Todos são loucos: médicos, alquimistas, advogados, negociantes, artistas, sábios, gramáticos, filósofos, matemáticos, astrólogos, teólogos, monges, príncipes, cardeais, bispos, o papa e até os loucos propriamente ditos. Como se brincasse a sério, Erasmo vai retratando os tipos humanos da sua época, denunciando-lhes a mediocridade e a hipocrisia.
A crítica maior recai sobre a Igreja, a sua hierarquia e suas instituições. Que loucura é essa que faz os teólogos discutirem eternamente as sutilezas sobre o mistério divino ou que, em nome de Cristo, leva a Igreja a acumular riquezas e a declarar guerra aos infiéis? Para que tantos rituais, tantas cerimônias quase teatrais, se o mandamento de Cristo é tão-somente a "a prática da caridade?
Com essas considerações, Erasmo propõe o "retorno da Igreja à simplicidade dos tempos iniciais, num sentido muito próximo às pregações de Lutero que, por essa época, iniciava a Reforma protestante. Não se liga, contudo, a esse movimento: prefere permanecer na Igreja Católica, servindo-lhe de consciência crítica. É como o bobo da corte, que diz a verdade aos reis, chegando até a "insultá-los, a injuriá-los, sem que esses senhores do mundo se ofendam por isso ou se aborreçam", pois "só aos loucos os deuses concederam o privilégio de censurar e moralizar sem ofender a ninguém.
Francesco Petrarca (Pai dos Humanistas): Canzonieri;
G. Boccacio: Decameron;
Giotto: O Juízo Final.
Masaccio: A expulsão de Adão e Eva do Paraíso;
Botticelli: Nascimento de Venus;
Leonardo da Vinci: Virgem das Rochas, A última ceia, Monalisa
Ludovico Ariosto: Orlando Furioso;
Torquato Tasso: Jerusalém Libertada;
N. Maquiavel: O Príncipe;
Rafael Sanzio: A Escola de Atenas;
Michelangelo: afrescos da Capela Sistina, esculturas (Moisés e Pietá).
Rabelais: Gargantua e Pantagruel;
Montaigne: Ensaios;
Thomas Morus: A Utopia;
Francis Bacon: Novum organum;
W. Shakespeare: Ricardo III, Júlio César, Hamlet, Macbeth, Rei Lear;
Erasmo de Roterdã: Elogio da Loucura;
Miguel de Cervantes: Dom Quixote;
El Greco: Enterro do Conde de Orgaz;
Gil Vicente: Auto da Barca do Inferno;
Camões: Os Lusíadas.
"E me parece que na nossa lei, o papa, os cardeais, os padres são tão grandes e ricos, que tudo pertence à Igreja e aos padres. Eles arruínam os pobres". Quem assim fala é Menocchio, aliás, Domenico Scandella. Não é nenhum homem cultivado, mas um humilde moleiro da aldeia de Montereale, norte da Itália. Leu apenas um punhado de livros populares, e disso tirou surpreendentes conclusões. Denunciado à Inquisição, foi executado numa data incerta, entre 1599 e 1601. Quem haveria de se preocupar com o ano preciso da morte de um pobre aldeão e, pior, herege?
O caso de Menocchio, recuperado à memória pelo historiador italiano Carlo Ginzburg em seu livro O Queijo e os Vermes, é excepcional. Não é representativo da cultura popular da época, mas também revela que já era possível elaborar drásticas críticas à Igreja, mesmo sendo um homem sem estudo. A sensação de que a Igreja oprime e que é preciso reformá-la estava no ar. E mais: em outras partes da Europa, a Reforma estava em pleno curso.
A idéia de reformar o cristianismo e os movimentos dissidentes que dela resultam não são novos: fazem parte da história da Igreja. Mas foi a partir do Cisma do Ocidente, nos séculos XIV e XV, colocando em questão a autoridade do próprio papa, que a desagregação da Igreja passou a acentuar-se cada vez mais.
Na Inglaterra, John Wyclif (c. 1320-1384), teólogo de Oxford, vê no Cisma do Ocidente a ocasião para a Igreja se livrar do papa. Considera absurda a pretensa supremacia do papado sobre o poder temporal e chega a questionar a sua ascendência mesmo no terreno espiritual. Também investe contra a hierarquia eclesiástica, considerando que a Igreja é antes de tudo a assembléia invisível dos cristãos e não os diferentes níveis de poder dos padres, dos bispos e do papa, visíveis até em suas vestes.
Influenciado por essas idéias, o padre João Huss (1369-1415), da Boêmia, na atual Tchecoslováquia, também critica a hierarquia da Igreja, considerando o papado como uma instituição meramente humana. Excomungado por pregar tais concepções, Huss foi ao Concílio de Constança afim de se defender. Mas condenado juntamente com a doutrina de Wyclif, Huss foi queimado vivo.
Todos esses movimentos, cujas idéias seriam retomadas pela Reforma protestante, representam o anseio dos cristãos por uma participação mais ativa na vida religiosa, a começar pelo acesso à leitura da Bíblia, até então só disponível em latim. Wyclif e Huss, além de incentivarem a tradução do livro sagrado, propõem várias outras medidas para valorizar os fiéis leigos, de modo que diminuísse a distância que os separava dos sacerdotes.
