Anita Garibaldi é uma das raras brasileiras que, antes do século XX, participou de forma ativa de episódios políticos e militares da história do Brasil. Ao lado do companheiro, o italiano Giuseppe Garibaldi, atuou em algumas das batalhas decisivas da Revolução Farroupilha em Santa Catarina e no Rio Grande do Sul. Foi a primeira mulher brasileira a ganhar um monumento público, o monumento a Garibaldi e Anita na Praça Garibaldi em Porto Alegre em 1913.

Sua biografia, todavia, até hoje é alvo de polêmicas. Até o final do século XIX, pouco se falava de Anita. O próprio Garibaldi era tratado como figura secundária pelos primeiros historiadores da Revolução Farroupilha. Era conhecido como herói da Unificação Italiana, e não como comandante da Esquadra da República Rio-Grandense.
Entre o final do século XIX e o início do século XX, as grandes levas de italianos que vieram para o Brasil produziram uma classe média e uma elite ítalo-brasileira em São Paulo e no sul do país. Era necessária a cooptação desse novo grupo e nada melhor do que a valorização da família mista, simbolizada pelo casal Giuseppe e Anita.
Nessa época, a catarinense passou a despertar interesse e começaram os subterfúgios dos historiadores para ocultar o fato de Anita ter abandonado o marido para acompanhar Garibaldi, sabido desde 1907. Conforme o período, esse aspecto da biografia de Anita foi retratado de diferentes formas, mas sempre com a preocupação de criar e preservar uma imagem de heroína virtuosa.
O que se sabe sobre Anita Garibaldi? Muito se escreveu sobre ela. São inúmeras as biografias escritas a partir do início do século XX. A grande maioria desses escritos, todavia, acresce aos poucos fatos incontestes episódios imaginados ou romanceados.
Um primeiro aspecto a ser destacado diz respeito à sua condição de heroína farroupilha. Uma análise das fontes revela uma primorosa construção histórica. O nome de Anita não aparece na documentação farroupilha conhecida. Tudo indica que o primeiro texto a mencioná-la são as próprias memórias de Garibaldi, cuja primeira versão foi publicada nos Estados Unidos em 1859 (traduzida e publicada por Theodore Dwight). A versão mais conhecida dessas memórias é de Alexandre Dumas de 1960. Em 1872, foi publicada na Itália uma versão assinada pelo próprio Garibaldi.
Mas mesmo sendo as memórias conhecidas da elite brasileira letrada desde 1860, perdurou a indiferença em relação a Anita. Na verdade, o próprio Garibaldi não tinha o status de herói farroupilha que viria a adquirir depois. O movimento republicano gaúcho, ao utilizar os idéias farroupilhas na propaganda, raramente mencionava Garibaldi. Quando o fazia, valorizava mais sua condição de herói da Unificação Italiana do que seus feitos como corsário da República Rio-Grandense. Veja-se um texto publicado pelo jornal republicano A Federação em 20 de setembro de 1885:
Glorioso para a província do Rio Grande do Sul, por recordar o grande feito revolucionário de 35, o 20 de Setembro relembra à Itália o fato soleníssimo da unificação da Pátria sublime de Dante, do excelso Mazzini, do severo Cavour e do imortal Garibaldi. A completa unificação da Itália há 15 anos representa a mais bela conquista da democracia, assegurando à Itália as liberdades que hoje a tornam notável entre os países monárquicos do velho mundo. Trabalhadores, enérgicos pensadores e altivos, os italianos transigiam com o governo da casa de Sabóia, mas cimentam maior grandeza futura. Aos patriotas de 70 — um bravo.
A Proclamação da República não mudou muito esse panorama. A colonização italiana o fez. Nos primeiros anos do século XX, as levas de italianos que chegaram ao Brasil nas décadas anteriores já constituíam um grupo sólido, importante dos pontos de vista econômico, social e político. Era necessário um elo entre a comunidade italiana e brasileira. Foi então descoberto Garibaldi como herói farroupilha.
Em 1907, o centenário do nascimento de Garibaldi foi amplamente comemorado. Em Porto Alegre, o nome da Praça Concórdia foi alterado para Praça Garibaldi, através do ato 50 de 04 de julho de 1907, assinado pelo intendente José Montauri. Por todo o Estado do Rio Grande do Sul, em São Paulo e em alguns outros estados a data foi comemorada.
