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Trovadorismo

 

Às primeiras décadas desta época transcorrem durante a guerra de reconquista do solo português ainda em parte sob domínio mourisco, cujo derradeiro ato se desenrola em 1249, quando Afonso III se apodera de Albufeira, Faro, Loulé, Aljezur e Porches, no extremo sul do País, batendo definitivamente os últimos baluartes sarracenos em Portugal. E apesar de Mo absorvente a prática guerreira durante esses anos de consolidação política e territorial, a atividade literária beneficiou-se de condições propícias e pôde desenvolver-se normalmente. Cessada a contingência bélica, observa-se o recrudescimento das manifestações sociais típicas dos períodos de paz e tranqüilidade ociosa, entre as quais a literatura.

Em resultado desse clima pós-guerra, a poesia medieval portuguesa alcança, na segunda metade do século XIII, seu ponto mais alto.

A origem remota dessa poesia constitui ainda assunto controvertido;- admitem-se quatro fundamentais teses para explicá-la: a tese arábica, que considera a cultura arábica como sua velha raiz; a tese folclórica, que a julga criada pelo povo; a tese médio-latinista, segundo a qual essa poesia ter-se-ia originado da literatura latina produzida durante a Idade Média; a te se litúrgica considera-a fruto da poesia litúrgico-cristã elaborada na mesma época. Nenhuma delas é suficiente, para resolver o problema, tal a sua unilateralidade. Temos de apelar para todas, ecleticamente, a fim de abarcar a multidão de aspectos contrastantes apresentada pela primeira floração da poesia medieval.

Todavia, é da Provença que vem o influxo próximo. Aquela região meridional da França tornara-se no século XI um grande centro de atividade lírica, mercê das condições de luxo e fausto oferecidas aos artistas pelos senhores feudais. As Cruzadas, compelindo os fiéis a pró-curar Lisboa como porto mais próximo para embarcar com destino a Jerusalém, propiciaram a movimentação duma fauna humana mais ou menos parasitária, em meio à qual iam os jograis. Estes, penetrando pelo chamado “caminho francês” aberto nos Pirineus, introduziram em Portugal a nova moda poética.

Fácil foi sua adaptação à realidade portuguesa, graças a ter encontrado um ambiente favoravelmente predisposto, formado por uma espécie de poesia popular de velha tradição. A íntima fusão de ambas as correntes (a provençal e a popular) explicaria o caráter próprio assumido pelo trovadorismo em terras portuguesas.

A época inicia-se em 1198 (ou 1189), com a “cantiga de garvaia”, dedicada por Paio Soares de Taveirós a Maria Pais Ribeiro, e termina em 1418, quando Fern5o Lopes é nomeado Guarda-Mor da Torre do Tombo, ou seja, conservador do arquivo do Reino, por D. Duarte.

Origem da Palavra Trovador

Provença, o poeta era chamado de troubadour, cuja forma correspondente em Português é trovador, da qual deriva trovadorismo, trovadoresco, trovadorescamente.

No norte da França, o poeta recebia o apelativo trouvère, cujo radical é igual ao anterior: trouver (=achar): os poetas deviam ser capazes de compor, achar sua canção, cantiga ou cantar, e o poema assiM se denominava por implicar o canto e o acompanhamento musical.

Duas espécies principais apresentava a poesia trovadoresca: a lírico-amorosa e a satírica. A primeira divide-se em cantiga de amor e cantiga de amigo; a segunda, em cantiga de escárnio e cantiga de maldizer. O idioma empregado era o galego-português, em virtude da então unidade lingüística entre Portugal e a Galiza.

CANTIGA DE AMOR

Neste tipo de cantiga, o trovador empreende a confissão, dolorosa e quase elegíaca, de sua angustiante experiência passional frente a uma dama inacessível aos seus apelos, entre outras razões porque de superior estirpe social, enquanto ele era, quando muito, fidalgo decaído. Uma atmosfera plangente, suplicante, de litania, varre a cantiga de ponta a ponta. Os apelos do trovador colocam-se alto. num plano de espiritualidade, de idealidade ou contemplação platônica, mas entranham-se-lhe no mais fundo dos sentidos; o impulso erótico situado na raiz das súplicas transubstancia-se, purifica-se, sublima-se. Tudo se passa como se o trovador “fingisse”, disfarçando com o véu do espiritualismo, obediente às regras de conveniência social e da moda literária vinda da Provença, o verdadeiro e oculto sentido das solicitações dirigidas à dama.

A custa de “fingidos” ou incorrespondidos, os estímulos amorosos transcendentalizam-se: repassa-os um torturante sofrimento interior que se segue à certeza da inútil súplica e da espera dum bem que nunca chega. É a coita (= sofrimento) de amor, que, afinal, ele confessa.

As mais das vezes, quem usa da palavra é o próprio trovador, dirigindo-a com respeito e subserviência à dama de seus cuidados (mia senhor ou mia dona = minha senhora), e rendendo-lhe o culto que o “ser­viço amoroso” lhe impunha.

E este orienta-se de acordo com um rígido código de comportamento ético: as regras do “amor cortês”, recebidas da Provença.

Segundo elas, o trovador teria de mencionar comedida-mente o seu sentimento (mesura), a fim de não incorrer no desagrado (sanha) da bem-amada; teria de ocultar o nome dela ou recorrer a um pseudônimo (senhal), e prestar-lhe uma vassalagem que apresentava quatro fases: a primeira correspondia à condição de fenhedor, de quem se consome em suspiros; a segunda é a de precador, de quem ousa declarar-se e pedir; entendedor é o namorado; drut, o amante.

O lirismo trovadoresco português apenas conheceu as duas últimas fases, mas o drut (drudo em Português) se encontrava exclusivamente na cantiga de escárnio e maldizer- Também a senhal era desconhecida de nosso trovadorismo- Subordinando o seu sentimento às leis da corte amorosa, o trovador mostrava conhecer e respeitar as dificuldades interpostas pelas convenções e pela dama no rumo que o levaria à consecução dum bem impossível- Mais ainda: dum bem (e “fazer bem” significa corresponder aos requestos do trovador) que ele nem sempre desejava alcançar, pois seria pôr fim ao seu tormento masoquista, ou inicio dum outro maior. Em qualquer hipótese, só lhe restava sofrer, indefinidamente, a coita amorosa.

E ao tentar exprimir-se, a plangência da confissão do sentimento que o avassala, — apoiada numa melopéia própria de quem mais murmura suplicantemente do que fala —, vai num crescendo até a última estrofe (a estrofe era chamada na lírica trovadoresca de cobra; podia ainda receber o nome de cobla ou de talho). Visto uma idéia obsessiva estar empolgando o trovador, a confissão gira em torno dum mesmo núcleo, para cuja expressão o enamorado não acha palavras muito variadas, tão intenso e maciço é o sofrimento que o tortura. Ao contrário, a corrente emocional, movimentando-se num círculo vicioso, acaba por se repetir monotonamente, apenas mudado o grau do lamento, que aumenta em avalanche até o fim. O estribilho ou refrão, com que o trovador pode rematar cada estrofe, diz bem dessa angustiante idéia fixa para a qual ele não encontra expressão diversa.

Quando presente o estribilho, que é recurso típico da poesia popular, a cantiga chama-se de refrão- Quando ausente, a cantiga recebe o nome de cantiga de maestria, por tratar-se dum esquema estrófico mais complexo, intelectualizado, sem o suporte facilitador daquele expediente repetitivo.

CANTIGA DE AMIGO

Escrita igualmente pelo trovador que compõe cantigas de amor, e mesmo as de escárnio e maldizer, esse tipo de cantiga focaliza o outro lado da relação amorosa: o fulcro do poema é agora representado pelo sofrimento amoroso da mulher, via de regra pertencente às camadas populares (pastoras, camponesas, etc.). O trovador, amado incondicionalmente pela moça humilde e ingênua do campo ou da zona ribeirinha, projeta-se-lhe no íntimo e desvenda-lhe o desgosto de amar e ser abandonada, em razão da guerra ou de outra mulher.

