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Segunda Guerra Mundial

A Guerra no Deserto (1940 - 1943)

Na altura em que a batalha na França já podia ser considerada como oscilando decisivamente a favor de Hitler, a Itália entrou na guerra, conduzida por Benito Mussolini. Viu que a França logo cairia e que a Inglaterra seria, portanto deixada sozinha numa posição vulnerável - um momento ideal, pensou ele, para depô-la de sua posição no Mediterrâneo e na África e para aumentar as possessões ultramarinas da Itália.

Nessa altura, também, um pequeno exército britânico no Egito, comandada pelo General Sir Archibald Wavell, defrontou-se com uma força italiana na Cirenaica, comandada pelo Marechal Graziani, muitíssimo superior numericamente. Antes que Graziani tivesse tempo para organizar uma ofensiva, Wavell moveu-se no Egito num ataque-relâmpago que iria acarretar resultados de largo alcance num espaço de tempo bem curto - o tipo de ação, aliás, que iria caracterizar os oscilantes sucessos de ambas as partes na guerra do deserto. Movendo-se em direção à fronteira egípcia, as forças de ataque britânicas, inclusive a 7ª Divisão blindada, que ganharia o apelido de Ratos do Deserto, tomou o forte Capuzzo aos italianos em 14 de junho de 1940. Graziani reagiu contra a ameaça avançando para o leste a 13 de setembro e estabelecendo uma cadeia de acampamentos em torno de Sidi Barrani, contra quais Wavell ordenou ao general O’Connor que investisse. A 7 de dezembro começaram os ataques britânicos aos acampamentos, com os tanques Matilda do 7º Regimento Real de Tanques na vanguarda, e em três dias os italianos estavam debandando, sendo aprisionados 40.000 deles. Esse sucesso retumbante foi seguido pela captura da fortaleza italiana de Bardia, no litoral, onde 45.000 italianos foram aprisionados, e, mais tarde, por uma investida para o oeste, que culminou com a captura do porto-chave de Tobruk, a 21 de janeiro de 1941, e de mais de 30.000 prisioneiros. Durante toda a campanha, os tanques Matilda desempenharam um papel crucial.

Enquanto isso, O’Connor estava necessitando desesperadamente de reforços e novo equipamento, mas a mente de Churchill estava fixada no envio de tropas para ajudar os países balcânicos a resistir contra a Itália e Alemanha, e os reforços foram negados. Entretanto, O’Connor recebeu permissão para avançar para oeste, com a finalidade de tomar o porto de Benghazi. À medida que o avanço prosseguiu, o reconhecimento de terreno revelou que os italianos estavam se aprontando para partir de Benghazi rumo a El Agheila, pela estrada litorânea, e apesar de seus recursos exauridos, O’Connor audaciosamente resolveu tentar separá-los avançando para o interior e interceptando-os quando contornassem o promontório. Os Ratos do Deserto investiram através do deserto. Tomaram posição em Beda Fomm, e em 6 de fevereiro os italianos em retirada foram desbaratados, 20.000 deles caindo prisioneiros.

Com as forças italianas em confusão, as perspectivas de finalmente expulsá-los da África do Norte por meio de um avanço sobre Trípoli eram excelentes, mas Churchill, ainda convencido de que os conflitos nos Bálcãs era de maior importância, ordenou que seus homens fizessem alto. O fato seguinte, funesto para os ingleses, foi a chegada do General Erwin Rommel, mais tarde conhecido como “Raposa do Deserto”, para apoiar as forças italianas na Líbia. Chegou a 12 de fevereiro e sua presença se revelou tão decisiva que, pela metade de abril, a força britânica toda, com exceção da guarnição retida em Tobruk, fora empurrada para trás, de volta à fronteira egípcia. Vendo que o avanço inglês fora detido, Rommel decidiu, ainda que dispondo de forças bastante inadequadas, tomar a ofensiva. Rapidamente retomou a garganta de El Agheila e tocou para Benghazi, que também retomou. Em 14 de abril assediou Tobruk, que foi corajosamente defendida pela 9a Divisão australiana, comandada pelo General Leslie Morshead; não conseguiu atravessar as defesas e, na terceira semana de maio, o cerco foi levantado.

Então planejou avançar sobre o Egito, mas seus pedidos de reforços foram negados porque Hitler estava dando prioridade à invasão da Rússia. O resultado foi que a Alemanha perdeu uma oportunidade perfeita de conseguir uma vitória decisiva e expulsar a Inglaterra da África do Norte.

Havia pouco tempo, porém, para uma mudança de opinião, pois Wavell acabava de receber o auxílio por que esperava tanto tempo. Com suas ambições balcânicas frustradas, Churchill enviou um comboio à África do Norte através do perigoso Mediterrâneo, conduzindo um grande carregamento de novos tanques.

Quando chegaram, organizou-se um contra-ataque britânico. A 13 de maio Wavell desencadeou a Operação Brevidade, destinada a reunir-se à guarnição sitiada de Tobruk e socorrê-la. Não teve êxito, e no final do mês os ingleses estavam de volta ao Egito mais uma vez. Depois, na metade de junho, ocorreu a Operação Arpão, uma tentativa de peso para recuperar a iniciativa, mas no decorrer da campanha os ingleses perderam 91 tanques contra doze alemães, e também esta operação fracassou.

Churchill agora estava totalmente resolvido a vencer a campanha do deserto, e despejou homens e equipamentos na região. Wavell foi substituído pelo General Sir Claude Auchinleck, e prepararam-se planos para a ofensiva seguinte, a Operação Cruzada, que foi desencadeada na metade de novembro.