Essas doutrinas também são a maneira como se manifestam certos interesses políticos. Wyclif, no início, recebe o apoio da coroa inglesa, pois as suas críticas ao papado prestam-se à afirmação da autoridade do rei contra as pretensões da Igreja de controlar o poder temporal. De fato, tal separação entre a monarquia inglesa e o papado seria consumada no século XVI, por meio de um sutil subterfúgio: o divórcio do rei Henrique VIII para casar-se com Ana Bolena. Excomungado em 1534, o rei logo se fez proclamar chefe de uma nova Igreja, a anglicana, que, no entanto, pouco alteraria os dogmas e os rituais católicos.
O sentimento de emancipação nacional também anima os seguidores de Huss. Logo após a execução deste, eles se revoltam contra o papado e o domínio imperial, e conseguem a adoção da sua seita como religião oficial da Boêmia.
Mas a ala radical dos hussitas foi mais longe: prega não apenas a reforma religiosa e a emancipação nacional, mas também a transformação de toda a sociedade. Do mesmo modo, na Inglaterra, as pregações de Wyclif motivam, em 1381, Uma rebelião dos camponeses de Essex. Só então a coroa inglesa deixaria de sustentar as suas doutrinas, a fim de obter o apoio da Igreja à repressão ao movimento.
Esses exemplos revelam, assim, uma outra dimensão das doutrinas de Wyclif e Huss: retorno à mensagem simples do Evangelho, fim da hierarquia, maior participação dos leigos - todos esses ideais reformadores liberam os desejos de justiça, igualdade e liberdade. E, com isso, surge uma nova noção: a do direito à resistência contra a dominação e a opressão.
"Por que o papa não deixa vazio o purgatório num ato de santíssima caridade ( ...), se com o funesto dinheiro destinado à construção da Basílica de Roma ( ...) redime infinitas almas?". O violento ataque é de Lutero e consta das suas "95 Teses", que afixou na porta da igreja da cidade alemã de Wittenberg, em 1517. O alvo da crítica é basicamente a venda de indulgências - que livrariam os fiéis das penas do purgatório -para arrecadar os fundos da construção da Basílica de São Pedro.
O ponto de partida da Reforma é, aparentemente, a denúncia desses abusos da Igreja. Mas Lutero também escreve: "Que crimes, que escândalos, que fornicações, estas bebedeiras, esta paixão pelo jogo, todos estes vícios do clero! (...) São escândalos muito graves (...). (...) Mas, ai!, há outro mal, outra peste, incomparavelmente mais malfazeja e mais cruel: o silêncio organizado quanto à Palavra da Verdade, ou a sua adulteração ( ...)". A divergência com a Igreja é, portanto, mais profunda, e se Lutero insiste na questão dos abusos é porque esse é o meio mais eficaz pára impressionar o público e conquistar a sua adesão.
Ganhar adeptos é, para Lutero, crucial. Não apenas para fortalecer a sua posição, mas principalmente porque levar a "Palavra da Verdade" a todos é a própria função do sacerdote. É também transformar todos os homens em sacerdotes, pois a vida religiosa depende unicamente da consciência individual de cada um. Segundo essa concepção de "sacerdócio universal", a hierarquia da Igreja deve ser abolida não tanto por cometer abusos. É porque não há intermediários entre o homem e Deus.
O individualismo religioso de Lutero é uma reação ao forte enraizamento social da Igreja, que progressivamente foi adotando padrões mundanos de organização. Isso em certo sentido se explica pelas necessidades políticas do papado, que passa a ressaltar os rituais e as aparências em detrimento do conteúdo sobrenatural da religião. A crítica de Lutero contém uma nostalgia das comunidades cristãs primitivas, que, interpretada por seus seguidores, resultaria logo em conflitos de ordem política, dada a estreita relação entre o poder temporal e o religioso, característica comum da época.
Com Karlstadt (c. 14:80-154:1), companheiro de Lutero na Universidade de Wittenberg, a contestação religiosa transforma-se em desobediência política e em tumultos generalizados. Estes só seriam contidos pela intervenção direta de Lutero, que condena qualquer tentativa de modificar a ordem estabelecida.
As insurreições, no entanto, eclodem por todos os lados. Thomas Munzer (c. 14:89-1525) prega o rompimento com todos os valores deste mundo para nele instaurar, aqui e agora, o reino de Deus. Isso se manifesta na recusa ao batismo das crianças (anabatismo), liberando-as de quaisquer compromissos, religiosos ou civis, com a ordem existente. Para Munzer, a insurreição contra os ricos e poderosos, que ocultam o verdadeiro significado do Evangelho, é um direito legítimo e sagrado.
