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Anita Garibaldi

Sozinha, fugiu pela vegetação fechada

Quando foi levada à presença do coronel Melo Albuquerque, prisioneira, Anita estava "mal vestida e desgrenhada, com a voz embargada pelo ardor da peleja e por se ter afastado do marido. Sofria horrivelmente sem o demonstrar, porém, com gestos e palavras", contou 20 anos depois a jovens alunos cadetes o próprio Albuquerque. "Nossa atitude diante dela era de admiração, pois jamais havíamos imaginado encontrar uma mulher tão valorosa, catarinense, compatriota nossa, dando ao mundo tão sublime prova de valor e intrepidez", complementou o coronel.

Anita só pensava em Garibaldi. "Ela acreditava-me morto", assinala o italiano. "Movida por essa idéia, rogou e obteve a permissão para ir procurar o meu corpo entre os cadáveres no campo de batalha." Durante muito tempo ela vagou pela região onde havia sido travada a batalha, "volvendo entre os mortos aqueles que haviam tombado com o rosto contra o solo, como aqueles que, em suas vestes ou em suas estaturas, ela encontrava semelhança comigo". Quando teve certeza que Garibaldi não estava morto, tratou de fugir. Aproveitando-se de um temporal, segundo alguns autores, ou de uma embriaguez coletiva, segundo outros, ou das duas circunstâncias, Anita esgueirou-se pelo acampamento inimigo e fugiu, auxiliada por uma mulher.

Uma vez livre, embrenhou-se na mata, sozinha, evitando os caminhos mais movimentados. "Só quem viu aquelas vastas florestas que envolvem os cimos do Espinilho - com os seus pinhos seculares que parecem destinados a escorar o céu e que são as colunas de um suntuoso templo da natureza, cujas lacunas povoam-se de gigantescos canaviais e onde fervilham animais e répteis cuja picada é fatal - poderá aquilatar os perigos que ela teve de correr e as dificuldades que teve de superar", contou Garibaldi.

Entre os autores que descrevem esse momento da vida de Anita, o mais objetivo é Wolfgang Rau. Em algum ponto ela furtou o cavalo de um miliciano, com o qual prosseguiu a fuga, enfrentando diversos obstáculos, como o da travessia do rio Canoas, chegando a Lages. "Quatro cavaleiros, postados na passagem do rio Canoas, esquivaram-se à visão daquele vulto, despenhando-se atrás das moitas da riba. Enquanto isso, Anita alcançava a beira da torrente. A torrente, transbordada pelas chuvas, duplicada pelos ribeiros descendentes das montanhas, transformara-se num rio", narra Garibaldi.

"Conta-se que quando chegou ao passo dos cabaçais no rio Canoas, ao escurecer, deparou com quatro guardas que, surpreendidos por aquele vulto de mulher, de cabelos soltos, com um pala branco esvoaçante, àquela hora, montada em pelo, tomaram-na por uma assombração e fugiram, espavoridos para o mato", descreve o escritor Licurgo Costa.

"À noitinha do dia seguinte, exausta, desgrenhada, faminta", conta o mesmo autor, "chegou a um rancho situado no lugar onde muitos anos mais tarde foi criada a sede do primitivo distrito de Correia Pinto, distante uns 20 quilômetros da vila de Lages. Ali vivia com esposa, filhos e uma cunhada solteira um farroupilha vindo do Rio Grande do Sul, foragido, de nome Correia". Francisco Correia, filho desse farroupilha, contava essa passagem "com cores novelescas, comentários à margem e vários 'suspenses'".

Correia costumava começar dizendo que "já estava bem escuro quando ela bateu à porta. O pai estava ausente e a mãe e a tia se sobressaltaram, ninguém as procurava de noite e era tempo de revolução, ademais. Com grande cautela entreabriram a janela. Um vulto vestido de homem, desgrenhado, pediu pousada. Respondeu a tia que era a mais velha, que só tinham duas camas", ao que, dizia o Chico Correia, Anita afirmou "que não fazia mal, que dormiria com ela. Indignada, porém, com receio daquela figura bizarra, que não conseguia divisar bem, retrucou-lhe que era uma senhora de bem e que não devia ser ofendida por uma pessoa a quem estava atendendo com tanta consideração".

