A ARTE ROCOCÓ
O ROCOCÓ é o estilo que predomina nas artes européias durante o século XVIII, para se atenuar e finalmente desaparecer nas duas últimas décadas do século, quando surgem as manifestações iniciais do neoclassicismo, que se inspirará, como as artes renascentistas, na antigüidade clássica greco-romana.
O rococó é um estilo eminentemente francês, a começar pela denominação, que se originou da palavra francesa rocaille (concha), elemento na época profusamente usado e caprichosamente estilizado pelos decoradores e ornamentistas. Entre os estilos Luíses da França, é o chamado estilo Luís XV.
Irradia-se pela Europa e, através de Portugal, chega ao nosso país, sobretudo no mobiliário, sob o nome de D. João V. A denominação rococó teria sido usada pela primeira vez em 1830, tirada do vocabulário das artes decorativas, para designar a fase do barroco compreendida entre 1710 e 1780. Esta simples circunstância define a sua natureza caracteristicamente decorativa e ornamental.
Trata-se de natural desenvolvimento do barroco. Ocorre, porém, que enquanto no século XVII o barroco traduzira na sua energia, nas suas violências expressivas e no seu realismo de inspiração popular, a mentalidade e os interesses da burguesia manufatureira e mercantilista, que estava evoluindo para o estágio industrial e capitalista, em plena marcha para o poder político que conquistará com a Revolução Francesa, o rococó expressará na sua delicada elegância caprichoso decorativismo e inspiração fantasista e mundana, o espírito, os interesses e os hábito da aristocracia palaciana, ociosa e parasitária, em que se havia transformado a antiga nobreza feudal, militar e agrária, que marcara com o seu domínio a sociedade feudal.
Assim é que expressão da burguesia, em ascensão como classe, o barroco foi sobretudo vitalidade e movimento, ao passo que expressão da aristocracia, classe em decomposição, o rococó será sobretudo fragilidade e graça.
Na pintura as transformações são completas. Tudo quanto o barroco possuía de teatral, heróico e dramático, realista e popular, tudo isso se transforma ou desaparece, substituído pela graciosidade decorativa, fantasia e erotismo, aristocratismo e mundanidade.
As transformações começam pelos temas. Desaparecem praticamente a pintura religiosa, os acontecimentos sagrados narrados dramaticamente, os martírios cruéis, os calvários sangrentos, as virgens e madalenas agoniadas e soluçantes, olhos levantados aos céus, os êxtases torturantes. Agora, os temas são outros, frívolos, mundanos e galantes. Tudo vai falar quase que exclusivamente das graças da mulher. São cenas de boudoir ou de alcova, de salão ou de interiores luxuosos, festas e reuniões em parques e jardins, em suma, o cotidiano da aristocracia, ociosa e fútil, pastorais idílicas e sobretudo nus femininos. O século é o da mulher, cujas graças jamais tinham sido cantadas como souberam cantá-las Watteau, Fragonard e Boucher, os franceses que melhor representam essa pintura.
As virgens dolorosas, as madalenas aflitas, os apóstolos e santos compungidos, as paisagens e os céus tempestuosos dos barrocos são substituídos por Vênus e ninfas, amorzinhos petulantes, marqueses e marquesas maneirosos, festas e reuniões em jardins e paisagens de sonho. Quando as cenas bíblicas aparecem são também aristocratizadas.
Também a técnica se transforma na pintura.
Não são mais as pinceladas impulsivas e pastosas do barroco, nem as massas sintéticas e tumultuosas, muito menos os violentos contrastes de claro-escuro e as cores intensas para as sugestões de drama.
São pinceladas rápidas, leves e curtas, desenho decorativo, tonalidades claras e luminosas em que predominam os rosas, azuis, verdes e lilases, delicados e feéricos. Os pintores tornam-se exímios na representação dos tecidos finos, sedas e brocados achalamotados, tafetás e veludos, vaporosidade das gases e musselinas e das carnações femininas.
Uma das particularidades da época, diz Louis Réau, é o aparecimento de retratistas femininos, que rivalizam com os homens e forçam as portas da Academia.
Também o gosto da prática das artes, da música, da pintura e da gravura, na alta sociedade. A Marquesa de Pompadour, por exemplo, estudava desenho e gravura com o pintor Boucher. Discutia problemas de técnica e de expressão, dava opiniões, como se fosse artista profissional e vivesse daquilo. Quer dizer, sofria sofrimentos de artista.
Outra particularidade da época é a generalização da técnica do pastel. O pastel, em última instância, é um giz colorido, pastoso e aderente, feito com terras bem moídas. Aplica-se o pastel sobre papel rugoso ou com a superfície áspera, adrede preparada, para recebe-lo e fixa-lo, ou mesmo sobre camurça. Há pastéis mais duros, próprios para acentuar as partes do desenho, outros mais brandos, para as massas de cor. O pastel foi verdadeira moda no século XVIII, especialmente no retrato, pois se presta com facilidade à expressão de certos efeitos de delicadeza e leveza dos tecidos, maciez da pele feminina, sedosidade dos cabelos, de luzes e brilhos.
