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Anita Garibaldi

Anita Garibaldi redescoberta pela literatura

1. Anna Maria de Jesus (1821?-1849) ficou conhecida na história pelo nome e sobrenome italianos que seu companheiro Giuseppe Garibaldi (1807-1882) lhe dera: Anita Garibaldi. E não é somente o nome que ela lhe deve, mas também a construção de sua imagem como mulher guerreira, corajosa, e esposa fiel. Em 1860, quando já era considerado o herói da luta pela unificação da Itália, Garibaldi cedeu ao escritor francês Alexandre Dumas suas anotações biográficas, que continham dados desde seu nascimento até o ano de 1849, que vieram a se constituir as Memórias de Garibaldi.

E é nesse livro que Garibaldi consagra a sua companheira como heroína, cuja imagem será reproduzida pela história. Essa imagem será ratificada e ampliada por autores como Annita Garibaldi Neta, Lindolfo Collor, Wolfgang Ludwig Rau, Paulo Markun, entre outros, que buscarão mais informações sobre a vida de Anita, sempre no objetivo de consagrar o seu heroísmo.

Conforme Wolfgang L. Rau (1975), considerado um dos melhores biógrafos de Anita, a heroína brasileira nasceu, provavelmente, na região dos lagos da cidade de Laguna. Em 1835, tendo por volta de catorze anos, ela casa-se com o sapateiro Manoel Duarte. Contudo, o casamento não teve êxito. Em 1839, quando os farroupilhas tomam a cidade de Laguna, Manoel parte com o exército imperialista, deixando sua esposa em casa de uma família amiga.

De seu barco, Garibaldi avista Aninha (como ela era chamada por seus familiares e amigos) e decide procurá-la, encontrando-a na casa de um morador da Barra. A partir desse momento, surge Anita, a companheira de armas e de amor de Garibaldi. Ela deixa a sua vida em Laguna para acompanhar seu amado pelos combates da Revolução Farroupilha. Em 1841, já com o filho Menotti, eles vão para Montevidéu — Anita se torna dona-de-casa, enquanto Garibaldi é convocado pelo governo para guerrear contra o caudilho argentino Rosas. Em 1848, a família Garibaldi vai para a Itália. Anita e seus filhos ficam na casa de dona Rosa, mãe de Garibaldi, enquanto o italiano sai pelo país para lutar pela sua unificação.

Quando Roma é cercada pelos franceses em 1849, Anita deixa seus filhos com a avó e vai ao encontro de Garibaldi. Juntamente com a legião italiana, eles partem da capital em direção do mar Adriático. Anita falece no dia 04 de agosto, na Fattoria Gucciolli, em Madriole, na região de Ravenna. Seu corpo é enterrado às pressas na areia por causa da aproximação do inimigo. Alguns dias depois, uma menina encontra um braço saindo da areia e descobre-se, então, que se trata do corpo da companheira de Garibaldi.

A vida de Anita é relembrada pela literatura em diversos gêneros. Destacam-se, neste trabalho, dois romances latino-americanos que apresentam uma nova interpretação da história da heroína brasileira, desconstruindo o discurso de Garibaldi em suas memórias: Anita cubierta de arena (2003), da escritora argentina Alicia Dujovne Ortiz, e Anita (1999), do brasileiro Flávio Aguiar.

2. O romance Anita cubierta de arena revive a saga de Anita desde o momento em que ela conhece Garibaldi até a sua morte. O enredo parte, inicialmente, dos fatos narrados nas Memórias de Garibaldi e apresenta outra versão para os mesmos, por meio de um narrador que, utilizando o discurso indireto, destaca a forma como Anita pensava e agia, seguindo as suas intenções.

Nas suas memórias, por exemplo, Garibaldi descreve o momento em que vê Anita de seu barco e a procura em terra:

Do meu bordo, eu descobria as belas jovens ocupadas nos seus diversos afazeres domésticos. Uma delas atraía-me mais especialmente que as outras... Dada a ordem de desembarque, tomei o caminho da casa sobre a qual havia já algum tempo fixara-se toda a minha atenção [...]. “Virgem criatura, tu serás minha!”, foi o que disse ao ter a jovem diante de mim (DUMAS, 2006, p. 90-91).

