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Reforma Protestante

 

A Reforma Protestante

O processo de transição feudo-capitalista teve na Reforma religiosa do século XVI a grande revolução espiritual que encaminhou o homem à modernidade.

Não podemos considerar a Reforma uma simples manifestação de descontentamento, pois, ao romper a unidade do cristianismo ocidental, alterou profundamente a estrutura clerical e a visão sobre vários dogmas, como também uma revisão na essência da doutrina da salvação.

Em síntese, podemos entender a Reforma como uma tentativa de restauração do cristianismo primitivo ou verdadeiro que, de um modo geral, começou a se processar desde a Baixa Idade Média e atingiu sua maior amplitude com a Reforma protestante e a reação católica representada pela Contra-Reforma.

A Igreja Católica, no entanto, com sua postura doutrinária acerca do empréstimo de dinheiro a juros e a busca do lucro em geral (usura), passou a representar um bloqueio ao espírito de acumulação pré-capitalista. Começou a se fazer sentir cada vez mais a necessidade de adequar a fé e os princípios religiosos à nova realidade econômica. Se de um lado tínhamos a burguesia nascente tentando conciliar a nova mentalidade do lucro e da acumulação de riqueza com sua consciência religiosa, a crise estrutural, pela qual passava o feudalismo, gerava uma atmosfera de tensões e conflitos entre os servos e os senhores feudais.

A a crise religiosa passou a ser um elemento de convergência das lutas de classe. De um lado, o poder senhorial católico (nobreza feudal e alto clero), do outro, a burguesia ascendente e o campesinato oprimido.

O processo de fortalecimento e centralização do poder real, que culminou com a formação das Monarquias Nacionais, fez surgir um Estado forte e dominador, o que tornou inevitável e imperioso o controle sobre a Igreja. Por outro lado, era oportuna a convulsão religiosa que permitiria aos soberanos confiscar os bens e submeter a Igreja à sua tutela, como veremos na Inglaterra de Henrique VIII ou na Alemanha de Martinho Lutero.

A partir do Renascimento, com o desenvolvimento técnico e o surgimento da imprensa, a publicação em série da Bíblia possibilitou a difusão e a conscientização religiosa dos fiéis, tornando-os mais exigentes e críticos em relação à Igreja Católica. Os humanistas como Erasmo de Roterdam (Elogio da Loucura) e Thomas Morus (Utopia) podem ser vistos como elementos dessa nova visão e consciência crítica, pois, ao condenar a ignorância e a imoralidade do clero, levantaram a necessidade da mudança.

Nesse contexto de mudanças econômicas, sociais e políticas, surgiram as condições determinantes para a Reforma. Não podemos associar essa verdadeira revolução da cristandade exclusivamente a fatores materiais, econômicos (capitalismo) ou políticos. A grande questão estava ligada à crise religiosa criada a partir da inadequação do clero (Igreja Católica) à qualificação da fé (Renascimento/ Humanismo).

A eclosão do processo reformista envolveu o papa Leão X. Com vistas na construção da Basílica de São Pedro, em Roma, Leão X negociou a venda de indulgências (perdão dos pecados-diminuindo a pena no purgatório).

A Reforma Luterana

Martinho Lutero nasceu na Saxônia, no ano de 1483. Filho de um pequeno burguês, dedicou-se aos estudos de Direito Canônico e Filosofia. Ingressou posteriormente na ordem religiosa dos agostinianos, sendo indicado para a paróquia de Wittenberg. Tornou-se um professor de excelência em teologia e um religioso muito respeitado pela comunidade.

No ano de 1517, fez forte oposição ao monge dominicano Tetzel, que vendia, na Alemanha, em nome do papa Leão X, indulgências para a construção da Basílica de São Pedro. Esse fato levou Lutero à formulação das 95 teses de propostas críticas de mudança da estrutura eclesiástica. Depois de ter fixado suas idéias na porta da catedral de Wittenberg, suas teses começaram a circular por várias regiões da Alemanha, recebendo apoio de setores da população, que se identificavam com a busca de purificação cristã proposta por Lutero.

No ano de 1520, o papa Leão X, por meio de uma bula papal, condenou Lutero por suas propostas e intimou-o a retratar-se, sob pena de ser considerado herege. Lutero reagiu queimando em público o documento papal, sendo excomungado e devendo se submeter a um julgamento secular.

Condenado também pelos simpatizantes do imperador Carlos V, na Dieta de Worms, Lutero conseguiu refúgio no castelo de Wartburg, onde redigiu panfletos com suas idéias de reforma e traduziu a Bíblia para o alemão. Grande parte dos príncipes alemães o apoiaram porque desejavam romper com o imperador Carlos V e com a poderosa e influente Igreja Católica (papa).

As idéias de Lutero influenciaram o movimento de revolta camponesa dos anabatistas que, liderados por Thomas Munzer, tentaram tomar terras senhoriais e do clero. Lutero se opôs violentamente contra os anabatistas, gerando com isso uma verdadeira guerra religiosa. Essa posição de Lutero revelou o seu comprometimento com os príncipes e setores da nobreza alemã.

No ano de 1529, com a expansão das idéias reformistas, o imperador Carlos V convocou a Dieta de Spira, que decidiu pela permissão ao luteranismo nas regiões convertidas, preservando, no entanto, as regiões alemãs ainda católicas.

O protesto dos luteranos contra as medidas da Dieta resultaram no surgimento do termo protestantes.

Os fundamentos da doutrina luterana.

Entre eles, podemos destacar:

A salvação não se alcança pelas obras, mas sim pela fé, pela confiança em Deus e pelo sofrimento interior
O culto religioso foi simplificado, baseando-se nos salmos e na leitura da Bíblia
Valorizou-se o contato direto entre o fiel e Deus, dispensando-se o clero como intermediário

Manutenção de dois sacramentos: o batismo e a eucaristia (comunhão), e no ritual da eucaristia, acreditava-se na presença de Jesus no pão e no vinho, negando a transformação do pão e do vinho no corpo e no sangue de Cristo (transubstanciação pregada pela Igreja Católica).

A Reforma Calvinista

Na Suíça, região de intenso e próspero comércio, teve início o processo de Reforma Protestante com UlrichZwinglio (1489-1531). Seguidor de Lutero e de Erasmo de Roterdam, Zwinglio promoveu pregações que resultaram em violenta guerra civil entre reformistas e católicos, na qual morreu.

A guerra teve seu final marcado pelo acordo conhecido como Paz de Kappel , que dava autonomia religiosa a cada "cantão" (região) suíço.

A obra de Zwinglio foi continuada por um francês, João Calvino, que, sofrendo forte perseguição em seu país, fugiu para a Suíça e, em Genebra, começou a propagar as bases de sua doutrina contidas na obra Instituição da Religião Cristã.

A doutrina calvinista teve grande aceitação entre os representantes da classe ascendente, a burguesia, na medida em que valorizava aspectos de seu interesse, tais como o trabalho e o acúmulo de riquezas.

Entre seus fundamentos religiosos, podemos evidenciar:

A aceitação da Bíblia como única fonte da verdade
A exclusão do culto aos santos e às imagens
O combate ao celibato clerical e à autoridade papal
A manutenção dos sacramentos do batismo e da eucaristia
A justificação da usura e do lucro através da predestinação absoluta

A doutrina calvinista consolidou-se por meio do Consistório, que estabeleceu em Genebra um rígido modelo de vida para os habitantes da cidade e suas atividades sociais.

Os fiéis também poderiam ser condenados a morte na fogueira , assim como ocorreu na Santa Inquisição.

A Reforma Anglicana

A Reforma na Inglaterra foi gerada por um conjunto de fatores, dentre eles, a influência das idéias de John Wyclif, o nacionalismo inglês que se opunha ao poder da Igreja Católica e a necessidade de a Monarquia inglesa romper com Roma para centralizar o poder.

A Reforma Anglicana teve sua causa imediata ligada ao rompimento do rei inglês Henrique VIII com o papa Clemente VII. Henrique VIII pretendeu conseguir junto ao papa a anulação do seu matrimônio com Catarina de Aragão. Devido à oposição do papa, o rei inglês organizou um tribunal formado por bispos ingleses que aprovou, à revelia de Roma, a anulação do casamento real.

O Rei Passou a ser o chefe da Igreja na Inglaterra, Através do Ato de supremacia.

A Reforma Anglicana, diferentemente da luterana e da calvinista, não pode ser considerada tão radical, na medida em que manteve normas e rituais católicos, acrescentando-se, entretanto, princípios calvinistas.

O anglicanismo consolidou-se em definitivo durante o reinado da rainha Elizabeth I, quando esta obrigou o Parlamento a decretar a Lei dos 39 artigos (1562), que transformou a Igreja inglesa em um misto de catolicismo e calvinismo.

A Contra-Reforma (Reforma Católica)

O sucesso das reformas protestantes deu origem a uma forte reação da Igreja Católica, que teve como finalidade impedir o avanço reformista e reestruturar a Igreja Católica.

O Concílio de Trento, reunido de 1545 a 1563, teve importante papel na tentativa de barrar o avanço do protestantismo e resolver os graves problemas existentes no interior da Igreja Católica.

Entre suas principais resoluções, podemos destacar:

Fundação da Companhia de Jesus (Jesuítas)
A afirmação da autoridade papal
Manutenção do celibato clerical
Confirmação dos sete sacramentos
Elaboração do catecismo
Tradução da bíblia
Criação de seminários
Proibição das indulgências.
A reorganização do tribunal do Santo Ofício, também chamado de Inquisição

Outra importante instituição criada foi a Companhia de Jesus, fundada em 1534 por Ignácio de Loyola e aprovada pelo papa Paulo III. Essa ordem, organizada sob uma rígida hierarquia, dedicou-se à tarefa da catequese e educação através das quais combatia o avanço do protestantismo, promovendo a reafirmação dos dogmas católicos. Os jesuítas tiveram importante papel na conversão ao catolicismo de grande parcela da população indígena americana (missões e reduções).

Outra medida importante ordenada pela Igreja Católica para deter o avanço reformista foi a elaboração do Índex, catálogo de livros proibidos aos católicos. Obras renascentistas, humanistas ou reformistas eram queimadas em praça pública; se possível, com o autor junto.

O tribunal do Santo Ofício, também chamado de Inquisição, criado na Idade Média, tinha como tarefa julgar e combater toda e qualquer manifestação anticatólica.

Resumo

Reformas Religiosas e Contra-Reforma do século XVI

Entre 1379 e 1417, devido a interesses políticos, foram eleitos 2 papas: um em França e outro em Itália, no que ficou conhecido com O Grande Cisma do Ocidente.

A difusão do Humanismo e o avanço da Ciência contribuiu para a criação de um movimento crítico à Igreja.

Os papas envolveram-se na política para proveito próprio
O clero levava uma vida imoral, de luxo e corrupção
Os cargos eclesiásticos eram comprados por pessoas sem experiência

John Wyclif e João Huss lideraram uma contestação ao luxo e imoralidade do Clero. Outros que se lhes associaram foram Savonarola, Thomas Morus e Erasmo de Roterdão.

Em 1517, o Papa Leão X, para arranjar fundos para a construção da Basílica de S. Pedro publicou a Bula das Indulgências. Este documento determinava que os fiéis tinham de pagar pela remissão dos pecados

O alemão Martin Lutero redigiu as 95 Teses contra as Indulgências. Conseguindo alguns aliados, iniciou a reforma protestante, fundando o Luteranismo.

João Calvino, na Suíça, fundou o Calvinismo

Henrique VIII, em Inglaterra, fundou o Anglicanismo

Luteranismo:

Bíblia como fonte de Fé
Salvação pela Fé
Celibato não obrigatório
Rejeição da autoridade do Papa
Sacramentos: Baptismo e Eucaristia
Leitura da Bíblia, Sermão, Eucaristia

Calvinismo:

Bíblia como fonte de Fé
Salvação pela Fé e predestinação
Celibato não obrigatório
Rejeição da autoridade do Papa
Sacramentos: Baptismo e Eucaristia
Leitura da Bíblia, Sermão, Eucaristia

Anglicanismo:

Bíblia como fonte de Fé
Salvação pela Fé e predestinação
Celibato não obrigatório
Rejeição da autoridade do Papa (o Rei é o chefe da Igreja)
Sacramentos: Baptismo e Eucaristia
Supressão da missa e substituição por cerimónias pomposas

Catolicismo:

Bíblia e tradição como fontes de Fé
Salvação pela Fé e boas obras
Celibato obrigatório
Aceitação da autoridade do Papa
7 Sacramentos
Missa e culto dos Santos e da Virgem

Rejeição do culto da Virgem e dos Santos

Estes movimentos originaram uma resposta por parte da Igreja:

1. Reforma: Reafirmação da doutrina e reorganização da Igreja: Concílio de Trento
2. Contra-Reforma:
Combate ao protestantismo e outras religiões, através do fortalecimento da Inquisição e do Índex (conjunto de livros proibidos)

Concílio de Trento (1545-1563)

Por definição, um Concílio é uma reunião dos representantes da Igreja.

Deste concílio surgiu um conjunto de conclusões:

Proibição da acumulação de cargos
Criação de Seminários para formar eclesiásticos
Obrigação dos bispos e sacerdotes a residir nas suas paróquias e dioceses
Manutenção do celibato obrigatório
Reconhecimento da supremacia papal

Contra-Reforma

A Contra-Reforma incidiu sobre três campos:

1. Companhia de Jesus, com o objetivo da pregação e ensino, bem como a evangelização dos indígenas além-mar
2. Inquisição, com o objetivo de combater e punir as heresias e bruxarias
3. Índex, com o objetivo de controlar as ideologias, funcionando como censura literária

Fonte: www.salesiano.com.br

Reforma Protestante

No decorrer da Idade Média, a Igreja Católica Apostólica Romena conheceu muitas dificuldades, envolvendo contestadores de sua doutrina, abusos financeiros e despreparo do clero.

No início do século XVI teve início a Reforma Protestante, movimento religioso liderado pelo monge alemão MARTINHO Lutero que acabou com a unidade da Igreja Católica na Europa. Em conseqüência, várias Igrejas reformadas surgiram na Alemanha, Suíça, França e Inglaterra com milhares de seguidores entre todas as camadas da sociedade européia.

OS ANTECEDENTES DA REFORMA

Durante a Idade Média, apareceram na Europa algumas doutrinas religiosas que divergiam dos ensinamentos oficiais da Igreja Romana: Denominadas de "heresias", essas doutrinas foram sempre rigorosamente combatidas, com perseguições e massacres de seus seguidores, por serem consideradas incompatíveis com a fé católica.

No século XIV, a Igreja Romana enfrentou as "heresias" difundidas por João Wyclif (1324/1384) na Inglaterra e por João Huss (1369/1415), na Boêmia, Wyclif condenava o culto dos santos e a venda de indulgências pela Igreja, isto 4, a concessão do perdão dos pecados mediante pagamento. Huss também negava as indulgências, condenava o luxo excessivo em que vivia o alto clero católico e pregava a livre interpretação da Bíblia pelos cristãos. Ambos foram perseguidos e mor tos na fogueira, mas suas idéias deixaram adeptos. De 1378 a 1418, a cristandade encontrou-se dividida pelo "Cisma do ocidente", provocado pela eleição simultânea de dois papas, devido a um desentendimento entre os cardeais, fato que abalou profundamente o prestígio da Igreja,

A Igreja Católica enfrentou problemas também com os abusos financeiros, a vida escandalosa e o despreparo religioso de alto clero, Papas, cardeais e bispos viviam cercados de luxo interessados mais em questões políticas e financeiras do que em valores espirituais. 0 papa Inocêncio VIII (1484/1492) criou novos cargos de secretário apostólico para arrecadar dois mil ducados; casou seu filho com a filha de Lourenço de Médicis, governante de Florença, que em recompensa teve 1 seu filho de 13 atos nomeado cardeal. 0 papa Leão X (1513/1521) dedicava seu tempo às artes, festas, caças e teatro.

Enquanto isso, o baixo clero, formado pelos curas e vigários das paróquias, pouco instruído e muito pobre, sobrevivia às custas dó aumento das taxas para a celebração de batizados, casamentos, funerais etc. Muitos trabalhavam administrando lojas ou albergues; não raro, e ram dados aos jogos e %à bebida, vivendo também em concubinato. 0 número de padres e bispos que não sabia ministrar os sacramentos, rezar a missa e apresentar aos fiéis a mensagem do evangelho era cada vez maior.

Por outro lado, as guerras, a peste, a fome nos campos e nas cidades, a perda dos antigos direitos por parte dos camponeses, a crença no fim dos tempos, o medo da morte súbita sem as bênçãos da Igreja aumentaram as peregrinações, as procissões, as festas religiosas e a crença no poder salvador das relíquias sagradas. 0 crescimento da "devoção popular" encontrou uma Igreja despreparada, com o clero tão supersticioso como os seus fiéis, na maioria, pessoas rudes.

0 desnível existente entre as necessidades religiosas dos cristãos e a deficiente instrução religiosa da maioria do clero era reconhecido por membros e adeptos da própria Igreja.

O padre dominicano Jerônimo Savonarola, que dominou Florença entre os anos de 1491 e 1498, em seus sermões apontava os abusos da Igreja: "Vede esses prelados dos nossos dias, só pensam na terra e nas coisas terrenas; a preocupação 1 pelas almas não lhes fala mais ao coração. Nos primeiros tempos da Igreja, os cálices eram de madeira e os prelados de ouro; hoje a Igreja tem cálices de ouro e prelados de madeira".

0 humanista cristão, Erasmo de Roterdã, recomendava aos fiéis 1 que não procurassem "os monges, homens supersticiosos, tirânicos, iras cíveis, odientos, maldizentes e querelantes". Para reviver o espírito cristão, Erasmo aconselhava que se recorresse ao próprio Cristo; para auxiliar a sua salvação, o católico deveria orar e procurar conhecer a lei divina.

Depois de enfrentar cismas e heresias, num ambiente de fieis atormentados pelo medo da morte e do inferno, de padres sem vocação ou preparo espiritual, de comércio indiscriminado de indulgências e sacramentos, a Igreja Católica encarou nas piores condições possíveis as idéias de Martim, Lutero, que deram origem à Reforma Protestante.

MARTINHO LUTERO: CONTRA O PAPA E 0 IMPERADOR

Martinho Lutero (1483/1546), monge agostiniano, vivia na cidade de Wittenberg, na Alemanha, onde conquistou o título de doutor em filosofia, tornando-se professor da Universidade e pregador oficial de seu convento, Reconhecia as deformações religiosas de sua época e não aceitava a salvação alcançada através da compra de indulgências. Não sabia, porém, qual seria o remédio para os males da Igreja.

Atormentado na busca do verdadeiro caminho para se encontrar a vida eterna, Lutero, ao estudar as Epístolas de São Paulo, encontrou finalmente uma resposta às suas indagações: a doutrina da salvação alcançada unicamente pela fé em Deus, tema central de sua futura teologia.

Em 1517, o papa Leão X, desejando terminar a construção da Basílica de São Pedro, em Roma, determinou nova venda de indulgências, principalmente na Alemanha, onde a Igreja era possuidora de imensos Territórios. Em protesto a essa falsa "segurança" religiosa proporcionada pelas indulgências, Lutero fixou suas 195 Teses na porta da Igreja de Wittenberg, a 31 de outubro do mesmo ano.

"As rendas de todo o reino cristão estão sendo sugadas nessa insaciável Basílica Nós, germanos, não podemos nos ocupar de São Pedro. Melhor seria que ela não fosse construída do que ver nossas Igrejas paroquiais espoliadas Por que o papa não constrói sozinho São Pedro? Ele é mais rico do que Creso (...), Paria melhor se vendesse São Pedro e desse o dinheiro aos pobres". (LUTERO, GRANDES PERSONAGENS DA História UNIVERSAL. São Paulo, Abril S/A, Cultural e Industrial, 1971, v. 3, p. 531/532.)

Em 1518 e 1519, o papa Leão X exigiu que Lutero se retratasse e reconhecesse o valor das indulgências, mas não foi obedecido.

Nesse período, Lutero escreveu os livros que serviriam de base para a sua nova doutrina: "0 Papado de Roma", "0 Apelo à Nobreza Cristã da Nação Alemão", "O Cativeiro Babilônico da Igreja" e "Da Liberdade do Cristão".

Em 1520, o monge queimou publicamente a bula papal que declarava herético os seus escritos. Em resposta, foi excomungado pelo papa. Carlos V, imperador do Sacro Império Romano Germânico, do qual faziam parte os territórios da Alemanha da Áustria da Hungria, dos Países Baixos, parte da Espanha e da Itália, procurou preservar a unidade da Igreja Católica, mas enfrentou a oposição da nobreza e da burguesia alemãs, que apoiavam as idéias de Lutero por interesse nas propriedades e rendas da Igreja católica e para se livrarem dos impostos e taxas pagos a Roma.

Em 1521, pelo Edito de Worms, Carlos V baniu Lutero do Sacro Império e ordenou a queima de seus livros. Lutero conseguiu abrigo no castelo de Warlburg, do príncipe Frederico da Saxônia, de onde traduziu a Bíblia para o alemão, tornando-a acessível ao povo. Cidades como Constança, Nurenberg, Erfurt, Magdeburgo, Bremen se recusaram a aplicar o Edito de Worms. 0 ex-monge transformava-se no líder espiritual de um número cada vez maior de alemães, entre humanistas, artistas, burgueses, príncipes, pequenos nobres e camponeses.

Em 15261 a cidade de Espira não aceitou empregar o Edito de Worms contra Lutero. Carlos V tentou forçá-la, provocando o protesto de 6 príncipes e de 14 cidades (donde se originou a palavra protestante). Em 1529, as cidades protestantes se reuniram na Liga de Smaikalde contra Carlos V que, em guerra contra a França e contra o Império o otomano, nada pode fazer para impedir o avanço do Luteranismo.

AS DOUTRINAS DE LUTERO

Em 15309 em Augsburgo, foi apresentada a doutrina de Lutero, redigida por Felipe Melanchton, seu principal colaborador.

