Franz Peter Schubert (Himmelpfortgrund, perto de Viena, 31 de Janeiro de 1797 - Viena, 19 de Novembro de 1828), foi um compositor austríaco da Era clássica.
Escreveu cerca de seiscentas canções (o "Lied" alemão), bem como óperas, sinfonias, sonatas entre outros trabalhos. Não houve grande reconhecimento público da sua obra enquanto foi vivo; teve sempre dificuldade em assegurar um emprego permanente, vivendo muitas vezes à custa de amigos e do trabalho que o pai lhe dava.
Morreu sem quaisquer recursos financeiros com a idade de 31 anos. Hoje, o seu estilo considerado por muitos como imaginativo, lírico e melódico, fá-lo ser considerado um dos maiores compositores do século XIX, marcando a passagem do estilo clássico para o romântico. Podemos defini-lo como "mais um artista incompreendido pelos seus contemporâneos".

Franz Schubert
Schubert nasceu em Himmelpfortgrund, um pequeno subúrbio de Viena. O seu pai, Franz Theodor Florian Schubert, filho de um camponês da Morávia, era um mestre-escola da paróquia. A sua mãe, Elizabeth Fitz (ou Vietz), tinha sido, antes do casamento, criada [1] de uma família vienense. Dos seus quatorze filhos, nove morreram durante a infância; os outros eram Ignaz (nascido em 1784), Ferdinand (nascido em 1794), Karl (nascido em 1796), Franz e a filha, Theresia (nascida em 1801). O pai, homem de reconhecida integridade moral, tinha alguma reputação como professor, e a sua escola, em Lichtenthal, era bem frequentada. Era também um músico amador razoável. Os seus filhos mais velhos, Ignaz e Ferdinand, comparavam-se ao pai na sua habilidade musical.
Aos cinco anos de idade, Schubert começou a sua instrução regular, com o pai. Aos seis anos, entrou na escola de Lichtenthal, onde passou alguns dos melhores anos da sua vida. A sua educação musical começou também por esta altura. O seu pai transmitiu-lhe alguns conhecimentos rudimentares sobre violino e o seu irmão, Ignaz, iniciou-o no pianoforte. Aos sete anos, como já tinha ultrapassado largamente a perícia dos seus mestres iniciais, foi entregue à guarda de Michael Holzer, o Kapellmeister - mestre de capela - da igreja de Lichtenthal. As lições de Holzer consistiam mais em manifestações de espanto por parte do mestre. O jovem Schubert lucrou mais com a ajuda de um seu colega que o levava até um armazém de pianofortes, onde este tinha oportunidade de practicar em instrumentos mais sofisticados que aquele que a sua família lhe podia proporcionar. O facto de os seus primeiros anos de aprendizagem serem algo insatisfatórios era tanto mais sério que, naquela época, um compositor só teria alguma hipótese de sucesso se fosse reconhecido pelo público como um intérprete de excepção. A educação musical que tinha era, no entanto, insuficiente.
A 30 de Setembro de 1808, o seu pai leva-o a participar no concurso para coristas da Capela Imperial, onde António Salieri, compositor oficial da corte, selecionaria os novos cantores. Possuidor de uma apreciada voz de soprano, obteve um lugar no coro, ganhando também uma bolsa de estudos em Stadtkonvikt, um dos melhores colégios de Viena (correspondendo ao Conservatório). Manteve-se aí até ter quase dezassete anos. A sua instrução não foi, no entanto, das melhores - um pouco, aliás, como aconteceu a Haydn em St. Stephen. A sua formação deveu mais à prática que recebeu através da orquestra da escola e pelo companheirismo de alguns dos seus colegas. Muitos dos seus mais devotados amigos, ao longo da sua vida, encontram-se já entre os seus colegas: Spaun, Stadler, Holzapfel, entre outros que o ajudavam monetariamente, comprando-lhe papel de música (que não conseguia comprar com o dinheiro que tinha), além de lhe darem apoio moral, encorajando-o, reconhecendo nele as suas qualidades. Foi também no Stadtkonvikt que teve o seu primeiro contacto com as sinfonias e aberturas de Mozart. Foi conhecendo alguma produção musical além desta, como pequenas peças musicais mais ligeiras e visitando ocasionalmente a ópera, que Schubert foi desenvolvendo o seu conhecimento pessoal da música da época.
Entretanto, ia já demonstrando as suas capacidades como compositor. Uma Fantasia para dueto de piano (D.1, usando o número de catálogo proposto por Otto Erich Deutsch - por isso se deve ler "Deutsch 1"), em trinta e duas páginas de música densamente escrita, é datada de 8 de Abril a 1 de Maio de 1810; seguiram-se-se, em 1811, três longas peças vocais (D.5 - D.7), escritas segundo um conceito popularizado por Zumsteeg, juntamente com uma "abertura-quinteto" (D.8), um quarteto de cordas (D.2); uma segunda Fantasia para pianoforte e alguns Lieder (canções).
É importante referir o seu interesse pela música de câmara já que se sabe que, em sua casa, na altura, se tinha formado um quarteto que tocava "aos domingos e feriados": com os seus irmãos a tocar violino, o seu pai a tocar violoncelo e Schubert a tocar viola.
Durante os restantes anos que passou no Stadtkonvikt, escreveu ainda um número apreciável de peças de música de câmara, vários Lieder, algumas peças variadas para pianoforte e, entre os seus projectos mais ambiciosos, um Kyrie (D.31) e um Salve Regina (D.27), um octeto para instrumentos de sopro (D.72/72a) - diz-se que em honra da sua mãe, que morreu em 1812 - uma cantata (D.110), incluindo a letra e a música, para a comemoração do dia do nome do seu pai, em 1813; e, no final dos seus anos de conservatório, a sua primeira sinfonia (D.82).
No final de 1813 deixou o conservatório e, para evitar o serviço militar, começou a leccionar na escola de seu pai, como professor primário. O seu pai tinha casado, entretanto, com Anna Kleyenboeck, a filha de um comerciante de seda do subúrbio de Gumpendorf. Durante dois anos, Schubert suportou este trabalho sem grande motivação. Compensava-o, no entanto, o prosseguimento da sua prática de composição, tendo aulas particulares com Salieri, que o aborrecia, acusando-o de plagiar Haydn e Mozart, apesar de ser certo que foi, dos seus professores de música, o mais competente.
Travou, entretanto, amizade com a família Grob, onde uma das filhas do casal, Teresa, demonstrava alguns dotes como cantora; começou a fazer-lhe a corte em 1814. A relação terminou, no entanto, em 1816, já que Schubert não conseguia ter emprego permanente.
A sua primeira ópera completa - Des Teufels Lustschloss (D.84) - e a sua primeira missa - em Fá maior (D.105) - foram ambas escritas em 1814. Do mesmo ano datam três quartetos de cordas, muitas peças instrumentais curtas, o primeiro andamento da sinfonia número 2 em Si menor (D.125) e dezassete Lieder, incluindo algumas obras-primas como Der Taucher (a primeira versão, D.77, reescrita posteriormente, com o número de catálogo D.111) e o chamado "Lamento de Margarida" - da obra de Goethe, "Fausto" - ou seja, Gretchen am Spinnrade ("Margarida na roca") (D.118, publicado como Op.2). Mas mesmo esta actividade musical foi largamente ultrapassada pela produzida em 1815. Neste ano, apesar do seu trabalho na escola, das aulas com Salieri e das muitas distracções proporcionadas em Viena, produziu um acervo de obras quase inacreditável pela quantidade. A Segunda sinfonia em Si bemol (D.125) foi terminada, e uma terceira, em Dó maior (D.200), foi composta quase de seguida. Completou igualmente duas missas, em Sol (D.167) e Si bemol (D.324) - a primeira foi escrita em seis dias - além de um novo "Dona Nobis" para a missa em Fá, um Stabat Mater e um Salve Regina (D.223).
Escreveu, entretanto, cinco óperas, das quais apenas três ficaram completas - Der vierjährige Posten (D.190), Fernando (D.220) e Claudine von Villabella (D.239) - e duas, Adrast (D.137) e Die Freunde von Salamanka (D.326), ficaram, aparentemente, incompletas. A lista de obras inclui ainda um quarteto de cordas em Sol menor, quatro sonatas e muitas peças de menor dimensão para piano. Os seus Lieder continuam, no entanto, a constituir a maior parte, e com maior sucesso, do compositor: 146 canções, algumas de tamanho considerável, das quais oito estão datadas de 8 de Outubro e sete de 19 de Outubro.
