
Rocha Lima
Nascido no Rio de Janeiro em 24 de novembro de 1879, Henrique da Rocha Lima tornou-se famoso internacionalmente pela descoberta da causa do tifo epidêmico (ou exantemático), uma doença transmitida pelo piolho do corpo que afligia combatentes e prisioneiros de guerra na Europa. O agente foi batizado de Rickettsia prowazeki, nome dado por ele em homenagem aos pesquisadores Howard Taylor Ricketts e Stanislas Von Prowazek, que morreram vítimas da moléstia, ao tentar estudá-la. Com esta descoberta, Rocha Lima deu início a um novo capítulo nos livros de Microbiologia: o capítulo das Rickettsioses.
Rocha Lima foi um dos primeiros a freqüentar o Instituto Oswaldo Cruz, na época chamado Instituto Soroterápico Federal. Antes mesmo de se formar em 1901 pela Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro, já trabalhava na instituição, mais conhecida como Instituto de Manguinhos. Foi o convívio com Oswaldo Cruz que levou Rocha Lima a se decidir pela pesquisa científica, e não pela Medicina Clínica como o fez seu pai.
Logo depois de formado, Rocha Lima seguiu para a Alemanha com o objetivo de dar continuidade aos seus estudos, mas já em 1902, foi convidado a retornar a Manguinhos. De volta ao Brasil, ele colaborou intensamente com Oswaldo Cruz até 1909, nos projetos de pesquisa e de saneamento do país.
Rocha Lima teve participação decisiva para a construção de uma imagem positiva do Instituto de Manguinhos e da ciência brasileira no exterior. Em setembro de 1907, o Brasil surpreendeu o mundo ao mostrar os trabalhos, pesquisas e descobertas dos cientistas de Manguinhos durante o XIV Congresso Internacional de Higiene e Demografia, em Berlim, na Alemanha. Por ter trabalhado na Universidade de Munique e na Escola de Moléstias Tropicais de Hamburgo, Rocha Lima já era conhecido e prestigiado na comunidade científica alemã. Por isso, ele conseguiu garantir bons espaços na exposição para acomodar o vasto material que ele e Oswaldo Cruz pretendiam apresentar. Com uma exposição impecável, o Instituto de Manguinhos recebeu a medalha de ouro no Congresso, prêmio que mudaria a história da atual Fiocruz.
Ainda em 1909, Rocha Lima voltou para a Alemanha a convite do professor Durk, com quem havia feito um estágio no Instituto de Anatomia Patológica de Munique. Em 1910, ingressou no Instituto de Moléstias Tropicais de Hamburgo, permanecendo até 1928. Foi trabalhando nesta instituição que ele foi indicado pelo governo alemão para estudar o tifo epidêmico em Constantinopla, na Turquia, no Hospital Militar de Haidar Pascha, junto com Stanislas Von Prowazek, um dos maiores bacteriologistas da época e antigo companheiro do Instituto de Manguinhos.
A doença estava se propagando rapidamente entre os militares que combatiam nas guerras balcânicas (1912-13), e havia uma grande preocupação de que a enfermidade, altamente contagiosa, viesse a se alastrar pela Europa. Com o início da 1ª Guerra Mundial, em agosto de 1914, Rocha Lima e Von Prowazek tiveram de voltar para Hamburgo. Mas logo em seguida, foram chamados novamente para tentar descobrir a causa do tifo, que dizimava centenas de prisioneiros russos no interior da Alemanha.
Seguiram, então, para o campo de prisioneiros de Cottbus, onde sete mil de um total de 10 mil tinham contraído tifo. Já se sabia que eram os piolhos os transmissores da doença, uma descoberta feita pelo pesquisador Charles Nicolle, em 1909. Por isso, Rocha Lima e Prowazek examinaram os intestinos desses artrópodes, coletados em soldados doentes ou mesmo mortos, numa tentativa de descobrir o agente causador daquela enfermidade.
