A 31 de Janeiro de 1797, nasceu em Liechtental, subúrbio de Viena,
o austríaco Franz Peter Schubert. O pai queria que, um dia, o menino seguisse
os seus passos, na profissão de professor primário. Por isso, na idade certa,
insistiu que o jovem se matriculasse na escola normal.
Schubert, o décimo segundo filho de uma família humilde, sem outra opção para
encontrar a sobrevivência e para fugir do serviço militar, obedeceu. Tirou
o diploma e, a muito custo, durante dois anos, tentou seguir a carreira no
magistério. Mas, sempre que pedia o caderno de um aluno para corrigir a lição
do dia, devolvia-o com as páginas em branco completamente rabiscadas de notas
musicais. tinha composto mais uma melodia.
Enquanto dividia o tempo entre a sala de aula e a sua paixão pela música,
Schubert chegou a compor, naqueles dois anos, quase duzentas
obras. Viena, a sua cidade natal foi um celeiro da cultura e dos grandes mestres
da música na passagem do século XVIII para o século XIX. Naquele cenário,
não demorou muito para que o talento de Schubert logo florescesse.

Antes, aborreceu-se com o pai e entregou-se a uma vida boémia,
sobrevivendo com a ajuda de amigos, que lhe forneciam teto e comida, além
de calhamaços de papel pautado, no qual continuava a compor freneticamente.
Desde cedo, Schubert estava disposto a viver apenas da sua
música. Mas esta não se mostrou uma tarefa fácil. Escreveu uma dúzia de óperas,
todas retumbantes fracassos. Nenhum editor se dispunha a publicá-las.
Até que se revelou um exímio compositor de um género que aperfeiçoaria e no qual seria imbatível: o "lied", canção lírica, cantada. Num ano, compôs cerca de 150 "lieder", baseados em textos de Shakespeare, Heine e Goethe, entre outros autores. Essas canções fariam um enorme sucesso no público e da crítica, ao ponto do seu autor ter sido considerado, posteriormente, o maior poeta lírico da música universal.
Ao todo, Schubert escreveu mais ou menos 600 "lieder" durante toda a vida.
Contudo, Schubert também ficaria famoso pelo
extremo desleixo com que tratava os originais da sua obra, chegando mesmo
a perder vários deles, abandonados em bancos de jardim ou esquecidos na casa
de conhecidos. Conta-se que, certa vez, numa noite de bebedeira com os amigos,
compôs a sua famosa "Serenata" no verso do cardápio (Menu) de uma
taverna de terceira categoria. No final da noite, já na rua, lembrou-se da
composição deixada sobre a mesa e voltou à taverna para recuperá-la. Algumas
das suas principais obras, como a "Sinfonia em dó maior" e a célebre
"Sinfonia "Incompleta"", só foram reencontradas após a
sua morte.
Em 1818, o boêmio Schubert contraiu sífilis, provavelmente
após uma aventura sexual com alguma criada do conde Esterházy - cujas filhas,
Maria e Caroline, era professor de música. Internado por longos períodos,
tratado à base de mercúrio, conforme recomendava a medicina da época, acabou
por perder os cabelos e foi obrigado a usar peruca. A doença, que a esse tempo
era considerada incurável, arrastou-o para uma fase de depressão, em que a
sua prodigiosa capacidade de compor sofreu um declínio.
"Sinto-me o homem mais infeliz e desventurado deste mundo", escreveu
a um amigo, em 1824. "Creio que nunca voltarei a estar bem, e tudo o
que faço para tentar melhorar a minha situação, na realidade, a torna pior",
lamentava-se. Quando por fim melhorou, voltou a dar aulas para as filhas do
conde Esterházy, tendo-se mesmo apaixonado por uma delas, Caroline, de apenas
17 anos. Mas não teve nenhuma hipótese para confessar o seu amor à rapariga.
Com o pouco dinheiro que ganhou no emprego, decidiu começar uma vida nova.

Voltou a compor, mas o dinheiro acabou rápidamente. Schubert continuava
com dificuldades de ver a sua obra publicada e, por consequência, executada.
O temperamento arredio não conseguia mantê-lo por muito tempo no mesmo emprego.
Com o orgulho ferido, submeteu-se a trabalhar por algum tempos como professor
na escola primária mantida pelo pai. Mais uma vez, sofreu problemas de saúde,
que dessa vez foram identificados pelos médicos como tifo.
