
Anita Garibaldi é uma das raras brasileiras que, antes do século XX, participou de forma ativa de episódios políticos e militares da história do Brasil. Ao lado do companheiro, o italiano Giuseppe Garibaldi, atuou em algumas das batalhas decisivas da Revolução Farroupilha em Santa Catarina e no Rio Grande do Sul. Foi a primeira mulher brasileira a ganhar um monumento público, o monumento a Garibaldi e Anita na Praça Garibaldi em Porto Alegre em 1913.
Sua biografia, todavia, até hoje é alvo de polêmicas. Até o final do século XIX, pouco se falava de Anita. O próprio Garibaldi era tratado como figura secundária pelos primeiros historiadores da Revolução Farroupilha. Era conhecido como herói da Unificação Italiana, e não como comandante da Esquadra da República Rio-Grandense.
Entre o final do século XIX e o início do século XX, as grandes levas de italianos que vieram para o Brasil produziram uma classe média e uma elite ítalo-brasileira em São Paulo e no sul do país. Era necessária a cooptação desse novo grupo e nada melhor do que a valorização da família mista, simbolizada pelo casal Giuseppe e Anita.
Nessa época, a catarinense passou a despertar interesse e começaram os subterfúgios dos historiadores para ocultar o fato de Anita ter abandonado o marido para acompanhar Garibaldi, sabido desde 1907. Conforme o período, esse aspecto da biografia de Anita foi retratado de diferentes formas, mas sempre com a preocupação de criar e preservar uma imagem de heroína virtuosa.
O que se sabe sobre Anita Garibaldi? Muito se escreveu sobre ela. São inúmeras as biografias escritas a partir do início do século XX. A grande maioria desses escritos, todavia, acresce aos poucos fatos incontestes episódios imaginados ou romanceados.
Um primeiro aspecto a ser destacado diz respeito à sua condição de heroína farroupilha. Uma análise das fontes revela uma primorosa construção histórica. O nome de Anita não aparece na documentação farroupilha conhecida. Tudo indica que o primeiro texto a mencioná-la são as próprias memórias de Garibaldi, cuja primeira versão foi publicada nos Estados Unidos em 1859 (traduzida e publicada por Theodore Dwight). A versão mais conhecida dessas memórias é de Alexandre Dumas de 1960. Em 1872, foi publicada na Itália uma versão assinada pelo próprio Garibaldi.
Mas mesmo sendo as memórias conhecidas da elite brasileira letrada
desde 1860, perdurou a indiferença em relação a Anita.
Na verdade, o próprio Garibaldi não tinha o status de herói
farroupilha que viria a adquirir depois. O movimento republicano gaúcho,
ao utilizar os idéias farroupilhas na propaganda, raramente mencionava
Garibaldi. Quando o fazia, valorizava mais sua condição de herói
da Unificação Italiana do que seus feitos como corsário
da República Rio-Grandense. Veja-se um texto publicado pelo jornal
republicano A Federação em 20 de setembro de 1885:
Glorioso para a província do Rio Grande do Sul, por recordar o grande
feito revolucionário de 35, o 20 de Setembro relembra à Itália
o fato soleníssimo da unificação da Pátria sublime
de Dante, do excelso Mazzini, do severo Cavour e do imortal Garibaldi. A completa
unificação da Itália há 15 anos representa a mais
bela conquista da democracia, assegurando à Itália as liberdades
que hoje a tornam notável entre os países monárquicos
do velho mundo. Trabalhadores, enérgicos pensadores e altivos, os italianos
transigiam com o governo da casa de Sabóia, mas cimentam maior grandeza
futura. Aos patriotas de 70 — um bravo.
A Proclamação da República não mudou muito esse panorama. A colonização italiana o fez. Nos primeiros anos do século XX, as levas de italianos que chegaram ao Brasil nas décadas anteriores já constituíam um grupo sólido, importante dos pontos de vista econômico, social e político. Era necessário um elo entre a comunidade italiana e brasileira. Foi então descoberto Garibaldi como herói farroupilha.
Em 1907, o centenário do nascimento de Garibaldi foi amplamente comemorado. Em Porto Alegre, o nome da Praça Concórdia foi alterado para Praça Garibaldi, através do ato 50 de 04 de julho de 1907, assinado pelo intendente José Montauri. Por todo o Estado do Rio Grande do Sul, em São Paulo e em alguns outros estados a data foi comemorada.
Nessa época, Anita surgiu como a esposa de Garibaldi. Giuseppe e Anita passaram a simbolizar a família ítalo-brasileira. Nasceu, então, o interesse pela biografia de Anita.
