filosófico é o Kitab al-Shifa, ou o Livro da Cura, conhecido em latim pelo título de Sufficienta. É uma enciclopédia sobre o saber greco-islâmico do século XI, que vai da Lógica à Matemática.
Um grande patrono da filosofia e da ciência da História do Islam é o califa al-Mamun. Filho do califa Harun al-Rashid, ele estimulou as discussões na corte sobre Lógica, Direito e Gramática. Construiu em Bagdá a sua famosa Bayt al-Hikmah, a Casa do Conhecimento, uma combinação de biblioteca e academia, e que em muitos aspectos é uma instituição educacional importante. Esta biblioteca contém livros sobre todos os assuntos, especialmente Ciências Islâmicas, Ciências Naturais, Lógica, Filosofia e muitos outros.
A maior figura na história da filosofia islâmica, e que representa uma reação ao neo-platonismo, foi Imam al-Ghazali, um jurista, teólogo, filósofo e místico. Ele dizia que o "fiqh" é o pão diário da alma crente, ao passo que a doutrina é valiosa da mesma forma que a medicina é para a doença. Também disse que foi tomado pelo desejo da verdade. Resolveu buscar um "certo conhecimento", além do qual o objeto conhecido não se abre para duvidar completamente. Fundamentalmente, Al-Ghazali afirmava seu agnosticismo sobre a natureza absoluta e final de Deus. Esta necessidade de uma certeza religiosa impulsionou Al-Ghazali para o misticismo e o remeteu à descoberta do conceito alcorânico de Deus, o que mostrou que a natureza de Deus é constituída pelos nomes e abributos divinos.
O primeiro filósofo autêntico a escrever em árabe foi Al-Kindi. Ele está relacionado de muitas formas aos mutazilas e aos filósofos naturais neo-pitagóricos . Foi um homem de extraordinária erudição, que relatou suas observações como geógrafo, historiador e físico. Kindi foi mais do que um filósofo. Era químico, oculista e teórico musical. A sua influência como autor e professor deu-se, principalmente, nos campos da matemática, geografia e medicina.
A história intelectual dos árabes, com o desenvolvimento da Filosofia e da Ciência no Oriente Próximo, começa com a ascensão do Islam. A primeira geração de muçulmanos eruditos dedicou-se completamente ao estabelecimento de um cânon baseado no Alcorão e isto por causa da santidade irresistível do Alcorão e das tradições do Profeta Mohammad. Para os estudiosos muçulmanos, cuja obra é mostrada, o Alcorão é a fonte de todo o conhecimento - a revelação de Deus.
Muitas sugestões foram apresentadas no Alcorão como uma prova da Onisciência de Deus. Tais sugestões estimularam a curiosidade do homem e provavelemente satisfizeram suas buscas do conhecimento. Com as raízes do conhecimento já estabelecidas, seus ramos e folhas cresceram em direção ao avanço tecnológico. Essas raízes não podem ser esquecidas jamais, porque sem uma fundação sólida nenhum pilar pode ser construído e sobreviver. A seguir, alguns nomes de muçulmanos eminentes, que deixaram seus nomes marcados para sempre a história da humanidade, pela enorme contribuição que deram.
Abu Raihan Muhammad al-Biruni, um sábio persa, foi contemporâneo do grande físico Ibn Sina (Avicena), com quem se correspondia. Com um talento especial para as línguas, inclusive o turco, o Persa, o sânscrito, o hebreu e o árabe, Al-Biruni despertou a atenção do governante ghazanavida Mahmud, cujo território incluía o norte da Índia. Mahmud muitas vezes levava Al-Biruni em suas campanhas pela Índia, e ele aproveitava para estudar a língua, a história e a ciência dos lugares por onde passava. Um de seus livros mais famosos, Kitab al-Hind (Livro da Índia), foi o resultado dessas viagens. Foi um estudo tão completo sobre a Índia que trabalhos posteriores sobre a história hindu tiveram como base esse livro de Al-Biruni.