No inverno de 1814 / 1815, Schubert conheceu o poeta Johann Mayrhoffer; conhecimento que, como era habitual nas suas relações, levou a uma amizade sólida. Tinham temperamentos diferentes. Enquanto que Schubert se mostrava expansivo e alegre, apenas com alguns momentos, breves, de depressão logo seguidos de estados de espírito enérgicos, Mayrhofer era melancólico e reservado, preferindo levar a vida de forma estóica e silenciosa. Essa relação foi, como se verá, proveitosa para Schubert por diversas razões.
Assim como 1815 foi o período mais prolífico da vida de Schubert, em termos quantitativos, 1816 foi a época de viragem no que diz respeito à sua vida. Estava este ano por começar, quando Spaun descobre que Schubert está a compor, febrilmente, entre uma pilha de trabalhos escolares, o "Rei dos Álamos", também traduzido por "O Rei dos Elfos" ou Erlkönig (D.328, publicado como Op.1) - de um poema de Goethe. Umas semanas mais tarde, Von Schober, um estudante de direito de uma família abastada, que tinha ouvido algumas canções de Schubert em casa de Spaun, convida-o para ir a sua casa, onde poderia compor em paz, sem se preocupar com actividades lectivas. A proposta era tanto mais oportuna quanto Schubert tinha concorrido, sem sucesso, para o posto de Kapellmeister em Laibach (hoje, Ljubljana). O consentimento de seu pai foi imediato. Antes do final da Primavera, já Schubert se estava a instalar em casa de Von Schober. Por algum tempo ainda tentou contribuir com alguns rendimentos para a sua família, dando aulas de música, mas rapidamente as abandonou, devotando-se inteiramente à composição. "Escrevo todo o dia", disse um dia a alguém que o visitava, "e quando acabo uma peça, começo outra"[carece de fontes?].
Entre as obras escritas em 1816 incluem-se três cantatas cerimoniais, uma delas (D.407/441) escrita para o Jubileu de Salieri, a 16 de Junho; a cantata "Prometeu" (D.451), oito dias depois, para os alunos do professor Heinrich Joseph Watteroth que lhe pagou honorários ("a primeira vez", dizia ele no seu Diário, "que compus por dinheiro"); a outra, com um libreto, indigno da qualidade musical de Schubert, para Herr Joseph Spendou, "Fundador e director" (D.472). De maior importância são as suas duas novas sinfonias: a Quarta sinfonia em Dó menor (D.417), a "Trágica", com um andante impressionante; e a Quinta sinfonia em Si bemol (D.485), com um brilho e frescura dignos de Mozart. Compôs também algumas peças de música sacra, onde demonstra uma maior maturidade que nas que compôs antes; e mais de cem canções, entre as quais algumas das suas melhores, a partir de textos de Goethe e Schiller. Escreveu também uma ópera, "Die Bürgschaft" (D.435), novamente com um libretto indigno do compositor, mas que revela bem o interesse que Schubert tinha em ingressar no mundo do teatro musicado.
Entretanto, o seu círculo de amigos continuava, incessantemente, a aumentar. Mayrhofer apresenta-o a Vogl, um barítono famoso, que lhe presta um grande favor ao interpretar os seus Lieder nos salões de Viena; Anselm Hüttenbrenner e o seu irmão, Joseph, encontram-se também entre os seus mais devotados admiradores; Gahy, um pianista de renome, tocava as suas sonatas e fantasias; os Sonnleithners, uma rica família burguesa, cujo filho mais velho tinha estado no Conservatório, deu-lhe livre acesso a sua casa e organizava, em sua honra, reuniões musicais a que, rapidamente, se deu o nome de Schubertíadas. As suas necessidades materiais eram sustentadas sem grande dificuldade. É verdade que vivia sem tostão. Os seus amigos, no entanto, com um generoso espírito de Boémia, partilhavam as contas, desde o alojamento até à alimentação. Schubert era sempre o líder das tertúlias e festas, e era conhecido por meia dúzia de alcunhas, das quais a mais característica era kann er was? ("Ele é capaz?"), a sua pergunta usual quando alguém lhe era apresentado.
1818, ainda que tenha sido um ano de pouca produção musical, se comparado com o que o antecedeu, foi, no entanto, memorável. A primeira apresentação pública de uma obra de Schubert - uma abertura ao estilo italiano: uma paródia descarada a Rossini - tocada com toda a seriedade num concerto numa prisão, a 1 de Março. Foi também o início da sua única nomeação oficial, como Mestre de Música da família do Conde Johann Esterhazy em Zelesz, onde passou o verão num ambiente agradável. Entre as composições que desenvolveu neste ano, encontramos a Sinfonia em Dó maior (D.589), algumas peças para pianoforte a quatro mãos, compostas para os seus alunos em Zelesz, além de algumas canções como Einsamkeit ("Solidão") (D.620), Marienbild (D.623) e Litaney. Ao regressar a Viena, no outono, descobre que Von Schober já não lhe pode dar alojamento, pelo que passa a viver com Mayrhofer. Aí, os seus hábitos não mudam muito: todas as manhãs começa a compor assim que sai da cama, escreve até às duas da tarde, altura em que come algo. Sai de passeio e volta de novo para compor ou, no caso de não estar disposto a isso, visita os amigos. Apresenta-se ao público como escritor de canções, pela primeira vez, em 28 de Fevereiro de 1819, quando a sua canção Schäfers Klagelied é cantada por Jager num concerto, numa prisão. No verão do mesmo ano, tira férias e viaja com Vogl até à Alta Áustria. Em Steyr, escreve o seu famoso Quinteto par piano em Lá (A Truta) (D.667), surpreendendo os seus amigos ao transcrever as partes sem consultar a partitura. Durante o outono enviou três das suas canções a Goethe que, ao que se sabe, não lhe respondeu.
As suas composições de 1820 são notáveis em vários aspectos e demonstram um largo avanço no desenvolvimento e maturidade do seu estilo. A oratória inacabada "Lazarus" (D.689) foi começada em Fevereiro; mais tarde, seguiram-se, entre outras obras de menor dimensão, o Salmo 23 (D.706) ("O Senhor é meu Pastor"), o Gesang der Geister (D.705/714), o Quarteto para cordas nº 12 em Dó menor (D.703) e a grande "Fantasia Wanderer" para piano (D.760). Mas o mais interessante, em termos biográficos, foi o facto de, neste ano, duas das óperas de Schubert terem sido estreadas no teatro Karthnerthor: Die Zwillingsbrüder ("Os irmãos gémeos" (D.647) a 14 de Junho, e Die Zauberharfe ("A Harpa Mágica" ou "A Harpa Encantada") (D.644) a 19 de Agosto. Até ao momento, as suas composições mais extensas (exceptuando as missas) só tinham sido tocadas por amadores, na Gundelhof, uma sociedade com origem nos recitais de quarteto em casa do seu pai. Agora começava a ter maior visibilidade, mostrando-se a um público mais vasto. Os editores mantinham-se, no entanto, desdenhosos em relação à sua obra. Só quando o seu amigo Vogl canta o seu Erlkönig num concerto, no teatro Kärnthnerthor (8 de Fevereiro, 1821) é que Anton Diabelli aceitou, com algumas hesitações, publicar algumas das suas obras sob comissão. As primeiras sete obras com número de opus (todas elas canções - Lieder) foram publicadas nestes termos. Ao terminar a comissão, começou a receber os escassos dividendos acordados com as editoras. Muito se tem escrito sobre o abandono a que foi votado durante a sua vida. A culpa não se pode apontar nem aos seus amigos nem sequer ao público vienense, que só indirectamente era culpado. A responsabilidade pertencerá, talvez, às cautelas desnecessárias dos intermediários que retardavam e restringiam a publicação das suas obras.
Com a composição destas duas peças dramáticas, a atenção de Schubert dirigiu-se ainda mais para o palco. Desde o final de 1821 que esta obsessão apenas lhe trará desilusões. Alfonso und Estrella é recusada; o mesmo acontece com Fierabras (D.796); Die Verschworenen ("Os conspiradores") (D.787), foi proibida pela censura (provavelmente devido ao título); "Rosamunde" ("Rosamunda, princesa do Chipre), (D.797) ficou incompleta, depois de duas noites de trabalho, devido à insignificância do libreto. Destes trabalhos, os dois primeiros estão escritos a uma tal escala que a sua interpretação se tornaria inexcedivelmente difícil. ("Fierabras", por exemplo, é constituído por mais de 1000 páginas de partitura manuscrita), mas Die Verschworenen é uma comédia brilhante e ligeira, e "Rosamunda" contém alguma da melhor música composta por Schubert (a abertura, por exemplo, faz parte do reportório habitual da maioria das orquestras). Em 1822 é apresentado a Weber e a Beethoven, mas isso terá pouca influência na sua vida, ainda que Beethoven reconheça, cordialmente, o génio de Schubert. Von Schober está, entretanto, longe de Viena; novos amigos aparecem, mas com um carácter menos desejável. De todos, estes são os anos mais negros da sua vida.