Infelizmente, não demorou muito para Prowazek se contaminar com os materiais preparados a fresco, falecendo em 17 de fevereiro de 1915, como tantos pesquisadores que investigavam a doença: Ricketts, Jochmann, Lüthje, Cornet, Römer, Pappenheim, Schüssler, Lemos Monteiro, entre outros. Após o falecimento de Prowazek, Rocha Lima trabalhou ainda mais intensamente para elucidar a doença, sendo também infectado. Mas ele conseguiu se restabelecer e voltou para Hamburgo.
Em 15 de fevereiro de 1916, Rocha Lima finalmente anunciou a descoberta do causador do tifo epidêmico. Era uma pequeníssima bactéria, que se desenvolvia no interior das células intestinais dos piolhos, um agente que denominou Rickettsia prowazeki. Além de introduzir o conceito de Rickettsias como uma nova classificação de microorganismos e descobrir o agente que provocava o tifo, Rocha Lima ainda esclareceu a distribuição da doença, sua epidemiologia e profilaxia, viabilizando a produção de soros e vacinas.
Suas pesquisas, no entanto, não receberam o reconhecimento devido da comunidade científica. Em 1928, Charles Jules Henri Nicolle recebeu o Prêmio Nobel de Medicina e Fisiologia por ter descoberto que o piolho era o transmissor do tifo epidêmico e Rocha Lima sequer foi citado. Descontente com a falta de reconhecimento, Rocha Lima recebeu o título de Cavalheiro da Ordem da Águia Alemã, em 1938, das mãos do próprio Hitler durante o regime nazista, gerando polêmicas acerca de sua posição política.
Rocha Lima regressou ao Brasil em 1928, quando passou a chefiar a Divisão de Patologia Animal do Instituto Biológico de São Paulo. Em 1933, ele assumiu a direção do Instituto, cargo que só deixou em 1949. Faleceu em 12 de abril de 1956, aos 76 anos.
Rocha Lima iniciou seus estudos sobre febre amarela no ano de 1908. O pesquisador deixou importantes contribuições científicas que ajudaram no combate à doença, descrevendo as lesões que a febre amarela deixava em diversos órgãos, principalmente no fígado. Os pesquisadores Miguel Couto e Azevedo Sodré já tinham, nesta época, estudado a parte clínica da doença, diagnosticado-a por meio do aumento de volume de fígado e baço, da cor amarelada que o doente apresentava e hemorragias.
No entanto, foi somente em 1928, durante uma epidemia da doença no Rio de Janeiro, que a lesão Rocha Lima foi finalmente admitida. O seu trabalho tornou possível determinar com precisão a ocorrência de surtos epidêmicos para que, assim, medidas preventivas fossem tomadas.
Lamentavelmente, todo o empenho de Rocha Lima na elucidação da febre amarela acabou sendo negado por seus próprios colegas de trabalho do Instituto Oswaldo Cruz, que atribuíram a Councilman o mérito de suas pesquisas. Mas a verdade veio à tona com a Comissão Rockefeller no Brasil, sob a direção de F. L. Soper, que aceitou definitivamente os trabalhos de Rocha Lima.
Maria Ramos
Fonte: www.invivo.fiocruz.br

Rocha Lima
Médico e pesquisador brasileiro nascido no Rio de Janeiro, que descreveu o quadro histopatológico das degenerações hepáticas na febre amarela, a lesão de Rocha Lima, e considerado o pai das rickettsias por descobrir o agente causador do tifo exantemático, a Rickettsia prowazeki.
Filho de conceituado clínico carioca, diplomou-se em medicina pela Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro (1901) defendendo a tese Esplenomegalia nas infecções agudas.
Após a formatura, seguiu para a Alemanha, onde ampliou seus conhecimentos em microbiologia e anatomia patológica, sob a orientação de Martin Ficker, no seu laboratório de microbiologia, e sob a orientação de Kaiserling e Orth, nos laboratórios do Instituto Virchow, em Berlim.