Além de sua obra sobre cultura e história, Al-Biruni foi também um cientista notável. No campo da astronomia, ele foi pioneiro na noção de que a velocidade da luz era muito maior do que a velocidade do som, observou os eclipses solar e lunar e aceitou, muito antes do que qualquer outro, a teoria de que a terra girava em torno de um eixo. Na geografia, calculou a latitude e longitude corretas de muitos lugares e questionou a visão ptolomaica européia, de que a África se estendia infinitamente para o sul; Al-Biruni insistia que ela era circundada pela água. Em seu trabalho sobre a Índia, Al-Biruni apresentou a idéia controversa - mais tarde provada correta- de que o vale do Hindu tinha sido uma bacia de mar. Também desenvolveu uma teoria para o cálculo da qibla - a direção de Meca de qualquer lugar em que se esteja - tão importante para os muçulmanos, a fim de praticarem suas orações voltados para aquela cidade. Na física, ele determinou, de forma muito precisa, as densidades de 18 pedras preciosas e metais. Foi o primeiro a estabelecer a trigonometria como um ramo distinto da matemática. Por causa de sua obra em diversos campos do pensamento, Al-Biruni é considerado um dos maiores cientistas de todos os tempos.
'Abd al-Rahman Ibn Khaldoun, é considerado o fundador da moderna sociologia e filosofia da história. Nasceu em Túnis, onde seus pais mais tarde morreram em decorrência da peste negra. Ibn Khaldoun passou a maior parte de sua vida no norte da África e Espanha. Teve uma vida política, trabalhando para inúmeras cortes reais norte-africanas, onde foi capaz de observar a dinâmica política e social da vida cortesã. Essas observações mais tarde influenciaram sua obra sobre a história das civilizações.
Seu livro mais famoso foi o Muqaddimah ("Introdução" ou Prolegômenos), que foi o primeiro volume do que pretendia ser uma obra sobre a história mundial. No Muqaddimah, Ibn Khaldoun expôs sua filosofia de história, e suas opiniões sobre como o material histórico devia ser analisado e apresentado. Concluiu que as civilizações surgem e desaparecem, como num ciclo, como resultado de fatores psicológicos, econômicos, ambientais, sociais e polícios. Sua atenção voltada para aspectos mais do que simplesmente políticos foi revolucionária, porque ele buscou examinar também os fatores religiosos, sociais e econômicos para explicar a história mundial. Ele submeteu seu estudo da história à análise objetiva e científica, e lamentava o cunho eminentemente tendencioso da história escrita antes dele.
Além do Muqaddimah, Ibn Khaldoun escreveu sobre os árabes, judeus, gregos, romanos, persas, egípcios e bérberes, e sobre os governantes europeus e muçulmanos. Escreveu sua autobiografia, tornando-se um líder nessa nova forma literária. Sua atenção para os fatores sociais na ascensão e queda das civilizações, ajudou a criar a ciência do desenvolvimento social, conhecida, hoje, como sociologia. Sua influência nos campos da sociologia e da história foi enorme, principalmente porque sua ênfase na razão e racionalismo para o julgamento histórico deu um tom não religioso ao seu trabalho.
3.Ibn Hisham; 4. Ibn Ishaq; 5. Ibn Miskawayh; 6. Al-Tabari; 7. Abu Hamid al-Ghazali; 8. Al-Suyuti; 9. Ibn Qutaybah,
Abu Ali al-Husayn Ibn Abdullah Ibn Sina, conhecido no ocidente como Avicena, nasceu em Bucara, em 980. Este físico persa tornou-se o mais famoso e influente de todos os cientistas e filósofos muçulmanos. Ele conquistou o favor real por tratar dos reis de Bucara e Hamadan, que tinham contraído doenças que os clínicos da época não diagnosticaram nem curaram. Embora treinado para ser um físico, Ibn Sina trouxe importantes contribuições para a filosofia, matemárica, química e astronomia. Sua enciclopédia filosófica, Kitab al-Shifa ("O Livro da Cura"), aproximou as filosofias aristotélica e platônica da teologia islâmica, dividindo o campo do conhecimento em conhecimento teórico (física, matemática e metafísica) e conhecimento prático (ética, economia e política).