Compreendia um movimento duplo: uma força deveria se ocupar das tropas de fronteira de Rommel; a outra, contornar-lhe o flanco, destruir os blindados, e avançar sobre Tobruk. Em suas tentativas de abater os blindados altamente móveis de Rommel, a força de contornamento se dispersou, mas conseguiu atingir Sidi Rezegh, 20 km a sudoeste do perímetro de defesa de Tobruk. Aqui ocorreu uma importante batalha de tanques, que resultou na vitória de Rommel, embora com o sacrifício de setenta preciosos tanques. Enquanto os ingleses se recuperavam do impacto, Rommel atacou repentinamente pela retaguarda, visando a cortar as comunicações dos adversários. Moveu-se velozmente em direção à fronteira egípcia, mas o ataque perdeu grande parte da sua potência devido à dificuldade de comunicações e à deficiência de combustível, e Rommel acabou fazendo meia volta. Os ingleses em seguida manobraram para investir rumo a Tobruk, e Rommel recuou para a garganta de El Agheila, chegando lá em janeiro de 1942.

Uma vez em El Agheila, recebeu novos tanques e equipamento, e a 21 de janeiro moveu-se para leste novamente, tomando Benghazi e logo alcançando os limites de Gazala, 80 km a oeste de Tobruk. Depois de uma luta feroz, a fortaleza britânica em Gazala caiu, e Rommel rumou para Tobruk, que tomou em junho, junto com 35.000 prisioneiros e grande quantidade de valiosas provisões. Para os ingleses isso representou um desastre que perdeu apenas para a capitulação de Cingapura, ainda mais que logo se viram em plena retirada para o Egito, com Rommel em furiosa perseguição. Nessa precipitada corrida para leste, Rommel cruzou a fronteira egípcia e empurrou os ingleses até uma distância de apenas 100 km de Alexandria.

Aqui, em El Alamein, os ingleses contra-atacaram. As tropas de Rommel estavam cansadas, suas provisões, terminando, e seus tanques, reduzidos em número, mas o ataque britânico não foi de porte suficiente para transformar o avanço alemão em retirada. Entretanto, a vantagem acabou ficando com os ingleses, pois embora suas perdas quase se igualassem às de Rommel, podiam arcar com elas, enquanto ele não - e o avanço foi realmente detido.

No começo de agosto de 1942, o General Bernard Montgomery voou para substituir Auchinleck. Resolveu não empreender qualquer ação ofensiva até ter tempo de organizar uma força para uma vitória decisiva, mas a 30 de agosto Rommel, agora contando com reforços, atacou a posição britânica na cordilheira de Alan Halfa. Foi incapaz de fazer o avanço que planejara e finalmente foi forçado a recuar, devido à deficiência de combustível. Montgomery resolver não dar seguimento a uma tentativa de golpe de misericórdia, preferindo continuar seus preparativos para uma ofensiva posterior, mas a Batalha de Alan Halfa, que fôra bem conduzida e de bom desempenho, representou para os ingleses um grande reforço de autoridade, enquanto finalmente tirava a iniciativa a Rommel à força.

Em 23 de outubro, Montgomery estava pronto, e a Segunda Batalha de El Alamein começou. Rommel estava doente e suas forças eram numericamente bem inferiores, tanto em terra quanto no ar. A batalha abriu com um maciço fogo de barragem combinado com bombardeio às posições do Eixo, mas a primeira investida britânica, a Operação Carga, foi bloqueada, e Montgomery pôs em ação a Operação Supercarga, um ataque de front limitado desferido contra a fraca divisão italiana de Trento, no centro, que pegou Rommel de surpresa. A 4 de novembro as defesas do Eixo foram rompidas e Rommel começou a recuar. Embora Montgomery tenha saído em seu encalço, as tropas de Rommel escaparam e logo estavam de volta à garganta de El Agheila.

A campanha da África do Norte entrava agora em nova fase, a final. A vitória inglesa em El Alamein fôra decisiva, e Rommel viu que dali em diante não poderia fazer outra coisa senão tentar conter o avanço britânico por tanto tempo quanto possível. Juntando-se a essa pressão do leste, ele agora tinha que fazer frente a uma ameaça do oeste, pois tropas britânicas e americanas haviam desembarcado no Marrocos e na Argélia a 8 de novembro, no primeiro estágio da Operação Tocha.

Durante toda a campanha russa, Stalin fizera pressão para que Churchill e Roosevelt abrissem um segundo front e assim desviassem pelo menos uma parte da atenção e do esforço alemães do front russo.

Depois de algumas discussão, duas possibilidades vieram à tona: uma invasão na Normandia, que era o que Roosevelt preferia fazer; e desembarques na África do Norte, pelo que Churchill optava. Escolheu-se a primeira possibilidade, mas quando Rommel irrompeu no Egito no meio de 1942, Churchill conseguiu convencer Roosevelt das sérias implicações da ameaça de Rommel ao Canal de Suez, e elaboraram-se então planos para desembarques na África do Norte, sob o codinome de Operação Tocha.

O desembarque ocorreu em Casablanca, Orã e Argel. A resistência das forças francesas de Vichy foi superada ou evitada, mas isso retardou o começo das operações na Tunísia por tempo suficiente para que as tropas do Eixo na região fizessem movimentos ofensivos bem sucedidos e estabelecessem excelentes posições defensivas contra os assaltos aliados do leste e oeste. Os Aliados não queriam prosseguir antes de se reforçarem completamente, mas quando chegou dezembro eles viram que as forças do Eixo tinham sido consideravelmente aumentadas, e isso, junto com o começo do mau tempo, atrasou o avanço na Tunísia até fevereiro de 1943.