Regressou ao país dezoito meses mais tarde, quando colaborou intensamente (1903-1909) com Oswaldo Cruz, no Instituto de Manguinhos.
Neste período criou a primeira escola brasileira de Anatomia e Histologia Patológicas, no futuro Instituto Oswaldo Cruz.
Voltou à Alemanha, onde trabalhou no Instituto de Patologia de Jena e no Instituto de Medicina Tropical de Hamburgo, onde foi professor (1910-1918).
Foi convidado para dirigir o Instituto Butantan (1920) e assumir como vice-diretor do Instituto Biológico de São Paulo (1927), a convite de Arthur Neiva, entomólogo de Manguinhos e fundador desse importante Instituto.
Substituindo Neiva na direção do Instituto (1933-1949) e, aposentado, morreu em São Paulo, 12 de abril (1956), aos 76 anos.
Na sua obra científica destacam-se os trabalhos sobre febre amarela, seu tema predileto, desde o início de sua carreira científica, e tifo exantemático.
As suas pesquisas histopatológicas resultaram em profunda modificação do conceito anátomo-clínico da febre amarela.
A descoberta do agente etiológico do tipo exantemático foi sua obra prima, que ainda estudou riquetsias, verruga peruana, das blastomicoses, da doença de Chagas, da poradenite e da febre hemoglobinúrica.
Fonte: www.dec.ufcg.edu.br
A demonstração e caracterização do agente etiológico do tifo exantemático, a que Rocha Lima denominou de Rickettsia Prowazeki, constitui uma saga científica que não deve ser esquecida, especialmente por seus patrícios.
Rocha Lima nasceu no Rio de Janeiro, em 24 de novembro de 1879, e pode ser considerado que sua brilhante carreira científica inicia-se em 1900 quando, ainda doutorando, encontra-se pela primeira vez com Oswaldo Cruz, que acabava de aceitar a incumbência de preparar soro e vacina contra a peste em laboratório improvisado, anexo ao Instituto Vacínico na Fazenda de Manguinhos. O convívio dos dois ilustres médicos foi curto, entretanto suficiente para despertar em Rocha Lima o interesse em atividades de pesquisa.
Diplomando-se na Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro, depois denominada Faculdade Nacional de Medicina da Universidade do Brasil e atualmente Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Rio de Janeiro, defende a tese sobre “Esplenomegalia nas infecções agudas”, em seguida viaja para Berlim onde passa a estudar durante dois anos, especialmente bacteriologia e anatomia patológica.
Voltando ao Brasil, aceita convite de Oswaldo Cruz, já nomeado Diretor Geral da Saúde Pública, para substituí-lo nas suas ausências no Instituto de Manguinhos. Permanece de 1903 a 1909 como um dos principais colaboradores de Oswaldo Cruz nesta fase heróica da implantação do Instituto de Manguinhos.
Por um curto período, entre 1906 e fins de 1907, Rocha Lima volta à Alemanha para aperfeiçoar-se em anatomia patológica no Instituto de Patologia de Munique. Regressa ao Brasil, e em 1909 é convidado e aceita o cargo de primeiro-assistente do Prof. Duerck no Instituto de Patologia da Universidade de Jena.
Em 1910 Rocha Lima desliga-se do Instituto de Manguinhos com a total compreensão de Oswaldo Cruz, pois seu colaborador era agora convidado por Von Prowazek para dirigir a Divisão de Patologia do Tropeninstitut de Hamburgo.
Pôde então Rocha Lima dedicar-se inteiramente à pesquisa, desenvolvendo uma brilhante carreira científica, que culmina com sua magistral descoberta, o achado e demonstração do agente etiológico do tifo exantemático e a conseqüente caracterização de um novo grupo de bactérias, as rickettsias.
Torna-se importante citar que o modo de transmissão do tifo exantemático pelo piolho do corpo já havia sido determinado em 1909 por Charles Nicolle, sendo este dado epidemiológico fundamental para as pesquisas do agente etiológico da doença.
