NO PRIMEIRO SEPULTAMENTO FOI ARRASTADA POR CORDA AMARRADA NO PESCOÇO
Garibaldi sentiu em sua alma a maior e mais triste de todas as suas derrotas, e culpou-se amargamente por não tê-la deixado entregue aos cuidados das senhoras de Cetona ou em San Marino. De nada tinha adiantado todo o esforço e o sacrifício da penosa fuga. Tinham restadas infrutíferas as dores e os temores daqueles últimos dias em fuga, que ela mesma havia imposto a sí própria e ao seu companheiro. A fatalidade e a morte venceram a ambos!
Não foi somente Garibaldi que pranteou tão lastimável e insubstituível perda. Os compatriotas italianos, os liberais uruguaios, os farrapos brasileiros e os republicanos dos dois continentes, que não puderam prantea-la no derradeiro instante de sua vida, prantearam-na depois, cujas lágrimas foram convertidas em milhares de placas e monumentos que ergueram-se nos diversos países do Novo e do Velho Mundo.
Passados os instante iniciais do trágico acontecimento, o fiel Leggero tentou retirar Garibaldi do local, pois tinha sido informado que um destacamento austríaco andava pelas proximidades de onde encontravam-se. Garibaldi recusou-se a retirar-se do local, não queria abandonar o corpo inerte de sua amada esposa e companheira de tantas lutas. Queria dar-lhe um sepultamento digno. Fez com que os presentes e responsáveis pela Fattoria assim prometessem. Mesmo assim, permaneceu ao lado do inerte corpo de Anita, enquanto o Major Leggero a todo instante implorava para ambos retirarem-se do local, pois a presença colocava em risco não apenas a si próprio, mas também a todos da Fattoria:
"-Pela Itália, pelos teus filhos, devemos partir..." (96)
Uma hora após a morte de Anita, derrotado e contrariado, Giuseppe Garibaldi foi retirado do local e conduzido por uma charrete para a localidade de Santo Alberto, dando prosseguimento a Trafila, que o levaria salvo ao exílio na América. Ao sair, porém, prometeu à sua própria consciência que um dia voltaria para buscá-la, fazendo-lhe um funeral compatível com a grandiosidade de sua coragem e dedicação. Prometeu sepultá-la novamente, ao lado de seu pai, em Nizza, promessa esta que efetivamente cumpriu após dez anos, tão logo retornou de seu longo exílio, antes de iniciar a segunda parte da guerra pela unificação da Itália.
Antes de retirar-se do local onde jazia o inerte corpo de sua companheira e amada, retirou do cadáver os sapatos, o sobrevestido, um lenço e um anel. Levou consigo apenas o anel, deixando no quarto mortuário o restante. Anita chegara em Mandriole já semi-despida para maior conforto da moribunda.
Suas roupas de reserva vinham em uma bolsa à parte. Tudo foi posteriormente confiscado pelas autoridades.
A promessa feita à Garibaldi, entrementes, não pode ser cumprida. Como justificar aos vizinhos, à polícia e aos austríacos os demorados atos religiosos sem que a identidade da morta fosse revelada? Era necessário livrarem-se do corpo, o mais rapidamente possível, pois já tinham feito a parte essencial de suas obrigações cristãs. Agora era necessário resguardarem sua integridade física. Assim, tão logo afastou-se Garibaldi, Stefano Ravaglia ordenou a dois operários braçais da Fattoria o clandestino e rápido enterro de Anita. Com medo e por não terem nenhuma ligação ou relação com a morta, executaram a féretra empreitada sem a mínima consideração, de maneira dantesca e brutal, apavorados por duplo medo: o de contágio, pois ignorava-se a moléstia que matou Anita, e o das patrulhas noturnas do General Gorzkowski.
Transportaram o cadáver, displicentemente jogado sobre um carro de duas rodas, até meio quilometro afastado da Fattoria. Como encalhou na areia o rústico veículo, completaram o percurso até o local previsto arrastando a morta pelo chão, por meio de uma corda que lhe amarraram ao pescoço! No local até hoje conhecido Landa Pastorara, formado por um areal coberto por vegetação rasteira, sepultaram-na em cova rasa, às pressas e escondidos pela escuridão da noite.