Nessa época, Anita surgiu como a esposa de Garibaldi. Giuseppe e Anita passaram a simbolizar a família ítalo-brasileira. Nasceu, então, o interesse pela biografia de Anita.
Presume-se que Ana Maria de Jesus Ribeiro nasceu entre 1820 e 1824, mais provavelmente em 1821. Filha de Maria Antônia de Jesus Antunes e Bento Ribeiro da Silva, o Bentão, teve nove irmãos: Felicidade, Manoela, Manoel, Sicília, Francisco, Bernardina, Antônia, João e Salvador. Seus pais casaram-se em Lages em 1815 e se mudaram para Morrinhos, vila que pertencia a Laguna, onde Bentão, de profissão tropeiro, tentaria a sorte como carneador ou pescador. Em 30 de agosto de 1835, na matriz de Santo Antônio dos Anjos da Laguna, Ana casou com Manuel Duarte de Aguiar. Nessa ocasião, seu pai já era falecido, como consta na certidão de casamento. Manuel era sapateiro, mas não há certeza quanto a isso.
O encontro de Garibaldi com Anita ocorreu em Laguna em julho ou agosto de 1839. Garibaldi chegou a Laguna no comando do lanchão Seival. Os farroupilhas, apoiados por terra pelas tropas de David Canabarro e Teixeira Nunes, derrotaram a marinha e as tropas imperiais e entraram vitoriosos em Laguna. Num dos dias após a batalha, começou o namoro. Em 21 de setembro de 1839, Garibaldi e Anita foram padrinhos do menino Eduardo Ferreira, constando o nome de ambos na certidão de batismo. Aproximadamente um mês depois, Anita mudou-se para bordo com Garibaldi.
No início de novembro de 1839, Anita entrou em combate em Imbituba.
Em 15 de novembro, ocorreu o combate com a esquadra imperial sob o comando
do Almirante Mariath, quando a marinha farroupilha foi destruída. No
final do mês, Garibaldi e Anita acompanharam as tropas de Canabarro
em direção ao Rio Grande do Sul. No final de dezembro, lutaram
na batalha de Curitibanos, quando Anita caiu prisioneira, tendo empreendido
a lendária fuga do acampamento imperial e reencontrando Garibaldi oito
dias depois. Em 16 de setembro de 1840, nasceu Menotti em São José
das Mostardas. Depois de
uma dura marcha pelo Planalto Médio, quando quase perderam o bebê,
Garibaldi e Anita passaram a acalentar a idéia de partir para Montevidéu.
Em 21 de maio de 1841, tendo se afastado do movimento farroupilha, Garibaldi, Anita e Menotti chegaram a Montevidéu. Após breve período empregado, Garibaldi envolveu-se nas disputas entre Rivera e Oribe, este apoiado pelo argentino Rosas.
Em 26 de março de 1842, Garibaldi e Anita casaram-se na igreja de São Francisco. Anita declarou-se solteira. Em junho, Garibaldi saiu para a sua primeira expedição fluvial. O italiano defendeu a causa uruguaia até 1848, quando decidiu lutar pela independência da pátria italiana. No Uruguai, nasceram mais três filhos: Rosita, em 11 de novembro de 1843, Teresita, em 22 de março de 1845 e Ricciotti em 24 de fevereiro de 1847. A pequena Teresita faleceu em 23 de dezembro de 1845, de difteria.
Anita foi para a Itália antes de Garibaldi. Chegou a Nice em 8 de março de 1848. Garibaldi chegou em 21 de junho. Foi recebido como herói. Em seguida, Garibaldi iniciou a luta contra os austríacos pela libertação da Itália. Num dos episódios dessa luta, Anita, que o acompanhava, grávida do quinto filho, faleceu, em 4 de agosto de 1849, aos vinte e nove anos.
A biografia de Anita é muito melhor documentada a partir do momento em que ela se une a Garibaldi. Até então, temos registros de batismo, fatos registrados por Garibaldi em suas memórias e relatos de memória oral. Esses últimos são pouco confiáveis. Surgiram quando Anita ficou famosa no início do século XX. Era pouco provável que alguém que a conhecera pessoalmente estivesse vivo nessa época. Há relatos de sua infância e do seu casamento com Manuel Duarte de Aguiar que escritores como Lindolfo Collor romancearam em suas obras.
Mas como se relatou o abandono do marido?