Quase todos os grandes pintores rococós foram também pastelistas. É bastante significativo que naquele século de estuques, espelhos, porcelanas, rendas, nudez feminina e minueto, jardins e comédias galantes, a técnica de pintura mais apreciada fosse justamente o pastel, que, como estuque nas decorações arquitetônicas e a porcelana na escultura decorativa, caracteriza-se pela fragilidade e efemeridade.
Nos seus temas e técnicas, como podemos ver, as artes rococós estão revelando, ao bom entendedor, a fragilidade e efemeridade da classe cujos interesses e espírito tão fielmente souberam expressar - a aristocracia, que está para desaparecer na convulsão sangrenta da grande revolução burguesa, quando o século dourado acabará. Assim é que os artistas profetizam e denunciam, com maior nitidez, as transformações da sociedade do que mesmo rigorosas conclusões dos cientistas sociais.
Os artistas sempre forma premonitórios, isto é, sempre avisaram, sempre estão avisando. Esta faculdade artística parece indispensável ao verdadeiro estadista, que deve ver mais longe do que o comum dos governados.
Os grandes reformadores sociais são, neste sentido, grandes artistas.
Esta a lição dos fatos da história das artes. Enquanto os ideólogos da monarquia absoluta a proclamavam eterna, pela vontade divina, os artistas do rococó a denunciavam com a mesma fragilidade, efemeridade e feminilidade de estuque, da porcelana e do minueto.
A pintura Francesa apresenta no século XVIII três aspectos diferentes. Na primeira metade do século, em substituição aos modelos do academismo da escola bolonhesa dos Carracci, predomina o gênero nitidamente rococó, a chamada pintura fêtes galantes, graciosa luminosa e fantasista, tão bem representada por Watteau e Fragonard.
Na segunda metade do século volta o academismo clássico, agora diretamente inspirado na antigüidade greco-romana e nos mestres renascentistas italianos,. Os temas mundanos e galantes do rococó estão sendo substituídos pelos temas históricos, patrióticos e moralizadores da nova tendência, que se chamará neoclassicismo e marcará artisticamente o primeiro quartel do século XIX.
O terceiro aspecto é a corrente realista, influenciada pelos realistas barrocos holandeses e flamengos, continuadora da escola dos irmãos Le Nain.
São artistas que fixam cenas da pequena burguesia e da vida provinciana, entre cujos representantes se destaca Jean Baptiste Chardin.
Desse modo, no balanço final, as três direções da pintura francesa no século XVIII são - rococó, realismo e neoclassicismo. As duas últimas, o neoclassicismo e o realismo, vão se tornar dominadoras e características no século XIX, com as escolas fundadas por David e Coubert. Quase todo o século XVIII será mais nitidamente rococó.
Pintores Franceses do Século XVIII
Antoine Watteau (1684-1721)
Fraçois Boucher (1703-1770)
Jean Honoré Fragonard (1732-1806)
Maurice Quentin La Tour (1704-1788)
Madame E. Vigée-Lebrun (1755-1842)
Nicolas Lancret (1690-1745)
Jean Baptiste Simeon Chardin (1699-1779) Jean-Marc Nattier (1685-1779)
Pintores Ingleses
Henri Füssli (1741-1825)
Benjamin West (1738-1825)
William Blake (1757-1828)
Richard Wilson (1725-1782)
Samuel Scott (1710-1772)
William Hogart (1697-1764)
Joshua Reynolds (1723-1792)
Thomas Gainsborough (1721-1788)
Pintores Portugueses
Francisco Vieira de Matos (1699-1783)
Francisco Vieira (1765-1805)
Pedro Alexandrino de Carvalho (1730-1819)
Pintores Italianos
Pompeo Batoni (1708-1787)
Alessandro Magnasco (1667-1747)
Rosalba Carriera (1675-1757)
Pietro Longhi (1702-1785)
Giovanni Battista Tiepolo (1696-1770)
Bernardo Belotto (1720-1780)
Pintores Espanhóis
Luís Paret y Alcazar (1747-1799)
Antonio Palomino (1653-1726)
Francisco Goya y Lucientes (1746-1828)
Fonte: www.sul-sc.com.br
O Rococó é um estilo artístico que nasceu na França no ano de 1700, espalhando-se pela Europa no século XVIII.
É considerado uma espécie de continuação um pouco modificada da arte barroca.
Todavia, diferencia-se do Barroco principalmente pela leveza e delicadeza com que se exprime, oferecendo menos exuberância e vigor.
Ao contrário do Barroco, que se prendia fortemente à figura religiosa, a temática do Rococó mostra preferencialmente uma vida de divertimento, que levou uma parte da crítica a classificá-lo de pintura fútil.
No caso da França, a vida da corte era objeto comum da arte rococó, tratada de maneira crítica ou não.
Trata-se de um termo primitivamente associado às artes decorativas e que acabou sendo usado também para designar a arquitetura, a pintura e a escultura do período.