Essas idéias revolucionárias desembocam, em 1525, nas chamadas "guerras camponesas", principalmente nas regiões da Saxônia e da Turíngia. Nelas, os camponeses levantam-se não só contra a hierarquia da Igreja, mas também pelo fim da opressão e da servidão; e chegam a tomar o poder em várias cidades. Mas Lutero intervém novamente, exortando os nobres alemães à repressão: "Aqueles que têm condições devem abater, matar e apunhalar ( ...), lembrando-se de que não há nada mais venenoso, pernicioso e diabólico do que um sedicioso".
Munzer foi preso, torturado e executado. A Reforma luterana seguiu os caminhos que havia criticado, tornando.se uma igreja institucionalizada, aliada dos poderosos de Estados alemães que a adotaram. Mas avia escolhida por Miinzer também floresceria em esperanças, continuamente frustradas, e, no entanto, sempre renovadas. Pois ele prometera: "O Povo será livre e somente Deus reinará sobre ele".
A Alemanha, na época de Lutero, "é um palco propício para a propagação de suas idéias. Embora formalmente pertencente ao Sacro Império Romano-Germânico, ela é antes um mosaico de Estados e cidades que buscam afirmar a sua soberania. Isso se traduz também nos anseios de rompimento com o papado, que cobra mais e mais tributos desses Estados. Nestes, os cavaleiros - representantes da pequena nobreza - opõem-se aos grandes proprietários, cuja grande maioria é formada de membros da Igreja. Por fim, na parte mais baixa da hierarquia social, os camponeses ainda se encontram submetidos' aos laços medievais de servidão, que lhes impõem pesadas obrigações .
Nesse ambiente, as propostas de Lutero pelo (sacerdócio universal" dão forma e expressão aos diversos anseios que se entrecruzam na sociedade alemã. Não que a sua pregação fosse um mero disfarce de interesses políticos, sociais e econômicos. A Reforma é fundamentalmente de natureza religiosa, e o que leva Lutero às suas obstinadas pregações são as questões da fé e da salvação.
Martinho Lutero nasceu em 1483, em Eisleben, na Turíngia. Estudou na Universidade de Erfurt e, em 1505, ingressou na Ordem dos Agostinianos. Ordenado padre em 1507, tempos depois passou a lecionar na Universidade de Wittenberg. Ali conheceu Karlstadt, com quem formularia os primeiros elementos da teologia da Reforma.
Mas, quando a 31 de outubro de 1517 Lutero expôs publicamente as suas idéias nas "95 Teses", ele ainda não pensava em se separar da Igreja de Roma. Os acontecimentos, porém, tornariam inevitável o rompimento: enquanto suas idéias passam a ser amplamente discutidas, Lutero radicaliza as suas posições e, em 1520, queima em público a bula papal que o ameaçava de excomunhão - o que se consumaria no ano seguinte. Ainda em 1521, a
Dieta de Worms decreta o seu banimento do Império, mas Lutero, protegido pelo príncipe Frederico da Saxônia, refugia-se no castelo de Wartburg.
O retiro dura pouco: em 1522, Lutero volta a Wittenberg para combater e expulsar Karlstadte seus seguidores. Contra esses "agitadores" argumenta que a fé diz respeito à vida interior e que, em relação às autoridades constituídas, o homem deve obediência e submissão - concepção que iria desenvolver com maior veemência quando das "guerras camponesas". A Reforma mal se iniciava e já tinha a sua cisão.
Mas Lutero, ele mesmo, não havia ousado desafiar uma das mais tradicionais autoridades constituídas, chegando mesmo a conclamar os cavaleiros a confiscarem as propriedades da Igreja? Por trás dessa contradição encontra-se, na realidade, o principal elemento da sua teologia. Agostiniano, Lutero exacerba a doutrina de Agostinho, segundo a qual o homem só se salva mediante a graça divina, concedida apenas aos eleitos. No caso de Agostinho, ainda restava ao homem um pouco de liberdade (mesmo que seja a de pecar...), mas em Lutero a sua ausência é completa.
O "servo arbítrio", - expressão que dá título à obra de Lutero, de 1525, em que refuta violentamente a crítica a ele formulada por Erasmo em Sobre o Livre-Arbítrio - faz com que a salvação não dependa das ações do homem. Mais do que isso, buscar a salvação mediante a prática de boas ações é pecar, pois transfere presunçosamente para o âmbito humano o que cabe somente a Deus. Por isso a venda das indulgências é escandalosa: os papas negociam com esse poder que não lhes pertence. E se só Deus salva, para que os papas e toda a hierarquia da Igreja? O centro da questão não é "comercial" mas essencialmente teológico.
Com essa concepção pessimista do homem, tão oposta à do humanismo, Lutero formula a doutrina da "justificação pela fé": o homem não se justifica por seus atos -como a tentativa de transformar o mundo -, sempre exteriores, mas unicamente pela fé, esse sentimento íntimo. Resignado e com fé, ele deve esperar pela eventual graça divina: nisso consiste a liberdade do cristão.
Lutero morre em 1546. Por esta época, a sua doutrina já havia conquistado grande parte da Alemanha. O ponto de partida dessa difusão foi a desobediência, em 1529, de seis príncipes e catorze cidades alemãs, que protestaram (daí o nome de protestantes) contra a decisão do Império de reiterar o banimento de Lutero. A aliança entre esses príncipes e Lutero estava selada.
