O Parnasianismo foi um movimento essencialmente poético que reagiu contra os abusos sentimentais dos românticos. Alguns críticos chegam a considerá-lo uma espécie de Realismo na poesia. Tal aproximação é relativa, pois apesar de algumas identidades (objetivismo, perfeição formal) as duas correntes apresentam visões de mundo distintas. O autor realista percebe a crise da auto-imagem elogiosa da burguesia européia, já não acredita em nenhum dos valores da classe dominante e a fustiga social e moralmente. Em compensação, o autor parnasiano mantém uma soberba indiferença frente aos dramas do cotidiano, isolando-se na sua "torre de marfim"*, onde elabora teorias formalistas de acordo com a inconseqüência e a superficialidade vitoriosas em vários setores artísticos, no final do século XIX.
Neste sentido, o Parnasianismo pode ser associado à Belle Époque - época dourada das elites européias, que se divertem com os lucros do espólio imperialista. O can-can, os cabarés e cafés parisienses, os janotas que bebem licor e as prostitutas de alta classe formam a imagem frenética de um mundo enriquecido e alegre.
Uma certeza inabalável preside esse mundo: a de que ele é eterno e superior. Assim, o Parnasianismo será a tradução poética de um período de euforia e de relativa tranqüilidade social, no qual a forma se sobreporá às idéias.
Seu surgimento deu-se na década de 60, através da revista Parnase contemporain, dirigida por Théophile Gautier. O poeta mais expressivo do grupo colaborador, Charles Baudelaire, mais tarde romperia com a pesada estética parnasiana.
O poeta deve ser neutro diante da realidade, esconder seus sentimentos, sua vida pessoal. A confissão íntima e o extravasamento subjetivo, tão caros aos românticos, são vistos como inimigos da poesia. O Eu precisa se apagar frente do mundo objetivo, eclipsar-se. O espetáculo humano, cenas da natureza ou simples objetos são registrados, sem que haja interferências da interioridade do artista. A exemplo do que ocorrera no Realismo e no Naturalismo, o escritor é aquele que observa e reproduz as coisas concretas. Tal postura iria se tornar muito complicada num gênero literário que, desde a sua fundação, centrara-se na revelação da alma.
Os parnasianos ressuscitam o preceito latino de que a arte é gratuita, que só vale por si própria. Ela não tem nenhum sentido utilitário, nenhum tipo de compromisso. É auto-suficiente e justifica-se apenas por sua beleza formal. Qualquer tipo de investigação do social, referência ao prosaico, interesse pelas coisas comuns a todos os homens seria "matéria impura" a comprometer o texto. Restabelecem, portanto, um esteticismo de fundo conservador que já vigora na arte da decadência romana. A literatura passa a ser apenas um jogo frívolo de espíritos elegantes.
O resultado da visão descompromissada é a celebração dos processos formais do poema. A verdade de uma obra de arte passa a residir apenas em sua beleza.
E a beleza é evidenciada pela elaboração formal.
Logo:
A mitologia da perfeição formal constitui o alvo e a angústia básica dos parnasianos. A beleza deve ser alcançada a qualquer custo e o artista sente-se, muitas vezes, impotente para a realização desta tarefa.
Olavo Bilac versa sobre o dilaceramento entre o ideal poético e a construção do poema em Perfeição, mostrando-a como uma cidadela inconquistável:
Nunca entrarei jamais no teu recinto;
na sedução e no fulgor que exalas,
ficas vedada, num radiante cinto
de riquezas, de gozos e de galas*
* Torre de marfim
* Galas - pompas, enfeites luxuosos.
Em Inania verba (Fúteis palavras), Bilac vai mais longe, atribuindo o fracasso expressivo do escritor a impossibilidade das idéias serem corretamente traduzidas pelas palavras, o pensamento se deformando na forma fria:
Ah! quem há-de exprimir, alma impotente e escrava,
O que a boca não diz, o que a mão não escreve
-- Ardes, sangras, pregada à tua cruz e, em breve,
Olhas, desfeito em lodo, o que te deslumbrava...O Pensamento ferve, e é um turbilhão de lava:
A forma, fria e espessa, é um sepulcro de neve...