Baseava-se nos seguintes princípios:

1. A única fonte de fé é a Bíblia, livremente interpretada pelos cristãos;
2.
0 único meio de salvação é a fé em Cristão Os sacramentos e as boas obras não são válidos como meio de se obter a salvação;
3.
A Igreja é a simples reunião dos crentes, que têm todos os mesmos direitos;
4.
0 culto consiste na pregação feita pelos pastores ou "ministros de Deus".

Alem disso, Lutero aboliu o celibato dos padres, o culto de Nossa Senhora e dos Santos, o uso do latim, acabou com os sacramentos, a exceção do batismo e da comunhão, que entretanto sofreram modificações; negou a autoridade do papa e colocou a Igreja sob o poder do Estado.

AS REVOLTAS SOCIAIS NA ALEMANHA

0 Luteranismo ganhou adeptos, canalizando insatisfações existentes na sociedade alemã. Nobres e camponeses, descontentes com a situação de empobrecimento em que viviam, face às transformações econômicas que varriam a Europa, viram em Lutero, que ousara enfrentar Roma e Carlos V, um ponto de apoio para a sua luta.

Em 1529 a pequena nobreza alemã se revoltou contra o Papado e contra o Sacro Império Queria, basicamente, acabar com os privilégios e as riquezas territoriais da Igreja e dos grandes príncipes alemães. Inutilmente, os revoltosos buscaram o apoio de Lutero que, entre tanto, o recusou dizendo que toda autoridade, boa ou má, deveria ser reconhecida e respeitada, A rebelião da pequena nobreza alemã fracassou por falta de apoio.

Mas, os grandes príncipes do Império realizaram, em seu próprio proveito, o objetivo da revolta da pequena nobreza: apropriaram-se de grande parte das terras da Igreja, tomando a Reforma o caráter nacionalista de luta contra o Papado e contra o poder centralizado do Império.

Em 1524, foi a vez dos camponeses alemães se sublevarem para se verem livres de seus senhores. A crise do sistema feudal modificara na Alemanha, assim como em outras regiões, a situação da população rural. Ao invés dos impostos em espécie e da prestação de serviços dos servos passaram a pagar taxas em dinheiro pelo uso das terras dos nobres. Para isso, vendiam, nas feiras e nas cidades, a sua produção.

Se por um lado, o dinheiro trouxe novas esperanças para o camponês, por outro, acabou com o uso comum e gratuito das terras das aldeias, Os pastos, as florestas, os moinhos se transformaram em propriedade privada do senhor, que cobrava em moeda pelo seu uso". Os camponeses continuavam em situação miserável, muito explorados e entregues a própria sorte.

Liderada por Thomas Müntzer, um pastor da Saxônia, a revolta camponesa alastrou-se pelos campos e cidades da Alemanha.

Os revoltosos afirmavam que os camponeses, conforme dizia a Sagrada Escritura, nasceram livres, e reivindicavam a livre escolha dos chefes espirituais, a abolição da servidão, a diminuição dos impostos sobre a terra e a liberdade para caçar nas florestas pertencentes à nobreza:

"Temos agora, em quinto lugar, de protestar contra a questão da lenha. De fato, nossos senhores apossaram-se de todos os bosques. E quando o camponês precisa de lenha, não tem outro remédio senão comprá-la ao preço de dois florins. Protestamos, em décimo lugar, contra o fato de certos homens se terem apropriado dos prados e dos campos pertencentes à comunidade. Queremos que esses campos e prados voltem a ser, novamente, bens da comunidade, salvo quando legitimamente adquiridos," (BEER, Max. História do Socialismo e das lutas Sociais. Rio de Janeiro, Laennert S/A, 19689 p. 283/284.)

Lutero condenou o movimento dos camponeses apoiando os príncipes e nobres do Império. A continuidade da revolta levou-o a afirmar que os camponeses eram cães furiosos que precisavam ser degolados. "Vivemos em tempos tão extraordinários que um príncipe pode merecer o Céu derramando sangue, muito mais facilmente do que aqueles que rezam." (Lutero, GRANDES PERSONAGENS DA História UNIVERSAL, op. cit. p. 538.)

Em 1525, na batalha de Frankenhausen, os camponeses foram derrotados e mais de 5 000 morreram. Os vencidos permaneceram sob o jugo dos senhores feudais, mantidos na condição de servos reforçada pelo princípio luterano da passiva submissão à autoridade. Thomas Müntzer capturado morreu sob terríveis torturas. Seus seguidores passaram a ser conhecidos como "anabatistas".

As hostilidades entre Carlos V e as cidades da Liga de Smalkalde prolongaram-se até 1555, quando foi proclamada a "liberdade religiosa" na Alemanha. Pela paz de Augsburgo, 2/3 do país se tornaram protestantes. Os príncipes alemães passaram a ter o direito de impor a sua religião aos habitantes de seus domínios. As tentativas de Carlos V de transformar o Império numa monarquia absoluta fracassaram, favorecendo a luta dos pequenos Estados pela sua soberania; reforçou-se também a exploração dos camponeses pelos senhores feudais.

A Reforma Protestante ultrapassou largamente as fronteiras da Alemanha; atingiu a Dinamarca, a Noruega, a Suécia, a Suíça, os Países Baixos, a Inglaterra e parte da França, Favorecidas pelos princípios de livre interpretação da Bíblia, nova seitas surgiram e se propagaram pela Europa. As razões iam desde o verdadeiro intuito de reformar a Igreja e atender melhor 'à devoção dos fiéis, até os motivos políticos como os que levaram Henrique VIII da Inglaterra a romper com o Papa, criando a Igreja Anglicana, da qual se tornou chefe, em 1534.

0 Concílio manteve o latim como a língua oficial da Igreja e decidiu pela criação de um catecismo e de seminários em cada diocese, para a formação de sacerdotes, Os padres e os bispos ficaram sujeitos a regras disciplinares e foram obrigados a pregar os ensinamentos da Bíblia aos fiéis. A Igreja conscientizou-se de seus deveres morais e espirituais e centralizou-se mais no papado.

As doutrinas, os dogmas e os ritos contestados pelos protestantes foram rigorosamente mantidos e reafirmados, como os sete sacramentos, o pecado original, a crença no purgatório, a devoção aos santos, a legitimidade das boas ações e das indulgências para se alcançar à salvação, a proibição da livre interpretação da Bíblia, a autoridade do papa e a regra do celibato dos padres.

As ordens religiosas constituíram um importante instrumento de apoio à Contra-Reforma. Principalmente a "Companhia de Jesus", ordem dos jesuítas fundada por Santo Inácio de Loyola, em 1534, muito contribuiu para a disciplina do clero, para o combate às heresias e para a propagação do Catolicismo em terras da América, da África e da Ásia.

0 Concilio de Trento classificou definitivamente os protestantes como "heréticos" e instituiu o "ïndex", lista de livros proibidos e considerados impróprios aos católicos, no qual figuraram humanistas como Erasmo de Roterdã, Camões, Descartes, Locke, que tiveram suas obras censuradas ou mutiladas.

Olga Maria A. Fonseca Coulon

Fábio Costa Pedro

Fonte: br.geocities.com

Reforma Protestante

A história da Reforma Protestante e a Contra-Reforma Católica

Introdução

A Igreja foi uma poderosa instituição medieval. Mas entre os séculos XI e XIII, ela passou por diversas crises e mudanças, surgindo daí inúmeros movimentos que criticavam seus valores e posturas:

As heresias, que contestavam certos dogmas da Igreja Católica e por isso foram duramente perseguidas;
As ordens mendicantes, correntes internas que questionavam a preocupação da Igreja com as questões materiais;

As reações da própria Igreja para combater esses movimentos, principalmente a reforma gregoriana (do papa Gregório VII, na primeira metade do século XI) e a instituição da Santa Inquisição, no século XIII.[1}

A partir do século XV as críticas à Igreja Católica retornaram, ganhando muitas forças no século XVI. Os conflitos e as diferenças dentro da Igreja tornaram-se tão séria neste século, que acabaram gerando uma cisão na cristandade por meio da Reforma Protestante.

Alguns fatores gerais

No século XV, com as profundas transformações que ocorriam na Europa (a expansão marítima, o renascimento urbano e comercial e o humanismo/Renascimento), os movimentos que questionavam o excessivo comprometimento da Igreja Católica com os problemas mundanos e materiais ganharam mais espaço e força para se desenvolverem.

Dois fatos colaboraram muito para agravar ainda mais a situação da Igreja ao longo dos séculos XV e XVI:

A crescente onda de corrupção com a venda de indulgência, relíquias religiosas e cargos eclesiásticos importantes, bem como a concubinagem do clero.

E, ao mesmo tempo que o papa (autoridade máxima da Igreja) perdia poder para monarquias nacionais, enfraquecendo-se, cometia abusos políticos, envolvendo-se em acordos e golpes políticos com o objetivo de universalizar sua influência na Europa católica.

A Igreja tornava-se cada vez mais vulnerável tanto no aspecto moral quando no religioso. As insatisfações generalizavam-se por toda a Europa.

A burguesia estava insatisfeita porque seus interesses chocavam-se com as posturas da Igrejas, como, por exemplo, a condenação da usura (lucro proveniente de juros exagerados) e da cobiça (desejo de possuir bens materiais e poder). Os Estados nacionais (ou o rei) queriam limitar os poderes temporais da Igreja nas suas fronteiras. O fiel de origem humilde via a Igreja defendo a exploração feudal e não encontrava nela o apoio espiritual de que tanto precisava naquela época de crise.

No aspecto teórico, o Renascimento foi muito importante, uma vez que, de acordo com sua postura antropocêntrica valorizava o homem e sua individualidade e ainda o espírito critico do intelectual e cientista. Isto contribuiu muito para uma aproximação entre fé e razão e para a revisão de atitudes religiosas, como a idéia de que a interlocução com Deus poderia ser individual, sem a mediação do clero; ou ainda que a interpretação da Bíblia deveria ser livre e pessoal.

Gradativamente, forma sendo criadas na Europa condições para o surgimento de religiões mais adaptadas ao espírito capitalista.

Nesse quadro de insatisfações surgiram os primeiros reformistas [também chamados de pré-reformadores]: o inglês John Wycliffe, professor da Universidade de Oxford, já defendia (entre o final do século XIV e o início do XVI) a livre interpretação da Bíblia, o fim dos impostos clericais e questionava a existência da hierarquia eclesiástica.

O tcheco John Huss, professor da Universidade de Praga, foi um seguidor das idéias de John Wycliffe. Ele defendia, nessa mesma época, a utilização das línguas nacionais nos cultos religiosos, em vez do latim; chegou até a traduzir a Bíblia para seu idioma, o que era um sacrilégio. Foi condenado pela Igreja em 1417 e morto na fogueira.

Essas primeiras iniciativas não tiveram muita repercussão, ficando restrita às igrejas de seus países, o que não ocorreu com os reformadores seguintes.

A Reforma Protestante na Alemanha

No século XVI a Alemanha não existia como a conhecemos hoje; ela fazia parte de um império mais extenso, o Sacro Império Romano-Germânico. O Império estava divido em diversas regiões independentes, os principados. Logo, o poder estava descentralizado nas mãos dos príncipes (a centralização do Estado alemão só viria a ocorrer no século XIX), que comandavam todas as ações na sua região.

O Sacro Império e a Igreja Católica disputavam o poder na região, produzindo alguns conflitos. Grande proprietária de terras, a Igreja alemã continuava vinculada ao mundo feudal, explorando os camponeses e impedindo o desenvolvimento do comércio e, conseqüentemente, da burguesia. Além disso, em razão da sua grande força nas questões temporais, a corrupção e a decadência moral da Igreja assumiam grandes proporções na Alemanha. A sociedade, de maneira geral, a via de forma muito negativa.

Por isso, em outro de 1517, o monge agostiniano (portanto, membro da Igreja Católica) e professor universitário Martinho Lutero (1483 – 1546) afixou na porta da catedral de Wittenberg 95 teses e que denunciava e protestava contra a venda de indulgências.

O papa, na época Leão X, exigiu sua retratação, o que não ocorreu, prolongando o conflito por cerca de três anos. Finalmente, em 1520, Lutero foi excomungado pelo papa. Para demonstrar sua insatisfação, ele queimou em público a bula papal que o condenava. Em virtude de sua radicalidade, Lutero foi proscrito do Império. No entanto, o príncipe Frederico da Saxônia o acolheu em seu castelo.Protegido no castelo, Martinho Lutero traduziu a Bíblia do latim para o alemão (o que era proibido na Época [pela Igreja Católica]).

A difusão da Reforma e as lutas religiosas

As idéias da Reforma Luterana espalharam-se pelo Sacro império Romano-Germânico e provocaram diversos conflitos sociais, políticos e religiosos.

Alguns nobres, por exemplo, apropriaram-se de terras da Igreja, pela conversão ao luteranismo. De outro lado, de forma violenta, vários nobres decadentes atacaram, em 1522 e 1523, principados católicos (a Revolta dos Cavaleiros) par se apoderarem de suas riquezas. Houve reação dos católicos, que impediram e esmagaram a revolta.

Esses conflitos armados motivaram a organização de camponeses e trabalhadores urbanos envolvidos na Revolta dos Cavaleiros. Liberados pelo sacerdote luterano Thomas Munzer, esse movimento foi profundamente influenciado pelo anabatismo.

O anabatismo era um corrente reformista mais radical; rejeitava qualquer sacerdócio, já que Deus se comunicava diretamente com os eleitos, combatia a riqueza, a miséria e a propriedade privada e pregava a igualdade social. Por causa desses princípios, o anabatismo era muito divulgado entre a população mais pobre e deu um tom revolucionário às revoltas.

Temendo p desenvolvimento das revoltas populares, nobres e burgueses, católicos e luteranos (com a concordância de Lutero) uniram-se pra combater o inimigo comum. Em 1525 um grande exército marchou contra os revoltosos, eliminando cerca de cem mil pessoas e decapitando o líder Thomas Munzer.

Após o fim das revoltas populares, as nobrezas católicas e luterana voltaram a se enfrentar, lutando por terras e poder. O imperador Carlos V, fiel à Igreja, procurou pôr fim às agitações convocando, em 1530, a Dieta de Augsburgo (uma espécie de assembléia de nobres) para discutir os conflitos. Ele tentava conciliar as posições de reformistas e católicos. Mas os luteranos, através de Melachton, discípulo de Lutero, reafirmaram suas posições na Confissão de Augsburgo , e as lutas reiniciaram.

A nobreza luterana organizou uma Liga militar (Liga de Esmalcalda), para combater os exércitos imperiais. As lutas estenderam-se até 1555, quando foi assinada, pelo novo imperador Fernando I, a paz em Augsburgo. Este tratado de paz reconheceu a divisão religiosa da Alemanha e determinou que o povo da cada principado deveria seguir a religião de seu príncipe.

Com o fortalecimento de luteranismo na Alemanha, ele começou a influenciar os paises escandinavos (Suécia, Dinamarca e Noruega). Todos os reis dessa região se converteram à Reforma Protestante, determinando o fim da influencia católica nesses paises.

A Reforma Protestante na Europa

O Calvinismo

Na França, antes da forte influência luterana, alguns humanistas haviam tentado realizar uma reforma religiosa mais pacífica, mas não alcançaram nenhum sucesso.

O catolicismo na França era bastante forte e tinha o apoio da monarquia.

As idéias de Lutero continuavam se espalhando pela Europa. Na França, um estudioso das artes liberais e de Direito chamado João Calvino (1509 – 1564) aderiu à reforma pregada por Lutero.

O reformismo Luterano ganhou certa radicalidade nas concepções da Calvino:

O homem, um pecador, só podia ser salvar pela fé (Ef 2.1, 8). [Depravação total - Todos os homens nascem totalmente depravados, incapazes de se salvar ou de escolher o bem em questões espirituais.]

Deus é transcendente (superior, acima do mundo real) e incompreensível.

Ele só revelou aquilo que quis revelar através das Escrituras. [Soberania de Deus - Spurgeon (1834-1892) enfatiza corretamente: “Deus é independente de tudo e de todos. Ele age de acordo com Sua própria vontade. Quando Ele diz: ‘eu farei’, o que quer que diga será feito. Deus é soberano, e Sua vontade, não a vontade do homem, será feita”. Deus se apresenta nas escrituras como todo-poderoso (onipotente), com capacidade para fazer todas as coisas conforme sua vontade (SI 115:3; 135:6; Is 46:10; Dn 4:35; Ef 1:11) [a]]

A predestinação divina absoluta já destinava o futuro do homem à salvação ou à condenação. [A doutrina da Predestinação - Deus escolheu dentre todos os seres humanos decaídos um grande número de pecadores por graça pura, sem levar em conta qualquer mérito.

Perseguido, Calvino refugiou-se na cidade suíça de Genebra, 1536 [b]. A Suíça era um país onde as idéias reformistas luteranas já tinham alguma força devido à pregação de Úlrico Zwinglio (1484-1531).

Apoiado pela burguesia local. Calvino desenvolveu suas idéias e deu um novo vigor militante ao reformismo. Ele pregava a valorização do trabalho (veja artigo de Hermisten M. P. Costa sobre A Reforma e o Trabalho); não condenava o empréstimo de dinheiros a juros, como a Igreja Católica fazia.

Por isso, Calvino acumulou força política e assumiu o governo da cidade.

Governando como [autoridade], sua administração impôs rígidos costumes morais: proibindo o jogo de cartas, a dança e o teatro.

Como suas idéias iam diretamente ao encontro das necessidades burguesas de acúmulo de capital (veja artigo Calvinismo e Capitalismo: Qual é Mesmo a Sua Relação? [d]) e de valorização do trabalho, o calvinismo se espalhou rapidamente pela Europa.

Na Escócia foi organizada a Igreja Presbiteriana (leia sobre John Knox e também John Knox: O Reformador da Escócia ); no norte dos Paises Baixos (Holanda), originou-se o movimento dos puritanos, que se difundiu para a Inglaterra e para a França. (na França os Calvinistas eram chamados de huguenotes, na Inglaterra de puritanos). [O presbiterianismo (igreja Calvinistas) foi levado da Escócia para a Inglaterra; de lá, para os Estados Unidos da América. Em 1726 teve início um grande despertamento espiritual nos Estados Unidos. Este despertamento levou os presbiterianos a se interessarem por missões estrangeiras. Missionários foram enviados para vários países, inclusive o Brasil.

No dia 12 de agosto de 1859 chegou ao nosso país o primeiro missionário presbiteriano: Ashbel Green Simonton. Este foi fundador da Igreja Presbiteriana do Brasil www.ipb.org.br.] Leia a História do Presbiterianismo e sua confissão de Fé - Westminster.

O anglicanismo

A Reforma na Inglaterra tomou um caráter bem original.

A igreja católica, ao mesmo tempo que era muito rica em terras, dependia da proteção do Estado. Henrique VIII, rei da Inglaterra, condenou, a principio, o ideário luterano e perseguiu seus seguidores, sendo condenando pela igreja como “Defensor da Fé”.

Por outro lado, o rei pretendia assumir as terras e as riquezas da igreja católica e, ao mesmo tempo, enfraquecer sua influência.

A justificativa para concretizar o cisma foi a recusa do papa em dissolver o casamento de Henrique VIII com Catarina de Aragão, que não podia lhe dar um filho herdeiro (o que criaria problemas políticos de hereditariedade do Reino). O rei não recuou diante da recusa da Igreja e casou-se novamente com Ana Bolena, sendo excomungado. Henrique VIII repetiria o ato, de acordo com seus interesses políticos, casando-se seis vezes.

O rompimento oficial deu-se em 1534, quando o Parlamento inglês aprovou o Ato de Supremacia, que colocava a Igreja sob a autoridade do rei. As propriedades da Igreja Católica passaram às mãos do rei e da nobreza. Todos os dogmas da Igreja Católica forma mantidos, exceto a autoridade papal, que devia se submeter à do rei. Nasci, assim, a Igreja Anglicana, gerando insatisfação entre católicos e protestantes. Portanto, as razões da separação entre o Estado e a Igreja não eram religiosos, mas políticos e econômicas.

Após a morte de Henrique VIII, assumiu o trono seu filho Eduardo VI, assumiu o trono seu filho Eduardo VI, que morreu logo em seguida, ainda criança. Ele foi sucedido por Maria Tudor, filha da Catarina de Aragão; católica, perseguiu os protestantes durante todo seu reinado (1547 – 1558), gerando inúmeros conflitos político-religiosos.

Nesse clima tenso assumiu o trono Elizabeth I, filha de Henrique VIII com Ana Bolena. Nesse período (1558-1603), a Inglaterra alcançou a paz religiosa, e o anglicanismo ganhou uma face mais definida, misturando elementos do ritual católico com os princípios da fé calvinista.

Trinta e nove artigos da Igreja da Inglaterra (1563)

Em 1552, o arcebispo de Cantebury, Thomas Cranmer, elaborou com outros clérigos Quarenta e Dois Artigos da Religião; após minuciosa revisão, foram publicados em 1553 sob a autoridade do rei da Inglaterra, Eduardo VI. Mais tarde, esses Artigos foram revistos e reduzidos a 39 pelo arcebispo de Cantebury, Matthew Parker (1504-1575), e outros bispos. Esse trabalho de revisão e redução foi ratificado pelas duas Casas de Convocação, sendo os Trinta e nove artigos publicados por autoridade do rei em 1563. Em 1571, tornou-se obrigatória a subscrição desses Artigos por todos os ministros ingleses. Os Trinta e nove artigos e o Livro de oração comum (1549) são os símbolos de fé da Igreja da Inglaterra e, com algumas alterações, das demais igrejas da Comunhão Anglicana. Leia a Confissão de Fé da Igreja da Inglaterra.

A Contra-Reforma Católica

A Reforma Protestante implicou mudanças sócias e políticas em toda a Europa. Com a crise da Igreja Católica romana, a maioria das populações do centro e do norte da Europa convertia-se ao protestantismo, principalmente porque ele se ajustava melhor ao universo do capitalismo em evolução[e]. Isso causou imediatamente sérios problemas políticos, levando ao conflito violento os adeptos das duas religiões e ao confronto os Estados católicos e protestantes.

