Apesar disso, as aquisições intelectuais e artísticas da Alta Renascença que ainda estavam frescas e resplandeciam diante dos olhos não poderiam ser esquecidas de pronto, mesmo que seu substrato filosófico já não pudesse permanecer válido diante dos novos fatos políticos, religiosos e sociais.
A nova arte que se faz, ainda que inspirada na fonte do classicismo, o traduz em formas inquietas, ansiosas, distorcidas, agitadas, ambivalentes, apegadas a preciosismos intelectualistas, características que bem refletem as tormentas do século [23].
O Maneirismo, que cobre os dois terços finais do século XVI e depois se confunde com o Barroco, é um estilo que tem gerado muito debate entre os historiadores da arte.
Ele se manifesta em uma área geográfica tão vasta e é tão polimorfo que seu relacionamento com sua origem basicamente italiana e sua descrição genérica se tornam um problema, e suas características são tão distintas do Quattrocento e da Alta Renascença que alguns o separam da corrente renascentista tradicional e o estabelecem como um estilo independente, pois parece-lhes que em muitos sentidos ele constitui uma decadência e uma negação dos princípios clássicos de proporção equilibrada, unidade formal, clareza, lógica e naturalismo, tão prezados pelas fases anteriores.
Por outro lado, depois de um longo tempo de descrédito geral do Maneirismo entre os pensadores, ele já é visto modernamente de forma positiva e conciliadora, como um aprofundamento e um enriquecimento dos pressupostos clássicos e legítima conclusão do ciclo do Renascimento; não tanto uma negação ou desvirtuamento daqueles princípios como se pensara antes, mas uma reflexão sobre sua aplicabilidade prática naquele momento histórico e uma adaptação - às vezes dolorosa mas em geral criativa e bem sucedida - às circunstâncias da época, sendo sua marca especial e sua verdadeira força expressiva, e tendo sua importância realçada por fazerem dele a primeira escola moderna de arte [24][25].
Fra Angelico: Anunciação, c. 1440. Museu Nacional de São
Marcos, Florença

Piero della Francesca: Flagelação de Cristo, 1460. Galleria
Nazionale delle Marche, Urbino

Pietro Perugino: O batismo de Cristo, ca. 1481-83. Capela Sistina