Com o eclodir da primeira guerra mundial, Rocha Lima e Von Prowazek são comissionados pelo Ministério da Guerra da Alemanha para realizar investigações em uma epidemia de tifo exantemático que ocorria num campo de prisioneiros russos e franceses na cidade de Cottbus na Alemanha, a 100 km de Berlim e a pequena distância da fronteira com a Polônia.
Em fins de dezembro de 1914, Rocha Lima chega a Cottbus e inicia o exame do conteúdo intestinal de piolhos removidos de doentes ou de cadáveres de indivíduos acometidos de tifo exantemático. Observou então a existência de grande quantidade de corpúsculos semelhantes a diplococos que coravam em vermelho pálido pelo método de Giemsa.
Von Prowazek chega a Cottbus quinze dias após e, como houvesse material em abundância, decidem ampliar a pesquisa, cabendo a este pesquisador a tarefa de estudar os corpúsculos em preparações a fresco.
Infelizmente, Von Prowazek contaminou-se adoecendo três semanas após o início de suas atividades em Cottbus, vindo a falecer em 17 de fevereiro de 1915, tendo o mesmo destino que outros pesquisadores mortos durante o estudo sobre o tifo exantemático, entre os quais Ricketts não poderia deixar de ser citado.
Com o falecimento de Von Prowazek, assume Rocha Lima a perigosa tarefa de realizar os exames a fresco nos piolhos, e vem a contaminar-se também, porém felizmente sobrevive a infecção. Durante sua convalescença verifica que a epidemia em Cottbus terminara. Resolve então retornar a Hamburgo para tentar elucidar uma questão primordial: constatar se em piolhos recolhidos em indivíduos sãos, em região onde não ocorria a doença, seriam observados ou não os mesmos corpúsculos.
Para demonstrar como foi difícil a comprovação do agente etiológico do tifo exantemático, torna-se necessário neste momento relatar alguns achados que, entretanto, não tiveram adequada comprovação científica.
Em 1910, Ricketts e Wilder haviam assinalado a presença de cocobacilos tanto no sangue de doentes como no conteúdo intestinal de piolhos “infectados”, o que também foi verificado em menor número e freqüência em piolhos “sãos”. Entretanto, estes pesquisadores resguardaram-se de conclusão definitiva ao afirmar: “É claro em nosso modo de pensar que não há base suficiente para atribuir papel etiológico aos organismos descritos, embora as condições em que são encontrados, associadas aos argumentos teóricos que apresentamos, justifiquem sejam eles encarados com alguma seriedade e submetidos a estudos adicionais na sua relação com o typhus”.
Em janeiro de 1915, quando Von Prowazek chegou em Cottbus reconheceu nos corpúsculos identificados por Rocha Lima semelhança com os que observaram num piolho examinado na Sérvia em 1913. O significado destes organismos era, porém, para Von Prowazek desconhecido, tendo ele durante suas pesquisas na Sérvia se interessado mais por determinadas inclusões leucocitárias que também não conseguiu definir o que poderiam representar.
O problema que Rocha Lima tentava elucidar quando voltou a Hamburgo em 1915 era sumamente importante, pois Sergent, Foley e Vialatte na Argélia acabavam de relatar o achado de numerosos cocobacilos nos esfregaços de piolhos colhidos em doentes de tifo exantemático do 200 ao 250 dia da infecção, ausentes no período de incubação e também não observados em piolhos provenientes de indivíduos sãos. Concluíram esses pesquisadores que os microorganismos deveriam relacionar-se com a etiologia do tifo exantemático. Ainda neste mesmo ano Nicolle, Blanc e Conseil em Tunis, registraram a presença de corpúsculos em 5% de piolhos testemunhas, livres do agente causal da doença.
Em Hamburgo, Rocha Lima retoma seus trabalhos e após numerosos exames de piolhos recolhidos de indivíduos levados aos hospitais da Polícia, encontra em 3 piolhos, corpúsculos semelhantes aos que observara em Cottbus.