Na Primavera de 1824 escreve o magnífico Octeto em Fá maior (D.803), "o esboço de uma grande sinfonia"; no verão volta para Zelesz, onde, atraído pela língua húngara, escreve o "Divertimento à húngara" (D.818) e o Quarteto para cordas em Lá menor (D.804). Muitos biógrafos referem, neste passo, a discutida paixão de Schubert pela Condessa Caroline Esterhazy, sua aluna. Os amigos de Schubert, nos seus diários e memórias referem esta paixão impossível de se concretizar, dada a condição social do compositor. Schubert dedicou-lhe a sua Fantasia in Fá menor, escrita em 1828. Muito debatido é, também, o grande Duo em Dó maior (D.812, opus 140), datado no verão desse ano, em Zelesz. Não tem qualquer relação com o estilo usual de Schubert para música de pianoforte, sendo predominantemente de carácter orquestral, podendo ser um esboço de uma grande sinfonia, à semelhança do Octeto.
Apesar da sua constante preocupação pelo teatro e, mais tarde, com os seus deveres oficiais, conseguiu, ainda assim, arranjar tempo para escrever outras obras. Completou a Missa em Lá bemol (D.678) e começou a estranha "Sinfonia inacabada" ou "Sinfonia incompleta" (Sinfonia nº 8 em Si menor, D.759) em 1822.
Os Lieder Die schöne Müllerin ("A Bela Moleira") (D.795), e muitas outras das suas melhores canções foram escritas em 1825; em 1824 escreveu algumas variações sobre o tema Trockne Blumen ("Flores secas") destes Lieder. Há também uma sonata para piano e "Arpeggione" (D.821), uma interessante tentativa de valorizar um instrumento musical pesado e, hoje, obsoleto. Esta peça tem sido, entretanto, adaptada a outros instrumentos, sendo usualmente tocada com piano e violoncelo.
Os problemas destes anos pareceram desanuviar um pouco no ano de 1825. Começou a publicar mais obras; por algum tempo a sua situação financeira melhorou; no verão, fez uma viagem à Alta Áustria, onde foi recebido com entusiasmo. Foi durante essa viagem que escreveu "Canções de Sir Walter Scott". É neste ciclo que se insere a famosa "Ave Maria" (título original Ellens dritter Gesang, D.839), escrita para a tradução de Adam Storck a partir de um poema de Walter Scott, e não para o "Ave Maria" em latim, tal como é usada hoje em dia a música. Escreveu também a Sonata para piano em Lá menor (D.845, op. 42).
De 1826 a 1828, Schubert residiu sempre em Viena, se exceptuarmos uma breve visita a Graz, em 1827. Os dados biográficos dos anos que se seguem restringem-se quase exclusivamente às obras que compôs. Os únicos acontecimentos dignos de notas em 1826 foi que dedicou uma sinfonia para a Gesellschaft der Musikfreunde, tendo recebido honorários em troca; que, no mesmo ano, concorreu para condutor de orquestra na Ópera, tendo perdido o posto por se recusar a alterar uma das suas canções no ensaio; e que na primavera de 1828 deu, pela primeira e única vez na sua vida, um concerto dedicado exclusivamente a obras da sua autoria, tendo sido bem recebido.
Seguem-se as obras mais importantes escritas neste período. No inverno de 1825-1826, escreveu o quarteto de cordas em Ré menor, com as variações sobre o tema A Morte e a Donzela (D.810). Mais tarde, nesse mesmo ano, escreveu o "Quarteto de cordas em Sol maior", "Rondeau brilhante" para piano e violino (D.895, opus 70), e a interessante Sonata para Piano em Sol (D.894, opus 78) que, por soberba dos editores, foi impressa sem o título "Fantasia" que Schubert lhe havia dado (ainda que em edições recentes se tenha recuperado esse título, nem que seja sob a forma de sub-título). A estas obras há a acrescentar as três canções baseadas em poemas de Shakespeare, das quais "Hark! Hark! the Lark" (D.889) e "Who is Sylvia?" (D.891) foram escritas no mesmo dia; a primeira numa taberna onde interrompeu o seu passeio da tarde e a última quando estava de volta aos seus aposentos, ao anoitecer. Em 1827, escreveu a "Viagem de Inverno" - Winterreise (D.911), a fantasia para piano e violino em Dó (D.934), e os dois trios para piano (Si bemol, D.898; e Mi bemol, D.929): em 1828 a "Canção triunfal de Miriam", baseada em um texto bíblico; a Sinfonia em Dó maior, "a Grande" (D.944), a Missa em Mi bemol (D.950), e o extraordinariamente belo Tantum Ergo (D.962) na mesma dominante; o Quinteto de Cordas em Dó (D.956); o segundo "Benedictus" para a Missa em Dó, as últimas três Sonatas para piano e o conjunto de canções publicadas postuamente com o lírico título de Schwanengesang (ou "O Canto do Cisne", D.957). Seis destas canções têm letra de Heinrich Heine, cuja Buch der Lieder foi escrita no outono.
A sua saúde deteriorou-se neste mesmo auge da sua actividade criativa. Sofria de sífilis desde 1822. Terá morrido de febre tifóide, ainda que vários biógrafos apresentem outras possíveis doenças. Morreu a 19 de Novembro, na casa do seu irmão Ferdinand, em Viena, com 31 anos de idade. A sua sepultura jaz no cemitério de Währinger, perto da de Ludwig van Beethoven, compositor que venerou em vida.
Algumas das suas peças de menor dimensão foram impressas pouco depois da sua morte, mas aquelas que hoje são consideradas mais importantes forma vistas pelos editores como papel desperdiçado. Em 1838, Robert Schumann, numa visita a Viena, encontra o manuscrito poeirento da Sinfonia em Dó maior, (a "Grande", D.944) e levou-a consigo para Leipzig, onde foi interpretada por Felix Mendelssohn, tendo sido consagrada pelos críticos da revista "Neue Zeitschrift für Musik". Há uma certa controvérsia em relação à numeração a dar a esta Sinfonia. Os musicólogos alemães preferem designá-la por Sinfonia nº7; o catálogo de referência das obras de Schubert, o "Deutsch", compilado por Otto Erich Deutsch, lista-a como nº 8, enquanto que na maior parte do mundo é conhecida como a nona de Schubert.
O passo mais importante que foi dado para a redescoberta dos trabalhos esquecidos de Schubert foi dado, numa viagem que fez por Viena, por Sir George Grove (da "Grove's Dictionary of Music and Musicians") e por Sir Arthur Sullivan, no outono de 1867. Estes viajantes reabilitaram sete sinfonias, a música escrita para a ópera "Rosamunda", algumas missas e óperas, alguns trabalhos de música de câmara e um grande conjunto, variado, de pequenas peças musicais e Lieder. O público mundial tinha, finalmente, acesso à obra de Schubert.
Outra controvérsia, iniciada com Grove e Sullivan, tendo continuado por vários anos, referia-se à existência de uma Sinfonia "perdida". Pouco antes da morte de Schubert, o seu amigo Eduard von Bauernfeld fazia menção a uma outra sinfonia, datada de 1828 (ainda que isso não indique de forma indubitável o ano em que terá sido composta), que se chamaria "Letzte" ou seja, a "Última" sinfonia. A generalidade dos musicólogos aceita, hoje em dia, que esta última sinfonia refere-se a um esboço sinfónico em Ré maior (D936A), descoberto na década de 1970 e, que, Brian Newbould completou, dando-lhe o nome de Décima sinfonia.