O drama é o da mulher, mas quem ainda compõe a cantiga é o trovador:

1) pode ser ele precisamente o homem com quem a moça vive sua história; o sofrimento dela, o trovador é que o conhece, melhor do que ninguém;
2) por ser a jovem analfabeta, como acontecia mesmo às fidalgas.

O trovador vive uma dualidade amorosa, de onde extrai as duas formas de lirismo amoroso próprias da época: em espírito, dirige-se à dama aristocrática; com os sentidos, à camponesa ou à pastora. Por isso, pode expressar autenticamente os dois tipos de experiência passional, e sempre na primeira pessoa (do singular ou plural), 1) como agente amoroso que padece a incorrespondência, 2) como se falasse pela mulher que por ele desgraçadamente se apaixona. É digno de nota que essa ambigüidade, ou essa capacidade de projetar-se na interlocutora do episódio e exprimir-lhe o sentimento; extremamente curiosa como psicologia literária ou das relações humanas, não existia antes do trovadorismo nem jamais se repetiu depois.

No geral, quem ergue a voz é a própria mulher, dirigindo-se em confissão à mãe, às amigas, aos pássaros, aos arvoredos, às fontes, aos riachos, O conteúdo da confissão é sempre formado duma paixão in­transitiva ou incompreendida, mas a que ela se entrega de corpo e alma. Ao passo que a cantiga de amor é idealista, a de amigo é realista, traduzindo um sentimento espontâneo, natural e primitivo por parte da mulher, e um sentimento donjuanesco e egoísta por parte do homem.

Uma tal paixão haveria de ter sua história: as cantigas surpreendem “momentos” do namoro, desde as primeiras horas da corte até as dores do abandono, ou da ausência, pelo fato de o bem-amado estar no fossado ou no bafordo, isto é, no serviço militar ou no exercício das armas. Por isso, a palavra amigo pode significar namorado e amante.

A cantiga de amigo possui caráter mais narrativo e descritivo que a de amor, de feição analítica e discursiva. E classifica-se de acordo com o lugar geográfico e as circunstâncias em que decorrem os acontecimentos, em serranilha, pastorela, barcarola, bailada, romaria, alba ou alvorada (surpreende os amantes no despertar dum novo dia, depois de uma noite de amor).

CANTIGA DE ESCÁRNIO E CANTIGA DE MALDIZER

A cantiga de escárnio é aquela em que a sátira se constrói indiretamente, por meio da ironia e do sarcasmo, usando “palavras cobertas, que hajam dois entendimentos para lhe lo não entenderem”, como reza a Poética Fragmentária que precede o Cancioneiro da Biblioteca Nacional (antigo Colocci-Brancuti). Na de maldizer, a sátira é feita direta­mente, com agressividade, “mais descobertamente”, com “palavras que querem dizer mal e não haverão outro entendimento senão aquele que querem dizer chãmente”, como ensina a mesma Poética Fragmentária.

Essas duas formas de cantiga satírica, não raro escritas pelos mesmos trovadores que compunham poesia lírico-amorosa, expressavam, como é fácil depreender, o modo de sentir e de viver próprio de ambientes dissolutos, e acabaram por ser canções de vida boemia e escorraçada, que encontrava nos meios frascários e tabernários seu lugar ideal.

A linguagem em que eram vazadas admitia, por isso, expressões licenciosas ou de baixo-calão: poesia “maldita”, descambando para a pornografia ou o mau gosto, possui escasso valor estético, mas em contra­partida documenta os meios populares do tempo, na sua linguagem e nos seus costumes, com uma flagrância de reportagem viva.

Visto constituir um tipo de poesia cultivado notadamente por jograis de má vida, era natural propiciasse e estimulasse o acompanha­mento de soldadeiras (= mulheres a soldo), cantadeiras e bailadeiras, cuja vida airada e dissoluta fazia coro com as chulices que iam nas letras das canções.

Trovadorismo - Origem

trovadorismo floresce durante o medievo, na península Ibérica e França. É uma expressão musical e ao mesmo tempo literária.

Pode-se dizer que a figura do trovador (daí trovadorismo) sempre existira nas sociedades humanas: fora o bardo, o rapsodo, o aedo. Porém a religião, geografia, e a língua, serão pontos de distinção do trovador, que o colocarão como figura poética específica.

Durante o medievo, os deuses grego-latinos, embora não esquecidos (serão sempre a fonte de onde os poetas medievais irão se servir, sobretudo quando cantados por Virgílio, poeta de certa maneira adotado pela Igreja), não eram mais o objeto e o objetivo do poeta. O cristianismo tornara-se a religião dominante na Europa e a sua influência plasmara não só a fé, mas toda a estrutura social, inclusa as artes e as guerras.

O nascimento do trovadorismo galego-português está diretamente ligado à fundação da nação portuguesa.

Por volta do século XI, a península Ibérica fora palco de sangrentas batalhas que tinham como objetivo declarado expulsar os muçulmanos que desde o VIII ocupavam a região. Mas como ocorrerá no caso das Cruzadas, mais do que uma intenção religiosa, estas lutas terão fortes escopos políticos e territoriais. Assim, em breve a Lusitânia se afirmará como região politicamente independente do resto da península, e o primeiro rei de Portugal será Afonso I, que subirá ao trono em 1139.

Ainda por esta época, embora seja matéria difícil estabelecer o momento exato do surgimento de uma língua ou variação lingüística, na Lusitânia se consolidará como língua falada e escrita o galego-português.

O poeta que viverá este momento de reconquista, de religiosidade, de batalhas, do particular ambiente de corte da Idade Media, e da língua galego-portuguesa, será o trovador. E a sua arte refletirá o mundo que o rodeia. Contudo, o trovador não será um artista qualquer; a sua fama, ou o valor da sua arte, será atribuído primeiro de acordo com as suas origens familiares.

Para ser um trovador, o sujeito precisava antes de tudo ser um nobre, participar do ambiente de corte, ser culto; e se não gozasse de um bom nascimento, precisava ser o protegido de algum nobre de grande influência. Em outro caso seria denominado Jogral. Este, não sendo um nobre, ou não sendo um protegido, não freqüentava a corte, e cantava a sua poesia pelas ruas, muitas vezes indo de cidade em cidade.

trovadorismo representa a primeira escola literária galego-portuguesa.

As suas cantigas foram tardiamente organizadas em cancioneiros (Cancioneiro da Ajuda, o Cancioneiro da Biblioteca Nacional de Lisboa e o Cancioneiro da Vaticana) e então classificadas entre os generes lírico (cantigas de amor e de amigo) e satírico (cantigas de escárnio e maldizer). Os trovadores ainda escreveram as gestas, ou estórias de cavalaria. Nestas faz-se notar a forte influência das batalhas contra os mouros e a religiosidade cristã.

Trovadorismo - Período

Trovadorismo foi a primeira manifestação literária da língua portuguesa. Nesse período surgiram as cantigas, produções artísticas feitas por trovadores para expressar sentimentos como amor, saudade, irá e sarcasmo.

O Trovadorismo manifestou-se na Idade Média e estendeu-se até o século XV. Foi a primeira manifestação literária da língua portuguesa, no período em que Portugal estava em processo de formação nacional. As manifestações se baseavam em poemas feitos por trovadores (artistas de origem nobre) para ser apresentados em feiras, festas e castelos.

Aspecto Econômico

A Europa nessa época sofria com constantes invasões dos povos germânicos, causando inúmeras guerras. Perante isso, desenvolveu-se o sistema econômico denominado feudalismo. Nesse sistema, somente o senhor feudal poderia governar, tinha pleno poderes sobre seus servos e vassalos. O senhor feudal, também chamado de suserano, cedia a posse de terras a um vassalo que se comprometia a cultivá-la e a repassar parte da produção ao dono do feudo. Em troca disso, os servos ganhavam proteção militar e judicial em casos de ataques e invasões. Esse processo de subordinação recebe o nome de vassalagem.