O relato de Garibaldi é famoso. Ele avistou Anita na praia de seu barco e foi a terra para procurá-la. Ao chegar à praia não mais a encontrou. Cruzou então com um conhecido do lugar que lhe convidou para um café. Ao chegar à casa do homem, deparou-se com Anita.
Ficamos os dois estáticos e silenciosos, olhando-nos reciprocamente como duas pessoas que não estão se vendo pela primeira vez, que identificaram na fisionomia do outro qualquer coisa que desperta uma reminiscência.Saudei-a finalmente e lhe disse: “Tu devi esser mia” (...) Tinha encontrado um tesouro proibido, mas um tesouro de grande valor!!! Se houve culpa, foi inteiramente minha. E...houve culpa sim! Sim! Se uniam dois corações com amor intenso e se destruía a existência de um inocente! Ela está morta, eu infeliz, e ele, vingado. Sim, vingado! (Garibaldi, Giuseppe. Memorie di Garibaldi. Roma: Real Comissão Editora, 1872, p. 54-55).
Apesar do estilo confuso, parece claro pelo relato que Anita abandonou o marido para seguir Garibaldi, fato pelo qual ele assumia a culpa (e se sentia culpado). Julgava, inclusive, que a morte precoce da esposa fora um castigo por tal conduta.
Mas a maior parte dos historiadores ignoraram ou não acreditaram em Garibaldi. Alguns exemplos das versões construídas.
João Vicente Leite de Castro (1911) constrói uma das mais fantasiosas. O pai de Anita seria legalista, adepto do Império do Brasil. Por isso, seria contrário ao romance de Anita com Garibaldi. Esse teria feito um pedido de casamento que foi negado pelo pai por razões políticas. Garibaldi, apaixonado e inconformado, então, raptou Anita com a sua concordância. Ora, o pai de Anita já era falecido quando ela encontrou Garibaldi.
Giacomo Lumbroso (1938) afirma que a prova definitiva de que Anita não era casada é o fato de ela ter se declarado solteira quando casou com Garibaldi em Montevidéu. E que o “inocente” a que se refere Garibaldi seria um noivo a quem Anita estava prometida por seu pai.
Muitos autores falam do encontro sem mencionar que Anita era casada. É o caso de Giuseppe Fumagalli (1907), Carlos Cavaco (1955), Walter Spalding (1963) e Max Gallo (1996) .
Dentre os que confirmam ser Anita casada, vários advogam que o marido teria desaparecido, como Annita Garibaldi (1931) e Valentim Valente (1949).
Outros que havia falecido, como Gerson Brasil (1971) e outros que abandonara a mulher seguindo o exército imperial como Lindolfo Collor (1938) e Walter Zumblick (1980) . Essa última é a posição de Wolfgang Ludwig Rau (1975), o pesquisador catarinense que reúne o maior acervo nacional a respeito de Anita Garibaldi. Rau, tão cioso de documentar tudo a respeito de heroína, afirma sem prova documental ter sido Manuel Duarte Aguiar marido desidioso que abandonou Anita à própria sorte, seguindo o exército imperial. Apesar de criticar os autores puritanos, Rau dedica diversas páginas a discorrer (sem provas) sobre a personalidade doentia, introvertida e egocêntrica de Aguiar que justificaria o desamor de Anita. “Quem abandonou quem?” pergunta Rau , jogando uma eventual culpa nas costas do desconhecido marido de Anita. Enfim, chega ao cerne de sua argumentação “Personalidades excepcionais têm direito a viver sua vida diferentemente” . Isso significa que o heroísmo de Anita a absolve.
Henrique Boiteux encontrou em 1907 a certidão de casamento de Anita . Logo, não há motivo para tanta desinformação. A óbvia intenção de todos esses autores, com menor ou maior intensidade, é a de construir para Anita uma imagem de heroína imaculada.
Uma mulher pode atuar como guerreira e se envolver em disputas políticas. Deve, porém, ser virtuosa, ter conduta moralmente ilibada. O fato de abandonar um casamento infeliz, de escolher seu companheiro macularia todos os seus feitos. E não estamos tratando apenas de autores que escreveram na primeira metade do século XX, quando a revolução sexual ainda não tinha ocorrido. Há textos das décadas de 1970 e 1980. Em pleno século XXI, perdura a mistificação. Em 2005, em um seminário internacional, em Porto Alegre, a respeito da Revolução Farroupilha, uma historiadora afirmou que “havia fortes indícios” de que o casamento de Anita com Manuel Aguiar não havia se consumado, sendo Anita virgem quando conheceu Garibaldi!