A Igreja católica romana cada vez mais perdia espaços no quadro geopolítico europeu, além de sofrer pesadas perdas de fiéis. Procurando impedir o avanço da Reforma Protestante, ela realizou sua própria reforma nos padrões mais tradicionais do catolicismo, também conhecida como a Contra-Reforma.

A Igreja católica tentaria combater o protestantismo e restaurar a hegemonia do catolicismo por meio de doutrina e força.

Para alcançar tal objetivo a Igreja precisou tomar algumas atitudes:

A reativação da Inquisição, ou Tribunal do Santo Ofício. A Inquisição foi criada no século XIII para julgar e punir os hereges. Ela reassumiu esse papel, no século XVI, e obteve muita força nas monarquias católicas de Portugal e Espanha, que usaram a Inquisição para perseguir principalmente os judeus; estes transferiram-se em grande número para os Paises Baixos ou se converteram (os cristãos novos).

A criação da Companhia de Jesus, em 1534, por Inácio de Loyola, com o objetivo de divulgar o catolicismo, principalmente por meio da educação. Organizados em moldes quase militantes, os jesuítas foram muito importantes para a defesa do catolicismo e sua propagação na América e na África. Nesses dois continentes recém-colonizados eles conseguiram um grande espaço para o catolicismo pela educação e catequização dos indígenas (é o caso de lembrar aqui dois destacados jesuítas na catequização dos índios brasileiros, José de Anchieta e Manoel da Nóbrega).

No campo doutrinário, o papa Paulo III organizou o Concílio de Trento (1545 – 1563) para definir quais as novas posturas católicas. De forma geral, todos os dogmas e sacramentos condenados pelos protestantes foram reafirmados nesse Concílio.

Foi criado o Índice de Livros Proibidos (Index Librorum Prohibitorum), em 1564. Tratava-se de uma lista de livros proibidos elaborada pelo Tribunal do Santo Ofício. Toda obra impressa deveria passar pela análise do Tribunal, que o “recomendava” ou não aos católicos. Na realidade a Igreja estava censurando obras artísticas, cientificas, Filosóficas e teologias. Um cientista que teve suas obras reprovadas foi Galileu Galilei.

Foi reafirmada a infalibilidade do papa, defendendo sua autoridade sobre todos os católicos.

As obras e sacramentos foram mantidos com fundamentais para a salvação da alma.

Foram criados seminários para formação intelectual e religioso dos padres.

Foi proibida a venda de indulgência e relíquias eclesiásticas.

Foi mantido o celibato clerical (proibição do casamento de padres e freiras).

Como se vê, a Contra-Reforma mantinha-se dentro da tradição. Tal postura acabou produzindo intolerância religiosa de ambos os lados, acirrando os conflitos entre católicos e protestantes por toda a Europa.

José Geraldo Vinci de Moraes

Nota do editor do site:

[a] Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa, Fundamentos da Teologia Reformada, Editora Mundo Cristão.
[b] Em 1536 João Calvino escreve a obra prima da Reforma protestante chamado Institutio christianae religionis (Instituição da Religião Cristã) onde ele faz uma suma da fé reformada calvinista. Leia esta obra na seção Institutas.
[c] Hermisten Maia Pereira da Costa, Coleção Pensadores cristãos - Calvino de A a Z, Editora Vida,
[d] Leia também o seguinte artigo A “Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo” de Franklin Ferreira
[e] Contrário à descrição do autor, neste todos se tornavam reformados por esta razão, mas muitos se converterão por obra do Espírito Santo. Por primeiramente a Reforma era espiritual. O retorno as Escrituras. Leia excelente estudo: As doutrinas dos cinco solas da Reforma: Sola Scriptura, Solus Christus, Sola Gratia, Sola Fide e Soli Deo Gloria

Fonte: www.teuministerio.com.br

Reforma Protestante

O cristianismo, religião monoteísta, encarada inicialmente como mais uma seita judaica, teve com Cristo (o messias) e seus discípulos um início tímido, mas que rapidamente tornou-se a religião dominante de todo o império romano.

Fundada no século I d.C. e regulamentada pelo imperador romano Constantino através do Concílio de Nicéia no séc. IV derrubou a velha religião politeísta, trazendo agora a “novidade libertadora” tão almejada pela classe oprimida e escravizada da civilização latina. Mudaram-se as crenças, mudou-se a concepção de Estado e política. Com tamanha força a seu lado, a fé cristã fora difundida por todo o mundo através da Igreja Católica Apostólica Romana.

Fustel de Coulanges chega afirmar em sua Cidade Antiga que:

“a religião, em vez de ser como antes, entre os povos da Grécia e da Itália, onde não passava de um conjunto de práticas, uma série de ritos repetidos sem qualquer sentido, uma seqüência de fórmulas que muitas vezes não se compreendia porque a linguagem envelhecera , uma tradição que se transmitia de época em época e que só tinha como caráter sagrado a sua antiguidade, em vez disso, a religião passou a ser um conjunto de dogmas e um grande objetivo proposto à fé” (Fustel de Coulanges, 2001. p. 483)

Através dos primeiros séculos da Era Medieval, a Igreja Católica consolida-se como a instituição mais poderosa da Idade Média, ultrapassando temporalmente o próprio império que a edificou e de seus fundamentos mais característicos. Suas possessões agora alcançam toda a Europa e sua influência ultrapassa o campo religioso e adentra a política, a guerra e a economia. Conhecida neste período como a "Senhora Feudal" possuía poder decisivo nas mais diversas áreas do cotidiano humano, desde a esfera estatal até o mais ordinário assunto familiar. Administrando um complexo mercado de arrecadação de fundos por meio da venda de indulgências e relíquias religiosas, aumentando progressivamente o acúmulo de metais preciosos utilizados na expansão do número de igrejas e construção de portentosas obras como a exemplo da basílica de São Pedro (sede mundial da Igreja, situada na cidade do Vaticano, em Roma), tornou-se ainda mais influente. Tais práticas ainda somavam a seus domínios as melhores e mais valiosas terras, consolidando assim seu status de grandeza, afastando-se de seus princípios religiosos originais e enquadrando-a no materialismo característico do período final da Idade Média e princípio da Idade Moderna – a acirrada disputa mercantilista pelo acúmulo de metais preciosos e poder político. Em meio a este turbulento cenário, surgem grupos de clérigos insatisfeitos com os rumos morais que a Igreja agora tomava. Havia entre eles diversas idéias entorno da nova orientação a ser tomada por tal instituição. Entre eles estavam defensores de urgentes reformas que trouxessem de volta a moral e a reputação características de seus primórdios. E também os defensores de uma reforma de cunho econômico visando uma melhor adequação da Igreja ao mundo moderno, saindo assim, das retrógradas e já improdutivas amarras feudais.

Os historiadores Adhemar Marques, Flávio C. Beirutte e Ricardo Faria, sobre os rumores clericais a favor de reforma da Igreja afirmam em seu livro: História Moderna através de textos, que

“Importa, inicialmente, verificar que dentro da própria Igreja católica já faziam ouvir vozes reformistas desde o período medieval. No entanto essas vozes não conseguiam sensibilizar os elementos da cúpula da hierarquia católica, o que aprofundava cada vez mais a crise.” (Marques, Beirutte e Faria, 2005. p. 103).

O pensamento da época começava a passar por fortes mutações, ocasionadas pelas práticas Renascentistas, que faziam oposição a certos preceitos da igreja, dando ênfase ao estudo da razão, ou seja, racionalização das explicações através da experimentação, "usurpando" um conhecimento que era tido como posse exclusiva do clero, escondido nas bibliotecas das igrejas e monastérios e afastando-se das explicações transcendentais empurradas pelo clero. A sociedade, formada majoritariamente por analfabetos, executa seus primeiro passos em direção a aquisição de um certo grau de cultura, principalmente as classes burguesas emergentes, e à medida que adquirem este conhecimento voltam-se ainda mais contra a Igreja.

Neste “caldeirão de insatisfação” diante da Igreja Católica Apostólica Romana, eclode a primeira afronta a seus ditames centenários: Martinho Lutero (monge Alemão) afixa na porta da Igreja de Wittenberg, em 1517, suas 95 teses criticando algumas práticas litúrgicas do catolicismo que se afastavam dos mais básicos preceitos bíblicos e propõe o Luteranismo, (nova doutrina baseada na salvação do homem de acordo com a sua fé), apoiado por muitos Reis e Príncipes, principalmente alemães e suíços. Este ato de Lutero deu margem ao nascimento de outros levantes religiosos sob a égide de Movimento Protestante.

O pensamento dos três historiadores a cima citados, sintetiza no trecho a baixo a importância do Movimento de Reforma e suas ramificações:

“Em pouco tempo, o movimento luterano ganhou corpo na Alemanha, chegando mesmo a outros países. Novas religiões foram criadas como o calvinismo e o Anglicanismo. Assim o protestantismo expandia-se rapidamente e provavelmente teria sido maior ainda sua expansão, se a igreja católica não tomasse uma posição no sentido de ‘frear’ a onda protestante” (Marques, Beirutte e Faria, 2005. p. 103).

Em resposta aos vários levantes protestantes, espalhados por todo o continente europeu, a Igreja Católica empreendeu medidas com o intuito de conter o crescimento dos reformadores; aproveitou também para lançar medidas doutrinárias combatendo os hereges (pessoas acusadas de blasfemar contra a Santa Igreja Católica) e reformulou algumas de suas práticas que davam margem ao surgimento cada vez mais poderoso de críticas contra sua autoridade eclesiástica.

Essas providências foram sancionadas num concílio na cidade de Trento (Itália) que contava com a cúpula da Igreja responsável por prover as ações mais urgentes contra os reformadores, entre elas estavam: o Index (lista de livros com leitura proibida à população por opor-se aos dogmas e práticas da Igreja); e a medida mais controversa, que fora a criação do Tribunal da santa Inquisição, dotado do poder de julgar os atos de toda sociedade – clerical ou não – conferindo-lhe a pena, que a seu ver fosse mais cabível para a expiação do pecado humano e contenção do desrespeito à Instituição Sagrada, com penas leves, confisco de bens materiais até mesmo a morte na fogueira. A historiografia mundial há muito discute a origem do movimento de Reforma. Entre as várias escolas de pensamento destacam-se as teorias de cunho marxista obedecendo à lógica da explicação dos fenômenos sociais pelo víeis econômico, pois Karl Marx defendia a economia como "a mãe universal de todas as sociedades humanas".

Engels em 1850 escrevera:

“Inclusive as chamadas guerras de religião do século XVII aconteceram, antes de tudo por interesses materiais de classes muito concretas. Estas guerras foram lutas de classes, da mesma forma que os conflitos internos que mais tarde se produziram na França e na Inglaterra. Que estas lutas tivessem certas características religiosas, que os interesses, necessidades e reivindicações de cada uma das classes tenham sido dissimulados com uma capa religiosa, não modifica a situação em nada e se explica pelas condições da época” (Engels, apud Marques, Beirutte e Faria, 2005 p. 104)

A Reforma estudada sob a luz do materialismo de Karl Marx e Engels, traduz a importância ofertada à economia, nas modificações sociais, extraindo-se todas as explicações não econômicas ou relegando-as a segundo plano.

O historiador Óscar A. Marti em 1922 salienta sobre os primórdios da Reforma dos protestantes:

“(...) As raízes da Reforma se encontram num subsolo constituído por questões de dinheiro e pelas transformações econômicas fundamentais que estavam a ponto de produzir-se. Somente sob esta nova luz é que tais fatos podem ser compreendidos com claridade.” (Óscar A. Marit, apud, Engels, apud Marques, Beirutte e Faria, 2005. p. 105)

A base do pensamento marxista sobre as Reforma esta calcada no fato de que a Igreja por ser muito ligada aos pareceres medievais, pois auferiu grande poderio com as estruturas rurais deste período, estando em franca desvantagem se comparada a emergente economia urbana, burguesa e capitalista. O movimento de Contra-Reforma é tido como a tentativa de restituir a ordem antiga (aumentar o poderio da Igreja gradativamente e subjugar todos ao seu comando), mas para os Marxistas a revolução ocorre de forma inevitável e derruba as forças econômicas e sociais já defasadas.

Outros estudiosos como Henri Hauser, em estudos voltados para a explicação da origem e disseminação do protestantismo em regiões específicas, deixando de lado explicações sobre causa generalizadoras, mostra este movimento como um emaranhado de fatores (econômicos sociais e religiosos) indissolúveis:

“A reforma do século XVI teve um duplo caráter de revolução social e revolução religiosa. As classes populares não se sublevaram somente contra a corrupção dos dogmas e os abusos do clero. Também o fizeram contra a miséria e a injustiça. Na bíblia não buscaram somente a salvação pela fé, mas também a prova da igualdade original de todos os homens” (Henri Heuser, apud, Engels, apud Marques, Beirutte e Faria, 2005. p. 105).

Muitos críticos das explicações marxistas acusam-nas de anacrônicas, pois remetem a uma realidade somente vivenciada em meados do século XIX, quando o capitalismo já estava em sua fase industrial. A escola dos Annales com Lucien Febvre defende uma análise, mas comedida sobre as causa dos movimentos de Reforma.

O próprio Febvre entende que: “É necessário buscar causas religiosas para uma revolução religiosa”. Ele também propõe o estudo das mentalidades, pois acredita que a sociedade é produto de sua época, e esta sociedade em questão relegava maior importância ao componente religioso.

O autor G. R. Elton, em seu capítulo de introdução do volume II da New Cambridge Modern History: The Reformation Era, noticia:

“O ódio contra o clero, muito extenso, desempenhou o seu papel (...). A cobiça, o endividamento e os cálculos políticos, também devem ser levados em conta. Mas a mensagem dos reformadores, respondeu – isto é indubitável – a uma intensa sede espiritual que a igreja oficial foi incapaz de satisfazer...os pregadores da reforma não necessitaram de nenhum apoio político para atrair seus partidários, ainda que esse apoio se fizesse necessário para consolidar os resultados alcançados pelo ataque inicial dos profetas. Não se pode esquecer que, em seus inícios, a Reforma foi um movimento espiritual com uma mensagem religiosa” (Lucien Febvre, apud, Marques, Beirutte e Faria, 2005. p. 112)

Já o movimento de contra-reforma expedido pela Igreja Católica, é entendido como positivo a esta instituição pois lhe renovou as força, já ofuscadas pelos movimentos Reformistas, à medida que se intitulava “Igreja Suprema”, acima das demais religiões, empreendendo sua decisões alcançadas no concílio de Trento, disseminando-as por todo o mundo, até mesmo nas Terras Recém “descobertas”, localizadas no continente Americano, ou Novo Mundo, como era até então intitulado.

Michael Mullett, disserta acerca das origens da Contra-reforma, e sobre a coerção imposta pelas reformas protestantes:

“A Reforma católica constava dos projetos de um sem-número de bispos e teólogos, desde a Idade Média. No entanto vinha sendo protelada pelos papas. Com a eclosão da Reforma Luterana, tornou-se imperativo para a igreja agilizar a sua, mas agora já com o caráter negativo: o de ser contra a Luterana” (Michael Mullet, apud, Engels, apud Marques, Beirutte e Faria, 2005. p. 122)

A maioria dos historiadores e estudiosos concordam com a urgência em se fazer mudanças doutrinárias e disciplinares, apontando soluções para os problemas clericais e realizando as devidas sanções aos que não se enquadravam nos novos termos da instituição católica, que além de modificar algumas de suas práticas, assimilando-as aos seus, e acrescendo valores mais condizentes com a mentalidade moderna que a cada dia ganha maior notoriedade entre as diversas classes. Mas muitas medidas contra os protestantes, principalmente aquelas que causavam o dolo físico, causaram pânico e um maior apego à igreja católica, mas não pelo temor ao Deus que eles se intitulavam representantes, mas sim pelo temor às perseguições que passaram a fazer parte do cotidiano de todos.

Tanto o movimento de Reforma protestante como o de Contra-Reforma católico, propiciaram uma nova era diante das convicções religiosas, independentes de suas origens econômicas sociais ou culturais. A partir de então a luta pela liberdade religiosa inicia o movimento que mais tarde trará ao homem um extenso leque de opções religiosas que disputam sua atenção e devoção.

Andressa Barroso de O. Moreira1

Paula Cristina da S. O. Carvalho

Ravania Calasans M. Silva

Bibliografia

MARQUES, Adhemar Martins;
BERUTTI, Flavio costa,
FARIA, Ricardo de Souza. História Moderna Através de Textos – 11 ed. São Paulo: Contexto, 2005 (coleção textos e documentos);
COULANGES, Fustel de. A Cidade Antiga. Trad. Aurélio Barroso Rebello e Laura Alves. 1. ed. Rio de Janeiro: Ediouro, 2004. pp 483.

Fonte: linux.alfamaweb.com.br

Reforma Protestante

Conjunto de movimentos de caráter religioso, político e econômico que contestam os dogmas católicos, entre 1517 e 1564.

Tem início na Alemanha e provoca a separação de uma parte da comunidade católica da Europa, originando o protestantismo. Ocorre paralelamente ao renascimento cultural humanista, às insurreições da nobreza, às rebeliões camponesas, à expansão do mercantilismo e do sistema colonial e às guerras entre as monarquias européias. Estes movimentos entre os católicos reivindica a reaproximação da Igreja do espírito do cristianismo primitivo. A resistência da hierarquia da Igreja leva os reformadores a constituírem confissões independentes.

Os Papas exerciam poder espiritual e também poder temporal, ou seja como o de qualquer outro governante de um país. O comportamento de parte do clero estava envolvido em interesses econômicos ou políticos, entrava em contradição com a doutrina da Igreja. Muitos cristãos, opondo-se a essa situação, sentiam a necessidade de uma volta aos ensinamentos de Cristo e de seus apóstolos e pregavam uma reforma dos costumes. Os principais reformadores são Martinho Lutero e João Calvino, no século XVI. A Reforma difunde-se rapidamente na Alemanha, Suíça, França, Holanda, Escócia e Escandinávia. No século XVI surge a Igreja Anglicana e, a partir do século XVII, as igrejas Batista, Metodista e Adventista. As igrejas nascidas da Reforma reúnem cerca de 450 milhões de fiéis em todo o mundo. No início do século XVI, a Igreja sofria de males profundos que necessitavam de remédio urgente. O papado perdera prestígio devido à sua preocupação excessiva pelas artes, pelas letras, pela cultura pagã do Renascimento e pelo seu envolvimento em disputas políticas.

A Igreja reconheceu estes abusos mas não teve coragem para empreender a necessária reforma geral. Surgiu, então, o movimento denominado Reforma Protestante, iniciado na Alemanha Martinho Lutero. Martinho Lutero (1483-1546) nasce em Eisleben, Alemanha, numa família camponesa. Em 1501 ingressa na Universidade de Erfurt, onde estuda artes, lógica, retórica, física e filosofia e especializa-se em matemática, metafísica e ética. Entra para o mosteiro dos eremitas agostinianos de Erfurt em 1505, torna-se sacerdote e teólogo. Em 1517, o Papa Leão X mandou alguns padres dominicanos à Alemanha com a finalidade de arrecadarem esmolas para o término da construção da Basílica de São Pedro. O monje agostiniano Martinho Lutero, professor da Universidade de Wittenberg, protestou, afirmando não ver nessa atitude da Igreja nenhum valor espiritual.

Para justificar seu protesto contra o que chamou de venda de indulgencias e suas críticas a conduta das autoridades eclesiásticas, Lutero afixou na porta principal da Catedral de Wittenberg 95 teses, que condenavam a venda de indulgencias e outros abusos do clero, pregando a salvação pela fé somente, sem a necessidade de praticar boas obras( dar esmolas por exemplo). Lutero Denuncia as deformações da vida eclesiástica em 1517. O Papa enviou a Alemanha um cardeal para tentar obter de Lutero uma retratação. Lutero , no entanto, permaneceu firme em suas críticas e, em 1520, foi acusado de herege condenado é excomungado pelo papa Leão X e banido por Carlos V, imperador da Alemanha, em 1521,o que o levou a queimar em praça pública, diante de milhares de pessoas, a bula papal que o condenara. No dia seguinte, Carlos V, rei da Espanha e imperador da Alemanha, para evitar aumentassem a controvérsia e a revolta entre os príncipes alemães do seu Império, convocou Lutero para se apresentar e defender suas idéias numa Dieta (assembléia), que se realizaria na cidade de Worms com a participação de todos estes príncipes. Em Worms, onde deveria justificar suas atitudes, Lutero reafirmou suas posições e para não ser preso refugiou-se no Castelo de Wartburg, sob a proteção de um nobre que tentava libertar seus domínios do poder político da Igreja e do Imperador católico Carlos V. Escondido no castelo de Wartburg e apoiado por setores da nobreza, traduz para o alemão o Novo Testamento dando base a Doutrina Luterana. Abandona o hábito de monge e casa-se com a ex - freira Catarina von Bora, em 1525. Durante sua permanência em Wartburg, Lutero traduziu a Bíblia para o Alemão.

Doutrinas dos reformadores

Os pontos centrais da doutrina de Lutero são a justificação de Deus só pela fé e o acesso ao sacerdócio para todos os fiéis. Lutero, nega o valor dos sacramentos(conservando o batismo e a eucaristia, esta com valor essencialmente simbólico), o culto dos santos e o valor da missa . Afasta por completo a autoridade e a hierarquia da Igreja e do Papa, afirmando que "todo fiel é padre". Nega também que o homem seja livre para praticar o bem e o mal. Calvino acrescenta a doutrina da predestinação dos fiéis.

As diferenças doutrinais entre os dois dão origem a duas grandes correntes: os luteranos e os calvinistas.

A Reforma abole a hierarquia e institui os pastores como ministros das igrejas. As mulheres têm acesso ao ministério e os pastores podem se casar. A liturgia é simplificada e os sacramentos praticados são o batismo e a ceia.

Apoio a Lutero

Com a simpatia de diferentes setores da nobreza e camponeses o protestantismo de Lutero difunde-se rapidamente na Alemanha, provoca uma série de conflitos com os católicos e com Carlos V. Isto resulta na dissolução das ordens monásticas, na revogação do celibato clerical, na secularização dos bens da igreja pela nobreza e na substituição da autoridade eclesiástica pela autoridade do Estado. Na esteira dos protestos de Lutero surgem seitas e rebeliões que contestam a autoridade de Roma. Grupos místicos surgem em Waldshut, Nuremberg, Suábia, Silésia, Leiden e Münster.

