Facebook do Portal São Francisco Google+
+ circle
Home  Revolta Da Chibata - Página 5  Voltar

Revolta da Chibata

( 1910 )

Depoimento de João Cândido ao jornalista Edmar Morel

"Pensamos no dia 15 de novembro. Acontece que caiu forte temporal sobre a parada militar e o desfile naval. A marujada ficou cansada e muitos rapazes tiveram permissão para ir à terra. Ficou combinado, então, que a revolta seria entre 24 e 25. Mas o castigo de 250 chibatadas no Marcelino Rodrigues precipitou tudo.

O Comitê Geral resolveu, por unanimidade, deflagrar o movimento no dia 22. O sinal seria a chamada da corneta das 22 horas. O "Minas Gerais", por ser muito grande, tinha todos os toques de comando repetidos na proa e popa. Naquela noite o clarim não pediria silêncio e sim combate.

Cada um assumiu o seu posto e os oficiais de há muito já estavam presos em seus camarotes. Não houve afobação. Cada canhão ficou guarnecido por cinco marujos, com ordem de atirar para matar contra todo aquele que tentasse impedir o levante. Às 22h 50m, quando cessou a luta no convés, mandei disparar um tiro de canhão, sinal combinado para chamar à fala os navios comprometidos.

Quem primeiro respondeu foi o "São Paulo", seguido do "Bahia". O "Deodoro", a princípio, ficou mudo. Ordenei que todos os holofotes iluminassem o Arsenal da Marinha, as praias e as fortalezas. Expedi um rádio para o Catete, informando que a Esquadra estava levantada para acabar com os castigos corporais". Edmar Morel. A Revolta da Chibata

Ultimato enviado pelos rebeldes a Hermes da Fonseca, presidente da República

"Nós, marinheiros, cidadãos brasileiros e republicanos, não podendo mais suportar a escravidão na Marinha Brasileira, a falta de proteção que a Pátria nos dá, e até então não nos chegou, rompemos o negro véu, que nos cobria aos olhos do patriótico e enganado povo. Achando-se todos os navios em nosso poder, tendo a seu bordo prisioneiros todos os oficiais, os quais tem sido os causadores da Marinha Brasileira não ser grandiosa, porque durante vinte anos de República ainda não foi bastante para tratar-nos como cidadãos fardados em defesa da Pátria, mandamos esta honrada mensagem para que V. Excia. faça aos Marinheiros Brasileiros possuirmos os direitos sagrados que as leis da República nos facilita, acabando com a desordem e nos dando outros gozos que venham engrandecer a Marinha Brasileira; bem assim como: retirar os oficiais incompetentes e indignos de servir a Nação Brasileira. Reformar o Código Imoral e Vergonhoso que nos rege, a fim de que desapareça a chibata, o bolo, e outros castigos semelhantes; aumentar o nosso soldo pelos últimos planos do ilustre Senador José Carlos de Carvalho, educar os marinheiros que não têm competência para vestir a orgulhosa farda, mandar pôr em vigor a tabela de serviço diário que a acompanha. Tem V. Excia o prazo de doze (12) horas, para mandar-nos a resposta satisfatória, sob pena de ver a pátria aniquilada. Bordo do Encouraçado "São Paulo" em 22 de novembro de 1910. Nota - não poderá ser interrompida a ida e a volta do mensageiro. [assinado] Marinheiros" Edmar Morel. A Revolta da Chibata [respeitada a grafia original].