A idéia de heroína está ultrapassada. Muitas mulheres foram bravas na Revolução Farroupilha sem empunhar armas. Muitas outras pegaram em armas e não tiveram seus nomes conhecidos pela história.
Anita era, como todos os relatos a seu respeito asseguram, de uma coragem
excepcional. Não temia disparos de canhão, cargas de cavalaria
ou espadas empunhadas.Não abandonava a luta, quando muitos soldados
experientes corriam campo a fora. Todavia, seu ato de maior coragem não
é reconhecido por seus biógrafos. Teve a coragem de tomar as
rédeas de sua própria vida.
Cíntia Vieira Souto
Fonte: www.mp.rs.gov.br
Admirada no Brasil e idolatrada na Itália, onde morreu há exatos 150 anos, a humilde jovem lagunense Ana Maria de Jesus Ribeiro, conhecida como Aninha do Bentão, uniu-se a um revolucionário, foi soldado, enfermeira, esposa e mãe. Em todos os papéis, sua batalha sempre foi travada em nome da liberdade e da justiça. Tornou-se assim Anita Garibaldi, a "Heroína dos Dois Mundos" .
Celso Martins

Menina de origem humilde, sem nenhuma instrução, calça seu primeiro sapato já moça. Porém, possui uma tenacidade e um amor à liberdadesó reservada aos grandes vencedores.
Assim Garibaldi refere-se a Anita, quando dita sua biografia a Alexandre Dumas: "Era Anita a mãe dos meus filhos, a companheira da minha vida nas boas e nas más horas, a mulher cuja coragem tantas vezes desejei fosse minha". Foi dentro desta cumplicidade, só existente entre quem vive um grande amor, como o que viveram Anita e Garibaldi.
Anita participa das lutas em Imbituba, na tomada de Laguna, e em Curitibanos, onde foi capturada. Consegue fugir e em Lages, às margens do Rio Pelotas, cuida dos poucos sobreviventes feridos. Seus gestos de bravura e coragem, quando em defesa de seus ideais de liberdade, lhe renderam o título de "Heroína dos Dois Mundos" (recebe este título em função de ter lutado primeiramente aqui na América e morrer lutando na Europa, mais precisamente na Itália, por seus ideais).
Na atitude natural dessa heroína simples existe a força convincente de um símbolo. E é cultivando nossos heróis que assumimos os compromissos do presente, dos quais resultarão as realizações do futuro.
Em meados de 1836, Bento Gonçalves instaura o governo da Nova República Rio-Grandense. Nessa época, Ana de Jesus Ribeiro, ou simplesmente Anita, deixa para trás sua adolescência, firmando-se com um caráter independente e resoluto, e Giuseppe Garibaldi desembarca no Rio de Janeiro, iniciando um exílio que durou 10 anos.
Nessa cidade Garibaldi conhece Lívio Zambiccari, Secretário de Bento Gonçalves e Luiggi Rosseti, que lhe falam do Movimento Farroupilha. Alista-se a este Movimento como corso, recebendo a patente de Capitão-Tenente a serviço da República rio-grandense. Ele luta com tanta bravura e idealismo, incorporando de tal maneira a figura do gaúcho, que já velho, na Itália, aparece vestindo o poncho e o lenço vermelho, símbolos da Revolução Farroupilha.