Boa parte dos biógrafos de Schubert retrata-o como um homem
eternamente mergulhado na depressão e na doença física. Entretanto, a despeito
de ter passado, de fato, muitos anos da sua vida enfermo, a existência de
Schubert não foi feita apenas de martírios.
Os amigos costumavam lembrar-se dele como um homem alegre, consciente
do valor da sua obra. Uma obra que, em alguns momentos, foi censurada exatamente
por ser leve, ligeira e "divertida" demais. É o caso do "Quinteto
em lá maior", op. 114, também conhecido como "A Truta" ("The
Trout").
Os últimos anos da vida de Schubert foram passados na solidão.
Com medo de serem contagiados por tifo, os amigos foram a pouco e pouco afastando-se
dele.
Conta-se que, na hora da morte, manifestou o seu último desejo: queria ouvir, na cama, o "Quarteto nº 14", de Beethoven. O pedido foi aceito.
Morreu cinco dias depois, em 19 de Novembro de 1828.
No dia 21 de Novembro de 1828, o corpo de Schubert foi enterrado
no cemitério de Währing.
Seu amigo Franz Grillparzer encarregou-se de redigir o epitáfio que hoje adorna o seu túmulo, e que diz o seguinte:
"A música enterrou aqui um rico tesouro
e esperanças todavia mais belas.
Aqui repousa Franz Peter Schubert
nascido em 31 de Janeiro de 1797
morto em 19 de Novembro de 1828
com a idade de 31 anos".
Em 1888, seu corpo foi transladado ao Zentralfriedhof - Cemitério Central - da capital austríaca, onde repousa junto ao de Beethoven, no chamado Panteão dos artistas.
Ave Maria
Uma das composições mais conhecidas de Schubert é a "Ave
Maria".
Originalmente, a letra da canção era uma tradução
de Adam Storck, para o alemão, de um poema do escritor britânico Walter Scott.
Mas a "Ave Maria" de Schubert ficaria mesmo célebre
com a versão da letra em latim, como hoje é habitualmente executada.
Longe do piano
Apesar de ser um exímio pianista, Schubert não gostava de
apresentar-se em público. O seu principal objetivo era a composição. Tinha,
aliás, um método bem peculiar de compor. Preferia não utilizar-se do piano,
pois alegava que o instrumento atrapalhava o fluxo das suas ideias. Escrevia
as músicas diretamente no papel, fazendo poucas correcções posteriormente.
Bolsa de estudos graças à voz
Schubert, desde menino, tinha uma bela voz. Por causa dela, ganhou uma bolsa
de estudos em Stadtkonvikt, uma das melhores escolas de Viena, por ter sido
escolhido como soprano para o coro da Capela Imperial, em 1808. Em Stadtkonvikt,
foi o primeiro violino da orquestra da escola.
Mas em 1812, com a adolescência, a sua voz tornou-se
grave. Schubert teve que sair do coro e perdeu o direito
à bolsa de estudos.
Música em troca de dinheiro
Para fugir das muitas dívidas, Schubert costumava dedicar
as suas músicas a membros da aristocracia, que lhe agradeciam em dinheiro.
"Gretchen am Spinnrad", por exemplo, foi dedicada ao conde Moritz
von Fries, que retribuiu ao compositor com a quantia de 650 florins.
Cerca de 50 composições de Schubert possuem
dedicatória. Contudo, algumas dessas obras não lhe renderam nenhuma recompensa
financeira. Muitas, por exemplo, foram dedicadas a Beethoven, como homenagem
sincera àquele que era o seu ídolo musical.
Sinfonia Incompleta
Ao contrário do que se costuma pensar, a "Sinfonia Imcompleta" de
Schubert não recebeu este nome porque o autor morreu antes
de terminá-la. Na verdade, a composição data de 1822, seis anos antes da data
da morte do autor. Por motivos nunca bem explicados pelos seus biógrafos,
Schubert simplesmente desistiu de completar a obra, que mesmo
assim é considerada uma das suas principais realizações.
Da mesma forma que Beethoven, Schubert é
considerado um compositor de transição entre o Classicismo e o Romantismo.
Assim como Mendelssohn, ele também poderia ser classificado como uma espécie
de "romântico semi-clássico".