Esta situação de instabilidade deu origem a uma série de revoltas, dentre as quais se destacaram: A dos Cavalheiros, promovida por pequenos nobres que, cobiçando territórios e bens pertencentes à Igreja, tentavam apossar-se deles; A dos Camponeses, que, baseando-se nos exemplos dados pelos senhores durante vários anos, disseminaram o terror por todo o sul do Império alemão, levando Lutero a optar por uma das classes a apoiar. Para não perder o apoio dos nobres(Cavalheiros), Lutero condenou com muito rigor os Camponeses, chegando-se ao extermínio por parte dos Cavalheiros de mais ou menos cem mil pessoas.

O CALVINISMO

João Calvino (1509-1564) nasce em Noyon, França, filho de um secretário do bispado de Noyon. Em 1523 ingressa na Universidade de Paris, estuda latim, filosofia e dialética. Forma-se em direito e, em 1532, publica Dois livros sobre a clemência ao imperador Nero, obra que assinala sua adesão à Reforma. Em 1535, já é considerado chefe do protestantismo francês. Perseguido pelas autoridades católicas refugia-se em Genebra. Organiza uma nova igreja, com pastores eleitos pelo povo, e o Colégio Genebra, que se torna um dos centros universitários mais famosos da Europa. Pela dogmática do francês João Calvino, refugiado em Genebra, o homem está predestinado à salvação ou à condenação. Pode salvar-se quem santificar a vida cumprindo seus deveres. A Igreja e o Estado devem estar separados, com predomínio da primeira.

Ética protestante

Calvino considera o cristão livre de todas as proibições não explicitadas nas Escrituras, o que torna as práticas do capitalismo lícitas, em especial a usura, condenada pela Igreja Católica. De acordo com a teoria da predestinação, a idéia de que Deus concede a salvação a poucos eleitos, o homem deve buscar o lucro por meio do trabalho e da vida regrada. Surge a identificação da ética protestante com o capitalismo, que se torna atraente para a burguesia. Reforma anglicana Henrique VIII (1491-1547) nasce em Greenwich e torna-se herdeiro do trono da Inglaterra em 1502, após a morte do irmão mais velho. Em 1509 é coroado e casa-se com Catarina de Aragão, a viúva de seu irmão. Poliglota, esportista e estudioso de teologia, retoma a doutrina de Lutero, o que lhe vale o título de defensor da fé, concedido pelo papa Leão X. Com o apoio do Parlamento e do povo, descontente com os privilégios e poderes eclesiásticos, Henrique VIII rompe com a Igreja Católica e cria o anglicanismo. É reconhecido como chefe supremo da Igreja da Inglaterra. O rei passa a ser o chefe supremo da Igreja Anglicana ou Episcopal e o seu líder espiritual é o arcebispo de Canterbury.

A Reforma anglicana é promulgada em 1534 pelo rei Henrique VIII. Usa como pretexto a recusa do papa em aceitar seu divórcio da rainha espanhola Catarina de Aragão, tia de Carlos V da Espanha, para casar-se com Ana Bolena, uma dama de sua corte, que três anos depois é decapitada por adultério por casa-se mais quatro vezes. Da Inglaterra, difunde-se para as colônias, especialmente na América do Norte. As igrejas Católica e Anglicana são semelhantes quanto à profissão de fé, a liturgia e os sacramentos, mas a igreja episcopal não reconhece a autoridade do papa e admite mulheres como sacerdotes. A primeira mulher a exercer o ministério episcopal é a reverenda Barbara Harris, da diocese de Massachusetts (EUA), consagrada em 1989. Entre 1553 e 1558 ocorre a reação católica, com o reinado de Maria Tudor. Seu casamento com Felipe II da Espanha transforma a reforma religiosa numa questão nacional. Entre 1559, sob Elisabeth I, é renovada a soberania da Coroa sobre a igreja e ratificada a liturgia anglicana, tendo por base a confissão calvinista reformada.

CONTRA-REFORMA

Compreende o conjunto das medidas adotadas pela Igreja através da autoridade do Papa Paulo III, em 1545, para defender-se, como as reformas internas, a fundação da Companhia de Jesus e o Concílio de Trento. Cria novas ordens eclesiásticas, como a dos teatinos, capuchinhos, barbabitas, ursulinas e oratorianos.

Concílio de Trento

De 1545 a 1563, convocado por Paulo III para assegurar a unidade de fé e a disciplina eclesiástica. Regula as obrigações dos bispos e confirma a presença de Cristo na eucaristia. São criados seminários como centros de formação sacerdotal e reconhece-se a superioridade do papa sobre a assembléia conciliar. São restaurados também os Tribunais da inquisição, que viriam a funcionar principalmente na Itália, França, Espanha e Portugal, sob o nome de Santo Ofício, julgando e condenando cristãos acusados de infidelidade, heresia, cisma, magia, poligamia, abuso dos sacramentos etc. É instituído o índice de livros proibidos (Index Librorum Prohibitorum) e reorganizada a Inquisição.

Companhia de Jesus

Criada em 1534 por Inácio de Loyola. Com organização militar e disciplina rígida, coloca-se incondicionalmente a serviço do papa. Desempenha papel fundamental na renovação da Igreja, na luta contra os hereges e na evangelização da Ásia e América.

Solange Irene Smolarek Dias

Fonte: www.fag.edu.br

Reforma Protestante

A REFORMA PROTESTANTE DO SÉCULO XVI

1. Antecedentes – final da Idade Média

1.1 Os Estados Nacionais

Nos séculos que antecederam a Reforma Protestante, a Igreja não vivia em um vácuo, mas sim em um contexto político e social mais amplo com o qual tinha múltiplas interações. No final da Idade Média, houve o surgimento dos chamados “estados nacionais”, as modernas nações européias, o que representou uma grande ameaça às pretensões do papado. Na Alemanha (Sacro Império Romano), Rudolf von Hapsburg foi eleito imperador em 1273. Em 1356, um documento conhecido como Bula de Ouro determinou que cada novo imperador seria escolhido por sete eleitores (quatro nobres e três arcebispos). Havia descentralização política, isto é, o poder dos príncipes limitava a autoridade do imperador, e forte tensão entre a igreja e o estado.

Na França, houve o fortalecimento da monarquia com Filipe IV, o Belo (1285-1314). Esse rei enfrentou com êxito o poder da Igreja e dos papas e preparou a França para tornar-se o primeiro estado nacional moderno. Na Inglaterra, o parlamento reuniu-se pela primeira vez em 1295. Esse país teve um grande rei na pessoa de Eduardo I (†1307), que subjugou os nobres e enfrentou com êxito o papa na questão de impostos.

1.2 O Declínio do Papado

Este período começa com o pontificado de BonifácioVIII (1294-1303), um papa arrogante e ambicioso que entrou em confronto direto com o rei Filipe IV acerca de impostos e da autoridade papal.

Bonifácio publicou três famosas bulas: Clericis Laicos, na qual reclama que os leigos sempre foram hostis ao clero; Ausculta Fili (“Escuta, filho”), dirigida ao rei francês, e Unam Sanctam (1302), denominada “o canto do cisne do papado medieval”. Irritado com as ações papais, Filipe enviou suas tropas, o papa foi preso e faleceu um mês após ser libertado.

Seguiu-se um período de crescente desmoralização do papado. Clemente V (1305-1314), um papa francês, transferiu a Cúria, ou seja, a administração da Igreja, para Avinhão, ao sul da França, no que ficou conhecido como o “Cativeiro Babilônico da Igreja” (1309-1377). Em toda parte, cresceram as críticas às extravagâncias e ao luxo da corte papal. João XXII (1316-1334) mostrou-se eficiente na cobrança de taxas e dízimos para cobrir essas despesas. Finalmente, ocorreu o chamado “Grande Cisma”, em que houve dois e posteriormente três papas rivais em Roma, Avinhão e Pisa (1378-1417). Diante dessa situação constrangedora, surgiu em toda a Europa um clamor por “reformas na cabeça e nos membros”.

1.3 O Movimento Conciliar

Durante o “Grande Cisma”, cada papa considerou-se o único legítimo e excomungou o rival. Assim, houve a necessidade de um concílio para resolver a crise. O Concílio de Pisa (1409) elegeu um novo papa, mas os outros dois recusaram-se a serem depostos, resultando em três papas ao mesmo tempo. João XXIII, o segundo papa pisano, convocou o Concílio de Constança (1414-1417), que depôs os três papas, elegeu Martinho V como único papa, decretou a supremacia dos concílios sobre o papa e condenou os pré-reformadores João Wycliff, João Hus e Jerônimo de Praga. O Concílio de Basiléia (1431-1449) reafirmou a superioridade dos concílios. Finalmente, o Concílio de Ferrara-Florença (1438-1445) tentou a união com a Igreja Ortodoxa (frustrada pela conquista de Constantinopla pelos turcos em 1453) e reafirmou a supremacia papal. Essa tentativa fracassada de tornar a Igreja mais democrática e governá-la através de concílios ficou conhecida como conciliarismo.

1.4 Movimentos dissidentes

Outro aspecto desse período de efervescência foi o surgimento de alguns movimentos dissidentes no sul da França que despertaram forte oposição da Igreja Católica. Um deles foi o dos cátaros (em grego = “puros”) ou albigenses (da cidade de Albi), surgidos no século 11.

Caracterizavam-se por um sincretismo cristão, gnóstico e maniqueísta, com um dualismo radical (espiritual x material) e extremo ascetismo. Foram condenados pelo 4° Concílio Lateranense em 1215 e mais tarde aniquilados por uma cruzada. Para combater esses e outros hereges, a Inquisição foi oficializada em 1233.

Outro movimento foi liderado por Pedro Valdo ou Valdes († c.1205), de Lião, cujos seguidores ficaram conhecidos como “homens pobres de Lião”. Tinham um estilo de vida comunitário, ensinavam as Escrituras no vernáculo (enfatizando o Sermão do Monte), incentivavam a pregação de leigos e de mulheres, negavam o purgatório. Condenados pelo Concílio de Verona em 1184, foram muito perseguidos, refugiando-se em vales remotos e quase inacessíveis dos alpes italianos. Mais tarde, abraçaram a Reforma Protestante, sendo assim uma das poucas Igrejas protestantes anteriores à Reforma do Século 16.

1.5 Primeiros Movimentos de Reforma

Nos séculos 14 e 15, surgiram alguns movimentos esporádicos de protesto contra certos ensinos e práticas da Igreja Medieval. Um deles foi encabeçado por João Wycliff (1325?-1384), um sacerdote e professor da Universidade de Oxford, na Inglaterra. Wycliff atacou as irregularidades do clero, as superstições (relíquias, peregrinações, veneração dos santos), bem como a transubstanciação, o purgatório, as indulgências, o celibato clerical e as pretensões papais. Seus seguidores, conhecidos como os lolardos, tinham a Bíblia como norma de fé que todos devem ler e interpretar.

João Hus (c.1372-1415), um sacerdote e professor da Universidade de Praga, na Boêmia, foi influenciado pelos escritos de Wycliff. Definia a igreja por uma vida semelhante à de Cristo, e não pelos sacramentos. Dizia que todos os eleitos são membros da igreja e que o seu cabeça é Cristo, não o papa. Insistia na autoridade suprema das Escrituras. Hus foi condenado à fogueira pelo Concílio de Constança. Seus seguidores ficaram conhecidos como Irmãos Boêmios (1457) e foram muito perseguidos. Foram os precursores dos Irmãos Morávios, que veremos posteriormente, outro grupo protestante cujas raízes são anteriores à Reforma do século 16. Outro indivíduo incluído entre os pré-reformadores é Jerônimo Savonarola (1452-1498), um frade dominicano de Florença, na Itália, que pregou contra a imoralidade na sociedade e na Igreja, inclusive no papado. Governou a cidade por algum tempo, mas finalmente foi excomungado e enforcado como herege.

1.6 Movimentos Devocionais

Além dos movimentos que romperam com a Igreja, houve outros que permaneceram na mesma por se concentrarem na vida devocional, sem críticas aos dogmas católicos. Um deles foi o misticismo, bastante forte na Inglaterra, Holanda e especialmente na Alemanha (Reno). Os principais místicos dessa época foram Meister Eckhart (†1327); Tauler (†1361) e os “Amigos de Deus”, Henrique Suso (†1366) e mais tarde o célebre teólogo e líder eclesiástico Nicolau de Cusa (1401-1464). O misticismo dava ênfase à união com Deus, ao amor, à humildade e à caridade, e produziu uma belíssima literatura devocional.

Outro importante movimento foi a Devoção Moderna, que se manteve forte durante todo o século 15. Suas ênfases recaíam sobre a espiritualidade, a leitura da Bíblia, a meditação e a oração. Também valorizava a educação, criando ótimas escolas. Foi um movimento leigo, para ambos os sexos, e também exerceu grande influência sobre os reformadores protestantes. Os participantes eram conhecidos como Irmãos da Vida Comum. A obra mais importante e popular produzida por esse movimento foi o belíssimo livreto devocional A Imitação de Cristo (1418), escrito por Thomas à Kempis.

1.7 Os humanistas bíblicos

O interesse pelas obras da Antiguidade levou ao estudo da Bíblia nas línguas originais pelos chamados humanistas bíblicos. Os principais deles foram o italiano Lorenzo Valla (†1457), estudioso do Novo Testamento; o inglês John Colet (†1519), estudioso das epístolas paulinas; o alemão Johannes Reuchlin (†1522), notável hebraísta; o francês Lefèvre D’Étaples (†1536), tradutor do Novo Testamento; e o holandês Erasmo de Roterdã (1466?-1536), “o príncipe dos humanistas”, que publicou uma edição crítica do Novo Testamento grego com uma tradução latina, talvez a obra mais importante publicada no século 16, que serviu de base para as traduções de Lutero, Tyndale e Lefèvre e muito influenciou os reformadores protestantes. Esse retorno às Escrituras muito contribuiu para a Reforma do Século 16.

1.8 Situação Geral

O final da Idade Média foi marcado por muitas convulsões políticas, sociais e religiosas. Entre as políticas destacou-se a Guerra dos Cem Anos (1337-1453), entre a Inglaterra e a França, na qual tornou-se famosa a heroína Joana D’Arc. Houve também muitas revoltas camponesas, o declínio do feudalismo, a expansão das cidades e o surgimento do capitalismo. No aspecto social, havia fomes periódicas e o terrível flagelo da peste bubônica ou peste negra (1348). As guerras, epidemias e outros males produziam morte, devastação e desordem, ou seja, a ruptura da vida social e pessoal. O sentimento dominante era de insegurança, ansiedade, melancolia e pessimismo. Isso era ilustrado pela “dança da morte”, gravuras que se viam em toda parte com um esqueleto dançante.

Na área religiosa, houve a erosão do ideal da cristandade ou “corpus christianum”, a sociedade coesa sob a liderança da igreja e dos papas. A religiosidade era meritória, com missas pelos mortos, crença no purgatório e invocação dos santos e Maria. Ao mesmo tempo, havia grande ressentimento contra a igreja por causa dos abusos praticados e do desvio dos seus propósitos. Isso é ilustrado pela situação do papado no final do século 15 e início do século 16. Os chamados papas do renascimento foram mais estadistas e patronos das artes e da cultura do que pastores do seu rebanho. A instituição papal continuou em declínio, com muitas lutas políticas, simonia, nepotismo, falta de liderança espiritual, aumento de gastos e novos impostos eclesiásticos. Como papa Alexandre VI (1492-1503), o espanhol Rodrigo Borja foi um generoso promotor das artes e da carreira dos seus filhos César e Lucrécia; Júlio II (1503-1513) foi um papa guerreiro, comandando pessoalmente o seu exército; Leão X (1513-1521), o papa contemporâneo de Lutero, teria dito quando foi eleito: “Agora que Deus nos deu o papado, vamos desfrutá-lo”.

2. A Reforma Protestante – 1ª Parte

2.1 O contexto social e religioso

Vimos, no final da seção anterior, alguns elementos que caracterizavam a sociedade européia às vésperas da Reforma. Havia muita violência, baixa expectativa de vida, profundos contrastes socioeconômicos e um crescente sentimento nacionalista. Havia também muita insatisfação, tanto dos governantes como do povo, em relação à Igreja, principalmente ao alto clero e a Roma. Na área espiritual, havia insegurança e ansiedade acerca da salvação em virtude de uma religiosidade baseada em obras, também chamada de religiosidade contábil ou “matemática da salvação” (débitos = pecados; créditos = boas obras).

Foi bastante inusitado o episódio mais imediato que desencadeou o protesto de Lutero. Desde meados do século 14, cada novo líder do Sacro Império Romano era escolhido por um colégio eleitoral composto de quatro príncipes e três arcebispos. Em 1517, quando houve a eleição de um novo imperador, um dos três arcebispados eleitorais (o de Mainz ou Mogúncia) estava vago.

Uma das famílias nobres que participavam desse processo, os Hohenzollern, resolveu tomar para si esse cargo e assim ter mais um voto no colégio eleitoral. Um jovem da família, Alberto, foi escolhido para ser o novo arcebispo, mas havia dois problemas: ele era leigo e não tinha a idade mínima exigida pela lei canônica para exercer esse ofício. O primeiro problema foi sanado com a sua rápida ordenação ao sacerdócio.

Quanto ao impedimento da idade, era necessária uma autorização especial do papa, o que levou a um negócio altamente vantajoso para ambas as partes. A família nobre comprou a autorização do papa Leão X mediante um empréstimo feito junto aos banqueiros Fugger, de Augsburgo.

Ao mesmo tempo, o papa autorizou o novo arcebispo Alberto de Brandemburgo a fazer uma venda especial de indulgências, dividindo os rendimentos da seguinte maneira: parte serviria para o pagamento do empréstimo feito pela família e a outra parte iria para as obras da Catedral de São Pedro, em Roma. E assim foi feito. Tão logo foi instalado no seu cargo, Alberto encarregou o dominicano João Tetzel de fazer a venda das indulgências (o perdão das penas temporais do pecado). Quando Tetzel aproximou-se de Wittenberg, Lutero resolveu pronunciar-se sobre o assunto.

2.2 Martinho Lutero (1483-1546)

Martinho Lutero nasceu em 1483 na pequena cidade de Eisleben, na Turíngia, em um lar muito religioso. Seu pai trabalhava nas minas e a família tinha uma vida confortável. Inicialmente, o jovem pretendeu seguir a carreira jurídica, mas em 1505 defrontou-se com a morte em uma tempestade e resolveu abraçar a vida religiosa. Ingressou no mosteiro agostiniano de Erfurt, onde se dedicou a uma intensa busca da salvação. Em 1512, tornou-se professor da Universidade de Wittenberg, onde passou a ministrar cursos sobre vários livros da Bíblia, como Gálatas e Romanos.

Isso lhe deu um novo entendimento acerca da “justiça de Deus”: ela não era simplesmente uma expressão da severidade de Deus, mas do seu amor que justifica o pecador mediante a fé em Jesus Cristo (Rom 1.17).

No dia 31 de outubro de 1517, diante da venda das indulgências por João Tetzel, Lutero afixou à porta da igreja de Wittenberg as suas Noventa e Cinco Teses, a maneira usual de convidar-se uma comunidade acadêmica para debater algum assunto. Logo, uma cópia das teses chegou às mãos do arcebispo, que as enviou a Roma. No ano seguinte, Lutero foi convocado para ir a Roma a fim de responder à acusação de heresia. Recusando-se a ir, foi entrevistado pelo cardeal Cajetano e manteve as suas posições. Em 1519, Lutero participou de um debate em Leipzig com o dominicano João Eck, no qual defendeu o pré-reformador João Hus e afirmou que os concílios e os papas podiam errar.

Em 1520, a bula papal Exsurge Domine (= “Levanta-te, Senhor”) deu-lhe sessenta dias para retratar-se ou ser excomungado. Os estudantes e professores da universidade queimaram a bula e um exemplar da lei canônica em praça pública.

Nesse mesmo ano, Lutero escreveu várias obras importantes, especialmente três: À Nobreza Cristã da Nação Alemã, O Cativeiro Babilônico da Igreja e A Liberdade do Cristão. Isso lhe deu notoriedade imediata em toda a Europa e aumentou a sua popularidade na Alemanha. No início de 1521, foi publicada a bula de excomunhão, Decet Pontificem Romanum. Nesse ano, Lutero compareceu a uma reunião do parlamento, a Dieta de Worms, onde reafirmou as suas idéias. Foi promulgado contra ele o Edito de Worms, que o levou a refugiar-se no castelo de Wartburgo, sob a proteção do príncipe-eleitor da Saxônia, Frederico, o Sábio. Ali, Lutero começou a produzir uma obra-prima da literatura alemã, a sua tradução das Escrituras.

2.3 A Reforma na Alemanha

A partir de então, a reforma luterana difundiu-se rapidamente no Sacro Império, sendo abraçada por vários principados alemães. Isso levou a dificuldades crescentes com os principados católicos, com o novo imperador Carlos V (1519-1556) e com o parlamento (Dieta). Na Dieta de 1526, houve uma atitude de tolerância para com os luteranos, mas em 1529 a Dieta de Spira reverteu essa política conciliadora. Diante disso, os líderes luteranos fizeram um protesto formal que deu origem ao nome histórico “protestantes”. No ano seguinte, o auxiliar e eventual sucessor de Lutero, Filipe Melanchton (1497-1560), apresentou ao imperador Carlos V a Confissão de Augsburgo, um importante documento que definia em 21 artigos a doutrina luterana e indicava sete erros que Lutero via na Igreja Católica Romana.

Os problemas político-religiosos levaram a um período de guerras entre católicos e protestantes (1546-1555), que terminaram com um tratado, a Paz de Augsburgo. Esse tratado assegurou a legalidade do luteranismo mediante o princípio “cujus regio, eius religio”, ou seja, a religião de um príncipe seria automaticamente a religião oficial do seu território. O luteranismo também se difundiu em outras partes da Europa, principalmente nos países nórdicos, surgindo igrejas nacionais luteranas na Suécia (1527), Dinamarca (1537), Noruega (1539) e Islândia (1554).