Seu legado mais permanente, no entanto, foi no campo da medicina. Seu livro mais famoso, Al-Qanum fi al-Tibb ("O Cânon da Medicina"), ainda é um dos mais importantes livros de medicina jamais escrito, e por 600 anos, serviu como referência médica em toda a Europa. Entre as contribuições do Cânon para a moderna medicina, estavam: o reconhecimento de que a tuberculose era contagiosa; as doenças podiam se difundir através da água e do solo; a saúde emocional influencia a saúde física. Ibn Sina também foi o primeiro clínico a descrever a meningite, as partes do olho e as válvulas cardíacas, e descobriu que os nervos eram responsáveis pela dor muscular. Também deu sua contribuição para os avanços na anatomia, ginecologia e pediatria. O Cânon foi traduzido para o latim no século XII e rapidamente tornou-se a referência médica predominante nas escolas de medicina européias até o século XVII. Ainda é utilizado hoje nas escolas de medicina islâmicas do Paquistão e da Índia. Nenhum outro livro sobre medicina foi tão aclamado por tanto tempo. Quando o original árabe foi publicado em Roma, em 1593, tornou-se um dos primeiros livros árabes a ser produzido de acordo com a nova invenção do prelo. A Faculdade de Medicina da Universidade de Paris traz em sua entrada principal um retrato de Ibn Sina.
2. Abu al-Fath al-Chuzini Ibn Zuhr; 3. 'Abd al-Malik Abu Marwun Ibn Zuhr; 4. Abu al-Qasim; 5. Ibn Tufayl al-Razi; 6. Ibn al-Haytham.
Abu Ja'far Muhammad Ibn Musa al-Khwarizmi nasceu em Khwarizm, atual Usbequistão. Ele viveu em Bagdá, sob o patrocínio de Al-Mamun, o califa abássida, entre 813 e833, durante o período conhecido como a "Idade de Ouro" da ciência islâmica. Um matemático celebrado em seu tempo, assim como séculos mais tarde, Al-Khwarizmi é melhor conhecido por ter introduzido o conceito de álgebra na matemática. O título de seu livro mais famoso, Kitab al-Jabr wa al-Muqabilah ("O Livro da Integração e da Equação"), na verdade, apresenta a origem da palavra álgebra. No curso de sua obra, Al-Khwarizmi introduziu ouso dos numerais indo-arábicos que se tornaram conhecidos como algorítmos, um derivado latino de seu nome. Ele também começou usando o zero, que abriria o caminho para o desenvolvimento do sistema decimal.
A obra de Al-Khwarizmi teve uma tremenda influência sobre a matemárica, não só no mundo islâmico mas também em outras culturas. Muitos de seus livros foram traduzidos para o latim no século XII e Kitab Al-Jabr wa al-Muqabilah foi a principal referência matemática nas universidades européias até o séculoXVI. Além disso, Al-Khwarizmi produziu trabalhos sobre astronomia e geografia, muitos dos quais foram traduzidos para línguas européias e para o chinês. Em 830, uma equipe de geógrafos, trabalhando sob sua chefia, produziu o primeiro mapa do mundo conhecido. Os méritos científicos de Al-Khwarizmi continuam a produzir impactos nos dias de hoje.
Nascido Ghiyath al-Din Abul Fatah Umar Ibn Ibrahim al-Khayyam, em 1044, em Nishapur, uma cidade persa, Omar Kahyan foi também um famoso matemático, astrônomo, filósofo e poeta. Passou a maior parte de sua vida nos centros intelectuais persas, como Samarcanda e Bucara, e gozou da simpatia dos sultões seljúcidas que governavam a região.
As contribuições científicas mais conhecidas de Kayan foram na álgebra e na astronomia. Sua classificação das equações algébricas foi fundamental para o progresso da álgebra como uma ciência, da mesma forma que sua obra sobre a teoria das linhas paralelas foi importante para a geometria. Na astronomia, o maior legado de Kayan é um calendário solar fantasticamente preciso, que ele desenvolveu quando o sultão seljúcida Malik Shah Jalal al-Din, solicitou um novo programa para a coleta de impostos. O calendário de Kayan era muito mais preciso do que o calendário gregoriano, usado atualmente na maior parte do mundo: o dele apresenta um erro de um dia em 3770 anos, enquanto que o gregoriano tem um erro de um dia em 3330 anos. Kayan mediu a extensão de um ano em 365,24219858156 dias. Embora o calendário tenha sido abolido depois da morte de Malik Shah, em 1092, no entanto, ele ainda é utilizado em algumas partes do Irã e do Afeganistão.