Os historiadores da música costumam falar da existência de "dois Schuberts".
O primeiro, mais popular, autor de marchas, danças e canções ligeiras e sedutoras;
um segundo, menos conhecido, autor de sinfonias ousadas, de composições camerísticas
mais elaboradas e - respeitadas as devidas proporções -, um sucessor da obra
monumental de Beethoven. Ao Morrer aos 31 anos, especula-se sobre o quanto
ainda teria a produzir caso tivesse vivido mais algum tempo.
Costuma-se dizer que a principal diferença entre Beethoven e Schubert
é que, enquanto o primeiro era essencialmente um criador, o segundo
teria-se moldado com mais facilidade às formas tradicionais do classicismo,
produzindo obras de menor potencial artístico e revolucionário. Há quem discorde.
O crítico Otto Maria Carpeaux, por exemplo, considera Schubert um
grande inovador, especialmente nas suas obras de câmara, em que teria antecipado
Chopin, Schumann e mesmo Wagner.
O fato é que, durante toda a vida, praticamente Schubert não
saiu de Viena.
Sendo assim, há uma influência bem grande da música folclórica austríaca, e mais especificamente da música vienense, perpassando a quase totalidade da sua obra. Isso não significa que ele seja apenas um compositor "folclórico", preso às estruturas tradicionais. Ao contrário, o mesmo Carpeaux via em certas "imperfeições", apontadas pela crítica durante muito tempo na obra de Schubert, como inovações bem familiares àquelas conquistadas por Beethoven.
Sinfonias
Sinfonia n.º 8 em si menor - Imcompleta (1822)
Sinfonia n.º 7 em dó maior (1828)
Quartetos
Quarteto para cordas em dó menor (1820)
Quarteto para cordas em ré menor (1824)
Quarteto para cordas em lá menor (1824)
Quarteto para cordas em sol maior (1826)
Lieder
Erlkönig (1815)
A Truta (1817)
A Morte e a Donzela (1817)
Para Cantar na Água (1823)
Caminhante à Lua (1826)
A Bela Moleira (1823)
Fonte: www.prof2000.pt

Numa taberna vienense, um grupo animado de jovens conversa, brinca, bebe cerveja. De repente, um deles pega o cardápio e escreve algo na parte de trás. No final da noite, todos vão saindo quando um outro jovem lembra-se do cardápio.
Pega-o e no verso vê algumas notas musicais traçadas
com rapidez. Se este jovem não tivesse lembrado do cardápio, hoje o mundo
talvez não conhecesse a famosa Serenata . O distraído autor da música é Franz
Schubert, cujo bicentenário de nascimento foi comemorado em 1997.
Franz Seraph Peter Schubert é conhecido mundialmente pela
sua famosa e misteriosa Sinfonia Inacabada. Escrita em 1822, esta sinfonia
é "inacabada" por ter apenas duas partes. Naquela época o usual
era que as sinfonias tivessem quatro partes ou movimentos.
Por que a Inacabada tem apenas dois? Impossível saber. A morte de Schubert,
aos 31 anos não foi a causa, pois depois da Inacabada ele ainda escreveu mais
uma sinfonia, num total de nove. Ele também não quis deliberadamente quebrar
as regras vigentes. Prova é que chegou a escrever os oito primeiros compassos
de um terceiro movimento.
Schubert, durante toda a sua vida, jamais desfrutou de fama. Mesmo nos dias
atuais ele não é tão conhecido popularmente como Beethoven. Não obstante,
sua contribuição à música é quase tão importante quanto a de Mozart e Beethoven.
Aliás, pode-se considerar a música de Schubert como uma perfeita transição, uma ponte, entre os dois compositores. Era herdeiro do classicismo de Mozart, mas tinha já o espírio de renovação que levaria ao Romantismo.
Dezoito anos e 203 músicas
Nascido num subúrbio de Viena, em 31 de janeiro de 1797, Schubert
foi menino-cantor no Coro da Capela Imperial, onde ficou por 6 anos.
Depois, trabalhou como professor na escola de seu pai.
Mas não por muito tempo: como entender
um professor que, de repente, pega o caderno de um aluno, escreve uma música
e devolve?
Depois de brigar com o pai, vai morar na casa de amigos, levando uma vida
de boêmia. Nunca se casou. Sua única aventura amorosa lhe transmitiu sífilis.