Lutero e os demais reformadores defenderam alguns princípios básicos que viriam a caracterizar as convicções e práticas protestantes: sola Scriptura, solo Christo, sola gratia, sola fides, soli Deo gloria. Outro princípio aceito por todos foi o do sacerdócio universal dos fiéis.

2.4 Ulrico Zuínglio (1484-1531)

Ulrico Zuínglio recebeu uma educação esmerada, com forte influência humanista. Inicialmente, foi sacerdote em Glarus (1506) e em Einsiedeln (1516). Influenciado pelo Novo Testamento publicado por Erasmo de Roterdã, tornou-se um estudioso das Escrituras e um pregador bíblico. Com isso, foi chamado para trabalhar na catedral de Zurique em 1518. Quatro anos mais tarde, surgiram as primeiras divergências com a doutrina católica. Zuínglio defendeu o consumo de carne na quaresma e o casamento dos sacerdotes, alegando não serem essas coisas proibidas nas Escrituras. Ele propôs o princípio de que tudo devia ser julgado pela Bíblia.

Em 1523, houve o primeiro debate público em Zurique e a cidade começou a tornar-se protestante. O reformador escreveu os Sessenta e Sete Artigos – a carta magna da reforma de Zurique – nos quais defendeu a salvação somente pela graça, a autoridade da Escritura e o sacerdócio dos fiéis, bem como atacou o primado do papa e a missa. Esse movimento suíço, conhecido como a “segunda reforma”, deu origem às igrejas “reformadas”, difundindo-se inicialmente na Suíça alemã e no sul da Alemanha. Em 1525, o Conselho Municipal de Zurique adotou o culto em lugar da missa e em geral promoveu mudanças mais radicais do que as efetuadas por Lutero.

Como estava acontecendo na Alemanha, também na Suíça houve guerras entre católicos e protestantes. Em 1529, travou-se a primeira batalha de Kappel. No mesmo ano, a Dieta de Spira mostrou aos protestantes a necessidade de uma aliança contra os seus adversários. Para tanto, era necessário que resolvessem algumas diferenças doutrinárias. Isso levou ao Colóquio de Marburg, convocado pelo príncipe Filipe de Hesse. Luteranos e reformados concordaram sobre a maior parte das questões doutrinárias, mas divergiram seriamente sobre o significado da Santa Ceia. Em 1531, Zuínglio morreu na segunda batalha de Kappel.

2.5 Os Reformadores Radicais (Anabatistas)

O terceiro movimento da Reforma Protestante surgiu na própria cidade de Zurique. Em 1522, homens como Conrado Grebel e Félix Mantz começaram a reunir-se com amigos para estudar a Bíblia. Inicialmente, eles apoiaram a obra de Zuínglio, mas a partir de 1524 passaram a condenar tanto Zuínglio quanto as autoridades municipais, alegando que a sua obra de reforma não estava sendo profunda o suficiente. Por causa de sua insistência no batismo de adultos, foram apelidados de “anabatistas”, ou seja, rebatizadores, sendo também chamados de radicais, fanáticos, entusiastas e outras designações. Por causa de suas atividades de protesto, nas quais chegavam a interromper cultos e celebrações da ceia, os líderes anabatistas sofreram punições de severidade crescente. Em 1526, Grebel morreu em uma epidemia, mas seu pai foi decapitado, Mantz foi afogado e outro líder, Jorge Blaurock, foi expulso da cidade.

O movimento logo se difundiu nas vizinhas Alemanha e Áustria e em outras partes da Europa. Um importante líder em Estrasburgo foi Miguel Sattler (c.1490-1527), que presidiu a conferência de Schleitheim (1527), na qual os anabatistas aprovaram a Confissão de Fé de Schleitheim.

Essa confissão definiu os princípios anabatistas básicos: ideal de restauração da igreja primitiva; igrejas vistas como congregações voluntárias separadas do Estado; batismo de adultos por imersão; afastamento do mundo; fraternidade e igualdade; pacifismo; proibição do porte de armas, cargos públicos e juramentos.

Os anabatistas foram os únicos protestantes do século 16 a defenderem a completa separação entre a igreja e o estado.

Os anabatistas adquiriram uma reputação negativa por causa de acontecimentos ocorridos na cidade de Münster (1532-1535). Influenciados por Melchior Hoffman, que anunciou o fim do mundo e a destruição dos ímpios, alguns anabatistas implantaram uma teocracia intolerante naquela cidade alemã. Finalmente, foram todos mortos por um exército católico. Já na Holanda, o movimento teve um líder equilibrado e capaz na pessoa de Menno Simons (1496-1561), do qual vieram os menonitas. Outro líder de expressão foi Jacob Hutter (†1536), na Morávia. Os menonitas e os huteritas viviam em colônias, tendo tudo em comum (ver Atos 2.44; 4.32). Cruelmente perseguidos em toda a Europa, muitos deles eventualmente emigraram para a América do Norte.

2.6 João Calvino (1509-1564)

João Calvino nasceu em Noyon, no nordeste da França. Seu pai, Gérard Cauvin, era secretário do bispo e advogado da igreja naquela cidade; sua mãe Jeanne Lefranc, morreu quando ele ainda era uma criança. Após os primeiros estudos em sua cidade, Calvino seguiu para Paris, onde estudou teologia e humanidades (1523-1528). A seguir, por determinação do pai, foi estudar direito nas cidades de Orléans e Bourges (1528-1531). Com a morte do pai, retornou a Paris e deu prosseguimento aos estudos humanísticos, publicando sua primeira obra, um comentário do tratado de Sêneca Sobre a Clemência.

Calvino converteu-se provavelmente em 1533. No dia 1º de novembro daquele ano, seu amigo Nicholas Cop fez um discurso de posse na Universidade de Paris repleto de idéias protestantes. Calvino foi considerado o co-autor do discurso e os dois amigos tiveram de fugir para salvar a vida. Calvino foi para a cidade de Angouleme, onde começou a escrever a sua obra mais importante, Instituição da Religião Cristã ou Institutas, publicada em Basiléia em 1536 (a última edição seria publicada somente em 1559). Após voltar por breve tempo ao seu país, Calvino decidiu fixar-se na cidade protestante de Estrasburgo, onde atuava o reformador Martin Butzer (1491-1551). No caminho, ocorreu um episódio marcante. Impossibilitado de seguir diretamente para Estrasburgo por causa de guerra entre a França e a Alemanha, o futuro reformador fez um longo desvio, passando por Genebra, na Suíça francesa. Essa cidade havia abraçado o protestantismo reformado há apenas dois meses (maio de 1536), sob a liderança de Guilherme Farel (1489-1565). Este, sabendo que o autor das Institutas estava de passagem pela cidade, o “convenceu” a permanecer ali e ajudá-lo.

2.7 A Reforma em Genebra

Logo, Calvino e Farel entraram em conflito com os magistrados de Genebra e dois anos depois foram expulsos. Calvino seguiu então para Estrasburgo, onde passou os três anos mais felizes e produtivos da sua carreira (1538-1541). Naquela cidade, ele pastoreou uma igreja de refugiados franceses, casou-se com a viúva Idelette de Bure (†1549), lecionou na academia de João Sturm, participou de conferências religiosas ao lado de Martin Butzer e publicou algumas obras importantes, entre elas a segunda edição das Institutas e o Comentário de Romanos, o primeiro dos muitos que escreveu.

Eventualmente, os magistrados de Genebra insistiram no seu retorno. Calvino aceitou com a condição de que pudesse escrever a constituição da Igreja Reformada de Genebra.

Essa importante obra, as Ordenanças Eclesiásticas, previa quatro categorias de oficiais: pastores, encarregados da pregação e dos sacramentos; doutores para o estudo e ensino da Bíblia; presbíteros, com funções disciplinares; e diáconos, encarregados da beneficência. Os pastores e os doutores formavam a Companhia dos Pastores; os pastores e os presbíteros integravam o Consistório, uma espécie de tribunal eclesiástico. Calvino teve um relacionamento tenso com as autoridades municipais até 1555. No final desse período, em 1553, o médico espanhol Miguel Serveto foi condenado e executado por heresia. Calvino teve uma participação nesse episódio, lamentada por seus herdeiros, o que não anula a sua grande obra como reformador, escritor, teólogo e líder eclesiástico. Em 1559, um ano especialmente significativo, o reformador tornou-se cidadão de Genebra, fundou a sua Academia, embrião da Universidade de Genebra, e publicou a última edição das Institutas.

A visão do reformador francês era tornar Genebra uma cidade-cristã-modelo através da reorganização da Igreja, de um ministério bem preparado, de leis que expressassem uma ética bíblica e de um sistema educacional completo e gratuito. O resultado foi que Genebra tornou-se um grande centro do protestantismo, preparando líderes reformados para toda a Europa e abrigando centenas de refugiados. O calvinismo veio a ser o mais completo sistema teológico protestante, tendo por princípio básico a soberania de Deus e suas implicações, soteriológicas e outras. Foi essa a origem das Igrejas reformadas (continente europeu) ou presbiterianas (Ilhas Britânicas). Os principais países em que se difundiu o movimento reformado foram, além da Suíça e da França, o sul da Alemanha, a Holanda, a Hungria e a Escócia.

Calvino também se notabilizou como um erudito bíblico. Escreveu comentários sobre quase todo o Novo Testamento e os principais livros do Antigo Testamento. Seus sermões e preleções também expuseram amplamente as Escrituras. Além disso, escreveu muitos opúsculos, tratados e cartas. Mas a maior das suas obras são as Institutas, nas quais ele expôs todos os aspectos da doutrina cristã, apelando às Escrituras e ao testemunho dos antigos pais da igreja. Em muitas de suas obras, se vê uma mão que sustenta um coração, e ao redor as palavras Cor meum tibi offero Domine, prompte et sincere (“O meu coração te ofereço, ó Senhor, de modo pronto e sincero”).

2.8 Implicações Práticas

Os reformadores não estavam buscando inovar, mas restaurar antigas verdades bíblicas que haviam sido esquecidas ou obscurecidas pelo tempo e pelas tradições humanas. Sua maior contribuição foi chamar a atenção das pessoas para a importância das Escrituras e seus grandes ensinos, especialmente no que diz respeito à salvação e à vida cristã. Para que as Igrejas Evangélicas atuais possam manter-se fiéis à sua vocação, é preciso que julguem tudo pelas Escrituras, acolhendo o que é bom e lançando fora o que é mau. Os reformadores nos mostraram que o critério da verdade não são os ensinos humanos, nem a experiência espiritual subjetiva, mas o Espírito Santo falando na Palavra e pela Palavra.

3. A Reforma Protestante – 2ª Parte

3.1 A Reforma na Inglaterra

Vários fatores contribuíram para a introdução da Reforma Protestante na Inglaterra: o anticlericalismo de uma grande parcela do povo e dos governantes, as idéias do pré-reformador João Wycliff, a penetração de ensinos luteranos a partir de 1520, o Novo Testamento traduzido por William Tyndale (1525) e a atuação de refugiados que voltaram de Genebra. Todavia, quem deu o passo decisivo para que a Inglaterra começasse a tornar-se protestante foi o rei Henrique VIII.

Henrique VIII (1491-1547) começou a reinar em 1509. Sendo muito católico, em 1521 escreveu um folheto contra Lutero que lhe valeu o título de “defensor da fé”. Era casado com a princesa espanhola Catarina de Aragão, viúva do seu irmão, que não conseguiu dar-lhe um filho varão, mas somente uma filha, Maria. Henrique pediu ao papa Clemente VII que anulasse o seu casamento com Catarina para que pudesse casar-se com Ana Bolena (Anne Boleyn), mas o papa não pode atendê-lo nesse desejo. Uma das principais razões foi o fato de que Catarina era tia do sacro imperador germânico Carlos V. Em 1533, Thomas Cranmer (1489-1556) foi nomeado arcebispo de Cantuária e poucos meses depois declarou nulo o casamento do rei. Em 1534, o parlamento aprovou o Ato de Supremacia, pelo qual a Igreja Católica inglesa desvinculou-se de Roma e o rei foi declarado “Protetor e Único Chefe Supremo da Igreja da Inglaterra.” O bispo John Fisher e o ex-chanceler Thomas More opuseram-se a essas medidas e foram executados (1535); os numerosos mosteiros do país foram extintos e suas propriedades confiscadas (1536-1539).

Nos anos seguintes, Henrique ainda teria outras quatro esposas: Jane Seymour, Ana de Cleves, Catarina Howard e Catarina Parr.

Henrique morreu na fé católica e foi sucedido no trono por Eduardo VI (1547-1553), o filho que teve com Jane Seymour. Os tutores do jovem rei implantaram a Reforma na Inglaterra e puseram fim às perseguições contra os protestantes. Foram aprovados dois importantes documentos escritos pelo arcebispo Cranmer, o Livro de Oração Comum (1549; revisto em 1552) e os Quarenta e Dois Artigos (1553), uma síntese das teologias luterana e calvinista. Eduardo era doentio e morreu ainda jovem, sendo sucedido por sua irmã Maria Tudor (1553-1558), conhecida como “a sanguinária”, filha de Catarina de Aragão. Maria perseguiu os líderes protestantes e muitos foram levados à fogueira. Os mártires mais famosos foram Hugh Latimer, Nicholas Ridley e Thomas Cranmer. Muitos outros, os chamados “exilados marianos”, foram para Genebra, Estrasburgo e outras cidades protestantes.

Com a morte de Maria, subiu ao trono sua meio-irmã Elizabete I (1558-1603), filha de Ana Bolena, em cujo reinado a Inglaterra tornou-se definitivamente protestante. Em 1563, foi promulgado o Ato de Uniformidade, que aprovou os Trinta e Nove Artigos. O resultado foi o acordo anglicano, que reuniu elementos das principais teologias evangélicas, bem como traços católicos, especialmente na área da liturgia. Além dos anglicanos, havia outros grupos protestantes na Inglaterra, como os puritanos, presbiterianos e congregacionais. Os puritanos surgiram no reinado de Elizabete e foram assim chamados porque reivindicavam uma Igreja pura em sua doutrina, culto e forma de governo. Reprimidos na Inglaterra, muitos puritanos foram para a América do Norte, estabelecendo-se em Plymouth (1620) e Boston (1630), na Nova Inglaterra. Outro grupo protestante inglês foram os batistas, surgidos a partir de 1607 sob a liderança de John Smyth e Thomas Helwys. Este fundou em 1612 a primeira igreja batista geral.

No século 17, no contexto da guerra civil entre o rei Carlos I e um parlamento puritano, foi convocada a Assembléia de Westminster (1643-1649). Essa célebre assembléia elaborou uma série de documentos calvinistas para a Igreja da Inglaterra, entre os quais a Confissão de Fé e os Catecismos Maior e Breve, que se tornaram os principais símbolos confessionais das Igrejas reformadas ou presbiterianas.

3.2 A Reforma na Escócia

O protestantismo começou a ser difundido na Escócia por homens como Patrick Hamilton e George Wishart, ambos martirizados. Todavia, o presbiterianismo foi introduzido graças aos esforços do reformador John Knox (†1572), um discípulo de Calvino que, após passar alguns anos em Genebra, retornou ao seu país em 1559. No ano seguinte, o parlamento escocês criou a Igreja da Escócia (presbiteriana). Knox fez oposição tenaz à rainha católica Maria Stuart (1542-1587), prima de Elizabete, que viveu na França (1548-1561) e voltou à Escócia para tomar posse do trono. A aceitação do protestantismo ocorreu no contexto da luta pela independência do domínio francês. Alguns anos mais tarde, Maria Stuart teve de fugir e buscar refúgio na Inglaterra, onde foi executada por ordem de Elizabete em 1587.

Foi na Escócia que surgiu o conceito político-religioso de “presbiterianismo”. Os reis ingleses e escoceses sempre foram firmes defensores do episcopalismo, ou seja, de uma Igreja governada por bispos. A razão disso é que, sendo os bispos nomeados pelos reis, a Igreja seria mais facilmente controlada pelo estado e serviria aos interesses do mesmo. À luz das Escrituras, os presbiterianos insistiram em uma Igreja governada por oficiais eleitos pela comunidade, os presbíteros, tornando assim a Igreja livre da tutela do Estado. Foi somente após um longo e tumultuado processo que o presbiterianismo implantou-se definitivamente na Escócia.

3.3 A Reforma na França

O movimento reformado francês surgiu na década de 1530. Inicialmente tolerante, o rei Francisco I (1515-1547) eventualmente mostrou-se hostil contra os reformados. Henrique II (1547-1559) foi ainda mais severo que o seu pai. Em 1559, reuniu-se o primeiro sínodo nacional da Igreja Reformada da França, que aprovou a Confissão Galicana. Em 1561, havia duas mil congregações reformadas no país, compostas de artesãos, comerciantes e até mesmo de algumas famílias nobres, como os Bourbon e os Montmorency. Os reformados franceses, conhecidos como huguenotes, estavam concentrados principalmente no oeste e sudoeste do país, e recebiam decidido apoio de Genebra. Ao norte e leste estava a facção ultracatólica liderada pela poderosa família Guise-Lorraine.

No reinado de Francisco II (1559-1560), os Guise controlaram o governo. Quando Carlos IX (1560-1574) tornou-se rei, sendo ainda menor, sua mãe Catarina de Médici assumiu a regência, mostrando-se inicialmente tolerante para com os huguenotes. Tentando conciliar as duas facções, ela promoveu um encontro de católicos e protestantes, o Colóquio de Poissy, em 1561. Com o fracasso desse encontro, houve um longo período de guerras religiosas (1562-1598), cujo episódio mais chocante foi o massacre do Dia de São Bartolomeu (24-08-1572). Centenas de huguenotes achavam-se em Paris para o casamento da filha de Catarina com o nobre protestante Henrique de Navarra. Na calada da noite, os huguenotes foram assassinados à traição enquanto dormiam, entre eles o seu principal líder, almirante Gaspard de Coligny. Nos dias seguintes, muitos milhares foram mortos no interior da França. Mais tarde, quando o nobre huguenote tornou-se rei, com o título de Henrique IV, ele promulgou em favor dos seus correligionários o Edito de Nantes (1598), concedendo-lhes uma tolerância limitada. Esse edito seria revogado pelo rei Luís XIV em 1685, dando início a um novo período de duras provações para os reformados franceses.

3.4 A Reforma nos Países Baixos

Os Países Baixos eram parte do Sacro Império Germânico e depois ficaram sob o domínio da Espanha. Durante o reinado do imperador Carlos V, surgiram naquela região luteranos, anabatistas e principalmente calvinistas, por volta de 1540. Desde o início foram objeto de intensas perseguições, tendo a repressão aumentado sob o rei Filipe II (1555) e o governador Duque de Alba (1567). A revolta contra a tirania espanhola foi liderada pelo alemão Guilherme de Orange, grande defensor da plena liberdade religiosa, que seria assassinado em 1584.

Eventualmente, os Países Baixos dividiram-se em três nações: Bélgica e Luxemburgo (católicas) e Holanda (protestante).

A Igreja Reformada Holandesa foi organizada na década de 1570. No início do século 17, surgiu uma forte controvérsia por causa das idéias de Tiago Armínio.

O Sínodo de Dort (1618-1619) rejeitou as idéias de Armínio e afirmou os chamados “cinco pontos do calvinismo”, cujas iniciais formam em inglês a palavra “tulip” (tulipa): Depravação total ( Total depravity), Eleição incondicional (Unconditional election), Expiação limitada (Limited atonement), Graça irresistível (Irresistible Grace) e Perseverança dos santos (Perseverance of the saints).

3.5 A Contra-Reforma

Ao analisarem as ações da Igreja Católica Romana após o surgimento do protestantismo, os historiadores falam em dois aspectos: Contra-Reforma e Reforma Católica. O primeiro foi o esforço da Igreja Romana para reorganizar-se e lutar contra o protestantismo. Essa reação ocorreu tanto no plano dogmático quanto político-militar. Já a Reforma Católica revelou a preocupação de corrigir certos problemas internos do catolicismo em resposta às críticas dos protestantes e de outros grupos.

Foram vários os elementos dessa reação. Na Espanha, houve notáveis manifestações de uma rica espiritualidade mística, cujos representantes mais destacados foram Teresa de Ávila e João da Cruz. Além do misticismo espanhol, outro sinal da revitalização católica foi o surgimento de várias ordens religiosas, das quais a mais importante foi a Sociedade de Jesus, fundada pelo espanhol Inácio de Loiola (1491-1556) e oficializada pelo papa em 1540. Além dos votos usuais de pobreza, castidade e obediência aos superiores, os jesuítas faziam um voto adicional de submissão incondicional ao papa. Seu objetivo era a expansão e o fortalecimento da fé católica através de missões, educação e combate à heresia. Os jesuítas exerceram forte influência sobre governantes e contribuíram decisivamente para a supressão do protestantismo em várias regiões da Europa, como a Espanha e a Polônia.

O instrumento mais eficaz tanto da Contra-Reforma quanto da Reforma Católica foi o Concílio de Trento, que se reuniu em três séries de sessões entre 1545 e 1563. Seus decretos rejeitaram explicitamente as doutrinas protestantes e oficializaram o tomismo (a teologia de Tomás de Aquino), a Vulgata Latina e os livros denominados apócrifos ou deuterocanônicos. Outros instrumentos da Contra-Reforma foram o Índice de Livros Proibidos (Index Librorum Prohibitorum, 1559) e a Inquisição, especialmente em suas versões espanhola e romana. Como expressão do dinamismo católico nesse período, as ordens dos franciscanos, dominicanos e jesuítas realizaram uma grande obra missionária no Oriente e nas Américas.

No território do Sacro Império, os conflitos entre católicos e protestantes continuaram por muitas décadas, atingindo o seu auge na tenebrosa Guerra dos Trinta Anos, que envolveu metade do continente europeu. Essa guerra terminou com a Paz de Westfália (1648), que fixou definitivamente as fronteiras político-religiosas da Europa e marcou o final do período da Reforma.