Seios

Acontece então a famosa cena em que Anita, "abrindo a camisa, mostra seus exuberantes seios para provar que era mulher". Anita tinha uma voz bonita, "nem fina nem grossa, um tom meio rouco. Mas esclarecia que não era voz de homem, porém parecida. Daí também ser confundida, pelas senhoras, com um homem", explica Licurgo.

Anita seguiu em frente. Os que pesquisaram a vida da heroína lagunense divergem em relação ao local do reencontro com Garibaldi. Um falam em Vacaria, no Rio Grande do Sul, outros que isso ocorreu em Lages, Santa Catarina. O fato é que, quando Anita localizou os farroupilhas, Teixeira Nunes teria perguntado como ela conseguira chegar até ali, ao que ela respondeu: "Vim vindo, coronel!"

Em Lages, casal vive mês de tranqüilidade

Anita Garibaldi

Garibaldi e Anita passaram quase um mês em Lages, onde chegaram no dia 18 de dezembro de 1839. Viveram dias felizes e tranqüilos, tendo assistido à missa do galo na Igreja de Nossa Senhora dos Prazeres, na noite do dia 24 para 25. Pela primeira vez os dois puderam conviver no interior de uma casa de verdade. Para alguns eles ocuparam uma casinha coberta com tabuinhas de pinho, como informa o pesquisador Wolfgang Rau.

Licurgo Costa dá outra versão. Eles teriam morado numa "pequena casa de adobe". Segundo Fernando Athayde, citado por Costa, a casa era a mesma que, "por volta dos anos 1918 e 1919, pertencia ao doutor Antônio Antunes Ribas Filho, na então rua 15 de Novembro, atual Nereu Ramos, parede e meia com o sobrado do coronel Belisário Ramos, ainda hoje existente e correspondente ao número 199 da referida via pública. A casa do doutor Ribas Filho, de número 201, foi demolida na década de 1920. Quando Garibaldi e Anita nela moraram, o nome da via era rua de Cima".

Escultura de Luzi di Rimini, em frente à Igreja de São Clemente, em Mandriole (onde o corpo de Anita esteve sepultado algum tempo), mostra imagem de Giuseppe Garibaldi carregando nos braços a mulher doente

Itália ergueu grandes monumentos

Quantidade de homenagens ao casal Garibaldi no país onde Anita morreu revela a profunda admiração dos italianos pela heroína brasileira

Celso Martins

Aqui estão os restos mortais de Anita Garibaldi", anuncia uma placa fixada no magnífico monumento com que o ditador Benito Mussolini decidiu homenagear a famosa lagunense, valendo-se de seu passado heróico para levantar os brios do povo italiano.

A localização privilegiada já indica o carinho que os italianos dedicam há anos a Anita Garibaldi. Está no Gianícolo, numa das sete colinas de Roma, na Piazza Anita Garibaldi, a 100 metros de um gigantesco pedestal construído em cimento que abriga a legendária figura de Giuseppe Garibaldi.

Naquele local, onde descortina-se uma bela paisagem do centro da capital italiana, travou-se uma das mais heróicas batalhas pela instauração da República em Roma. Garibaldi manteve o ponto estratégico com apenas 15 mil soldados, contra 65 mil dos inimigos franceses. Registrou-se ali um dos mais sangrentos combates do longo período pela implantação da República. É conhecido oficialmente como "Passegiata del Gianicolo".

A área é inteiramente arborizada. Veículos circulam em grande quantidade durante todo o dia. Lanchonetes móveis representam um bom indicativo da presença constante de turistas nacionais e estrangeiros. As obras que se realizavam nas proximidades durante os meses de junho e de julho sinalizam para alguma restauração comemorativa aos 150 anos de morte da ilustre catarinense.