Desde então, a história do luteranismo é a de conflitos com os católicos e com outras seitas reformadoras e até no interior dos seguidores de Lutero. É também a história de sua institucionalização, com o estabelecimento de uma rígida doutrina. O resultado é a constituição de uma Igreja oficial, do Estado, que, pela fórmula cujus regia, eius religia ("a quem governa o país cabe impor a religião"), impunha a todos os súditos o seu culto. O ideal da Igreja invisível, unida unicamente pela fé, convertia-se em seu oposto.
Em todos esses fragmentos de Lutero, um único tema: a justificação pela fé, que dispensa as boas ações e outras manifestações exteriores.
"Senti-me tomado por um desejo estranho de conhecer Paulo na Carta aos Romanos; minha dificuldade consistia então (...) em uma única palavra que se acha no capítulo primeiro: "A justiça de Deus está revelada nele" [no Evangelho], Odiava a expressão justiça divina "que sempre aceitei (...) num sentido filosófico da chamada justiça formal e ativa, em virtude da qual Deus é justo e castiga os pecadores e injustos (...).
Até que por fim, por piedade divina, (...) percebi a concatenação das duas passagens: "A justiça de Deus se revela nele", "conforme está escrito: o justo vive da fé!. Comecei a me dar conta de que a justiça de Deus não é outra senão aquela pela qual o justo vive o dom de Deus, isto é, da fé, e que o significado da.frase era o seguinte: por meio do evangelho revela-se a justiça de Deus, ou seja, a justiça passiva, em virtude da qual Deus misericordioso nos justifica pela fé (...). Naquele momento senti-me um homem renascido e vi que se me tinham franqueado as comportas do paraíso. (. ..)
"(...) Li depois a obra Sobre o Espírito e a Letra, de Agostinho, onde, inesperadamente, constatei que também ele interpreta a justiça de Deus no mesmo sentido: a justiça com que Deus nos reveste ao justificar-nos,. e ainda que isso não esteja cabalmente expresso, (. ..) pareceu-lhe melhor ensinar-nos que a justiça de Deus é a justiça pela qual somos justificados". (Prólogo à edição latina de Obras Completas, 1545.)
"Isto esclarece por que a fé é tão potente e, do mesmo modo, como não existem boas obras que possam se igualar a ela. Nenhuma obra boa se atém à Palavra divina como a fé, nem há obra boa alguma capaz de morar na alma, mas unicamente a Palavra divina e a fé reinam na alma. (. ..) Vemos assim que ao cristão basta a sua fé, sem que precise de obra alguma para ser justo (. ..). Nisto consiste a liberdade cristã: na fé única que não nos converte em ociosos ou malfeitores, mas antes em homens que não necessitam de nenhuma obra para obter a justificação e a salvação." (A Liberdade Cristã, 1520.)
"Esta comunidade ou assembléia se aplica a todos os que vivem em uma fé, esperança e caridade verdadeiras, de maneira que a natureza da cristandade não é uma assembléia corporal, mas uma assembléia de corações em uma só fé. A cristandade é uma assembléia espiritual das almas em uma mesma fé, ninguém deve ser considerado cristão segundo o corpo, a fim de que fique claro que a cristandade essencial e verdadeira encontra-se no espírito e não em algo exterior" (Do Papado de Roma, 1520.).
O homem está predestinado, antes mesmo da criação do mundo. Ninguém pode auxiliá-lo: Igreja, sacramentos, sacerdotes, teólogos, intérpretes da Palavra. Nem mesmo a Palavra, pois só aos eleitos é dado compreendê-la. Deus, cujos desígnios são insondáveis, é, por isso, inatingível. O homem está só.
Essa concepção, que leva até as últimas consequências a doutrina luterana de "servo arbítrio", afasta-se por isso mesmo de Lutero. Formulada por Calvino, a teoria da predestinação implica a inutilidade das instituições religiosas e dos sacramentos, alguns dos quais Lutero havia preservado. A divergência maior situa-se em relação à eucaristia.. Calvino, assim como Zwínglio, que o precedeu, considera, ao contrário de Lutero, que a presença do corpo e do sangue de Cristo no sacramento do pão e do vinho é apenas simbólica Ao negar a realidade efetiva da eucaristia? Calvino expurga da religião o que, a seus olhos, ainda persiste de magia e superstição, que muitos acreditam serem meios de salvação. Também recusa a experiência mística, pela qual o homem entraria em comunhão com Deus. Para ele, Deus é a absoluta transcendência, inacessível à razão e ao sentimento humanos.
Com base nessas concepções, Calvino, instalado em Genebra, na Suíça, transforma essa cidade na "Roma dos protestantes". Dali partem incansáveis pregadores para todos os cantos da Europa, inspirando o surgimento, por exemplo, do presbiterianismo, fundado por
John Knox (1505-1572), na Escócia, e de várias seitas puritanas, na Inglaterra.