E a Palavra pesada abafa a Idéia leve,
Que, perfume e clarão, refulgia e voava.Quem o molde achará para a expressão de tudo
Ai! quem há-de dizer as ânsias infinitas
Do sonho e o céu que foge à mão que se levantaE a ira muda e o asco mudo e o desespero mudo
E as palavras de fé que nunca foram ditas
E as confissões de amor que morrem na garganta
Mas, afinal, o que é forma para os parnasianos? Eles consideram como forma a maneira do poema ser apresentado, seus aspectos exteriores. Forma seria assim a técnica de construção do poema. Isso representava uma simplificação primária do fazer poético e do próprio conceito de forma que passava a ser apenas uma fórmula.
Uma fórmula resumida em alguns itens básicos:
Os versos devem ter o mesmo número de sílabas poéticas, preferencialmente doze sílabas (versos alexandrinos), os preferidos na época, como neste fragmento de Bilac:
Pátria, latejo em ti, no teu lenho*, por onde
Circulo! e sou perfume, e sombra, e sol, e orvalho!
E, em seiva, ao teu clamor a minha voz responde,
E subo do teu cerne* ao céu de galho em galho!
Ou apresentar uma simetria constante, do tipo: primeiro verso de oito sílabas, segundo de quatro sílabas, terceiro de oito sílabas, quarto com quatro sílabas, etc. O exemplo ainda é de Bilac:
Porque o escrever -- tanta perícia,
Tanta requer
Que ofício tal... nem há notícia
De outro qualquer. ;
Os poetas devem evitar as rimas pobres, isto é, aquelas estabelecidas por palavras da mesma classe gramatical, como substantivo com substantivo, adjetivo com adjetivo, etc. No período há uma ênfase no tipo de rima ABAB para as estrofes de quatro versos, isto é o primeiro verso rima com o terceiro, o segundo com o quarto. Não é incomum, contudo, o uso de rimas ABBA, isto é o primeiro verso rima com o quarto e o segundo com o terceiro.
Os parnasianos reivindicam a tradição clássica do soneto, composição poética de quatorze versos - articulada obrigatoriamente em dois quartetos e dois tercetos - e que se encerra com uma "chave de ouro", espécie de síntese do poema, manifesta tão somente no último verso.
Eliminando o Eu, a participação pessoal e social, só resta ao parnasiano uma poética baseada no mundo dos objetos, objetos mortos: vasos, colares, muros, etc.
São pequenos quadros, fortemente plásticos (visuais), fechados em si mesmos, com grande precisão vocabular e freqüente superficialidade.
O trecho abaixo pertence ao conhecido Vaso chinês, de Alberto de Oliveira:
Estranho mimo aquele vaso! Vi-o
Casualmente, uma vez, de um perfumado
Contador sobre o mármore luzidio,
Entre um leque e o começo de um bordado.
Apesar de todo o esforço, os parnasianos não conseguem articular poemas sem conteúdo e são obrigados a encontrar um assunto desvinculado no mundo concreto para motivo de suas criações. Escolhem a Antigüidade Clássica, aspectos de sua história e de sua mitologia.
Esta matéria poderia render excepcionais reflexões filosóficas e existenciais, pois integramos o Ocidente, e o nosso jeito de ser, agir e pensar é profundamente marcado pela civilização grega, e mesmo pela romana. Mas os poetas do período optam por quadros estáticos. Nos deparamos então com centenas de textos que falam de deuses, heróis, personagens históricos, cortesãs, fatos lendários e até mesmo objetos.
A sesta de Nero, de Olavo Bilac, foi considerado na época um grande poema:
Fulge de luz banhado, esplêndido e suntuoso,
O palácio imperial de pórfiro luzente*
É marmor da Lacônia*. O teto caprichoso
Mostra em prata incrustrado, o nácar* de Oriente.Nero no toro ebúrneo* estende-se indolente
Gemas em profusão no estrágulo* custoso
De ouro bordado vêem-se. O olhar deslumbra, ardente
Da púrpura da Trácia* o brilho esplendoroso.Formosa ancila* canta. A aurilavrada lira
Em suas mãos soluça. Os ares perfumando,
Arde a mirra da Arábia em recendente pira.Formas quebram, dançando, escravas em coréia*.