Muitos concordam com a frase de Franz Liszt, que se refere a Schubert como "le musicien le plus poète qui fut jamais." - "o mais poeta dos músicos de sempre"[carece de fontes?]. Em clareza de estilo, é dito que é inferior a Mozart; no poder da construção musical, está bem longe de Beethoven, mas, em termos de impulso e sugestão poética, é dificilmente comparável. Escreveu a sua música sempre de forma precipitada e raramente mudava algo que já estava escrito. Daí que a característica fundamental da sua obra seja um certo sabor a improviso: é por isso que adjectivações como fresco, vivo, espontâneo, impaciente, moderado, rico em matizes sonoras, caloroso, sentimental e imaginativo são frequentemente utilizadas. É por muitos considerado o maior autor de canções que alguma vez existiu. O Lied alemão não seria, de forma alguma, o mesmo sem Schubert. Em geral, as suas obras são marcadas pelo paradigma da canção. Até nas suas missas parece que se irrita com as secções contrapontísticas, empregando toda a sua alma nas partes que lhe permitem um tratamento mais lírico. Nas suas sinfonias, as passagens mais celebradas são aquelas que trazem a marca do lirismo e da elegia. Poder-se-ia dizer que era como um cantor (que foi, efectivamente) que transportou para todo um vasto campo musical a forma artística que mais amou.
Em 1872, foi erigido no Parque Municipal de Viena um memorial em honra de Franz Schubert.
Fonte: pt.wikipedia.org

Franz Peter Schubert nasceu em Viena a 31 de janeiro de 1797. Filho de um mestre-escola, ingressou como cantor na capela imperial de sua cidade natal em 1808, e freqüentou um internato ligado a esta, onde Salieri o encorajou quando de suas primeiras composições. Em 1810, compôs um de seus mais importantes trabalhos, a Fantasia a quatro mãos e doze movimentos. Possuidor de parcas posses, foi grandemente auxiliado, quando ainda menino, por um colega seu, que lhe fornecia todo o papel de música de que necessitava. Escapando do serviço militar, matriculou-se em uma Escola Normal, tendo ao mesmo tempo o lugar de professor na Escola Particular mantida por seu pai.
Trabalhando desde 1814 como professor primário, teve oportunidade de reger músicas em igrejas suburbanas de Viena. Foi professor das filhas do conde Esterházy durante breves temporadas (1810 e 1824). Desde 1815 chamou atenção dos conhecedores pelas suas composições, especialmente pelos seus lieder. A partir de 1816, dedicou-se inteiramente à música.
Mas sua posição na vida musical vienense sempre foi modesta. Contou sempre com numerosos amigos que o admiravam (Schober, von Spaun, Michael Vogl, Lachner). Teve sucesso principalmente em círculos boêmios, aliás de uma boêmia muito moderada, meio burguesa. O tenor Vogl popularizou as suas canções. Em 1818, já havia composto seis sinfonias completas.
Apesar de Schubert estar atravessando um dos seus períodos mais fecundos no campo criativo, no aspecto pessoal, em 1823, surgiu um mal que poucos anos mais tarde levaria o compositor à morte. Embora seja impossível certificar com total veracidade qual era a enfermidade, depoimentos da época e a descrição dos sintomas que padecia permitem assegurar que contraiu uma doença venérea, concretamente a sífilis. Essa teoria seria corroborada pelo fato de que, no final desse ano, o músico tinha sido obrigado a utilizar uma peruca para ocultar uma repentina calvície, seqüela de um tratamento à base de mercúrio, característico da época.
Sem sombra de dúvidas, as conseqüências desse mal, do qual Schubert nunca se livraria, apesar de momentâneas melhoras, foram as que terminaram com sua existência, e desde o aparecimento dos primeiros transtornos, o músico pareceu-se conformar-se com o final que o aguardava. Durante esse período, compôs relativamente pouco, pois sua saúde se encontrava debilitada, assim como o seu ânimo, tal como reflete uma carta que enviou à Leopold Kupelweiser em 31 de março de 1824: ‘ (...) Sinto-me o homem mais infeliz e desventurado deste mundo. Creio que nunca voltarei a estar bem novamente, e tudo o que faço para tentar melhorar minha situação, na realidade a torna pior (...)’.
Durante o verão de 1823, Schubert iniciou uma longa viagem, acompanhado por seu amigo Michael Vogl, incluindo Steyr e Linz, aonde o esperavam seus companheiros. Nesse mesmo ano, foi nomeado membro da Musikverein der Steiemark, associação musical cuja sede se encontrava em Graz. Suas canções seguiam sendo publicadas com certa freqüência. No terreno da ópera, produziu-se uma nova tentativa por parte de Schubert de se impor nos cenários vienenses, nessa ocasião com a obra Rosamunda D 797, escrita por Wilhelmine von Chezi, e cuja música era obra do compositor austríaco. Rosamunda foi representada pela primeira vez em 20 de setembro de 1823 e, apesar do fracasso da obra teatral, a música que acompanhava o texto chegou a ser apreciada por boa parte do público.
A insistência de Schubert para triunfar nos teatros de ópera da sua cidade constitui um dos fatos que contribui para desmentir a fama de indolente atribuída ao compositor. Alguns anos mais tarde, em uma carta ao seu amigo Bauernfeld, Schubert escreveria umas palavras que refletem o interesse que seguia mantendo pela ópera: ‘Vem o quanto antes para Viena. Dupont quer uma ópera minha, porém os libretos que li não me agradaram em absoluto.
Seria magnífico se o seu libreto de ópera fosse acolhido favoravelmente. Isso daria, ao menos, dinheiro e, talvez, honra. Te peço que venhas assim que puder por causa da ópera.’ Atualmente, a maioria dos musicólogos parece coincidir em que, longe de mostrar deprezo por esse terreno, o mais provável é que o músico de Viena era incapaz, em virtude de seu caráter tímido e retraído, de relacionar-se de forma cômoda com os membros dos sofisticados e mundanos ambientes teatrais. Por esse motivo, parecia confiar unicamente nos contatos que Vogl mantinha com os círculos operísticos, e se a sua inaptidão para a vida social era, provavelmente, muito acusada, também era falso o tão repetido desinteresse que os biógrafos perpetuam nos relatos referentes ao compositor.
Numerosas biografias de Schubert incorrem no argumento de retratar um homem atormentado pela doença, cujos últimos anos foram um suplício para vencer o mal e redimir-se através de suas composições. O certo é que, depois dos primeiros sintomas da enfermidade que o afetaram seriamente durante aproximadamente um ano e meio, o estado geral do músico experimentou uma melhora que, inclusive, o levou a pensar que a sífilis cedia definitivamente. A partir do final de 1824, Schubert se sentiu novamente com forças para prosseguir com sua carreira e levar uma vida praticamente normal.
No verão desse ano transferiu-se de novo para a residência do conde Esterházy, em Zseliz, onde se encarregou uma vez mais da educação musical das filhas do aristocrata. O salário que recebeu durante esses meses não impediu que durante sua volta a Viena reiniciasse seu trabalho como professor na escola de seu pai. No entanto, depois de alguns meses de vida austera, conseguiu reunir dinheiro suficiente para abandonar, outra vez, o lar paterno e viver com seus amigos.
O ano de 1825 se apresentava com algumas perspectivas. O estado de saúde de Schubert havia experimentado uma notável - embora passageira - melhora, e de novo o músico se entregou a sua tarefa compositiva com ardor. Dessa época datam os sete lieder que escreveu baseados em ‘A dama do lago’, de Walter Scott. Por outro lado, em meados de 1826, solicitou ocupar o posto vago de diretor da apela da côrte. Uma vez mais, seu pedido foi negado, em favor de um músico mais conhecido em sua época, o diretor da Ópera de Viena, Joseph Weigl.
No verão de 1828, Schubert permaneceu em Viena, ocupado com a conclusão de suas últimas obras-primas e suportando novos embates da doença que, já fazia cinco anos, o molestava. Seus amigos perceberam o fato e passaram-se a encarregar das necessidades básicas do músico. Schubert viveu algumas semanas com seu amigo Jenger e, posteriormente, se mudou para a casa de seu irmão Ferdinand, nos arredores de Viena.
Ao terminar o período estival, decidiu regressar à cidade para aprofundar seus conhecimentos de contraponto com Simon Sechter, professor de harmonia e de composição que lhe ministrou somente uma aula, em 4 de novembro. Poucos dias mais tarde caiu novamente doente, e lhe foi diagnosticado tifo, em razão do qual os médicos o proibiram de comer. Em uma carta de 12 de novembro, dirigida à Schober, escrevia: ‘Levo onze dias sem comer e beber nada. Qualquer coisa que tento ingerir devolvo no instante...’.
Em pouco tempo seu estado de saúde foi se agravando e se viu obrigado a ficar em cama. Recebeu a visita de seus amigos e solicitou que fosse interpretado diante dele o ‘Quarteto n.º 14’ de Beethoven, desejo que cumpriu em 14 de novembro. Porém, os últimos dias passou só com seu irmão, pois o temor ao contágio acabou-lhe distanciando do seu círculo de amigos. Em 19 de novembro de 1828 exalava seu último suspiro.