Oswald de Andrade descreve a rebelião dos marinheiros e fala sobre seu desfecho

"Acordei em meio duma maravilhosa aurora de verão. A baía esplendia com seus morros e enseadas. Seriam talvez quatro horas da manhã. E vi imediatamente na baía, frente a mim, navios de guerra, todos de aço, que se dirigiam em fila para a saída do porto. Reconheci o encouraçado Minas Gerais que abria a marcha. Seguiam-no o São Paulo e mais outro. E todos ostentavam, numa verga do mastro dianteiro, uma pequenina bandeira triangular vermelha. Eu estava diante da revolução. Seria toda revolução uma aurora? [...] de repente vi acender-se um ponto no costado do Minas e um estrondo ecoou perto de mim, acordando a cidade. Novo ponto de fogo, novo estrondo. Um estilhaço de granada bateu perto, num poste da Light. [...] Era terrível o segundo que mediava entre o ponto aceso no canhão e o estrondo do disparo. Meus olhos faziam linha reta com a boca-de-fogo que atirava. Naquele minuto-século, esperava me ver soterrado, pois parecia ser eu a própria mira do bombardeio. [...] Era contra a chibata e a carne podre que se levantavam os soldados do mar. O seu chefe, o negro João Cândido, imediatamente guindado ao posto de almirante, tinha se revelado um hábil condutor de navios. Quando mais tarde assisti à exibição do filme soviético Encouraçado Potemkim, vi como se ligavam às mesmas reivindicações os marujos russos e brasileiros. [...] A revolta de 1910 teve o mais infame dos desfechos. Foi solenemente votada pelo Congresso a anistia aos rebeldes, mas uma vez entregues e presos, foram eles quase todos massacrados e mortos. Escapou o Almirante João Cândido e quando, na década de 30, o jornalista Aporelli [Aparício Torelli, o Barão de Itararé] tentou publicar uma crônica do feito foi miseravelmente assaltado por oficiais da nossa Marinha de Guerra que o deixaram nu e surrado numa rua de Copacabana." Oswald de Andrade. Um homem sem profissão - Sob as ordens de mamãe .

Fonte: www.projetomemoria.art.br

Revolta da Chibata

( 1910 )

1910 foi o ano do inferno astral na política brasileira, fluminense e petropolitana. No plano nacional, a ascensão da figura caricata do Marechal Hermes da Fonseca à suprema magistratura do país, depois de um processo sucessório traumático, iria marcar o início da fase decadentista da República Velha ou melhor da Primeira República.

Na esfera estadual, a diplomação do candidato niilista Oliveira Botelho numa trama cheia de fraudes que alijou do poder o presidente eleito Edwiges de Queiroz, ia inaugurar na terra fluminense um período de desenfreado caciquismo com seu clímax desastroso já nos anos vinte, no triste episódio da deposiçao de Raul Fernandes e da subida de Feliciano Sodré pela mão nefasta de Artur Bernardes.

Em Petrópolis, 1910 marcou o fim da era Hermogênio Silva, que foi das mais esplendorosas que esta urbe já viveu, embalada por um grupo político forte, sério e que fez enormemente pela cidade. A queda do hermogenismo abriu o caminho para a grande crise que provocaria a intervenção no município, ao arrepio dos mais sagrados postulados do ideário e da legislação republicanos, com a imposição da Prefeitura em 1916.

Feita essa tomada de ordem geral, para marcar com letras de fogo o ano fatídico de 1910, ocupemo-nos de um lamentável episódio ocorrido em plena baía da Guanabara, nas barbas do poder central, no mês de novembro daquele ano.

O Marechal Hermes acabara de tomar posse de seu cargo a 15 de novembro. Oito dias depois, na noite de 23 para 24, marinheiros a bordo dos principais navios de guerra brasileiros, sob o comando de um certo João Cândido, iniciaram uma rebelião que passou à História com o nome de Revolta da Chibata.

Em síntese, o movimento reivindicava melhores soldos e abolição por completo dos castigos corporais. Tais os motivos propalados, as causas aparentes do motim. Talvez não fosse prudente descartar outras motivações de ordem política, tanto mais que o governo que se iniciava estava viciado na sua origem por treitas, manobras solertes, fraudes, intrigas e de toda a sorte de baixarias.

Seria ocioso, neste momento em que se pretende rememorar e até repensar a Revolta da Chibata, repetir tudo quanto disseram os jornais da época e publicaram aqueles que se ocuparam do assunto em nível nacional, inclusive os que procuram elevar badamecos à categoria de heróis ou de cidadãos paradigmas.

Prefiro trazer à tona o depoimento de uma testemunha ocular daqueles acontecimentos e que, por motivos vários ficou no desvão da memória brasileira, já que está inserido num livro de impressões publicado em 1911, no Chile.

Trata-se do escritor da terra de Bernardo O' Higgins, Joaquim Edwards Bello, que esteve no Rio de Janeiro em fins de 1910 e princípios do ano seguinte, tendo deixado suas impressões num volume intitulado Tres Meses en Rio de Janeiro.