E Nero dorme e sonha, a fronte reclinando
Nos alvos seios nus da lúbrica* Pompéia.
Pórfiro luzente: mármore luminoso
Lacônia: Grécia.
Nácar: substância brilhante que se encontra no interior das
conchas.
Estrágulo: tapete, tapeçaria.
Trácia: região da Europa oriental.
Ancila: escrava
Coréia: bailado
Lúbrica: sensual
No Brasil, a adoção do Parnasianismo tem um múltiplo significado:
Representa um desligamento da realidade local no que essa tinha de pobre, feia e suja. Na adoção de valores europeus, os poetas fecham suas obras para um mundo grosseiro, feito de horrores, pestes e exploração, trocando o país concreto pela antigüidade, pelo sonho com a cidade-luz, Paris, e pelo nacionalismo ufanista. Nem todos os parnasianos são conservadores do ponto de vista político, mas sua arte o é.
Assinala o triunfo de uma estética rígida que corresponde a uma sociedade imobilizada. Os princípios da escola tornam-se cânones e quem os desobedece , não ingressa no reino da poesia. Surgem vários tratados, ensinando os leitores os preceitos e os truques da nova poética que acaba caindo no gosto do público.
Um público pequeno: a elite leitora de fins do século XIX chega no máximo a cinco por cento da população.
Apresenta uma arte centrada em obviedades escritas com ênfase retórica. Além das fórmulas fixas de agrado popular, como o soneto, do refinamento verbal - que distinguia o letrado do semi-analfabeto - e das regras autoritárias de poesia, os parnasianos produzem mensagens convencionais, insípidas e, até mesmo, certas reflexões filosóficas muito próximas da banalidade. Esta tendência ao convencional e ao lugar-comum consolida-se socialmente porque não ameaça, não questiona, não põe em xeque as concepções que as classes dirigentes tinham de si mesmas e do Brasil.
Domina intelectualmente o país por quarenta anos. De maneira inesperada, os poetas do período acabam ganhando adeptos não somente nas elites, mas também nos círculos intelectuais das nascentes classes médias urbanas. Assim, o Parnasianismo espalha-se por todo o país, alcançando um número monumental de seguidores. Seu domínio foi de tal ordem que os organizadores da Semana de Arte Moderna tiveram como um dos objetivos básicos a destruição desses modelos parnasianos de poesia e de cultura.
Coloca a criação literária como resultante do esforço e não da inspiração. Os românticos haviam expresso uma crença tão apaixonada na espontaneidade, no "borbulhar do gênio", no instinto criativo, que todo o trabalho de pesquisa e cuidado formal do artista parecia supérfluo. Já os parnasianos consideram a poesia como um processo artesanal de luta com as palavras, de busca do rigor, de suor e dedicação. Rompem com o amadorismo e a facilidade. Mostram que a arte, normalmente, não aceita os preguiçosos e aproximam-se da visão contemporânea sobre a construção do texto literário e o papel profissional do escritor.
A primeira manifestação parnasiana no Brasil data de 1882, ano em que se publica o medíocre Fanfarras, de Teófilo Dias.
Mas o movimento estrutura-se e ganha prestígio popular com a constituição da famosa tríade parnasiana: Olavo Bilac, Raimundo Correia e Alberto de Oliveira.
VIDA
Nasceu no Rio de Janeiro, numa família de classe média. Estudou Medicina e depois Direito, sem se formar em nenhum dos cursos. Jornalista, funcionário público, inspetor escolar, secretário do prefeito do Distrito Federal, exerceu constante atividade republicana e nacionalista, realizando pregações cívicas em todo o país, inclusive pelo serviço militar obrigatório. Era um exímio conferencista e representou o país em vários encontros diplomáticos internacionais. Foi coroado como "príncipe dos poetas brasileiros", encarnando a liderança do grupo parnasiano. Por isso, ingressou na Academia de Letras, na condição de fundador. Paralelamente, teve certas veleidades boêmias e estas inclinações noturnas não deixaram de escandalizar e, ao mesmo tempo, fascinar a época.