Presume-se que Ana Maria de Jesus Ribeiro nasceu entre 1820 e 1824, mais provavelmente em 1821. Filha de Maria Antônia de Jesus Antunes e Bento Ribeiro da Silva, o Bentão, teve nove irmãos: Felicidade, Manoela, Manoel, Sicília, Francisco, Bernardina, Antônia, João e Salvador. Seus pais casaram-se em Lages em 1815 e se mudaram para Morrinhos, vila que pertencia a Laguna, onde Bentão, de profissão tropeiro, tentaria a sorte como carneador ou pescador. Em 30 de agosto de 1835, na matriz de Santo Antônio dos Anjos da Laguna, Ana casou com Manuel Duarte de Aguiar. Nessa ocasião, seu pai já era falecido, como consta na certidão de casamento. Manuel era sapateiro, mas não há certeza quanto a isso.
O encontro de Garibaldi com Anita ocorreu em Laguna em julho ou agosto de 1839. Garibaldi chegou a Laguna no comando do lanchão Seival. Os farroupilhas, apoiados por terra pelas tropas de David Canabarro e Teixeira Nunes, derrotaram a marinha e as tropas imperiais e entraram vitoriosos em Laguna. Num dos dias após a batalha, começou o namoro. Em 21 de setembro de 1839, Garibaldi e Anita foram padrinhos do menino Eduardo Ferreira, constando o nome de ambos na certidão de batismo. Aproximadamente um mês depois, Anita mudou-se para bordo com Garibaldi.
No início de novembro de 1839, Anita entrou em combate em Imbituba.
Em 15 de novembro, ocorreu o combate com a esquadra imperial sob o comando
do Almirante Mariath, quando a marinha farroupilha foi destruída. No
final do mês, Garibaldi e Anita acompanharam as tropas de Canabarro
em direção ao Rio Grande do Sul. No final de dezembro, lutaram
na batalha de Curitibanos, quando Anita caiu prisioneira, tendo empreendido
a lendária fuga do acampamento imperial e reencontrando Garibaldi oito
dias depois. Em 16 de setembro de 1840, nasceu Menotti em São José
das Mostardas. Depois de
uma dura marcha pelo Planalto Médio, quando quase perderam o bebê,
Garibaldi e Anita passaram a acalentar a idéia de partir para Montevidéu.
Em 21 de maio de 1841, tendo se afastado do movimento farroupilha, Garibaldi, Anita e Menotti chegaram a Montevidéu. Após breve período empregado, Garibaldi envolveu-se nas disputas entre Rivera e Oribe, este apoiado pelo argentino Rosas.
Em 26 de março de 1842, Garibaldi e Anita casaram-se na igreja de São Francisco. Anita declarou-se solteira. Em junho, Garibaldi saiu para a sua primeira expedição fluvial. O italiano defendeu a causa uruguaia até 1848, quando decidiu lutar pela independência da pátria italiana. No Uruguai, nasceram mais três filhos: Rosita, em 11 de novembro de 1843, Teresita, em 22 de março de 1845 e Ricciotti em 24 de fevereiro de 1847. A pequena Teresita faleceu em 23 de dezembro de 1845, de difteria.
Anita foi para a Itália antes de Garibaldi. Chegou a Nice em 8 de março de 1848. Garibaldi chegou em 21 de junho. Foi recebido como herói. Em seguida, Garibaldi iniciou a luta contra os austríacos pela libertação da Itália. Num dos episódios dessa luta, Anita, que o acompanhava, grávida do quinto filho, faleceu, em 4 de agosto de 1849, aos vinte e nove anos.
A biografia de Anita é muito melhor documentada a partir do momento em que ela se une a Garibaldi. Até então, temos registros de batismo, fatos registrados por Garibaldi em suas memórias e relatos de memória oral. Esses últimos são pouco confiáveis. Surgiram quando Anita ficou famosa no início do século XX. Era pouco provável que alguém que a conhecera pessoalmente estivesse vivo nessa época. Há relatos de sua infância e do seu casamento com Manuel Duarte de Aguiar que escritores como Lindolfo Collor romancearam em suas obras.
Mas como se relatou o abandono do marido?
O relato de Garibaldi é famoso. Ele avistou Anita na praia de seu barco
e foi a terra para procurá-la. Ao chegar à praia não
mais a encontrou. Cruzou então com um conhecido do lugar que lhe convidou
para um café. Ao chegar à casa do homem, deparou-se com Anita.
Ficamos os dois estáticos e silenciosos, olhando-nos reciprocamente como duas pessoas que não estão se vendo pela primeira vez, que identificaram na fisionomia do outro qualquer coisa que desperta uma reminiscência.Saudei-a finalmente e lhe disse: “Tu devi esser mia” (...) Tinha encontrado um tesouro proibido, mas um tesouro de grande valor!!! Se houve culpa, foi inteiramente minha. E...houve culpa sim! Sim! Se uniam dois corações com amor intenso e se destruía a existência de um inocente! Ela está morta, eu infeliz, e ele, vingado. Sim, vingado! (Garibaldi, Giuseppe. Memorie di Garibaldi. Roma: Real Comissão Editora, 1872, p. 54-55).
