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Etapas da Industrialização

 

Etapas da Industrialização

A atividade industrial no Brasil teve início no período colonial.

Sua história, entretanto, não se caracteriza por uma evolução sistemática. As atividades agrícolas e o extrativismo absorviam os poucos capitais e a mão-de-obra, só dando margem, naquele período, às indústrias caseiras, à agro-indústria do açúcar, a pequenas indústrias no litoral, e aos estaleiros em que se construíam embarcações de madeira. A população extremamente rarefeita, mesmo ao longo da costa; as dificuldades de transporte, decorrentes das distâncias; o regime da escravidão e do latifúndio, e a própria política da metrópole, que proibia, em 1766, a prática do ofício de ourives, e por carta régia de 1785, todas as manufaturas de fumo, panos e bordados, foram outros tantos obstáculos a qualquer surto de manufaturas de valor.

Tal situação se prolongou através do primeiro e do segundo reinado, quando ainda faltavam todos os elementos para uma indústria autônoma, concentrada e mecanizada, que procura a proximidade das fontes de energia, de matéria-prima, da clientela, dos transportes e, sobretudo, da mão-de-obra. Na verdade, só depois da transferência da corte de D. João para o Brasil foram revogados os editos que vedavam até a existência de depósitos de salitre, fechavam as fábricas têxteis e mantinham a proscrição das fundições de ferro instaladas em São Paulo e Minas. Depois da independência, o reconhecimento pelas potências européias só se tornou possível mediante a concessão de tarifas especiais para os produtos britânicos, concessão que vigorou até 1844.

Um antigo empregado de firma britânica no Brasil, que conseguiu estabelecer-se e expandir seus negócios, tornando-se um homem de finanças que acompanhava o surto industrial da Europa, Irineu Evangelista de Souza, teve o descortino de tentar o caminho da indústria, sem levar em conta, entretanto, o grave obstáculo que representava o escravismo, inviável à criação de um mercado nacional. Não obstante isso, registraram-se algumas iniciativas no campo da indústria. Surgiu a fundição de tubos de encanamento de água do rio Maracanã, no Rio de Janeiro. O estaleiro montado na Ponta da Areia, em Niterói, ampliou a construção naval do país, fabricando setenta navios em pouco mais de dez anos. Ligada ao impulso dos serviços urbanos, criou-se a primeira empresa de iluminação a gás.

Organizou-se uma companhia de navegação no rio Amazonas. Em 1870, estimou-se em 742 mil contos de réis, quantia avultada para a época, a produção industrial do Brasil. O governo monárquico, todavia, voltava-se mais para as obras públicas do que para prestigiar as iniciativas da indústria privada nacional e o surgimento e consolidação de um empresariado vinculado aos interesses do país.

Construíram-se, desse modo, portos para atender às necessidades do comércio externo. As estradas de ferro se prolongaram, mas só a partir de 1870, vindo a interessar capitais ingleses e desempenhar um papel mais dinâmico na economia do país. Instalaram-se companhias de força elétrica, de bondes, de telefones, de luz, de telégrafos, por iniciativa do capital estrangeiro ou vindo a ser concedidas a este.

No período da primeira guerra mundial, instalaram-se no Brasil cerca de 5.940 empresas industriais, compreendendo-se aí a produção de uns trinta artigos novos. Mas dentre essas indústrias não figurava a indústria mecânica nem os bens fundamentais capazes de possibilitar a criação da base industrial do país. Na década de 1940, pela primeira vez o valor da produção industrial brasileira ultrapassou o da produção agrícola, elevando-se a 13.000.000 de contos de réis, contra 8.590.000.

Verdadeiramente, só na década de 1940 o Brasil logrou a primeira iniciativa industrial de vulto, que iria servir de base a uma modificação na sua estrutura econômica. Esta se verificou em face de circunstâncias criadas pela segunda guerra mundial. Necessitando instalar bases aéreas no território brasileiro para o trânsito dos seus aviões de guerra para a África e Europa, os E.U.A. negociaram a implantação de uma unidade siderúrgica que veio a constituir a Companhia Siderúrgica Nacional, pertencente ao Estado. A usina de Volta Redonda desempenhou, de fato, o papel de célula-mater da indústria pesada nacional, propiciando ao longo de sua atividade, a criação de novas indústrias e a expansão siderúrgica.

Outro passo importante no sentido de uma industrialização autônoma foi a instituição do monopólio estatal do petróleo, mediante a criação da Petrobrás por meio da lei 2.004, de 3 de outubro de 1953. A descoberta do lençol petrolífero do Lobato, na Bahia, em 1937, propiciou uma modificação no código de minas e a posterior instituição do Conselho Nacional do Petróleo, a fim de orientar o problemas do ponto de vista brasileiro.

Para levar adiante o processo de desenvolvimento industrial, os países adotam uma série de medidas que caracterizam suas opções. O conjunto dessas medidas e a orientação que lhe é implícita constituem a política industrial. No caso brasileiro, a industrialização se iniciou tardiamente, o que leva o país a realizar grandes esforços, visando a diminuir a distância que o separa dos países desenvolvidos. A dependência do mercado externo e a desigual distribuição da renda, que restringe o mercado interno, constituem ainda aspectos negativos para a industrialização do país.

Fatores ligados aos grandes acontecimentos econômicos mundiais, profundos movimentos políticos internos, condições peculiares da região, a política industrial seguida pelos governos - têm importância determinante em relação as avanços industriais. Na América Latina, cujos países durante longo tempo se mantiveram na posição de fornecedores de matérias-primas para clientes industriais, tornou-se evidente que a substituição das importações constituía uma exigência imperiosa para a industrialização e o desenvolvimento econômico. A partir da década de 1930 se fez sentir particularmente nesses países o enfraquecimento do setor externo. No Brasil, contudo, os sinais de debilitamento desse setor ocorreram bastante antes, após o auge da borracha amazônica, que precedeu a primeira guerra mundial. Mas o país, essencialmente agrícola, como era qualificado, simplesmente intensificou as exportações de café, reforçou o comércio de algodão e do cacau, sem vislumbrar ainda os rumos de uma política de substituição das importações.

O deslocamento progressivo do centro do comércio internacional, do Reino Unido para os E.U.A., e medidas tomadas por esses dois países durante a crise, entre as quais sobressaem as fortes restrições protecionistas norte-americanas de 1930, tiveram conseqüências funestas para as economias dos países latino-americanos. A gravidade de tais reflexos, em cada país, fez-se sentir em função do coeficiente da importação e da estrutura industrial de que este já dispusesse, para nessa estrutura apoiar seus esforços de substituição das importações.

Rapidamente recuperado em seguida à década de 1930, não prosseguiu de maneira favorável a evolução posterior desse coeficiente: o descenso continuou até a década de 1950.

O Brasil constitui-se na América Latina no país de mais baixo coeficiente de importação, o que representou um fator decisivo para o crescimento do volume da produção industrial interna. Iniciada a expansão do incipiente parque industrial com as indústrias de bens de consumo, procurou-se atingir, nos últimos anos, uma fase mais avançada, a da produção de bens de equipamento e materiais básicos indispensáveis à aceleração do ritmo do crescimento geral. Sensíveis desequilíbrios ainda se fazem notar, principalmente nos ramos produtores de matérias-primas básicas, a exemplo do que acontece com alguns produtos siderúrgicos e químicos que demandam vultosos investimentos e alta técnica de que carece a economia nacional. Em termos absolutos, segundo o relatório anual do BID (1969), o Brasil desfrutava em 1968 do maior crescimento industrial da América Latina, tendo superada a Argentina, a partir de 1962 (a taxa de crescimento industrial do Brasil entre 1961 e 1968 era de 5,2% contra 2,5% da Argentina). Tal resultado foi obtido em virtude de um elenco de providências governamentais, incluindo isenção de impostos, abatimentos no imposto de renda e correspondentes incentivos fiscais, relativos não só às exportações, o que representou, em 1968, um aumento de 15% na produção industrial que participou com 28% do produto interno bruto. Tal posição, por sua vez, se reflete no mercado externo.

Em 1970 o objetivo da economia brasileira era deixar de depender exclusivamente da substituição das importações, ultrapassar a fase da exportação de gêneros alimentícios e matérias-primas da produção primária e ampliar a pauta exportável com variados produtos industriais. As metas mínimas estabelecidas para o período 1970-1973 estabeleciam o crescimento anual de 9 a 11% para a indústria manufatureira e a mineração; 9 a 11% para a indústria siderúrgica; 7 a 9% para o setor enérgico. Influindo fortemente na composição da taxa de crescimento industrial da América Latina, em que ocupa o primeiro lugar, em 1973, o Brasil divide com a Argentina, a Colômbia e o México, a responsabilidade por 80% da produção industrial dessa parte do mundo.

A grande concentração industrial na Região Sudeste

Buscando as causas que influem na distribuição espacial da atividade industrial, podem se destacar dois fatores:

Fatores histórico-econômicos (mão-de-obra, capital, mercado consumidor - interno e externo - tecnologia, transportes etc.)
Fatores naturais
, isto é, aqueles que derivam das condições naturais de uma certa área ou região (matérias-primas e fontes de energia, por exemplo).

Após a decadência da agroindústria canavieira do Nordeste, no século XVII, e a descoberta de metais preciosos nas Minas Gerais, a Região Sudeste começou a estruturar-se como área de atração de população e de inversão de capitais. Data, inclusive, dessa época, a mudança da capital político-administrativa da colônia, de Salvador para o Rio de Janeiro, cidade mais próxima da atividade mineradora. Esse fato constitui-se de grande importância no crescimento da cidade do Rio de Janeiro e de sua área próxima, pois essa cidade tornou-se o centro de intercâmbio comercial. Através de seu porto, estabelecia-se o contato com o exterior e com as outras regiões do Brasil.

Quando ocorreu a decadência da atividade mineradora, os trabalhadores das minas deslocaram-se em busca de solos mais férteis onde pudessem desenvolver uma agricultura de maior rendimento, encontrando-os no norte e nordeste de São Paulo.

No início do século XIX, a cafeicultura, vinda do Rio de Janeiro, penetrava em solo paulista e, logo em seguida, atingia os solos férteis do planalto ocidental (as terras roxas). Além de atrair populações de outras regiões e áreas do Brasil, a expansão da cafeicultura requisitou mão-de-obra estrangeira, representada por imigrantes italianos, espanhóis, alemães e outros. Além disso estimulou o desenvolvimento ferroviário e a concentração financeira.

A instalação da corte portuguesa no Rio de Janeiro, a partir de 1808, também contribuiu para dinamizar não só a cidade, mas também a área próxima à capital.

A crise da cafeicultura de 1929/30 possibilitou que muitos recursos financeiros que eram aplicados nessa cultura fossem transferidos para a atividade industrial.

Vê-se, então, que desde o século XVIII, o Sudeste foi-se estruturando como área de atração de população e de capitais, tornando-se a região concentradora da riqueza. Assim, o mercado consumidor e financeiro que aí se formou, o crescimento das cidades, principalmente São Paulo e Rio de Janeiro, o desenvolvimento ferroviário e rodoviário, ao lado de recursos naturais favoráveis (potencial hidrelétrico, recursos minerais, solos férteis) e ainda o fluxo imigratório estrangeiro que trouxe técnicas de produção influíram na concentração espacial da atividade industrial nessa região.

Em tempos recentes, essa posição do Sudeste reafirmou-se, em vista de que, no governo do Presidente Juscelino Kubitcshek (1956-1961), o Plano de Metas deu ênfase à concentração industrial nessa região e particularmente em São Paulo. Os planejadores acreditavam na necessidade de se criar um grande pólo de desenvolvimento, tendo São Paulo como centro e que a partir do mesmo o desenvolvimento se propagaria, em círculos concêntricos, contagiando as outras áreas e regiões do país. Em vista dessa interpretação, o governo de JK canalizou grandes investimentos públicos em infra-estrutura (energia e transportes, além de siderúrgicas) e empréstimos para a expansão econômica de São Paulo e, em menor escala, do Rio de Janeiro e do sul de Minas Gerais.

Essa orientação aprofundou ainda mais os desequilíbrios regionais já existentes e consolidou a posição do Sudeste, como a região de forte concentração industrial, financeira, populacional e de renda. Desse modo, a Região Sudeste tornou-se o centro das decisões do país, exercendo forte polarização sobre as demais regiões.

Repetiam-se, assim, ao nível interno, isto é, entre as regiões do Brasil, as relações de dominação e exploração espacial, exercidas pela metrópole sobre a colônia, no passado, ou pelos países centrais (E.U.A. e países da Europa Ocidental e Japão) sobre os países periféricos (países subdesenvolvidos) na atualidade.

A Região Sudeste tornou-se a produtora de manufaturados e exportadora dos mesmos para as demais regiões do país, a preços elevados e, estas, fornecedoras de mercados consumidores e de matérias-primas a preços baixos. Reproduziam-se, assim, ao nível interno, as relações coloniais do passado e do presente entre os países.