OBRAS
Poesias (Reunião dos livros Panóplias, Via-láctea e Sarças de fogo -1888); Tarde (1918)
A melhor definição de Olavo Bilac é feita por Antonio Candido: "admirável poeta superficial". Poucos escritores no país merecem um conceito tão surpreendente.
Admirável ele é porque soube valorizar a profissão de homem de letras, transformando-a, conforme suas próprias palavras em "um culto e um sacerdócio".
Admirável é também a sua habilidade técnica que o leva a versificar com meticulosa precisão: parece que jamais erra métrica ou rima. "Todas as suas emoções eram já metrificadas com exatidão e rimadas com abundância", diz Mário de Andrade. Admirável, por fim, são os inúmeros sonetos que rompem com os mitos da impassibilidade e da objetividade absoluta - indicando uma herança romântica da qual o poeta não pode ou não quer se livrar.
Superficial nele são os quadros históricos e mitológicos, o erotismo de salão, as miniaturas descritivas e o nacionalismo ufanista. Os temas, em geral, não estão à altura do domínio técnico e dos recursos de linguagem. Como acentua o próprio Antonio Candido, o poeta transforma tudo, o drama humano e a natureza, em "espetáculo", em coisa, em matéria-prima dos recursos esculturais do verso.Com algumas exceções, seus poemas nada aprofundam e ainda passam uma sensação de frieza.
Podemos indicar os seguintes assuntos como dominantes em sua poética:
A Antigüidade greco-romana
A temática da perfeição
O lirismo amoroso
A reflexão existencial.
O nacionalismo ufanista
O LIRISMO AMOROSO
Bilac trata do amor a partir de dois ângulos distintos: um mais filosófico e sentencioso; o outro, mais descritivo e sensual. O primeiro caso ocorre nos trinta e cinco sonetos que compõem o livro Via láctea e que lhe granjearam imensa popularidade.
Escritos em decassílabos*, apresentam reflexões, lembranças, paixões concretas ou irrealizadas, cogitações sobre o caráter do afeto, etc., num conjunto de qualidade desigual, oscilando entre o gosto romântico e o gosto clássico.
O soneto XIII tornou-se antológico:
Ora (direis) ouvir estrelas! Certo
Perdeste o senso!" E eu vos direi, no entanto,
Que, para ouvi-las, muita vez desperto
E abro as janelas, pálido de espanto...E conversamos toda a noite, enquanto
A via láctea , como um pálio aberto,
Cintila. E, ao vir do sol, saudoso e em pranto,
Inda as procuro pelo céu deserto.Direis agora: "Tresloucado amigo!
Que conversas com elas? Que sentido
Tem o que dizem, quando estão contigo?"E eu vos direi: "Amai para entendê-las!
Pois só quem ama pode ter ouvido
Capaz de ouvir e entender estrelas."
*Decassílabos: versos de dez sílabas poéticas
A estes comentários sobre o significado dos sentimentos, o autor vai preferir, em Sarças de fogo, a celebração dos prazeres corpóreos. Uma profusão de beijos infinitos, abraços escaldantes, sangue fervente e atritos libidinosos ajudam a enriquecer aquele erotismo do fim do século XIX e cuja expressão em nossa pintura é Visconti (ver ilustração).
Olavo Bilac tem o olho fremente do voyeur (sujeito que se excita apenas com a contemplação dos corpos ou do ato sexual) e se compraz na descrição nem sempre sutil da anatomia feminina. Se levarmos em conta que a nudez das mulheres era um tabu na sociedade brasileira, podemos imaginar o frêmito que os seus poemas causavam então. Em Satânia, a luz do meio-dia cobre de carícias o seu esplêndido corpo.
Nua, de pé, solto o cabelo às costas,
Sorri. Na alcova perfumada e quente,
Pela janela, como um rio enorme,
Profusamente a luz do meio-dia
Entra e se espalha, palpitante e viva. (...)