Arte e Cultura

A Idade Média foi muito influenciada pela Igreja, esta detinha o poder político e econômico, mantendo superioridade, até mesmo, da nobreza feudal. Prevalecia o teocentrismo, Deus era o centro de todas as coisas. Com isso, o homem mantinha-se totalmente religioso e temente, cujos posicionamentos estavam sempre à mercê da vontade divina, assim como os fenômenos naturais.

Arquitetura

Toda produção artística era voltada para a construção de igrejas, catedrais e abadias. Todas as produções literárias eram feitas em galego-português, denominadas de cantigas.

Estas cantigas eram manuscritas e reunidas em livros, os Cancioneiros, que são apenas três: “Cancioneiro da Biblioteca”, “Cancioneiro da Ajuda” e “Cancioneiro da Vaticana”.

Os trovadores de maior destaque são: Aires Nunes, Dom Duarte, Dom Dinis, Paio Soares de Taveirós, João Garcia de Guilhade e Meendinho.

No trovadorismo as cantigas são divididas em: Satíricas (Cantigas de Maldizer e Cantigas de Escárnio) e Líricas (Cantigas de Amor e Cantigas de Amigo).

Cantigas de amigo: Nas cantigas de amigo, o eu-lírico é sempre uma mulher. A palavra amigo significa namorado e o tema principal é o lamento da mulher pela falta do amado que partiu para as Cruzadas. O uso marcante de recursos como paralelismo, refrão, reiterações e estribilho, facilitam a memorização e execução das cantigas.
Cantigas de amor:
O trovador se dirige à mulher amada exaltando suas qualidades e colocando-se numa posição inferior. O tema mais constante é o amor não correspondido. O trovador passa a ser o vassalo da suserana ( a amada) e coloca-se a serviço dela, esperando um benefício em troca, isso faz com que o amor seja um objeto distante e impossível
Cantigas de escárnio:
Eram sátiras indiretas, com duplo sentido para encobrir a agressividade. Os nomes da pessoa satirizada não era citado na cantiga.
Cantigas de maldizer:
Diferente das cantigas de escárnio, nas cantigas de mal dizer o trovador fazia sátiras diretas, partindo até para a agressão verbal. Trechos de baixo calão eram frequentes e o nome da pessoa satirizada aparece explicitamente.

Características gerais do Trovadorismo

Trovadorismo desenvolveu-se num período em que a cultura era monopolizada pelo clero católico, detentor máximo do poder político e econômico.

Assim, é natural que a visão de mundo da época fosse marcada pelo teocentrismo — escala de valores determinada a partir dos próprios valores impostos pela religiosidade. Por essa razão, o homem dessa fase medieval privilegiava os bens do espírito, da alma, da vida pós-morte, em detrimento do corpo e da vida carnal, terrena.

Nas artes, houve destaque para o desenvolvimento da música e arquitetura, pois elas serviam ao propósito religioso daquele tempo: a música religiosa podia criar uma atmosfera extraterrena, envolvendo o fiel, e a arquitetura era empregada na construção de catedrais.

Na literatura houve maior desenvolvimento da poesia do que da prosa, pois a poesia apoiava-se na música e isso facilitava sua transmissão oral.

Principais manifestações literárias

A principal manifestação literária do Trovadorismo foi a poesia, representada pelas cantigas, que eram composições feitas para serem cantadas ou acompanhadas por instrumento musical.

As cantigas medievais portuguesas eram expressas na chamada “medida velha”, as redondilhas, versos de 5 ou 7 sílabas, de tradição medieval. O idioma empregado era o galaico-português, comum à Galícia e a Portugal. O poeta chamava-se trovador e as cantigas podiam ser líricas ou satíricas. Elas encontram-se reunidas em volumes denominados cancioneiros, dos quais se destacam o Cancioneiro da Ajuda, o Cancioneiro da Vaticana e o Cancioneiro da Biblioteca Nacional de Lisboa.

A prosa medieval apresentou caráter predominantemente documental, o que diminuiu seu valor literário.

Apenas um gênero se destacou: as Novelas de Cavalaria, que eram narrativas de feitos heróicos e guerreiros, originadas nas antigas canções de gesta. Em Portugal, apenas as novelas do Ciclo Bretão ou Arturiano, sobre o rei Artur e os cavaleiros da Távola Redonda, deixaram marcas.

Projeções do Trovadorismo

Trovadorismo constituiu a formação da base lírica da literatura em língua portuguesa, com sugestões formais e temáticas; ainda hoje se observa a influência das redondilhas em manifestações poéticas e musicais de cunho popular e folclórico, tanto em Portugal como no Brasil. Além disso, a literatura trovadoresca exerceu forte influência na obra de vários autores da língua, como Almeida Garrett, Gonçalves Dias, Olavo Bilac, Manuel Bandeira, Cecília Meireles e outros.

Trovadorismo - O que é

Designa-se por Trovadorismo o período que engloba a produção literária de Portugal durante seus primeiros séculos de existência (séc. XII ao XV). No âmbito da poesia, a tônica são mesmo as Cantigas em suas modalidades; enquanto a prosa apresenta as Novelas de Cavalaria.

Contexto Histórico

Momento final da Idade Média na Península Ibérica, onde a cultura apresenta a religiosidade como elemento marcante.

A vida do homem medieval é totalmente norteada pelos valores religiosos e para a salvação da alma. O maior temor humano era a idéia do inferno que torna o ser medieval submisso à Igreja e seus representantes.

São comuns procissões, romarias, construção de templos religiosos, missas etc. A arte reflete, então, esse sentimento religioso em que tudo gira em torno de Deus. Por isso, essa época é chamada de Teocêntrica.

As relações sociais estão baseadas também na submissão aos senhores feudais. Estes eram os detentores da posse da terra, habitavam castelos e exerciam o poder absoluto sobre seus servos ou vassalos. Há bastante distanciamento entre as classes sociais, marcando bem a superioridade de uma sobre a outra.

O marco inicial do Trovadorismo data da primeira cantiga feita por Paio Soares Taveirós, provavelmente em 1198, entitulada Cantiga da Ribeirinha.

Características

A poesia desta época compõe-se basicamente de cantigas, geralmente com acompanhamento de instrumentos (alaúde, flauta, viola, gaita etc.). Quem escrevia e cantava essas poesias musicadas eram os jograis e os trovadores. Estes últimos deram origem ao nome deste estilo de época português.

Mais tarde, as cantigas foram compiladas em Cancioneiros. Os mais importantes Cancioneiros desta época são o da Ajuda, o da Biblioteca Nacional e o da Vaticana.

As cantigas eram cantadas no idioma galego-português e dividem-se em dois tipos: líricas (de amor e de amigo) e satíricas (de escárnio e mal-dizer).

Do ponto de vista literário, as cantigas líricas apresentam maior potencial pois formam a base da poesia lírica portuguesa e até brasileira. Já as cantigas satíricas, geralmente, tratavam de personalidades da época, numa linguagem popular e muitas vezes obscena.

Cantigas de amor

Origem da Provença, região da França, trazidas através dos eventos religiosos e contatos entre as cortes. Tratam, geralmente, de um relacionamento amoroso, em que o trovador canta seu amor a uma dama, normalmente de posição social superior, inatingível. Refletindo a relação social de servidão, o trovador roga a dama que aceite sua dedicação e submissão.

Eu-lírico - masculino

Cantigas de amigo

Neste tipo de texto, quem fala é a mulher e não o homem. O trovador compõe a cantiga, mas o ponto de vista é feminino, mostrando o outro lado do relacionamento amoroso - o sofrimento da mulher à espera do namorado (chamado "amigo"), a dor do amor não correspondido, as saudades, os ciúmes, as confissões da mulher a suas amigas, etc. Os elementos da natureza estão sempre presentes, além de pessoas do ambiente familiar, evidenciando o caráter popular da cantiga de amigo.