Rommel, cujos homens estavam guardando os acessos a leste, percebeu que, se os alemães não tomassem a ação ofensiva, as tropas aliadas logo os encurralariam, sem esperanças, pelos dois lados, e imediatamente pleiteou uma ofensiva a oeste, onde os Aliados eram mais fracos. Mas o comandante alemão a oeste, General von Arnim, fez um ataque muito tímido, que não conseguiu deter o avanço inimigo, e Rommel foi forçado a correr em seu auxílio. Estava começando a fazer algum progresso contra o adversário (tomando o passo de Kasserine), quando teve que correr para leste a fim de desviar uma ameaça de apoio por parte das tropas de Montgomery. Chegou tarde demais, porém, e gradualmente os exércitos do Eixo foram empurrados de ambos os lados para o norte da Tunísia. Hitler recusou-se a sancionar uma evacuação ao estilo de Dunquerque, e a 12 de maio de 1943 todas as tropas do Eixo capitularam. A guerra na África do Norte tinha chegado ao fim. Mussolini fracassara totalmente na obtenção dos territórios que tanto cobiçara no começo; Churchill, enviando reforços em 1941, para impulsionar a Operação Cruzada, fizera isso às custas da força britânica no Extremo Oriente, contribuindo indiretamente, talvez, para o desastroso colapso da resistência britânica em Cingapura; e Hitler, enviando vastos reforços a seus exércitos combatendo na Tunísia, e deixando de evacuá-los antes que fosse tarde demais, fez com que a Sicília e a península italiana ficassem desprovidas de tropas para repelir os desembarque aliados, oferecendo condições para o primeiro estágio da conquista da Europa pelos Aliados.

A Batalha do Atlântico

O objetivo estratégico de Hitler na batalha do Atlântico era interromper, na maior escala possível, os fornecimentos de provisões e material bélico da Inglaterra e seus aliados. Foi sua unidade de submarinos, habilmente comandada pelo Almirante Doenitz, que atingiu o maior grau de êxito, mas, felizmente para os ingleses, Hitler e Raeder, o chefe da sua Marinha, persistiram longo tempo na crença de que os grandes navios de superfície eram de importância superior, resultando disso que, até que fosse tarde demais, a força submarina nunca foi suficientemente desenvolvida para conseguir uma vitória completa, embora em março de 1943 a posição aliada fosse extremamente precária.

A luta perdurou por toda a guerra, atingindo o auge entre a metade de 1942 e a metade de 1943. Começou a 3 de setembro de 1939, quando o navio de longo curso Athenia foi afundado por um submarino alemão. No final do mesmo ano, 114 embarcações britânicas e neutras totalizando 420.000 toneladas, tinham sido postas a pique, entre elas o porta-aviões Courageous e o navio de guerra Royal Oak, este último afundado em Scapa Flow pelo submarino alemão U-47, num audacioso ataque noturno.

Nesse meio tempo, os navios alemães de superfície não corresponderam às expectativas: em dezembro, o esplêndido navio de guerra Graf Spee era condenado à morte na desembocadura do rio da Prata e afundado; o Deutschland (depois Lützow) causou pequena impressão em suas incursões pelo Atlântico Norte; e os dois cruzadores de batalha Scharnhorst e Gneisenau fizeram apenas uma breve incursão de reconhecimento.

Iniciando a guerra com uma força submarina de apenas 56 barcos, a Kriegsmarine alemã viu esse número crescer resolutamente, enquanto os comboios aliados permaneciam desesperadamente privados de escolta. A situação foi um pouco abrandada pela entrada em ação, na primavera de 1940, das primeiras corvetas, mas o risco para a navegação aliada redobrou com a queda da França em junho de 1940. Quando isso aconteceu, o Canal da Mancha deixou, naturalmente, de ser seguro, e as rotas de navegação no Atlântico logo foram igualmente ameaçadas por novas bases de submarinos, estabelecidas pelos alemães em Brest, Lorient e outros portos da costa atlântica francesa. Submarinos transoceânicos passavam a poder operar em mais profundidade, no Atlântico, do que as escoltas de destróieres para os comboios de longo curso, e Doenitz não demorou a se aproveitar desse ponto fraco no sistema de comboio.

A única rota que permanecia aberta para os comboios com destino à Inglaterra, ou regressando de lá, passava pelos acessos norte-ocidentais - contornando o norte da Irlanda - , mas nem essa rota escapou aos ataques dos bombardeiros de longo alcance Focke-Wulf Kondor, com bases na Noruega e na França. Em setembro de 1940, Churchill, sem esperanças de reforçar as escoltas de comboios, fez um acordo de concessão de crédito com Roosevelt, segundo o qual a Inglaterra passava a usar 50 destróieres da Primeira Guerra Mundial, com quatro canhões, da reserva naval americana, que foram enviados para bases no lado oposto do Atlântico; mas ainda havia muito pouca escolta, e em outubro de 1940 submarinos alemães afundaram um total de 350.000 toneladas de embarcações, a cifra mais alta até então.