Como uma vaga preguiçosa e lenta,
Vem lhe beijar a pequenina ponta
Do pequenino pé macio e branco.Sobe...Cinge-lhe a perna longamente;
Sobe... - e que volta sensual descreve
Para abranger todo o quadril! - prossegue,
Lambe-lhe o ventre, abraça-lhe a cintura,
Morde-lhe os bicos túmidos dos seios,
Corre-lhe a espádua, espia-lhe o recôncavo
Da axila, acende-lhe o coral da boca.(...)E aos mornos beijos, às carícias ternas
Da luz, cerrando levemente os cílios,
Satânia os lábios úmidos encurva
E da boca na púrpura sangrenta
Abre um curto sorriso de volúpia...
Em alguns poemas, contudo, o autor de Tarde consegue mesclar uma visão sensual da vida com meditações carregadas de melancolia e desassossego sobre a proximidade da velhice e da morte. Possivelmente são as suas melhores criações.
Não há como fugir da beleza da primeira estrofe de O vale, por exemplo:
Sou como um vale, numa tarde fria
Quando as almas dos sinos, de uma em uma,
No soluçoso adeus da ave-maria
Expiram longamente pela bruma.
Nem da força de In extremis, onde na hora da morte (imaginária), o poeta lamenta a perda das coisas concretas e eróticas da existência:
Nunca morrer assim! Nunca morrer num dia
Assim! de um sol assim!
Tu, desgrenhada e fria,
Fria! postos nos meus os teus olhos molhados,
E apertando nos teus os meus dedos gelados...E um dia assim! de um sol assim! E assim a esfera
Toda azul, no esplendor do fim da primavera!
Asas, tontas de luz, cortando o firmamento!
Ninhos cantando! Em flor a terra toda! O vento
Despencando os rosais, sacudindo o arvoredo...E, aqui dentro, o silêncio... E este espanto! e este medo!
Nós dois...e, entre nós dois, implacável e forte,
A arredar-me de ti, cada vez mais, a morte...Eu com o frio a crescer no coração, - tão cheio
De ti, até no horror do derradeiro anseio!
Tu, vendo retorcer-se amarguradamente,
A boca que beijava a tua boca ardente,
A boca que foi tua!E eu morrendo! e eu morrendo
Vendo-te, e vendo o sol, e vendo céu, e vendo
Tão bela palpitar nos teus olhos, querida,
A delícia da vida! a delícia da vida!"
Olavo Bilac também quebra a impassibilidade parnasiana com o patriotismo retumbante de seus versos. Transforma-se numa espécie de poeta oficial da República Velha, fugindo do Brasil problemático e inventando um Brasil de heróis intrépidos, grandezas infinitas e símbolos a serem amados.
Bandeirantes ferozes, como Fernão Dias Pais Leme, são transformados em agentes da civilização ("Violador dos sertões, plantador de cidades / Dentro do coração da pátria viverás!") A natureza, a exemplo do Romantismo, vira expressão da nacionalidade. Crianças são convocadas a amar a pátria com "fé e orgulho". E a poesia parece diluir-se num manual de civismo.
Mesmo assim - descontados o tom declamatório e o excesso ufanista - sente-se aqui e ali a dimensão do verdadeiro criador.
O caçador de esmeraldas, rápida e frustrada tentativa épica, tem um belo início:
Foi em março, ao findar das chuvas, quase à entrada
Do outono, quando a terra, em sede requeimada,
Bebera longamente as águas da estação,
Que, em bandeira, buscando esmeraldas e prata,
À frente dos peões filhos da rude mata,
Fernão Dias Paes Leme entrou pelo sertão.
Um dos seus poemas patrióticos mais conhecidos é Língua portuguesa:
Última flor do Lácio*, inculta e bela,
És, a um tempo, esplendor e sepultura:
Ouro nativo, que na ganga* impura
A bruta mina entre os cascalhos vela...Amo-te assim, desconhecida e obscura.