Mas Genebra é também a "Roma dos protestantes", porque é ali que Calvino organiza, a vida civil e política de acordo com a sua doutrina. Se Lutero recomendava obediência ao poder constituído, com Calvino, é a própria Igreja reformada que se transforma em autoridade, não só religiosa como também política.
À primeira vista, parece estranho que unia teologia que isola o homem na sua solidão tenha se prestado para organizar uma cidade. Isso, porém, é a consequência lógica da doutrina de Calvino. Para ele, o que está em questão não é a salvação - pois todos estão desde sempre ou eleitos ou condenados -, mas a glorificação de Deus, que não deve se restringir a um grupo de "especialistas", confinados em mosteiros. Se Calvino é contra a vida monástica é porque esta não deve ser exclusividade de alguns, mas o cotidiano de todos, mesmo dos predestinados à condenação. O ideal de "sacerdócio universal", chega ao limite: a sociedade inteira deve ser um grande mosteiro.
Por isso, cada homem deve executar os seus afazeres - e não apenas os religiosos -de modo laborioso para a glória de Deus, de quem é um instrumento. Não se trata de buscar a salvação pelo trabalho, nem de realizar uma "contabilidade" , em que um pecado pode ser redimido por um certo número de boas ações. Tampouco se permite um "relaxamento" para compensar urna obra bem realizada. A glorificação de Deus deve ser uma atividade permanente, sistemática e metódica - termo que, por sinal, daria nome à Igreja metodista, fundada por John Wesley (1703-1791), na Inglaterra.
Mas há quem trabalhe sistematicamente e é bem"sucedido; outros não. Para Calvino, isso deve ser um sinal de que o bem-sucedido é um dos eleitos, pois é por intermédio destes que Deus se glorifica melhor. O trabalho não é a causa da salvação, mas se um homem se torna rico pelo trabalho, é porque a riqueza conquistada é um indício - mas não a certeza – da sua salvação. Na prática, porém, a doutrina de Calvino seria entendida como uma permissão aos homens de buscarem, em nome da glória de Deus, a realização de seus interesses.
"Espírito do capitalismo": com essa célebre expressão, o sociólogo alemão Max Weber (1864-1920) caracteriza o significado social do calvinismo. Isto, porém, não significa que Calvino pretendesse organizar a sociedade capitalista, cujo surgimento sequer poderia imaginar. A sua intenção, como a de Lutero, é antes de mais nada a reforma da religião, como provam a sua vida e obra.
João Calvino nasceu em.1509, em Noyon, na região de Picardia (França). Estudou no colégio Montaigu, de Paris, cuja disciplina rigorosa havia, décadas antes, atormentado Erasmo de Rotterdam. Posteriormente, fez estudos jurídicos em Orléans e em Bourges, sendo nesse período convertido às idéias reformadoras. Mas, perseguido por tornar pública a sua adesão à Reforma, refugiou-se, em 1534, na Basiléia, Suíça, onde iria publicar a sua primeira versão de A Instituição Religiosa da Religião Cristã, sua principal obra.
Por essa época, na Suíça a Reforma havia conquistado adeptos em vários cantões. O eu principal líder era Ulrich Zwínglio (1484-1531), pregador de Zurique, que afirmava ser Cristo o único chefe da Igreja. Também negava o sacramento da eucaristia -motivo pelo qual fracassaria a unificação, tentada em 1529, entre o seu movimento e o de Lutero. Zwínglio morreu numa batalha entre tropas protestantes e católicas, após o que a liderança da Reforma suíça passaria a Calvino.
Em 1536, Calvino chega a Genebra, aceitando o convite de Guillaume Farei (1489-1565), que, influenciado por Zwínglio, havia iniciado a Reforma naquela cidade suíça. Calvino, eleito pastor e doutor da Igreja de Genebra, participa ativamente da consolidação da Reforma. Mas a disciplina rígida e austera que impõe à comunidade gera uma série de descontentamentos e Calvino é expulso da cidade em 1538, juntamente com Farei.
Três anos depois, porém, Calvino retorna a Genebra, e passa a governá-la na prática. Morre em 1564. O seu funeral, conforme recomendações por ele deixadas, realizou-se sem hinos nem discursos: para ele, atitudes desse tipo poderiam reavivar nos fiéis a crença supersticiosa em rituais e cerimônias como meios de se obter a salvação.
Quando da morte de Calvino, Genebra já é uma cidade organizada segundo o modelo formulado em suas Ordenanças Eclesiásticas, de 1541. Por esse documento, todos os cidadãos ficavam obrigados a prestar juramento de fidelidade à Igreja reformada. O governo político-religioso era exercido por um grupo de pastores nomeados entre si (isto é, não eleitos pelos fiéis) e pelo Consistório, um Órgão composto de pastores e de leigos.
Essas medidas; de certo modo, representam uma tendência oposta à de outras correntes reformadoras , que forneciam argumentos para a separação entre o poder espiritual e o temporal, ou, em termos práticos, entre o papado e os Estados nacionais. Mas,
para Calvino, o controle do poder civil é essencial para fazer valer os seus rigorosos preceitos de conduta moral e religiosa, como a proibição da dança, do teatro e de jogos de azar, mesmo porque essas regras devem ser aplicadas a todos, fiéis ou não, para a glorificação de Deus -a única preocupação de Calvino.