"Ana não era nenhuma formosura de dama unânime e universal, mas tão somente uma fisionomia a traços puros e severos, revelando um espírito varonil, inabalável em seus sentimentos e afetos. Era uma dessas filhas do povo a quem a natureza dotara com caracteres definitivos, imutáveis, almas austeras, amando uma só vez na vida e com abnegação e heroicidade." (Virgílio Várzea)
"Sem ter sido formosa propriamente, nem possuidora de sólida cultura, onde quer que Anita Garibaldi aparecesse, dela se irradiavam a luz e a fascinação de uma extraordinária personalidade, duma vontade inquebrantável e senhorial; luz e fascinação poderosas a ponto de constrangerem ainda hoje - impossível a presença física de Anita - até mesmo a um pessimista que se dispuser a detalhar a biografia. A mera curiosidade inicial do estudioso brevemente cederá lugar à atenção maior..." (Wolfgang Rau)
"Desde cedo ela revelou caráter independente e resoluto e uma singular firmeza de atitudes. Além disso muito amor-próprio e a coragem e a energia que certamente herdara do pai. Não tolerava certas liberalidades, naqueles tempos de rígidos costumes. O seu temperamento levava-a, por vezes, a atitudes que causavam sérios desgostos à atribulada mãe". (Ruben Ulysséa)
Inauguração do monumento integrou atividades que lembraram os 115 anos de morte da lagunense. Anos antes, começou-se a falar no translado das cinzas de Anita
Anita só ganhou uma estátua em sua terra natal 115 anos após a morte, resultado dos esforços de um grupo que batalhou 14 anos para concretizar o objetivo. A inauguração ocorreu em setembro de 1964, mas o movimento começou no dia 10 de julho de 1955. "A não existência de vistoso monumento consagrado à memória de Anita é lacuna imperdoável", assinalava o escritor Ildefonso Juvenal.
União com o desterrense Manoel Duarte de Aguiar, em agosto de 1835, não trouxe filhos nem alegrias para Aninha. Infeliz, não hesitou em acompanhar sua grande paixão
Ana Maria de Jesus Ribeiro casou-se em 30 de agosto de 1835, na Igreja Matriz de Laguna com Manoel Duarte de Aguiar, um sapateiro nascido na Barra da Lagoa ou Ingleses, em Desterro, hoje Florianópolis. O registro encontra-se no Livro de Casamentos de 1832 a 1844 da mesma igreja, assinado pelo padre Manuel Francisco Ferreira Cruz, atualmente sob os cuidados do Arquivo Episcopal de Tubarão.
As razões para o fracasso do casamento, apontadas pelos que escreveram sobre Anita, são diversas e muitas delas destinadas a justificar o fato de haver deixado Manoel Duarte para ficar com Giuseppe Garibaldi. A conclusão mais razoável é a de Wolfgang Rau. Primeiro, ela foi "gravemente negligenciada e mesmo abandonada por seu primeiro marido". Segundo, porque Manoel, "após o casamento, continuou com seu trabalho, limitado a bater solas, gostar de cachorros e de pescarias noturnas. Dificilmente se lhe via um sorriso; acanhado com as pessoas estranhas, provia, metódico e organizado, o difícil pão de cada dia".
Com o passar do tempo, ainda segundo Rau, o marido de Aninha passou a "demonstrar em casa o seu caráter conservador e ciumento. Avesso às mudanças de situação, era reacionário a todas as novidades. Viu-se, pois, Aninha trancada entre paredes, levando vida apagada e monótona, sem ao menos ter com quem expandir suas idéias ou a quem relatar seus sonhos, originados de exaltada imaginação, em procura permanente de horizontes mais dilatados. Em breve, compreendeu não estar realizada ao lado do pacato marido, o qual não lhe confirmou, sequer, fecundidade".
Introvertido, "era de todo e por tudo inadequado para esposo de Anita; passado o primeiro momento de vida em comum, revelou-se aos dois o erro desse matrimônio omisso de maturidade. Sem filhos e sem alegrias partilhadas, veio a ficar-lhes apenas o arrependimento de terem casado". Em resumo, um casamento "falho de prazer e de fruto", complementa Rau.
Na introdução ao precioso "Anita Garibaldi - Uma Heroína Brasileira", de Wolfgang Rau, Oswaldo Rodrigues Cabral critica os "historiadores ufanistas", que procuram encontrar uma "justificativa para o ato de Ana de Jesus abandonar o marido e atirar-se nos braços de Garibaldi". Acha que não faz sentido pensar "que para ser uma heroína, para se ter ingresso na imortalidade, para se figurar no Panteão da História, é imprescindível atestado de boa conduta, folha corrida, carta e antecedentes ideológicos, atestado de vacina, CPF e outros documentos que nos situam no tempo e no espaço, a nós simples mortais, que figuramos do lado de cá da aurora boreal da glória".
Estes, segundo Cabral, "imaginam que o esplendor da imortalidade fica embaciado por falta do cumprimento de certas regras que marcam, na planície, o nosso comportamento de cada dia. Nada disto! É preciso que se diga que há muita santa venerada nos altares cujo pecado se não foi o de Anita, talvez tivesse sido muito pior... E que, para ser santa, não se lhe exigiu mais do que a coragem da fé, a bravura do martírio ou a penitência do arrependimento... Anita deixou o marido, abandonou-o porque se apaixonou pelo aventureiro de bela estampa, audaz, que lhe prometia (e lhe deu...) uma vida fora da obscuridade da Carniça ou do Passo da Barra. E está acabado o assunto".