O mau tempo trouxe ao combate um período de calmaria, durante o inverno de 1940-41, mas na primavera Doenitz renovou a ofensiva com uma nova tática devastadora. Começou a desdobrar grupos de submarinos no que foi designado como “matilhas de lobos”. Os membros da matilha se espalhavam e patrulhavam uma vasta área até que um deles localizasse um comboio. Esse submarino então chamava os outros pelo rádio e, depois de todos se reunirem, a matilha fazia um ataque de superfície, à noite. Sua velocidade em superfície superava a da maioria das escoltas de comboio, mas o mais importante era que o aparato de escoltas de Asdic era incapaz de detectar a presença deles. As matilhas de lobos atacaram noite após noite, retirando-se durante o dia e causando efeitos devastadores, mas felizmente Doenitz não os tinha em quantidade suficiente. De qualquer modo, em março de 1941, vários submarinos, atacantes de superfície (o navio de guerra ligeiro Admiral Scheer e os cruzadores pesados Scharnhorst e Gneisenau) e muitos aviões reivindicavam entre si o afundamento de mais de 500.000 toneladas de navios aliados.

Em maio do mesmo ano ocorreu um dos grandes últimos confrontos de navio a navio. O magnífico navio de guerra alemão Bismarck, em companhia do novo cruzador Prinz Eugen, navegava pelo Atlântico à procura de vítimas. Localizados, o cruzador de batalha britânico Hood e o navio de guerra Prince of Wales partiram em seu encalço para interceptá-los. A 24 de maio entraram em combate, e o potente Hood, de 42.000 toneladas, com oito canhões de 381 mm, foi explodido pela primeira salva do Bismarck, enquanto o Prince of Wales era danificado o suficiente para ser forçado a parar. O Bismarck fôra atingido duas vezes pelo Prince of Wales e tinha um vazamento de combustível; assim, fez meia volta, visando a rumar para um pôrto atlântico francês, e, após repetidos ataques de bombardeiros britânicos decolados de porta-aviões (dos quais apenas um acertou o alvo, e com um tiro bem fraco), escapou aos atacantes. Alguns dias depois foi novamente localizado e mais uma vez atacado por torpedeiros. Desta vez foi atingido por dois tiros, um dos quais emperrou seus lemes. Deixado sem controle mas aparentemente impossível de ser afundado, foi alvejado primeiro por obuses dos navio de guerra Rodney e King George V, e depois torpedeado pelo Dorsetshire, até que deslizou por sob as ondas. O Prinz Eugen, que o acompanhava inicialmente, conseguiu seguir a salvo para Brest, mas a destruição do Bismarck representou o fim dos esforços alemães para vencer a Batalha do Atlântico com navios de superfície.

Logo, em março de 1941, a Lend-Lease Bill foi assinada. Segundo seus termos, a Inglaterra podia solicitar armas e provisões sem pagamento imediato. Isso, junto com a ampliação unilateral que os Estados Unidos fizeram da chamada “Zona de Segurança” ao largo da sua costa ocidental (dentro da qual os submarinos tinham que respeitar a neutralidade da navegação americana) e sua decisão de fornecer apoio atlântico à navegação aliada, indicou aos alemães que os americanos estavam se tornando bem menos do que neutros. Essas medidas, porém, melhoraram consideravelmente as chances dos comboios aliados no Atlântico, e quando a Marinha Real Canadense começou a oferecer escoltas até o sul da Islândia, finalmente um sistema de escolta transatlântica contínua entrou em operação.

Pelo final de 1941, as perspectivas pareciam mais animadoras, embora ainda houvesse deficiência de aviões de longo alcance para missões de proteção a comboios, e os submarinos, agora sendo produzidos com cascos soldados a pressão em lugar dos antigos blindados e rebitados, estavam se tornando mais difíceis de afundar. No entanto, os acontecimentos deveriam dar uma guinada, e para pior. Depois que a América entrou na guerra, em resposta ao bombardeio de Pearl Harbor em dezembro de 1941, a Zona de Segurança deixou de existir. Doenitz não demorou a perceber que agora poderia fazer inúmeras vítimas ao largo da costa ocidental americana, e as cifras de 500.000 toneladas postas a pique em fevereiro de 1942 e 700.000 em junho testemunham o sucesso dessa nova ofensiva. Em agosto de 1942, mais de trezentos submarinos estavam em serviço, e em novembro, apesar da introdução de aparelhos de radar de 10 centímetros e de equipamento HFDF (que podia localizar um submarino por transmissões de rádio), os Aliados sofreram a perda de 729.000 toneladas.

No começo de 1943, porém, os Aliados tinham finalmente desenvolvido o que se revelou ser um sistema de contra-ataque verdadeiramente eficaz e, o que talvez tenha sido mais importante, aviões Liberator de longuíssimo curso se tornaram disponíveis, afinal, para missões de escolta de longo alcance. Embora em março se tenham perdido 627.000 toneladas de embarcações, as cifras de abril e maio mostraram um progressivo e impressionante declínio. Em maio, Doenitz calculou que para cada três submarinos que tinha no mar, perdia um, e a 23 de maio, vendo que não resistiria a tais perdas por muito tempo, ordenou a seus submarinos que se retirassem do Atlântico Norte.

Embora a campanha continuasse até o fim da guerra, em junho de 1943 a construção de novos navios mercantes tinha finalmente superado as perdas, e a batalha estava ganha.

Luta na Itália - (1943 - 1945)

Vários fatores contribuíram para a decisão aliada de invadir a Sicília e a península italiana. Quiseram garantir suas comunicações no Mediterrâneo; formar um segundo front, conforme Stalin solicitava, que desviasse as forças alemães do front russo; e fazer pressão sobre os italianos e alemães, de modo que os preparativos para os planejados desembarques na Normandia pudessem ser completados.