Por esse relato, Garibaldi se mostra como o único responsável por se interessar por Anita e tomar a iniciativa de buscá-la e de falar com ela. No romance de Dujovne Ortiz, a versão é apresentada a partir do olhar de Anita, descrevendo que ela também teria se interessado por Garibaldi e participado do jogo amoroso ativamente:

Frunce la cara para distinguir al marino que sigue mirándola con el anteojo y, tranquilizada, adopta un aire ausente mientras con aparente distracción se baja un hombro de la blusa. Cuando lo ve llegar, se suelta el pelo […] pero le da los ojos de frente (DUJOVNE ORTIZ, 2003, p. 21).

Outro trecho do romance que retoma os fatos descritos por Garibaldi é o episódio em que o barco de Anita é atingido por uma bomba e ele lhe pede para ficar no porão. Nas Memórias de Garibaldi (2006, p. 94), o italiano descreve a resposta que obteve: “Sim, irei mesmo até lá — disse-me ela —, mas para tirar de lá de dentro os poltrões que nele se esconderam”.

Em Anita cubierta de arena (2003, p. 45), após os disparos do inimigo que a fazem cair, Anita se levanta e “vocifera que no se preocupe por ella sino por esos cobardes a los que apunta con el índice rojo y a los que saca de sus escondrijos y arrastra de los pelos para hacerlos pelear”. Utilizando-se do discurso indireto e com palavras semelhantes, o narrador reconta o episódio das Memórias, com o intuito de apresentar outra visão sobre esses mesmos fatos, a partir de outra perspectiva.

Outro evento célebre de Anita descrito por Garibaldi é a intrepidez de Anita em cruzar o fogo inimigo, dentro de uma embarcação, para transportar as armas dos farrapos até a praia. O corsário italiano assevera que ela fez o trajeto em pé na barca “ereta, calma e altaneira como uma estátua de Palas” (DUMAS, 2006, p. 99). Assim, ele afirma a coragem e a valentia de sua companheira, colocando-a no mesmo patamar dos deuses gregos imortais.

Contudo, no livro de Dujovne Ortiz, o narrador destaca que, nesse episódio, a protagonista tinha um propósito particular, que não está vinculado a heroicidade ou desprendimento às causas republicanas: “Anita en el bote no va remando ni sentada. [...] ella va parada en la proa. Así muestra que puede, así convence a José de que es capaz” (DUJOVNE ORTIZ, 2003, p. 49).

Ou seja, a personagem vence o fogo cruzado não porque era uma autêntica heroína, cheia de bravura, que lutava pelas causas humanitárias, mas sim porque queria provar ao seu amado que tinha capacidade de lutar como qualquer soldado e, com isso, ela poderia acompanhá-lo, sem lhe ser uma carga para levar. O objetivo de Anita, no livro, é totalmente particular, de uma mulher que queria seguir o seu amado por onde ele fosse.

Nesse sentido, a releitura histórica realizada pelo romance desconstrói a versão apresentada por Garibaldi em suas memórias, ao propor uma nova interpretação e uma perspectiva diferente dos fatos vividos por Anita.

A protagonista não é a pessoa valente e guerreira que a história consagrou, mas uma mulher que ama, que tem suas ambições pessoais e luta para alcançá-los. Redescobre-se, assim, uma nova identidade de Anita, que é retirada do pedestal em que foi colocada, para se tornar uma mulher. Uma mulher romântica, que dedica a sua vida para viver ao lado do homem que amou.

3. O livro Anita, de Flavio Aguiar, contempla a vida de Anita Garibaldi por meio do relato de Costa, uma personagem fictícia que teria deixado um manuscrito para sua neta, relatando a sua vida — e isso incluiria sua convivência com Anita. O narrador, que leu esse manuscrito, que foi refeito pelo menos duas vezes, apresenta a história de Anita por outra perspectiva.

Em suas memórias, Garibaldi constrói a imagem de Anita como esposa fiel, sempre ao seu lado, mesmo nos momentos de perigo: “Anita, entrementes, permaneceu próxima a mim, no local mais perigoso, negando-se a descer de bordo” (DUMAS, 2006, p. 98). Para o italiano, Anita era uma verdadeira mulher romântica, que ama desenfreadamente, que luta para sempre estar ao lado de seu companheiro, sendo fiel a ele eternamente.