A inauguração do monumento foi um acontecimento político de grande repercussão em Roma. Mussolini providenciou, em primeiro lugar, a transferência dos restos mortais de Anita Garibaldi de Nice para a capital italiana. O pedido foi feito em 1930. Como o monumento não ficou concluído, autorizou a transferência de Nice para Gênova, o que ocorreu em 1931. A imprensa da época registra uma extraordinária afluência de público. Os garibaldinos comemoram até hoje, enfatizando: "Foi o maior cortejo fúnebre da história da Itália". As associações garibaldinas na Itália reproduzem em revistas, jornais e panfletos as fotos da célebre passeata.

A imensa escultura de bronze está colocada sobre um pedestal de alvenaria, medindo cerca de dez metros de largura e oito de altura. Sobre ele, uma mulher jovem montada no selim do cavalo a galope, patas dianteiras no ar. Com um revólver na mão direita e uma criança recém-nascida agarrada com a mão esquerda, junto ao peito, transmite uma imagem forte, até emocionante, mesclada de bravura e amor maternal. A obra, que levou dois anos para ser concluída, é de autoria do escultor Rutelli, avô do atual prefeito de Roma.

A base do monumento traz quatro outras esculturas em bronze escuro, fixadas nas laterais do pedestal. Uma delas retrata a célebre batalha do Capão da Mortandade, ocorrida no município de Curitibanos. Tem seis metros de largura e cinco de altura, numa reprodução da cena em que Anita Garibaldi fugiu da prisão, atravessando rios e florestas para reencontrar Giuseppe.

Uma placa de bronze na base marca a homenagem prestada há 64 anos pelos brasileiros: "A Anita Garibaldi o governo brasileiro, em comemoração ao centenário de Farrapos. 20-9-1935".

Dois outros marcos históricos são lembrados pelos italianos para homenagear Anita Garibaldi. Um deles, também com uma concepção dramática, é representado pela cena de Anita às vésperas de sua morte. Idealizada pelo escultor Luzi di Rimini, o monumento foi inaugurado em 24 de abril de 1976. Fica numa pequena praça toda gramada, espaço igual à da metade de um campo de futebol, rodeada de árvores, na frente da Igreja de São Clemente, em Mandriole, na Província de Ravena.

Giuseppe Garibaldi segura Anita, já enfraquecida, olhando para o céu, como se buscasse alguma proteção milagrosa para a cura da esposa e a proteção contra o inimigo. É a imagem que se obtém em outros registros artísticos da fuga do casal, com Anita já acometida por tifo, segundo as versões mais acreditadas, com o marido sofrendo pesada perseguição dos exércitos austríacos.

O tributo prestado na Igreja de São Clemente tem motivação histórica. A capela é pequena e simples, mas marca a arquitetura do século 16. Em sua sacristia, o corpo de Anita Garibaldi foi sepultado em 11 de agosto de 1859, graças à intervenção de Dom Francesco Burzatti. Cientes da busca que os austríacos faziam do corpo encontrado na fazenda, famílias garibaldinas recolheram os ossos e esconderam em suas casas. Mediante a garantia do sacerdote de que na Igreja não haveria riscos, procedeu-se a transferência. Construiu-se então uma sacristia na capela para dar uma sepultura segura à legendária brasileira.

Na mesma região de Ravena há outra marca do amor dos italianos a Anita Garibaldi - um monumento, de porte médio, com um busto da heroína lagunense, foi construído defronte à casa da Fazenda Guicioli, onde se deu sua morte. O texto gravado numa placa de bronze destaca em enormes letras: "Do outro oceano, com cabelos ao vento e o estampido do fuzil, Anita foi para Garibaldi e para a Itália a verdadeira imagem da liberdade".

Um casarão antigo, conservado, próximo de uma estrada secundária asfaltada e bem sinalizada, conserva até hoje, intactos, o quarto e até a cama onde Anita Garibaldi morreu há 150 anos. Tem um espaço pequeno, com cerca de seis metros quadrados. As paredes estão decoradas com pinturas de Anita e Giuseppe Garibaldi, algumas individuais e outras contendo cenas do general carregando a amada já gravemente enferma. Ou de Anita sendo transportada deitada num carro-de-boi, e Giuseppe protegendo-a com um improvisado guarda-sol. E também com passagens pela região pantanosa de Ravena.