Fonte: www.vestibular1.com.br

Segunda Guerra Mundial

As causas a Segunda Guerra Mundial: os indivíduos e as classes sociais

A primazia das relações e dos conflitos entre as forças sociais na determinação do curso da história é um dos pressupostos fundamentais do materialismo histórico. Nas sociedades divididas em classes, tais relações são, necessariamente, relações de classe. Deste modo, a história é explicada, em última análise, como a história das lutas entre as diversas classes sociais e suas frações essenciais, extensamente sobredeterminada pela lógica interna de cada modo de produção específico.

Esta concepção da história não está baseada na negação da individualidade humana nem no menosprezo pela autonomia individual, estrutura de caráter ou valores. A visão de que a história é configurada basicamente pelas forças sociais resulta, precisamente, do completo entendimento do fato de que um número infinito de pressões individuais tende a criar movimentos aleatórios, que se auto-anulariam amplamente, se fossem exclusivamente individuais.

Para que a história possua um padrão inteligível e não seja uma mera sucessão de fatos desconexos, aspectos comuns têm de ser descobertos no comportamento dos indivíduos. Deste modo, milhões de conflitos individuais, escolhas e direções possíveis parecem ter uma lógica determinada, que permite serem vistos como um paralelogramo real de forças, sujeitas a um número finito de resoluções e conseqüências possíveis. É isto o que acontece na história real.

Aqueles que negam a primazia das forças sociais na configuração do destino humano, de modo paradoxal, também atenuam o papel da maioria dos indivíduos na sociedade. Só em circunstâncias nas quais a vasta maioria tenha sido excluída do fazer história, poucos "grandes homens" podem ser dotados do poder de configurar eventos. Quando o materialismo histórico afirma a primazia das forças sociais sobre as ações individuais, na determinação do curso da história, não nega que certos indivíduos podem desempenhar papéis excepcionais. Se homens e mulheres fazem a história, é sempre com uma certa consciência que pode, é obvio,

ser uma falsa consciência, à medida que interpreta erroneamente seus interesses reais ou não prevê as conseqüências objetivas de suas ações. Segue-se nesse contexto que certos indivíduos, na liderança de movimentos sociais, podem ter influência incomum na história, não como super-homens, mas exatamente como conseqüência de suas relações sociais.

Personalidades excepcionais não podem mudar a tendência secular dos fatos. O déspota mais poderoso do mundo não pode escapar às implacáveis demandas da acumulação do capital, que resulta da estrutura da propriedade privada e da competição no mundo capitalista. Por exemplo, qualquer tentativa de repor a lógica da produção escravista (como Hitler tentou fazer) só poderá resultar em dificuldades enquanto persistir a tecnologia atual e a propriedade privada. Do mesmo modo, nem o talento individual nem a sede de poder podem alterar os limites da correlação material (sócio-econômica) de forças. Dessa maneira, dadas as respectivas forças produtivas da Europa capitalista e dos Estados Unidos em 1941, a Alemanha nazista, mesmo após ter subjugado toda a Europa, não teria nenhuma chance de vencer uma guerra contra o vasto poder econômico da América do Norte, a não ser que incorporasse com êxito todos os recursos naturais e industriais da União Soviética, um processo que levaria anos.

Nos limites globais, materiais e sociais, certas personalidades podem influenciar a história, seja por possuírem uma percepção mais clara do que os outros das necessidades históricas de sua classe, seja por retardarem o reconhecimento dessas necessidades objetivas. Através de sua influência, elas podem impor decisões que, a curto prazo, favoreçam ou contrariem os interesses das forças sociais que supostamente representam. Isto ocorre independentemente de sua vontade ou de suas intenções declaradas.

Hitler e as causas da Guerra

A distinção, entre os grandes movimentos seculares da história e as variações de prazo mais curto no desenvolvimento histórico, é apenas uma aproximação elementar da relação entre forças sociais e indivíduos na configuração do curso dos acontecimentos. Uma categoria adicional, essencial, inclui as necessidades conjunturais dos grupos sociais.

Hitler não pretendia reduzir o poder da classe dominante alemã à metade do Reich, tal como ocorreu a partir de 31 de agosto de 1939, mas essa perda de poder e de território foi precisamente a conseqüência da sucessão de eventos desencadeados pela invasão da Polônia no dia seguinte. Esses fatos, além disso, incluíram uma série de ações que não representavam a única escolha possível para o bloco social-nazista, para o qual Hitler, enquanto indivíduo, possuía uma responsabilidade imediata. A invasão da Polônia, é verdade indubitável, foi uma decisão, fundamentalmente, de Hitler.

Ela expressou, de maneira surpreendente, as facetas contraditórias de sua personalidade: temeridade, monomania, oportunismo hábil, bem como uma alternância ciclotímica entre indecisão paralisante e hipervoluntarismo. Mas também é verdade que, já no ano de 1932, os círculos principais da classe capitalista alemã tinham decidido — em consideração aos seus interesses conjunturais — que a única saída para a crise econômica da Alemanha era estabelecer a hegemonia sobre a Europa ocidental e central.