Sem perda de tempo, passo a referir os textos de Bello sobre a Revolta da Chibata, os quais sobre serem muito fidedignos, estão eivados da verve satírica chilena e dos judiciosos comentários da testemunha.

O movimento começou, disse Bello, às dez da noite no "Minas Gerais", quando nada fazia alguém pensar em acontecimentos trágicos.

O comandante do couraçado, João Batista das Neves, jantava nesse momento a bordo do navio escola francês Dugay Trouin. Quando voltou ao Minas Gerais, a pequena lancha em que viajava foi atingida por intensa fuzilaria partida dos revoltosos. Valentemente Batista das Neves tentou chamar à ordem seus comandados, mas foi trucidado pela fúria insana dos amotinados, junto com outros oficiais igualmente destemidos.

A refrega começava sangrenta. A revolta foi ficando fora de controle e de repente tanto a cidade como o próprio Palácio do Catete ficaram à mercê da escalada terrorista.

No mastro do navio foi içada a bandeira vermelha da rebelião.

Comenta o chileno:

"Depois, quando contemplei esta mesma bandeira flutuando no ar presa nos mastros de todos os barcos que fizeram causa comum, me pareceu que esse vermelho não era então o que recorda o sangue, porque pede sangue de vergonhas justiceiras, mas era o ignominioso vermelho da vergonha e da desonra".

Os revoltosos mandavam mensagens ao governo, como se houvesse um diálogo entre poderes.

Aterrado com os rumos dos acontecimentos, para ele insólitos, Edwards Bello enfatiza:

"As condições propostas pelos revoltosos para submeteram-se, são simplesmentes inaceitáveis e um governo digno não deveria nem siquer toma-las em consideração".

E mais adiante:

"A maioria dos comandantes e oficiais dos vasos de guerra revolucionados não estava a bordo no momento em que irrompeu o motim. Isto é no meu modo de ver, o mais grave nesse assunto; grande deve ser a desorganização em u 'a marinha em que acontecem tais coisas ".

Entre outras críticas acerbas ao movimento em si e à aparente desorganização das forças armadas e do próprio aparelho governamental da república brasileira, ousou o cronista chileno, fazendo uma síntese da situaçao vigente:

"Quatro piratas se apoderaram da noite para o dia da esquadra brasileira e impõem sua vontade ao Presidente, fazendo pontaria sobre a residência deste. É uma coisa única; algo iníquo que não haria acontecido ainda em nenhuma parte. Já têm argumento os "vaudevilistas" do "boulevard" para novas cenas grotescas de pronunciamentos sulamericanos".

Feitos esses comentários desairosos para os brios nacionais, o escritor chileno passou a ocupar-se do líder da rebelião, tratando-o de ídolo de barro.

Mas tanto para o poviléu comum e corrente, como para certos arraiais da mais alta linhagem, o chefe da revolta ganhara status de herói na "defesa da causa justa dos pobres marinheiros".

Ruy Barbosa, no conforto de sua eterna cadeira no Senado, verberava a favor do movimento. Quiçá uma forma de vingar-se de seu opositor nas eleiçoes presidenciais que guindaram o Marechal Hermes à suprema magistratura do país. Afinal, pimenta nos olhos dos outros é refresco.

Na manhã do dia 25 de novembro, assinala Bello, a cidade assistiu a um novo espetáculo risível: o chefe da revolta passa em revista a esquadra que lhe rende honras de almirante.

E entatiza:

"O povo está feliz; a gente de cor, os escravos de ontem, sorriem com orgulho mostrando a brancura de seus dentes, porque vem nascer para eles uma nova era de liberdades não sonhadas. A aristocracia está de luto. A situação é extremamente crítica; se o governo cede a marinha morre".

Naquele mesmo dia 25, Severino Vieira apresentava um projeto de anistia para os amotinados, o qual encontrou em Ruy Barbosa um dos mais ardentes defensores.

Nao foi sem razão que Edgar Hans Brunner disse que o Brasil sempre foi o país mais tolerante do mundo.

O projeto rezava no seu artigo 1°:

"Será concedida anistia aos insurretos da Armada Nacional, se estes, dentro do prazo que Ihes fora marcado, pelo Governo, se submeterem às autoridades constituídas".

