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Placebo

Placebo significa em latim “algo para agradar”.

Mas em medicina tem uma conotação geralmente pejorativa, sugerindo que é algo dado para agradar ao doente e não para o beneficiar.

Recentemente, foi adjudicada uma nova atribuição à definição: a falta de atividade farmacológica.

Esta inovação trouxe com ela a ideia de “engano”. Ora, nada mais erróneo do que esta concepção, dado que é do conhecimento comum que nos ensaios clínicos controlados com placebo, os doentes com doenças depressivas, asma ou hipertensão que tomam o placebo melhoram substancialmente.

Esta evidência da eficácia do placebo é algo que simultaneamente nos desafia e incomoda enquanto médicos.

É, também, conhecido que sempre que os médicos interagem com os doentes, isso tem um efeito em ambas as partes, efeito que Michael Balint designou por “médico como medicamento” e descreveu este efeito como uma parte dos recursos terapêuticos do médico.

Se isto acontece, podemos considerar este efeito como um efeito placebo?

Penso que não. Na verdade, qualquer pessoa que fale com um amigo ou qualquer doente que fale com um médico em quem confia,pode beneficiar dessa interação. Estamos de fato no mundo do aconselhamento e da psicoterapia. E sabemos bem como tais interações podem ter benefícios, mas também, naturalmente, podem provocar danos. Dito de outro modo, têm efeitos documentados sobre as pessoas.

Se aceitarmos esta limitação no uso do conceito de “placebo,” resta-nos considerar o efeito do placebo como estando relacionado com uma intervenção, geralmente a prescrição de um agente oral.

Esta definição ajusta-se à que é dada no Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa: ”preparação neutra quanto a efeitos farmacológicos, ministrada em substituição de um medicamento, com a finalidade de suscitar ou controlar as reações, geralmente de natureza psicológica, que acompanham tal procedimento terapêutico”. Ora, esta definição não é suficiente para justificar o que antes foi mencionado em relação aos ensaios clínicos controlados com placebo, segundo as quais os placebos têm algum efeito.

Será, então, um placebo apenas uma intervenção possivelmente eficaz mas não provada pelo método científico tradicional, tal como um ensaio clínico controlado e randomizado? Penso que será necessário começar a a olhar mais aprofundadamente para o que é o efeito placebo.

Tentar definir o efeito placebo numa base meramente individual é impossível, dado existirem demasiadas variáveis que confundem o seu enquadramento — particularmente, o efeito da interação médico-doente.

Num plano estatístico mais válido, o efeito placebo poderia ser definido como a diferença, nos efeitos, entre um grupo tratado com placebo e um grupo de controlo não tratado, num experimento controlado, por exemplo, um ensaio clínico randomizado. Se, então, aceitarmos que um placebo tem um determinado efeito e considerando que umas intervenções têm sempre menos efeito do que outras, porque deve ser uma intervenção designada por “placebo” e uma outra por “ativa”?

Dito de outro modo, o fato de um placebo ser melhor do que nenhum tratamento não torna o placebo num tratamento ativo? Se assim for, isto leva-nos a uma definição de placebo segundo a qual “um placebo será uma intervenção que não apresenta um efeito específico na doença, mas que é melhor do que nenhuma intervenção.” Esta definição faz-nos avançar um pouco mais ao incluir o conceito de “crença” em vez do de “conhecimento”; ora, acreditar num tratamento pelo médico/terapeuta/prático e, sobretudo, pelo doente, é o próprio do efeito placebo. Mas, ainda em relação à definição anterior, o que significa a designação “específico”?

O “específico” na frase “efeito específico” significa invariavelmente que existe uma evidência científica, ou mesmo uma teoria explicativa de um mecanismo de ação? Parece que sim, muito embora não saibamos o mecanismo de ação de alguns tratamentos ativos que usamos na prática diária,como é o caso do lítio para o tratamento da doença bipolar. Ora, pode acontecer que alguns tratamentos que hoje etiquetamos como “efeitos placebo”, sendo provado o seu benefício em determinadas doenças isso implicará a mudança da sua designação.