Eu-lírico - feminino

Cantigas satíricas

Aqui os trovadores preocupavam-se em denunciar os falsos valores morais vigentes, atingindo todas as classes sociais: senhores feudais, clérigos, povo e até eles próprios.

Cantigas de escárnio - crítica indireta e irônica
Cantigas de maldizer -
crítica direta e mais grosseira

A prosa medieval retrata com mais detalhes o ambiente histórico-social desta época. A temática das novelas medievais está ligada à vida dos cavaleiros medievais e também à religião.

A Demanda do Santo Graal é a novela mais importante para a literatura portuguesa. Ela retrata as aventuras dos cavaleiros do Rei Artur em busca do cálice sagrado (Santo Graal). Este cálice conteria o sangue recolhido por José de Arimatéia, quando Cristo estava crucificado. Esta busca (demanda) é repleta de simbolismo religioso, e o valoroso cavaleiro Galaaz consegue o cálice.

Textos

Cantiga de Amor

Este tipo de cantiga tematiza a confissão amorosa do homem em relação a uma mulher geralmente lamentando o seu sofrimento de amor ( coita) diante da indiferença da mesma. Sendo o homem quem fala, costumamos dizer que se trata de um "eu-lírico"masculino.

O amante posiciona-se inferiormente à mulher, divinizando-a, a ponto de se estabelecer uma relação de "senhor"para vassalo. Ela é o seu "senhor"( não existia a palavra "senhora"), dona do destino do apaixonado, o qual busca um a linguagem e atitudes cuidadosas para não ofendê-la, inclusive, omitindo, o nome da amada. Esse comportamento e essa relação caracterizam o amor cortês, em que a mulher é sempre vista como merecedora de todas as atenções, gentilezas e considerações da parte daquele que a deseja.

A posição de inferioridade, em que se coloca o apaixonado, torna quase sempre a sua cantiga um lamento, expressão do sofrimento amoroso. Esse sentimento era chamado de coitas. A insistência com que essa temática aparece nas Cantigas de Amor torna-as repetitivas. Apesar disso, a Cantiga de Amor, foi o tipo de produções mais importante dentre as cantigas. Em primeiro lugar por ter sido produzido por compositores ligados à nobreza, o que, quase sempre, garante maior riqueza vocabular e estruturação técnica de melhor qualidade. Em segundo lugar, por se dirigir a um público mais culto.

Senhora minha, desde que vos vi,
lutei para ocultar esta paixão
que me tomou inteiro o coração;
mas não o posso mais e decidi
que saibam todos o meu grande amor,
a tristeza que tenho, a imensa dor
que sofro desde o dia em que vos vi.

Quando souberem que por vós sofri
Tamanha pena, pesa-me, senhora,
que diga alguém, vendo-me triste agora,
que por vossa crueza padeci,
eu, que sempre vos quis mais que ninguém,
e nunca me quiseste fazer bem,
nem ao menos saber o que eu sofri.

E quando eu vir, senhora, que o pesar
que me causais me vai levar à morte,
direi, chorando minha triste sorte:
"Senhor, porque me vão assim matar?"
E, vendo-me tão triste e sem prazer,
todos, senhora, irão compreender
que só de vós me vem este pesar.

Já que assim é, eu venho-vos rogar
que queirais pelo menos consentir
que passe a minha vida a vos servir,
e que possa dizer em meu cantar
que esta mulher, que em seu poder me tem,
sois vós, senhora minha, vós, meu bem;
graça maior não ousarei rogar.

Afonso Fernandes

Cantiga de Amigo

Enquanto Deus me der vida,
viverei triste e coitada,
porque se foi meu amigo,
e disso fui a culpada,
pois que me zanguei com ele
quando daqui se partia:
por Deus, se agira voltasse,
muito alegre eu ficaria.

E sei que andei muito mal
em zangar-me como fiz,
porque ele não o merecia
e se foi muito infeliz,
pois que me zanguei com ele
quando daqui se partia:
por Deus, se agira voltasse,
muito alegre eu ficaria.

Certamente ele supõe
que comigo está perdido,
do contrário, voltaria,
porém, sente-se ofendido,
pois que me zanguei com ele
quando daqui se partia:
por Deus, se agira voltasse,
muito alegre eu ficaria.

Juan Lopes

Cantiga de Escárnio

Esta cantiga é uma composição satírica em que se critica alguém através da zombaria do sarcasmo, traço típico da sátira. O escárnio é identificado como sátira indireta por não ser muito contundente e por "encobrir" a agressividade através de alguma ambigüidade.

Conheceis uma donzela
por quem trovei e a que um dia
chamei de Dona Beringela?
nunca tamanha porfia
vi nem mais disparatada.
Agora que está casada
chamam-lhe Dona Maria.

Algo me traz enjoado,
assim o céu me defenda:
um que está a bom recato
(negra morte o surpreenda
e o Demônio cedo o tome!)
quis chamá-la pelo nome
e chamou-lhe Dona Ousenda.

Pois que se tem por formosa
quanto mais achar-se pode,
pela Virgem gloriosa!
um homem que cheira a bode
e cedo morra na forca
quando lhe cerrava a boca
chamou-lhe Dona Gondrode.

Dom Afonso Sanches

Cantiga de Maldizer

Ai dona fea! Foste-vos queixar
Que vos nunca louv'en meu trobar
Mais ora quero fazer un cantar
En que vos loarei toda via;
E vedes como vos quero loar:
Dona fea, velha e sandia!

Ai dona fea! Se Deus mi pardon!
E pois havedes tan gran coraçon
Que vos eu loe en esta razon,
Vos quero já loar toda via;
E vedes qual será a loaçon:
Dona fea, velha e sandia!

Dona fea, nunca vos eu loei
En meu trobar, pero muito trobei;
Mais ora já en bom cantar farei
En que vos loarei toda via;
E direi-vos como vos loarei:
Dona fea, velha e sandia!

Trovadorismo - Estilo

A produção artística vai estar impregnada, neste período, do espírito teocêntrico.

As artes decorativas predominam, sempre deformando os elementos objetivos do mundo ou procurando simbolizar o universo espiritual e sobrenatural através do qual o homem interpreta sua realidade.

O estilo gótico, com suas formas alongadas, ogivais e pontiagudas, parece expressar forte desejo humano de ascender a uma nova e eterna vida.

A literatura, geralmente escrita em latim, não ultrapassa os limites religiosos em sua temática: a vida dos santos, a liturgia dos rituais cristãos. Mas em torno dos castelos feudais desenvolve-se também uma arte leiga que, mesmo, às vezes, chegando ao profano, redimensiona a visão de mundo medieval e aponta novos caminhos. É a arte dos trovadores e suas cantigas, das novelas de cavalaria.

Em Portugal floresceram cantigas de tipos diversos quanto à temática:

Cantigas de Amigo

Nasceram no território português e constituem um vivo retrato da vida campestre e do cotidiano das aldeias medievais na região. Embora compostas por homens, procuram expressar o sentimento feminino através de pequenos dramas e situações da vida amorosa das donzelas, geralmente, as saudades do namorado que foi combater contra os mouros, a vigilância materna, as confissões às amigas. Há nessas cantigas uma forte presença da natureza, sua linguagem é simples e sua estrutura apropriada ao canto e à transmissão oral apresenta refrão e versos encadeados e repetidos ou ligeiramente modificados (paralelismo).

Cantigas de Amor

Surgiram no sul da França, na região de Provença. Expressam o sentimento amoroso do trovador que se coloca a serviço da mulher amada. Aqui, o amor se torna tema central do texto poético, deixando de ser pretexto para a discussão de outros temas. Mas é um amor não realizado, não correspondido, que fica sempre num plano idealizado.

E de outro modo não poderia ser, pois a mulher amada se encontra socialmente afastada do poeta: é a senhora, esposa do senhor feudal. São cantigas que espelham a vida na corte através de forte abstração e linguagem refinada.