Devido a esta verificação inclina-se temporariamente para o ponto de vista de Nicolle que afirmava ser o tifo exantemático causado por um vírus filtrável e ultravisível, e ainda considera se as restrições de Ricketts e Wilder seriam legítimas em relação ao papel etiológico dos corpúsculos do piolho.
Pelos achados e controvérsias acima relatados vê-se que o problema não havia sido resolvido e encontrava-se praticamente na mesma situação relatada por Ricketts e Wilder em 1910. Urgia, portanto serem realizadas outras pesquisas para obtenção de novos dados, que definissem o real significado dos corpúsculos do piolho.
Dois outros importantes aspectos das pesquisas vinham já sendo abordados: a transmissão do tifo exantemático a animais de experiência e a conclusão precipitada de Nicolle, considerando que o agente etiológico era um micróbio filtrante. Várias experiências foram realizadas para demonstrar a possibilidade de transmissão do tifo exantemático a animais, entre as quais poderiam ser citadas: Nicolle utilizando chimpanzés e posteriomente cobaias; Anderson e Goldberger com macacos rhesus; Von Prowazek e Rocha Lima em cobaias.
Já em 1916, Rocha Lima realizou inúmeras experiências de inoculação, concluindo que a cobaia reagia positivamente à inoculação do “vírus” exantemático, em cerca de 90% dos casos. (A palavra “virus” aquí empregada tem o mesmo sentido geral, como foi utilizada por Rocha Lima – designar o agente causal sem definir sua natureza).
Prowazek e Rocha Lima já haviam constatado, através de inoculação em cobaias, que o conteúdo intestinal do piolho continha cerca de 4 a 10.000 vezes mais vírus do que o sangue dos pacientes com tifo exantemático, chegando a conclusão que esta elevada concentração de “vírus” no intestino do piolho podia corresponder aos corpúsculos observados que mediam 0,3 X 0,4 µ ou 0,3 X 0,9 µ, sendo que neste caso o agente infeccioso deveria ser retido em filtros capazes de reter pequenas bactérias. Tanto Ricketts como Anderson não conseguiram provar que o agente infeccioso em questão era um vírus filtrável.
Entretanto, Nicolle, Conseil e Conor através de experiência em macacos e com o soro de sangue coagulado realizaram 7 inoculações - sendo que 5 animais foram inoculados com soro filtrado e 2 animais com soro não filtrado, e obtiveram 7 resultados negativos. Somente em um oitavo animal inoculado com soro filtrado verificou curva térmica duvidosa, porem como o macaco resistisse à prova de imunidade, considerou o resultado como positivo e concluiu que uma experiência positiva era suficiente para afirmar ser o vírus filtrável. “Cette expérience positive est suffisante, a notre avis, pour démontrer que l’agent spécifique du typhus est um microbe filtrante”. Esta frase poderia ser assim livremente traduzida: “Esta experiência positiva é suficiente, em nossa opinião, para demonstrar que o agente específico do typhus é um micróbio filtrante”.
Não havendo fundamento científico para esta afirmação, Rocha Lima contestou-a argumentando ser altamente improvável que material tão pobre em vírus como o soro de sangue coagulado, pudesse numa única inoculação, induzir imunidade.
Considerando válida a afirmativa de Nicolle, seria lógico obter resultados positivos utilizando material infectante filtrado de suspensão de piolhos, com elevada quantidade de vírus. Para corroborar sua discordância, Rocha Lima empregou em suas experiências, tanto material de piolhos, assim como sangue de cobaias, altamente contaminado, com resultados totalmente negativos, chegando assim a conclusão, ao contrário do que afirmaram Nicolle e seus colaboradores, que o agente etiológico do tifo exantemático não deveria ser considerado como vírus filtrável.