Tendências da industrialização no Brasil

Vem acontecendo gradualmente uma descentralização industrial, ou seja, a implantação de indústrias em outras regiões do país, e não só na Região Sudeste.

Regiões que não se encontravam no "mapa" de empregos agora oferecem centenas de empregos, a mão-de-obra está sendo procurada em estados que antes as pessoas se viam obrigadas a virem para São Paulo, a fim de trabalharem.

Entretanto, esta região continua centralizando e polarizando a vida econômica nacional, reproduzindo, como já foi assinalado, ao nível interno, o neocolonialismo que se manifesta nas relações espaciais internacionais: de um lado os países centrais e de outro os países periféricos ou satélites dos primeiros.

Fonte: orbita.starmedia.com

Etapas da Industrialização

A substituição das ferramentas pelas máquinas, da energia humana pela energia motriz e do modo de produção doméstico pelo sistema fabril constituiu a Revolução Industrial; revolução, em função do enorme impacto sobre a estrutura da sociedade, num processo de transformação acompanhado por notável evolução tecnológica.

A Revolução Industrial aconteceu na Inglaterra na segunda metade do século XVIII e encerrou a transição entre feudalismo e capitalismo, a fase de acumulação primitiva de capitais e de preponderância do capital mercantil sobre a produção. Completou ainda o movimento da revolução burguesa iniciada na Inglaterra no século XVII.

Etapas da industrialização

Podem-se distinguir três períodos no processo de industrialização em escala mundial:

1760 a 1850 – A Revolução se restringe à Inglaterra, a "oficina do mundo". Preponderam a produção de bens de consumo, especialmente têxteis, e a energia a vapor.
1850 a 1900 – A Revolução espalha-se por Europa, América e Ásia:
Bélgica, França, Ale­manha, Estados Unidos, Itália, Japão, Rússia. Cresce a concorrência, a indústria de bens de produção se desenvolve, as ferrovias se expandem; surgem novas formas de energia, como a hidrelétrica e a derivada do petróleo. O trans­porte também se revoluciona, com a invenção da locomotiva e do barco a vapor.
1900 até hoje –
Surgem conglomerados industriais e multinacionais. A produção se automatiza; surge a produção em série; e explode a sociedade de consumo de massas, com a expansão dos meios de comunicação. Avançam a indústria química e eletrônica, a engenharia genética, a robótica.

Artesanato, manufatura e maquinofatura

O artesanato, primeira forma de produção industrial, surgiu no fim da Idade Média com o renascimento comercial e urbano e definia-se pela produção independente; o produtor possuía os meios de produção: instalações, ferramentas e matéria-prima. Em casa, sozinho ou com a família, o artesão realizava todas as etapas da produção.

A manufatura resultou da ampliação do consumo, que levou o artesão a aumentar a produção e o comerciante a dedicar-se à produção industrial. O manufatureiro distribuía a matéria-prima e o arte­são trabalhava em casa, recebendo pagamento combinado. Esse comerciante passou a produzir. Primeiro, contratou artesãos para dar acabamento aos tecidos; depois, tingir; e tecer; e finalmente fiar. Surgiram fábricas, com assalariados, sem controle sobre o produto de seu trabalho. A produtividade aumentou por causa da divisão social, isto é, cada trabalhador realizava uma etapa da produção.

Na maquinofatura, o trabalhador estava sub­metido ao regime de funcionamento da máquina e à gerência direta do empresário. Foi nesta etapa que se consolidou a Revolução Industrial.

O pioneirismo inglês

Quatro elementos essenciais concorreram para a industrialização: capital, recursos naturais, mercado, transformação agrária.

Na base do processo, está a Revolução Inglesa do século XVII. Depois de vencer a monarquia, a burguesia conquistou os merca­dos mundiais e transformou a estrutura agrária. Os ingleses avançaram sobre esses mercados por meios pacíficos ou militares. A hegemonia naval lhes dava o controle dos mares. Era o mercado que comandava o ritmo da produção, ao contrário do que aconteceria depois, nos países já industrializados, quando a produção criaria seu próprio mercado.

Até a segunda metade do século XVIII, a grande indústria inglesa era a tecelagem de lã. Mas a primeira a mecanizar-se foi a do algodão, feito com matéria-prima colonial (Estados Uni­dos, Índia e Brasil). Tecido leve, ajustava-se aos mercados tropicais; 90% da produção ia para o exterior e isto representava metade de toda a exportação inglesa, portanto é possível perceber o papel determinante do mercado externo, principalmente colonial, na arrancada industrial da Inglaterra.

As colônias contribuíam com matéria-prima, capitais e consumo.

Os capitais também vinham do tráfico de escravos e do comércio com metrópoles colonialistas, como Portugal. Provavelmente, metade do ouro brasileiro acabou no Banco da Inglaterra e financiou estradas, portos, canais. A disponibilidade de capital, associada a um sistema bancário eficiente, com mais de quatrocentos bancos em 1790, explica a baixa taxa de juros; isto é, havia dinheiro barato para os empresários.

Depois de capital, recursos naturais e merca­do, vamos ao quarto elemento essencial à industrialização, a transformação na estrutura agrária após a Revolução Inglesa. Com a gentry no poder, dispararam os cercamentos, autorizados pelo Parlamento. A divisão das terras coletivas beneficiou os grandes proprietários.

As terras dos camponeses, os yeomen, foram reunidas num só lugar e eram tão poucas que não lhes garantiam a sobrevivência: eles se transforma­ram em proletários rurais; deixaram de ser ao mesmo tempo agricultores e artesãos.

Duas conseqüências se destacam:

1) diminuiu a oferta de trabalhadores na indústria doméstica rural, no momento em que ganhava impulso o mercado, tornando-se indispensável adotar nova forma de produção capaz de satisfazê-lo;
2)
a proletarização abriu espaço para o investimento de capital na agricultura, do que resultaram a especialização da produção, o avanço técnico e o crescimento da produtividade.

A população cresceu, o mercado consumidor também; e sobrou mão-de-obra para os centros industriais.

Mecanização da Produção

As invenções não resultam de atos individuais ou do acaso, mas de problemas concretos coloca­dos para homens práticos. O invento atende à necessidade social de um momento; do contrário, nasce morto. Da Vinci imaginou a máquina a vapor no século XVI, mas ela só teve aplicação no ,século XVIII.

Para alguns historiadores, a Revolução Industrial começa em 1733 com a invenção da lançadeira volante, por John Kay. O instrumento, adaptado aos teares manuais, aumentou a capacidade de tecer; até ali, o tecelão só podia fazer um tecido da largura de seus braços. A invenção provocou desequilíbrio, pois começa­ram a faltar fios, produzidos na roca. Em 1767, James Hargreaves inventou a spinning jenny, que permitia ao artesão fiar de uma só vez até oitenta fios, mas eram finos e quebradiços. A water frame de Richard Arkwright, movida a água, era econômica mas produzia fios grossos. Em 1779, S Samuel Crompton combinou as duas máquinas numa só, a mule, conseguindo fios finos e resistentes. Mas agora sobravam fios, desequilíbrio corrigido em 1785, quando Edmond Cartwright inventou o tear mecânico.

Cada problema surgido exigia nova invenção. Para mover o tear mecânico, era necessária uma energia motriz mais constante que a hidráulica, à base de rodas d’água. James Watt, aperfeiçoando a máquina a vapor, chegou à máquina de movi­mento duplo, com biela e manivela, que transformava o movimento linear do pistão em movimento circular, adaptando-se ao tear.

Para aumentar a resistência das máquinas, a madeira das peças foi substituída por metal, o que estimulou o avanço da siderurgia. Nos Esta­dos Unidos, Eli Whitney inventou o descaroça­dor de algodão.

Revolução Social

A Revolução Industrial concentrou os trabalhadores em fábricas. O aspecto mais importante, que trouxe radical transformação no caráter do trabalho, foi esta separação: de um lado, capital e meios de produção (instalações, máquinas, matéria-prima); de outro, o trabalho. Os operários passaram a assalariados dos capitalistas (donos do capital).

Uma das primeiras manifestações da Revolução foi o desenvolvimento urbano. Londres chegou ao milhão de habitantes em 1800. O progresso deslocou-se para o norte; centros como Manchester abrigavam massas de trabalhadores, em condições miseráveis. Os artesãos, acostumados a controlar o ritmo de seu trabalho, agora tinham de submeter-se à disciplina da fábrica. Passaram a sofrer a concorrência de mulheres e crianças. Na indústria têxtil do algodão, as mulheres formavam mais de metade da massa trabalhadora. Crianças começavam a trabalhar aos 6 anos de idade. Não havia garantia contra acidente nem indenização ou pagamento de dias para­dos neste caso.

A mecanização desqualificava o trabalho, o que tendia a reduzir o salário. Havia freqüentes paradas da produção, provocando desemprego. Nas novas condições, caíam os rendimentos, contribuindo para reduzir a média de vida. Uns se entregavam ao alcoolismo. Outros se rebelavam contra as máquinas e as fábricas, destruídas em Lancaster (1769) e em Lancashire (1779). Proprietários e governo organizaram uma defesa militar para proteger as empresas.

A situação difícil dos camponeses e artesãos, ainda por cima estimulados por idéias vindas da Revolução Francesa, levou as classes dominantes a criar a Lei Speenhamland, que garantia subsistência mínima ao homem incapaz de se sustentar por não ter trabalho. Um imposto pago por toda a comunidade custeava tais despesas.

Havia mais organização entre os trabalhadores especializados, como os penteadores de lã. Inicialmente, eles se cotizavam para pagar o enterro de associados; a associação passou a ter caráter reivindicatório. Assim surgiram as tradeunions, os sindicatos. Gradativamente, conquistaram a proibição do trabalho infantil, a limitação do trabalho feminino, o direito de greve.

Fonte: www.culturabrasil.pro.br

Etapas da Industrialização

O Brasil é considerado um país emergente ou em desenvolvimento, apesar disso está quase um século atrasado industrialmente e tecnologicamente em relação às nações que ingressaram no processo de industrialização no momento em que a Primeira Revolução Industrial entrou em vigor, como Inglaterra, Alemanha, França, Estados Unidos, Japão e outros.

As indústrias no Brasil se desenvolveram a partir de mudanças estruturais de caráter econômico, social e político, que ocorreram principalmente nos últimos trinta anos do século XIX.

O conjunto de mudanças aconteceu especialmente nas relações de trabalho, com a expansão do emprego remunerado que resultou em aumento do consumo de mercadorias, a abolição do trabalho escravo e o ingresso de estrangeiros no Brasil como Italianos, Alemães, Japoneses dentre muitas outras nacionalidades, que vieram para compor a mão-de-obra, além de contribuir no povoamento do país como ocorreu na região sul.

Um dos maiores acontecimentos no campo político foi a proclamação da República, diante desses acontecimentos históricos o processo industrial brasileiro passou por quatro etapas:

Primeira etapa: essa ocorreu entre 1500 e 1808 quando o país ainda era colônia, dessa forma a metrópole não aceitava a implantação de indústrias, salvo em casos especiais como os engenhos, e produção em regime artesanal.
Segunda etapa:
corresponde a uma fase que se desenvolveu entre 1808 a 1930, que ficou marcada pela chegada da família real portuguesa em 1808. Nesse período foi concedida a permissão para a implantação de indústria no país a partir de vários requisitos, dentre muitos, a criação, em 1828, de um tributo com taxas de 15% para mercadorias importadas e, em 1844, a taxa tributária foi para 60%, denominada de tarifa Alves Branco. Outro fator determinante nesse sentido foi o declínio do café, momento em que muitos fazendeiros deixaram as atividades do campo e, com seus recursos, entraram no setor industrial que prometia grandes perspectivas de prosperidade, as primeiras empresas limitavam-se à produção de alimentos, têxtil, além de velas e sabão, em suma tratava-se de produtos sem grandes tecnologias empregadas.
Terceira etapa:
período que ocorreu entre 1930 e 1955, momento em que a indústria recebeu muitos investimentos dos ex-cafeicultores e também em logística, ou seja, construção de vias de circulação de mercadorias, matérias-primas e pessoas, isso proveniente das evoluções nos meios de transporte que facilitou a distribuição de produtos para várias regiões do país, muitas ferrovias que anteriormente transportavam café, nessa etapa passaram a servir os interesses industriais. Foi instalada no país a Companhia Siderúrgica Nacional, construída entre os anos de 1942 e 1947, empresa de extrema importância no sistema produtivo industrial, uma vez que abastecia as indústrias com matéria-prima, principalmente metais. No ano de 1953, foi instituída uma das mais promissoras empresas estatais: a PETROBRAS.
Quarta etapa:
teve início em 1955, e segue até os dias de hoje. Essa fase foi promovida inicialmente pelo presidente Juscelino Kubitschek que promoveu a abertura da economia e das fronteiras produtivas, permitindo a entrada de recursos em forma de empréstimos e também em investimentos com a instalação de empresas multinacionais. Com o ingresso dos militares no governo do país, no ano de 1964, as medidas produtivas tiveram novos rumos, dentre muitos a intensificação da entrada de empresas e capitais de origem estrangeira comprometendo o crescimento autônomo do país, isso resultou no incremento da dependência econômica, industrial e tecnológica em relação aos países de economias consolidadas. No fim do século XX houve um razoável crescimento econômico no país, promovendo uma melhoria na qualidade de vida da população brasileira, além de maior acesso ao consumo, proporcionou também a estabilidade da moeda, além de outros fatores que foram determinantes para o progresso gradativo do país