À saída, num escritório improvisado, o visitante pode adquirir diversos cartões postais de Anita e Giuseppe Garibaldi, folhetos fotocopiados e pequenas publicações. Alguns trabalhos são distribuídos gratuitamente e outros vendidos como "souvenirs". Entre todos os interlocutores italianos, do modesto empregado que atenda o casarão aos visitantes que chegam, um fato comum: profunda admiração pela jovem catarinense que ajudou a construir a unificação italiana.

No monumento do Gianicolo estão os restos mortais de Anita Garibaldi

Giuseppe descansa na Ilha de Caprera

Entre os troféus, documentos, cartazes, esculturas, livros e peças históricas sobre Giuseppe e Anita Garibaldi existentes na sede da Federação das Associações Garibaldinas, na praça da República, em Roma, podem ser localizadas preciosas informações sobre a principal atração turística da Ilha de Caprera, localizada no extremo Norte da Sardenha e proclamada como reserva ecológica da Itália.

Ali está enterrado Giuseppe Garibaldi. Ali ele encontrou o local ideal para o exílio e é idolatrado pela população como o principal herói italiano. As fotos e os textos relatam que há preciosidades no museu, com destaque para o poncho e o chapéu levados de suas andanças pelo Brasil.

Garibaldi adquiriu metade da ilha em 1854, cinco anos após a morte de sua amada e logo depois do retorno do segundo exílio, nos Estados Unidos. O primeiro foi no Brasil e no Uruguai. Foi condenado à morte em 1834, depois de participar de uma revolta fracassada, já desfraldando a bandeira de uma Itália unificada, independente e republicana.

Vivendo em Caprera e já famoso na Europa, Garibaldi foi promovido ao posto de general pelo Conde de Cavour, mais com o objetivo de neutralizar seu poder do que para vê-lo em ação bélica.

Cartas

Anita Garibaldi

Há testemunhos seus sobre ações desenvolvidas no Sul de Santa Catarina, cartas amorosas dirigidas a Anita e relatos de sua passagem pelo Uruguai. Em relação a Laguna, merece destaque sua atuação na instalação da República Catarinense, em 29 de julho de 1839.

Anita nunca viveu na ilha, mas sua memória é reverenciada por Giuseppe e pela direção do museu. Pelos depoimentos de dirigentes garibaldinos em Roma, os guias turísticos da Ilha de Caprera cometem uma injustiça: falam muito da epopéia de Giuseppe na Itália e no Uruguai e praticamente nada de sua permanência no Brasil ou em Santa Catarina.

Toda a família Garibaldi está enterrada na Ilha de Caprera.

Primeiro filho do casal nasce no Rio Grande

Doze dias depois, mãe foge de ataque legalista com o bebê nos braços. Surge a célebre cena que inspirou tantos artistas

Celso Martins

O dia 16 de setembro de 1840 é muito importante para o casal Garibaldi. Nessa data, na paróquia de São Luiz de Mostardas, no Rio Grande do Sul, nascia o primeiro filho do casal - Domenico Menotti Garibaldi. Domenico, ou Domingos, era o nome do pai de Giuseppe e Menotti, uma homenagem a Ciro Menotti, patriota italiano executado em 1831. Foi um momento singular na vida dos Garibaldi, tanto pela maternidade, como pelas dificuldades que enfrentariam em terras gaúchas.

Eles chegaram a Viamão, próximo de Porto Alegre, em meados de 1840, vindos da serra catarinense. Depois de instalados, Garibaldi retomou as atividades guerreiras, havendo participado do frustrado ataque a São José do Norte, enquanto Anita cuidava da gravidez. Poucas semanas antes do parto ela foi levada para a casa da família Costa, na localidade de São Simão, junto à Lagoa dos Patos. Giuseppe voltou ao estaleiro farrapo, encarregado de construir escaleres, projeto que não deu certo.