Poucos dias após o secreto sepultamento, uma mão feminina, já dilacerada por animais, foi descoberta pela menina Pasqua Dal Pozzo, aflorando do pasto ressequido. O fato foi informado aos pais e estes comunicaram à polícia.
Rapidamente correu a notícia do achado de cadáver de "mulher desconhecida"... Após a exumação cadavérica, seguiram-se as costumeiras providências oficiais: laudos policiais e do clero. A necropsia revelou a existência de feto de cerca de seis meses, sem possibilidade definir-lhe o sexo, devido ao adiantando estado de putrefação.
A ação dos desalmados coveiros, tinha produzido um ferimento profundo no pescoço de Anita, que confundiu o médico legista na posterior necropsia, fazendo-o declarar em seu primeiro laudo que tinha ocorrido "morte por estrangulamento" Inicialmente acreditaram as autoridades locais que se tratava de um homicídio por estrangulamento, praticado contra uma mulher grávida, provavelmente da Região, motivo pelo qual foi instaurado um inquérito policial para apurar a responsabilidade criminal. Como a morte de Anita foi conhecida por diversos operários da Fattoria Guicciolli, poucos dias após soube-se que tratava-se do cadáver da esposa de Giuseppe Garibaldi, o que atraiu a atenção das autoridades militares austríacas que buscavam o casal.
Estes rapidamente espalharam a notícia de que a marca ao redor do pescoço
de Anita havia sido provocado por Giuseppe Garibaldi, que querendo livrar-se
do incômodo da presença de sua doente e grávida mulher,
a havia enforcado. Para dar maior credibilidade ao boato que visava tão
somente denegrir a imagem do condottieri, exibiram o laudo médico que
afirmava ter ocorrida a morte por estrangulamento.
Imediatamente prenderam o feitor Stefano Ravaglia e outras pessoas envolvidas com o triste episódio, determinadas pelos militares tedescos, pois tinha havido o descumprimento à ordem que proibia o auxílio e o socorro ao casal Garibaldi. Porém, o inquérito instaurado pela polícia local, após diversos dias, esclareceu o acontecido. Foram ouvidos o médico e as demais pessoas presentes no momento da morte de Anita, que safaram-se de uma condenação argumentando que tinham praticado um ato humanitário, dando guarida a uma doente, enferma, o fizeram sem indagar a identidade da moribunda. Foi um gesto católico, e pela prática desta caridade não poderiam ser condenados. Quanto ao fato de darem proteção a Garibaldi não lhes puderam ser imputada a pena desobediência, pois o mesmo demorou-se por pouco mais de uma hora, tendo sido retirado do local momentos após a morte da companheira.
Ao final, prevaleceram o bom senso e a justiça; veio a absolvição dos implicados. Não houve crime de estrangulamento. O cadáver de "mulher desconhecida" era o de Anita Garibaldi. Morreu grávida, de morte natural. Houve apenas ocultamento de cadáver, que naquelas circunstâncias foi encarada como sendo por razões justificáveis, assumidos pelos que humanitariamente envolveram-se, ou acabaram sendo envolvidos pelos trágicos acontecimentos.
Sobre a doença que deu causa à morte de Anita, muitas dúvidas ainda hoje restam. O Dr. Pietro Nannini, atestou que a vitimou "grave febre perrniciosa" e mais adiante referiu-se a uma "Febre terciária simples". Antes de chegar a Roma, tinha passado por Maremma, que havia sofrido uma invasão de anófeles, insetos que transmsitem a malária. Naqueles dias, diversos soldados foram vitimados por esta doença. A tuberculose, lesão pulmonar, congestão intestinal e tifo das montanhas foram outras causas mortis atribuídas por diversos estudiosos e pesquisadores. As evidências, entretanto, apontam para o impaludismo.
SEGUNDO SEPULTAMENTO DE ANITA
No dia 11 de agosto, após a autópsia, embora em adiantado estado de decomposição, o Juiz encarregado do inquérito, ainda desconhecendo a identidade do cadáver, chamou o padre Burzatti e confiou-lhe o cadáver de Anita. Estava despido e duplamente mutilado pela ação dos animais e pela ação do bisturi da necropsia. Imediatamente o padre solicitou autorização do Bispo para o enterro dos restos mortais da "mulher desconhecida" no cemitério local, localizado nos fundos da Igreja de Mandriolle. Devidamente autorizado, foram realizadas as exéquias e sepultado em cova simples, com uma cruz de madeira.