Etapas da Industrialização
Engenhos de açúcar primeira etapa da indústria no país

Fonte: luizsoaresandrade.com

Etapas da Industrialização

As três etapas das organizações no decorrer do século XX

Era! Era da iuduniazaço C1a!ica Era da mdu!triaIuaçto Yeoc1aúca Era da Informaçao
Penodo 19OO-190 19S0’-1990 Apo 1990
Estrutura organizacional predominante Burocrática, funcional, piramidal, centrahzadora, rígida e inflexível, Enfase nos õrgãos Mista, matricial, com ênfase na departamentalização por produtos ou serviços ou unidades estratégicas de negóos Fluida, ágil e flexível. totalmente descentralizadora. Enfase nas redes de equipes rnuftifuncionais
Cultura organizacional predominante Teona X. Foco no passado, nas tradições e nos vakres conservadores. Transição. Foco no presente e no atual. Enfase na adaptação ao ambiente. Teoria Y. Foco no futuro e no destino Enfase na mudança e na inovação. Valorização do conhecimento e da cnatividade.
Ambiente organizacional Estático, previsivel, poucas e gradativas mudanças. Intensificação e aceleração das mudanças ambientais Mutável, imprevisível. turbulento, com grandes e intensas mudanças.
Modo de lidar com as pessoas Pessoas corno fatores de produtos inertes e estáticas. Enfase nas regras e controles rígidos para regular as pessoas Pessoas como recursos oi’ganizacioriais que devem ser administrados. Erifase nos objetivos organizacionais pai-a dirigir as pessoas. Pessoas corno seres humanos proativos e inteligentes que devem ser irnpulsionados. Enfase na liberdade e no comprometimento para motivar as pessoas.
Administração de pessoas Relações industriais Administração de recursos humanos Gestão de pessoas

Fonte: www.professorcezar.adm.br

Etapas da Industrialização

Consequências da Industrialização

A Revolução Industrial foi um fenômeno internacional, tendo acontecido de maneira gradativa, a partir de meados do século XVIII. A Revolução Industrial provocou mudanças profundas nos meios de produção humanos até então conhecidos, afetando diretamente nos modelos econômicos e sociais de sobrevivência humana.

O modelo feudal, essencialmente agrário - e que caracterizou o período medieval - começa a entrar em decadência, cedendo lugar, paulatinamente, ao modelo industrial - primeiramente em nível local, regional, para, logo em seguida, dar início à Revolução Industrial: em nível internacional de larga escala.

A grande Revolução Industrial começou a acontecer a partir de 1760, na Inglaterra, no setor da indústria têxtil, a princípio, por uma razão relativamente fácil de se entender: o rápido crescimento da população e a constante migração do homem do campo para as grandes cidades acabaram por provocar um excesso de mão-de-obra nas mesmas. Isto gerou um excesso de mão-de-obra disponível e barata - que permitiria a exploração e a expansão dos negócios que proporcionarão a acumulação de capital (Capitalismo) pela então burguesia emergente. Isto tudo, aliado ao avanço do desenvolvimento científico - principalmente com a invenção da máquina à vapor e de inúmeras outras inovações tecnológicas - proporcionou o início do fenômeno da industrialização mundial – ocorrido, como já foi comentado, primeiramente, na Inglaterra.

No século XVII, no ano de 1600, a população da Inglaterra passou de 4 milhões de habitantes para cerca de 6 milhões; no século seguinte, no ano de 1700, a população já beirava os 9 milhões de habitantes!

Na Europa Continental, esse crescimento foi ainda mais rápido: na França, por exemplo, a população passou de 17 milhões, em 1700, para 26 milhões em 1800.

O crescimento demográfico em tal escala proporcionou uma forte expansão dos mercados consumidores para bens manufaturados, especialmente vestuários.

Um outro fator importante no acontecimento revolucionário industrial, foi que, na Inglaterra, o consumo de tecidos de lã era muito maior que os de algodão. Os tecidos de algodão eram importados da índia, de modo que para proteger a indústria local de lã, o Parlamento inglês criou tarifas pesadas sobre as importações dos tecidos de algodão estrangeiros e, dessa forma, acabou por incentivar a industrialização dos tecidos de algodão na própria Inglaterra – que, com a medida, ficavam sem concorrentes.

Até meados do século XVIII (1760), a fiação tanto de lã como de algodão era feita manualmente em equipamentos toscos chamados rocas, rocadoras, de baixíssimo rendimento. A partir de 1764, James Hargreaves inventou e introduziu no mercado a sua famosa máquina “Spinning Jenny”, que consistia numa máquina de fiar que multiplicou a produção em 24 vezes em relação ao rendimento das antigas rocas.

Logo em seguida, o mesmo inventor colocava à disposição do mercado tinha uma nova invenção: a lançadeira volante “Fly-Schepel”.

A combinação desse processo de tecelagem com a fiação das “Spinning Jenny” produziu uma verdadeira revolução, que seria completada com a invenção do Bastidor Hidráulico de Richard Arkwright, que tornou possível a produção intensiva das tramas longitudinais e latitudinais – invento que foi otimizado com a chamada Mula Fiadora (Spinning Mule) inventada por Samuel Cropton, em 1789, uma combinação da Spinning Jenny de James Hargreaves com o bastidor de Richard Arkwright.

Com esses novos processos mecânicos, a produção aumentou de 200 a 300 vezes em comparação com o que era produzido antes, no mesmo tempo. Por outro lado, melhorou substancialmente a qualidade do fio. Ainda no século XVIII, em 1792 um outro invento de Eli Whitney conseguiu separar mecanicamente as sementes da fibra do algodão, de modo a reduzir substancialmente o seu preço.

As primeiras máquinas eram suficientemente baratas para que os fiandeiros pudessem continuar a trabalhar em suas casas. No entanto, na medida em que aumentavam de tamanho, deixaram de ser instaladas nas habitações para serem instaladas nas oficinas ou fábricas perto dos cursos d'água que podiam ser utilizados como fontes de força motriz. É importante lembrar, que, até então, toda força motriz utilizada na indústria incipiente era de fonte hidráulica. A transição da indústria doméstica para o sistema fabril não se fez do dia para a noite, de modo que, durante muito tempo, a fiação de algodão continuou sendo feita em casa, assim como nas primeiras fábricas.

Entretanto, em 1851, já três quartos das pessoas ocupadas na manufatura trabalhavam em fábricas de médio e grande porte. Porém, a tecelagem continuou sendo uma industria doméstica, até que surgiu a invenção de um tear mecânico, que era barato e prático. Com essas invenções, os tecelões manuais foram deslocados para as fábricas e, praticamente, com o passar do tempo, acabaram por desaparecer.

As inovações introduzidas na indústria têxtil deram à Inglaterra uma extraordinária vantagem no comércio mundial dos tecidos de algodão, a partir de 1780. O tecido era barato e podia ser comprado por milhões de pessoas que jamais haviam desfrutado o conforto de usar roupas leves e de qualidade. Em 1760, a Inglaterra exportava 250 mil libras esterlinas de tecidos de algodão e, em 1860, já estava exportando mais de 5 milhões. Em 1760, a Inglaterra importava 2,5 milhões de libras-peso de algodão cru, e já em 1787 importava 366 milhões.

Ao lado das grandes invenções e inovações no campo da indústria têxtil, surgiu uma outra grande invenção: a máquina a vapor, de James Watts, em 1763.

Segundo alguns historiadores, foi essa combinação das invenções no campo da indústria têxtil e a máquina a vapor, principalmente na indústria de mineração, dos transportes ferroviários e marítimos, que, num período de 100 anos (1770 a 1870), caracterizaram e promoveram a grande Revolução Industrial.

O rápido crescimento da população no continente europeu e nas colônias, principalmente entre 1800 e 1850, fizeram com que, também, em outros países da Europa, se construísse um clima favorável à proliferação industrial.

Um elemento importante no contexto da Revolução Industrial foi a melhoria generalizada dos sistemas transportes, nas mais variadas partes da Europa: Na Áustria, foram construídos mais de 48 mil Km de estradas, entre 1830 e 1847; a Bélgica quase dobrou sua rede de estradas no mesmo período; e a França construiu, além de estradas, 3.200 km de canais. Nos Estados Unidos, onde a industrialização se processou num ritmo cada vez mais veloz, depois de 1830, o total das estradas saltou de 34.000 Km, em 1800, para 272.000 Km, em 1856.

Por volta de 1840, os países da Europa Continental e também os Estados Unidos, seguiam mais ou menos lentamente o rumo da industrialização inglesa. Nos 10 anos seguintes, porém, o advento das estradas de ferro alterou inteiramente essa situação. A explosão das ferrovias provocou um surto de expansão em todas as áreas industriais.

Não só aumentou em enormes proporções a demanda de carvão e matérias-primas, como também de grande variedade de bens pesados, como: trilhos, locomotivas, vagões, sinais, chaves de desvio, como também possibilitou um transporte mais rápido das mercadorias da fábrica para o ponto de venda, reduzindo o tempo de distribuição e o custo das mercadorias.

Entre 1850 e 1570, a Grã-Bretanha continuou a ser o gigante industrial do Ocidente. Entretanto, pouco a pouco, a França, a Alemanha, a Bélgica e os Estados Unidos viriam a assumir posições cada vez mais importantes.

A sustentação de uma posição privilegiada no campo industrial levou os países europeus a uma política agressiva na área comércio internacional, procurando impedir que outros países, principalmente fora da Europa, desenvolvessem satisfatoriamente as suas indústrias. A Europa usava seu poderio econômico e, quando necessário, sua força militar, para garantir que o mundo permanecesse dividido entre os produtores de manufaturas e os fornecedores das matérias primas, localizadas principalmente nos países colonizados. Este foi um aspecto da divisão do trabalho que, em nível mundial, mais caracterizou a Revolução Industrial.

Enfim, o conseqüente processo de urbanização e a formação da consciência de classe – a nova classe dos trabalhadores, que passarão a se organizar em sindicatos – podem ser considerados os aspectos mais importantes e relevantes no tocante às conseqüências dos processos que levaram à Revolução Industrial.

PRINCIPAIS CONSEQUENCIAS DA INDUSTRIALIZAÇÃO

Antes de examinarmos as conseqüências da Revolução Industrial, é importante registrar que, nos séculos XVI e XVII, a Europa vivia um enorme contraste entre o luxo dos palácios, a riqueza dos nobres aristocratas; e a pobreza, a miséria em que vivia a maior parte do povo. Já nessa época existia uma ascendente classe de burgueses que enriqueceram, principalmente, com o comércio nas novas colônias. Não havia trabalho para todos e, mesmo os que trabalhavam, ganhavam salários mínimos, muitas vezes insuficientes para sua subsistência.

Ao lado desses pobres trabalhadores, convivia uma multidão de mendigos, que representava o resultado dos custos das prolongadas guerras e da inflação que assolou a Europa a partir da entrada de ouro e prata vindos da América. Impressionante o registro desses fatos: em meados do século XVII, a quarta parte da população de Paris era constituída de mendigos.

Essa situação agravou-se ainda mais na segunda metade do século XVIII, quando foi registrada uma verdadeira explosão demográfica. Até 1750, a população da Europa, incluindo a Rússia, era de pouco mais de 100 milhões de pessoas, possuindo uma taxa de crescimento lenta que não chegava a mais de um por cento ao ano. A partir de 1750, no entanto, a taxa de crescimento da população chegou a 4% ao ano e, seguindo em crescimento, atinge mais de 10% na década de 1780. Em 1790, a cidade de Paris já contava com 700 mil habitantes e Londres, 900 mil.

O excesso de população - seguida pelo êxodo rurual - é que respondia pela grande massa dos desempregados concentrados nas maiores cidades, o que proporcionava ao empresário capitalista burguês um grande contingente de mão-de-obra por um preço irrisório. A conseqüência disto, como todos sabemos, é o começo da fase do "Capitalismo Selvagem", onde existe uma intensificação generalizada da exploração humana por parte dos detentores emergentes dos novos meios de produção - fato que, por sua vez, gerará inúmeras reações violentas em todo continente europeu por parte dos trabalhadores explorados e desempregados (miseráveis).

E O QUE MAIS PRECISAMENTE ACONTECERÁ A PARTIR DA REVOLUÇÃO INDUSTRIAL?