Poucos dias após Anita haver dado à luz, o marido dirigiu-se a Viamão, em busca de suprimentos e víveres, principalmente para o novo membro da família. "Já distanciado em algumas milhas", recorda nas Memórias, "ouvi uma estrepitosa fuzilaria dos lados que eu acabara de deixar. Sobrevieram-se algumas suspeitas, mas eu não podia tornar ao ponto de onde partira. Assim cheguei a Setembrina (Viamão), onde adquiri agasalhos de que necessitava. Depois disso, ainda preocupado com aquela fuzilada, tomei o rumo de São Simão." Foi quando ele ficou sabendo do que havia ocorrido - um ataque legalista às forças rebeldes, comandado por Francisco Pedro de Abreu (Moringue), futuro barão de Jacuí.

Anita estava sozinha com Menotti, com apenas 12 dias de vida, sendo avisada na última hora do ataque. Foi quando, sem hesitar um só minuto, tomou o filho nos braços e fugiu. Isso aconteceu "sob uma inclemente tempestade", assinala Garibaldi. "Montada em seu cavalo, andrajosa, com seu pobre filho de través sobre a sela, vira-se forçada a buscar refúgio na mata."

A primeira coisa que Giuseppe fez, ao saber do ataque, foi procurar a mulher no rancho dos Costa. "Não encontrei Anita nem a boa gente que lhe dera albergue. Localizei-os, porém, na ourela de um capão, de onde não se haviam arredado, sem saber exatamente por onde andava o inimigo e se tinham ainda alguma coisa a temer", destaca. Essa fuga espetacular de Anita inspira até hoje os poetas, músicos, escultores e artistas plásticos.

Henrique Boiteux, por exemplo, um dos que primeiro narrou a cena, salienta o fato de Anita ter sido "constrangida a saltar a cavalo, em noite tempestuosa, com a simples roupa do corpo, trazendo aos braços o precioso fardo, e correr por entre os silvados e barrancos à procura de um lugar seguro onde se pudesse esconder e agasalhar aquele pedaço de sua alma".

No Uruguai, cuidava da família e da casa

Os recém-chegados foram recebidos em Montevidéu pelo carbonário Napoleão Castellini, que hospedou o casal e o pequeno Menotti durante algum tempo. Era junho de 1841. Garibaldi vendeu os couros para garantir o sustento imediato da família, obtendo emprego como professor de matemática e história, auxiliado pelo padre Paul Semidei, diretor do colégio.

A ajuda da maçonaria foi fundamental para Garibaldi naquele momento. Nas horas de folga atuava como mascate, aproximando-se dos marinheiros italianos no porto, inteirando-se de tudo o que acontecia na Itália. Assim que consegue alugar a casa número 114 da rua do Portão de São Pedro, Garibaldi ingressa no movimento de resistência contra as investidas do ditador argentino Rosas. Sua primeira missão foi a chefia da corveta Constituição.

Anita, por seu lado, começa um longo período como mãe e dona-de-casa, enquanto o marido cumpre tarefas militares. Ao chegar em Montevidéu, cidade com 31 mil habitantes, Menotti tinha nove meses de idade, sendo batizado no dia 23 de março de 1843. Pouco antes, os dois haviam se casado na Igreja de São Bernardino. Rosa (Rosita), a segunda experiência materna de Anita, faleceu no dia 23 de dezembro de 1845. Em 22 de março de 1846 nasceu Teresa e em 24 de fevereiro de 1847, Riccioti. Quando morreu, em 4 de agosto de 1849, já na Itália, Anita estava grávida há seis meses.

A família Garibaldi levou uma vida quase miserável em Montevidéu, tendo faltado comida, agasalho e até mesmo vela para iluminar a casa. Mas houve o lado bom. Nesse período Anita pôde conviver com outros exilados da Itália, adquirindo conhecimentos, ouvindo experiências e dominando outros idiomas, como o italiano e o espanhol, enfim, ampliando os horizontes. Acompanhou de perto a formação da Legião Italiana, que chegou a contar com 600 componentes - muitos acompanharam Giuseppe, posteriormente, nas lutas pela Unificação. Anita também cultiva a amizade fraterna de dona Bernardina, esposa do presidente Uruguaio, Fructuoso Rivera.