Omar Kayan também foi poeta, e é assim que ele é melhor conhecido no ocidente, em detrimento de sua obra científica. Sua fama como poeta existe desde 1839, com a tradução para o inglês de seu livro Rubayat. Tornou-se um clássico da literatura mundial e é responsável pela influência que teve no conceito europeu sobre a poesia e literatura persas. Tendo em vista que em sua época ele foi mais conhecido por sua obra científica, duvidava-se que Kayan fosse realmente o autor de Rubayat. Mas, uma análise criteriosa efetuada por muitos estudiosos comprovou que ele é mesmo o autor da obra.
3. Kushyar Ibn Labban, 4. Ibn Turk, 5. Abda al-Hamid, 6. Ibn Qurra, 7. Thabit, 8. Al- Kashi, 9. Nasir al-Din al-Tusi, 10. Abu al-Wafa', 11. Ibn Yunus, 12. Al-Battani, 13. Ibn al-Haytham (Alhazen).
1. Ibn al-Muqtafi, 2. Abu al-Fadl Ja'far, 3. Nasir al-Din al-Tusi, 4. Muhammad ibn Musa al-Khwarizmi, 5.Abu al-Wafa', 6. Ibn al-Shatir; 7. Ibn Yunus, 8. Omar Khayyam, 9. Al-Battani, 10. Abu al-Abbas al- Farghani,
Abu al-Abbas al- Farghani,
Abu'l-Nasr Al-Farabi, um muçulmano de origem persa, que estudou em Bagdá, foi considerado em seu tempo como o maior filósofo desde Aristóteles. Na verdade, ele era conhecido como o "Segundo Mestre", sendo Aristóteles o primeiro. Ele era fluente em diversas línguas e através de suas traduções de antigas obras gregas, ele foi um dos primeiros filósofos muçulmanos a introduzir a filosofia grega no mundo islâmico. Escreveu sobre diversos assuntos, inclusive lógica, sociologia, ciência política, medicina e música, mas seu legado mais importante foi sua obra sobre filosofia.
Ao escrever seus comentários sobre a obra dos antigos gregos, Al-Farabi procurou reconciliar os pensamentos aristotélico e o platônico com a teologia islâmica. Ao mesmo tempo, no entanto, ele tornou-se o primeiro filósofo muçulmano a separar filosofia da teologia, influenciando estudiosos de muitas religiões que o seguiam. Ele concluiu que a razão humana, o instrumento da filósofo, era superior à revelação, o instrumento da religião, resultando numa vantagem da filosofia sobre a religião. Ele afirmava que a filosofia era baseada na percepção intelectual, enquanto que a religião baseava-se na imaginação. Assim, ele atribuia características solenes ao filósofo e defendia a presençade um filósofo na chefia do estado. Ele achava que as revoltas políticas no mundo islâmico deviam-se ao fato de o estado não ser administrado por filósofos, cujos poderes superiores da razão e do intelecto determinavam a liderança ideal.
A obra de Al-Farabi influenciou enormemente os filósofos islâmicos que se seguiram a ele, principalmente Ibn Sina e Ibn Rushd. Também serviu de palco para debates acalorados entre os representantes da filosofia e da teologia, na medida em que pensadores muçulmanos buscavam harmonizar as disparidades entre esses dois campos.
Abu Hamid al-Ghazali nasceu em1058, na província persa do Corassã. Foi estudou teologia islâmica em renomadas instituições de Nishapur e Bagdá, e tornou-se professor em religião e filosofia na Universidade de Nizamiyah, em Bagdá, uma das mais importantes instituições islâmicas daquela época. Em 1095, no entanto, depois de um período de confusão interior a respeito de sua fé, Al-Ghazali deixou a universidade, abandonou seus bens materiais e tornou-se um ascético errante. Devotou-se ao sufismo, o ramo místico do Islam que se ocupa do conhecimento direto de Deus, e viajou a Meca, Síria e Jerusalém, antes de voltar para Nishapur, para escrever.
Sua obra a respeito da relação entre a filosofia e a religião contribuiu para uma discussão no mundo islâmico sobre como harmonizar esses dois campos. Ao adotar os princípios aristotélicos do humanismo dos antigos gregos, filósofos muçulmanos, como Al-Farabi e Ibn Sina, entraram em conflito com os telólogos que afirmavam que a filosofia aristotélica contradizia a doutrina islâmica. Al-Ghazali defendia firmemente a religião contra o ataque dos filósofos e assim fazendo ajudou a construir uma ponte entre essas duas correntes de pensamento. Ele também buscou prevalecer no que ele acreditava ser excessivo no sufismo e trazê-lo para uma linha mais compatível com o Islam ortodoxo. Continuou a salientar a importância do sufismo como um caminho para a verdade absoluta, mas procurou redefinir sua imagem extremista como uma desobediência aos ensinamentos básicos do Islam.