Recentemente, o doutor Dieter Kerner escreveu uma interessante obra dedicada às doenças que afligiram os grandes músicos. Com base em suas teorias, o tifo não foi a causa de sua morte, em virtude da ausência de febre que apresentava Schubert. A sífilis foi a causa do óbito do compositor, como parecem demonstrar os resultados da autópsia, que indicava uma importante deterioração do córtex cerebral. Provavelmente, concluiu o doutor Kerner, a morte poupou o ainda jovem compositor do final que tiveram, por exemplo, Friederich Nietzsche e Hugo Wolf, condenados pela doença a viver seus últimos anos submergidos na loucura.
No dia 21 de novembro, o corpo de Schubert foi enterrado no cemitério de Währing. Seu amigo Franz Grillparzer se encarregou de redigir o epitáfio que hoje adorna seu túmulo, e que diz o seguinte: ‘A música enterrou aqui um rico tesouro/ e esperanças todavia mais belas./ Aqui repousa Franz Peter Schubert/ nascido em 31 de janeiro de 1797/ morto em 19 de novembro de 1828/ com a idade de 31 anos’. Em 1888, seu corpo foi transladado ao Zentralfriedhof - Cemitério Central - da capital austríaca, onde repousa junto ao de Beethoven, no chamado Panteão dos artistas.
Schubert vive na consciência de muitos, sobretudo de leigos, como compositor meio alegre e meio melancólico, algo leviano, enfim, tipicamente vienense. Não se pode negar que muitas obras de Schubert correspondem a essa definição. Mas também existe um outro Schubert, profundamente sério, compositor da mais alta categoria e sucessor digno de Beethoven. Não começou como músico ligeiro, evoluindo para a arte séria. Entre as suas primeiras obras já existem provas incontestáveis do gênio, ao passo que escreveu música ligeira até o fim da vida. A distinção das duas vertentes, serve, porém, como fio de orientação na obra de Schubert, muito volumosa e imensamente rica.
Grande parte das obras de Schubert é inspirada pelo folclore musical vienense (que é bastante diferente do folclore musical das regiões rurais da Áustria, base da inspiração musical de Haydn). As respectivas composições de Schubert são de melodismo fácil e insinuante, conhecidas e queridas no mundo inteiro: as marchas militares, as danças germânicas, as valsas, sobretudo a famosa Valsa da saudade. No mesmo estilo escreveu obras de grande formato, como o Quinteto para piano em lá menor - A truta (1819), cujo apelido deve-se à um dos movimentos ser variações sobre o lied homônimo de Schubert. A obra já foi definida como "de frescor de uma manhã nos campos". Música parecida é a do Trio para piano em si bemol maior (1827).
Muitos incluem no grupo de música instrumental séria, a famosa Sinfonia n.º 8 em si menor - Inacabada (1822). A data mostra, aliás, que a obra não foi - como muitos acreditam - interrompida pela morte. O trabalho foi abandonado por motivos que se ignoram. A obra é hoje prejudicada pela imensa popularidade dos seus temas. Ouvida sem parti-pris, é obra séria, impressionante, de energia inesperada. Mas é muito mais importante a Sinfonia n.º 7 em dó maior (1828), a maior de todas as sinfonias entre Beethoven e Brahms, e que seria digna desses dois grandes mestres.
No entanto, as maiores obras instrumentais de Schubert foram realizadas no terreno da música de câmara. Os quartetos para cordas em lá menor (1824) e sol maior (1826) e o isolado movimento do Quarteto para cordas em dó menor (1820), fragmento de mais outra obra inacabada, são de grande categoria, mas superados pelo célebre Quarteto para cordas em ré menor - A morte e a donzela (1824), cujo apelido deve-se ao segundo movimento, onde constam variações sobre o lied homônimo do compositor. É obra digna de Beethoven, de intenso romantismo nostálgico. Mas mesmo a esse grande quarteto pode-se preferir o Quinteto para cordas em dó maior (1828), talvez a maior composição instrumental de Schubert.
Estilo - Schubert é clássico e romântico ao mesmo tempo. É clássico quanto à forma e a estrutura das composições instrumentais, seguidor de Haydn, Mozart e Beethoven. Às vezes intervêm mais outras influências, sobretudo a de Händel nas formas grandes da música sacra: os handelianos não acham, aliás, perfeita a Missa em mi bemol maior (1828), mas a Missa em lá bemol maior (1822), embora tão "profanamente alegre" como as missas de Haydn, é obra-prima.
O romantismo de Schubert revela-se, sobretudo, em seu uso da harmonia, que é no Quarteto - A morte e a donzela, por exemplo, audacioso e inovador. Romântico é também pelo uso de novas formas musicais, na música para piano solo. A Fantasia em dó maior - O caminhante (1822), denominada assim porque usa os ritmos do lied homônimo de Schubert, é - antes de Berlioz e Liszt - uma obra de música de programa. E os Improvisos Op. 142 (1827) antecipam de maneira surpreendente o estilo de Chopin.
Lieder - A obra instrumental de Schubert já bastaria para incluí-lo entre os maiores vultos da história da música. Mas Schubert é, além disso e sobretudo, o primeiro grande mestre do lied, do canto de câmara. Criou mesmo essa forma, que antes era seca e pouco poética, imperfeita até nas respectivas composições de Beethoven. Vale a pena salientar que só a forma estrófica desses lieder é a da canção popular alemã. Mas os lieder de Schubert não têm nada de folclórico: é a poesia lírica da música. E é principalmente nos lieder, na escolha dos textos e em sua ornamentação musical, que se revela o romantismo do compositor.
Entre os cerca de 600 lieder de Schubert, há muitos que pertencem ao gênero ligeiro, vienense, como A truta (1817), Para cantar na água (1823), O caminhante à lua (1826). Mas já na mocidade escreveu o compositor algumas de suas melhores peças: a famosa balada Erlkönig (1815), o altamente romântico O caminhante (1816), aproveitado depois na homônima fantasia para piano, A morte e a donzela (1817) e o comovente hino À música (1817). Romanticamente inspirado é também o belíssimo No crepúsculo (1824) e o ciclo A bela moleira (1823), em que se alternam a alegria e a melancolia.
Obras-primas são os 24 lieder do ciclo A viagem de inverno (1827): sobre textos medíocres de Wilhelm Müller (1794-1827) escreveu o compositor um grupo de peças profundamente trágicas, como os admiráveis O poste e O homem do realejo.
É de 1828, publicação póstuma Canto de cisne. Não é propriamente um ciclo, mas são os últimos lieder que o compositor escreveu, reunidos pelo editor sob aquele título. Pouco antes de morrer, tinha Schubert lido poesias de Heine, que lhe inspiraram alguns do lieder mais profundos desse último ciclo: A cidade, No mar, Vendo-se a si próprio como espectro, da mais alta dramaticidade. O ciclo termina com Despedida, que é ambiguamente alegre e fúnebre.
Quando Schubert morreu, a maior parte de sua obra estava inédita, de modo que se falava de "grandes esperanças só prometidas". Foi Schumann quem descobriu e publicou, anos depois, os originais das grandes obras instrumentais. Os lieder já tinham conquistado o mundo inteiro.
Qualquer apreciação da obra de Schubert deve levar em conta um dado crucial: seu prematuro desaparecimento que, em virtude da evolução que apresentavam suas últimas composições, provavelmente furtou ao mundo uma série de obras mestras.
Fonte: www.classicos.hpg.ig.com.br
Franz Peter Schubert (Himmelpfortgrund, perto de Viena, 31 de Janeiro de 1797 - Viena, 19 de Novembro de 1828), foi um compositor austríaco da Era clássica. Escreveu cerca de seiscentas canções (o "Lied" alemão), bem como óperas, sinfonias, sonatas entre outros trabalhos. Não houve grande reconhecimento público da sua obra enquanto foi vivo; teve sempre dificuldade em assegurar um emprego permanente, vivendo muitas vezes à custa de amigos e do trabalho que o pai lhe dava. Morreu sem quaisquer recursos financeiros com a idade de 31 anos. Hoje, o seu estilo considerado por muitos como imaginativo, lírico e melódico, fá-lo ser considerado um dos maiores compositores do século XIX, marcando a passagem do estilo clássico para o romântico. Podemos defini-lo como "mais um artista incompreendido pelos seus contemporâneos".