Eliminada esta possibilidade e sabendo-se que o agente não filtrável do tifo exantemático se encontrava em grande concentração no intestino do piolho, e que não poderia ser cultivado em meios de cultura artificiais, Rocha Lima imaginou que o ambiente onde se desenvolvia poderia ser a própria célula parasitada, e representar um corpúsculo intracelular. Rocha Lima teve então a brilhante idéia de realizar cortes seriados de piolhos para poder comprovar ou não a localização intracelular dos corpúsculos.
Juntamente com Hilde Sikora, responsável pelos estudos relacionados com a morfologia e biologia dos piolhos no Tropeninstitut, de Hamburgo, inicia no verão de 1915 estas experiências utilizando material colhido em Cottbus e técnicas delicadas para obtenção de cortes ultra-finos de 2,5 µ e perfeita coloração do material em estudo.
Finalmente, podia Rocha Lima comunicar seus achados fundamentais para o esclarecimento da etiologia do tifo exantemático, o que foi feito em 26 de abril de 1916, durante o Congresso da Sociedade Alemã de Patologia, realizado em Berlim.
Seria esclarecedor redigir aqui a tradução de trechos da comunicação de Rocha Lima encontrada no trabalho intitulado “Estudos sôbre o Tifo Exantemático” de 1966, compilado por Edgard de Cerqueira Falcão e comentado por Otto G. Bier, arquivado na Biblioteca de Manguinhos, da Fundação Instituto Oswaldo Cruz (FIOCRUZ).
“A dificuldade de verificar com segurança a infecção dos piolhos pelas rickettsias foi removida quando consegui, pelo exame histológico de piolhos provenientes de typhus, comprovar uma importante característica desses microrganismos, a saber, a sua vida parasitária nas células epiteliais do tracto gastrintestinal. Nestas células tem lugar intensa multiplicação das rickettsias , geralmente numa zona delimitada do protoplasma , não longe do núcleo. Tal particularidade de formar volumosas inclusões em áreas delimitadas do protoplasma lembra muito os clamidozoários. Num estádio posterior, o protoplasma inteiro é atingido, as células fazem saliência na luz intestinal e finalmente se rompem, esvaziando no canal intestinal o seu conteúdo de rickettsias.”
Em outro trecho encontramos uma fundamental constatação: “Achados semelhantes não puderam ser revelados uma só vez ao exame de mais de cem piolhos colhidos de indivíduos normais, em zona indene de typhus.”
Para coroar seu trabalho, durante o Congresso Alemão de Medicina Interna, realizado em Varsóvia em maio de 1916, Rocha Lima faz sua apresentação documentada com preparações histológicas definitivamente comprobatórias, e incita os participantes a verificá-las: “Os preparados exibidos na Sala de Microscopia convencerão os Srs. de que é possível demonstrar a presença dos microrganismos em questão no interior das células epiteliais e de maneira que nada deixa a desejar.”
Finalmente estava perfeitamente caracterizado o agente etiológico do tifo exantemático e Rocha Lima propõe para este microrganismo a denominação de Rickettsia Prowazeki, em homenagem a Howard Taylor Ricketts, americano falecido em 03 de maio de 1910, na cidade do México, e a Stanislaus Von Prowazek, austríaco falecido em 17 de fevereiro de 1915, na cidade de Cottbus, ambos acometidos de tifo exantemático durante suas pesquisas, e também para evitar confusão com outras bactérias anunciadas como sendo o micróbio do tifo e ainda para indicar que havia reconhecido no novo microrganismo, um novo grupo de bactérias, as rickettsias (Nas publicações de Rocha Lima quase sempre é encontrada a denominação Rickettsia Prowazeki. O microrganismo atualmente tem a designação de Rickettsia prowazekii).
Entretanto, mandava a prudência, ao tempo em que foi caracterizada a rickettsia e ainda até alguns anos após, que não se afirmasse definitivamente o seu papel na etiologia da doença. Dezenas de bactérias isoladas de doentes haviam sido responsabilizadas como agentes causadores do typhus, ao passo que as rickettsias foram evidenciadas com segurança somente no organismo do piolho.