Bello não se conforma com a defesa dos desordeiros feita pelo senador baiano e argumenta:

"O popular politico, o herói das conferências de Haya, onde conseguiu um trianfo brilhante para a América do Sul, o candiduto derrotado por manobras fraudulentas nas últimas eleições, se levanta e começa a fazer luzir sua oratória sublime que nunca serviu para defender uma causa mais injusta que esta".

Enfim, o projeto é aprovado no Senado por uma quase unanimidade. Nada de novo nessa triste história de transigências com os perturbadores da ordem e demolidores das instituições. Caxias defendeu em outros tempos a anistia para os Farrapos e Campos Sales, durante o quatriênio Prudente de Moraes obrou no mesmo sentido quanto aos participantes da Revolução Federalista.

Enquanto o problema pendia de soluções satisfatórias no tapetão do Congresso e da caneta presidencial, o povo amedrontado fugia para Petrópolis, para São Paulo, para os subúrbios distantes da baía de Guanabara.

Todo esse pânico provocou no chileno este comentário:

"O povo brasileiro é eminentemente passivo e tranqüilo e detesta as efusões de sangue e o ruído da metralha; isto eu observei em toda parte; todos desejam que termine o perigo e nem siquer nos rapazes se observa esse entusiasmo pelo extroordinário, esse gosto pela luta armada que é o distintivo dos povos varonis feitos para a combatividade e a peleja, como o nosso.

Vi garçons de café exclamarem com ademanes femininos - Quando terminará isto, meu Deus! Já não se pode siquer dormir em paz!".

Ao fim e ao cabo, o projeto da anistia passa pelas duas casas do Congresso com larga margem de votos, apesar dos protestos de Pinheiro Machado, no Senado, e de Irineu Machado na Câmara dos Deputados e vai à sanção presidencial. O Marechal Hermes, sem pestanejar, assina aquilo que seria a rendiçao do governo.

Joaquim Edwards Bello termina sua longa apreciação desses tristes acontecimentos afirmando que os revoltosos estavam bem organizados; que eles formavam uma associação secreta; que cada navio tinha um marinheiro chefe, inteligente, capaz nas manobras, tendo secretário e ajudante de ordens, que o grande chefe da revolução cantado em prosa e verso pelos jornais e pelos congressistas que defenderam a anistia, por sua habilidade e coragem na condução do motim, haveria de permanecer no seu posto, não somente impune, mas consciente de sua fama e de sua glória.

"João Cândido será durante muito tempo a alma da Marinha brasileira, sua sombra será o idolo dos marinheiros de amanhã e suas façanhas serão cantadas pela massa popular que imortaliza mais que os bronzes oficiais.

Os oficiais de galões de ouro que acompanham construções navais em Newcastle e que passeiam no Palais de Glace e nos bulevares, serão a bordo dos barcos brasileiros simples fantoche.

A anistia foi um golpe de morte na marinha deste país. Pobre Brasil".

Ali estava uma crítica mordaz à completa inversão de valores que se abatera sobre nós, pela capitulaçao pura e simples das autoridades constituídas.

Mas a questão nao terminaria aí. A anistia foi mera fachada. Aceitas as condições dos revoltosos, depostas as armas, o país começou a voltar à moralidade. Somente o governo nao se sentia a cômodo. E, numa ação com todos os contornos da covardia e de torpes maquinações, os revolucionários foram caçados como feras, alguns trucidados, outros torturados e outros mais mandados para os confins da Amazônia, onde as febres e as agruras do meio facilitariam o seu f m.

Mais uma lamentável façanha do mesquinho e medíocre Marechal Hermes, o mesmo que mandou bombardear Salvador e que provocou a Sediçao do Juazeiro.

Francisco de Vasconcellos

Fonte: www.ihp.org.br

Revolta da Chibata

( 1910 )

Revolta da Chibata

No começo do século passado a marinha de Guerra do Brasil era uma das instituições que demonstrava de forma mais evidente o comportamento escravista dos seus superiores. As medidas disciplinares então aplicadas aos infratores das regras militares incluíam o uso do açoite, e como a esmagadora maioria dos marinheiros compunha-se de homens negros, a impressão deixada pela execução de tal castigo era a de que o tempo do pelourinho ainda não terminara nos navios da armada brasileira. Os marujos penalizados com a brutal condenação eram açoitados diante dos companheiros, que por determinação da oficialidade branca se viam obrigados a assistir àquela cena infamante no convéns das belonaves.