Com a Revolução Industrial, ocorreu um enorme aumento da produtividade, em função da utilização dos equipamentos mecânicos, da energia a vapor e, posteriormente, da eletricidade, que passaram a substituir a força animal e, ainda mais agravante, dispensava o trabalho humano. Esse aumento de produtividade aliado ao excesso de mão-de-obra geram, inevitavelmente, desemprego. E novas levas de milhares e milhares de trabalhadores desempregados vão se incorporar à grande massa dos mendigos.

Essa situação foi muito mais dramática na Europa Continental do que na Inglaterra por uma questão de emigração dos ingleses que deixaram as ilhas britânicas em direção a outras partes do mundo, principalmente Estadas Unidos, Austrália, Nova Zelândia e algumas regiões da África. Essa emigração foi acentuada a partir de 1850, em cuja década alcançou mais de 2,5 milhões de pessoas contra apenas 200 mil ingleses que emigraram na década de 1820.

A situação só não foi mais catastrófica por que ao lado da Revolução Industrial ocorreu também uma Revolução Agrícola. A utilização de novos métodos agrícolas, rotação de safras, sementes selecionadas e o surgimento de novos equipamentos agrícolas, produziram um extraordinário aumento na produção de alimentos. Isso tornou o preço da alimentação mais barato e ajudou enormemente a sobrevivência dos trabalhadores.

É bem verdade que, aí também, há um aspecto perverso: na medida em que melhoraram os preços e as condições de alimentação, o número de filhos por família aumentava assustadoramente.

Como vimos anteriormente, ocorreu com a Revolução Industrial um extraordinário desenvolvimento da indústria têxtil, que veio acompanhada de forte expansão na produção agrícola de algodão - principalmente nas colônias - e da pecuária de carneiros para a produção de lã.

Na Inglaterra, essa alteração na estrutura da produção agrícola representou uma transferência profunda da agricultura de alimentação para subsistência por uma nova atividade: a criação de carneiros, que ocupava enormes extensões de terra.

Essa mudança na estrutura da produção representou simplesmente a expulsão de milhares e milhares de camponeses de suas terras, para que os grandes proprietários expandissem a produção da lã. Esses camponeses expulsos de suas terras foram parar nas cidades, onde muitos encontravam empregos na indústria, mas a maioria perambulava desempregada.

O excesso de mão-de-obra nas cidades industriais fez com que baixassem tremendamente os salários dos trabalhadores. É verdade que alguns trabalhadores especializados, nas novas fábricas, melhoravam seus padrões de vida. Mas a maioria ganhava o suficiente apenas para se alimentar e sobreviver. Segundo a "História da Civilização Ocidental", de Edward Burns e outros, na cidade industrial de Bolton, na Inglaterra, no ano de 1842, um tecelão manual não conseguia ganhar mais do que cerca de três xelins, enquanto, nessa época, estimava-se necessário pelo menos 20 xelins semanais para manter uma família de cinco pessoas um pouco acima do limite da miséria.

Na área da habitação, a situação era igualmente constrangedora. Em muitas das grandes cidades, homens e velhos viviam em casa de cômodos, separados de suas famílias que haviam deixado no campo. Os trabalhadores mais pobres, em quase todas as cidades européias, moravam em horríveis quartos de porão, muitas vezes destituídos de luz, de água e de esgotos.

Daí a ocorrência intensa e freqüente da cólera, do tifo e da tuberculose, que produziam uma enorme mortalidade infantil. Os historiadores diziam e dizem ainda hoje que podiam se considerar felizes os trabalhadores que não morressem de fome.

Igualmente penosas eram as condições de trabalho nas fábricas: antes de 1850, a jornada fabril era longa, em geral de 12 a 14 horas diárias. O ambiente das fábricas era sujo e peri-goso. As máquinas eram desprotegidas e ocasionavam freqüentes acidentes de trabalho, muitas vezes mutilando os trabalhadores. Por outro lado, havia um tremendo rigor em relação ao horário de trabalho e à permanência dos trabalhadores junto às máquinas. Ao lado disso, havia, na maior parte das fábricas, a preferência na contratação de mulheres e crianças, pois, além de protestarem menos quanto às condições de trabalho, pareciam conformadas em aceitar salários menores.

É no contexto da Revolução Industrial, da deterioração das condições de vida dos trabalhadores, do desemprego e da miséria, que a Europa vai se aproximando da Revolução France-sa de 1789. Agravou a situação uma sucessão de más colheitas, resultando na escassez de alimentos e na elevação de seus preços. A fome e a miséria são os principais ingredientes da revolta do povo que levou à Revolução Francesa. As últimas décadas do século XVIII registraram esse quadro doloroso na Europa, onde desemprego e fome multiplicavam incrivelmente o número dos mendigos e vagabundos.

No inverno, viviam todos recolhidos às suas pobres casas e cabanas procurando algum aquecimento em seus abrigos, mas, na primavera, surgiam os bandos de salteadores, criando insegurança nos campos e nas estradas.

No entanto, chegou um momento, no final da década de 1780, em que os camponeses se armaram e iniciaram uma grande revolta conhecida com o nome de "O Grande Medo", invadindo os castelos e queimando os títulos de propriedade. Nas regiões de Macon e Beaujolais, 72 castelos foram incendiados. O medo de perder suas terras levou os burgueses a se unirem aos nobres e a organizarem tropas armadas para repelir as invasões gerando uma luta de classes violenta e sangrenta.

A crise econômica que veio na esteira da Revolução Industrial e da Revolução Francesa provocou enormes agitações políticas em toda a Europa. Contra o chamado “capitalismo selvagem”, idéias socialistas foram gradativamente ganhando corpo, minando as estruturas do Estado e da burocracia. Os trabalhadores começaram a se organizarem em Sindicatos e ganharam enorme poder de luta na defesa de seus interesses. Na Inglaterra, realizou-se um movimento político reformista de grande significação, o então chamado "Cartismo", entre 1833 e 1848, cujo programa (Carta do Povo) consegue a primeira lei de proteção ao traba-lho da criança (1833) e das mulheres (1842), assim como a limitação da jornada de trabalho a 10 horas (1847).

No campo político, uma onda revolucionária varreu a Europa, na França, Itália, Alemanha, Suíça, após a derrubada do Rei Carlos X, na Revolução Popular de 1830 que escolheu Luiz Felipe como monarca. Na grande Revolução de 1848, Luiz Felipe é destronado e Luiz Bonaparte, sobrinho de Napoleão, é eleito presidente da República da França.

A Revolução Industrial na sua seqüência, tomou, no plano das idéias, dois rumos diferentes: em uma vertente, desenvolveram-se as idéias do liberalismo econômico, segundo os postulados dos grandes economistas do final do século XVIII, principalmente Adam Smith, David Ricardo, Jean Batista Say e John Stuart Mill. De outro lado surgiram, mais tarde, as reações de cunho socialista, que atingem um ponto máximo com o Manifesto Comunista de 1848, de Karl Marx e Friedrich Engels.

No ponto de vista sócio-econômico, a Revolução Industrial proporcionou o comércio em escala mundial. O modelo Feudal, essencialmente agrário - caracterísco da Idade Média - entrou, gradativamente, em decadência, cedendo lugar ao comércio internacional em larga escala. Os grandes latifundiários, os senhores feudais, bem como a estrutura agrária feudal, entraram em franco declínio, cedendo lugar para o capitalismo da burguesia industrial emergente.

Fonte: maxpages.com

Etapas da Industrialização

Consequências da Industrialização

A Revolução Industrial teve conseqüências de curto à longo prazo, sendo que uma das mais visíveis e uma das primeiras foi a explosão demográfica devido ao êxodo rural que culminou com o crescimento desordenado das cidades e a exploração dos seres humanos, pois a procura de emprego passou a ser maior que a oferta.

[...] a “explosão demografica”, parece habilitar-se, na imprensa popular, para a metáfora da mudança ruidosa. Em vista da cacofonia das cidades, sem falar da violência incidental das ruas, o conceito de “explosão” ou “revolução” seria, pelo menos, igualmente adequado. (MOORE, 1968, p 94)

O desemprego concentrou-se nas maiores cidades, o que proporcionava ao empresário capitalista burguês um grande contingente de mão-de-obra que poderia ser explorado por um preço irrisório. A conseqüência disso foi o avançao do capitalismo, no qual existe uma intensificação generalizada da exploração humana por parte dos emergentes detentores dos novos meios de produção - fato que, por sua vez, gerará inúmeras reações violentas em todo continente europeu por parte dos trabalhadores explorados e desempregados miseráveis. Outra conseqüência foi o isolamento do ser humano, como um fator psicológico a ser estudado.

[...] a Inglaterra pedia lucros e recebia lucros. Tudo se transformava em lucro. As cidades tinham sua sujeira lucrativa, suas favelas lucrativas, sua fumaça lucrativa, sua desordem lucrativa, sua ignorância lucrativa, seu desespero lucrativo... Pois a nova cidade não era um lar onde o homem pudesse achar beleza, felicidade, lazer, conhecimento, religião e as influências que civilizam a visão e o hábito, mas um lugar deserto e desolado, sem cor, ar ou riso, onde o homem, a mulher e a criança trabalhavam, comiam e dormiam... as novas fábricas e os novos altos-fornos eram como as pirâmedes, mostrando mais a escravização do homem do que seu poder, lançando sua longa sombra sobre a sociedade que tinha tanto orgulho de tais coisas. (HAMMOND apud DEANE, 1969, p 271)

Percebemos que as cidades metropolitanas se transformaram em locais nos quais as pessoas apenas dormiam, o que demonstra que o relacionamento com a família se tornou ínfimo, pela falta de tempo.

Estudando a evolução dos sistemas sociais, Moore (1968) mostra que todas as mudanças interferiram não somente na sociedade como um todo, mas também trouxeram conseqüências para cada indivíduo, sendo, uma delas, a solidão, objeto de estudo deste trabalho, sobre a qual ele afirma que:

“A principal quebra das grandes organizações de parentesco é a ampla mobilidade exigida pela industrialização. Estas mobilidades geográficas, implicando uma separação simultânea de parentes, é também social, supondo assim a separação de parentes em status e estilo de vida”. (MOORE, 1968, p 110- 111)

Das idéias desse autor pode-se depreender que a mobilidade geográfica, ou seja, a saída das pessoas dos campos rurais para as grandes metrópoles contribuiu para a separação da família e os indivíduos começaram a ficar mais solitários dentro de sua própria família, ou seja, dentro da instituição que traz a base para sua socialização.

No ambiente rural as famílias e os vizinhos não moravam tão perto, mas os encontros eram constantes, seja nas reuniões familiares ou nos encontros religiosos.

Essas situações eram criadas com freqüência. Nas cidades o espaço físico para esses encontros ficou reduzido, como no caso dos cortiços. As pessoas viviam em casas muito próximas umas às outras, mas não tinham tempo para conhecer melhor o seu vizinho, pois tinham uma carga de pelo menos 14 horas de trabalho fabril, segundo Hobsbawn (1983). Esse fato mostra a grande contradição em que viviam, porque tantas pessoas juntas poderiam ter uma vida social mais intensa, mas, ao contrário disso, esses indivíduos viviam mais isolados.

As famílias também se separaram nesse espaço geográfico. Tios e primos em diversos graus, em busca de status social, necessitavam morar em localidades que convinham ao seu crescimento. Os parentes já não tinham mais tempo para se relacionar, pois a nova sociedade girava em torno da produtividade e do lucro, que dependia da mão de obra de homens, mulheres e até mesmo crianças.

Com o surgimento da indústria, o ser humano foi remodelado. Sua carga horária aumentou e ele passou a ter menos tempo para a interação familiar, com isso desenvolvem-se formas de convívio condizentes com o novo modo de vida nas quais a presença física foi se tornando cada vez menos importante em um relacionamento social.

A especificação e a automatização criada e introduzida pela indústria avançam seus tentáculos para muito além do território de trabalho. A praticidade das máquinas que garantiam o sustento enquanto embalavam pessoas em seu conforto, produziam, ao mesmo tempo, um crescente desconforto quando a pauta era a interação física com o outro.

O individualismo e a importância da satisfação do ‘eu’, servem muito bem ao propósito capitalista. As necessidades desse meio possuem uma carga pesada, pois atendem muito mais a interesses e intenções mercadológicas e publicitárias do que humanistas.

“A sociedade pós-industrial, ao estabelecer as bases para a cultura de massas, propiciou ao capitalismo disseminar quase universalmente sua ideologia individualista e pragmática: cada um por si.”

A máquina tinha, inicialmente, a função de facilitar o trabalho. Ela parecia ser a solução de tantos problemas, na medida em que era capaz de produzir o dobro na metade do tempo e, com isso, permitiria viver em condições mais humanas. Acreditava-se que enquanto a máquina produzia as pessoas poderiam conviver mais.

Foi um sonho ingênuo, uma vez que o homem está muito mais apto a conhecer o funcionamento de uma máquina e a sua previsibilidade do que alguém de sua própria espécie ou a si mesmo.