Tuba* de alto clangor*, lira singela,
Que tens o trom* e o silvo da procela* ,
E o arrolo* da saudade e da ternura!
-
Amo o teu viço agreste e teu aroma
De virgens selvas e de oceano largo!
Amo-te, ó rude e doloroso idioma,Em que da voz materna ouvi: "meu filho!"
E em que Camões chorou, no exílio amargo,
O gênio sem ventura e o amor sem brilho!
* Lácio: região que circunda Roma e onde se origina o latim.
* Ganga: resíduo inútil de minério.
* Tuba: instrumento de sopro, similar à trombeta
* Clangor: som forte
* Trom: som de trovão
* Procela: tempestade
* Arrolo: arrulho, acalanto
VIDA
Nasceu no interior do Rio de Janeiro e formou-se em Farmácia. Exerceu várias funções públicas, entre as quais o magistério e tornou-se um dos fundadores da Academia Brasileira de Letras. Sua lírica descritivista e convencional lhe garantiu um lugar no gosto médio da época, substituindo Olavo Bilac na condição de "príncipe dos poetas brasileiros", em 1924, quando o Parnasianismo já fora destruído pelas novas elites artísticas do país. Morreu em Niterói, aos oitenta anos.
OBRAS PRINCIPAIS
Meridionais (1884); Versos e rimas (1895); O livro de Ema (1900)
Entre todos os parnasianos é o que mais permanece atado aos rigorosos padrões do movimento. Manipula os procedimentos técnicos de sua escola com precisão, mas essa técnica ressalta ainda mais a pobreza temática, a frieza e a insipidez de uma poesia hoje ilegível. Alfredo Bosi acentua que o criador de Vaso grego sonha em desfazer-se de todos os compromissos com a realidade.
Na década de 1920, Mário de Andrade já havia escrito que o único problema de Alberto de Oliveira era o não ter nada para dizer, e que uma lágrima de qualquer poema de Goethe possuía mais lirismo que a obra completa desse parnasiano menor.
Confirmando a justiça desses julgamentos, pouco encontramos em Alberto de Oliveira além de poemas que reproduzem mecanicamente a natureza e objetos decorativos. Enfim, uma poesia de rimas exatas e métrica correta. Uma poesia sobre coisas inanimadas. Uma poesia tão morta como os objetos descritos.
Vaso grego é a tradução desta mediocridade:
Esta de áureos* relevos, trabalhada
De divas* mãos, brilhante copa, um dia,
Já de aos deuses servir como cansada,
Vinda do Olimpo, a um novo deus servia.Era o poeta de Teos* que a suspendia
Então, e, ora repleta ora esvazada,
A taça amiga aos dedos seus tinia,
Toda de roxas pétalas colmada*.Depois... Mas o lavor da taça admira,
Toca-a, e do ouvido aproximando-a, às bordas
Finas hás de lhe ouvir, canora e doce,Ignota* voz, qual se da antiga lira
Fosse a encantada música das cordas
Qual se essa voz de Anacreonte* fosse.
* Áureos: de ouro
* Diva: deusa, mulher formosa
* Teos:
* Colmada: coberta
* Ignota: desconhecida
* Anacreonte: poeta grego
VIDA
Nasceu no Maranhão e formou-se advogado, em São Paulo. Trabalha no interior do Rio de Janeiro como magistrado e, em Ouro Preto, como secretário de Finanças. Passa em seguida para a diplomacia, trabalhando em Lisboa. Volta mais tarde à antiga capital federal , onde mais uma vez exerce a magistratura. Morre, com cinqüenta e dois anos, em Paris, onde fazia um tratamento de saúde.
OBRAS PRINCIPAIS
Sinfonias (1883); Aleluias (1891)
A exemplo dos demais componentes da tríade parnasiana, Raimundo Correia foi um consumado artesão do verso, dominando com perfeição as técnicas de montagem e construção do poema. Alguns críticos valorizam nele o sentido plástico de suas descrições da natureza.