No romance de Flavio Aguiar, Costa é apaixonado por Anita, mas não revela seu sentimento a ninguém, apesar de algumas pessoas perceberem seu interesse por ela. O narrador insinua que o amor dele podia ser correspondido, já que o olhar de Anita brilhava ao vê-lo. Ele destaca duas personagens que perceberam esse brilho. Uma delas é o negro Aguiar, convertido em “guarda-costas” de Anita:

O que mais intrigava o negro não era a secreta paixão do Costa, e sim o brilho que ele vira nos olhos de Anita quando esta encontrava o seu amigo [...]. Mas ele não sabia, ou não queria ler por dentro ou por detrás daquele brilho: seria mera curiosidade de amiga, ou algo mais? (AGUIAR, 1999, p. 205).

A outra foi o padre Ugo Bassi, que “também observara o brilho nos seus olhos, que eram sempre muito fortes, quando o Costa estava perto. Para ele, aquele brilho era o do enlevo da mulher consigo mesma, ao ver-se amada, ou admirada” (AGUIAR, 1999, p. 205).

Assim, o livro coloca em dúvida a imagem de Anita como amada fiel que Garibaldi construiu em seus relatos, apresentando uma interpretação distinta daquela(s) que se encontra(m) na história, discutindo a legitimidade de sua(s) versão(ões).

Entretanto, o próprio romance questiona a sua formulação, demonstrando que não há uma única verdade e que tudo depende do ponto de vista em que se olha o acontecimento. Em certo momento da narrativa, o narrador descreve a cena em que o negro Aguiar entrega a Costa um livro que Anita lhe mandava como presente, sublinhando em uma das páginas a seguinte passagem: “A minha vida é fastidiosa: eu me queixarei de mim, e falarei na Amargura de minha Alma. Direi a Deus: não me condeneis [...]. E então sabeis, que nada de ímpio cometi, não havendo quem possa tirar-me das vossas mãos” (AGUIAR, 1999, p. 207, grifos do autor). Esse trecho destacado pode ser interpretado de dois modos: ou Anita não via nada de errado na sua amizade com Costa, ou não sentia nada além do que amizade por ele.

O livro Anita oferece uma leitura para uma questão intrigante da história de Anita, que não foi resolvida pela historiografia, que é a descrição de seu corpo enterrado na areia: seu braço estava levantado, o que resultou em seu descobrimento; os médicos examinaram o cadáver e encontraram uma marca no colo, a traquéia estava rota e os olhos sobressalentes e o médico legista “anotou que o corpo estava sobre o flanco esquerdo, com o rosto abaixado e o queixo apoiado sobre o peito” (MARKUN, 2003, p. 16), o que levou os inimigos de Garibaldi a suspeitarem de estrangulamento, mas as acusações não prevaleceram, apesar de não haverem esclarecido tais marcas. O livro Anita, então, revela aos seus leitores o que realmente aconteceu, já que Costa acompanhara de perto o enterro apressado de Anita. Naquela noite, ele resolveu enterrar o corpo em outro local mais protegido e, por isso,

começou a recavar com as próprias mãos. O corpo foi reaparecendo [...] foi quando reparou nos olhos, sujos de terra úmida. Sem pensar, fez como sua mãe lhe fizera, certa vez em que ele caíra de rosto na areia: pôs-se a lamber aqueles olhos adorados. Mas se recompôs; precisava agir rápido. Tentou soerguer o corpo, tirá-lo, arrancá-lo da terra. Mas não conseguiu: precisava cavar mais. Nesse momento, a sua mão roçou na dela. Reconheceu ali um objeto pequeno: o lenço com que a vira em Ravenna, em Rieti, o lenço de bordas rendadas [...] Tentou abrir a mão, não conseguiu. Puxou, arrancou o lenço da mão rígida. Reconheceu que tinha de desistir de seu intento. Cobriu tudo de novo com a terra que tirara, do jeito que pôde (AGUIAR, 1999, p. 245-246).

Ou seja, foi a personagem Costa a responsável pelas marcas no corpo da heroína e somente o leitor do livro de Flávio Aguiar é quem pode conhecer esses fatos. Foi ele que deixou o braço estendido para cima, quando puxou o lenço da mão de Anita; as marcas do pescoço e colo, ele as fez quando puxava o corpo da areia, na tentativa de arrancar o corpo da areia e, ao enterrá-lo novamente, na pressa de não ser pego, ele deixou o corpo sobre o lado esquerdo, na posição em que ela foi achada dias depois.