“Uma das formas de disseminar o estado profundo da solidão foi o equipamento televisivo. A mídia sempre foi o braço vitalício do domínio sobre o aparelho social e a televisão foi mero catalisador de um padrão previamente consumado.”

Seguindo as afirmações de Branco, pode-se concluir que no processo de materialização o outro passou a SER estranho. A televisão conseguia reunir toda a família ao seu redor, mas apesar de as pessoas estarem juntas em um mesmo ambiente, suas atenções se dividiam com o aparelho.

As pessoas que viviam em pequenas cidades rurais tinham uma interação pessoal com mais afinidades entre os moradores, pois a maioria se conhecia pelo nome e quase todos sabiam onde moravam e o que faziam. Moore (1968) descreve que nas cidades industriais existe um congestionamento anônimo.

Ele explica que:

[...] existem multidões sem verdadeira interação social, abundando as interações segmentarias ou mesmo transitórias. As chamadas relações secundárias são nominalmente características das relações de emprego e, na realidade, de muitas outras entre o professor e o pai, funcionário público e cidadão, senhorio e locatário e, num grau extremo comprador e vendedor (MOORE 1968, p.115 e 116).

O automóvel, avião, assim como os telefones reduziam distâncias, nos colocando mais próximos aos indivíduos, assim como as diferenças sociais nos colocavam mais longe do nosso semelhante.

Com a individualização veio esse aspecto da indiferença pelo outro.

Há a idéia do homem contemporâneo fechado em sua casa e rodeado de equipamentos eletrônicos (pc, secretária eletrônica, fax, impressora, cd rom, tv, vídeo, som, celular) que procuram aliviar esse mal estar, anestesiá-lo desse estranhamento, encapsulando-o em uma vida onde o contato com o mundo externo é cada vez mais feito através de caminhos eletrônicos.

A ideologia capitalista também apresenta aspectos antagônicos porque embora tenha criado o indivíduo (ao invés do semelhante) em sua insatisfação, apresenta um apelo maciço da indústria para nos fazer entrar na massa, para agir como os outros e participar do que é coletivo. Forjando em nós a idéia de que o que é da maioria é necessariamente o melhor, de que estamos integrados em uma sociedade. Isso nos põe em contato direto com essas duas forças (individual/coletivo) que nos fragmenta ainda mais. Ao sair de casa queremos nos certificar de que estamos engajados no melhor de nosso social, as marcas de produtos que nos revestem não facilitam o encontro com o semelhante, apenas os desencontros entre os indivíduos.

Somos por assim dizer um produto deste meio, capazes de amar a humanidade ao mesmo tempo em que não suportamos o próximo, o estranho.

O homem é um ser que não coincide consigo mesmo e traz dentro de si uma negatividade. A busca inquieta da totalidade e satisfação deverá se regular sobre as coisas, sobre o mundo, levando a vontade na procura da posse, do domínio e da Glória. O homem se aliena naquilo que lhe oferece uma imagem de sua unidade desejada: a coisa. (RICOUER, 1996 apud LEVY p. 17)

Ao estabelecer as bases para a cultura de massas, a sociedade pós-industrial, forneceu ferramentas ao capitalismo para espalhar pelo globo terrestre a ideologia individualista do “cada um por si.” A competição que antes era entre povos, nações, e sociedades passou a ser entre indivíduos.

Estamos todos caminhando para um isolamento, sem nos darmos conta desse fato que a cada dia traz péssimas conseqüências para a pessoa como ser humano.

Franchi Foglia

Fonte: www.agapo.com.br

Etapas da Industrialização

Nascimento das Fábricas

Além da modernização da agricultura, a Inglaterra tornou-se, em meados do século XVIII, pioneira na evolução do sistema manufatureiro para o sistema fabril.

Entre as razões desse pioneirismo, destacou-se o desenvolvimento do comércio externo, favorecido pelas práticas mercantilistas. Apoiada por uma frota mercante poderosa, a Inglaterra passou a dominar os mares, fazendo com que a América, a África e a Ásia fossem exploradas pelas companhias de comércio que se dedicavam à compra de produtos agrícolas e matérias primas coloniais, ao tráfico negreiro e à venda de produtos manufaturados ingleses.

0 desenvolvimento mercantil inglês impulsionou a busca de novas técnicas e métodos de produção de mercadorias. Assim, a produção realizada nas casas ou nas oficinas foi substituída, no decorrer do século XVIII,, pela produção nas fábricas. Esses estabelecimentos concentra vam um número maior de operários, utilizando-se de equipamentos fornecidos pelo empregador e produziam para um mercado mais vasto.

A organização das fábricas ampliou o controle do empresário sobre o trabalhador que ainda detinha os conhecimentos técnicos sobre a produção. Criaram-se nelas uma hierarquia e uma ordem inexistentes no sistema doméstico e nas oficinas. A partir de meados do século XVIII, quando surgiram as primeiras máquinas na indústria têxtil do algodão, já existia nas fábricas um operário disciplinado e assalariado.

A MECANIZAÇÃO DA PRODUÇÃO

As primeiras invenções que deram inicio ao processo de mecanização da produção ocorreram no setor têxtil do algodão que, por ser uma atividade mais recente na Inglaterra, não estava controlado pelos regu lamentos das corporações de ofício. A indústria algodoeira concentrava-se na região do Lancaster, próxima ao porto de Liverpool, ligada ao comércio colonial, que recebia a matéria prima do Oriente, das Antilhas, do Brasil e das colônias inglesas da América.

As máquinas que revolucionaram a produção do algodão foram: a "spinning-jenny", ou filatório, uma roda de fiar composta que produzia oito fios ao mesmo tempo, criada por James Hargraves, em 1767; a "water-frame" ou bastidor hidráulico, que produzia fios para a urdidura e a trama do tecido, desenvolvida por Richard Arkwright, em 1769; e a "mula", uma versão aperfeiçoada das duas máquinas anteriores, patenteada em 1779 por Samuel Crompton, que chegava a produzir 400 fios da melhor qualidade (mais finos e mais resistentes) ao mesmo tempo. Em 1785, Edmund Cartwright criou o tear mecânico aumentando a produção de tecidos e em 1792, Eli Whitney inventou o descaroçador do algodão, barateando a oferta da matéria prima em bruto.

0 avanço técnico decisivo para a mecanização da indústria foi a utilização da energia a vapor, a partir da máquina criada em 1712 por Thomas Newcomen e aperfeiçoada em 1769 por James Watt, um construtor de instrumentos científicos da Universidade de Glascow. A máquina a vapor de Newcomen foi muito empregada nas minas de carvão para bombear a água; as modificações introduzidas por Watt permitiram a sua utilização nas indústrias. A energia a vapor substituiu com enorme vantagem a energia muscular, hidráulica ou eólica, até então usadas para movimentar as máquinas.

A energia a vapor possibilitou o crescimento da mineração, da metalurgia, da tecelagem e dos transportes; foi aplicada às máquinas de bombear a água e de içar os minérios do fundo das minas, tornando o carvão mais barato; movimentou fábricas de fiação, de tecidos, de cerveja, de papel e moinhos de grãos.

As inovações tecnológicas atingiram a indústria metalúrgica com a invenção do laminador para a fabricação de chapas de ferro e com o método de pudlagem que eliminava o carbono do minério de ferro, produzindo um metal de melhor qualidade e mais forte. 0 ferro foi utilizado na fabricação de máquinas mais resistentes, que podiam ser moldadas de forma padronizada, substituindo a madeira.

0 uso do ferro e da energia a vapor permitiram a invenção de barco a vapor (1807), da locomotiva a vapor (1822) e de ferrovias de uso comercial facilitando e barateando o transporte a longa distância de matérias primas, mercadorias e passageiros. Criaram-se também melhores arados e generalizou-se o uso da debulhadora e da ceifadeira, A máquina a vapor e a indústria do ferro contribuíram para a primeira arrancada da Revolução Industrial. "0 mundo industrial tornou-se como uma imensa fábrica, onde a aceleração do motor, sua desaceleração e suas paralisações modificam a atividade dos operários e regulam a produtividade". (MANTOUX P, op. cit. p. 340.)

AS CIDADES E AS FÁBRICAS

Antes da invenção da máquina a vapor, as fábricas situavam-se em zonas rurais próximas às margens dos rios, dos quais aproveitavam a energia hidráulica. Ao lado delas, surgiam oficinas, casas, hospeda rias, capela, açude, etc. A mão-de-obra podia ser recrutada nas casas de correção e nos asilos. Para fixarem-se, os operários obtinham longos contratos de trabalho e moradia.

Com o vapor, as fábricas passaram a localizar-se nos arredores das cidades, onde contratavam trabalhadores. Elas surgiam "tenebrosas e satânicas", em grandes edifícios lembrando quartéis, com chaminés, apitos e grande número de operários. 0 ambiente interno era inadequado e insalubre, com pouca iluminação e ventilação deficiente.

Até o século XVIII, cidade grande na Inglaterra era uma localidade com cerca de 5 000 habitantes. Em decorrência da industrialização, a população urbana cresceu e as cidades modificaram-se. Os operarios, com seus parcos salários, amontoavam-se em quartos e porões desconfortáveis, em subúrbios sem condições sanitárias.

As cidades tornaram-se feias e negras, envoltas numa atmosfera fumarenta, estendendo por todos os lados seus subúrbios mal construí dos. ( .... ) Nelas desenvolveu-se uma vida urbana que a velha Inglaterra não havia conhecido. Era a massa enorme e confusa do proletariado, que ocupava o formigueiro industrial com seu movimento disciplinado; a cima dela, dirigindo para seu lucro todo o mecanismo da grande indústria, a aristocracia manufatureira, a classe poderosa dos capitalistas fundadores e proprietários das fábricas".

Fonte: www.hystoria.hpg.ig.com.br

Etapas da Industrialização

O Nascimento das Fábricas

Dentre todas as utopias criadas a partir do século XVI, nenhuma se realizou tão desgraçadamente como a da sociedade do trabalho.

Fábricas-prisões, fábricas-conventos, fábricas sem salário, que aos nossos olhos adquirem um aspecto caricatural, foram sonhos realizados pelos patrões e que tornaram possível esse espetáculo atual da glorificação do trabalho. Para se ter uma idéia da força dessas utopias realizadas impregnando todos os momentos da vida social a partir do século XIII, basta considerarmos a transformação positiva do significado verbal da própria palavra trabalho, que até a época Moderna sempre foi sinônimo de penalização e de cansaços insuportáveis, de dor e de esforço extremo, de tal modo que a sua origem só poderia estar ligada a um estado extremo de miséria e pobreza. Seja a palavra latina e inglesa labor, ou a francesa travail, ou grega ponos ou a alemã Arbeit, todas elas, sem exceção, assinalam a dor e o esforço inerentes à condição do homem, e algumas como ponos e Arbeit têm a mesma raiz etnológica que pobreza (penia e Armut em grego e alemão, respectivamente).

Essa transformação moderna do significado da própria palavra trabalho, em sua nova positividade, representou também o momentoem que, a partir do século XVI, o próprio trabalho ascendeu da “mais humilde e desprezada posição ao nível mais elevado e à mais valorizada das atividades humanas, quando Locke descobriu que otrabalho era a fonte de toda a propriedade. Seguiu seu curso quando Adam Smith afirmou que o trabalho era a fonte de toda a riqueza, e alcançou seu ponto culminante no “sistema de trabalho” de Marxonde o trabalho passou a ser a fonte de toda a produtividade e expressão da própria humanidade do homem” (Hannah Arendt, La Condición Humana,p. 139).

A dimensão crucial dessa glorificação do trabalho encontrou suporte definitivo no surgimento da fábrica mecanizada, que se tornou aexpressão suprema dessa utopia realizada, alimentando, inclusive, as novas ilusões de que a partir dela não há limites para a produtividade humana.

Essa descoberta delirante da fábrica como lugar, por excelência, no qual o trabalho pode se apresentar em toda a sua positividade não só alimentou as projeções dos apologistas da sociedade burguesa, como também a de seus próprios críticos, na medida em que ela foi entendida como o momento de uma liberação sem precedentes das forças produtivas da sociedade. Assim, a fábrica ao mesmo tempo que confirmava a potencialidade criadora do trabalho anunciava a dimensão ilimitada da produtividade humana através da maquinaria.

Para esse pensamento movido pela crença do poder criador do trabalho organizado, a presença da máquina definiu de uma vez portodas a fábrica como o lugar da superação das barreiras da própria condição humana. “A invenção da máquina a vapor e da máquina para trabalhar o algodão”, escrevia Engels em 1844, “deu lugar como é sobejamente conhecido a uma Revolução Industrial, que transformou toda a sociedade civil”. Essa imagem cristalizada já no pensamentodos homens do século XIX apagou todo o percurso sinuoso da organização do trabalho da época Moderna, ao reduzir definitivamente a fábrica a um acontecimento tecnológico.