Cantigas de escárnio e de maldizer

Reúnem a produção satírica e maliciosa da época. Enquanto as de escárnio são críticas e suas ironias feitas de modo indireto, as de maldizer, utilizando linguagem mais vulgar, às vezes obscena, referem-se direta e nominalmente a suas personagens. Os temas centrais destas cantigas são as disputas políticas, as questões e ironias que os trovadores se lançam mutuamente e que nos lembram os "desafios" de nossa literatura de cordel, as intimidades de alcova, a covardia ou a falta de jeito de alguns cavaleiros, as mulheres feias. É verdade que seu valor poético é pequeno, mas seu aspecto documental torna imprescindível seu estudo.

As novelas de cavalaria

Surgiram na França e na Inglaterra derivadas das canções de gesta e de poemas épicos medievais.

Refletiam, de modo geral, os ideais da nobreza feudal: o espírito cavalheiresco, a fidelidade, a coragem, o amor servil. Mas estavam também impregnadas de elementos da mitologia céltica. As histórias mais conhecidas são aquelas que pertencem ao "ciclo arturiano", A Demanda do Santo Graal é uma das mais importantes deste ciclo, a qual reúne os dois elementos fundamentais da Idade Média quando coloca a Cavalaria a serviço da Religiosidade. Além das novelas do ciclo arturiano merecem destaque também "José de Arimatéia" e "Amadis de Gaula".

"Estes meus olhos nunca perderán,
senhor, gran coita, mentr'eu vivo fôr;
e dire-vos fremosa mia senhor,
destes meus olhos a coita que han:
choran e cegan, quand' alguen non veen,
e ora cegan por alguén que veen.

Grisado teen de nunca perder
meus olhos coita e meu coraçon,
e estas coitas, senhor, mias son:
mais los meus olhos, por alguen verr,
choran e cegan, quan' alguen non veen,
e ora cegan por alguen que veen.

E nunca já poderei haver ben
pois que amor já non quer nen quer Deus;
mais os cativos destes olhos meus
morrerán sempre por veer alguen:
choran e cegan, quand' alguen non veen,
e ora cegan por alguen que veen."
(João Garcia de Guilhade)

Momento histórico do Trovadorismo - Portugal

PORTUGAL - Era Medieval – Séculos XII a XV

Cristianismo
Cruzadas rumo ao oriente
Luta contra os mouros
Teocentrismo
Feudalismo
Monopólio clerical

Cronologia do Trovadorismo

Período: Séculos XII a XIV.
Início 1189 (ou 1198):
Provável data da cantiga da Ribeirinha de Paio Soares de Taveirós.
Término:
1418 com a nomeação de Fernão Lopes para o cargo de cronista-mor da Torre do Tombo.

Cantiga da Ribeirinha

No mundo non me sei parelha 
mentre me for como me vai, 
ca ja moiro por vós e ai! 
mia senhor branca e vermelha, 
queredes que vos retraia 
quando vos eu vi em saia. 
Mao dia me levantei 
que vos entom nom vi fea!

E, mia senhor, des aquelha 
me foi a mi mui mal di’ai! 
E vós, filha de Dom Paai 
Moniz, e bem vos semelha 
d’aver eu por vós guarvaia, 
pois eu, mia senhor, d’alfaia 
nunca de vós ouve nem ei 
valia d’ua correa.

A poesia no período trovadoresco

Lírica

Cantigas de amigo 
Cantigas de amor

Satírica

Cantigas de escárnio
Cantigas de maldizer

Características das cantigas

Língua galego-português tradição oral e coletiva.
Poesia cantada e acompanhada por instrumentos musicais, colecionada em cancioneiro
Autores trovadores
Intérpretes jograis, segréis e menestréis

Características das cantigas de amor

Voz lírica masculina.
Tratamento dado a mulher mia senhor.
Expressão da vida da corte.

Convenções do amor cortês:

a. idealização da mulher
b. vassalagem amorosa.
c. expressão da coita.

Origem provençal.

Características da cantiga de amigo

Voz lírica feminina.
Tratamento dado ao namorado amigo.
Expressão da vida campesina e urbana.
Realismo: fatos comuns da vida cotidiana.
Amor realizado ou possível – sofrimento amoroso.
Simplicidade: pequenos quadros sentimentais.
Paralelismo e refrão.
Origem popular e autóctone (isto é, na própria Península Ibérica.)

Tipos de cantigas de amigo

Albas (alvas ou serenas) – o tema relaciona-se com o amanhecer.
Barcarolas (ou marinhas) - referem-se a um rio, mar ou lago.
Pastorelas – ou se referem a uma pastora ou um pastor. 
Bailias (ou bailadas) Falam de danças ou bailes.
Cantigas de romaria – Prendem-se a romarias ou peregrinações 
Tensões ou (tenções) são marcadas pelo diálogo

Quanto a forma podem ser:

Cantigas de mestria – não tem refrão
Cantigas de refrão - apresenta refrão e estribilho.
Cantigas paralelísticas –apresentam paralelismo.

Características das cantigas satíricas

Cantigas de escárnio
Indiretas
Uso da ironia e do equívoco
Cantigas de maldizer
Diretas, sem equívocos.
Intenção difamatória
Palavrões e xingamentos.

Os cancioneiros

A partir do final do século XIII as cantigas foram copiadas e colecionadas em cancioneiros).

Tres desses livros, contendo aproximadamente 1680 cantigas, chegaram até nós:

Cancioneiro da ajuda.
O cancioneiro da vaticana
O cancioneiro da biblioteca Nacional de Lisboa.

Os artistas

Trovador: Era o poeta, quase sempre um nobre, que compunha sem preocupaçoes financeiras.
Jogral:
Chama-se o bobo da Corte, o mímico , o bailarino e as vezes também compunha.
Segrel:
O trovador profissional, um andarilho.
Menestrel:
O músico.
Soldadeira ou jogralesa:
Moça que dançava, cantava e tocava castanholas ou pandeiro.

Alguns trovadores e jograis

Paio Soares de Taveirós
Martim Codax
D. Afonso Mendes de Besteiros
Fernado Esguio
João Garcia Guilharde
João Zorro
Aires Nunes de Santiago
D. Dinis, o rei-trovador

A Prosa no Trovadorismo séculos XIII e XIV

Novelas de cavalaria
Ciclo clássico
Ciclo carolíngio
Ciclo bretão ou arturiano.
Hagiografias
Livros de linhagens ou nobiliários
Cronicões.

Trovadorismo - Época

A época do trovadorismo abrange as origens da Língua Portuguesa, a língua galaico-portuguesa (o português arcaico) que compreende o período de 1189 a 1418. Portugal ocupava-se com as Cruzadas, a luta contra os mouros, e estava marcado pelo teocentrismo (universo centrado em Deus, a vida estava voltada para os valores espirituais e a salvação da alma) e pelo sistema feudal (sistema econômico e político, entre senhores e vassalos ou servos), já enfraquecido, em fase de decadência.

Quando finalmente a guerra chega ao fim, começam manifestações sociais de período de paz, entre elas a literatura, e em torno dos castelos feudais também desenvolveu-se um tipo de literatura que redimensiona a visão do mundo medieval e aponta para novos caminhos, essa manifestação literária é o Trovadorismo.

Os poetas e cronistas dessa época eram chamados de trovadores, pois no norte da França, o poeta recebia o apelativo trouvère (em Português: trovador), cujo radical é: trouver (achar), dizia-se que os poetas “achavam” sua canção e a cantavam acompanhados de instrumentos como a cítara, a viola, a lira ou a harpa. Os poemas produzidos nessa época eram feitos para serem cantados por poetas e músicos.

Os trovadores tinham grande liberdade de expressão, entravam em questões políticas e exerceram destacado papel social. O primeiro texto escrito em português foi criado no século XII (1189 ou 1198) era a “Cantiga da Ribeirinha”, do poeta Paio Soares de Taveirós, dedicada a D. Maria Paes Ribeiro, a Ribeirinha.