Uma grande paixão arrastou Aninha de Laguna. Ela seguiu Garibaldi, a quem conheceu em 1839, vivendo um romance que durou até a sua morte, dez anos depois, em 4 de agosto de 1849, em Mandriole, Itália. Aninha começou a virar Anita quando Garibaldi a conduziu triunfalmente por meia Itália para o túmulo em Nice. Foi quando se recordou sobretudo sua bravura militar nas batalhas de Imbituba e da Barra, a fuga espetacular na serra catarinense e na pequena São Simão gaúcha, a dedicação como mãe e sobretudo o profundo amor pelo marido, fatores que a transformaram em mito. Anita foi símbolo da Unificação Italiana. Seu nome foi "glorificado" para servir aos interesses do posivitivismo após a proclamação da República no Brasil.
A lagunense continua atenta. Nas décadas de 30 e 40 o mito serviu aos interesses no fascismo na Itália, no Brasil tinha a imagem usada pelo integralismo direitista, enquanto muitos núcleos do Partido Comunista se denominavam Anita Garibaldi, nome que foi dado à primeira filha do lendário Luís Carlos Prestes. Tudo isso simultaneamente. Tanto ecletismo talvez a incomode. Mas isso não desvia a sua atenção para o alarido sobre onde deverá, afinal, descansar em paz - se na ilha de Caprera, junto a Garibaldi, em Laguna, para onde falam em levá-la, ou onde está, no Gianícolo, em Roma.
Autores como Henrique Boiteux e Leite de Castro, os primeiros a escrever sobre Anita no início do século, omitiram o detalhe do primeiro casamento. Outros, como Valentim Valente e Wolfgang Rau, foram bem mais adiante. "Garibaldi sempre foi reticente com referência ao estado civil de Aninha ao conhecê-la, e isso induziu Alexandre Dumas e autores brasileiros e italianos a perfilharem a versão errônea de que era solteira (e o pai, 'ferrenho imperialista', teria tentado impedir o namoro)", assinala Valente.
Rau acrescenta que "Garibaldi, e mais tarde os seus próprios filhos, ocultaram obstinadamente o fato de ter sido Anita casada em primeiras núpcias com Manoel Duarte". Em 1970, quando Rau conheceu pessoalmente uma neta de Anita, Giuseppina Garibaldi Ziluca, filha do general Ricciotti, citou o primeiro casamento, tendo ouvido um "mas não pode ser, meu pai nunca nos falou nisso!"
O destino de Manoel Duarte, depois que Aninha e Garibaldi se conheceram, não foi esclarecido até hoje, existindo diversas versões. Uns, como Rau, dizem que foi convocado para a Guarda Nacional, tendo se retirado da vila com as tropas legalistas, diante da vitória das forças rebeldes em Laguna. O mesmo autor ouviu de uma parente de Anita pelo lado materno (Leopoldina Antunes Dalsasso) que tanto o marido Manoel Duarte quando seu pai, Bentão, estariam "entrevados e de cama" na ocasião da chegada dos revolucionários farroupilhas. Também existe a versão de que Duarte morreu doente num hospital em Laguna.
De todas elas, a versão mais intrigante é a que foi localizada pelo arcebispo Dom Joaquim Domingues de Oliveira, escrita por Taciano Barreto do Nascimento, bisneto do tio do primeiro marido, antigo inspetor escolar. Num documento datado de 6 de junho de 1935, analisado por Rau e por Licurgo Costa, são feitas algumas revelações supreendentes. "Segundo informações que tive de dona Lucinda Duarte, viúva de José Duarte, tio do meu pai, Manoel Duarte, marido de Anita, era sobrinho e filho de criação de João Duarte, avô de meu pai'."
O mesmo Taciano informa que Anita, "ao casar-se com seu distante parente Manoel Duarte, fora morar na casa do seu bisavô, o referido João Duarte, no morro da Barra, em frente ao ancoradouro dos navios farroupilhas". Lá, "Garibaldi logo travou relações com João Duarte, sendo freqüentador da casa onde morava também Anita e seu marido", que teria sido "preso pelos soldados de Garibaldi e este apossou-se de Anita, com quem já andava de amores na própria casa de João Duarte, o qual ao saber do desaparecimento do sobrinho pediu a Garibaldi que o mandasse soltar".