Por isso, o calvinismo, tanto quanto o catolicismo da época, foi bem intolerante, não poupando os adversários, que eram executados ou obrigados a fugir. Uma dessas vítimas foi o médico espanhol Michel Servet (1511-1553), autor de uma obra polêmica em que negava o dogma da Santíssima Trindade: reconhecido, quando da sua passagem por Genebra, foi preso e condenado à fogueira.
Estado eclesiástico, intolerância religiosa, moral rígida contrária ao prazer e à diversão, a doutrina da predestinação - todos esses elementos que constituem o calvinismo são, sob a ótica atual, estranhos ao capitalismo. De fato, para o surgimento e desenvolvimento deste não foram necessárias certas condições como a separação entre a Igreja e o Estado ou a liberdade de iniciativa? Por outro lado, porém, tanto calvinismo quanto algumas das outras correntes reformadoras (o pietismo, o metodismo e seitas batistas) inauguram uma concepção nova de vida e de homem, que rompe com a visão tradicional.
Como mostra Max Weber, todas essas correntes, apesar das suas diferenças teológicas e doutrinárias, têm em comum a exaltação do trabalho laborioso. Este é a realização da vocação – e "vocação" já não se refere somente ao sacerdócio, mas a todas as atividades profissionais. É o dom que Deus concedeu a cada homem; para que este possa desenvolvê-lo no seu trabalho diário, a fim de glorificá-Lo. Esse trabalho deve ser árduo e ao mesmo tempo metódico e racional, não desordenado. Não se deve desperdiçar o tempo, mesmo porque interromper o trabalho produz a vadiagem, o desvio da alma para a sensualidade e o prazer, e todos os outros vícios opostos à glória de Deus.
E certo que a riqueza gerada por esse árduo trabalho pode causar a ociosidade. Mas a riqueza em si não é má e quem a recusar ofende a Deus, pois ela é fruto da sua glorificação. O que se deve evitar é apenas o mal uso da riqueza, como o consumo perdulário que afasta o homem do trabalho.
A esse respeito, analisa Weber em A Ética protestante e o Espírito do Capitalismo: "Combinando essa restrição do consumo com essa liberação dá procura da riqueza, é óbvio o resultado que daí decorre: a acumulação capitalista através da compulsão ascética à poupança. As restrições impostas ao uso da riqueza adquirida só poderiam levar a seu uso produtivo como investimento do capital". Por outro lado, prossegue, o "poder da ascese religiosa (... ) punha à sua disposição do empreendedor burguês) trabalhadores sóbrios, conscientes e incomparavelmente industriosos, que se aferraram ao trabalho como a uma finalidade de vida desejada por Deus. Dava-lhe, além disso, a tranquilizadora garantia de que a desigual distribuição da riqueza deste mundo era obra especial da Divina Providência, que, com essas diferenças, e com a graça particular, perseguia seus fins secretos, desconhecidos do homem".
De um lado, a riqueza acumulada, que só pode ser empregada como capital produtivo, de outro, o trabalhador dócil e resignado com a sua condição e unindo esses dois elementos, a exigência da organização metódica e racional do trabalho: o capitalismo já se insinuava nas entrelinhas do calvinismo e de outras doutrinas protestantes.
Para Calvino, o homem é um ser decaído pelo pecado original e só pode ser salvo pela graça divina, concedida apenas aos predestinados. Por isso, o homem nada pode fazer a não ser engrandecer o nome de Deus, não para obter a salvação, mas porque esse é o seu dever - é o que mostra esta seleção de suas duras palavras.
"Assim, pois, se a maldição de Deus se espalhou de cima a baixo, derramando-se por todas as partes do mundo por causa do pecado de A dão, não há por que estranhar que tenha também se propagado à sua posteridade. Por isso (.. .) ele não apenas sofreu esse castigo, que consiste em que à sabedoria, ao poder, à santidade, à verdade e à justiça de que estava revestido e dotado sucederam a cegueira, a debilidade, a imundícia, a vaidade e a injustiça, mas toda a sua posteridade se viu envolta e enlameada nessas mesmas misérias. Essa é a corrupção que por herança vem até a nós, e que os antigos chamaram pecado original, entendendo pela palavra 'pecado' a depravação da natureza, que antes era boa e pura (. ..). (Instituição da Religião Cristã. ).
"E assim que, quando o Senhor nos converte para o bem, é como se uma pedra fosse convertida em carne, evidentemente tudo o que há em nossa vontade desaparece inteiramente, e o que se introduz em seu lugar é tudo de Deus. Digo que a vontade é suprimida, não enquanto vontade, pois na conversão do homem permanece íntegro O que é próprio de sua primeira natureza. Digo também que a vontade se faz nova, não porque comece a existir de novo, mas porque de ma é convertida em boa. E digo que isso é feito inteiramente por Deus" (Instituição da Religião Cristã).