Quando Rosita morreu, Garibaldi estava fora lutando. Anita arrumou as malas e seguiu em sua direção, navegando pelo rio Uruguai até Santo Antônio do Salto, onde passou a residir por algum tempo. Surgem cenas de ciúme, verdadeiras explosões, ao saber dos namoros do marido naquela região. É clássica a cena em que Anita exige de Garibaldi o corte dos cabelos, que, segundo ela, atraíam as mulheres. Mais tarde retornam a Montevidéu, no mesmo momento em que as agitações revolucionárias começam a dominar a Europa e também a Itália.

Acompanhada por Menotti, Teresita e Ricciotti, Anita embarca em dezembro de 1847 com destino a Gênova. Ela vai na frente para sentir o "clima político" na Itália e verificar a possibilidade do retorno do marido, contra quem pesa uma antiga sentença de morte. Garibaldi parte em abril do ano seguinte. Antes de embarcar, porém, furta do Cemitério Central de Montevidéu os ossos da filha Rosita, levando-os consigo.

Subida da serra foi penosa

O frustrado ataque dos farroupilhas a São José do Norte, visando a conquista de um porto de mar, e a concentração de tropas imperiais na região, levou o estado-maior rebelde a executar uma retirada organizada. Uma coluna - da qual faz parte o casal - toma o caminho da serra, sob o comando de Canabarro, enquanto a outra acompanha Bento Gonçalves pelo Litoral. "Aquela retirada, empreendida na estação hibernal, no meio de uma região montanhosa e sob uma chuva incessante, foi a mais terrível e a mais fatal que jamais vi", recorda Garibaldi nas "Memórias".

A retirada durou três meses. Durante esse tempo Anita "sofreu tudo o que se pode humanamente sofrer sem a entrega da alma ao diabo", suportando a adversidade com "estoicismo e com uma coragem inexprimível". Os retirantes passaram por privações devido à falta de meios de transportes, "tendo no laço o único recurso de aprovisionamento". Para o "cúmulo das desgraças, os rios, bem próximos entre si naquelas matas virgens, enchiam sobremaneira, e a tenebrosa chuva que nos acossava não cessando de cair, uma parte das nossas tropas via-se freqüentemente aprisionada entre dois cursos d'água, e lá ficava privada de todo alimento", complementa Garibaldi.

Nas "alturas mais perigosas" e nas travessias dos rios, Menotti era levado pelo pai, "suspenso por um lenço" junto ao corpo, "de modo que eu podia aquecê-lo com a minha respiração". Restavam a Garibaldi quatro das 12 mulas e cavalos que havia levado. Para complicar a jornada, os guias se perderam no interior da "assombrosa floresta". A certa altura Anita seguiu na frente a cavalo, com a criança e um serviçal, tendo encontrado mais à frente um piquete farroupilha. Por sorte, eles estavam com o fogo acesso, apesar das fortes chuvas, e tinham agasalhos de lã, com os quais Menotti foi aquecido, assim como a mãe.

Na região de Vacaria a coluna de Canabarro aguardou a de Bento Gonçalves. Retomando a marcha, os farrapos seguiram para Cruz Alta, tomando o rumo de São Gabriel. É quando Garibaldi decide seguir para Montevidéu, acompanhado de Anita e Menotti. "Pedi minha dispensa ao presidente", diz, referindo-se a Bento Gonçalves, e "a permissão para arrebanhar uma pequena quantidade de reses", que pretendia ir vendendo pelo caminho. Cerca de 900 cabeças foram retiradas da fazenda Curral das Pedras, com autorização do ministro rebelde das Finanças, Domingos José de Almeida. Inexperiente como tropeiro, Garibaldi foi perdendo a manada pelo caminho, nos charcos e travessias dos rios. As reses que restaram foram abatidas e os couros levados a Montevidéu.