O italiano teria prometido soltá-lo mas, segundo depoimento de dona Lucinda a Taciano, mas "parecia" que os soldados farroupilhas "o haviam matado". Mas, também se dizia que Manoel Duarte fora efetivamente solto e, por vingança - "esta será a versão mais aceitável", segundo Licurgo - se alistara nas tropas imperiais. "Garibaldi então levou Anita para uma moradia no lugar denominado Rincão, bairro de Laguna, onde passaram a viver juntos", segundo o descendente de Manoel Duarte. O pesquisador Wolfgang Rau também considera essa hipótese a mais aceitável.
Segundo Oswaldo Rodrigues Cabral, o fato de Aninha haver rompido o primeiro casamento "não causou escândalo extraordinário na Laguna. Ana era moça humilde, que não freqüentava a sociedade local mais classificada", assinala. "Evidentemente", completa, "provocou comentários, pois era mais uma das provas do comportamento reprovável dos revolucionários, cuja soldadesca não só submetia a população a maus tratos e vexames, como seus próprios chefes seduziam e furtavam dos lares mulheres inexperientes e crédulas."
Diferentes estudos indicam que Anita Garibaldi pode ter nascido em Laguna, Tubarão ou Lages. Certeza, entretanto, ninguém tem, mas a primeira versão é a mais difundida
As polêmicas sobre o local e data de nascimento de Anita Garibaldi começaram há quase um século, alimentando o mito ao longo das décadas e mantendo o nome da heroína no noticiário. Até o final do século passado havia um consenso entre os historiadores - destacando-se Henrique Boiteux e mesmo Virgílio Várzea, em seus primeiros escritos sobre o tema - de que ela havia nascido na localidade de Mirim, hoje pertencente a Imbituba, na época sob jurisdição de Laguna.
Quando escreveu "Garibaldi na América", em 1902, Várzea pediu a ajuda de "um amigo de Tubarão, que pediu a outro amigo para ajudar, e este localizou um senhor com mais de 90 anos de idade, Anacleto Bittencourt. Este senhor Anacleto disse haver conhecido Anita ainda pequena, em Morrinhos de Tubarão, onde ela também teria nascido", explica o pesquisador lagunense Antônio Carlos Marega. Essa possibilidade ganhou um reforço importante por volta de 1911, com o depoimento de Maria Fortunata da Conceição, a dona Licota, que teria vivido até os 120 anos.
A versão foi colhida por José Luís Martins Colaço, filho do coronel João Luís Collaço, "prestigioso chefe político tubaronense", segundo Walter Zumblick, sendo publicada inicialmente no jornal "Folha do Comércio" (agosto de 1911) e transcrito na revista "Poliantéa" (7 de maio de 1936), comemorativa ao centenário de Tubarão. Segundo Licota, Anita teria nascido em Morrinhos de Tubarão, nas margens do rio Seco, um braço do rio Tubarão. Esse foi "o local onde a família de Bento Ribeiro da Silva sempre residiu", diz Zumblick, após ter vindo de Lages, onde se casara e residira algum tempo.
O aparecimento de Licota estabeleceu um divisor de águas, dando origem às polêmicas que periodicamente ressurgem entre Laguna (Mirim) e Tubarão (Morrinhos). Com base em documentos sabe-se que Bento Ribeiro da Silva, pai de Anita, era tropeiro, natural de São José dos Pinhais, filho de Manoel Colaço e Ângela Maria, tendo se casado em 13 de junho de 1815, em Lages, com Maria Antônia de Jesus, nascida em 12 de junho de 1788, filha de Salvador Antunes (natural de Sorocaba) e Quitéria Maria Soiza (lagunense). Ao todo o casal teve nove filhos.
Quando o escritor Wolfgang Rau publicou os primeiros resultados das suas pesquisas, surgiram revelações que alimentaram mais polêmicas. A localização pelo pesquisador dos registros de batismo de quase todos os irmãos de Anita encorajou o pesquisador lageano Licurgo Costa a publicar uma terceira versão do local de nascimento da heroína. Além de citar depoimentos ouvidos na infância, apegou-se a um detalhe importante: a irmã mais velha de Anita foi registrada em Laguna em 1º de novembro de 1816, não havendo registros das seguintes, Manoela e Anita. Os dois irmãos posteriores, Manoel e Sissília, foram registrados em Lages (1822 e 1824) e os demais em Laguna. Ana Maria nasceu em 1821.
