Polêmica à parte, é interessante conhecer a história de Wilbur e Orville Wright.
A aventura dos irmãos Wright começou em 1896, quando leram nos jornais da época a história da morte do piloto de planador, o alemão Otto Lilienthal.
Eles acreditavam que a morte tinha se dado devido a falta de controle sobre o aparelho, e começaram a pensar em um modelo de um sistema de controle para uma aeronave.
Começava assim um longo período de pesquisas e estudos.
Em 1899, Wilbur está brincando com uma longa e fina caixa quando tem uma brilhante idéia para um sistema de controle de aeronave. Torcendo as asas, ele poderia controlar o giro, inclinação e direção (direita ou esquerda) da aeronave.
Os irmãos testaram o conceito com uma pipa e comprovaram sua teoria.

Wilbur Wright se preparando para seu primeiro vôo em 1903
Na primavera de 1900, os irmãos construíram um planador e iniciaram os testes de vôo em Kitty Hawk, na Carolina do Norte (EUA).
A cidade foi escolhida devido aos sues fortes ventos, que ajudariam na decolagem do planador, e às areias macias, que auxiliariam na aterrissagem.
O sistema de controle das asas funcionou bem, mas o planador não alcançou a altitude desejada. No ano seguinte, eles testaram um novo planador. Uma decepção: o controles não funcionaram tão bem e a aeronave mal pôde se erguer do solo.
Apesar do desânimo da falha dos primeiros testes, os irmãos não desistiram. Eles testaram mais de 200 tipos diferentes de asas e construíram um túnel de vento para descobrir qual asa conseguiria uma maior ascensão.
Os Wright construíram seu terceiro planador baseado nos resultados dessa pesquisa.
A aeronave produziu o levantamento esperado, mas ainda era difícil de controlar em uma curva.
Eles decidiram então fazer uma cauda móvel para o planador, e isso resolveu o problema. Os irmãos realizaram diversos vôos com a aeronave, alcançando 600 pés de altitude.

Vôo dos irmãos Wright em 1903
Após o sucesso dessa experiência, Walbur e Orville decidiram dar um passo além e começaram a planejar uma aeronave motorizada.
Os irmãos começaram então uma série de estudos, pesquisas e contatos com fábricas para a construção de uma aeronave. Por fim, decidiram construir eles próprios o motor para sua aeronave, que ficou pronta no outono de 1903.
Devido a alguns problemas mecânicos, os testes só começaram a ser realizados no início de dezembro.
ssim, no dia 17 de dezembro de 1903, os irmãos conseguiram realizar seu primeiro vôo controlado e motorizado, no avião batizado de Flyer I, que permaneceu no ar por 12 segundos.
Fonte: 360graus.terra.com.br
Mas, afinal, quem é o pai dessa criança? O físico Henrique Lins de Barros dá um suspiro ao telefone quando ouve a pergunta. Para o pesquisador do CBPF (Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas), talvez o maior especialista vivo em Santos-Dumont, já passou da hora de pôr um ponto final a uma controvérsia tão antiga quanto inútil. A criança --no caso o avião-- não tem um "pai". Tem vários.
"É muito complicado, num desenvolvimento tecnológico, dizer quem foi o pai da criança. Quem inventou o navio? Qualquer um. Um produto tecnológico são várias descobertas que vão culminar num determinado momento", diz. O "momento" do avião é complicado de determinar.
No dia 23 de outubro de 1906, Alberto Santos-Dumont, mineiro de nascimento, parisiense de adoção, decolou com um aparelho mais pesado que o ar. Seu 14-Bis, uma geringonça de 290 quilos e com um motor de 50 cavalos, subiu a uma altura de quase três metros no Campo de Bagatelle, em Paris, e voou 60 metros.
Foi o primeiro vôo feito em público e num aparelho que saiu do chão e pousou por meios próprios ("pousou" em termos; na verdade, o 14-Bis desceu bruscamente e quebrou as rodas). O feito lhe valeu um prêmio de 3.000 francos, instituído por Ernest Archdeacon para quem voasse mais de 25 metros.