Schubert nasceu em Himmelpfortgrund, um pequeno subúrbio de Viena. O seu pai, Franz Theodor Florian Schubert, filho de um camponês da Morávia, era um mestre-escola da paróquia. A sua mãe, Elizabeth Fitz (ou Vietz), tinha sido, antes do casamento, criada [1] de uma família vienense. Dos seus quatorze filhos, nove morreram durante a infância; os outros eram Ignaz (nascido em 1784), Ferdinand (nascido em 1794), Karl (nascido em 1796), Franz e a filha, Theresia (nascida em 1801). O pai, homem de reconhecida integridade moral, tinha alguma reputação como professor, e a sua escola, em Lichtenthal, era bem frequentada. Era também um músico amador razoável. Os seus filhos mais velhos, Ignaz e Ferdinand, comparavam-se ao pai na sua habilidade musical.
Aos cinco anos de idade, Schubert começou a sua instrução regular, com o pai. Aos seis anos, entrou na escola de Lichtenthal, onde passou alguns dos melhores anos da sua vida. A sua educação musical começou também por esta altura. O seu pai transmitiu-lhe alguns conhecimentos rudimentares sobre violino e o seu irmão, Ignaz, iniciou-o no pianoforte. Aos sete anos, como já tinha ultrapassado largamente a perícia dos seus mestres iniciais, foi entregue à guarda de Michael Holzer, o Kapellmeister - mestre de capela - da igreja de Lichtenthal. As lições de Holzer consistiam mais em manifestações de espanto por parte do mestre. O jovem Schubert lucrou mais com a ajuda de um seu colega que o levava até um armazém de pianofortes, onde este tinha oportunidade de practicar em instrumentos mais sofisticados que aquele que a sua família lhe podia proporcionar. O facto de os seus primeiros anos de aprendizagem serem algo insatisfatórios era tanto mais sério que, naquela época, um compositor só teria alguma hipótese de sucesso se fosse reconhecido pelo público como um intérprete de excepção. A educação musical que tinha era, no entanto, insuficiente.
A 30 de Setembro de 1808, o seu pai leva-o a participar no concurso para coristas da Capela Imperial, onde António Salieri, compositor oficial da corte, selecionaria os novos cantores. Possuidor de uma apreciada voz de soprano, obteve um lugar no coro, ganhando também uma bolsa de estudos em Stadtkonvikt, um dos melhores colégios de Viena (correspondendo ao Conservatório). Manteve-se aí até ter quase dezassete anos. A sua instrução não foi, no entanto, das melhores - um pouco, aliás, como aconteceu a Haydn em St. Stephen. A sua formação deveu mais à prática que recebeu através da orquestra da escola e pelo companheirismo de alguns dos seus colegas. Muitos dos seus mais devotados amigos, ao longo da sua vida, encontram-se já entre os seus colegas: Spaun, Stadler, Holzapfel, entre outros que o ajudavam monetariamente, comprando-lhe papel de música (que não conseguia comprar com o dinheiro que tinha), além de lhe darem apoio moral, encorajando-o, reconhecendo nele as suas qualidades. Foi também no Stadtkonvikt que teve o seu primeiro contacto com as sinfonias e aberturas de Mozart. Foi conhecendo alguma produção musical além desta, como pequenas peças musicais mais ligeiras e visitando ocasionalmente a ópera, que Schubert foi desenvolvendo o seu conhecimento pessoal da música da época.
Entretanto, ia já demonstrando as suas capacidades como compositor. Uma Fantasia para dueto de piano (D.1, usando o número de catálogo proposto por Otto Erich Deutsch - por isso se deve ler "Deutsch 1"), em trinta e duas páginas de música densamente escrita, é datada de 8 de Abril a 1 de Maio de 1810; seguiram-se-se, em 1811, três longas peças vocais (D.5 - D.7), escritas segundo um conceito popularizado por Zumsteeg, juntamente com uma "abertura-quinteto" (D.8), um quarteto de cordas (D.2); uma segunda Fantasia para pianoforte e alguns Lieder (canções).
É importante referir o seu interesse pela música de câmara já que se sabe que, em sua casa, na altura, se tinha formado um quarteto que tocava "aos domingos e feriados": com os seus irmãos a tocar violino, o seu pai a tocar violoncelo e Schubert a tocar viola.
Durante os restantes anos que passou no Stadtkonvikt, escreveu ainda um número apreciável de peças de música de câmara, vários Lieder, algumas peças variadas para pianoforte e, entre os seus projectos mais ambiciosos, um Kyrie (D.31) e um Salve Regina (D.27), um octeto para instrumentos de sopro (D.72/72a) - diz-se que em honra da sua mãe, que morreu em 1812 - uma cantata (D.110), incluindo a letra e a música, para a comemoração do dia do nome do seu pai, em 1813; e, no final dos seus anos de conservatório, a sua primeira sinfonia (D.82).
No final de 1813 deixou o conservatório e, para evitar o serviço militar, começou a leccionar na escola de seu pai, como professor primário. O seu pai tinha casado, entretanto, com Anna Kleyenboeck, a filha de um comerciante de seda do subúrbio de Gumpendorf. Durante dois anos, Schubert suportou este trabalho sem grande motivação. Compensava-o, no entanto, o prosseguimento da sua prática de composição, tendo aulas particulares com Salieri, que o aborrecia, acusando-o de plagiar Haydn e Mozart, apesar de ser certo que foi, dos seus professores de música, o mais competente.
Travou, entretanto, amizade com a família Grob, onde uma das filhas do casal, Teresa, demonstrava alguns dotes como cantora; começou a fazer-lhe a corte em 1814. A relação terminou, no entanto, em 1816, já que Schubert não conseguia ter emprego permanente.
A sua primeira ópera completa - Des Teufels Lustschloss (D.84) - e a sua primeira missa - em Fá maior (D.105) - foram ambas escritas em 1814. Do mesmo ano datam três quartetos de cordas, muitas peças instrumentais curtas, o primeiro andamento da sinfonia número 2 em Si menor (D.125) e dezassete Lieder, incluindo algumas obras-primas como Der Taucher (a primeira versão, D.77, reescrita posteriormente, com o número de catálogo D.111) e o chamado "Lamento de Margarida" - da obra de Goethe, "Fausto" - ou seja, Gretchen am Spinnrade ("Margarida na roca") (D.118, publicado como Op.2). Mas mesmo esta actividade musical foi largamente ultrapassada pela produzida em 1815. Neste ano, apesar do seu trabalho na escola, das aulas com Salieri e das muitas distracções proporcionadas em Viena, produziu um acervo de obras quase inacreditável pela quantidade. A Segunda sinfonia em Si bemol (D.125) foi terminada, e uma terceira, em Dó maior (D.200), foi composta quase de seguida. Completou igualmente duas missas, em Sol (D.167) e Si bemol (D.324) - a primeira foi escrita em seis dias - além de um novo "Dona Nobis" para a missa em Fá, um Stabat Mater e um Salve Regina (D.223).
Escreveu, entretanto, cinco óperas, das quais apenas três ficaram completas - Der vierjährige Posten (D.190), Fernando (D.220) e Claudine von Villabella (D.239) - e duas, Adrast (D.137) e Die Freunde von Salamanka (D.326), ficaram, aparentemente, incompletas. A lista de obras inclui ainda um quarteto de cordas em Sol menor, quatro sonatas e muitas peças de menor dimensão para piano. Os seus Lieder continuam, no entanto, a constituir a maior parte, e com maior sucesso, do compositor: 146 canções, algumas de tamanho considerável, das quais oito estão datadas de 8 de Outubro e sete de 19 de Outubro.
No inverno de 1814 / 1815, Schubert conheceu o poeta Johann Mayrhoffer; conhecimento
que, como era habitual nas suas relações, levou a uma amizade
sólida. Tinham temperamentos diferentes. Enquanto que Schubert se mostrava
expansivo e alegre, apenas com alguns momentos, breves, de depressão
logo seguidos de estados de espírito enérgicos, Mayrhofer era
melancólico e reservado, preferindo levar a vida de forma estóica
e silenciosa. Essa relação foi, como se verá, proveitosa
para Schubert por diversas razões.