Deixemos esta questão da definição nos termos em que está – isto é, considerando o placebo como sendo eficaz em algumas circunstâncias e que a “crença” na sua eficácia é importante – e analisemos o campo da praxis médica na qual a progressão normal dos acontecimentos que se ensinam aos estudantes de medicina — história Placebo diagnóstico Placebo tratamento – é, frequentemente, impossível de ser seguida. Diversos estudos mostraram que para cerca de 40-60% de doentes da clínica geral no Reino Unido, nenhum diagnóstico firme podia ser feito (Thomas, 1978).

Quando somos incapazes de fazer um diagnóstico, temos que nos mover diretamente da história para o tratamento. E quando o diagnóstico estiver em dúvida, há uma probabilidade muito maior dos médicos prescreverem um tratamento que não tem nenhum efeito benéfico provado e, nesse caso, agir somente como um placebo.

Um problema que aqui pode acontecer reside no fato de um sucesso aparente desse tratamento poder induzir o médico a pensar que o diagnóstico estava correto e o tratamento ter sido, especificamente, eficaz. Isto pode não ser verdadeiro, tendo Thomas (1978) designado este fenómeno como a “ilusão terapêutica” e poder resultar em consequências graves de natureza ética.Um exemplo disto é o uso de antibióticos em faringites víricas em que o doente melhora.

A questão aqui é a seguinte: o médico acredita que o antibiótico está a ser eficaz? Neste caso, ele não tem conhecimento dos resultados dos ensaios clínicos.

Ou, então, estará a usar o antibiótico como um placebo?

Por uma razão ou por outra, isto é, se o médico acredita que o antibiótico é eficaz nesta situação, ou prescreve o antibiótico como um placebo, está a cometer um erro ético,mesmo que o doente não sofra nenhuma consequência negativa.

Parece, pois, que o efeito placebo é usado frequentemente na prática clínica de uma forma não consciente. Mas o que dizer sobre o seu uso deliberado?

Deveríamos nós, prescrever drogas ou procedimentos que sabemos não terem nenhum valor específico, se a evidência os indicasse como não prejudiciais?

Esta é uma questão muito controversa. Poderemos considerar que pode haver ocasiões em que um placebo apropriadamente prescrito será menos prejudicial e talvez mais benéfico do que uma droga incompletamente compreendida?

Em 1998, Brown afirmava: “se os médicos pudessem ver os placebos como vêm muitas outras drogas convencionais, enquanto terapias amplamente eficazes, cujos mecanismos não estão completamente compreendidos e que tendem a ser mais eficazes em algumas circunstâncias do que noutras (e em alguns doentes mais do que noutros), poderiam prescrever honestamente placebos como tratamentos plausíveis.”

É evidente que esta perspectiva não se coaduna com os princípios da medicina baseada na evidência, mas também é sabido que os placebos têm um efeito ativo em doentes ansiosos ou que tenham perfis de personalidade dependente (Saintoge e Herxheimer, 1994).Por isso, se considera atualmente a necessidade de se ajustar o tratamento às características da personalidade do doente – algo que frequentemente se faz com o uso de substâncias ativas. Mas essa prática não deverá incluir também o uso de placebos?

A resposta a esta questão pode ser encontrada na distinção entre doença e padecimento. A doença é definida como um estado somático anormal (p. ex., hiperglicemia na diabetes,uma fratura de um membro ou uma infecção pulmonar). Padecimento é o sentimento de mal-estar,que normalmente faz com que o doente procure um médico, mas também o que as pessoas sentem quando têm alguma doença. É a vivência da doença por parte do doente.Mas é também o que elas sentem quando apresentam uma condição de saúde cuja causa nós não conseguimos explicar.

Ora, o que os médicos têm de tratar é o padecimento, quer curando a doença com um remédio específico ou por outros meios, tais como o uso do “médico como medicamento” ou com o uso de um placebo.

Esta é uma questão em aberto que nos interpela diariamente quando temos de decidir o que prescrever para aliviar o sofrimento dos doentes que nos procuram.Devemos ou não prescrever substâncias que não têm efeito específico provado para uma determinada doença, mas que sabemos que poderá aliviar o sofrimento do doente que está ao nosso cuidado? Deixo ao leitor a tarefa de refletir sobre esta questão.