Disparada a ação dessa estratégia e iniciado o rearmamento maciço, a guerra tornou-se virtualmente inevitável devido a dois fatores:

1) o rearmamento reativo dos principais rivais capitalistas da Alemanha — mais imediatamente, a Inglaterra, mas também os Estados Unidos —, que procuraram bloquear a suserania alemã sobre a Europa e sua conversão numa potência mundial. Por isso, a tentação, cada vez maior, para toda a liderança nazista, de desencadear a guerra antes que as enormes forças produtivas do capitalismo americano tivessem sido mobilizadas e enquanto a Alemanha ainda desfrutava de certas vantagens em blindados e aeronaves modernas;

2) o ônus do rearmamento maciço conduziu a uma crise financeira mais profunda no capitalismo alemão. As reservas em moeda tinham quase desaparecido e o pagamento de juros sobre a dívida nacional tinha-se tornado um peso insuportável. Era impossível continuar com a taxa de militarização sem a integração de recursos materiais adicionais aos estoques quase exauridos, que vinham de fora da Alemanha. Daí a necessidade de pilhar as economias adjacentes e procurar escalas continentais de organização industrial, comparáveis àquelas dos Estados Unidos ou da União Soviética.

Portanto, se a decisão final de ocasionar a Wehrmacht em 1o de setembro de 1939 foi sem dúvida de Hitler, o impulso em direção à guerra nasceu das avaliações, a curto prazo, da maioria da classe dominante alemã. Essas avaliações, em troca, foram condicionadas pelas contradições internas do imperialismo alemão, acentuadas pelas crises sucessivas de 1919/23 e 1929/32. O fato de que a classe dominante esteve mais ou menos unificada no projeto de modificar agressivamente a divisão mundial do poder econômico não foi certamente acidental. A Alemanha chegou, tardiamente, à arena das grandes potências para adquirir um império colonial fora da Europa que correspondesse a sua importância no mercado mundial. O seu "destino manifesto", portanto, foi interpretado como a busca da reposição de um império na Europa. A influência política desproporcional dos junkers — um resultado do fracasso das tentativas do século XIX de uma revolução democrático-burguesa na Alemanha — acentuou os aspectos ousados e arrogantes da política externa alemã e ampliou o suporte para a expansão militar.

Por isso, provavelmente não foi acidental o fato de a classe dominante alemã, apesar de seu orgulho cultural e suas tradições de sustentáculo da "lei e da ordem", colocar o seu futuro nas mãos de um aventureiro negligente. Naturalmente, sob circunstâncias normais, a burguesia escolhe suas lideranças políticas dentro de sua própria classe.

Em períodos de crise, entretanto, a burguesia tem tentado repetidamente resolver os balanços desfavoráveis do poder de classe recorrendo à liderança parlamentar dos líderes trabalhistas reformistas, desejando preservar as estruturas e os valores básicos do regime capitalista: uma linhagem colaboracionista que vai de Ebert a McDonald, a Léon Blum, Clement Attlee e Van Acker, Spaak, Wily Brandt e Helmut Schimidt, terminando provisoriamente com François Mitterrand.

Para uma classe burguesa poderosa, patrocinar uma autoridade tipo Hitler implica circunstâncias muito excepcionais: uma profunda crise sócio-econômica que produz tensões sociais generalizadas de caráter pré-revolucionário. Sob tais condições de crise excepcional, os estratos declassés de todas as classes sociais, mais especialmente da pequena burguesia, lançam um grande número de caráteres desesperados com o propósito de "resolver os problemas da nação" indiferentes ao custo, em termos humanos ou materiais, e, muito menos, em termos de valores tradicionais. Trotsky caracterizou de forma competente os aventureiros deste tipo como wildgewordene kleinbürger (pequeno burguês tornado selvagem).

Hitler, enquanto um tipo de caráter político, é, portanto, o produto de uma concatenação específica de circunstâncias: a ruína dos pequenos lojistas, o desemprego em massa da casta dos funcionários públicos, a destruição de pequenas organizações financeiras, os receios competitivos anti-semitas de médicos e advogados de poucos clientes, a superprodução de acadêmicos etc. A mentalidade de gângster já era claramente visível na formação dos Freikorps, em novembro de 1918. Na verdade, havia, literalmente, centenas de Hitlers e Himmlers em potencial circulando na Alemanha após 1918 — muitos deles com feições ideológicas e de caráter quase idênticas àquelas do futuro Führer.

Assim, a maneira pela qual o Terceiro Reich emergiu do colapso da República de Weimar e pavimentou a estrada para outra guerra mundial foi determinada apenas em certa medida pelos talentos e debilidades particulares de Hitler como político individual. Incomparavelmente mais significativa, foi a crise social mais ampla da qual o "tipo Hitler" foi apenas um epifenômeno. Mesmo a monomania de Hitler sobre os judeus pode agora ser vista como uma demência difundida entre os estratos reacionários da sociedade alemã.

A psicologia social e a análise marxista

A mentalidade de bandido tornou-se característica de certas camadas da sociedade alemã entre 1918 e 1919. Porque ela obteve o endosso das classes dominantes? Primeiro é necessário entender o papel das estruturas mentais coletivas, as quais medeiam os interesses. A psicologia social deve ser uma instância necessária na interpretação marxista do processo histórico e deve elucidar como mentalidades específicas apoderam-se de um dado grupo social, mesmo quando expressam uma falsa consciência que distorce ou interpreta incorretamente interesses objetivos.