O gelo descritivista da escola seria quebrado por uma emoção genuína - fina melancolia - que humanizava a paisagem, como se pode visualizar no excerto abaixo:
Esbraseia o Ocidente na agonia
O sol...Aves bandos destacadas
Por céus de oiro e de púrpura raiados
Fogem...Fecha-se a pálpebra do dia...Delineiam-se, além da serraria,
Os vértices da chama aureolados.
E em tudo, em torno, esbatem derramados
Uns tons suaves de melancolia...
Essa melancolia transforma-se, em outros poemas, numa visão dolorida da existência. O acento pessimista, a busca de uma dimensão quase filosófica para o fracasso dos sonhos e certas emanações sensíveis garantiriam a Raimundo Correia um lugar especial dentro do Parnasianismo, não fosse a falta de originalidade de sua inspiração.
Mais de uma vez os estudiosos surpreenderam influências excessivas de autores estrangeiros em sua obra. Tanto em Mal secreto, quanto em As pombas, seus dois sonetos mais conhecidos, há um quase plágio de textos de Metastásio e Théofile Gautier, respectivamente.
A par dessa falta de singularidade, acrescente-se que ele ajuda a forjar o gosto da época por poemas de reflexão existencial. Poemas que, na rigidez da fórmula de quatorze versos, apresentam pequenas sínteses morais sobre a condição humana, numa filosofia bastante próxima da banalidade. Tais lugares-comuns do pensamento, como já vimos, agradavam ao público, mas estão longe de constituir fonte profunda de indagação e questionamento do sentido da vida.
Entre as "pérolas" de seu repertório está justamente o soneto As pombas, um dos mais recitados no país:
Vai-se a primeira pomba despertada...
Vai-se outra mais...mais outra...enfim dezenas
De pombas vão-se dos pombais, apenas
Raia sangüínea e fresca a madrugada...E à tarde, quando a rígida nortada
Sopra, aos pombais de novo elas, serenas,
Ruflando as asas, sacudindo as penas,
Voltam todas em bando e em revoada...Também dos corações onde abotoam,
Os sonhos, um por um, céleres voam,
Como voam as pombas dos pombais;No azul da adolescência as asas soltam,
Fogem...Mas aos pombais as pombas voltam,
E eles aos corações não voltam mais...
Não menos enfático e declamatório, e com aquele acento filosofante beirando à trivialidade, é o soneto Mal secreto:
Se a cólera que espuma, a dor que mora
N'alma, e destrói cada ilusão que nasce,
Tudo o que punge, tudo o que devora
O coração, no rosto se estampasse;Se se pudesse, o espírito que chora,
Ver através da máscara da face,
Quanta gente, talvez, que inveja agora
Nos causa, então piedade nos causasse!Quanta gente que ri, talvez, consigo
Guarda um atroz, recôndito* inimigo,
Como invisível chaga cancerosa!Quanta gente que ri, talvez existe,
Cuja ventura única consiste
Em parecer aos outros venturosa!"
Além do catarinense Luís Delfino, que com Sonetos e rimas evolui do ultra-romantismo para um parnasianismo feito de referências ao mundo da Antigüidade, destaca-se também Francisca Júlia, que com Mármores torna-se o primeiro nome feminino conhecido em nossa literatura. Ela atinge, no dizer de um crítico, a absoluta impassibilidade exigida pelo movimento, sem que isso signifique, é óbvio, equivalente qualidade literária.
Fora a tríade, o nome mais significativo do período é o de Vicente de Carvalho, poeta santista que, em suas obras principais (Ardentias, Poemas e canções), tematiza preferencialmente o oceano dentro de uma técnica parnasiana. Pelo menos um crítico viu nesta obsessão pelo mar um legado cultural do Romantismo. O certo, entretanto, é que, apesar da beleza de algumas descrições, livres dos rigor formal da escola, o poeta manteve quase sempre a objetividade, fugindo de um registro original ou subjetivo da natureza.
Algumas de suas "marinhas" são mais espontâneas:
Mar, belo mar selvagem
Das nossas praias solitárias. Tigre
A que as brisas da terra o sono embalam,
A que o vento largo eriça o pêlo!
* Recôndito: escondido, âmago.
Fonte: www.ligse.com.br