J. Marques-Teixeira

1. Brown WA. (1998). Should doctors be prescribing sugar pills - Sci Am 278:90 – 95.
2. Chaput de Saintonge DM, Herxheimer A. (1994). Harnessing placebo effects in health care. Lancet 344: 995 – 998.
3. Thomas KB. (1978). The consultation and the therapeutic illusion. Br Med J 1:1327 – 1328.

Fonte: www.saude-mental.net

Placebo

ESTUDOS SOBRE O EFEITO PLACEBO

Placebo é um agente desprovido de atividade terapêutica, mas que pode agir por um mecanismo psicológico se o individuo pensa receber um tratamento ativo.

Emprega-se o placebo para testar o valor real de um medicamento excetuando qualquer ação psicológica (blind test ou teste anônimo). Do ponto de vista lingüístico, placebo, palavra latina significa gostado. V. Nocebo (efeito). O estudo aqui estabelecido visa uma identificação do conceito de placebo e suas implicações terapêuticas.

A fé e as crenças do paciente são fatores relevantes no tratamento com o placebo; assim, faremos um breve levantamento das crenças em que os pacientes estão imersos.

Os resultados implícitos do placebo, não incluem somente alívio dos sintomas, mas sim a cura efetiva da enfermidade, decorrente da fé e/ou expectativas psicológicas do paciente.

A resposta ao placebo é a alteração que ocorre a ele após a sua administração, contudo essa alteração poderia ocorrer na ausência de sua administração, sendo assim relacionada a outros fatores inespecíficos.

Efeito placebo é então, a diferença entre a resposta ao placebo e as mudanças que ocorrem na ausência da sua administração.

A ação do placebo depende de três fatores: interesse do médico pelo paciente; interesse do médico pelo tratamento, sua fé, convicção nos resultados positivos da terapêutica; e interesse no acompanhamento do caso clínico.

O efeito Placebo pode ser ativo / impuro trata-se de um tratamento ativo, mas sem atividade específica para a situação clínica a ser tratada e placebo inativo / inerte / puro, será um tratamento inerte, desprovido de qualquer tipo de atividade.

Como exemplos de placebo puro têm os comprimidos de amido ou açúcar, injeções de soro fisiológico e cirurgias fictícias.

Sendo assim, existem três modelos básicos para explicar o efeito placebo: modelo opióide; modelo de condicionamento; e modelo das expectativas.

O modelo opióide seria pela libertação de endorfinas a nível central, como resposta ao estímulo placebo.

O modelo de condicionamento consiste dos benefícios de tomar medicação ou interagir com os médicos, servindo de estímulo condicionado de acordo com a teoria de Pavlov.

No modelo das expectativas, o efeito placebo seria o resultado visto positivamente, apesar de expectativas contrarias a esse, enquadra-se o efeito Nocebo.

O placebo não se limita apenas ao uso de medicamentos, seu uso é eficaz em: cirurgias, procedimentos, anestesias, dentre outros.

Etimologicamente o uso do placebo está mais relacionado a agradar o paciente do que efetivamente tratar o mesmo.

O conhecimento sobre o efeito placebo ampliou-se muito com a necessidade que a medicina manifestou em realizar testes clinicamente controlados, que é uma metodologia científica muito utilizada para determinar a eficácia terapêutica de novos fármacos. Os estudos com novas medicações são feitos geralmente em dois tempos.

O primeiro consiste em uma comparação entre o efeito do medicamento com o efeito placebo e o segundo é uma comparação da nova medicação com outra de efeito similar.

Logo de maneira geral é estabelecido dois grupos de pacientes dispostos às mesmas condições na qual se deseja intervir.

Em um dos grupos é feita a intervenção com medicamento, e no outro é aplicado o placebo.

Dado os resultados, uma comparação é feita entre os grupos, afim de, analisar a eficácia farmacológica da substancia em estudo, assim demonstrada a eficiência medicamentosa em relação ao placebo, seguidamente essa medicação é comparada a um outro fármaco já comprovado como eficiente no mesmo objetivo. Esse procedimento comprovará a eficácia da nova medicação para o resultado esperado.

Leandro Benavide

Vinícius Nardo Gonçalves

Sandra Catelan

Fonte: www.cesumar.br

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