Os conceitos de mentalités ou estruturas de sentimento, agora tão úteis na história social ou nos estudos culturais, têm uma genealogia independente no pensamento marxista clássico. Kautsky, desse modo, insistiu corretamente na importância da solidariedade e do auto-sacrifício como características componentes de uma clara mentalidade proletária. Sem essa estrutura mental que tem origem na experiência do trabalho na fábrica e na exploração em larga escala, as greves e outras ações coletivas do proletariado seriam quase impossíveis (ao contrário, as greves por parte da pequena burguesia são extremamente raras). Engels, no mesmo sentido, insistiu sobre o fato de que os trabalhadores, vivendo nas grandes cidades e labutando nas novas fábricas dos anos 1880 e 1890, formam a primeira classe na moderna sociedade alemã que escapou à estreita perspectiva conformista. As atitudes admiravelmente não conformistas e anti-autoritárias da nova classe trabalhadora alemã para com o regime de Bismarck — especialmente a que foi revelada pela resistência maciça à lei Anti-Socialista (Sozialistemgesetz) — confirmaram a emergência de uma nova mentalité.

Não apenas classes mas também grupos étnicos podem manifestar estruturas mentais coletivas distintas. A maneira pela qual grupos especialmente oprimidos — judeus, negros, ciganos, palestinos, tribos de todo o mundo etc — apegam-se tenazmente às tradições lingüísticas, religiosas, étnicas e mesmo gastronômicas, comprova tanto uma práxis de resistência cultural como a manutenção de mentalités características, as quais fortalecem a identidade e o respeito próprio contra a extensa violência e indignidade. Mas esse tipo de estrutura mental geralmente persiste apenas enquanto o meio social básico é composto pela pequena burguesia pobre. Quando a ampla emergência do capitalismo irrompe nas antigas estruturas da opressão nacional ou étnica — mesmo se a discriminação mesquinha e o preconceito sobrevivem —, esse tradicionalismo defensivo pode ser repentinamente revertido em favor da assimilação quase fanática e mesmo da superidentificação com a cidadania recentemente adquirida ou do status nacional. O exemplo clássico dessa transformação ocorreu no século XIX no seio da burguesia judia assimilacionista da Europa ocidental, porém podem ser notadas tendências contemporâneas entre os elementos da jovem burguesia negra dos Estados Unidos ou entre os segmentos anglófilos da classe média indiana expatriada.

A Escola de Frankfurt, dirigida por Horkheimer, nos anos 30, tentou amplamente desenvolver uma psicologia social através da síntese de idéias de Marx e Freud.

O fracasso fundamental desta ambiciosa reconstrução tem origem menos na interrogação de Freud do que na sua apropriação mecânica do marxismo. O papel dos impulsos inconscientes no comportamento social do homem havia, afinal, sido enfatizado por Engels meio século antes, mesmo não estando ele em condições de investigar sua precisa natureza. Trotsky, por sua vez, havia sido simpático aos esforços da psicologia profunda em teorizar a origem e a dinâmica daqueles impulsos.

A real debilidade da Escola de Frankfurt foi sua incapacidade em compreender os elos de mediação cruciais na dialética da infra-estrutura e superestrutura, as quais, em última análise, determinam o desenvolvimento histórico. Paixões individuais e impulsos inconscientes, por mais que determinem a personalidade, não podem diretamente dar forma às transformações sociais envolvendo milhões de seres humanos. Podem apenas criar potenciais ou disposições para tais desenvolvimentos. Ao mesmo tempo, porém, é muito mais provável que tais paixões criem disposições para desenvolvimentos completamente diferentes, senão opostos. Que linha de desenvolvimento ou ação será efetivamente empreendida não pode ser prevista pela análise desses próprios impulsos inconscientes. Mais propriamente, os resultados históricos reais dependem das lutas sócio-políticas concretas, as quais envolvem não apenas processos inconscientes mas também conscientes, idéias, estratégias e restrições materiais tanto quanto, ou mais, do que ideologias espontâneas e disposições inconscientes.

No caso da famosa análise da Escola de Frankfurt sobre o sucesso do hitlerismo, o tema central é a suposta ambigüidade das estruturas autoritárias na sociedade alemã. Mas como pode esta análise sócio-psicológica (nós preferiríamos dizer sócio-individual) fornecer uma explicação para fatos como a habilidade da mesma classe trabalhadora alemã, que fracassou na greve contra Hitler em 1933, ter tido sucesso, pouco mais que uma década antes, em 1920, em desencadear a greve geral mais bem sucedida na história contra o golpe de Von Kapp-Von Luttwitz? Certamente sua formação não tinha sido menos autoritária, nem suas frustrações sexuais menos marcantes nas décadas que precederam 1920, do que nos anos anteriores a 1933!

Mais uma vez, paradoxalmente, essas tentativas de reduzir o peso decisivo das forças sociais na determinação da história realmente suavizam o papel das idéias e das personalidades muito mais do que faz o materialismo histórico clássico. Os marxistas entendem que, apesar dos aspectos instintivos ou infantilizados da psique humana, as pessoas podem compreender as exigências de sua situação histórica e agir de forma amplamente congruente com seus interesses objetivos. Somente quando esta dimensão da vontade racional é admitida no complexo paralelogramo de causação histórica, nós podemos entender como os indivíduos com talentos ou inclinações particulares podem sobressair-se por si próprios.

Plekhanov e o papel dos "grandes homens" na história

A teoria marxista dos clássicos acerca do papel do indivíduo na história foi esboçada por Plekhanov em seu famoso ensaio que leva o mesmo título. Embora freqüentemente associado a um marxismo reducionista, o texto de 1898 de Plekhanov é, de fato, uma análise notavelmente sutil e atualizada. Ele desenvolve a tese básica de que, embora a infra-estrutura das relações de produção imponha certos limites materiais sobre a luta de classes, o caminho através do qual são na verdade expressos tais limites se dá sempre na forma de uma refração através dos papéis particulares das organizações de massa e de suas lideranças. Sob tais condições e, especialmente, nos pontos históricos decisivos ou nos momentos de crise, as peculiaridades pessoais dos indivíduos podem influenciar o tipo de organização e de liderança de classe que estão disponíveis.