As poesias trovadorescas estão reunidas em cancioneiros ou Livros de canções, são três os cancioneiros: Cancioneiro da Ajuda, Cancioneiro da Vaticana e Cancioneiro da Biblioteca Nacional de Lisboa (Colocci-Brancuti), além de um quarto livro de cantigas dedicadas à Virgem Maria pelo rei Afonso X, o Sábio.

Surgiram também os textos em prosa de cronistas como Rui de Pina, Fernão Lopes e Eanes de Azuraram e as novelas de cavalaria, como A Demanda do Santo Graal.

Tipos de Cantiga

Os primórdios da literatura galaico-portuguesa foram marcados pelas composições líricas destinadas ao canto.

Essas cantigas dividiam-se em dois tipos:

Refrão, caracterizadas por um estribilho repetido no final de cada estrofe,

Mestria, que era mais trabalhada, sem algo repetitivo.

Essas eram divididas em temas, que eram: Cantigas de Amor, Amigo e de Escárnio e Maldizer.

Mas com o surgimento dos textos em prosa e novelas de cavalaria, houve uma nova “classificação”, que deixou dividido em:

Lírico Amorosa, subdividida em: cantiga de amor e cantiga de amigo.

Satírica, de escárnio e maldizer.

Temas

Cantiga de Amor

Quem fala no poema é um homem, que se dirige a uma mulher da nobreza, geralmente casada, o amor se torna tema central do texto poético. Esse amor se torna impraticável pela situação da mulher. Segundo o homem, sua amada seria a perfeição e incomparável a nenhuma outra. O homem sofre interiormente, coloca-se em posição de servo da mulher amada.

Ele cultiva esse amor em segredo, sem revelar o nome da dama, já que o homem é proibido de falar diretamente sobre seus sentimentos por ela (de acordo com as regras do amor cortês), que nem sabe dos sentimentos amorosos do trovador. Nesse tipo de cantiga há presença de refrão que insiste na idéia central, o enamorado não acha palavras muito variadas, tão intenso e maciço é o sofrimento que o tortura.

São cantigas que espelham a vida na corte através de forte abstração e linguagem refinada.

Cantiga de Amigo

O trovador coloca como personagem central uma mulher da classe popular, procurando expressar o sentimento feminino através de tristes situações da vida amorosa das donzelas. Pela boca do trovador, ela canta a ausência do amigo (amado ou namorado) e desabafa o desgosto de amar e ser abandonada, em razão da guerra ou de outra mulher.

Nesse tipo de poema, a moça conversa e desabafa seus sentimentos de amor com a mãe, as amigas, as árvores, as fontes, o mar, os rios, etc. É de caráter narrativo e descritivo e constituem um vivo retrato da vida campestre e do cotidiano das aldeias medievais na região.

Cantigas de escárnio e de maldizer

Esse tipo de cantiga procurava ridicularizar pessoas e costumes da época com produção satírica e maliciosa.

As cantigas de escárnio são críticas, utilizando de sarcasmo e ironia, feitas de modo indireto, algumas usam palavras de duplo sentido, para que, não entenda-se o sentido real.

As de maldizer, utilizam uma linguagem mais vulgar, referindo-se diretamente a suas personagens, com agressividade e com duras palavras, que querem dizer mal e não haverá outro modo de interpretar.

Os temas centrais destas cantigas são as disputas políticas, as questões e ironias que os trovadores se lançam mutuamente.

As novelas de cavalaria - Surgiram derivadas de canções de gesta e de poemas épicos medievais.

Refletiam os ideais da nobreza feudal: o espírito cavalheiresco, a fidelidade, a coragem, o amor servil, mas estavam também impregnadas de elementos da mitologia céltica.

A história mais conhecida é A Demanda do Santo Graal, a qual reúne dois elementos fundamentais da Idade Média quando coloca a Cavalaria a serviço da Religiosidade. Outras novelas que também merecem destaque são "José de Arimatéia" e "Amadis de Gaula".

Autores (Trovadores)

Os mais conhecidos trovadores foram: João Soares de Paiva, Paio Soares de Taveirós, o rei D. Dinis, João Garcia de Guilhade, Afonso Sanches, João Zorro, Aires Nunes, Nuno Fernandes Torneol.

Mas aqui falaremos apenas sobre alguns.

Paio Soares Taveirós

Paio Soares Taveiroos (ou Taveirós) era um trovador da primeira metade do século XIII. De origem nobre, é o autor da Cantiga de Amor A Ribeirinha, considerada a primeira obra em língua galaico-portuguesa.

D. Dinis

Dom Dinis, o Trovador, foi um rei importante para Portugal, sua lírica foi de 139 cantigas, a maioria de amor, apresentando alto domínio técnico e lirismo, tendo renovado a cultura numa época em que ela estava em decadência em terras ibéricas.

D. Afonso X

D. Afonso X, o Sábio, foi rei de Leão e Castela. É considerado o grande renovador da cultura peninsular na segunda metade do século XIII. Acolheu na sua corte e trovadores, tendo ele próprio escrito um grande número de composições em galaico-português que ficaram conhecidas como Cantigas de Santa Maria. Promoveu, além da poesia, a historiografia, a astronomia e o direito, tendo elaborado a General Historia, a Crônica de España, Libro de los Juegos, Las Siete Partidas, Fuero Real, Libros del Saber de Astronomia, entre outras.

D. Duarte

D. Duarte foi o décimo primeiro rei de Portugal e o segundo da segunda dinastia. D. Duarte foi um rei dado às letras, tendo feito a tradução de autores latinos e italianos e organizando uma importante biblioteca particular. Ele próprio nas suas obras mostra conhecimento dos autores latinos.

Obras: Livro dos Conselhos; Leal Conselheiro; Livro da Ensinança de Bem Cavalgar Toda a Sela.

Fernão Lopes

Fernão Lopes é considerado o maior historiógrafo de língua portuguesa, aliando a investigação à preocupação pela busca da verdade. D. Duarte concedeu-lhe uma tença anual para ele se dedicar à investigação da história do reino, devendo redigir uma Crônica Geral do Reino de Portugal.

Correu a província a buscar informações, informações estas que depois lhe serviram para escrever as várias crônicas (Crônica de D. Pedro I, Crônica de D. Fernando, Crônica de D. João I, Crônica de Cinco Reis de Portugal e Crônicas dos Sete Primeiros Reis de Portugal). Foi “guardador das escrituras” da Torre do Tombo.

Frei João Álvares

Frei João Álvares a pedido do Infante D. Henrique, escreveu a Crônica do Infante Santo D. Fernando.

Nomeado abade do mosteiro de Paço de Sousa, dedicou-se à tradução de algumas obras pias: Regra de São Bento, os Sermões aos Irmãos do Ermo atribuídos a Santo Agostinho e o livro I da Imitação de Cristo.

Gomes Eanes de Zurara

Gomes Eanes de Zurara, filho de João Eanes de Zurara. Teve a seu cargo a guarda da livraria real, obtendo em 1454 o cargo de “cronista-mor” da Torre do Tombo, sucedendo assim a Fernão Lopes.

Das crônicas que escreveu destacam-se: Crônica da Tomada de Ceuta, Crônica do Conde D. Pedro de Meneses, Crônica do Conde D. Duarte de Meneses e Crônica do Descobrimento e Conquista de Guiné.

Momento histórico do Trovadorismo

Os historiadores costumam limitar o Trovadorismo entre os anos de 1189 (ou 1198?) e 1385. Mais importante que essas datas convencionais é saber que o Trovadorismo corresponde à primeira fase da história portuguesa ao período da formação de Portugal como reino independente.

É o período literário que reúne basicamente os poemas feitos pelos trovadores para serem cantados em feiras, festas e nos castelos durante os últimos séculos da Idade Média.

É contemporâneo às lutas pela independência e ao surgimento do Estado português e à dinastia de Borgonha, subdivide-se em três categorias: cantigas de amigo, cantigas de amor e cantigas de escárnio e maldizer.

Chegaram até nós três coletâneas de poesias: o Cancioneiro da Vaticana, o Cancioneiro da Biblioteca Nacional e o Cancioneiro da Ajuda, todos eles contendo composições que vão do século XII ao século XIV. Os trovadores mais famosos foram o rei Afonso X de Castela e o rei D. Dinis de Portugal.