Com isso criaram-se condições de revolta no seio da marujada, porque os seus membros não aceitavam mais passivamente a situação humilhante de que eram vítimas. Sob o comando do marinheiro João Cândido (à direita, na ilustração, lendo o manifesto), a tripulação dos encouraçados Minas Gerais e São Paulo (esta liderada pelo cabo Gregório), contando ainda com o apoio dos marujos do Barroso e do Bahia (as quatro embarcações estavam fundeadas na baía de Guanabara), amotinaram-se exigindo aumento de soldo, melhoria geral das condições de trabalho dos marinheiros e, principalmente, a extinção das penas corporais que na época ainda vigoravam na marinha de guerra brasileira.

Tudo começou no dia 22 de novembro de 1910, quando o marinheiro negro chamado Marcelino recebeu um total de 250 chibatadas diante de toda a tripulação formada no convés do encouraçado Minas Gerais, e apesar do infeliz ter desmaiado durante a aplicação do castigo, os açoites continuaram até alcançarem o total estipulado pela punição contra ele determinada. Diante da selvageria desse procedimento, os demais marinheiros, liderados por João Cândido, resolveram antecipar o movimento que vinha sendo articulado de forma discreta, sublevando-se imediatamente: dessa forma, no final da tarde desse mesmo dia, num golpe rápido eles se apoderaram dos principais navios da marinha de guerra brasileira, e em seguida enviaram mensagem ao presidente da República e ao ministro da Marinha, exigindo a adoção de diversas providências, entre elas a extinção do uso da chibata. Iniciou-se dessa forma a Revolta da Chibata, de rápida duração, mas durante a qual os insurretos ameaçaram bombardear o Rio de Janeiro.

Segundo relatos da época, o pânico tomou conta de grande parte da população da cidade, e com isso alguns milhares de pessoas fugiram para Petrópolis. Os navios amotinados hastearam bandeiras vermelhas e silenciaram rapidamente os navios fiéis ao governo que tentaram duelar com eles. Tal situação criou um impasse institucional, pois se de um lado a Marinha pretendia punir os amotinados pela morte de alguns de seus oficiais, de outro o governo e os políticos sabiam que os marinheiros estavam militarmente mais fortes do que a própria Marinha de Guerra, pois além de comandarem praticamente a armada, tinham os canhões das belonaves apontados para a capital da República.

Diante dessa situação, muitas reuniões políticas foram realizadas em busca de uma solução. Entre os participantes dessas negociações encontrava-se o político e escritor Rui Barbosa, que condenou veementemente os “abusos com os quais, na gloriosa época do abolicionismo, levantamos a indignação dos nossos compatriotas”. Como resultado dessas discussões, o Congresso aprovou um projeto de anistia para os amotinados e comprometeu-se a abolir os castigos corporais do regime disciplinar da Marinha. Com isso os marinheiros desceram as bandeiras vermelhas dos mastros dos seus navios, e depuseram suas armas, encerrando oficialmente a rebelião no dia 26 de novembro. A revolta havia durado exatamente cinco dias, e terminava vitoriosa.

Segundo relatos jornalísticos da época, as forças militares mantinham-se inconformadas com a solução política encontrada para a crise e por isso apertaram o cerco contra os marinheiros fazendo aprovar um decreto autorizando a demissão sumária de qualquer integrante da corporação naval, comprovando, assim, ter sido a anistia uma farsa utilizada com a intenção de desarmar os revoltosos. Logo em seguida o governo mandou prender os marinheiros acusando-os de conspiração, e apesar dos protestos veementes de Rui Barbosa e outras personalidades importantes, eles foram recolhidos à prisão na Ilha das Cobras, o que ensejou a eclosão, em 9 de dezembro, de uma nova rebelião naquela fortaleza. Mas esta foi sufocada rapidamente pelas autoridades, que por medida de segurança também decretaram o estado de sítio.