Duas bactérias de isolamento mais recente, o Bacillus typhi-exanthematici de Plotz e o Proteus X de Weil & Felix ocupavam lugar de destaque e mereciam ser cuidadosamente estudadas antes de decidir-se em favor da Rickettsia prowazeki. O bacilo de Plotz era um pequeno bacilo Gram-positivo, imóvel, polimorfo crescendo lentamente em meio de cultura especial e em anaerobiose. Fora encontrado em alta porcentagem no sangue de doentes e também aglutinava em presença do soro de convalescentes. O Proteus X foi isolado por Weil & Felix da urina de um médico acometido de typhus , e tinha a seu favor o argumento de ser aglutinado em alta diluição pelo soro de doentes.
Por outro lado, nenhum dos dois era capaz de reproduzir experimentalmente o typhus nem imunizar contra o “vírus” exantemático, o que lhes tirava a convicção quanto ao seu papel etiológico. Constatava-se portanto que nenhuma das bactérias até então imputadas como agente causador do tifo exantemático satisfazia os postulados de Koch. Restava a hipótese de ser um vírus filtrável, submicroscópico, incultivável, fortemente defendida por Nicolle e afastada por Rocha Lima através de suas cuidadosas experiências de filtração já referidas anteriormente.
Os argumentos apontavam, portanto, para a Rickettsia prowazekii, porém esta também não tinha satisfeito os postulados de Koch, tendo em vista que não pudera ser cultivada in vitro e tinha sido caracterizada sem contestação somente no trato gastrintestinal do piolho.
Tornava-se necessário realizar experiências que conduzissem ao cumprimento indireto daqueles postulados estabelecendo paralelismo entre a virulência e o conteúdo de rickettsias em piolhos infectados artificialmente, sob rigoroso controle. Estas experiências de reprodução experimental foram realizadas em fins de 1915, após a conquista da Polônia pelos alemães, e durante uma epidemia que ocorria na cidade de Wloclawek próxima de Varsóvia.
Com a colaboração de Hilde Sikora foi então realizada rapidamente por Rocha Lima a experiência crucial, isto é a infecção artificial de piolhos normais através da sucção do sangue dos doentes. Para isto foram construídas pequenas caixas retangulares de madeira ou galalite, hermeticamente fechadas e que eram afiveladas no braço dos doentes, e que ficaram conhecidas como gaiolas de Sikora. No lado que entrava em contato com o braço dos pacientes era adaptada uma gaze cuja malha não deixava escaparem os insetos e permitia que estes realizassem facilmente a sucção do sangue.
Foi observado então por Rocha Lima que estes piolhos adquiriam a Rickettsia prowazekii verificável ao microscópio nas células do seu intestino por exame em cortes seriados, e também pela inoculação e reação em cobaias. Nos Congressos de Berlim e Varsóvia, Rocha Lima comunicou os resultados de mais de 30 experiências com as gaiolas de Sikora, havendo, portanto, um perfeito paralelismo entre as rickettsias e seu poder infectante, representando um impressionante conjunto de provas experimentais muito nítidas em favor da identidade da Rickettsia prowazekii com o “vírus” da doença, as quais foram firmando até a convicção de que estava-se diante do procurado micróbio do tifo exantemático.
Nos anos que se seguiram, apesar das inúmeras controvérsias e tentativas de alguns para tentar desconsiderar ou minimizar os achados de Rocha Lima, que seria desnecessário discutir aqui, vários pesquisadores respeitados no mundo científico acabaram concluindo pela primazia de Rocha Lima na descoberta da Rickettsia prowazekii como causadora do tifo exantemático, constituindo o ponto de partida de um capítulo até então desconhecido da microbiologia- as Rickettsias e da patologia –as Rickettsioses.