Apesar do estilo confuso, parece claro pelo relato que Anita abandonou o marido para seguir Garibaldi, fato pelo qual ele assumia a culpa (e se sentia culpado). Julgava, inclusive, que a morte precoce da esposa fora um castigo por tal conduta.
Mas a maior parte dos historiadores ignoraram ou não acreditaram em Garibaldi. Alguns exemplos das versões construídas.
João Vicente Leite de Castro (1911) constrói uma das mais fantasiosas. O pai de Anita seria legalista, adepto do Império do Brasil. Por isso, seria contrário ao romance de Anita com Garibaldi. Esse teria feito um pedido de casamento que foi negado pelo pai por razões políticas. Garibaldi, apaixonado e inconformado, então, raptou Anita com a sua concordância. Ora, o pai de Anita já era falecido quando ela encontrou Garibaldi.
Giacomo Lumbroso (1938) afirma que a prova definitiva de que Anita não era casada é o fato de ela ter se declarado solteira quando casou com Garibaldi em Montevidéu. E que o “inocente” a que se refere Garibaldi seria um noivo a quem Anita estava prometida por seu pai.
Muitos autores falam do encontro sem mencionar que Anita era casada. É o caso de Giuseppe Fumagalli (1907), Carlos Cavaco (1955), Walter Spalding (1963) e Max Gallo (1996) .
Dentre os que confirmam ser Anita casada, vários advogam que o marido teria desaparecido, como Annita Garibaldi (1931) e Valentim Valente (1949).
Outros que havia falecido, como Gerson Brasil (1971) e outros que abandonara a mulher seguindo o exército imperial como Lindolfo Collor (1938) e Walter Zumblick (1980) . Essa última é a posição de Wolfgang Ludwig Rau (1975), o pesquisador catarinense que reúne o maior acervo nacional a respeito de Anita Garibaldi. Rau, tão cioso de documentar tudo a respeito de heroína, afirma sem prova documental ter sido Manuel Duarte Aguiar marido desidioso que abandonou Anita à própria sorte, seguindo o exército imperial. Apesar de criticar os autores puritanos, Rau dedica diversas páginas a discorrer (sem provas) sobre a personalidade doentia, introvertida e egocêntrica de Aguiar que justificaria o desamor de Anita. “Quem abandonou quem?” pergunta Rau , jogando uma eventual culpa nas costas do desconhecido marido de Anita. Enfim, chega ao cerne de sua argumentação “Personalidades excepcionais têm direito a viver sua vida diferentemente” . Isso significa que o heroísmo de Anita a absolve.
Henrique Boiteux encontrou em 1907 a certidão de casamento de Anita . Logo, não há motivo para tanta desinformação. A óbvia intenção de todos esses autores, com menor ou maior intensidade, é a de construir para Anita uma imagem de heroína imaculada.
Uma mulher pode atuar como guerreira e se envolver em disputas políticas. Deve, porém, ser virtuosa, ter conduta moralmente ilibada. O fato de abandonar um casamento infeliz, de escolher seu companheiro macularia todos os seus feitos. E não estamos tratando apenas de autores que escreveram na primeira metade do século XX, quando a revolução sexual ainda não tinha ocorrido. Há textos das décadas de 1970 e 1980. Em pleno século XXI, perdura a mistificação. Em 2005, em um seminário internacional, em Porto Alegre, a respeito da Revolução Farroupilha, uma historiadora afirmou que “havia fortes indícios” de que o casamento de Anita com Manuel Aguiar não havia se consumado, sendo Anita virgem quando conheceu Garibaldi!
A idéia de heroína está ultrapassada. Muitas mulheres foram bravas na Revolução Farroupilha sem empunhar armas. Muitas outras pegaram em armas e não tiveram seus nomes conhecidos pela história.
Anita era, como todos os relatos a seu respeito asseguram, de uma coragem
excepcional. Não temia disparos de canhão, cargas de cavalaria
ou espadas empunhadas.Não abandonava a luta, quando muitos soldados
experientes corriam campo a fora. Todavia, seu ato de maior coragem não
é reconhecido por seus biógrafos. Teve a coragem de tomar as
rédeas de sua própria vida.
Cíntia Vieira Souto
Fonte: www.mp.rs.gov.br
Ana Maria de Jesus Ribeiro - nasceu em 1821 em Morrinhos, Laguna, na então província de Santa Catarina.
Seus pais, Bento Ribeiro da Silva e Maria Antônia de Jesus, eram pobres porém honrados.