Tal como acontecera com o Barroco, o Rococó também ganha características locais nos diferentes lugares em que se manifesta.
O Sul da Alemanha e a Áustria foram os locais em que a arte rococó mais se desenvolveu.
Embora surgido na França, ele não prosperou nesse país e praticamente deixou de existir após a metade do Século 18.
Comum nesse período, foi o surgimento de mestres de determinadas nacionalidades como grandes expoentes do estilo, sem que o mesmo fosse forte em seu país de origem.
Era a arte pessoal, individual, intransferível e independente dos conceitos em vigência numa determinada região.
Um bom exemplo desse individualismo é Goya, considerado um dos principais artistas do período, sem que, contudo, a Espanha tivesse realmente assimilado a arte rococó.
Outro ponto de contato com o barroco é a ênfase - no caso do rococó, ainda maior - no conjunto. Arquitetura, escultura e pintura deveriam se complementar num todo harmônico. Era comum ainda a colaboração de vários artistas das diferentes especialidades para obtenção de tal efeito.
Na arquitetura destaca-se Gabriel-Germain Boffrand (1667-1754) e Johann Balthasar Neumann (1687-1753).
NEUMANN (Johann Balthasar), arquiteto e engenheiro alemão (Cheb, Boêmia, 1687 - Würzburg, 1753). Mestre do ilusionismo barroco. Entre suas obras principais estão o palácio de residência de Würzburg e a igreja dos Vierzehnheiligen (14 santos), na Baviera.
Gabriel, extremamente popular na Paris do Século 18, construía casas para a aristocracia francesa, preocupando-se sempre com a harmonização entre a construção e a decoração de seu interior ao estilo rococó.
Um dos exemplos mais conhecidos de seu trabalho é o Salon de la Princesse no Hôtel de Soubise (1732).
Trata-se de uma rica sala de recepção numa casa particular, em que elementos como janelas e espelhos são usados para dar a sensação de amplitude e fragmentar a luz.
É fantástica a integração entre as formas arquitetônicas e a decoração e pinturas presentes na moradia.
Balthasar Neumann, arquiteto alemão, é conhecido, por sua vez, pela construção de palácios para príncipes, sendo o mais famoso chamado "Residenz", em Würzburg, uma obra de interior rico e grandioso.
Na pintura, temos grandes nomes como Giovanni Battista Tiepolo (1696-1770), Jean- Antoine Watteau (1684 - 1721), William Hogarth (1697-1764) e Francisco de Goya y Lucientes (1746-1828).
TIEPOLO (Giambattista), pintor e gravador italiano (Veneza, 1696 - Madri, 1770). Sua inventiva é brilhante, e o colorido, claro e alegre.
WATTEAU (Antoine), pintor francês (Valenciennes, 1684 - Nogent-sur-Marne, 1721). Preferiu os temas campestres, as cenas bucólicas, as "festas galantes".
HOGARTH (William), pintor e gravador inglês (Londres, 1697 id., 1764). Praticou uma arte moralizante e fixou os costumes da época. Foi também célebre pelos retratos.
O veneziano Tiepolo é considerado um dos maiores artistas do Século 18. Foi o autor das pinturas realizadas na construção de Neumann "Residenz", celebrizando-se pelas obras. Trabalhou, além da Itália, na corte espanhola de Charles III.
Tiepolo iniciou na pintura vários assistentes, inclusive os próprios filhos. O mais velho deles, Giovanni Domenico Tiepolo, é conhecido, ao lado do pai, por suas estampas. Seu genro Francesco Guardi também é considerado excelente paisagista do período.
O pintor flamengo estabelecido em Paris, Antoine Watteau (1684-1721), mestre em cenas campestres, é outro importante pintor do período, tendo recebido influências de Rubens e da Escola Veneziana. Os personagens da Comédia dellarte e os da Comédia Francesa aparecem freqüentemente em sua obra, com belíssimos resultados.
William Hogarth é tido como o fundador da famosa escola inglesa de pintura (até então a Inglaterra não tinha demonstrado realmente grandes nomes nessa expressão artística pela qual notabilizar-se-ia posteriormente). Suas preferências caíam nas pinturas de cunho moralizante tiradas de sátiras, como a extremamente bem humorada série "Marriage à la Mode".
Francisco Goya é talvez um dos mais famosos pintores do período, conhecido, entre outras coisas, por seu trabalho de crítica sutil na corte de Charles IV, em Madrid. Seu estilo é considerado o do rococó tardio, bastante influenciado por Tiepolo e Velázquez.
Na escultura temos Egid Quirim Asam (1692-1750), exemplificado pela obra "Assunção da Virgem", na Abadia de Rohr, Alemanha, e Claude Michel, ou Clodion, um dos últimos expoentes do rococó francês, com sua obra "A Ninfa e o Sátiro".
Merecem destaque, ainda, as esculturas realizadas em larga escala, em especial na Alemanha e na Áustria.
Fonte: www.pitoresco.com.br