Somente a título de exemplo, no prestigioso “Tratado de Medicina Interna” de Cecil & Loeb publicado em 1958, no capítulo dedicado as rickettsioses encontra-se a seguinte afirmativa: “Em 1916, da Rocha Lima demonstrou que o tifus era produzido por um microrganismo que denominou Rickettsia prowazeki”.
Este instigante microorganismo continuou a ser estudado sob vários ângulos até os nossos dias. Num excelente artigo de Andersson,da Universidade de Uppsala na Suécia, publicado em Nature no ano de 1998 intitulado “A sequência do genoma da Rickettsia prowazekii e a origem da mitocôndria”, encontra-se no resumo do artigo, em uma tradução livre ,a seguinte afirmação: “Análises filogenéticas indicam que a R. prowazekii é mais intimamente relacionada à mitocôndria que qualquer outro micróbio estudado até então.”
Henrique da Rocha Lima faleceu em 12 de abril de 1956 e deve ser sempre reverenciado como um incansável pesquisador cujo maior mérito consistiu em perseverar em suas pesquisas enfrentando todas as dificuldades de sua época, fora de seu país e com indiscutível rigor científico demonstrar que um dos grandes flagelos da humanidade – o tifo exantemático – era provocado por uma nova bactéria: a Rickettsia prowazekii.
Agradecemos ao Sr. Alexandre Medeiros Correia de Souza, Bibliotecário da Biblioteca de Manguinhos da Fundação Instituto Oswaldo Cruz (FIOCRUZ), por colaborar com cópias de artigos científicos, essenciais para a realização deste trabalho.
É descrito o perfil biográfico de Henrique da Rocha Lima assim como sua saga científica na descoberta do agente etiológico do tifo exantemático, a que ele denominou de Rickettsia Prowazeki. São relatadas as inúmeras experiências do pesquisador desde os seus primeiros achados dos corpúsculos no conteúdo intestinal de piolhos em 1914 até a comunicação e publicação de seu trabalho de 1916. São apresentadas algumas das principais controvérsias a respeito dos microrganismos responsabilizados como causadores do tifo exantemático entre 1910 e 1916, culminando com a aceitação das conclusões de Rocha Lima.
The biographic profile of Henrique da Rocha Lima is described as well as
his scientific saga concerning the discovery of the etiologic agent of the
exanthematic typhus, for which he gave the name of Rickettsia Prowazeki. The
numberless experiences of the investigator are also described since his first
finds of the corpuscles in the bowels of the louses in 1914 until the report
and publication of his work in 1916. The main controversies between 1910 to
1916 are presented concerning the microorganisms considered as inducing exanthematic
typhus, culminating with the acceptance of Rocha Lima conclusions.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
- Andersson, SGE et al. – The genome sequence of Rickettsia
prowazekii and the origin of
mitochondria – Nature – November 1998; 396: 133-140
- Bier,O – Henrique da Rocha Lima:descobridor das rickettsias e da etiologia
do tifo
exantemático – Ciência e Cultura (SBPC)-1979; 31(10):1103-1106
- Cecil, RL & Loeb,RF - Tratado de Medicina Interna - Novena edicion –
1958- pgs 89-100
(Atheneu) -Editorial Interamericana S.A
- Falcão, EC , Bier,O -Estudos sobre o Tifo Exantemático –
1966 – Biblioteca de
Manguinhos – Fundação Instituto Oswaldo Cruz (FIOCRUZ)
- Rocha Lima, H da – Rickettsia prowazeki- sua descoberta e caracterização
constituindo
um novo grupo de microrganismos – Revista Brasileira de Medicina -1951;
8(5):311-320.
*Fernando Vieira: Foi médico Otorrinolaringologista do Hospital
Central do Instituto de Assistência aos Servidores do Estado do Rio
de Janeiro (IASERJ), Coordenador Nacional dos Consultores Médicos da
Pfizer S.A. (Laboratórios Pfizer Ltda) e Diretor Médico da Glaxo
Wellcome S.A. (GlaxoSmithKline).
Fonte: www.sbhm.org.br
12![]()