Do seu pai parece ter herdado a energia e a coragem pessoal, revelando desde criança um caráter independente e resoluto.
Aos 18 anos conheceu a José Garibaldi que viera com as tropas farroupilhas de Davi Canabarro e Joaquim Teixeira Nunes tomar a Laguna em julho de 1839, fundando a República Juliana dos Cem Dias.
Garibaldi chegara à Laguna com fama de herói pelo feito épico que acabara de realizar ao transportar, por terra, as duas embarcações "Farroupilha" e "Seival" de Capivari a Tramandaí e posterior salvamento do naufrágio da primeira ao sul do Cabo de Santa Marta.
Seu encontro com Anita resultou em amor a primeira vista, dando origem a um dos mais belos romances de amor e dedicação incondicionais.
A 20 de outubro de 1839 Anita decide seguir José Garibaldi, subindo a bordo de seu navio para uma expedição de corso até Cananéia.
Sua lua de mel tem lances de grande dramaticidade: Em Imbituba recebe seu batismo de fogo ao serem os corsários atacados por forças marítimas legais.
Dias depois, a 15 de Novembro, Anita confirma sua coragem ímpar e amor heróico a Garibaldi e à cansa na célebre batalha naval de Laguna, contra Frederico Mariath, em que se expõe a mil mortes ao atravessar uma dúzia de vezes num pequeno escaler a área de combate para transportar munições em meio de verdadeira carnificina humana.
Com o fim da efêmera República Lagunense, o casal segue na retirada para o sul.
Subindo a serra, Anita combate ao lado de Garibaldi em Santa Vitória, passa o Natal de 1839 em Lages, toma parte ativa no combate das Forquilhas (Curitibanos) à meia-noite de 12 de janeiro seguinte.
Feita prisioneira de Melo Albuquerque, consegue deste comandante permissão para procurar no campo de batalha o cadáver de Garibaldi que lhe haviam dito morto.
Foge depois espetacularmente, embrenhando-se pela mata atravessando o Rio Canoas a nado reencontrando as tropas em retirada e seu Giuseppe, oito dias depois.
Em 16 de Setembro de 1840 nasceu seu primogênito Menotti em Mostardas, na região da Lagoa dos Patos, no Rio Grande do Sul.
Doze dias depois do parto, é obrigada a fugir dramaticamente a cavalo, seminua e com o recém-nascido ao colo, de um ataque noturno de Pedro de Abreu durante a ausência de Garibaldi.
Reencontrados depois, Anita e o filho seguiram, também, na posterior grande retirada pelo mortífero vale do Rio das Antas, da qual nos conta o próprio Garibaldi foi a mais medonha que jamais acompanhou, e que a desesperada coragem de Anita conseguiu meios de salvar o filho à última hora.
Em 1841, dispensado por Bento Gonçalves, Garibaldi segue com a pequena família para Montevidéu, engajando-se nas lutas uruguaias contra o tirano Rosas.
A 26 de Março de 1842, Garibaldi casa com Anita na antiga Igreja de São Francisco de Assis.
Nos anos seguintes Anita tem mais 3 filhos Rosita, Teresita e Riccioti.
Rosita não consegue vencer um ataque de difteria, falecendo aos trinta meses, deixando seus pais desesperados.
Em fins de 1847 segue Anita com seus três filhos para a Itália, para Gênova e Nice sendo seguida pelo marido poucos meses depois.
Na Itália Anita Garibaldi deu múltiplas demonstrações de aprimoramento intelectual, aparecendo como esposa condigna do herói italiano cuja estrela começa a brilhar internacionalmente.
Infelizmente a vida de Anita foi demasiado curta.
Em meados de 1849 vai a Roma sitiada pelos franceses ao encontro do marido, e com ele e sua Legião italiana faz a célebre retirada, dando repetidas mostras de grande dignidade e de coragem em lances de bravura frente aos inimigos austríacos.
Grávida pela quinta vez e muito doente, não aceita os conselhos para permanecer em San Marino para restabelecer-se.
Não quer abandonar o marido quando quase todos o abandonam.
Acompanhado de poucos fiéis, ziguezagueando pelos pântanos ao Norte de Ravenna, fugindo dos Austríacos, prometendo pena de morte a eles garibaldinos e a quem lhes ajudasse José Garibaldi vê definhar rapidamente a mulher que mais amou na vida e de sua coragem disse desejara muitas vezes fosse a dele! Pelas 19 horas do dia 4 de agosto de 1849, Anita Garibaldi falece nos braços do esposo em pranto, longe dos filhos, num quartinho do segundo pavimento da casa dos irmãos Ravaglia em Mandriole, próximo a Santo Alberto.
Fonte: www.anitagaribaldi.freeservers.com