"Denominamos -predestinação o eterno decreto de Deus, pelo qual. determinou o que quer fazer de cada um dos homens. Pois Ele não os cria todos sob a mesma condição, mas ordena uns para a vida eterna e outros para a condenação perpétua. Portanto, segundo o fim para o qual cada homem é criado, dizemos que esta predestinado à vida ou à morte" (Instituição da Religião Cristã).
Na Inglaterra, a Reforma foi introduzida de cima para baixo, sem grandes alterações em relação ao catolicismo. No século XVII, porém, o aspecto "católico" do anglicanismo parece recrudescer: voltam os paramentos, o luxo e o ouro; "a mesa de comunhão", no centro da igreja, onde sacerdotes e fiéis comungavam juntos, torna a chamar-se "altar" -termo católico (e pagão), pensam os protestantes -, e é afastada dos fiéis. As alterações litúrgicas e a repressão nos tribunais eclesiásticos reforçam o poder do clero, eliminando o controle dos fiéis sobre os pastores.
Esse é um indício de uma crise mais ampla coloca a Inglaterra numa encruzilhada histórica, em que uma série de conflitos opõe o rei e parte da nobreza às classes média e burguesa. Estas, os "homens novos" querem a livre concorrência, enquanto a casa real busca dinheiro criando monopólios e impostos ilegais. Os Stuart, a família real, também pretendem governar sem o Parlamento, exatamente onde os pequenos e os médios empresários se fazem ouvir. Além disso, há divergências quanto à política externa: na Guerra dos Trinta Anos (1618-1648), a última "guerra religiosa" de proporções européias, o rei Jaime I e o seu filho Carlos 1, que lhe sucedeu, procuram alianças com a Espanha ou com a França, ambas católicas, ao passo que a maior parte da opinião pública inglesa quer o seu reino do lado protestante.
O desfecho de todos esses conflitos é a Revolução Inglesa, que transcorre de 1640 a 1660, atingindo o seu ápice com a execução do rei Carlos I e a proclamação da República em 1649. Hoje, podemos ver nesse processo a importância dos interesses econômicos e considerá-lo, seguindo Marx, como a revolução que "realizou a transformação burguesa da sociedade inglesa.
Mas não podemos esquecer que os participantes desses acontecimentos viveram-nos como uma luta basicamente religiosa. Para os homens da época, o que fizeram não foi uma revolução: simplesmente lutavam, Bíblia em punho, contra o paganismo e as superstições -o catolicismo - e pela liberdade da sua fé contra a traição e a opressão "papistas". A sua forma de viver a política, a economia e as relações humanas era religiosa.
Tradicionalmente, os historiadores consideram esse processo apenas como uma luta entre burgueses (puritanos) e cortesãos (monarquistas). Quem mudou tal imagem foi o historiador inglês Christopher Hill. Ele trouxe à luz a importância de grupos pouco conhecidos até mesmo na época, mas que com o colapso da censura (1641 ), em plena Revolução, puderam difundir seus ideais. Em linguagem religiosa, discutindo Deus e a salvação eterna, esses grupos tentaram remodelar o mundo.
Os levellers ("niveladores") achavam que, sendo todos criaturas de Deus, deviam também ser iguais entre si e que não tinha cabimento a opressão, embora não chegassem a propor o voto dos mendigos nem o fim da propriedade privada. Tiveram bastante influência, especialmente nas discussões de 1647, dentro do Exército, que levariam à proclamação da República, dois anos depois.
Os diggers, também conhecidos como "levellers autênticos" foram mais radicais, embora menos influentes: em 1649, começaram a lavrar terras comunais perto de Londres -daí, diggers, "cavadores" -, defendendo a reforma agrária e a posse coletiva da terra, e também a abolição das instituições religiosas opressivas .
Os quacres, o único desses grupos a sobreviver até os nossos dias, devem seu nome ao verbo to quake, isto é, "tremer". Tremiam diante de Deus e, por isso, não temiam homem algum: recusavam tirar chapéu ou chamar alguém de "senhor". Eram republicanos, como os outros radicais, mas com a restauração da monarquia, em 1660, refugiaram-se na vida religiosa, renunciando à ação política.
Finalmente, os ranters ("falastrões") tagarelavam a respeito de tudo. Não formavam grupo organizado, mas aproveitavam a liberdade de expressão para negar o pecado original e, alguns, até a fidelidade conjugal. Gostavam da bebida e de mulheres e, um deles, Lawrence Clarkson, afirmou: "para o puro todas as coisas, isso mesmo, todas as coisas são puras". Dependem apenas da intenção e da energia que nelas colocamos.
Toda essa intensa atividade mental, liberada pelo ambiente revolucionário, esteve ligada à vontade de pôr o mundo de cabeça para baixo, de mudar o existente. Seus protagonistas foram os radicais, a minoria propriamente revolucionária, que trouxe o sopro
da utopia numa sociedade em que acabaria prevalecendo o "bom senso", e a preocupação burguesa e puritana com a ordem.