Contudo, os ecos das resistências dos homens pobres a se submeterem aos rígidos padrões do trabalho organizado são audíveisd esde o século XVII e assinalam a presença da fábrica a partir de um marco distinto daquele definido pelos pensadores do século XIX.

Aqueles primeiros homens, que se viram constrangidos pela pregação moral do tempo útil e do trabalho edificante, sentiram em todos os momentos de sua vida cotidiana o poder destrutivo desse novo princípio normativo da sociedade. Sentiram na própria pele a transformação radical do conceito de trabalho, uma vez que essa nova positividade exigiu do homem pobre a sua submissão completa ao mando do patrão.

Introjetar um relógio moral no coração de cada trabalhador foi aprimeira vitória da sociedade burguesa, e a fábrica apareceu desde logo como uma realidade estarrecedora onde esse tempo útil encontrou o seu ambiente natural, sem que qualquer modificação tecnológica tivesse sido necessária. Foi através da porta da fábricaque o homem pobre, a partir do século XVIII, foi introduzido ao mundo burguês.

A reflexão que agora propomos visa ultrapassar a imagem cristalizada que o pensamento do século XIX produziu sobre a fábrica, reduzindo-aa um acontecimento tecnológico.

Nosso intuito é desfazer o manto da memória da sociedade burguesa ereencontrar a fábrica em todos os lugares e momentos onde estevepresente uma intenção de organizar e disciplinar o trabalho através de uma sujeição completa da figura do próprio trabalhador. Por isso,os leitores não devem se surpreender quando no decorrer do textoencontrarem no engenho de açúcar da colônia o esboço da fábrica queiria produzir o futuro operário europeu.

NUNCA TEMOS TEMPO PARA SONHAR

"Todas as pessoas que se encontram trabalhando nos teares mecânicos estão ali de modo forçado, porque não podem existir de nenhum outro modo; via de regra são pessoas cujas famílias foram destruídas e seus interesses arruinados... têm a tendência de ir como pequenas colônias colonizar esses moinhos”.

Inspetor governamental inglês (1834)

Quando nos defrontamos hoje com a impossibilidade de criar situações de conhecimento que interrompam ou invertam a lógica de um processo, designado real, podemos nos perguntar sobre os dispositivos que regem a ordem de domínio da sociedade. Sejam os explícitos desde o princípio. Estamos falando, no caso, de uma incapacidade imposta ao social, por ordem de um determinado domínio que retira dos homens a própria dimensão do pensar, como algo além do já dado.

Dentro daquilo que nos interessa, determinadas respostas já são bastante conhecidas. Por exemplo, quando falamos da produção de conhecimentos técnicos que não conseguem se impor socialmente, buscamos a resposta, via de regra, no nível do próprio mercado.

Assim, uma tecnologia é ineficaz porque não consegue romper a barreira da concorrência imposta por uma ordem implacável. Nesse sentido, a conclusão é imediata. Não existem outras tecnologias além daquelas conhecidas, porque o próprio mercado se responsabiliza em eliminar as “menos eficazes”. Contudo, deveríamos ser menos ingênuos em questões que colocam explicitamente em jogo as relações de dominação social. Em outras palavras, as relações de mercado vão bem mais além do que as puras determinações econômicas. O estabelecimento do mercado é também o estabelecimento de um dado registro do real, no qual os homens pensam e agem conforme determinadas regras do jogo. Assim, o mercado não só impõe aos homens determinadas tecnologias “eficazes”, como também impede que lhes seja possível pensar outras tecnologias.

Daí falarmos em impotência social. Não é isto um mecanismo regulado por leis econômicas do mercado, mas uma esfera de domínio social na qual os homens se vêem impossibilitados de pensar além de registros que se impõem à vista de todos como uma ordem natural.

Portanto, quando nos sentimos incapazes de fabricar balas, por exemplo, não significa imediatamente que não tenhamos condições de impor técnicas de produção eficazes para a concorrência no mercado. Um outro mecanismo antecede essa ilusão. O que nos é vedado, antesde mais nada, é justamente a possibilidade de pensarmos o ato mesmo de poder fabricar balas.

Alguma coisa já se hipostasiou, ganhoua parência de “condições objetivas”: o fabricar balas já encontrou socialmente um determinado estatuto e, a não ser para alguns espíritos recalcitrantes que insistem em fazer festas, balas devem ser reconhecidas como produto da eficiência de indústrias altamente conceituadas, segundo seus padrões de qualidade.

Somos induzidos, então, a pensar dentro de uma lógica definida, que não é ditada por leis de mercado, mas sim regida por mecanismos sutis de controle social.

Portanto, vejamos bem o que é esse pensar, pois há nisso tudo um modo de pensar, próprio da esfera desse controle. Até agora nos referimos à possibilidade de emergência de saberes que interrompiam uma lógica de identificação social. Isto é, um não-saber, porque se situava na esfera daquilo que não poderia ser pensado. Pensar, portanto, é pensar segundo regras já definidas, e o seu contraponto, no nível da sociedade, é justamente a impossibilidade de pensar além das regras.

Portanto, ao falarmos em mercado ou em divisão social do trabalho não estamos nos referindo à questão de maior ou menor produtividade do trabalho, mas sim à apropriação mesma dos saberes.

Deve, assim, existir um mecanismo social no qual aquele que detém um saber se torna imprescindível para a imposição do próprio processo de trabalho, já que aos outros homens está vedada a possibilidade desse saber.

Evidentemente, a solução para este impasse não é reivindicar um direito para todos produzirem balas, já que isto seria uma saída edulcorada para o problema.

Contudo, até nisso há uma dose de reflexão. Como restituir aos homens saberes que lhes foram retirados e que hoje servem parareger uma ordem de domínio político, técnico, cultural etc., que lhes é estranha e antagônica?

Mas não estamos aqui para oferecer respostas acabadas. Preocupemo-nos mais em levantar algumas questões que permitam pensar a problemática da tecnologia para além dos estreitos limites impostos pela lógica da eficácia, da produtividade e da neutralidade. Pensamos, isto sim, na apreensão do problema como uma estratégia de controle da sociedade imposta por uma determinada classe nomomento mesmo do seu engendramento e afirmação no mundo.

Assim, conceber uma classe de capitalistas e uma sociedade capaz de se engendrar e ser engendrada por ela supõe, de início, registros determinados pelos quais se torne possível a criação de um mundo. Isto é, a sociedade, para se tornar reconhecida por ela mesma, passa pelo imperativo de instituição de mecanismos capazes de identificá-la.

Contudo, tais mecanismos que permitem esse reconhecimento supõem a imposição de normas e valores próprios de determinados setores da sociedade e que vão aparecer dotados de universalidade.

Por exemplo, quando pensamos o desenvolvimento da ordem burguesa no seio da sociedade feudal, logo imaginamos a instituição do mercado como esfera universalizante e universalizadora de uma nova ordem que se impõe.

Essa imposição de normas e valores por um determinado setor da sociedade pode ser percebida decisivamente quando tomamos a noçãode tempo útil, produzida pela ampliação da esfera do mercado e quenão só disciplina a classe burguesa como também procura seintrojetar no âmbito da gente trabalhadora. Essa introjeção de um relógio moral no corpo de cada homem de marca decisivamente os dispositivos criados por uma nova classe em ascensão. Autodisciplina, controle de si mesmo, crítica à ociosidade, são exigências imperiosas para o comerciante que se envolve na esfera do mercado. “Utilizecada um dos minutos como a coisa mais preciosa. E empregue-os todos no seu dever”.

Pregações desse tipo ou aquelas em que o tempo se relaciona com o dinheiro nos mostram todo o artefato moral de uma classe de mercadores que se impõe a si mesma os critérios de sua identificação:

Recordai quão recompensadora é a Redenção do Tempo... no mercado, ou no comerciar; na lavoura ou em qualquer ocupação remuneradora; só nos resta dizer que o homem se torna rico quando faz bom uso do seu tempo (E. P.Thompson, Tiempo, Disciplina de Trabajo y Capitalismo, p. 280).

Ou então:

Observai as horas de intercâmbio, atendei aos mercados; há épocas especiais que serão favoráveis para despachar vossos negócios com facilidade e fartura;... as épocas de fazer ou receber bens não duram sempre" (E. P.Thompson, p. 281).

Contudo, essa autodisciplina de uma classe de mercadores que afirma o seu lugar no mundo através da instituição do mercado aos poucos transforma-se em um artefato moral que procura prescrever uma nova disciplina para a gente trabalhadora. Nessa medida, o destinatário do discurso moralizante do tempo útil deixa de ser exclusivamente o mercador e a crítica à ociosidade procura atingir todas as esferas da sociedade.

Preguiça, silenciosa assassina, não mais
Tenha minha mente aprisionada
Não me deixes nenhuma hora mais
Contigo, sono traidor (E. P. Thompson, p. 282).

Essa mudança de destinatário do discurso moralizante do tempo útilnos dá a medida de como as idéias de uma classe dominante tornaram-se as idéias dominantes de toda a sociedade através de um persistente e minucioso trabalho de introjeção de novas normas e valores, isto é, pela introjeção definitiva da imagem do tempo como moeda no mercado de trabalho.

Posto que nosso tempo está reduzido a um Padrão, e os Metais preciosos do dia acunhados em horas, os industriosos sabem empregar cada parcela de tempo em verdadeiro benefício de suas diferentes profissões; e aquele que é pródigo com suas horas é, na realidade, um perdulário. Eu me recordo de uma mulher notável, que era muito sensível ao valor intrínseco do tempo. Seu marido fazia sapatos e era um excelente artesão, mas não se preocupava com a passagem dos minutos. Em vão ela inculcava-lhe que Tempo é dinheiro. Ele tinha muita destreza (habilidade) para compreendê-la, e isto foi sua ruína.Quando estava na taverna com seus ociosos companheiros, se alguém observava que o relógio havia tocado (dado) onze horas, ele dizia, o que é isso para nós, companheiros? Se ela lhe mandava um aviso por seu filho de que já passava das doze horas do dia, ele respondia, diz-lhe que fique tranqüila, que as horas não podem ser mais. Se havia dado uma hora, ele ainda respondia, peça-lhe que se console, que não pode ser menos (E. P. Thompson, p. 283).

Entretanto, a instituição do mercado também supõe desde o princípio a divisão social do trabalho, e portanto a afirmação da classe burguesa. O mercado transforma-se, assim, em uma entidade universal através da qual os homens se reconhecem a si próprios e se opõem a qualquer dispositivo imaginário que coloque a ordem social fora do âmbito desse novo universo.

Mas tenhamos cuidado com essas reflexões. Se esse mercado designa o registro do real, pelo qual a sociedade reconhece a si mesma, isto é, torna-se a dimensão normativa a partir da qual os homens pensam e agem, não devemos perder de vista que essa universalização que ocorre no interior do social representa, fundamentalmente, o modo pelo qual as idéias de uma classe dominante se tornam idéias dominantes para toda a sociedade. Por isso podemos falar de um imaginário do mundo burguês e, desde já, descartar a idéia de que, por exemplo, os setores dominados desta mesma sociedade estejam submetidos a uma enorme mentira ou a um engano universal, isto porque a presença histórica das classes nessa sociedade se dá justamente a partir da universalização desse imaginário burguês, e, nessa medida, a produção mesma das classes está intimamente ligada ao modo pelo qual essa sociedade impõe os registros do imaginário para o seu próprio reconhecimento.

Portanto, há uma luta ali mesmo onde as classes se produzem. Isto quer dizer que, se pensarmos na gestação da sociedade burguesa, a ordem do mercado, dimensão na qual os homens pensam e agem, torna-se também o lugar (imaginário e real) onde se opera efetivamente a divisão do social. Em outras palavras, a produção histórica de uma classe de proprietários dos meios de produção, ao mesmo tempo que uma outra classe se constitui como assalariada e despossuída, decorre de um confronto que, no final, faz aparecer para os sujeitos sociais a imagem de que existe a imperiosidade da figurado capitalista, como elemento indispensável para o próprio processo de trabalho.Vários autores estudaram esse processo de engendramento das relações sociais da ordem burguesa.

Contudo, nem todos pensaram esse processo, justamente, na dimensão de uma luta.

Stephen Marghim, preocupado com a análise da constituição do sistema de fábrica, como sistema, por excelência, da divisão e do parcelamento do trabalho, isto é, como locus privilegiado do controle social no âmbito da sociedade burguesa, procura pensar, em seu livro Para que Servem os Patrões, quais os caminhos desenvolvidos por um confronto que produz as classes sociais.