Primeira fase da história de Portugal - séculos XII a XIV

1095: O rei Afonso VI, de Leão e Castela, concede o condado Portucalense a seu genro Henrique de Borgonha
1109-1385:
Dinastia de Borgonha. Declínio do Feudalismo
1139:
D. Afonso Henriques, filho e sucessor de Henrique de Borgonha, após vencer os mouros em batalha declara a independência de Castela (tratado de Zamora).
1143:
Reconhecimento da independência de Castela (tratado de Zamora )
1385:
Fim da Dinastia de Borgonha. Revolução de Avis; D. João I é aclamado rei de Portugal; início da dinastia de Avis.

O Trovadorismo

É o conjunto das manifestações literárias contemporâneas à primeira dinastia - a dinastia de Borgonha (1109-1385).

Alguns aspectos da história da Península Ibérica são importantes para entendermos certas características das manifestações literárias desse período:

O feudalismo, já em declínio, terá reflexos até mesmo na linguagem da poesia amorosa, como veremos adiante. As cortes dos reis e dos grandes senhores feudais são os centros de produção cultural e literária.

Cruzadas. Daí o gosto tardio em Portugal pelas novelas de cavalaria

A reconquista do território, dominado pelos árabes desde o século VIII, faz prolongar, na nobreza ibérica, o espírito guerreiro e aventureiro das Cruzadas. Daí o gosto tardio em Portugal pelas novelas de cavalaria.

Por último, o profundo espírito religioso medieval e teocêntrico refletirá tanto nas já citadas novelas de cavalaria como na poesia de temática religiosa (Cantigas de Santa Maria, de D. Afonso X) e nas hagiografias (vidas de santos) e obras de devoção.

Cronologia do Trovadorismo

Início:1189 (ou 1198?) Provável data da Cantiga da Ribeirinha, de Pai Soares de Taveirós. Supõe-se que esta seja a mais antiga das composições conservadas nos cancioneiros. Outras cantigas disputam essa primazia. 
Término: 1385 Fim da dinastia de Borgonha

Cantiga da Ribeirinha

No mundo non me sei parelha 
mentre me for como me vai, 
ca ja moiro por vós e ai! 
mia senhor branca e vermelha, 
queredes que vos retraia 
quando vos eu vi em saia. 
Mao dia me levantei 
que vos entom nom vi fea!

E, mia senhor, des aquelha 
me foi a mi mui mal di’ai! 
E vós, filha de Dom Paai 
Moniz, e bem vos semelha 
d’aver eu por vós guarvaia, 
pois eu, mia senhor, d’alfaia 
nunca de vós ouve nem ei 
valia d’ua correa.

Glossário

non me sei parelha: não conheço ninguém igual a mim. 
mentre: enquanto.ca: pois. 
branca e vermelha: a cor branca da pele, contrastando com o rosado do rosto. 
retraia: pinte, retrate, descreva. 
en saia: sem manto. 
que: pois 
dês: desde 
semelha: parece 
d’aver eu por vós: receber por seu intermédio. 
guarvaia: manto luxuoso, provavelmente vermelho, usado pela nobreza. 
alfaia: presente 
valia d’un correa: objeto de pequeno valor.

Considerada por alguns como a mais antiga galego-portuguesa, este texto desafia a interpretação dos estudiosos. Seu sentido continua bastante obscuro. Não se pode concluir nem mesmo se trata de uma cantiga de amor ou de escárnio.

A poesia no período trovadoresco

Ao ler um texto poético desse período, não podemos ter em mente a tradição moderna e o que hoje entendemos por poesia. A poesia não era escrita para ser lida por um leitor solitário. Era poesia cantada (daí o nome de cantiga, que passaremos a usar de agora em diante), geralmente era acompanhada por um coro e por instrumentos musicais. Seu público não era, portanto, constituído de leitores, mas de ouvintes. Assim, devemos sempre considerar as cantigas como poesia intimamente ligada à música, própria para apresentações coletivas. Chamamos de poesia trovadoresca à produção poética, em galego-português, do final do século XII ao século XIV. Seu apogeu ocorre no reinado de Afonso III, pelos meados do século XIII.

Os cancioneiros

Só tardiamente (a partir do final do século XIII) as cantigas foram copiadas em manuscritos chamados cancioneiros. Três desses livros, contendo aproximadamente 1 680 cantigas, chegaram até nós.

São eles:

Cancioneiro da Ajuda 
Cancioneiro da Vaticana 
Cancioneiro da Biblioteca Nacional de Lisboa

Os autores

Os autores das cantigas são chamados trovadores. Eram pessoas cultas, quase sempre nobres, contando-se entre eles alguns reis, como D. Sancho I, D. Afonso X, de Castela e D. Dinis. Nos cancioneiros que conhecemos, estão reunidos as cantigas de 153 trovadores.

Os intérpretes

As cantigas compostas pelos trovadores eram musicadas e interpretadas pelo jogral, pelo segrel e pelo menestrel, artistas agregados às cortes ou perambulavam pelas cidades e feiras. Muitas vezes o jogral também compunha cantigas.

Características das cantigas

Língua galego-português 
Tradição oral e coletiva 
Poesia cantada e acompanhada por instrumentos musicais colecionada em cancioneiros 
Autores trovadores 
Intérpretes: jograis, segréis e menestréis. 
Gêneros: lírico (cantigas de amigo, cantigas de amor) e satírico (cantigas de escárnio, cantigas de maldizer).

Os gêneros

Podemos classificar as cantigas podem ser classificadas em:

Gênero lírico: Cantigas de amigo, cantigas de amor
Gênero satírico:
Cantigas de escárnio e de maldizer

GÊNERO LÍRICO

CARACTERÍSTICAS DAS CANTIGAS DE AMOR

Eu lírico masculino
Tratamento dando à mulher: mia senhor.
Expressão da vida da corte.

Convenções do amor cortês:

a) Idealização da mulher
b) Vassalagem amorosa
c) Expressão da coita.

Origem provençal

CARACTERÍSTICAS DAS CANTIGAS DE AMIGO

Eu lírico feminino 
Tratamento dado ao namorado: amigo 
Expressão da vida campesina e urbana 
Amor realizado ou possível - sofrimento amoroso 
Simplicidade - pequenos quadros sentimentais 
Paralelismo e refrão 
Origem popular e autóctone (isto é, na própria Península Ibérica)

AS CANTIGAS DE AMOR

Canção de amor
D. Dinis

Quer’eu em maneira de proença! 
fazer agora um cantar d’amor 
e querrei muit’i loar lmia senhor 
a que prez nem fremosura nom fal, 
nem bondade; e mais vos direi ém: 
tanto a fez Deus comprida de bem 
que mais que todas las do mundo val. 
Ca mia senhor quizo Deus fazer tal, 
quando a faz, que a fez sabedord 
e todo bem e de mui gram valor, 
e com tod’est[o] é mui comunal 
ali u deve; er deu-lhi bom sém, 
e desi nom lhi fez pouco de bem 
quando nom quis lh’outra 
foss’igual

Ca mia senhor nunca Deus pôs mal, 
mais pôs i prez e beldad’e loor 
e falar mui bem, e riir melhor 
que outra molher; desi é leal 
muit’, e por esto nom sei oj’eu quem 
possa compridamente no seu bem 
falar, ca nom á, tra-lo seu bem, al.

Tradução:

Quero à moda provençal 
fazer agora um cantar de amor, 
e quererei muito aí louvar minha senhora 
a quem honra nem formosura não faltam 
nem bondade; e mais vos direi sobre ela: 
Deus a fez tão cheia de qualidades 
que ela mais que todas do mundo.