TERCEIRO SEPULTAMENTO DE ANITA
Dez anos após, ainda era grande a peregrinação que a população fazia ao cemitério para reverenciar à memória da heroína. Exaltando-se novamente os ânimos da população contra o Papa, alguns garibaldinos remanescentes, liderados por Francesco Manetti, alguns dos quais tiveram participação e colaboraram para o êxito da trafila, seqüestraram os restos mortais de Anita, colocando-os em uma urna, sepultando-a escondida, em lugar seguro. Tinham o receio de que a sepultura fosse violada pelos adversários da unidade italiana, para serem dispersados e impedir que seus despojos fossem usados para reacender o sentimento unitário italiano.
QUARTO SEPULTAMENTO DE ANITA
Algumas semanas após, descoberto o seqüestro indevido, o padre Francesco Burzatti envidou esforços para recuperar os restos mortais, no que logrou êxito, tendo recebido em devolução a féretra caixa, mediante a promessa de enterrá-los no interior da Igreja, ao lado do altar. A promessa foi efetivamente cumprida.
QUINTO SEPULTAMENTO DE ANITA
Em 22 de setembro de 1859, tão logo voltou de seu longo exílio, Giuseppe Garibaldi, acompanhado pelos filhos Menotti, Riciotti e Teresita, esteve em Mandriolle e novamente desenterrou os restos mortais da Heroína, fazendo-lhe um cortejo fúnebre, com o intuito de conduzi-los para serem sepultos em Nizza, junto a sua mãe, que havia falecido em 1852. No caminho, uma verdadeira consagração garibaldina em romaria cívica, passou por diversas cidades, parando-se para homenagens e exaltações diante de seus restos mortais nas cidades de Ravena, Bolonha, Livorno, Gênova e Nizza. Com este cortejo fúnebre Garibaldi atingiu dois propósitos: pagou a promessa feita à memória de Anita no dia de seu falecimento, além de motivar e exaltar as populações por onde passou a retomarem e prosseguirem com a interrompida luta pela unidade italiana.
SEXTO SEPULTAMENTO DE ANITA
A cidade de Nizza e região foram transferidas aos domínio da França, em pagamento dos empréstimo de guerra que este País tinha feito à Itália, durante o segundo período da campanha da unificação. Sob o domínio francês, Nizza passou a ser conhecida como Nice, fazendo com que Anita ficasse sepulta em território francês. Em 1931, por solicitação do Governo de Mussolini, a França consentiu no traslado dos restos mortais para Roma. Como as obras da Praça Anita Garibaldi, no Gianículo, ainda não estavam pronto para recebê-la, foi transportada e sepultada provisoriamente para Gênova, junto ao Cemitério de Staglieno.
SÉTIMO SEPULTAMENTO DE ANITA
Finalmente, em 2 de junho de 1932, estando concluído o monumento erigido
em sua memória no Gianículo, o Governo italiano para lá
a transportou, patrocinando e promovendo um gigantesco traslado, transformado
em um dos maiores atos cívicos da história da Jovem Itália.
Até a presente data seus despojos ali encontram-se.
GIANÍCOLO COM MUSSOLINI
Trinta e três anos após, em 2 de junho de 1882, em uma sexta-feira, faleceu José Garibaldi, às 18:22 horas, na Ilha de Caprera - na Sardenha, Itália, com honras de herói. Ali mesmo foi sepultado!
Fonte: www.paginadogaucho.com.br
Ana Maria de Jesus Ribeiro - nasceu em 1821 em Morrinhos, Laguna, na então província de Santa Catarina.
Seus pais, Bento Ribeiro da Silva e Maria Antônia de Jesus, eram pobres porém honrados.
Do seu pai parece ter herdado a energia e a coragem pessoal, revelando desde criança um caráter independente e resoluto.
Aos 18 anos conheceu a José Garibaldi que viera com as tropas farroupilhas de Davi Canabarro e Joaquim Teixeira Nunes tomar a Laguna em julho de 1839, fundando a República Juliana dos Cem Dias.