Escrevia música pela manhã, passeava pela tarde e a noite ia para a casa de
algum amigo apresentar suas novas obras.
Sua vida, transcorrida toda em Viena, não tem lances espetaculares, amores
fulminantes ou triunfos memoráveis. Foi simples, despretensiosa, preocupado
apenas em fazer música. Viva nas casas dos amigos, tocando esporadicamente
em algum lugar, compondo uma ou outra peça por encomenda.
E novas obras musicais é o que não faltam: aos 18 anos, já
tinha escrito 203 músicas.
Escrevia de tudo: sinfonias, sonatas,
peças para piano, lieder. O que é lieder? Lied (singular de Lieder) é uma
expressão que pode ser grosseiramente traduzida como canção, mas refere-se
à um tipo muito particular de canção. Do mesmo modo que é impossível explicar
com palavras o que é uma Modinha ou uma Seresta brasileira, por terem características
marcadamente regionais, o lied alemão também não pode ser explicado.
Schubert foi sobretudo mestre desse gênero. Escreveu cerca
de 600 lieder, sobre textos dos mais diversos autores, desde Shakespeare e
Goethe a alguns obscuros poetas austríacos, conhecidos hoje apenas por terem
seus versos musicados por Schubert.
Em seus lieder, escritos para voz e piano,
o piano não aparece apenas como acompanhamento: é parte integrante
da ação, narrador e comentarista.
Segundo relatos da época, Schubert escrevia como que em transe,
em qualquer lugar, a qualquer hora.
Mesmo durante a noite: dormia de
óculos para anotar mais rápido as idéias que tivesse.
Apesar de escrever belas canções, nunca se destacou escrevendo óperas. A mais
popular foi apresentada 12 vezes. Suas sinfonias, então, não chegaram sequer
a ser apresentadas durante sua vida. O próprio manuscrito da Inacabada foi
encontrado por acaso, 43 anos depois de sua composição.
Schubert pouco se importava com o que escrevia. Freqüentemente esquecia manuscritos em bancos de jardim, casas de amigos, tavernas ou em qualquer lugar que estivesse.
Duas Vidas
Embora não tenha realmente sido amado por nenhuma mulher e ter vivido numa
pobreza constante, o temperamento de Schubert era sempre
lembrado por seus amigos como muito alegre. Melancolia? Só na música.
Muitos autores se referem as "duas vidas" de Schubert.
E não deixa de ser assim: a vida
real, pobre e tristonha, e a vida artística, onde Schubert se
realizava. Não por acaso, a grande paixão de sua vida foi uma das primeiras
intérpretes de suas obras, a soprano Thérese Grob.
A parcial obscuridade em que se encontra a música de Schubert deve-se
ao fato de que ele não foi nenhum revolucionário. Pelo contrário, soube perfeitamente
aprender a linguagem musical de seu tempo.
E as limitações ao artista no século XIX eram muitas. Para se escrever uma
música, por exemplo, havia uma série de regras de composição que deviam ser
respeitadas. Beethoven ignorou essas regras, Schubert aceitou-as.
E ambos são geniais.
Repertório Básico
Para quem não está familiarizado, uma boa abordagem inicial da música de Schubert
é a Sinfonia nº 8 em si menor, a Inacabada.
Essa música resume muitos aspectos do compositor:
melancólica, enérgica e muito melodiosa. Na primeira audição já é
possível assobiar suas melodias. A orquestração não traz efeitos espetaculares,
mas o espetacular nunca foi o forte de Schubert.
É no gênero mais intimista que estão as suas maiores realizações:
os lieder, onde Schubert foi um mestre. Para começar, o melhor são os "Ciclos
de Lieder", conjunto de canções para voz e piano que contam uma história.
A Bela Moleira é uma obra-prima. A Viagem de Inverno, outro ciclo de canções,
é mais melancólico, mas igualmente belo. De ambas as obras existem muitas
gravações disponíveis no mercado.
Quem quiser se aprofundar um pouco mais, pode tentar a música de câmara. O
Quinteto em lá maior op.114, "A Truta", mostra como Schubert
soube ser original sem ser revolucionário. O nome deve-se ao fato
de o 3º movimento ter sido feito sobre um lied chamado "A Truta".
Fonte: www.projetomusical.com.br