Pois Deus quis fazer minha senhora de tal modo 
quando a fez, que a fez conhecedorad 
e todo bem e de muito grande valor, 
e além de tudo isto é muito sociável 
quando deve; também deu-lhe bom senso, 
e desde então lhe fez pouco bem 
impedindo que nenhuma outra fosse igual a ela

Porque em minha senhora nunca Deus pôs mal, 
mas pôs nela honra e beleza e mérito 
e capacidade de falar bem, e de rir melhor 
que outra mulher também é muito leal 
e por isto não sei hoje quem 
possa cabalmente falar no seu próprio bem 
pois não há outro bem, para além do seu.

AS CANTIGAS DE AMIGO

Canção de amigo

Martim Codax

Ondas do mar de Vigo, 
se vistes meu amigo? 
E ai Deus, se verra cedo!

Ondas do mar levado, 
se vistes meu amado? 
E ai Deus, se verra cedo!

Se vistes meu amigo, 
o por que eu sospiro? 
E ai Deus, se verra cedo!

Se vistes meu amado, 
por que ei gran coitado? 
E ai Deus, se verra cedo!

Tradução

Ondas do mar de Vigo, 
acaso vistes meu amigo? Queira Deus que ele venha cedo!

Ondas do mar agitado, 
acaso vistes meu amado? 
Queira Deus que ele venha cedo!

Acaso vistes meu amigo 
aquele por quem suspiro? 
Queira Deus que ele venha cedo!

Acaso vistes meu amado, 
por quem tenho grande cuidado (preocupado) ? 
Queira Deus que ele venha cedo!

Martim Codax: trovador-jogral da época de Afonso III (meados do século XIII). “Dele só nos restam sete cantigas d’amigo, que se caracterizam por um delicioso primitivismo poético e pelo fato de serem seis destas composições as únicas cantigas trovadorescas acompanhadas da respectiva notação musical” (S. Spina)

CANTIGA DE AMIGO

D. Dinis

- Ai flores, ai flores do verde pino, 
se sabedes novass do meu amigo! 
Ai Deus, e u é?

Ai flores, ai flores do verde ramo, 
se sabedes novas do meu amado! 
Ai Deus, e u é?

Se sabedes novas do meu amigo, 
aquel que lmentiu do que pôs comigo! 
Ai Deus, e u é?

Se sabedes novas do meu amado, 
aquel que mentiu do que mi á jurado! 
Ai Deus, e u é?

- Vós me preguntades polo voss’amado, 
e eu bem vos digo que é san’e vivo. 
Ai Deus, e u é?

Vós me preguntades polo voss’amado, 
e eu bem vos digo que é viv’e sano. 
Ai Deus, e u é?

E eu bem vos digo que é san’e vivo 
e seera vosc’ant’o prazo saído. 
Ai Deus, e u é?

E eu bem vos digo que é viv’e sano 
e seera vosc’ant’o prazo passado. 
Ai Deus, e u é?

Glossário

pino: pinheiro 
novas: notícias 
e u é?: e onde ele está? 
do que pôs comigo: sobre aquilo que combinou comigo (isto é, o encontro sob os pinheiros) 
preguntades: perguntais 
polo: pelo 
que é san’e vivo: que está são (com saúde e vivo) 
e seera vosc’ant’o prazo saído (passado): e estará convosco antes de terminar o prazo combinado

D. Dinis, grande incentivador da cultura, fundou a Universidade de Lisboa (1291), posteriormente transferida para Coimbra (1308). Foi chamado o rei-trovador, com 138 cantigas conhecidas.

O GÊNERO SATÍRICO

As cantigas satíricas apresentam interesse sobretudo histórico. São verdadeiros documentos da vida social, principalmente da corte.

Fazem ecoar as reações públicas a certos fatos políticos: revelam detalhes da vida íntima da aristocracia, dos trovados e dos jograis, trazendo até nós os mexericos e os vícios ocultos da fidalguia medieval portuguesa.

Enquanto as cantigas de escárnio utilizam a ironia e o equívoco para realizar mais indiretamente essas zombarias, as cantigas de maldizer são sátiras diretas. Daí sua maior virulência, o emprego mais freqüente de palavrões (em geral os mesmos que usam até hoje) e a abordagem mais desabusada dos vícios sexuais atribuídos aos satirizados.

A diferença entre esses dois tipos de cantiga é, portanto, apenas relativa. Freqüentemente a classificação dos textos é ambígua.

O próprio significado das palavras escárnio e maldizer pode deixar mais clara essa diferença entre os dois tipos de sátira:

Escárnio: Zombaria, menosprezo, desprezo, desdém
Maldizer:
(verbo) pragueja contra; (substantivo), maledicência, difamação. 

CARACTERÍSTICAS DAS CANTIGAS DE ESCÁRNIO

Indiretas
Uso da ironia e do equívoco

CARACTERÍSTICAS DAS CANTIGAS DE MALDIZER

diretas, sem equívocos
Intenção difamatória
Palavrões e xingamentos

CANTIGAS DE ESCÁRNIO

De vós, senhor, quer’eu dizer verdade 
e nom ja sobr’[o] amor que vos ei: 
senhor, bem [moor] é vossa torpicidade 
de quantas outras eno mundo sei; 
assi de fea come de maldade 
nom vos vence oje senom filha dum rei 
[Eu] nom vos amo nem me perderei, 
u vos nom vir, por vós de soidade[...]

Pero Larouco

Tradução

Sobre vós, senhora, eu quero dizer verdade 
e não já sobre o amor que tenho por vós: 
senhora, bem maior é vossa estupidez 
do que a de quantas outras conheço no mundo 
tanto na feiúra quanto na maldade 
não vos vence hoje senão a filha de um rei 
Eu não vos amo nem me perderei 
de saudade por vós, quando não vos vir.

CANTIGA DE MALDIZER

As Cantigas de Maldizer distinguem-se das de Escárnio por apresentar sátira direta. A crítica, sempre contundente e clara, muitas vezes usa o baixo calão ( palavrão ) e dá nome à pessoa criticada ( recurso também utilizado, embora com menos freqüência, nas Cantigas de Escárnio ). As críticas referem-se a comportamentos políticos, sexuais, a nobres traidores, a compositores incapazes, a rivais amorosos, a mulheres de hábitos feios ou imorais, a pessoas, profissionais ou proprietários pretensiosos.

Essas composições satíricas ( Escárnio e Maldizer ) circulavam por lugares públicos como feiras, colheitas, tabernas, periferias urbanas, caracterizando uma literatura marginal, mas, mesmo por isso, de importância histórica bastante razoável, a exemplo das Cantigas de Amigo, pelo registro social feito.

João Garcia de Ghilhade

Ai, dona fea, fostes-vos queixar 
que vos nunca louv[o] em meu cantar; 
mais ora quero fazer um cantar 
em que vos loarei toda via; 
e vedes como vos quero loar: 
dona fea, velha e sandia!

Dona fea, se Deus mi pardom, 
pois avedes [a]tam gram coraçom 
que vos eu loe, em esta razom 
vos quero ja loar toda via; 
e vedes qual sera a loaçom: 
dona fea, velha e sandia!

Dona fea, nunca vos eu loei 
em meu trobar, pero muito trobei; 
mais ora ja um bom cantrar farei, 
em que vos loarei toda via; 
e direi-vos como vos loarei: 
dona fea, velha e sandia!

Tradução

Ai, dona feia, foste-vos queixar 
que nunca vos louvo em meu cantar; 
mas agora quero fazer um cantar 
em que vos louvares de qualquer modo; 
e vede como quero vos louvar 
dona feia, velha e maluca!

Dona feia, que Deus me perdoe, 
pois tendes tão grande desejo 
de que eu vos louve, por este motivo 
quero vos louvar já de qualquer modo; 
e vede qual será a louvação: 
dona feia, velha e maluca!

Dona feia, eu nunca vos louvei 
em meu trovar, embora tenha trovado muito; 
mas agora já farei um bom cantar; 
em que vos louvarei de qualquer modo; 
e vos direi como vos louvarei: 
dona feia, velha e maluca!

Fonte: www.edms.kit.net/www.revisaovirtual.com/www.graudez.com.br/www.geocities.com

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