Essas revelações reforçaram o que contava Francisco Correia, na casa de quem Anita pernoitou em janeiro de 1840, quando fugiu da prisão em Curitibanos e estava à procura de Garibaldi. Segundo ele, Anita afirmou na ocasião "ser filha de mãe lageana, que o pai era fazendeiro, no Tributo, e que nascera numa fazenda chamada Socorro, para as bandas da serra Geral. Diante deste testemunho, no tempo em que ainda não se discutia qual era o lugar de nascimento de Anita, parece-nos esclarecido um assunto que tem dado margem a tanta celeuma", diz Licurgo Costa. Correia narrou esses fatos à avó de Licurgo diversas vezes.
Outro depoimento citado pelo mesmo escritor é o de Ezírio Rodrigues Nunes, nascido em 1822 e falecido aos 94 anos, em 1916. Sua neta, Maria Palma de Haro, esposa de Martinho de Haro, dizia que Ezírio "muitas vezes contou que uma de suas companheiras de brinquedos e travessuras, na fazenda de Nossa Senhora do Socorro, onde ambos nasceram, foi Anita Garibaldi, que então era conhecida como Aninha do Bentão". Acrescentava que "ele, Ezírio, nascera no ano da independência do Brasil - 1822 - e que Anita era um ano mais velha que ele, tendo, pois, nascido em 1821".
Licurgo reforça sua tese revelando que Dom Joaquim Domingues de Oliveira, "alguns anos antes de falecer, se comprometera a fazer uma conferência sobre Anita. E, como tinha gosto pelos assuntos históricos, meteu mãos à obra e começou a pesquisar os arquivos de sua diocese e outras fontes. Um dia, com o trabalho já quase pronto, comentou para seu secretário que não poderia fazer a conferência: uma revelação que obtivera poderia 'causar atritos muito desagradáveis em Santa Catarina'. E cancelou a conferência". O escritor lageano, contudo, reconhece que foi em Laguna que Anita "se destacou para o mundo".
A descoberta recente de um documento no Museu Anita Garibaldi, em Laguna, reforçou a tese do nascimento da heroína em Mirim. A descoberta foi feita pelo pesquisador Amadio Vetoretti, do Arquivo Histórico de Tubarão, que, ao folhear o livro de "Querelas" de 1815 a 1830 de Laguna, encontrou e registro de um auto que dá João da Costa Coimbra contra Bento Ribeiro da Silva. O querelante acusa o pai de Anita de atacá-lo com uma faca, em 1822, na região de Morrinhos de Tubarão, na época pertencente a Laguna. Como Anita nasceu em 1821, a presença de Bentão no local no ano seguinte serviria como confirmação da versão de que ela também nascera ali.
O pesquisador lagunense Antônio Carlos Marega, que abrira as portas do museu a Vetoretti, ficou intrigado e resolveu investigar melhor a descoberta. Constatou, depois de muito trabalho, que o documento não era de 1821, mas de 1826, o que veio reforçar a tese do nascimento em Mirim, onde Anita teria residido até 4 ou 5 anos de idade, quando a família se mudou para Morrinhos de Tubarão. Ainda menina Anita teria feito amizade com Licota, levando essa última a acreditar, dezenas de anos mais tarde, que a heroína também teria nascido ali. Tudo isso se encaixaria perfeitamente, não fossem a versão e os argumentos levantados por Licurgo Costa de que Anita nasceu em Lages.
A versão do nascimento de Anita Garibaldi em Morrinhos de Tubarão foi a que prevaleceu junto ao governo da Itália, sob o regime de Benito Mussolini, ao ser escolhido em 1932 o local para a colocação de um monumento, constituído de um morro de granito e uma placa, fundida em Turim, com um canhão que teria pertencido ao Seival, na base. Em 23 de junho de 1937 o Batalhão Escola de Tubarão colocou outra placa junto à primeira, reforçando em Tubarão a intenção de vincular o nome de Anita ao da cidade. Em 1985 o artista plástico Willy Zumblick construiu um mural com a imagem de Anita e Giuseppe Garibaldi numa fonte, dando maior destaque ao monumento.
Fonte: www.resenet.com.br