3.6 Implicações Práticas

A história da Reforma nem sempre é agradável e inspiradora. Por causa das profundas conexões entre elementos religiosos e políticos, esse período foi marcado por muita violência em nome da fé. Porque a religião é uma coisa muito importante para as pessoas, as paixões que desperta podem se tornar terrivelmente destrutivas. Os erros cometidos nessa área por diferentes grupos nos séculos 16 e 17 nos servem de advertência e de estímulo para a prática da caridade cristã e da tolerância, conforme o exemplo de Cristo. Podemos, sem abrir mão de nossas convicções, respeitar os que pensam diferente de nós.

Ao mesmo tempo, nos impressionamos com o heroísmo de tantos irmãos nossos da época da Reforma, que por causa de sua fé enfrentaram muitas provações e até mesmo mortes cruéis. O evangelho já não exige esse tipo de sacrifício da maioria dos cristãos do Ocidente, mas isso não significa que estamos livres de grandes desafios. São outras as maneiras pelas quais a nossa fé é testada no tempo presente. Viver de acordo com os princípios e os valores do Reino de Deus continua sendo uma prova difícil, mas necessária, para todos os cristãos.

Alderi Souza de Matos

Referências Bibliográficas

BETTENSON, Henry, Documentos da igreja cristã (São Paulo: ASTE, 1967); 3ª ed. revista, corrigida e atualizada (São Paulo: ASTE/Simpósio, 1998). Uma ótima coletânea de fontes primárias dos diferentes períodos da história da igreja.
CAIRNS, Earle E., O cristianismo através dos séculos: uma história da igreja cristã (São Paulo: Vida Nova, 1988). Uma das melhores histórias da igreja em um só volume disponíveis em português.
CLOUSE, Robert G., PIERARD, Richard V. e YAMAUCHI, Edwin M. Dois reinos: a igreja e a cultura interagindo ao longo dos séculos. São Paulo: Cultura Cristã, 2003 (1993). Obra de grande envergadura, com quase 600 p. no texto principal. Narrativa rica e abrangente.
DOWLEY, Tim, ed., Atlas Vida Nova da Bíblia e da história do cristianismo (São Paulo: Vida Nova, 1997). Belíssima edição em cores, com excepcional qualidade gráfica. Útil também para o estudo da história bíblica (Antigo e Novo Testamento).
GONZÁLEZ, Justo L., Uma história ilustrada do cristianismo, 10 vols. (São Paulo: Vida Nova). Os dois volumes da edição em inglês foram transformados em dez pequenos volumes na edição portuguesa. Agradável de ler e, como diz o título, fartamente ilustrada.
MATOS, Alderi Souza de., A caminhada cristã na história: a Bíblia, a igreja e a sociedade ontem e hoje (Viçosa, MG: Ultimato, 2005). Coletânea de textos breves sobre temas variados da história da igreja.
NEILL, Stephen, História das missões (São Paulo: Vida Nova, 1989). Uma das melhores abordagens de um aspecto específico da história da igreja. O autor foi missionário na Índia e na África.
NICHOLS, Robert H., História da igreja cristã, 11ª ed. rev. (São Paulo: Editora Cultura Cristã, 2000). Obra mais modesta que as anteriores, mas ótima para quem está começando a estudar a história da igreja. O autor é presbiteriano.
NOLL, Mark A., Momentos decisivos na história do cristianismo, trad. Alderi S. Matos (São Paulo: Editora Cultura Cristã, 2000). Ao abordar doze eventos especialmente significativos, o autor acaba por incluir boa parte dos tópicos mais importantes da história da igreja. Contém um apêndice sobre o Brasil, escrito pelo tradutor.
WALKER, W., História da igreja cristã, 2 vols. (São Paulo: ASTE, 1967). Obra excelente, mas um tanto desatualizada. A edição mais recente em inglês, revista por três outros autores (Norris, Lotz e Handy) e lançada em 1985, ainda não foi publicada em português.
WALTON, Robert C., História da igreja em quadros (São Paulo: Editora Vida, 2000). As tabelas e esboços proporcionam um instrumento simples e agradável para estudar a história da igreja.
WILLIAMS, Terri, Cronologia da história eclesiástica em gráficos e mapas (São Paulo: Vida Nova, 1993). Os ótimos gráficos permitem visualizar facilmente alguns dos temas mais importantes da história da igreja.

Fonte: www.mackenzie.br

Reforma Protestante

O renascimento e a revolução das idéias

O renascimento é uma revolução cultural que tem origem nos modos de vida das cidades italianas nos séculos XIV e XV e nas transformações no conhecimento que abrem o mundo para o novo. Essa perspectiva, embora acentuadamente italiana, dá conta da complexidade de mudanças que ocorreram na passagem da Idade Média para a Idade Moderna.

A revolução cultural indica exatamente a produção de novos mecanismos de desenvolvimento e divulgação das idéias assim a imprensa desempenhou papel central nessa revolução não apenas por que permitiu a circulação do conhecimento por meio da forma de livros, mas por que em si mesma a descoberta da imprensa já suscita uma grande inovação, outro grande instrumento foi o surgimento das academias.

As academias faziam com que as idéias circulassem e ganhassem consistência por meio da discussão dos textos escritos por seus participantes ou de textos de autores da antiguidade clássica, o principal papel das academias foi o de assumir a vigilância do governo das cidades.

Outro veiculo importante dessa grande revolução cultural foram os comerciantes que com seu movimento abriram caminho para ampliação do debate e para recepção das novidades que vinha do oriente assim como eles, também a igreja até o século XIV participou ativamente dessa revolução financiando copias de manuscritos e juntando os textos e manuscritos.

Segundo GARIN interpretação concentra-se nas cidades italianas e no progresso da vida urbana sugerindo que a Itália seria o centro fundador dessa Revolução e a partir dela novas idéias chegariam aos outros territórios europeus.

Sua opção é acentuar o resultado da vida urbana italiana e transforma-la em atrativo para o resto da Europa, não só pelo exemplo, mas também pela vontade de seus cidadãos,mas há mais na interpretação de Garin seu objetivo é mostrar como a cultura renascentista limitou o desenvolvimento da ciência, mesmo sem ter uma perspectiva anticientifica o argumento central dele é a hegemonia dos gramáticos e dos filósofos que se envolveram muito pouco com as pesquisas cientificas e realizaram um culto a antiguidade clássica para ele nocivo para o desenvolvimento regular das ciência moderna entretanto, ressalta que os méritos dos humanistas são significativos na reforma da lógica, que trouxe a retórica e a dialética para a ciência morais e no reconhecimento da importância da matemática para as ciências naturais.

O renascimento até arrisca direções que contribuem para a ciência, como o debate em torno das concepções de homem e de mundo, ultrapassando a atitude meramente intelectual, como na idade média essa atenção para experiência urbana é importante por que é a novidade de fato os temas e os questionamentos advem exatamente dessa experiência, mas é preciso o que garin não faz explicar como essa experiência torna forma e o movimento de questões que vai gerando a vida civil não é um dado, mas uma experiência.

Essa experiência é tomada por garin como resultante da cultura humanista, que abre novos caminhos com antigos autores ressalta os novos métodos educativos, como a criação das escolas de gramática e retórica e com elas a formação dos dirigentes das cidades e dos Estados por meio de técnicas políticas mais refinadas.

Também é importante a aproximação entre a produção literária a gramática e política, que se manifestava no programa do governo das cidades e nas impossibilidades de separar as atividades privadas das publicas.

O exemplo de Salutati é interessante, pois ele é o elo entre Boccacio e Petrarca no século XV, as lições dos antigos vinculavam-se constantemente as experiências modernas de avaliação da sua eficácia isso fez com que Florença, fosse possível reler a antiguidade para conhecê-la e ao conhecê-la servir dela como medida para a vivencia renascentista, não sem que esse conhecimento do antigo passasse antes por uma critica.

A experiência de Florença prende-se a construção de uma republica exemplar acentua a criatividade de seus intelectuais e a ilustração de sua população. Em abril de 1375 o conselho do povo da cidade aprova a nomeação de Salutati como chanceler.

Importante no desenvolvimento de sua atividade critica foram Petrarca e Boccacio,que se tornaram amigos e correspondentes na verdade Petrarca se transformou para Salutati no ideal de homem e cultura mas a dedicação as artes teve que esperar para sobreviver tornou-se notário em Roma ficou sob teto de Francesco Bruni durante o pontificado do Papa Urbano V.

Seu grande projeto para a cidade de Florença foi a afirmação da cultura humanista na perspectiva de Petrarca, as qualidades intelectuais de Salutati e sua capacidade política de uma grande cidade.

Nesse sentido Salutati inaugurou um novo significado para a política projetado por meio da cultura a vocação cívica e o amor pela cidade transformando a no elemento de identidade dos seus habitantes para Salutati a Florença era herdeira da Roma antiga governada em nome da liberdade que Salutati era o único que tornava a vida digna de ser filho das pátrias a do seu lugar de origem e a de Florença, cidade plena de humanidade responsável pela imposição humanista em Florença esse humanismo não veio entanto das catedrais universitárias ou retóricas das cortes refinadas, mas no Petrarca teve como base o Palazzo dei Signori de Florença.

As diferentes cisões sobre o Renascimento, que tornavam objeto de preocupação por parte da historiografia até a década de 1950, hoje são o que lhe da força para continuar sendo um tema central em qualquer debate ou pesquisa sobre a formação da cultura ocidental tomado como divisor de águas no que se refere ao modo critico de analisar a cultura medieval, foram os estudos dobre o Renascimento que reanimaram a renovação de olhares sobre a Idade Média e transformaram o modo de interpretar determinadas analises sobre as comparações entra a Idade Média e Idade Moderna em especial aqueles que em certo sentido tinham sido fundadores de novas sugestões interpretativas como as de Jacob Burckhardt(1991).

Burckhardt desenvolveu uma analise do Renascimento que despertou interesse pelo aproveitamento que fazia do patrimônio artístico produzido na Itália, dando a arte lugar novo na história, exatamente por se perguntar sobre o significado daquela forma de expressão, daquela linguagem que resumia menos um resultado e mais a descoberta de um procedimento novo, diferente de tudo que até então havia sido inventado.

Esse novo modo de ver o renascimento estabelecia uma nova relação entres as áreas de conhecimento aproximando produções das mais diferentes naturezas e apavorando os que permaneciam em suas posições tradicionais em especial aquelas que cultivavam a idéia de uma arte pura com inspiração divina, utilizou essa forma de interpretação para se perguntar sobre a presença da política no processo de renovação e renomeação da arte, sugeriu que mesmo que não tivesse havido um retorno a antiguidade as renovações se fariam em um outro sentido e em outras direções, mas com isso descartou tanto a noção de imitação como peso de herança clássica para o renascimento.

O objetivo do historiador suíço, pois se percebeu o que Jacob Burckhardt chamou de ensaio e que se aproximava de um estudo de caso e também que a anotação sobre a Idade Média era um forma de equacionar a pesquisa e habilitar possíveis comparações, por outro lado essa polemica acabou por dividir os historiadores que se dedicaram ao tema da cultura moderna e aqueles que entendiam ter havido um movimento de trocas renovadoras, mas, além disso, a polemica desenvolveu a capacidade argumentativa de cada uma das pesquisas fomentando interpretações que se dedicaram a fortalecer o lado da forma das idéias políticas.

Jacob Burckhardt abriu caminho que implicou o fortalecimento do tema e de uma perspectiva de analise, a história cultural, mas ainda uma outra contribuição da renovação projetada pela retomada dos estudos sobre o Renascimento que é a busca constante de confrontação com iluminismo no tocante das idéias de história e progresso negadas á cultura da Renascença pela força de singularidade que apresentam em relação à cultura iluminista.

Entretanto se observamos com atenção a produção de valores e de idéias do Renascimento sem a presença fantasmagórica do iluminismo, encontraremos a proposições e visões que relevam a latência das idéias do renascimento sem a presença. Collingwood no seu livro A IDÉIA DA HISTÓRIA, trata dos historiadores do renascimento, collingwood partiu das evidências anunciadas por Jacob Burckhardt perceber que dando origem a um pensamento critico a cultura renascentista inaugurava um novo modo de comparação que requisitava a historicidade de cada um dos seus termos principalmente quando os intelectuais do novo modo de comparação que requisitava a historicidade de cada um dos seus termos, principalmente quando os intelectuais do novo tempo se detinham na critica aos sistemas teológicos que tinham definido a forma de ver a história como uma determinação divina.

No século XVIII uma contribuição importante foi a de Francis Bacon que ao estabelecer o mapa do conhecimento elegeu três regiões: a poesia, história e filosofia orientadas por três faculdades: imaginação, memória e compreensão, esse modo de Bacon ver o conhecimento fez com que se entenda a história ao associa – lá como mecanismos de recordar registrar o passado em seus verdadeiros fatos, exatamente como aconteceram.

Voigt projeta uma interpretação que tenta estabelecer uma relação de movimento entra a Idade Média e o renascimento que esta na contramão do que tradicionalmente se associa a Jacob Burckhardt, na tentativa de revisão da historiografia feita por Frederico Chabod defendia a existência de duas grandes teses sobre o renascentismo a de Burckhardt que exibiria uma fartura entre a Idade Média e Renascimento e a de Burdach em seu livro intitulado REFORMA, RENASCIMENTO, HUMANISMO, cuja interpretação sugere uma continuidade entre a Idade Média e Renascimento.

Nessa forma de considerar o renascimento encontrarmos algo mais do que unicamente o debate entra a ruptura ou continuidade Haydyn abre a possiblidade de no Renascimento termos uma atitude que se confrontaria com aquela que deposita todas suas fichas na renovação, denunciando como ela cria vínculos com humanismo cristão e por isso teria sido ultrapassada por uma outra corrente que estaria letente nas profundezas da cultura medieval e que funcionaria como apresentadora de uma alternativa distinta daquela que reconhecemos como renovadora.

Reformas Religiosas

No segundo século do Renascimento, ocorreu um fenômeno conhecido como “reformas religiosas” que nada mais foi do que as forças em oposição entre velhos e novos interesses.

Mas, todavia não se pode pensar que esses fenômenos foram movimentos oportunistas que responderam por interesses particulares, foi algo bem mais complexo, que fez parte do novo Universo da modernidade européia.

O homem renascentista começava a ler mais e formar uma opinião cada vez mais crítica. Trabalhadores urbanos, com mais acesso a livros, começaram a discutir e a pensar sobre as coisas do mundo. Um pensamento baseado na ciência e na busca da verdade através de experiências e da razão.

Segundo Jean Delumeau, são três as principais razões para a reforma religiosa: a perda da religiosidade que cresce na Igreja Católica, a perda da espiritualidade em decorrência pela opção do mundo material e a opção do Papado em obter riquezas para a Igreja. A exploração, que aumentava no campo e na cidade criou uma angústia coletiva que envolvia os indivíduos de vários níveis culturais e econômicos, a insatisfação era geral e trouxe conseqüências como guerras crises etc. Nesse sentido, a Reforma Protestante é uma resposta mais do que religiosa a esses apelos.

Mesmo assim, a maioria dos reformistas iniciou suas críticas sem intenção e se afastar da Igreja Católica, tinham vontade de modificar as coisas que consideravam erradas. Isso tudo gerou uma crise e o Papado tomou o caminho mais fácil o da intolerância; mesmo assim, durante o tempo que puderam, os “reformistas” tentaram mudar a partir de dentro, quando não deu mais eles saíram. Então as críticas se tornaram mais radicais e muitos os consideraram revolucionários. Esses reformistas só aumentaram a sua força com a saída da Igreja Católica, que por seu lado optou por incutir o medo nas pessoas chamando a atenção para o pecado. Desse modo, o clima de terror surte efeitos devastadores, cuja conseqüência mais grave foi à justiça feita pelas próprias mãos.

Podem ser citados também como conseqüência do medo, na Literatura livros que anunciavam o Apocalipse e o tema da morte, na Arte as imagens de terror. O Deus bom do século XIV foi substituído pelo Cristo flagelado, dando ênfase à dor, o sofrimento, neste clima se explica heresias, abusos, pessoas que desejavam receber chicotadas, pagar indulgências, tudo em busca da salvação. As reformas Protestantes e Católicas ocorreram para dar conta das necessidades dos homens nessa sociedade de desespero. Nesse clima de agitação se tomou a Bíblia como ancoradouro, utilizá-la significava mostrar a distância entre o que era dito pela Igreja Católica e o que estava nas escrituras. Tornou-se importante liberar a sua leitura para todos, como para o Clero só os padres deveriam Lê-la foi preciso fazer traduções, pois não existiam até o momento.

Nesse universo se da à importância de Lutero, o monge alemão que foi um dos primeiros a contestar fortemente os dogmas da Igreja Católica. Seguindo o caminho dos humanistas aprofundou-se no conhecimento do Grego e do hebraico para realizar sua famosa tradução da Bíblia para o alemão. Afixou na porta da Igreja de Wittenberg as 95 teses.

As 95 teses de Martinho Lutero condenavam a venda de indulgências e propunha a fundação do luteranismo (religião luterana). De acordo com Lutero, a salvação do homem ocorria pelos atos praticados em vida e pela fé. Embora tenha sido contrário ao comércio, teve grande apoio dos reis e príncipes da época, pois estes buscavam o enfraquecimento da Igreja e a sua divisão colaboraria para o seu enfraquecimento. Em suas teses, condenou o culto às imagens e revogou o celibato, que descontente com a cobrança de indulgências e perseguições, acentua a idéia de que só a fé salva e não as obras, exaltando o perdão e o amor ao próximo sem interesses.

As expressões mais significativas das reformas religiosas

Lutero (1483-1546)

A vida de Lutero é povoada de fantasias, folho de camponeses, teve um a educação severa obteve o bacharelado em 1502 e a licenciatura em filosofia em 1505, ano que foi pego por uma tempestade forte com muitos raios e fez uma promessa a Santana se sobrevivesse se tornaria monge, então ingressou na Ordem dos Eremitas de Santo Agostinho de Erfurt.

Nesse momento não havia nada que pudesse envolver Lutero com a reforma da Igreja, o que havia era uma mudança pessoal. Em 1512, doutorou-se em teologia e acumulou as funções de pregador conventual, pregador paroquial, professor da universidade, e superior da comunidade, rápida carreira para quem optou por ser monge devido a um acidente.

A radicalização da fé no mundo

Lutero acentua a idéia que só a fé salva e não as obras, ninguém se salva comprando indulgências, em 1517 criticava a igreja por acumular no castelo de Frederico, o Sábio, 17.413 relíquias, daí resultam as 95 teses, que foram primeiramente enfiadas as autoridades envolvidas com as indulgências, após não receber respostas é que enviou a alguns amigos.

Lutero exaltava o amor ao próximo e a o comprimento do dever de cada dia, acentuando a importância do Evangelho como único tesouro verdadeiro cristão.

As tenções com Roma

As teses chegara a mão de Alberto da Morgúcia, que resolveu envia-las a Roma, na sede da Igreja pelo cardeal Cajetano, a partir dos seus comentários foi aberto um processo na Câmara apostólica, em 7 de agosto de 1518, Lutero Recebeu uma intimação parta ir a Roma, porem Lutero se encontrou com Cajetano na Dieta de Augsbrugo, em outubro de 1518, não resultou em nada Lutero estava cada vez mais protegido por Frederico, o Sábio que recusou entrega-lo a Roma.

A produção livresca de Lutero

Em fevereiro de 1520 a censura feita a obra de Lutero serviu de base a bula Exurge, Domine, de Leão X, e em dezembro de 1520 Lutero convidou mestres e estudantes de Wittenburg pra ma fogueira de livros de Direito eclesiástico, entre os quais se encontrava a bula de Leão X.

Em 1521 Lutero foi convidado a abandonar sua doutrina, e recusou, então o edito de Worms exilou Lutero do Império, a partir daí que ele escreveu suas principais obras:

O papado de Roma: A verdadeira Igreja é a cristandade interior, a Igreja visível é uma criação puramente humana.
O apelo a nobreza cristã da nação alemã:
nesse texto convidava todos a lutarem pela reforma cristã.
O cativeiro de Babilônia da Igreja:
o batismo não acabava com o pecado original e a comunhão não era uma oferenda a Deus, criticava ainda a forma do rito da missa por afastar os fieis do cálice, por ser rezada em latim.
Da liberdade do cristão:
confirmava a idéia que o cristão é livre e não esta sujeito a ninguém.
Acerca dos votos monásticos:
na qual atacava todos os votos eclesiásticos.

A Europa reformista embalada pelas idéias de Lutero

As idéias de Lutero impressionaram os humanistas alemães que deram a elas uma recepção positiva, mas não só os homens da Igreja aplaudiram Lutero, artistas como Durer E Holbein aderiram a elas, assim como vários nobres da pequena nobreza alemã, nas cidades burguesas o apoio era consagrado.

Em 1523, por decisão do bispo da cidade de konisberg tornava-se luterana, outras ações se verificaram como resultado dos princípios luteranos como a aceitação do luteranismo por boa parte dos príncipes alemães.

A religião a política depois da ruptura com Roma

A proteção de Frederico, o Sábio levou Lutero após o exílio para o castelo de Wartburgo, nesse período final de sua estadia no castelo iniciou a publicação da sua Bíblia em alemão, cuja edição terminou quase no final de sua vida, em 1545.

Lutero casou-se de repente, em 1525, com uma religiosa refugiada no convento de Wittenberg, chamada Catarina de Bora, com quem teve cinco filhos.

Assim até 1521, Lutero tinha como inimiga apenas a Igreja Católica, mas depois dessa data apareceram muitos inimigos, inclusive desgostosos que queriam um Lutero mais radical, mas a questão mais divulgada foi a interdição de apoio aos camponeses revoltosos da Floresta Negra.

Esses rebeldes conhecidos como anabatistas, tomaram a região de Mauthausen e prepararam a rebelião que estourou em 1524, com a radicalismo do movimento Lutero se colocou contra os camponeses.

A atitude de Lutero de subordinar a Igreja ao Estado fez sua doutrina ser tomada pelos príncipes como o verdadeiro caminho para a centralização. Outra importante polemica se verificou com Erasmo, que no começo tinha uma certa simpatia por Lutero mais que mais tarde se afastaria dele por meio do debate sobre o severo-abrito.