Al-Ghazali escreveu muitos livros a respeito desses assuntos, que ficaram famosos, um dos quais inspirou o filósofo Ibn Rushd a responder com um livro de sua autoria, depois da morte de Al-Ghazali. Em Tuhafat al-Falasifa ("A Incoerência dos Filósofos"), Al-Ghazali expôs alguns argumentos a respeito do por quê algumas vezes a filosofia soava herética ao Islam. Ele, particularmente, discordava dos argumentos apresentados pelos filósofos de influência grega, que questionavam a imortalidade da alma, a ressurreição do corpo, a recompensa e a punição depois da morte, o conhecimento de Deus de todas as coisas e a eternidade do mundo. Al-Ghazali aceitava o fato de que os filósofos questionassem alguns princípios da fé islâmica, mas repudiava-os por não provarem suas posições. Ao mesmo tempo, Al-Ghazali foi muito cuidadoso em não refutar tudo que os filósofos dissessem. Ele não rejeitou as descobertas dos cientistas-filósofos das ciências naturais, e admitia que muitos avanços científicos haviam sido feitos. Também repudiou os muçulmanos que, em nome da religião, rejeitavam toda ciência que estivesse ligada aos filósofos, afirmando que essaabordagem somente levaria os filósofos a concluírem que o Islam baseava-se na ignorância. Al-Ghazali defendia a aceitação das conquistas científicas válidas, e desafiava os filósofos a provarem suas objeções em relação à teologia islâmica. Ibn Rushd, um filósofo aristotélico e racionalista, respondeu ao livro de Al-Ghazali com um de sua autoria, Tuhafut al-Tuhafut ("A Incoerência da Incoerência"), no qual ele reproduziu e comentou seus argumentos, página por página.
Al-Ghazali é considerado um dos maiores teólogos do Islam. Seus argumentos influenciaram sábios religiosos judeus e cristãos e até Santo Tomás de Aquino usou muito dos temas de Al-Ghazali para fortalecer o cristianismo no Ocidente.
Abu'l Waleed Muhammad Ibn Ahmad Ibn Muhammad Ibn Rushd nasceu em Córdoba, em 1126, então parte da Espanha Muçulmana. Foi um dos maiores pensadores e cientistas do século XII. Conhecido no ocidente por seu nome latino, Averróes, Ibn Rushd influenciou a cultura do mundo islâmico e da Europa por séculos, e é melhor conhecido no Ocidente por seus comentários sobre a filosofia aristotélica.
Como muitos sábios famosos antes dele, Ibn Rushd gozava da simpatia da corte real e passou sua vida entre a classe dirigente de Marraquesh, Marrocos e das cidades espanholas de Sevilha e Córdoba. Embora suas opiniões sobre religião e filosofia ocasionalmente aborrecessem seus padrinhos, Ibn Rushd foi capaz de continuar seus estudos nesse campo, graças a sua amizade com os governantes muçulmanos. Ele foi fortemente influenciado pela filosofia grega e escreveu muitos comentários a respeito das obras de Aristóteles. Ele usava o racionalismo grego para questionar diversos princípios da teologia islâmica, ganhando a crítica de muitos religiosos muçulmanos eruditos, como Al-Ghazali, por exemplo. Apesar de sua defesa veemente da filosofia, Ibn Rushd era um muçulmano devotado que também tentou integrar a visão política de Platão ao moderno estado islâmico, harmonizando o pensamento grego e as tradições islâmicas.
Enquanto o mundo islâmico se dividia no apoio à obra filosófica de Ibn Rushd, ele ficou muito popular na Europa. Seus comentários sobre a obra de Aristóteles e Platão foram traduzidos para o latim, inglês, alemão e hebreu, e depois foram incluídos nas edições sobre as obras dos filósofos gregos. A idéia de que ele foi mais popular no Ocidente do que no mundo islâmico, foi também baseada no fato de que poucos de seus escritos sobreviveram em língua original, o árabe.