Assim como 1815 foi o período mais prolífico da vida de Schubert,
em termos quantitativos, 1816 foi a época de viragem no que diz respeito
à sua vida. Estava este ano por começar, quando Spaun descobre
que Schubert está a compor, febrilmente, entre uma pilha de trabalhos
escolares, o "Rei dos Álamos", também traduzido por
"O Rei dos Elfos" ou Erlkönig (D.328, publicado como Op.1)
- de um poema de Goethe. Umas semanas mais tarde, Von Schober, um estudante
de direito de uma família abastada, que tinha ouvido algumas canções
de Schubert em casa de Spaun, convida-o para ir a sua casa, onde poderia compor
em paz, sem se preocupar com actividades lectivas. A proposta era tanto mais
oportuna quanto Schubert tinha concorrido, sem sucesso, para o posto de Kapellmeister
em Laibach (hoje, Ljubljana). O consentimento de seu pai foi imediato. Antes
do final da Primavera, já Schubert se estava a instalar em casa de
Von Schober. Por algum tempo ainda tentou contribuir com alguns rendimentos
para a sua família, dando aulas de música, mas rapidamente as
abandonou, devotando-se inteiramente à composição. "Escrevo
todo o dia", disse um dia a alguém que o visitava, "e quando
acabo uma peça, começo outra"[Carece de fontes?].
Entre as obras escritas em 1816 incluem-se três cantatas cerimoniais, uma delas (D.407/441) escrita para o Jubileu de Salieri, a 16 de Junho; a cantata "Prometeu" (D.451), oito dias depois, para os alunos do professor Heinrich Joseph Watteroth que lhe pagou honorários ("a primeira vez", dizia ele no seu Diário, "que compus por dinheiro"); a outra, com um libreto, indigno da qualidade musical de Schubert, para Herr Joseph Spendou, "Fundador e director" (D.472). De maior importância são as suas duas novas sinfonias: a Quarta sinfonia em Dó menor (D.417), a "Trágica", com um andante impressionante; e a Quinta sinfonia em Si bemol (D.485), com um brilho e frescura dignos de Mozart. Compôs também algumas peças de música sacra, onde demonstra uma maior maturidade que nas que compôs antes; e mais de cem canções, entre as quais algumas das suas melhores, a partir de textos de Goethe e Schiller. Escreveu também uma ópera, "Die Bürgschaft" (D.435), novamente com um libretto indigno do compositor, mas que revela bem o interesse que Schubert tinha em ingressar no mundo do teatro musicado.
Entretanto, o seu círculo de amigos continuava, incessantemente, a aumentar. Mayrhofer apresenta-o a Vogl, um barítono famoso, que lhe presta um grande favor ao interpretar os seus Lieder nos salões de Viena; Anselm Hüttenbrenner e o seu irmão, Joseph, encontram-se também entre os seus mais devotados admiradores; Gahy, um pianista de renome, tocava as suas sonatas e fantasias; os Sonnleithners, uma rica família burguesa, cujo filho mais velho tinha estado no Conservatório, deu-lhe livre acesso a sua casa e organizava, em sua honra, reuniões musicais a que, rapidamente, se deu o nome de Schubertíadas. As suas necessidades materiais eram sustentadas sem grande dificuldade. É verdade que vivia sem tostão. Os seus amigos, no entanto, com um generoso espírito de Boémia, partilhavam as contas, desde o alojamento até à alimentação. Schubert era sempre o líder das tertúlias e festas, e era conhecido por meia dúzia de alcunhas, das quais a mais característica era kann er was? ("Ele é capaz?"), a sua pergunta usual quando alguém lhe era apresentado.
1818, ainda que tenha sido um ano de pouca produção musical, se comparado com o que o antecedeu, foi, no entanto, memorável. A primeira apresentação pública de uma obra de Schubert - uma abertura ao estilo italiano: uma paródia descarada a Rossini - tocada com toda a seriedade num concerto numa prisão, a 1 de Março. Foi também o início da sua única nomeação oficial, como Mestre de Música da família do Conde Johann Esterhazy em Zelesz, onde passou o verão num ambiente agradável. Entre as composições que desenvolveu neste ano, encontramos a Sinfonia em Dó maior (D.589), algumas peças para pianoforte a quatro mãos, compostas para os seus alunos em Zelesz, além de algumas canções como Einsamkeit ("Solidão") (D.620), Marienbild (D.623) e Litaney. Ao regressar a Viena, no outono, descobre que Von Schober já não lhe pode dar alojamento, pelo que passa a viver com Mayrhofer. Aí, os seus hábitos não mudam muito: todas as manhãs começa a compor assim que sai da cama, escreve até às duas da tarde, altura em que come algo. Sai de passeio e volta de novo para compor ou, no caso de não estar disposto a isso, visita os amigos. Apresenta-se ao público como escritor de canções, pela primeira vez, em 28 de Fevereiro de 1819, quando a sua canção Schäfers Klagelied é cantada por Jager num concerto, numa prisão. No verão do mesmo ano, tira férias e viaja com Vogl até à Alta Áustria. Em Steyr, escreve o seu famoso Quinteto par piano em Lá (A Truta) (D.667), surpreendendo os seus amigos ao transcrever as partes sem consultar a partitura. Durante o outono enviou três das suas canções a Goethe que, ao que se sabe, não lhe respondeu.
As suas composições de 1820 são notáveis em vários aspectos e demonstram um largo avanço no desenvolvimento e maturidade do seu estilo. A oratória inacabada "Lazarus" (D.689) foi começada em Fevereiro; mais tarde, seguiram-se, entre outras obras de menor dimensão, o Salmo 23 (D.706) ("O Senhor é meu Pastor"), o Gesang der Geister (D.705/714), o Quarteto para cordas nº 12 em Dó menor (D.703) e a grande "Fantasia Wanderer" para piano (D.760). Mas o mais interessante, em termos biográficos, foi o facto de, neste ano, duas das óperas de Schubert terem sido estreadas no teatro Karthnerthor: Die Zwillingsbrüder ("Os irmãos gémeos" (D.647) a 14 de Junho, e Die Zauberharfe ("A Harpa Mágica" ou "A Harpa Encantada") (D.644) a 19 de Agosto. Até ao momento, as suas composições mais extensas (exceptuando as missas) só tinham sido tocadas por amadores, na Gundelhof, uma sociedade com origem nos recitais de quarteto em casa do seu pai. Agora começava a ter maior visibilidade, mostrando-se a um público mais vasto. Os editores mantinham-se, no entanto, desdenhosos em relação à sua obra. Só quando o seu amigo Vogl canta o seu Erlkönig num concerto, no teatro Kärnthnerthor (8 de Fevereiro, 1821) é que Anton Diabelli aceitou, com algumas hesitações, publicar algumas das suas obras sob comissão. As primeiras sete obras com número de opus (todas elas canções - Lieder) foram publicadas nestes termos. Ao terminar a comissão, começou a receber os escassos dividendos acordados com as editoras. Muito se tem escrito sobre o abandono a que foi votado durante a sua vida. A culpa não se pode apontar nem aos seus amigos nem sequer ao público vienense, que só indirectamente era culpado. A responsabilidade pertencerá, talvez, às cautelas desnecessárias dos intermediários que retardavam e restringiam a publicação das suas obras.
Com a composição destas duas peças dramáticas, a atenção de Schubert dirigiu-se ainda mais para o palco. Desde o final de 1821 que esta obsessão apenas lhe trará desilusões. Alfonso und Estrella é recusada; o mesmo acontece com Fierabras (D.796); Die Verschworenen ("Os conspiradores") (D.787), foi proibida pela censura (provavelmente devido ao título); "Rosamunde" ("Rosamunda, princesa do Chipre), (D.797) ficou incompleta, depois de duas noites de trabalho, devido à insignificância do libreto. Destes trabalhos, os dois primeiros estão escritos a uma tal escala que a sua interpretação se tornaria inexcedivelmente difícil. ("Fierabras", por exemplo, é constituído por mais de 1000 páginas de partitura manuscrita), mas Die Verschworenen é uma comédia brilhante e ligeira, e "Rosamunda" contém alguma da melhor música composta por Schubert (a abertura, por exemplo, faz parte do reportório habitual da maioria das orquestras). Em 1822 é apresentado a Weber e a Beethoven, mas isso terá pouca influência na sua vida, ainda que Beethoven reconheça, cordialmente, o génio de Schubert. Von Schober está, entretanto, longe de Viena; novos amigos aparecem, mas com um carácter menos desejável. De todos, estes são os anos mais negros da sua vida.