Os líderes do movimento rebelde foram mantidos na cela em que se encontravam para o cumprimento da pena de seis dias de prisão, mas nesse espaço de tempo dezesseis deles morreram. Entre os poucos sobreviventes estava o chefe da revolta, João Cândido, que teve sua prisão prolongada até abril de 1911 de onde saiu transferido para um hospício e mais tarde retornou à prisão comum. Os marujos rebelados já cumpriam dez meses de prisão, quando a irmandade da igreja de Nossa Senhora do Rosário, protetora dos negros, contratou três advogados para defendê-los no julgamento que se aproximava. Este durou dois dias, e a leitura da sentença final foi feita depois das três horas da manhã. Nela, os marinheiros foram absolvidos por unanimidade.

Tuberculoso e na miséria, João Cândido conseguiu, contudo, restabelecer-se física e psicologicamente. Perseguido constantemente, morreu como vendedor no Entreposto de Peixes da cidade do Rio de Janeiro, sem patente, sem aposentadoria e até mesmo sem nome.

Fonte: recantodasletras.uol.com.br

REVOLTA DA CHIBATA

( 1910 )

A Revolta da Chibata eclodiu a 22 de Novembro de 1910 na Baía de Guanabara, Rio de Janeiro, Brasil.

Na ocasião, marinheiros da Marinha do Brasil se rebelaram contra a aplicação dos castigos físicos a eles impostos como punição, ameaçando bombardear a então capital, a cidade do Rio de Janeiro.

Antecedentes

Os castigos físicos, abolidos na Marinha do Brasil um dia após a Proclamação da República, foram restabelecidos um ano depois, estando previstas:

Para as faltas leves, prisão e ferro na solitária, a pão e água; faltas leves repetidas, idem, por seis dias; faltas graves, 25 chibatadas.

Os marinheiros nacionais, em contato cotidiano com as marinhas de países mais desenvolvidos, principalmente a Royal Navy, não podiam deixar de notar que as mesmas não mais adotavam esse tipo de punição em suas belonaves, considerada como degradante.

Durante viagem do encouraçado Minas Gerais com destino ao Rio de Janeiro, um marinheiro, Marcelino Rodrigues Menezes, por ter ferido um cabo com uma navalha, foi punido, no dia 22 de Novembro de 1910, não com as 25 chibatadas regulamentares, e sim com 250, na presença da tropa formada, ao som de tambores. O rigor dessa punição, considerada desumana, provocou a indignação da tripulação e desencadeou o movimento.

A revolta

Na mesma noite, já na Baía de Guanabara, 200 marinheiros se amotinaram, mataram quatro oficiais (entre os quais o comandante do Minas Gerais), conduzindo sete embarcações (entre as quais as duas principais embarcações da Marinha à época, os encouraçados São Paulo e Minas Gerais) para fora da barra, emitindo um ultimato no qual ameaçavam abrir fogo sobre a então capital:

O governo tem que acabar com os castigos corporais, melhorar nossa comida e dar anistia a todos os revoltosos. Senão, a gente bombardeia a cidade, dentro de 12 horas. (João Cândido, líder da revolta)

Surpreendido e sem capacidade de resposta, quatro dias mais tarde o governo de Hermes da Fonseca declarou aceitar as reivindicações dos amotinados, abolindo os castigos físicos e anistiando os revoltosos que se entregassem. Estes, então, depuseram armas e entregaram as embarcações. Entretanto, dois dias mais tarde, os revoltosos foram expulsos da Marinha.

No início de Dezembro, a eclosão de um novo levante entre os marinheiros, agora na ilha das Cobras, foi duramente reprimida pelas autoridades, tendo centenas sido detidos na ocasião. Entre os detidos nos calabouços da Fortaleza da Ilha das Cobras, dezesseis vieram a falecer tragicamente em uma das celas subterrâneas. Cento e cinco foram desterrados para trabalhos forçados nos seringais da Amazônia, tendo sete destes sido fuzilados nesse trânsito.

Apesar de se declarar contra a manifestação, João Cândido também foi expulso da Marinha, sob a acusação de ter favorecido os rebeldes. O Almirante Negro, como foi chamado pela imprensa, foi um dos sobreviventes à detenção na ilha das Cobras, e foi internado no Hospital dos Alienados em Abril de 1911, como louco e indigente. Ele e os companheiros só seriam absolvidos das acusações em 1912.

Fonte: pt.wikipedia.org

voltar 12345avançar

Sobre o Portal | Política de Privacidade | Fale Conosco | Anuncie | Indique o Portal