Em 1530, por meio da Confissão de Augsburgo, Lutero definiu a doutrina de sua Igreja, em primeiro acentuou que a salvação só se dava pela fé, definiu que a bíblia era o único dogma de sua religião e que a leitura deveria ser livre; suprimiu o clero regular, o celibato e as imagens, manteve apenas dois sacramentos, o batismo e a eucarestia, exigiu que os ritos da Igreja fossem realizados em língua alemã.

As tenções religiosas no Sacro Império só foram resolvidas em 1555, com a Paz de Augsburgo, na qual estabeleceu o principio que cada governante no interior do Sacro Império poderia escolher sua religião e a dos seus súditos.

Calvino (1509-1564)

A presença de Calvino no contexto das reformas religiosas deu a elas um sentido profundamente revolucionário, especialmente ma produção de uma diciplina que fosse possível associa-la a ao modo de ser acumulador e produtor do sistema capitalista, por meio da dignificação do trabalho. Na Dinamarca, na Escócia receberam o nome de presbiterianos, na França por huguenotes, na Inglaterra, eram os puritanos.

Calvino nasceu em Moyon, em 1509, estudou em Paris e Montagu, e seu primeiro contato com as idéias de Lutero foi através de um professor chamado John Mair, um forte opositor as idéias propagadas por Lutero.

Calvino tocou Paris por Orléans, e a Teologia pelo Direito, isso se deu à pressão do pai. Mas o fato mais significativo que refere ao seu posicionamento religioso adveio a humilhação, na morte de seu pai excomungado pela Igreja, o que marcou seu temperamento e sua personalidade, além de ter alterado sua visão da Igreja Católica. Manteve a vida católica mesmo após da tragédia do pai, e não se aproximou dos livros protestantes porque discordava do modo como tratavam o sacramento da comunhão, e no final de 1533 iniciou seu processo de critica a doutrina católica por meio da revisão da Bíblia em francês, que contou com a colaboração de Nicolas Cop, o fato do discurso ter sido mal recebido pelas autoridades francesas fez com que os dois fugissem para Paris para não serem presos.

Em 1534, renunciou a toda a riqueza terrena, e com as perseguições aos protestantes resolveu fugir para a Basiléia, a partir daí começou o estudo de uma nova teologia e ao trabalho de que o protestantismo era o caminho da salvação, porem suas idéias não foram recebidas de modo tranqüilo, então ele apresenta seus ideais em um texto: Da instituição cristã, a obra fez de Calvino um protestante conhecido, o “segundo patriarca da Reforma”.

A experiência na cidade de Genebra e o aumento da perseguição dos protestantes fizeram com que torna-se duro e representante do novo credo, isso trouxe problemas porque religião e política desgastavam sua teologia, a vitória política levou os protestantes a exigir que todos os habitantes da cidade de Genebra aderissem a Confissão de Fé de Calvino, mostrando a mesma intolerância da Igreja Católica.

Os princípios religiosos e normativos de Calvino

Calvino ensinava, como Lutero, que a Igreja era essencialmente invisível e que era constituída pelo conjunto de eleitos de quem Deus sabia o nome. Assim a missão da Igreja antes de tudo era dar a conhecer a palavra reveladora da fé, e por isso podia dispensar os sacramentos católicos, preservando apenas aqueles que se apresentavam nas Escrituras. A forma de Calvino ver o batismo e a eucaristia o colocou também contra a Igreja, para ele os sacramentos possuíam uma força mágica, mas a questão mais controversa era a da comunhão, pois Calvino rejeitava a idéia de que o pão e o vinho se transformavam no corpo de e sangue de Cristo.

A experiência política do calvinismo tomou sua forma principal na Inglaterra, onde foi introduzida pelo próprio Henrique VIII, a partir do processo de anulação do seu casamento, entretanto o rompimento com o papa fazia parte de uma estratégia mais ampla de afirmação do poder de Henrique VIII.

Reforma católica

A contra reforma ou Reforma Católica, se da não apenas por causa do surgimento dos protestantes, pois teria ocorrido com ou sem o surgimento deles, o que vemos é a necessidade que já havia na igreja católica de uma reforma, a criação dos protestantes foi apenas um motivador a reforma, esta que tinha como objetivo se aproximar mais dos fiéis usando novas técnicas de doutrina e ritos, muitas vezes usados pelos protestantes.

A reforma foi uma maneira encontrada pela igreja de se adaptar aos tempos modernos, com uma nova doutrina, mas que matinha as suas tradições. Uma boa parte dos concílios ganha expressão na religião protestante, assim como as forças do corpo de fiéis e da assembléia geral,e entre estes tinham aqueles que na gostavam muito doutrina protestante, mas que eram críticos da doutrina católica, como Erasmo de Roterdã e Thomas Morus,assim formando no que foi chamado de terceira via.

A reforma começa a tomar rumos de que se deve ir até o rebanho, ou seja, sair de Roma e do papado, mas para isso era preciso competência e conhecimento na defesa de sua doutrina tão igual a que os protestantes tinham da sua. Toda essa necessidade de aumento de conhecimento do clero fez com que os católicos fundassem uma nova ordem religiosa, em 1534 se funda a companhia de Jesus, que era um modelo a ser seguido pelas outras ordens religiosas, a companhia tem como iniciador o espanhol Ignácio de Loyola, um ex-soldado espanhol.

Entre os soldados de Cristo, que estavam saindo para o mundo defender a sua doutrina e ir de contra aos protestantes que criticavam o clero, se destaca a importância dos jesuítas, que eram interpretes do mundo e do acontecia nele, os jesuítas que usavam o ensino e o convencimento para bater de frente aos protestantes, mostravam uma igreja renovada que tinha como referencia a necessidade de fortalecer os homens para tira-los do caminho errado e exaltava a inteligência humana.Outra grande contribuição jesuíta foi o reconhecimento de outras áreas fora da Europa,como a América e a Ásia,onde construíram cidade ou reduções.

Outra importante forma de desenvolver a reforma foi a convocação feita pelo Papa Paulo III do concílio de Trento em 1545, esse concílio curo praticamente todo restante do século XVI, ele contou com a presença de teólogos protestantes pois também queria discutir a cisão, tinha também como intenção fortalecer os quadros da igreja diante do avanço dos protestantes unido-os em uma decisão comum.O resultado deste concílio foi vantajoso para os católicos pois recompôs a sua autoridade e deu a impressão de que só eles tinham direito ao uso da noção de humanidade, colocando os protestantes apenas como interresados no poder local e a Reforma Protestante como um capitulo do velho problema em Papado e Império.Os resultados mais positivos foram a proibição da venda de indulgências e a criação de escolas para a formação dos quadros eclesiásticos, e também o concílio fortalece mais o poder do Papa tornando a igreja mais centralizada e assim fazendo com que até mesmo uma simples decisão passe pelo Papado.A decisão polêmica foi a de reativar o Tribunal do Santo Oficio,isso se torna polêmico não só pela violência que ele representava mas também por que este tribunal foi um dos instrumentos mais eficazes do poder absoluto dos reis, o que fazia com que o rei perdesse seu compromisso com os parlamentos e cortes e com a tradição das leis dos reinos.

Max Weber e a ética protestante

Max Weber um protestante alemão em seu livro “A ética protestante e o espírito do capitalismo”, aborda resultados produzidos pelos protestantes, pois para ele as atitudes produzidas pela reforma protestante alteram os valores, rompendo totalmente com o que havia de velho nos tempos modernos, pois esta reforma solicitou ao homem novas atitudes diante do novo mundo, e essas atitudes eram morais e éticas que serviriam para eliminar os males da devassidão e do pecado que diminuíam a fé e amoleciam o espírito, onde também se fala da atitude de Calvino em proibir jogos,bebidas e as festas, pois isso levaria o homem a desrazão e tiraria a sua riqueza onde o melhor remédio era o trabalho.

Outra coisa que Weber mostra sobre o protestantes é que era ensinado a eles a poupar e não a ostentar o que fazia com que estes calculassem suas atitudes tendo em vista a salvação, este pensamento para Weber produziu uma mentalidade que seria responsável pela institucionalização do capitalismo,o que fazia pensar que só os países protestantes seriam capitalistas,mas o que fazia eles serem capitalistas era a ética protestante.

Para Weber havia um fator que explicaria o sucesso da ética protestante, que seria fetiro pelo fato de os protestantes viverem em mundo dominado pelo catolicismo eles deveriam achar um modo alternativo para sobreviver e assim teria criado uma ética fortemente qualificada na visão do futuro o que gera um forma de acumulação especial para prover o depois, para Weber É Lutero que define melhor a concepção de vocação fala pelos protestantes, e Lutero diz que tudo esta ligado a um senti do religioso.

Artistas e cientistas

Os novos ocupantes do mundo

Ao estudar a renascença se vê que nesta cultura a um enorme esforço para aproximar os artistas e cientistas, buscando em experiências do mundo natural, na cultura renascentista já era possível observar um tensão entre cultura e técnica mas não tão forte como no final do século XX.

Na cultura renascentista se percebe tensões e contradições, ao examinar a relação entre cultura clássica e pensamento renascentista temos que ter cautela, cautela que nos leva a perceber na cultura renascentista 3 posicionamentos diferenciados todos relacionados a ciência e técnica e o que era cultura.

O humanismo teria feito com que se associassem sem criticas os cientistas e artistas, o que indica um confusão em torno da idéia de técnica como algo comum a todos que iguala a cultura e produz a condição de definir genericamente o que é Renascimento ou permitir discutir se ele é continuidade do Humanismo do final da Idade Média ou uma ruptura radical.

Dentro do três posicionamentos temos, o primeiro que acredita que a um nova época ou uma nova era e que descarta qualquer relação com o períodos anteriores ou posteriores, e que dentro da renascença tudo é cultura, dividindo em cultura política ,cultura economia e etc.O seja ,a construção do Humanismo moderno.

O segundo é a tomada da ciência como responsável pelo moderno e construtora das novas condições de observações análise responsável pela secularização,mas mesmo assim ainda com ênfase na ruptura, só que a ela é responsável pelas técnicas desenvolvidas pelos cientista que dão um novo método natural e mesmo assim essa posição ainda mantem a associação entre artistas e cientistas, só que é clara a determinação da ciência.

O terceiro ponto passa a uma discussão se tornar artistas e cientistas como distintos e entende esse relacionamento como uma coisa que vem de tradições antigas e do acumulo técnico, ou seja, a campo comum entre artistas e cientistas dentro da cultura renascentista.

Essa produção cultural feita pelos artista e cientistas dentro de um campo comum, que era capaz de fortalecer a razão humana tornando-o capaz de promover sozinho o progresso, descontentou a igreja católica pois era classificado como uma coisa moderna e opostas a visão da igreja.Assim a igreja trata de colocar os cientistas como responsáveis pela desagregação dos valores católicos o que faz com que a igreja comece a negar as produções cientificas modernas e também proibir a produção delas nivelado as coisas como ela queria, o que não acontecia com a arte pois ela associava a estética coisa que a igreja não perseguia ,apesar de muito defenderem que os cientistas e os artistas andavam junto.Isto por que se diz que não tinha como ser um artista sem se ser um cientista ,pois dando o exemplo de Leonardo Da vinci, a contribuição dos artista a ciência nesse período equivale a contribuição dos cientistas as arte renascentista., e com estas contribuições entra a arte e ciências vemos neste período grandes contribuições tecnológicas e artísticas e também contribuições dentro da área medica até então muito atrasada e também a imprensa que surge neste período junto com o crescimento de outras produtos .

Lucas Cabral

Lucas Morates

José Eduardo

Marcelo Zarvoski

Fonte: renascimento.clio.pro.br

Reforma Protestante

Origem e significado do termo

O uso do termo "protestante" pode indicar, numa primeira e superficial interpretação, os cristãos que se separaram da Igreja de Roma. Se, por um lado, isso pode sugerir uma conotação negativa, por outro, há todo um embasamento histórico que não pode ser desconsiderado.

Assim, "protestante" deriva de um fato histórico, isto é, da grande manifestação feita por alguns Estados e príncipes alemães, em 1529, em protesto contra decisões de caráter religioso, mas de motivação também política.

O termo ainda foi utilizado em referência aos movimentos reformadores que se seguiram.

No entanto, procurando evitar a acentuação crítica contra a Igreja de Roma, muitos preferem empregar o termo "evangélico", certamente menos polêmico e que lembra uma das características positivas de todo o movimento reformador: a volta à mensagem evangélica original.

Muitas Igrejas surgidas desse movimento também se denominaram "Igrejas reformadas", evocando o propósito de uma permanente disponibilidade à conversão e à renovação.

Um pouco de história

O surgimento da Reforma Protestante foi e continua sendo considerado um dos mais importantes acontecimentos da história, pois suas conseqüências, ainda hoje, permanecem vivas em nível religioso, político, econômico e cultural. Para entender esse fenômeno, devemos enquadrá-lo no contexto da época e, sobretudo, evidenciar as causas que o determinaram.

Antes de mais nada, é necessário limpar o terreno da interpretação preconcebida, muito difundida no passado entre protestantes e católicos e que ainda encontra seguidores nas obras de divulgação e nos meios de comunicação social e esclarecer que a causa da Reforma Protestante não foram apenas os abusos e desordens tão comuns na Igreja de então, sobretudo na cúria romana.

O próprio Lutero desmente tal causa: " A vida é má entre nós como entre os papistas, mas nós não os condenamos por sua vida prática.

A questão é outra: se eles seguem a verdade".

Causas da Reforma

Causas político-religiosas

A partir do século XIV, a autoridade dos papas sofreu um forte declínio: de um lado, perderam a força política com que, embora em meio a lutas e resistências, nos séculos anteriores conseguiram erigir-se como supremos moderadores nas controvérsias políticas. No século XIV, na Europa, começou a afirmar-se o nacionalismo com os soberanos locais, que se desvinculavam da submissão ao imperador e ao papa.

Do outro lado, o exílio de Avinhão (1309-1376), com a dependência do papa ao rei da França, e o cisma do Ocidente (1378-1417), durante o qual houve até três papas ao mesmo tempo, abalaram muito a autoridade e o prestígio do pontífice romano diante do povo. Nesse contexto, surgiram teorias chamadas conciliaristas, que sustentavam a superioridade do concílio sobre o papa, chegando a propor modelos de Igreja de tipo "democrático". Como conseqüência de tudo isso, afirmou-se a tendência para a formação de Igrejas nacionais (na França, Alemanha e Inglaterra), o que constituiu uma das principais causas da revolução protestante.

Causas culturais

Um vento de novidade percorreu a Europa a partir do século XV: era o Renascimento que, reagindo à fuga do mundo e à subordinação direta de tudo à religião, típicas da Idade Média, reivindicava a necessidade da autonomia das atividades humanas, com o risco, porém, de chegar à separação. Era o início do caminho que levou o homem ocidental ao progressivo afastamento e até negação de Deus, característicos da época moderna e contemporânea.

Ao mesmo tempo, a teologia perdera o contato com a reflexão dos grandes autores medievais (Tomás de Aquino, Boaventura) para reduzir-se a discussões vazias, longe da realidade (nominalismo). Occam, que exerceu grande influência sobre Lutero, reduzia muito a capacidade da mente humana de atingir a realidade, enquanto exacerbava a onipotência divina. Em geral, "a teologia", como dizia o próprio Lutero, "está reduzida a meras opiniões... sem mais certeza alguma".

Wycleff, Hus e Wessel, fundadores de movimentos reformadores nos séculos XIV e XV, contrapunham à Igreja visível uma Igreja espiritual e pobre, sem poderes nem estruturas.

Nesses mesmos séculos, difundiram-se correntes espirituais e místicas, que acentuavam a dimensão íntima e subjetiva na experiência com Deus ou que evidenciavam unilateralmente a onipotência da graça divina, chegando até a considerar inúteis as obras do cristão para sua salvação. Essas idéias terão lugar fundamental na doutrina luterana.

Causas religiosas

Além daquelas que apareceram anteriormente, há uma causa que já lembramos: a corrupção da Igreja. Dissemos que esta não pode ser considerada a causa principal da Reforma Protestante, mas é inegável que ela tornou mais fácil a difusão da revolta. Os bispos provinham exclusivamente da nobreza, levavam uma vida mundana, ocupados em ficar cada vez mais ricos, sem preocupar-se com sua responsabilidade pastoral.

Os sacerdotes eram numerosos, mas constituíam, sobretudo no campo, o proletariado clerical: pobres, pouco instruídos, em sua grande maioria não observavam o celibato. Também nos conventos, masculinos e femininos, a situação muitas vezes era lamentável.

Isso, porém, não deve fazer esquecer que, já antes de Lutero, havia notáveis iniciativas de reforma em toda a Igreja por parte de religiosos, bispos e leigos.

Causas sociais

Sobretudo na Alemanha, duas classes sofriam com a crise econômica surgida após a descoberta da América: os cavaleiros e os camponeses.

Os primeiros tinham perdido seu antigo poder e procuravam o meio para recuperá-lo: assim, a posse dos bens da Igreja poderia oferecer-lhes uma cômoda e fácil oportunidade. Entre os camponeses, ainda na condição de escravos, há muito estava incubado o fermento revolucionário, que já havia explodido com violência em revoltas que, periodicamente, sacudiam a Alemanha, desde o final do século XV. Eles esperavam a hora da própria libertação.

Todo esse conjunto de fatores religiosos, culturais, políticos e sociais constituía um imenso material explosivo. Bastava uma centelha para fazê-lo estourar. Lutero foi o estopim, com sua personalidade forte e inspirada. A data exata do começo desse processo foi estabelecida a partir das 95 teses de Lutero, publicadas em novembro de 1517 (e não fixadas no dia 31 de outubro nas portas da Igreja de Wittenberg, como tradicionalmente se pensava).

Na mesma época,independentemente de Lutero,começaram sua pregação Zwinglio, na Suíça de língua alemã, e João Calvino, na de língua francesa.O movimento reformador, surgido em países diferentes e em determinadas situações históricas, apresenta - dentro de algumas diferenças inevitáveis - uma característica de unidade fundamental.
Antes, porém, de apresentarmos os grandes protagonistas da Reforma e suas idéias, é necessário levarmos em consideração um pouco mais de história.

Os principais acontecimentos:

Em primeiro lugar, é preciso lembrar o fato de que o movimento evangélico da Reforma teve seu epicentro na Alemanha, com Lutero, e daí envolveu toda a Europa.

1.º No final de 1517, Lutero interveio contra os abusos relacionados com a venda das indulgências, publicando 95 teses sobre o assunto e que se difundiram rapidamente, suscitando um grande movimento de cunho nacionalista, tendo como alvo principal a cúria romana. A briga com Roma já vinha se arrastando,quando Lutero foi defendido pelo príncipe da Saxônia, Frederico o Sábio,na disputa, sem êxito, com o cardeal Caetano, em Augusta (1518). Após a disputa em Lípsia (1519), com o teólogo João Eck, o mais duro adversário de Lutero, evidenciou-se o abismo intransponível entre as duas posições a respeito da doutrina do papado e da Igreja. A ruptura foi selada em 1521, quando Lutero acabou sendo excomungado por Roma. O imperador Carlos V, que era o mais fiel e decidido defensor da Igreja católica, convidou Lutero a retratar-se diante dos príncipes, na Dieta de Worms(1521), mas ele se recusou. Assim, o movimento evangélico desencadeado ia crescendo e não podia mais ser reprimido. O imperador não pôde intervir, porque estava ocupado em outro lugar, defendendo-se das agressões da França e das invasões dos turcos.

2.º Os anos 1519-1525 representaram o ponto culminante da Reforma, na medida em que o movimento evangélico suscitou também o entusiasmo popular que encontrava nas idéias luteranas a base para sustentar suas reivindicações (revolução dos cavaleiros, dos anabatistas e dos camponeses). Mas o movimento escapou das mãos do reformador e a anarquia e o caos alastraram-se pela Alemanha. Lutero, que inicialmente reconhecera como justas muitas reivindicações dos camponeses, depois exortou os príncipes a sufocar a rebelião em sangue(1525). Essa aliança com os príncipes acarretou-lhe uma grande perda de popularidade. Foi um momento crucial para Lutero que, embora sabendo dos perigos ao encontro dos quais caminhava, acabou reconhecendo no príncipe e no Estado o apoio de que sua reforma tinha necessidade. Com a sujeição do movimento ao poder civil, a renovação interior da Igreja por ele pregada recebia um duro golpe.

A partir de 1524, começou a divisão política e confessional da Alemanha, segundo o princípio posteriormente aprovado na Paz de Augusta entre protestantes e católicos (1555): "Cuius regio, eius et religio"("Quem manda na região, manda também na religião", isto é, os súditos devem seguir a religião do príncipe). Nesses anos, foi criada a palavra "protestante", quando um grupo de príncipes e de cidades protestaram contra a decisão do imperador Carlos V de revogar uma decisão anterior (primeira Dieta de Espira em 1526), que dava aos príncipes a liberdade de aderirem ou não ao movimento da Reforma (segunda Dieta de Espira em 1529). Houve também profundas mudanças da liturgia, nas comunidades e nas Igrejas territoriais evangélicas. Muitos conventos ficaram vazios, muitos frades, freiras e padres diocesanos casaram.

3.º Na Dieta de Augusta (1530), os luteranos apresentaram sua profissão de fé (Confissão Augustana), que assumiu para a Igreja luterana o valor de um símbolo de fé. A Igreja católica replicou, mas a conseqüência de tudo foi simplesmente a constatação de que a divisão era um fato consumado e irreversível. Com efeito, os Estados evangélicos formaram, em 1531, a Liga de Esmalcalda, sinal de que a Alemanha setentrional tornara-se quase totalmente luterana. Houve também tentativas de reconciliar algumas divergências doutrinais, que tinham surgido dentro do próprio movimento evangélico, mas sem êxito. O imperador Carlos V conseguiu dominar a oposição protestante, derrotando a Liga de Esmalcalda em Mühlberg (1547), mas essa vitória militar contra um movimento espiritual não deu nenhum resultado.