Além de filósofo, Ibn Rushd foi médico e astrônomo. Seu famoso livro sobre medicina, Kitab al Kulyat fi al-Tibb, discutiu vários diagnósticos e curas para as doenças, assim como a sua prevenção. Ele foi o físico pessoal de muitos dos califas almorávidas em Espanha e no Magrebe. Na astronomia, escreveu tratados sobre o movimento das esferas.
4. Abu Yusuf Ya'qub Kindi, 5. Ibn Bajjah, 6. Abu 'Ali al-Husayn Ibn Sina (Avicena), 7. Ibn Tufayl, 8. Nasir al-Din al-Tusi, 9. Ibn Miskawayh.
1. Al-Tabari, 2. al-Zamakhshari, 3. al-Suyuti, 4. Ibn Qutaybah,
1. Abu Musa Jabir ibn Hayyan, 2. al-Razi,
Para a civilização ocidental, as contribuições da Espanha islâmica foram de valor inestimável. Quando os muçulmanos entraram no sul da Espanha - que eles chamavam al-Andalus - os bárbaros do norte tinham devastado grande parte da Europa e a civilização clássica greco-romana já se tinha eclipsado. A Espanha islâmica, então, tornou-se a ponte por intermédio da qual todo o legado científico, tecnológico e filosófico do período abássida, juntamente com as realizações da própria Andaluzia, foi passado para a Europa.
No primeiro século do governo muçulmano na Espanha, a cultura foi fortemente influenciada pela próspera civilização que se desenvolveu em Bagdá. Mas, durante o reinado de Abd al-Rahman III (912-961), a Espanha islâmica começou a ter uma identidade própria.
Abd al-Rahman III era um apaixonado tanto pela religião quanto pelas ciências seculares. Ele também estava determinado a mostrar ao mundo que sua corte em Córdoba igualava-se, em grandeza, à dos califas de Bagdá. Sem poupar esforços, tempo ou dinheiro, ele importou livros de Bagdá e recrutou sábios, oferecendo incentivos. Em decorrência, sábios, poetas, filósofos, historiadores e músicos logo começaram a emigrar para a Andaluzia e toda uma infra-estrutura de bibliotecas, hospitais, instituições de pesquisa e centros de estudos islâmicos surgiu, criando a tradição intelectual e o sistema educacional que tornariam a Espanha proeminente pelos quatro séculos seguintes.
Um dos primeiros sábios a chegar à Andaluzia foi 'Abbas ibn Firnas, que veio para ensinar música, então um ramo da teoria matemática, e atualizar a corte de 'Abd al-Rahman a respeito dos progressos neste campo em Bagdá. Mas Ibn Firnas não era um homem limitado a um único campo de estudo. Logo começou a investigar a mecânica do vôo. Construiu um par de asas armadas numa estrutura de madeira e fez a primeira tentativa de voar, antecipando-se a Leonardo da Vinci em mais ou menos seiscentos anos. Mais tarde, tendo sobrevivido ao experimento com um ferimento nas costas, ele construiu um planetário. Não só era mecanizado como também simulava fenômenos meteorológicos, como os raios e trovões.
Da mesma forma que nos centros de estudos em Bagdá, o interesse da Espanha islâmica na matemática, astronomia e medicina foi sempre muito grande - em parte por causa de sua utilidade óbvia. No século X, os matemáticos de Córdoba começaram a dar suas contribuições pessoais. O primeiro matemático e astrônomo de Andaluzia foi Maslamah al-Majriti, que morreu em 1008. Ele foi precedido por cientistas competentes - homens como Ibn Abi 'Ubaydah, de Valência, um notável astrônomo do século X. Mas, Majriti foi especial. Escreveu inúmeros trabalhos sobre matemática e astronomia, estudou e elaborou a tradução dos trabalhos de Ptolomeu e ampliou e corrigiu as tabelas astronômicas do famoso al-Khwarazmi. Ele também compilou as tabelas de conversão, nas quais ele relacionou as datas do calendário persa com as datas da Hégira, a fim de que, pela primeira vez, os eventos do passado persa pudessem ser datados com precisão.