Seu ponto de partida é, justamente, o movimento de constituição do mercado no interior da ordem feudal e a progressiva constituição da figura do negociante como elemento indispensável para o funcionamento do próprio processo de produção artesanal. Em outras palavras, Marglin está preocupado em acompanhar o desenvolvimento clássico do “putting-out system”, primeira configuração da produção capitalista. Os passos de Marglin são extremamente importantes, posto que a interposição da figura do negociante entre o mercado e a produção artesanal, segundo ele, representou o momento pelo qual se impôs a essa produção a figura indispensável do capitalista, criando uma hierarquia social sem a qual, desde então, o próprio processo de trabalho fica impossibilitado de existir. Isso ocorreu porque os produtores diretos, embora dominassem o processo de trabalho, se viram obrigados a depender da figura do negociante para que sua produção se efetivasse, uma vez que a eles estava vedado o acesso ao mercado, tanto para a obtenção das matérias-primas indispensáveis para a produção como para a comercialização de seus produtos.

Este autor, enfatizamos mais uma vez, está preocupado com o estudo das origens do sistema de fábrica, posto que aí encontram-se substantivados os vários mecanismos de poder que tornam possível ao capitalista o controle sobre o operário. Por isso mesmo, seu ponto de partida é o “putting-out system”, já que, aí, o papel imprescindível do capitalista é evidente, embora o trabalhador ainda detenha o domínio das técnicas de produção e do processo de trabalho.

Problema bastante importante para a nossa discussão, pois estamos diante de uma situação histórica na qual o domínio da sociedade, embora esteja delimitado pelo dispositivo do mercado, não se transformou ainda em domínio técnico. Em outras palavras, no interior da sociedade do início do século XVI, embora seja imprescindível a figura do capitalista, seu domínio se realizou numa direção que não se resume no controle tecnológico do processo produtivo. No “putting-outsystem”, o capitalista tem o acesso ao mercado e veda aos trabalhadores diretos esse contato, mas, ainda assim, esses últimosditam o processo de produção. Essa divisão social torna imperiosa a figura do capitalista no interior do processo produtivo, e o trabalhador, distante do mercado, tanto para a obtenção de matéria-prima como para a comercialização de seus produtos, detém, única e exclusivamente, o controle do processo de trabalho. Claro está, nesse caso, que a razão técnica, estando sob o domínio de quem participa do processo de trabalho, ainda não representa um instrumento através do qual se possa exercer o controle social.

Entretanto, seguindo as pistas do autor, vale a pena indagar por queesses trabalhadores foram reunidos a partir de um determinadomomento num mesmo local de trabalho, constituindo aquilo que ficouconhecido como sistema de fábrica.

Mais uma vez, Marglin sugere algo muito importante. Para ele, areunião dos trabalhadores na fábrica não se deveu a nenhum avançodas técnicas de produção.

Pelo contrário, o que estava em jogo era justamente um alargamento do controle e do poder por parte do capitalista sobre o conjunto de trabalhadores que ainda detinham os conhecimentos técnicos e impunham a dinâmica do processo produtivo. E isso é muito importante, uma vez que do lado dos trabalhadores estava a resposta ao problema da eficácia técnica e da produtividade.

Ora, transferir esse controle da produção que estava nas mãos dos trabalhadores para as mãos do capitalista não significou, absolutamente, segundo Marglin, maior eficácia tecnológica nem tampouco uma maior produtividade.

O que se verificou, isto sim, foi uma maior hierarquização e disciplina no trabalho e a supressão de um controle determinado: o controle técnico do processo de trabalho e da produtividade ditado pelos próprios trabalhadores. Enfatizamos,mais uma vez, que essa transferência, ainda - conforme esse autor, não significou progresso técnico (coisa que muitos afirmam), resumido nos termos de um desenvolvimento tecnológico que teria posto por terra o “putting-out system” ante o sistema de fábrica.

Muito pelo contrário, Marglin nos mostra que nenhuma tecnologia muito avançada determinou a reunião dos trabalhadores no sistemade fábrica, e aponta na direção de como esse sistema possibilitou a disciplina e a hierarquia na produção, já que o “putting-out system”, baseando-se na dispersão dos trabalhadores domésticos, criava algo muito problemático para o capitalista, isto é, o desvio de parte daprodução, a falsificação dos produtos, a utilização de matérias-primas de qualidade inferior àquelas fornecidas pelo capitalista etc. etc; enfim, vários tipos de “sabotagem”.

Contudo, quando Marglin fala de sabotagem, refere-se à perspectiva dos capitalistas, já que do ponto de vista dos trabalhadores domésticos do “putting-out system” ela e presentava uma resistênciaà perda do próprio controle do processo de trabalho.

E, nesse sentido, o sistema de fábrica representou, justamente, aperda desse controle pelos trabalhadores domésticos. Na fábrica, a hierarquia, a disciplina, a vigilância e outras formas de controle tornaram-se tangíveis a tal ponto que os trabalhadores acabaram por se submeter a um regime de trabalho ditado pelas normas dos mestres e contra-mestres, o que representou, em última instância, odomínio do capitalista sobre o processo de trabalho.

Um outro autor, David Dickson, em seu livro Tecnologia Alternativa, resume muito bem as razões que tornaram imperativa a constituição do sistema de fábrica.

Segundo ele, seria possível enumerar pelo menos quatro razões importantes para o estabelecimento do regime de fábrica. Em primeiro lugar, os comerciantes precisavam controlar e comercializar toda a produção dos artesãos, com o intuito de reduzir ao mínimo as práticas de desvio dessa produção. Além disso, era do interesse desses comerciantes a maximização da produção através do aumento do número de horas de trabalho e do aumento da velocidadee do ritmo de trabalho. Um terceiro ponto muito importante era o controle da inovação tecnológica para que ela só pudesse ser aplicada no sentido de acumulação capitalista; e, por último, a fábrica criava uma organização da produção que tornava imprescindível a figura do empresário capitalista.

É indiscutível que só a concentração do trabalhador num mesmo local de trabalho poderia proporcionar todas essas vantagens para o empresário capitalista.

Nesse sentido, a fábrica transformou-se no nosso marco organizador desses desejos empresariais. Por isso mesmo, embora pudessem ser encontradas máquinas nas primeiras fábricas, muito raramente essas máquinas chegaram a se constituir na razão do surgimento das fábricas. Enfim, o surgimento do sistema de fábrica parece ter sido ditado por uma necessidade muito mais organizativa do que técnica, e essa nova organização teve como resultado, para o trabalhador, toda uma nova ordem de disciplina durante todo o transcorrer do processo de trabalho.

Contudo, esse autor não pára aí. Mostra-nos, inclusive, como a partirda constituição do sistema de fábrica vai se impondo, progressivamente, um determinado padrão tecnológico, isto é, um padrão que, acima de tudo, garantia ordem, disciplina e controle de produção por parte do capitalista.

Assim, existem dois pontosfundamentais na constituição do sistema de fábrica: em primeirolugar, ele não decorreu de um grande avanço tecnológico; em segundo, as tecnologias empregadas constituíram-se emelementos de controle e de hierarquia na produção.

Retomemos David Dickson nos seus argumentos sobre o surgimentodas fábricas têxteis durante o período de Revolução Industrial.

Segundo ele, “a organização da indústria têxtil baseada noestabelecimento de fábricas não foi, como deixam supor algunshistoriadores, um desenvolvimento direto a partir de uma base técnicamais eficaz, pelo contrário, muitas das máquinas só foramdesenvolvidas e introduzidas depois que os tecelões já haviam sidoconcentrados nas fábricas” (Dickson, p. 58).

Ora, se considerarmos o surgimento da fábrica a partir de uma necessidade mais organizativa do que técnica e levarmos em conta ainda as pressões sofridas pelo trabalhador inglês para seguir inexoravelmente esse caminho, podemos inclusive compreender algumas diferenças entre a industrialização na Inglaterra e na França.

No caso francês, as fortes lembranças da Revolução Francesa influíram decisivamente para que se retardasse o surgimento das fábricas, uma vez que a mera concentração de trabalhadores recriava as imagens do perigo que essa massa de homens reunidos podia representar para as instituições de poder da sociedade burguesa.

Entretanto, não foi apenas a indústria têxtil inglesa que adotou oregime de fábrica muito mais como novo marco de organização do trabalho do que por imperiosidade técnica. Para Dickson, também no ramo da cerâmica podemos encontrar exemplos semelhantes de adoção do regime de fábrica. Já na segunda metade do século XVIII, Josiah Wedgwood estabelecia uma grande fábrica no Midlandes,convencido de que “o único modo possível pelo qual se podia obter os modelos e as quantidades de bens necessários, devido ao rápido crescimento do mercado, era através de uma divisão do trabalho cuidadosamente calculada, implicando a separação de todos os diferentes processos nos quais se baseava a produção de cerâmica”. E isto, sem dúvida, só podia ser conseguido através da imposição de uma férrea disciplina fabril. Nas fábricas de Wedgwood foi desenvolvido um sistema de fichas, além da criação de uma ampla e detalhada série de instruções relativas à disciplina do trabalhador dentro da fábrica, estabelecendo inclusive a categoria especial dos capatazes responsáveis pela vigilância do processo de trabalho.

Assim como os tecelões, os ceramistas não estavam acostumados com esse novo tipo de disciplina. Segundo um historiador inglês, “os ceramistas haviam gozado de uma independência durante muito tempo para aceitar amavelmente as regras que Wedgwood procurava implantar, a pontualidade, a presença constante, as horas prefixadas, as escrupulosas regras de cuidado e de limpeza, a diminuição do desperdício, a proibição de bebidas alcoólicas”. Mas apesar de todas as resistências desse trabalhador ante o regime fabril, Wedgwood, aferrado em seus princípios, afirmava, após 10 anos de existência de sua fábrica, que havia transformado esses “trabalhadores lentos e bêbados e inúteis” em um “magnífico conjunto de mãos”.

Nas próprias palavras de Wedgwood, a fábrica se materializa como uma nova organização do trabalho, sem a necessidade de ocorrênciade qualquer transformação profunda do aparato tecnológico.Entretanto, ainda podemos avançar alguns esclarecimentos a respeitodo uso das máquinas durante a Revolução Industrial. Tanto Dickson como Marglin nos fazem supor que as máquinas criadas e usadas durante os anos cruciais da revolução industrial não foram apenas etão-somente aquelas que substituíram o trabalho manual, mas, principalmente, aquelas que tornaram inevitável a concentração das atividades produtivas sob a forma de fábricas. Dickson afirma, por exemplo, que “um tear holandês que podia tecer de modo simultâneo vinte e quatro tiras estreitas, e uma complexa estrutura manual para a elaboração do ponto para o tecido de malha para a confecção de calças e meias, ambos instrumentos perfeitamente adaptados àindústria doméstica, foram abandonados rapidamente dando lugar a máquinas mais amplas, cuja superioridade mecânica eliminou paulatinamente as formas tradicionais de produção manual” (Dickson,p. 60). E acrescenta, “os exemplos mais importantes destas inovações mecânicas foram a estrutura hidráulica de Arkwright (1768), desenhada a fim de utilizar a energia hidráulica para a fiação dealgodão, o tear mecânico de Cartwright (1784), que podia funcionarpor meio de rodas hidráulicas, ou de máquinas a vapor, e as máquinas intermitentes de fiar, de Crompton, desenvolvidas em 1779 e capazesde produzir fios fortes e finos apropriados para numerosos tipos de elaborações têxteis.

A comparativamente ampla produção dessas máquinas representou uma rápida superação da capacidade das pequenas correntes de água que faziam funcionar os moinhos. Em1875 se realizou o último passo lógico ao se adaptar a máquina a vapor de Watt às funções de proporcionar energia para aquelas outras máquinas.

Cada um desses desenvolvimentos foi crucial no que se refere ao estabelecimento do sistema fabril, e contribuiu para a efetivação de uma disciplinarização geral na força de trabalho. De acordo com Ashton, “foi somente sob o impacto de poderosas forças, atrativas ou repulsivas, que o trabalhador ou artesão inglês se transformou em mão-de-obra fabril” (Dickson, p. 60). Por isso mesmoa Revolução Industrial foi vitoriosa, uma vez que representou uma mudança crucial não apenas no aparato técnico produtivo, mas, principalmente, nas estratégias de administração das empresas fabris. Em outras palavras, o êxito da revolução estava intimamente ligado à afirmação de novas relações de poder hierárquicas e autoritárias.

Alguns historiadores ingleses afirmam mesmo que o êxito alcançado por alguns empresários capitalistas, em meio a tantos fracassos que rodearam as primeiras tentativas de instalação das fábricas, deveu-se muito mais à qualidade de direção dessas empresas do que a uma substancial mudança de qualidade do trabalho ou das máquinas.

Nesse sentido, a despeito de a historiografia tradicional sobre a revolução industrial negligenciar as dimensões do fracasso das primeiras experiências fabris, ainda assim podemos afirmar que a resistência do trabalhador ante os avanços do sistema de fábrica foi decisiva durante esse período. Afinal, nem todos os homens se renderam diante das forças irresistíveis do novo mundo fabril, e a experiência do movimento dos quebradores de máquina demonstra uma inequívoca capacidade dos trabalhadores para desencadear uma luta aberta contra o sistema de fábrica. Essa luta ganhou contornos dramáticos mas, acima de tudo, muito difusos, se procurarmos levarem conta as motivações que levaram os trabalhadores a destruir o maquinário das instalações fabris.