Longe dali, numa praia de Kitty Hawk, no Estado americano da Carolina do Norte, o primeiro vôo motorizado de um aparelho mais pesado que o ar era feito por dois mecânicos de bicicleta --só que três anos antes. Em 17 de dezembro de 1903, Orville e Wilbur Wright haviam voado 260 metros com seu Flyer, uma aeronave improvável de 300 quilos e com um motor de 12 cavalos, que decolara de uma colina. O feito, sem testemunhas, foi comunicado por telegrama.
Ciosos de seu invento, que pretendiam patentear, os irmãos Wright cortaram todos os contatos com o mundo exterior --mantidos até 1902. De 1905 a 1908, quando se estabeleceu a Federação Aeronáutica Internacional, pararam de voar. Sua primazia só seria comprovada inquestionavelmente em 1908, quando voaram (ainda sem decolar por meios próprios) espantosos 124 quilômetros na França.
"Até Santos-Dumont reconheceu que não seria possível em 1908 que os Wright não tivessem uma experiência grande de vôo anteriormente, porque, quando os europeus estão voando 10 quilômetros e ficando 15 minutos no ar, o avião dos Wright fica mais de duas horas no ar. Então eles já faziam isso antes, como estavam falando", diz Lins de Barros. Os americanos não inventaram o avião, mas foram os primeiros a voar.
O Flyer tinha problemas, é verdade: pesado, instável e com asas inclinadas para baixo, precisou de ventos fortes para fazer seu vôo, descendente, do alto de uma colina. Era um beco sem saída evolutivo que jamais poderia sair do chão sozinho.
E, claro, tem a história da catapulta. O vôo dos Wright não valeu porque o Flyer foi atirado de uma catapulta. Portanto, Santos-Dumont teve mesmo a primazia. Certo?
Errado. "O Flyer não foi catapultado. Isso faz parte dessa história mal contada, mal formulada no Brasil", afirma o pesquisador do CBPF, que acaba de lançar o livro "O Desafio de Voar" (Metalivros), sobre a conquista do ar e os brasileiros que participaram dela. A catapulta seria adotada pelos Wright só depois de 1903.
Irradiação
O título de "inventor do avião" poderia ser dividido entre muita gente. Como o alemão Otto Lilienthal, morto em 1896 num vôo de planador. Como Gabriel Voisin e Louis Blériot --o primeiro a voar sobre o canal da Mancha, em 1909. Os próprios Wright e Santos-Dumont já eram celebridades no meio aeronáutico no começo do século passado: os americanos criaram a configuração "canard" (ganso) para seus planadores, com o leme na frente, usada no próprio 14-Bis.
E o brasileiro ficara famoso ao criar o primeiro balão dirigível, o nº 6, em 1901. Tanto que foi a Santos-Dumont que a imprensa local de Ohio (terra natal dos irmãos) comparou os irmãos ao noticiar o feito de 1903.
Se os Wright voaram antes, foi ao brasileiro que a irradiação original da aeronáutica se deveu --portanto, se a alcunha de "pai do avião" é exagero, a de "pai da aviação" é justíssima.
"Ele resolve uma das questões essenciais do vôo, que é tirar o avião do chão. Conseguiu transportar as forças que ele conhece e que atuam quando o avião está pousado e fazer a transição entre a situação do avião pousado e do avião voando, onde as novas forças têm que atuar e ele não conhece direito onde elas atuam", afirma Lins de Barros.
"Essa contribuição do Santos-Dumont é fundamental por duas razões: primeiro porque ele dá a chave da decolagem. Segundo porque ele executa isso publicamente, reconhecido por uma comissão internacional. Por isso, em um ano, entre 1906 e 1907, todos os inventores importantes estão voando."
A prova disso é que o primeiro avião a ser produzido em série na história, que inspirou o desenho de vários outros, foi uma invenção de Dumont: o Demoiselle, de 1907. Esse precursor do ultraleve teve seu projeto distribuído gratuitamente pelo brasileiro. Cerca de 300 foram produzidos pela fábrica Clément Bayard.
Nos EUA aconteceu exatamente o contrário. Orville e Wilbur Wright eram capitalistas que fizeram questão de patentear o aeroplano. "Eles poderiam patentear o motor, o sistema de esquis. Tentaram patentear o avião, o vôo."
Não conseguiram. Com isso, atrasaram o desenvolvimento tecnológico nos EUA até 1911, ao tentar impedir outros americanos, como Glenn Curtiss, de desenvolver aeronaves. "A Scientific American chegou a perguntar se eram "flyers" (voadores) ou "liars" (mentirosos)", diz Lins de Barros.
Fonte: www1.folha.uol.com.br