E assim, o enredo de Anita é tecido com o entrelaçamento das histórias de Costa e de Anita Garibaldi; a literatura oferece, assim, a sua interpretação aos fatos relacionados à heroína brasileira, que a história não conseguiu explicar, por meio de um texto atribuído à personagem Costa.

4. A releitura da história é uma das características presentes no romance histórico contemporâneo da America Latina, como apontam diversos críticos literários, entre eles Seymour Menton e Fernando Aínsa. Assim, a narrativa lança novos dados para a reinterpretação do passado histórico, questionando a versão legitimada pela historiografia. É nessa perspectiva que se encontram os romances Anita cubierta de arena, de Alicia Dujovne Ortiz, e Anita, de Flavio Aguiar, analisados nesse artigo. Ambos livros questionam as versões da história, em especial as Memórias de Garibaldi, no que se refere à imagem de Anita como uma mulher guerreira e esposa fiel, desconstruindo-a ao apresentar outras leituras e interpretações para a vida e morte de Anita. E também apresentam suas versões para questões que a história ainda não resolveu, proporcionando aos leitores uma releitura da vida de Anita Garibaldi.

Referências

AGUIAR, Flavio. Anita. São Paulo: Boitempo, 1999.

AINSA, Fernando. La nueva novela histórica latinoamericana. Plural, México, v. 240, p. 82-85, 1991.

DUJOVNE ORTIZ, Alicia. Anita cubierta de arena. Buenos Aires: Alfaguara, 2003.

DUMAS, Alexandre. Memórias de Garibaldi. Tradução de Antonio Caruccio-Caporale. Porto Alegre: L&PM, 2006.

MARKUN, Paulo. Anita Garibaldi: uma heroína brasileira. 5. ed. São Paulo: Editora SENAC, 2003.

MENTON, S. La nueva novela histórica: definiciones y orígenes. In: La nueva novela histórica de la América Latina, 1949-1992. México: FCE, 1993. p. 29-66.

RAU, Wolfgang L. Anita Garibaldi. O perfil de uma heroína brasileira. Porto Alegre: Edeme, 1975.

Fonte: www.letras.ufmg.br

Anita Garibaldi

1821-1849

Heroína brasileira, nasceu em Morrinhos, SC, então município de Laguna, em 30 de agosto de 1821, filha de Bento Ribeiro de Silva e Maria Antônia de Jesus Antunes.

Faleceu na Itália no dia 4 de agosto de 1849.

Anita Garibaldi

Embora os pais de Anita fossem pobres, deram-lhe excelente educação.

Casou-se em Laguna no ano de 1835 com Manuel Duarte de Aguiar.

Quando surgiu a Revolução Farroupilha, deixou o seu marido e ligou-se a Giuseppe Garibaldi que a unira ao movimento.

Deu o seu primeiro tiro de canhão, na Batalha de Laguna.

Devido a oposição dos pais, Garibaldi raptou-a, indo regularizar o casamento em 26 de março de 1842, no Uruguai.

Tornou-se uma companheira destemida do esposo, participando em seus combates, lutou pela unificação e libertação de Itália.

Mais tarde viu-se sitiada pelas forças legalistas, conseguindo fugir.

Nasceu o seu primeiro filho no dia 16 de setembro de 1840.

Em 1847 Anita seguiu para a Itália levando seus três filhos.

Reuniu-se a Garibaldi pouco depois em Nice.

Tomou parte dos combates de Roma; os amotinadores foram obrigados a se retirarem em barcos de pesca, os quais a maior parte caiu em poder dos Austríacos.

Porém o que conduzia o casal encalhou numa praia.

Anita e Giuseppe com alguns companheiros abrigaram-se numa propriedade rural nas proximidades de Ravena.

Anita teve o seu estado sensivelmente agravado pela febre tifóide, durante os combates em Roma, vindo a falecer antes de completar trinta anos de idade.

Em sua memória ergueram vários monumentos no Brasil e na Itália.

Seu nome de solteira: Ana Maria de Jesus Ribeiro.

Fonte: www.e-biografias.net

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