Se, de um lado, esse movimento de resistência visava investir contra as novas relações hierárquicas e autoritárias introduzidas no interior do processo de trabalho fabril, e nessa medida a destruição das máquinas funcionava como mecanismo de pressão contra a nova direção organizativa das empresas, de outro lado, inúmeras atividades de destruição carregaram implicitamente uma profunda hostilidade contra as novas máquinas e contra o novo marco organizador da produção que essa tecnologia impunha.

Nesse caso, “as máquinas não só supunham uma ameaça com respeitoaos postos de trabalho, mas contra todo um modo de vida que compreendia a liberdade, a dignidade e o sentido de parentesco do artesão” (Dickson, p. 61). Os destruidores de máquinas da região do Lancashire nos anos de 1778 a 1780 ilustram, inclusive, a maneira criteriosa de como essa luta era desencadeada não contra a mecanização em geral, mas em direção a determinadas máquinas em particular.

“Estes destruidores de máquinas distinguiram entre aqueles tornos de fiar que tinham vinte e quatro ou menos fusos, apropriados para a produção domestica, e que não destruíam, e entre aqueles outros mais amplos, apropriados exclusivamente para a sua utilização em fábricas, que destruíam” (Dickson,p. 62).

Apesar de toda a resistência e das vitórias alcançadas pelos quebradores de máquinas já por volta de 1820, “os avanços tecnológicos adicionais mudaram de novo a composição da força detrabalho, e já havia crescido uma nova geração de operários, acostumada à disciplina e à precisão de fábrica” (David Landes, Unbound Prometheus, p. 317).

Deveríamos considerar, agora, algumas questões. Em primeiro lugar, tudo leva a crer que a fábrica surgiu muito mais por imperativos organizacionais capitalistas de trabalho do que por pressões tecnológicas. Segundo, a tecnologia teve papel decisivo onde e quando a sua utilização facilitava e obrigava a concentração de trabalhadores e, portanto, a afirmação do sistema de fábrica.

Mas ainda valeria introduzir, aqui, uma outra questão, a saber: a inovação tecnológica como resposta contundente do empresário capitalista ante as pressões de trabalhadores que já estavam acostumados com o regime fabril.

Essa nova utilização da maquinaria não só visava conseguir a docilização e a submissão do trabalhador fabril e, nesse sentido, assegurar a regularidade e a continuidade da produção, mas representou também um forte obstáculo aos movimentos de resistência do trabalhador fabril, já no século XIX. “As máquinas começaram a ser introduzidas não somente para ajudar a criar ummarco dentro do qual se podia impor uma disciplina, mas também, muito freqüentemente, sua introdução se deveu a uma ação consciente por parte dos patrões para controlar as greves e as outras formas de militância industrial. Inclusive, a ameaça da mecanização, com o desemprego implícito que levava consigo, era freqüentemente utilizada pelos patrões para manter os baixos salários” (Dickson, p.63).

E. P. Thompson, em The Making of the English Working-class, relata-nos a dificuldade dos patrões em conseguir uma paz industrial até adécada de 1830, em virtude da crescente organização do trabalhador fabril, e indica inclusive que a única possibilidade encontrada pela indústria algodoeira para garantir uma força de trabalho estável e um plantel de trabalhadores hábeis e experimentados foi a adoção de novas técnicas de organização de trabalho que superaram as antigas e brutais concepções de disciplina fabril. Nessa medida, a tecnologia transformava-se tanto num elemento tático cotidiano das lutas entre ocapital e o trabalho como fazia parte da estratégia global de ampliação do controle social por parte desse mesmo capital, introjetando no próprio corpo do trabalhador as marcas da nova disciplina. Em 1835, Andrew Ure, um apologista do sistema de fábrica, descrevia em sua obra The Philosophy of Manufactures a maneira pela qual os patrões enfrentaram as pressões dos sindicatos militantes, controlando os trabalhadores não através da redução de salários, mas sim pela introdução de inovações tecnológicas nas fábricas. As inovações introduzidas na indústria têxtil durante adécada de 1830 atingiram profundamente a organização operária através da diminuição do número total das máquinas de fiar, reduzindo drasticamente a autoridade do trabalhador especializado adulto no interior do processo de produção.

Como afirmou Ure, “ao dobrar o tamanho de sua máquina de fiar, o proprietário teve condições de se livrar dos fiandeiros indiferentes ou inquietos, e deconverter-se de novo no dono de sua fábrica, o que não é uma pequena vantagem”, mesmo que isso tenha acarretado tanto um aumento considerável nos custos de produção como uma ampla organização espacial do processo de trabalho. E o mesmo autor iria, ainda, concluir, “que este invento confirma a grande doutrina já exposta, isto é, quando o capital consegue que a ciência se coloque a seu serviço, a mão-de-obra refratária aprende a ser sempre dócil”.

O próprio Marx em O Capital, embora saudasse o advento do universo fabril como o limiar de uma nova era, não deixa de ficar profundamente apreensivo com relação à introdução da máquina automática no processo de trabalho. Escrevia ele, “a máquina possui, como capital e através da instrumentalidade dos capitalistas, tanto consciência como desejo, por conseguinte está animada pelo desejode reduzir ao mínimo a resistência oferecida pelas naturais mas elásticas limitações do material humano por meio do qual funciona”. Embora Marx coloque essa resistência no nível do próprio corpo do trabalhador, sabemos muito bem que essas resistências tiver amregistros bastante diversos, e diziam respeito muito mais a uma negação deliberada desse trabalhador a introjetar uma nova disciplina, a regularidade cronometrada, e o automatismo do processo de trabalho. Nessa medida, seria um paradoxo pensarmos a introdução de máquinas no universo fabril capazes de aumentar o rendimento da produção sem se conseguir ao mesmo tempo umcontrole intermitente do trabalhador, com o intuito de assegurar autilização dessas mesmas máquinas com o máximo de capacidade. Porisso, em 1832, já vaticinava o inglês James Philip Kay, “a máquina animal – frágil no melhor dos casos, sujeita a mil fontes de sofrimento– se encontra firmemente encadeada à máquina de ferro, que não conhece nem o sofrimento nem o cansaço” (Asa Briggs, The Age of Improvement, p. 61).

Desde as origens do sistema de fábrica, estiveram em jogo, portanto, relações de poder que, passo a passo, determinaram o próprio limiteda produção de saberes técnicos. Em outras palavras, a luta transcorrida desde a instalação do “putting-out system” até a consolidação do sistema de fábrica não foi outra coisa a não ser a instituição do próprio social e do domínio desse social como apropriação de saberes. Se, do lado do “putting-out system”, o dispositivo do mercado fazia com que o saber técnico, detido pelos trabalhadores domésticos, representasse um momento de sua autonomia quanto ao domínio do processo de trabalho, na fábrica, a divisão social, impondo uma disciplina férrea aos trabalhadores, retirava-lhes saberes – dentre eles o técnico – e transferia-os para omando do capitalista. A partir desse momento, o empresário pode desenvolver toda uma estratégia para que o processo tecnológico não fugisse mais de seu controle. Por isso mesmo, na ordem social, um conjunto de instituições iria aparecer para que, principalmente, pudesse ser garantida a permanência e o controle do capitalista no âmbito do domínio da técnica produtiva e, logo em seguida, transformasse todo o registro dos saberes técnicos. Isto significou, por fim, a criação de um imaginário social voltado para o reconhecimento de uma esfera determinada de produção de saberes técnicos totalmente subtraída e alheia ao controle dos trabalhadores fabris.

A fábrica produziu, ao mesmo tempo em que proliferou, um conjunto complexo de instituições capazes de garantir a sua permanência e, oque é mais importante, capazes de garantir a continuidade da acumulação capitalista, representada agora pelo amplo domínio, controle e apropriação de saberes técnicos. Aqui, o momento em que, para o social, a fábrica, ou a indústria mecanizada, transforma-se, como num passe de mágica, na única medida capaz de aferir os avanços da sociedade. Assim, esse conjunto de instituições que se desdobrou desde a fábrica até os organismos científicos, pouco apouco, foi transformando a produção de saberes técnicos numa esfera especializada de controle social, e, progressivamente, as questões de eficácia e produtividade tornaram-se regras do jogo da acumulação capitalista. Isto é, eficácia e produtividade foram reduzidas aos problemas de melhor e mais racional utilização da tecnologia pelos trabalhadores fabris.

Nesse sentido, enfatizamos que um determinado saber técnico se tornou possível a partir da constituição do sistema de fábrica, cujo fundamento esteve ligado ao maior controle e disciplina do processo de trabalho. Por isso mesmo, o sistema de fábrica, como o lugar privilegiado para a produção e efetivação de saberes técnicos, não tem os seus limites na ordem capitalista. Pensemos, por exemplo, ocaso da União Soviética, reconhecida por muitos como alternativa histórica do capitalismo. Lá também o sistema de fábrica ao se implantar, trouxe consigo todas as seqüelas relacionadas à disciplina, hierarquia e controle do processo de trabalho, e o saber técnico aplicado esteve muito longe de ser detido pelos própriostrabalhadores.

Enfim, o sistema de fábrica introduz determinantes que lhe são inerentes, não importando que esse sistema se desenvolva num ambiente capitalista ou em outro qualquer, pois ele traz em seu bojotodas as implicações relacionadas à hierarquia, disciplina e controle do processo de trabalho, ao mesmo tempo em que se dá uma separação crucial: a produção de saberes técnicos totalmente alheia àquele que participa do processo de trabalho.

A esse respeito lembraríamos as palavras de Lênin anunciando as “tarefas imediatas do poder dos sovietes”, em 1918: “Em qualquer revolução socialista quando o proletariado tiver resolvido o problema da tomada do poder (...) há uma tarefa essencial que passa inelutavelmente para primeiro plano: realizar uma estrutura social superior à do capitalismo, ou seja, aumentar a produtividade do trabalho e (...) organizar esse trabalhode modo superior (...) A grande indústria mecânica, que justamente constitui a fonte e a base material do socialismo, exige uma unidadede vontade rigorosa, absoluta, que regula o trabalho comum de centenas, de milhares e de dezenas de milhares de pessoas”.

Aqui, poderemos nos deter no que está sendo denominado sistema de fábrica e chamar a atenção para o fato de que, comumente, as análises voltadas para essa questão reduzem a fábrica àquilo que ela tem de mais imediato, isto é, à sua materialidade. Esse reducionismo traz como conseqüência um viés analítico em que as variáveis em jogo são apenas aquelas capazes de medir o desenvolvimento das forças produtivas ou os progressos técnicos.

Qualificação que, na maioriadas vezes, escamoteia o que é fundamental: o sistema de fábrica como um universo (imaginário e real) onde são produzidas as relações sociais e onde se dá uma particular e decisiva apropriação do saber. Assim, não estão em jogo na fábrica apenas as questões relativas à acumulação do capital, mas também os mecanismos responsáveis pela concentração do saber e, conseqüentemente, de dominação social.

Claro está que, na perspectiva do trabalhador fabril, essa subtraçãode saberes (aqui não está em jogo apenas o saber técnico) alcança olimite no momento em que seu próprio trabalho só ganha substância quando uma nova ordem se impõe sobre ele através da presença absoluta da tecnologia. Nesse momento, a neutralidade da tecnologia vai aparecer como natural, posto que ela mesma e a sua presença escamoteiam, justamente, o fato de que ela representa não apenas trabalho acumulado ou morto, mas a enfática distância que separa o trabalho manual do trabalho intelectual.

Agora, temos condições de avaliar o que está por trás de noções do tipo eficácia, produtividade, progresso etc., quando elas estão reduzidas a parâmetros para avaliar e diagnosticar a realidade social.

Todas essas idéias reforçam uma estratégia que perpassa o conjunto do social, produzindo uma permanente apropriação do saber que se impõe a todos como lógica inquestionável, dissimulando o fato de quenão existe aumento das capacidades técnicas no processo de trabalhos em que haja concomitantemente um aprofundamento das relações de poder e de controle sobre o trabalhador.

Enfim, as relações sociais, produzidas a partir da expansão do mercado capitalista – e o sistema de fábrica é seu “estágio superior” –, tornaram possível o desenvolvimento de uma determinada tecnologia, isto é, aquela que supõe a priori a expropriação dos saberes daqueles que participam do processo de trabalho.

Nesse sentido, foi no sistema de fábrica que uma dada tecnologia pôde se impor, não apenas como instrumento para incrementar a produtividade do trabalho, mas,muito principalmente, como instrumento para controlar, disciplinar e hierarquizar esse processo de trabalho.

Bibliografia

DE DECCA, Edgar Salvadori. O Nascimento das Fábricas. Rio de Janeiro: Brasiliense, 1986

Fonte: pt.scribd.com

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