Na Primavera de 1824 escreve o magnífico Octeto em Fá maior (D.803), "o esboço de uma grande sinfonia"; no verão volta para Zelesz, onde, atraído pela língua húngara, escreve o "Divertimento à húngara" (D.818) e o Quarteto para cordas em Lá menor (D.804). Muitos biógrafos referem, neste passo, a discutida paixão de Schubert pela Condessa Caroline Esterhazy, sua aluna. Os amigos de Schubert, nos seus diários e memórias referem esta paixão impossível de se concretizar, dada a condição social do compositor. Schubert dedicou-lhe a sua Fantasia in Fá menor, escrita em 1828. Muito debatido é, também, o grande Duo em Dó maior (D.812, opus 140), datado no verão desse ano, em Zelesz. Não tem qualquer relação com o estilo usual de Schubert para música de pianoforte, sendo predominantemente de carácter orquestral, podendo ser um esboço de uma grande sinfonia, à semelhança do Octeto.
Apesar da sua constante preocupação pelo teatro e, mais tarde, com os seus deveres oficiais, conseguiu, ainda assim, arranjar tempo para escrever outras obras. Completou a Missa em Lá bemol (D.678) e começou a estranha "Sinfonia inacabada" ou "Sinfonia incompleta" (Sinfonia nº 8 em Si menor, D.759) em 1822.
Os Lieder Die schöne Müllerin ("A Bela Moleira") (D.795), e muitas outras das suas melhores canções foram escritas em 1825; em 1824 escreveu algumas variações sobre o tema Trockne Blumen ("Flores secas") destes Lieder. Há também uma sonata para piano e "Arpeggione" (D.821), uma interessante tentativa de valorizar um instrumento musical pesado e, hoje, obsoleto. Esta peça tem sido, entretanto, adaptada a outros instrumentos, sendo usualmente tocada com piano e violoncelo.
Os problemas destes anos pareceram desanuviar um pouco no ano de 1825. Começou a publicar mais obras; por algum tempo a sua situação financeira melhorou; no verão, fez uma viagem à Alta Áustria, onde foi recebido com entusiasmo. Foi durante essa viagem que escreveu "Canções de Sir Walter Scott". É neste ciclo que se insere a famosa "Ave Maria" (título original Ellens dritter Gesang, D.839), escrita para a tradução de Adam Storck a partir de um poema de Walter Scott, e não para o "Ave Maria" em latim, tal como é usada hoje em dia a música. Escreveu também a Sonata para piano em Lá menor (D.845, op. 42).
De 1826 a 1828, Schubert residiu sempre em Viena, se exceptuarmos uma breve visita a Graz, em 1827. Os dados biográficos dos anos que se seguem restringem-se quase exclusivamente às obras que compôs. Os únicos acontecimentos dignos de notas em 1826 foi que dedicou uma sinfonia para a Gesellschaft der Musikfreunde, tendo recebido honorários em troca; que, no mesmo ano, concorreu para condutor de orquestra na Ópera, tendo perdido o posto por se recusar a alterar uma das suas canções no ensaio; e que na primavera de 1828 deu, pela primeira e única vez na sua vida, um concerto dedicado exclusivamente a obras da sua autoria, tendo sido bem recebido.
Seguem-se as obras mais importantes escritas neste período. No inverno de 1825-1826, escreveu o quarteto de cordas em Ré menor, com as variações sobre o tema A Morte e a Donzela (D.810). Mais tarde, nesse mesmo ano, escreveu o "Quarteto de cordas em Sol maior", "Rondeau brilhante" para piano e violino (D.895, opus 70), e a interessante Sonata para Piano em Sol (D.894, opus 78) que, por soberba dos editores, foi impressa sem o título "Fantasia" que Schubert lhe havia dado (ainda que em edições recentes se tenha recuperado esse título, nem que seja sob a forma de sub-título). A estas obras há a acrescentar as três canções baseadas em poemas de Shakespeare, das quais "Hark! Hark! the Lark" (D.889) e "Who is Sylvia?" (D.891) foram escritas no mesmo dia; a primeira numa taberna onde interrompeu o seu passeio da tarde e a última quando estava de volta aos seus aposentos, ao anoitecer. Em 1827, escreveu a "Viagem de Inverno" - Winterreise (D.911), a fantasia para piano e violino em Dó (D.934), e os dois trios para piano (Si bemol, D.898; e Mi bemol, D.929): em 1828 a "Canção triunfal de Miriam", baseada em um texto bíblico; a Sinfonia em Dó maior, "a Grande" (D.944), a Missa em Mi bemol (D.950), e o extraordinariamente belo Tantum Ergo (D.962) na mesma dominante; o Quinteto de Cordas em Dó (D.956); o segundo "Benedictus" para a Missa em Dó, as últimas três Sonatas para piano e o conjunto de canções publicadas postuamente com o lírico título de Schwanengesang (ou "O Canto do Cisne", D.957). Seis destas canções têm letra de Heinrich Heine, cuja Buch der Lieder foi escrita no outono.
A sua saúde deteriorou-se neste mesmo auge da sua actividade criativa. Sofria de sífilis desde 1822. Terá morrido de febre tifóide, ainda que vários biógrafos apresentem outras possíveis doenças. Morreu a 19 de Novembro, na casa do seu irmão Ferdinand, em Viena, com 31 anos de idade. A sua sepultura jaz no cemitério de Währinger, perto da de Ludwig van Beethoven, compositor que venerou em vida.
Algumas das suas peças de menor dimensão foram impressas pouco depois da sua morte, mas aquelas que hoje são consideradas mais importantes forma vistas pelos editores como papel desperdiçado. Em 1838, Robert Schumann, numa visita a Viena, encontra o manuscrito poeirento da Sinfonia em Dó maior, (a "Grande", D.944) e levou-a consigo para Leipzig, onde foi interpretada por Felix Mendelssohn, tendo sido consagrada pelos críticos da revista "Neue Zeitschrift für Musik". Há uma certa controvérsia em relação à numeração a dar a esta Sinfonia. Os musicólogos alemães preferem designá-la por Sinfonia nº7; o catálogo de referência das obras de Schubert, o "Deutsch", compilado por Otto Erich Deutsch, lista-a como nº 8, enquanto que na maior parte do mundo é conhecida como a nona de Schubert.
O passo mais importante que foi dado para a redescoberta dos trabalhos esquecidos de Schubert foi dado, numa viagem que fez por Viena, por Sir George Grove (da "Grove's Dictionary of Music and Musicians") e por Sir Arthur Sullivan, no outono de 1867. Estes viajantes reabilitaram sete sinfonias, a música escrita para a ópera "Rosamunda", algumas missas e óperas, alguns trabalhos de música de câmara e um grande conjunto, variado, de pequenas peças musicais e Lieder. O público mundial tinha, finalmente, acesso à obra de Schubert.
Outra controvérsia, iniciada com Grove e Sullivan, tendo continuado por vários anos, referia-se à existência de uma Sinfonia "perdida". Pouco antes da morte de Schubert, o seu amigo Eduard von Bauernfeld fazia menção a uma outra sinfonia, datada de 1828 (ainda que isso não indique de forma indubitável o ano em que terá sido composta), que se chamaria "Letzte" ou seja, a "Última" sinfonia. A generalidade dos musicólogos aceita, hoje em dia, que esta última sinfonia refere-se a um esboço sinfónico em Ré maior (D936A), descoberto na década de 1970 e, que, Brian Newbould completou, dando-lhe o nome de Décima sinfonia.
Muitos concordam com a frase de Franz Liszt, que se refere a Schubert como "le musicien le plus poète qui fut jamais." - "o mais poeta dos músicos de sempre"[Carece de fontes?]. Em clareza de estilo, é dito que é inferior a Mozart; no poder da construção musical, está bem longe de Beethoven, mas, em termos de impulso e sugestão poética, é dificilmente comparável. Escreveu a sua música sempre de forma precipitada e raramente mudava algo que já estava escrito. Daí que a característica fundamental da sua obra seja um certo sabor a improviso: é por isso que adjectivações como fresco, vivo, espontâneo, impaciente, moderado, rico em matizes sonoras, caloroso, sentimental e imaginativo são frequentemente utilizadas. É por muitos considerado o maior autor de canções que alguma vez existiu. O Lied alemão não seria, de forma alguma, o mesmo sem Schubert. Em geral, as suas obras são marcadas pelo paradigma da canção. Até nas suas missas parece que se irrita com as secções contrapontísticas, empregando toda a sua alma nas partes que lhe permitem um tratamento mais lírico. Nas suas sinfonias, as passagens mais celebradas são aquelas que trazem a marca do lirismo e da elegia. Poder-se-ia dizer que era como um cantor (que foi, efectivamente) que transportou para todo um vasto campo musical a forma artística que mais amou.
Em 1872, foi erigido no Parque Municipal de Viena um memorial em honra de Franz Schubert.
Fonte: www.lastfm.pt