Garibaldi chegara à Laguna com fama de herói pelo feito épico que acabara de realizar ao transportar, por terra, as duas embarcações "Farroupilha" e "Seival" de Capivari a Tramandaí e posterior salvamento do naufrágio da primeira ao sul do Cabo de Santa Marta.
Seu encontro com Anita resultou em amor a primeira vista, dando origem a um dos mais belos romances de amor e dedicação incondicionais.
A 20 de outubro de 1839 Anita decide seguir José Garibaldi, subindo a bordo de seu navio para uma expedição de corso até Cananéia.
Sua lua de mel tem lances de grande dramaticidade: Em Imbituba recebe seu batismo de fogo ao serem os corsários atacados por forças marítimas legais.
Dias depois, a 15 de Novembro, Anita confirma sua coragem ímpar e amor heróico a Garibaldi e à cansa na célebre batalha naval de Laguna, contra Frederico Mariath, em que se expõe a mil mortes ao atravessar uma dúzia de vezes num pequeno escaler a área de combate para transportar munições em meio de verdadeira carnificina humana.
Com o fim da efêmera República Lagunense, o casal segue na retirada para o sul.
Subindo a serra, Anita combate ao lado de Garibaldi em Santa Vitória, passa o Natal de 1839 em Lages, toma parte ativa no combate das Forquilhas (Curitibanos) à meia-noite de 12 de janeiro seguinte.
Feita prisioneira de Melo Albuquerque, consegue deste comandante permissão para procurar no campo de batalha o cadáver de Garibaldi que lhe haviam dito morto.
Foge depois espetacularmente, embrenhando-se pela mata atravessando o Rio Canoas a nado reencontrando as tropas em retirada e seu Giuseppe, oito dias depois.
Em 16 de Setembro de 1840 nasceu seu primogênito Menotti em Mostardas, na região da Lagoa dos Patos, no Rio Grande do Sul.
Doze dias depois do parto, é obrigada a fugir dramaticamente a cavalo, seminua e com o recém-nascido ao colo, de um ataque noturno de Pedro de Abreu durante a ausência de Garibaldi.
Reencontrados depois, Anita e o filho seguiram, também, na posterior grande retirada pelo mortífero vale do Rio das Antas, da qual nos conta o próprio Garibaldi foi a mais medonha que jamais acompanhou, e que a desesperada coragem de Anita conseguiu meios de salvar o filho à última hora.
Em 1841, dispensado por Bento Gonçalves, Garibaldi segue com a pequena família para Montevidéu, engajando-se nas lutas uruguaias contra o tirano Rosas.
A 26 de Março de 1842, Garibaldi casa com Anita na antiga Igreja de São Francisco de Assis.
Nos anos seguintes Anita tem mais 3 filhos Rosita, Teresita e Riccioti.
Rosita não consegue vencer um ataque de difteria, falecendo aos trinta meses, deixando seus pais desesperados.
Em fins de 1847 segue Anita com seus três filhos para a Itália, para Gênova e Nice sendo seguida pelo marido poucos meses depois.
Na Itália Anita Garibaldi deu múltiplas demonstrações de aprimoramento intelectual, aparecendo como esposa condigna do herói italiano cuja estrela começa a brilhar internacionalmente.
Infelizmente a vida de Anita foi demasiado curta.
Em meados de 1849 vai a Roma sitiada pelos franceses ao encontro do marido, e com ele e sua Legião italiana faz a célebre retirada, dando repetidas mostras de grande dignidade e de coragem em lances de bravura frente aos inimigos austríacos.
Grávida pela quinta vez e muito doente, não aceita os conselhos para permanecer em San Marino para restabelecer-se.
Não quer abandonar o marido quando quase todos o abandonam.
Acompanhado de poucos fiéis, ziguezagueando pelos pântanos ao Norte de Ravenna, fugindo dos Austríacos, prometendo pena de morte a eles garibaldinos e a quem lhes ajudasse José Garibaldi vê definhar rapidamente a mulher que mais amou na vida e de sua coragem disse desejara muitas vezes fosse a dele! Pelas 19 horas do dia 4 de agosto de 1849, Anita Garibaldi falece nos braços do esposo em pranto, longe dos filhos, num quartinho do segundo pavimento da casa dos irmãos Ravaglia em Mandriole, próximo a Santo Alberto.
Fonte: www.anitagaribaldi.freeservers.com