Christopher Hill, ao descrever a ação desses grupos esquecidos, permite-se sonhar: quem sabe, tivessem eles triunfado, quantas neuroses e culpas, quanta poluição ambiental e destruição das culturas populares não teriam sido evitadas? Nessas religiões alternativas não estaria a proposta de um mundo mais feliz como a "alegre Inglaterra" medieval ou, acrescenta, a contestação moderna dos hippies e do maio de 1968?
"Estar pronto para obedecer com mente e coração, deixando de lado todo julgamento próprio, à verdadeira esposa de Jesus Cristo, nossa santa mãe, nossa mestra infalível e ortodoxa, a Igreja Católica, cuja autoridade é exercida pela hierarquia". Essa é a regra básica da Companhia de Jesus, fundada por Ignacio de Loyola (c. 1491-1556), e exprime a reação da Igreja Católica aos movimentos reformadores.
Mas a Companhia de Jesus não se limita a declarar a obediência irrestrita à hierarquia eclesiástica. Também assimila a crítica dos reformadores quanto ao despreparo do clero para levar a mensagem de Cristo aos fiéis, e passa a ministrar uma sólida formação religiosa e teológica aos que ingressam na ordem.
Isso porque a principal missão desses soldados espirituais de Cristo é fazer a pregação: Francisco Xavier parte para o Oriente, chegando até o Japão; Manuel da Nóbrega e José de Anchieta vêm à colônia portuguesa do Brasil, enquanto outros jesuítas fundam várias missões nos domínios espanhóis da América do Sul para organizar e catequizar os índios. Na Europa, os jesuítas contribuem para reconduzir várias regiões ao catolicismo.
Além dos jesuítas, outros setores da Igreja também participam desse movimento de revitalização do catolicismo. Desde os séculos XIV e XV proliferam as confrarias e as congregações, em que padres se misturam aos leigos para levar uma vida religiosa em comum. A mais famosa delas se chama, por sinal, "Irmãos da Vida em Comum", e abandona o uso do latim na leitura da Bíblia e nas pregações. As próprias ordens religiosas também procuram se reformar, reforçando a sua disciplina e voltando-se aos leigos pela prática da caridade e do ensino. Desse modo, antigas ordens subdividem-se dando origem a novas: um setor dos franciscanos adota o nome de "capuchinhos" e, na Espanha, Santa Tereza de Ávila (1515-1582) e São João da Cruz (1542-1591) empreendem a reforma da ordem a que pertenciam, fundando a Ordem dos Carmelitas Descalços.
Toda essa busca de reformar internamente; o catolicismo, que ficaria conhecida como Contra-Reforma, culmina com a convocação, em 1545, do Concílio de Trento. Este, de certo modo, representa a resposta do papado às incômodas propostas de Lutero por um "concílio livre", em que todos - protestantes e católicos, leigos ou não - teriam o direito de voto. Nesse sentido, apesar de ter como objetivo declarado a unificação do cristianismo, o significado do Concílio de Trento é literalmente a "Contra-Reforma", isto é, o enrijecimento da Igreja Católica contra os protestantes.
De fato, o Concílio - que se estenderia até 1563, com várias interrupções - reafirma todos os sacramentos e dogmas ridicularizados pelo protestantismo. Conserva a crença na existência do purgatório, a proibição do casamento dos padres e a devoção dos santos e das relíquias, A autoridade infalível do papa é mantida, assim "como o valor da tradição dos Santos Padres na interpretação da Bíblia.
Esse endurecimento também se verifica na instituição, nessa época, da Congregação do Santo Ofício, que passa a centralizar as atividades da Inquisição, reprimindo não só os protestantes, mas também a livre manifestação do humanismo renascentista. Além disso, o Concílio de Trento cria a Sagrada Congregação do Índice, encarregada de elaborar o lndex Librorum Prohibitorum, "um catálogo (ou "índice") de obras condenadas pela Igreja como contrárias à sua doutrina. Aos rigores dos censores não escaparia nem mesmo a defesa da fé católica professada por Erasmo de Rotterdam.
Não que o Concílio de Trento tenha apenas adotado medidas restritivas e repressoras. Se a interpretação da Palavra divina permanece um encargo exclusivo dos doutores da Igreja, e se a única versão autorizada da Bíblia continua a ser a Vulgata de São Jerônimo, o Concílio também percebe que, para se pôr frente à ofensiva protestante, os sacerdotes católicos precisam aprender a pregar. Para isso, tomam-se várias medidas. A residência fixa dos padres e bispos torna-se obrigatória para que tenham contato mais íntimo com a comunidade dos fiéis. Criam-se seminários em cada diocese, para melhor preparo dos sacerdotes. Publicam se vários catecismos que complementam a missão de levar a mensagem evangélica aos leigos.
Tal mensagem, por fim, opõe-se radicalmente à dos protestantes: contra a doutrina do servo arbítrio (Lutero) ou a da predestinação (Calvino), o que o Concilio de Trento promete é a salvação mediante a prática de boas obras, que dependem do livre-arbítrio do homem. Em meio à intolerância extremada, a Igreja Católica, paradoxalmente, passou, desse modo, a promover a liberdade do homem.
Fonte: www.cefetsp.br