Personagens são cultuados pelos gaúchos

A presença dos Garibaldi no Rio Grande do Sul é cultivada pelos pesquisadores Elma Sant'Ana e Cary Ramos Valli. Enquanto a primeira lidera o Piquete de Anita, com base em Porto Alegre, o segundo vasculha os sinais das atividades de Giuseppe na marinha rebelde, sendo presidente do Farroupilha - Grupo de Pesquisas Históricas. "Atuamos sozinhos, sem apoio oficial, e por isso não conseguimos dar conta", explica Sant'Ana, autora de várias obras resgatando a presença de Anita e sua família naquele estado.

A memória de Anita e Giuseppe começou a ser registrada em 1911 com um monumento ao casal em Porto Alegre. A iniciativa foi da colônia italiana gaúcha, que encomendou o trabalho em Carrara (Itália), instalado-o na praça Garibaldi no dia 20 de setembro, data da conquista de Roma em 1870. Na placa está escrito: "Giuseppe e Anita Garibaldi. Ai Riograndensi la Colonia Italiana XX Settembre 1870". Infelizmente, o monumento não está bem cuidado. "Faltam três dedos de Anita, que tem o nariz quebrado. A inscrição está quase apagada", lamenta Sant'Ana.

Em várias cidades gaúchas foram plantadas mudas da Árvore de Anita (figueira) existente em Laguna, mas não recebem a devida atenção. A de Mostardas, por exemplo, onde nasceu o primeiro filho da heroína, morreu. Não são conhecidas as condições e a localização de outras que estão em Viamão, Caçapava, Vila de Itapuã e praça Garibaldi, na Capital. "Quando iniciamos as cavalgadas do Piquete de Anita, escolhemos essa praça como ponto de partida", assinala Sant'Ana. As Anitas do piquete vão estar hoje em Laguna, acompanhando a passagem dos 150 anos da morte da inspiradora.

Apesar de todos esses problemas, muita coisa está sendo feita em torno de Anita no Rio Grande do Sul. Elma tem realizado palestras em escolas, "plantando as sementes", além de idealizar um Roteiro Garibaldino, abrangendo alguns municípios por onde o italiano passou - Capivari do Sul, Tramandaí, Cruz Alta, São Gabriel e Passo Fundo. Também estão sendo estabelecidos convênios de intercâmbio entre Mostardas e Aprília (Itália), onde está enterrado o filho ilustre Menotti Garibaldi. Outras cidades do Rio Grande estão sendo envolvidas.

A população gaúcha conhece e reverencia a memória de Anita. No ano passado, o radialista Lauro Quadros, da rádio Gaúcha, organizou uma pesquisa de opinião para saber a posição dos ouvintes sobre a campanha para o translado dos restos mortais de Anita da Itália. "Cerca de 70% dos que se manifestaram afirmaram que ela deve permanecer onde está. O programa teve muita repercussão e audiência", relata Sant'Ana, para quem isso demonstra o interesse público. "Como cidadã brasileira acho que os restos mortais deveriam vir para cá, mas como mulher e gaúcha, não", complementa.

Anita Garibaldi foi a personalidade feminina escolhida para marcar o 15º aniversário da Federação das Mulheres Gaúchas (FMG), comemorado em julho de 1997. Na ocasião, a pesquisadora Yvonne Capuano falou no Museu Júlio de Castilhos sobre "Anita Garibaldi, Uma Heroína de Dois Mundos". A escolha, segundo a presidente da FMG, Maria Amália Martini, se deu, especialmente, por ter sido "uma gaúcha com longa trajetória de lutas e conquistas". Anita é considerada gaúcha há muito tempo. "O Albor" de 24 de junho de 1934 dizia que "Anita já não é mais nossa", lembrando que "um experimentado historiador e escritor emérito, reportando-se ao 'ímpeto e bravura da mulher riograndense', apresentou-nos Anita na roupagem duma sublime gauchada, como autêntica heroína dos pampas".

Fonte: www1.an.com.br

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