Al-Zarqali, conhecido no ocidente com Arzaquel, foi outro notável matemático e astrônomo que viveu em Córdoba, no século XI. Combinando o conhecimento teórico com a habilidade técnica, ele se sobressaiu na construção de instrumentos para uso astronômico e de um relógio d'água, capaz de determinar as horas do dia e da noite e de indicar os dias dos meses lunares. Também contribuiu para as famosas Tabelas Toledanas, uma compilação apuradíssima de dados astronômicos. Arzaquel foi famoso, ainda, por causa de seu Livro das Tabelas. Muitas dessas tabelas haviam sido compiladas antes dele, mas o seu é um almanaque contendo tabelas que permitem encontrar os dias em que começam os meses coptas, romanos, lunares e persas, outras tabelas que dão a posição dos planetas a qualquer tempo e ainda outras que facilitam a previsão dos eclipses lunares e solares. Também compilou tabelas valiosas de latitude e longitude.
Um outro sábio importante foi al-Bitruji, que desenvolveu uma nova teoria do movimento estelar, baseado no pensamento de Aristóteles, em seu Livro da Forma, um trabalho que teve mais tarde grande circulação no ocidente. Os nomes de muitas estrelas ainda são aqueles dados pelos astrônomos muçulmanos, como Altair (de al-tair, "aviador"), Betelgeuse (de bait al-jawza, "a casa dos gêmeos"), além de outros termos ainda em uso até hoje, como zenith, nadir e azimut, que também são derivados do árabe, refletindo, assim, o trabalho dos astrônomos muçulmanos de Andaluzia e seu impacto no Ocidente.
Cientistas da Espanha islâmica também contribuíram para a medicina, a ciência muçulmana por excelência. O interesse na medicina estava presente desde os primeiros tempos do Islam (o próprio Profeta afirmou que havia um remédio para cada doença), e embora os maiores clínicos muçulmanos estivessem em Bagdá, os de Andaluzia também deram as suas importantes contribuições. Ibn al-Nafs, por exemplo, descobriu a circulação pulmonar do sangue.
Durante o século X, em especial, a Andaluzia produziu um grande número de excelentes clínicos, alguns dos quais estudaram os trabalhos médicos gregos traduzidos pela famosa Casa da Sabedoria, em Bagdá. Entre eles está Ibn Shuhayd, que numa obra fundamental recomendou o uso de drogas somente no caso de o paciente não responder à dieta e recomendava o uso de drogas simples somente nos casos mais sérios. Uma outra figura importante foi Abu al-Qasim al-Zahrawi, o mais famoso cirurgião da Idade Média. Ele foi o autor do Tasrif, um livro que, traduzido para o latim, tornou-se texto médico obrigatório nas universidades européias no final da Idade Média. Sua seção sobre cirurgia contém ilustrações de instrumentos cirúrgicos de desenho funcional e de grande precisão.
Outros capítulos descrevem cirurgias odontológicas, oftálmicas e amputações, e o tratamento de feridas e fraturas. Ibn Zuhr, conhecido como Avenzoar, foi um clínico habilidoso e foi o primeiro a descrever abcessos pericardiais e a recomendar a traqueostomia quando necessári, e Ibn Rushd escreveu um livro sobre teorias e preceitos médicos. O último dos grandes clínicos andaluzes, Ibn al-Khatib, também famoso historiador, poeta e estadista, escreveu um livro importante sobre a teoria do contágio, onde ele diz: "A infecção fica clara para o investigador quando ele, não estando em contato, permanece a salvo", e descreveu como se dá a transmissão através das roupas, recipientes e brincos.
A Espanha islâmica também trouxe contribuições para a ética médica e a higiene. Um dos mais eminentes teólogos e juristas, Ibn Hazm, insistia que as qualidades morais eram obrigatórias para qualquer clínico. Um médico, escreveu ele, deve ser gentil, compreensivo, amigo e capaz de suportar insultos e a crítica adversa. Além disso, deve ter cabelos e unhas curtos, vestir roupas limpas e comportar-se com dignidade.
Os cientistas andaluzes também se interessaram por botânica. Ibn al-Baytar, por exemplo, o mais famoso botânico andaluz, escreveu um livro chamado Drogas Simples e Alimento, um compêndio em ordem alfabético das plantas medicinais, muitas das quais eram nativas da Espanha e do norte da África e que levou toda a sua vida coletando. Em outro tratado, Ibn al-'Awwam listou cem espécies de plantas e deu instruções precisas a respeito de seu cultivo e uso. Ele escreveu, por exemplo, sobre como enxertar plantas, produzir híbridos, acabar com a ferrugem e outras pragas e como fazer perfumes.