4.º O Concílio de Trento, convocado pelo papa em 1536 e iniciado só no final de 1545, chegou tarde demais para restabelecer a unidade da Igreja. A Paz de Augusta (1555) não tinha outra alternativa senão a de reconhecer a situação existente naquele momento, sancionando a divisão da Alemanha, segundo a geografia religiosa. A Reforma dividiu-se em duas tendências - luterana e calvinista - que se combateram constantemente e de forma acentuada. O período de 1555 a 1648 representou o ponto culminante do absolutismo confessional.

Em resumo, quem tomou conta das Igrejas foi mais uma vez o poder político: na qualidade de "summus episcopus"(bispo supremo), assistido por representantes eclesiásticos, estava o príncipe. Essa função do soberano permaneceu na Alemanha evangélica, até a queda do imperador, em 1918.

5.º Uma reforma marcada pelo humanismo bíblico e fortemente politizada foi introduzida na Suíça por Zwinglio e influenciou as regiões da Alemanha meridional, mas foi logo absorvida pelo calvinismo. Este, muito mais importante, iniciou-se em Genebra, na Suíça de língua francesa, espalhou-se pela França e por outros países europeus (Inglaterra, Escócia, Hungria, Polônia, Holanda e também por muitos territórios e cidades da Alemanha). Calvino deu ao seu movimento de reforma um caráter "presbiteriano-democrático", frisando quatro ministérios eclesiais (pregador, doutor, ancião, diácono) e introduzindo uma rigorosa disciplina eclesiástica. A Igreja "reformada" ou "presbiteriana" acabou se transformando numa poderosa força política. Um pouco mais tarde, tornou-se uma Igreja militante internacional, protagonista no desenvolvimento cultural e econômico nos países onde se instalou.

O resultado final do movimento da Reforma não foi o restabelecimento do cristianismo das origens, mas uma de suas mais dolorosas divisões. Da única Igreja de Cristo surgiram várias Igrejas que combatiam duramente no campo confessional com a Igreja católica e entre si, provocando graves conseqüências ao longo desses últimos séculos. Todas as tentativas de reconciliação não tiveram êxito.

Somente no séc. XX acordou, em todas as Igrejas cristãs, a consciência da pertença comum e a aspiração de todos os cristãos para formar uma autêntica fraternidade na única Igreja de Cristo.

A doutrina essencial do processo da Reforma

Podemos dizer que a doutrina comum e fundamental sustentada pelos três grandes reformadores - Lutero, Zwinglio e Calvino - apresenta resumidamente três dimensões: a prioridade das Escrituras, a justificação pela fé e o sacerdócio universal dos fiéis.

A prioridade das Escrituras. Para as Igrejas surgidas da Reforma, o conjunto de textos do Antigo e Novo Testamento - as Escrituras - representam a única autoridade em matéria de fé, isto é, toda verdade em que acreditamos deve estar contida neles.

A Escritura é uma mensagem de Deus para nós: ela narra o encontro misterioso de Deus com seu povo, o povo escolhido, ou seja, o povo judeu e agora, a Igreja, o novo povo de Deus. Narra também a encarnação de Deus em Jesus Cristo morto e ressuscitado e deixa transparecer a verdade e a justiça do Criador.

Se a Escritura é mensagem de Deus, cada um pode e deve se alimentar dessa Palavra.

Para ajudar as pessoas a ler e a entender a Bíblia, o Espírito Santo dá, segundo o pensamento de Lutero, seu testemunho interior, iluminando as mentes e dirigindo os corações dos fiéis, sem a necessidade da interpretação da Igreja: é o princípio do "livre exame" da Palavra de Deus.

É preciso reconhecer que Lutero teve grandes méritos no que se refere à divulgação da Palavra de Deus: de um lado, ele estimulou sua leitura no meio do povo, do outro, os estudos para um conhecimento cada vez mais aprofundado dos textos sagrados.

Uma parte da Bíblia foi escrita em hebraico, outra, em grego e, mais tarde, foi traduzida para o latim. Até a Reforma, ela só podia ser lida nessas línguas e, portanto, poucas pessoas tinham acesso direto à Palavra de Deus. O povo podia conhecê-la apenas através das homilias e da catequese. Assim, a primeira coisa que os reformadores fizeram foi traduzir as Escrituras para torná-las acessíveis a todos visto que, segundo eles, essas não necessitam de intermediários para serem compreendidas.

Com efeito, os reformadores recorrem ao testemunho da Bíblia para interpretar os acontecimentos vividos pelo povo de Deus ao longo do tempo, mas procurando fugir de um perigo: o de pensar que precisamos entender tudo o que está na Bíblia ao pé da letra, como se ela fosse um código definitivamente fixo e imutável. Uma palavra, uma frase e certas comparações podem ter, agora, alguns milhares de anos depois, um significado diferente do que tinham quando foram escritas. É preciso buscar o verdadeiro significado do que se encontra na Bíblia para entender o que o autor quis dizer quando escreveu um determinado texto.

É assim que Lutero entendia que a Bíblia devia ser interpretada, é assim que os católicos pensam também.

Algumas seitas, que se chamam cristãs e que vieram muito tempo depois da Reforma, tendem a interpretar cada palavra da Bíblia ao pé da letra: é uma atitude perigosa que pode levar ao fundamentalismo e ao radicalismo.

Por isso, o movimento da Reforma introduziu o princípio do estudo da Palavra de Deus à luz da pesquisa crítica, histórica, lingüística e teológica.

Para a Igreja católica e ortodoxa, a Tradição também é um critério para julgar a veracidade da fé cristã. Quando falamos em Tradição, entendemos as obras dos escritores cristãos da Igreja primitiva (época patrística), as definições dos concílios (reuniões gerais de todos os bispos convocadas pelo papa), o ensinamento oficial da Igreja (Magistério) e a fé do povo. Isso quer dizer que a Igreja católica e a ortodoxa não se baseiam somente na Sagrada Escritura para fundamentar as verdades da fé, mas também nas outras fontes.

Lutero não aceitou a Tradição. Numa atitude polêmica contra a Igreja católica, considerou a Bíblia como único critério sobre o qual se baseia nossa fé. Por exemplo, analisando os sete sacramentos a partir das bases bíblicas, ele chegou à conclusão de que só o Batismo e a Ceia (Eucaristia) estão em conformidade com a Escritura e que todos os outros foram instituídos pela Igreja.

A justificação pela fé. A doutrina da justificação pela fé, uma das causas da ruptura de Roma com Lutero e de Lutero com Roma, segundo interpretação dos reformadores, decorre essencialmente do pensamento de são Paulo, sobretudo na Carta aos Romanos. Lutero quis realçar o fato de que a salvação não seria fruto da conquista do homem mediante suas obras, mas dom do amor de Deus. Isso poderia levar à conclusão de que não adianta esforçar-se para fazer o bem e conseguir a salvação eterna, pois a sorte de cada um já estaria determinada por Deus, independentemente do fato de a pessoa agir bem ou mal nesta vida.

Basta aceitar, diz Lutero, Cristo como Salvador, isto é, basta crer com confiança que Deus Pai, em vista dos méritos de Jesus, não leva em conta os pecados do indivíduo: assim, a fé confiante faz com que Deus nos recubra com o manto dos méritos de Cristo, declarando-nos justos. A doutrina da justificação pela fé não nega que as boas obras tenham seu valor, mas nega que influam na salvação, pois não passam de sinal da fé e de ato de culto que o homem presta a Deus. Não podemos esquecer o fato de que a intuição reformadora da justificação pela fé surgiu de uma experiência pessoal de Lutero que, em sua crise espiritual, buscava um Deus misericordioso que salva apenas por um ato de sua bondade infinita.

Podemos lembrar também algumas afirmações de Lutero sobre as quais se baseia a doutrina da justificação:

Anatureza humana está radicalmente corrompida pelo pecado original;
A vontade humana não pode fazer nada para alcançar a salvação;
A má inclinação e a tendência ao mal, no homem, não podem ser eliminadas;
O processo de salvação está relacionado unicamente com a fé.

Se é Deus quem faz tudo, se a vontade humana nada pode fazer e se as obras do homem não servem para alcançar a salvação, Lutero conclui que não é necessário nenhum sacerdócio, nem conventos nem votos religiosos, pois estes não passam de instituições em que o homem ocupa um lugar que seria de Deus.

Tudo isso foi o principal instrumento de luta contra os abusos e as deformações do cristianismo da época e, particularmente, contra a cúria romana e o papado que o reformador identificava com o anticristo.

Toda essa polêmica visava a reconduzir a Igreja a uma renovação e a uma reforma que levasse a viver a vida cristã com mais seriedade e profundidade, visto que, muitas vezes, esta se reduzia a meros gestos exteriores e sem vida. Além do mais, Lutero queria dar destaque e importância a Deus e a Jesus Cristo, em oposição às tendências da época - o Renascimento - que valorizava demais as capacidades intelectuais humanas. Tanto Lutero como todos os outros reformadores proclamaram que somente Deus, por uma graça absolutamente gratuita, oferece aos homens a salvação que não pode ser 'comprada' nem 'merecida', em vista do que fizemos de bom na vida, mas que é dada a quem tem fé, isto é, àquele que aceita que somente Deus pode salvar. Em outros termos, não seria necessário que o homem tivesse um bom comportamento para ser amado por Deus, basta que o tenha porque ele é amado por Deus! Portanto, a doutrina da justificação pela fé opõe-se a toda tentativa de obedecer às leis, à moral e de fazer o bem, práticas vistas como meios que garantem a salvação. Devemos fazer isso, sim, mas de maneira desinteressada, como resposta ao amor de Deus por nós.

O sacerdócio universal dos fiéis. As Igrejas da Reforma não se apresentam como uma instituição imutável.

Para elas, é natural evoluir, transformar-se e enriquecer-se de novas perspectivas.

Com efeito, a Igreja existe em conformidade com a Palavra de Cristo: "Onde dois ou três estiverem reunidos em meu nome, eu estarei no meio deles" (Mt.18, 20).

Isso significa que a Igreja - organização humana e, portanto, falível - não pode ser considerada, pelos reformadores, como intermediária entre Deus e os fiéis: ela é simplesmente o espaço e o tempo reservado ao anúncio da Palavra de Deus.

Para o protestante, entre o homem justificado pela fé e Deus, não há sacerdote a não ser Jesus, que está nos céus, e não há outro mestre a não ser o Espírito Santo, que fala nas Escrituras e no coração de cada um.

Os pastores, nas Igrejas da Reforma, não são sacerdotes: eles não possuem nenhum poder especial que os distinga dos leigos. Esses, teoricamente, podem realizar as mesmas funções, todas as vezes que houver necessidade, ou que a autoridade o peça. Lutero, ao falar do sacerdócio de todos os fiéis, afirmou, em 1520, que "todos os cristãos batizados podem gloriar-se de ser padres, bispos e papa", embora nem sempre seja conveniente que isso aconteça. Com isso, Lutero quis mostrar que todos os leigos são chamados a participar ativamente da vida da Igreja.

A Igreja anglicana

O movimento reformador de Lutero não foi o único daquela época. Também na Inglaterra, quase na mesma época, mas por outros motivos, houve uma revolta contra a Igreja católica que levou à separação entre Roma e Cantuária (sé do arcebispo primaz da Igreja anglicana).

É freqüente ver nessa ruptura apenas a conseqüência das paixões de Henrique VIII da Inglaterra. O rei, que havia sido declarado "defensor da fé" pelo papa Leão X, pediu a anulação do seu casamento com Catarina de Aragão, mas o pontífice não a concedeu. Assim, em 1534, Henrique VIII deixou de reconhecer a autoridade papal e separou-se da Igreja católica. Considerar esse como o único ou, praticamente, o mais importante fator da separação da Igreja inglesa de Roma é fruto de uma mentalidade simplista que desconhece a história. Na separação, influiu e muito também o caráter particularista do povo inglês, o seu desejo de independência ou, pelo menos, de grande autonomia.

O Prayer Book (Livro da Oração Comum) da Igreja anglicana afirma que eles se consideram "uma Igreja católica para toda a verdade de Deus e protestante contra todos os erros dos homens". A Igreja anglicana não reconhece a autoridade do papa e distancia-se de Roma a respeito de algumas questões de doutrina. No entanto, conserva vários elementos católicos, como os sacramentos, os ritos litúrgicos e o conceito de hierarquia, baseado nas figuras do padre e do bispo; ao mesmo tempo, introduz alguns elementos característicos da Reforma Protestante, como a abolição das ordens religiosas, o casamento dos padres e o lugar central da Bíblia nas celebrações religiosas.

Na Igreja anglicana distinguem-se a High Church (literalmente Igreja Alta, "anglo-católica" muito próxima ao catolicismo), e a Low Church, (Igreja Baixa, com muitos elementos protestantes, praticamente "evangelical").

Todavia, trata-se de uma única Igreja. Numa mesma diocese, encontramos paróquias com traços acentuadamente católicos e outras com expressões mais evangélicas, porém, ambas em plena comunhão com o bispo local.

No mundo inteiro, existem 34 províncias ou Igrejas nacionais em plena comunhão com a Sé de Cantuária. Por isso, o arcebispo de Cantuária é o símbolo da unidade Anglicana. As Igrejas da Unidade Anglicana estão interligadas por laços de afeição e lealdade comum. Em cada país, cada província tem um nome próprio.

Ex. : em Portugal, Igreja evangélica católica lusitana; na Espanha, Igreja episcopal reformada; na Inglaterra, simplesmente Igreja da Inglaterra e no Brasil, Igreja episcopal anglicana do Brasil.

Atualmente, existe uma comissão de alto nível, nomeada pela Santa Sé e pela Sé de Cantuária, que se reúne periodicamente e que vem produzindo vários documentos, mostrando os pontos de convergência entre as comunhões romana e anglicana.

Desde a década de 60, o arcebispo de Cantuária tem mantido encontros com o papa. Vale lembrar que, quando João Paulo II esteve na Inglaterra, visitou a catedral de Cantuária.

A Igreja metodista

Pela iniciativa de John Wesley (1703-1791), pastor anglicano formado pela Universidade de Oxford, surgiu, nos meados do século XVIII, outro movimento de renovação religiosa.

Suas características espirituais marcantes são: estudo metódico da Bíblia (daí o nome de "metodista"); horas fixas reservadas diariamente à oração; participação quotidiana da santa Ceia e prática de obras de caridade.

Quando a Igreja Anglicana proibiu a John Wesley de pregar em seus templos, ele começou sua pregação itinerante ao ar livre, dirigindo-se principalmente às massas proletárias provenientes da incipiente Revolução Industrial. Do ponto de vista espiritual, o movimento metodista exigia conversão e mudança radical de estilo de vida. No aspecto social, organizava "cruzadas" contra a escravidão, o alcoolismo, a prostituição e promovia obras assistenciais em favor das vítimas de calamidades sociais. O movimento não chegou a formar uma Igreja separada da anglicana, embora conservasse, de forma simplificada, a mesma riqueza litúrgica. Mais do que doutrina, o metodismo acentua a vida prática e a experiência religiosa.

Wesley morreu como presbítero, em plena comunhão com a Igreja anglicana. Só anos após sua morte é que seus seguidores romperam com a Igreja da Inglaterra. Hoje, porém, existe um forte movimento trabalhando para a união de metodistas e anglicanos.

O movimento anabatista

Para muitos protestantes do século XVI, a Reforma não pareceu bastante radical. Outro grupo,denominado "anabatista", visava a uma renovação da Igreja até às conseqüências mais extremas.

Queriam seus idealizadores uma Igreja espiritual, sem hierarquia visível e constituída exclusivamente por pessoas cuja adesão à Palavra de Deus fosse plenamente consciente. O batismo, portanto, deveria ser ministrado só aos adultos e não às crianças. Todo fiel que quisesse aderir a esse movimento, deveria ser rebatizado. Daí, o nome de "anabatistas" ou "rebatizadores".

Pregavam eles uma total independência frente às autoridades civis; queriam viver separados do "mundo". Alguns isolaram-se pacificamente para fundar suas comunidades; outros enfrentaram violentamente a autoridade civil, considerada corrupta e perseguidora. Em 1534, um grupo ocupou a cidade de Münster, na Alemanha, matando os adversários do regime político e denominando a cidade "Nova Jerusalém". No ano seguinte, a cidade foi ocupada pelas tropas fiéis ao governo e toda a população masculina foi massacrada.

A partir dessa data, os anabatistas foram sempre perseguidos, contudo, uma parte deles, relacionada com o calvinismo holandês, organizou-se nas comunidades dos menonitas, assim chamados por causa de seu fundador, Menno Simons. Eles também só aceitavam o batismo de adultos, mas eram pacíficos e reconheciam a autoridade civil, desde que não lhes impusesse obrigações em oposição à Palavra de Deus.

A Igreja batista

O pastor anglicano inglês John Smyth (1570-1612) é considerado fundador das primeiras comunidades denominadas "batistas". Também ele queria uma reforma mais radical e não se conformava com a organização hierárquica da Igreja anglicana, isto é, com o fato de bispos e padres ocuparem os lugares de comando. Perseguido por suas idéias, teve que se refugiar na Holanda. Lá encontrou um padeiro menonita que o convenceu da não validade do batismo ministrado às crianças. Ele mesmo se batizou novamente e, voltando à Inglaterra, fundou a Igreja batista que, no século XVIII, estabeleceu-se sobretudo nos Estados Unidos, espalhando-se, em seguida, pelo resto do mundo.

Características típicas dessa religiosidade viva, que constantemente apela para uma decisão e um compromisso pessoal, são:

Batismo dos fiéis como testemunho de fé e sinal da graça divina;
Sacerdócio universal dos fiéis, sem qualquer distinção entre pastores e leigos;
Estrutura eclesial que afirma a autonomia da comunidade local;
Negação de todo ritualismo, para deixar espaço à religiosidade espontânea e individual.

A Igreja adventista do sétimo dia (ou sabatistas)

O termo "adventista" decorre de uma doutrina fundamentada sobre a espera da volta de Cristo à terra para proclamar o "fim dos tempos". O movimento surgiu nos Estados Unidos com a pregação de um batista, William Miller (1792-1849), que havia profetizado que Jesus viria em 1844. A profecia não se realizou e os seguidores de Miller dividiram-se em vários grupos, sendo que o mais importante assumiu a denominação de "adventistas do sétimo dia". Além de estabelecer o sábado como "Dia do Senhor", esse movimento pratica o princípio bíblico do dízimo, está relacionado com o movimento milenarista que coloca no centro de seu interesse o retorno de Cristo para os últimos tempos, reconhece a autoridade da Bíblia, o dogma da Trindade, mas tem uma concepção peculiar quanto à ressurreição dos mortos e ao reino de Deus. Proíbe o uso de álcool, cigarro e carne de porco e promove um tipo de vida natural. Essa Igreja possui muitas clínicas e casas de repouso onde seus princípios são aplicados.

Movimentos colaterais à Reforma

Entre as correntes religiosas da época, podemos lembrar a dos antitrinitários, chefiados por Miguel Servet, o qual foi condenado à fogueira em 1553, em Genebra, por Calvino.

Não podem ser consideradas parte integrante do protestantismo os movimentos pseudo-cristãos: mórmons, testemunhas de Jeová, Igreja universal do Reino de Deus, os meninos de Deus.

Conclusão

Os objetivos da Reforma acabaram também sendo instrumentalizados pelo poder político. A tão proclamada liberdade do Evangelho e de seus pregadores, em pouco tempo, foi fechada dentro de um sistema de Igrejas de Estado ou de Igrejas nacionais, sob controle dos príncipes.

A partir da intuição e do desejo de reforma e de renovação do cristianismo e da Igreja, surgiram muitas Igrejas cristãs e novos movimentos religiosos, com diversas e diferentes confissões de fé. O luteranismo, o calvinismo e o anglicanismo foram as principais Igrejas dentro de um movimento complexo e diversificado.

Para a Igreja católica, tudo isso representou uma das mais amargas experiências de sua história. A Europa setentrional, de cultura germânica, e muitas outras regiões européias separaram-se da antiga Igreja. Nas Igrejas territoriais evangélicas, foi suprimido todo elemento católico. Houve muita desconfiança, luta, incompreensão entre as Igrejas cristãs e só mais tarde, a partir do movimento filosófico chamado Iluminismo, abriu-se o caminho da tolerância recíproca entre elas.

Aos poucos, percebeu-se também que é preciso algo mais que a simples tolerância.

Neste século, diante da constatação da existência de várias Igrejas que querem ser cristãs, começou a surgir esta preocupação: como eliminar as barreiras e os preconceitos para chegar a uma convivência pacífica e até a uma verdadeira amizade entre os cristãos? Já no século passado, na Europa, com o movimento de Oxford buscava-se a união das Igrejas. E no começo deste século, as igrejas de tradição evangélica deram início ao movimento ecumênico que as levou, mais tarde, a fundar o Conselho Mundial de Igrejas. O próprio papa João XXIII falou em "encontrar-se para conhecer-se e conhecer-se para amar-se". O movimento ecumênico conseguiu sensibilizar os católicos, especialmente após o Concílio Vaticano II (1963-1965).

Antes, já se falava dos protestantes como irmãos separados, mas se pensava assim: eles, que saíram da Igreja, devem voltar e então, haverá unidade.

Agora, pensamos assim: todas as Igrejas cristãs devem fazer uma boa reflexão para ver se são totalmente fiéis ao ensinamento de Cristo e se aceitam todo o Evangelho ou só em parte. Esse exame de consciência, essa conversão a Cristo, que todos os cristãos devem fazer, são condições iniciais e indispensáveis para que se possa continuar o discurso sobre unidade entre os cristãos, eliminando, aos poucos, as barreiras e as incompreensões.

Na Igreja católica, depois do Concílio, houve, com efeito, profundas mudanças na liturgia, no relaçionamneto da Igreja com o mundo, com as outras Igrejas e religiões, com as ideologias não religiosas e até com o ateísmo. A perspectiva atual das Igrejas cristãs não é mais de desconfiança ou de condenação, mas de positiva e recíproca compreensão, na acolhida de novas idéias e experiências.

Fonte: www.pime.org.br

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