Um outro importante campo de estudo na Andaluzia, foi o estudo da geografia. Em parte por questões de ordem econômica e política, mas, principalmente, por uma curiosidade sobre o mundo e seus habitantes, os sábios da Espanha islâmica começaram com os trabalhos de Bagdá e prosseguiram por conta própria, acrescentando outras contribuições, como a geografia básica da Andaluzia, de Ahmad ibn Muhammad al-Razi, e uma descrição da topografia do norte da África, de Muhammad ibn Yusuf al-Warraq. Um outro geógrafo foi al-Bakri, um ministro importante da corte de Sevilha, mas também um lingüista ilustre e literato. Um de seus dois mais importantes trabalhos sobre geografia é voltado para a geografia da península arábica. Ele arrumou em ordem alfabética e listou os nomes das cidades, vilas, wadis e monumentos que ele coletou de hadices e das estórias. O outro foi uma enciclopédia do mundo todo, arranjado por ordem de país, onde cada um era precedido por uma breve introdução histórica. Incluía descrição dos povos, costumes e clima de cada país, os principais dados, as maiores cidades e até anedotas.
No estudo da geografia, figuras como Ibn Jubayr, um viajante andaluz, e o mais famoso viajante de todos, Ibn Battuta, também deram importantes contribuições. Nascido no norte da África, então dentro da esfera cultural da Espanha islâmica, Ibn Battuta viajou por 28 anos e escreveu um livro sobre suas viagens, que se mostrou uma rica fonte de consulta tanto para historiadores como para geógrafos. Incluía informações preciosas sobre os povos, lugares, navegação, rotas de caravans, estradas e hospedagens. Mas, o mais famoso geógrafo dessa época foi Al-Idrisi, que estudou em Córdoba. Depois de viajar muito, al-Idrisi se estabeleceu na Sicília e escreveu uma geografia sistemática do mundo, que ficou conhecido como o Livro de Roger, por causa de seu padrinho Roger II, o rei normando da Sicília. As informações contidas no Livro de Roger também foram gravadas num planisfério de prata, um mapa em forma de disco, que foi uma das maravilhas da época.
Inúmeros sábios na Andaluzia também se devotaram ao estudo da história e das ciências lingüisticas, a principal das "ciências sociais" cultivada pelos árabes. Ibn al-Khatib, por exemplo, se distinguiu em quase todos os ramos do ensino, produziu mais de 50 obras sobre viagens, medicina, poesia, música, política e teologia, assim como escreveu a mais bela história sobre Granada que chegou até nós. O espírito mais original do período, no entanto, foi indubitavelmente Ibn Khaldoun, o primeiro historiador a desenvolver e a explicar as leis gerais que regem a ascensão e declínio das civilizações.
Em seus Prolegômenos, uma introdução à enorme história universal de sete volumes - uma introdução maior do que alguns dos volumes -, Ibn Khaldun abordou a história como uma ciência e desafiou a lógica de muitos relatos históricos até então aceitos. Num certo sentido ele foi o primeiro filósofo moderno de história.
Uma outra grande área de atividade intelectual na Andaluzia foi a filosofia, onde foi feita uma tentativa de lidar com os problemas intelectuais surgidos com a introdução da filosofia grega no contexto islâmico. Um dos primeiros a lidar com isto foi Ibn Hazm, que, como autor de mais de 400 livros, foi descrito como "um dos gigantes da história intelectual do Islam". Existiram outros filósofos também, como Ibn Bajjah, que era médico, e Ibn Tufayl, o autor de Hayy ibn Yaqzan, a estória de um menin que cresceu em completa solidão numa ilha deserta e que, por seus próprios esforços, descobriu as mais elevadas realidades físicas e metafísicas. Foi, no entanto, Averróes - Ibn Rushd - quem alcançou a mais notável reputação. Ele era um aristotélico apaixonado e sua obra teve um efeito duradouro, através da tradução para o latim, sobre o desenvolvimento da filosofia ocidental.
A lista das contribuições da Espanha islâmica para o ocidente é, na verdade, quase que interminável. Além das contribuições nos campos da matemática, economia, medicina, botânica, geografia, história e filosofia, a Andaluzia também desenvolveu e aplicou importantes inovações tecnológicas: o moinho de vento e as novas técnicas para o trabalho em metal, tecelagem e construção.
Fonte: geocities.com