Plekhanov ainda acrescenta dois pontos. Primeiro, como Hegel insinuou, "a sorte das nações depende freqüentemente dos acidentes de segundo grau"; mas esses "acidentes" estão entrelaçados com correlações particulares de forças sociais e materiais as quais, em troca, limitam a esfera autônoma do fator individual. Em segundo lugar, as classes sociais, em momentos de crise, necessitam de talentos de natureza específica, um tipo particular de liderança. Geralmente, nesses momentos, alguns ou mais indivíduos que personificam esses talentos estão disponíveis como candidatos para se tornarem os novos líderes de seu partido, classe ou nação.

A história da Segunda Guerra Mundial fornece amplas ilustrações da perspicácia das teses de Plekhanov. No caso da queda da III República, as personalidades políticas que conduziram a França à capitulação em 1940 haviam sido todas elas amplamente eleitas em 1936; quer dizer, com exceção de alguns deputados comunistas que haviam sido privados de seus direitos civis pela sua oposição à "falsa Guerra", foi um parlamento supostamente de "ala esquerda" que decidiu, por esmagadora maioria, substituir a República pelo État français de Pétain. Como isso pode ser explicado? A ascensão de Pétain não foi de maneira alguma a conseqüência inevitável da vitória dos tanques alemães.

Depois da derrota do corpo principal das forças francesas em maio-junho de 1940, outras linhas de ação eram facilmente concebíveis, mas somente a usurpação da democracia francesa por Pétain correspondeu aos instintos majoritários da classe dominante francesa, que estava determinada a usar a derrota para reparar os reveses e as humilhações da vitória da Frente Popular e da revolta trabalhista de 1936. Pétain foi o mecanismo que permitiu a ela alcançar o que seu mais talentoso e reacionário ideólogo, Charles Maurras, chamou une divine surprise. Isso também permitiu uma sublimação ideológica da derrota, na atávica restauração cultural de Vichy, com seu slogan "Trabalho, Família, Pátria".

Sob circunstâncias normais, tal reversão radical do balanço de forças sociais e políticas entre trabalho e capital teria sido impossível na França. Para ocorrer a transição de uma democracia parlamentar decadente para uma ditadura militar bonapartista aberta, três condições políticas foram absolutamente essenciais.

Primeiro, o último gabinete parlamentar dirigido por Paul Reynaud teve de renunciar sem resistência. Em segundo lugar, o Presidente da República teve de recorrer a um defensor aberto do regime autoritário — neste caso, o Marechal Pétain — para formar um novo governo. Em terceiro lugar, a maioria do Parlamento, senadores e deputados juntos, tinha de estar disposta a enterrar a constituição da III República. Como realmente aconteceu, todas essas condições foram cumpridas sem hesitação quando surgiu uma necessidade social, e a tendência geral se tornou hegemônica dentro da classe dominante.

Até o fim de maio de 1940, Paul Reynaud havia sido considerado um político obstinado e violento, hábil em manipular gabinetes e deputados.

No entanto, ele se permitiu ser manobrado numa ambígua votação de gabinete em que pedia não um armistício, mas apenas condições para um armistício com a Alemanha, atitude que o colocou em minoria e o conduziu — contrariando completamente sua natureza — a renunciar.

Paralelamente, até então o presidente Lebrun era de modo geral visto como uma pessoa completamente sem importância, inábil, sem vontade própria, que tinha sido escolhido apenas por sua posição honorária e porque sua personalidade correspondia ao famoso dito de Clemenceau:

"se você quer um Presidente, escolha o mais estúpido".

Contudo, esta insignificância decidiu a crucial reviravolta dos eventos de 26 de junho de 1940. Tivesse ele chamado Reynaud de volta, em vez de convocar Pétain, a III República teria sobrevivido por mais tempo. Mas, com uma vontade e obstinação totalmente contrárias à sua natureza e possivelmente com a cumplicidade de Reynaud, ele impôs a ditadura de Pétain.

"Nós precisamos é de Pétain" foi o grito de guerra da extrema-direita desde 1936. No entanto, mesmo que o velho Marechal fosse bastante popular — especialmente entre as celebridades burguesas — sua atuação parlamentar foi limitada antes de maio de 1940, ainda que sua repentina candidatura como Primeiro-ministro fosse apoiada por uma maioria esmagadora de deputados e senadores (incluindo, como já observamos, muitos dos parlamentares de "esquerda" de 1936), orquestrados por aquele mestre de intrigas e chantagem, Pierre Laval. Na verdade, Laval estava disponível para essa operação desde, pelo menos, 1937 e vinha fazendo intrigas contra a República, freneticamente. Também é verdade que a completa desmoralização de muitos parlamentares em junho de 1940, como resultado da derrota atordoante e inesperada das tropas aliadas, tornou mais fácil o êxito de tal manobra.

Entretanto, é difícil negar que essa reversão radical das normas e hábitos comportamentais de centenas de políticos — seis ou sete dos quais desempenharam papéis decisivos na tragicomédia — pôde somente ocorrer porque estava de acordo com as necessidades coletivas e desejos conscientes da maioria da burguesia francesa. Para aquela classe, era imperativo não apenas trocar de lado no meio da Guerra, mas derrotar as conquistas reformistas do movimento trabalhista francês.

Uma conjuntura simétrica, mas oposta, surgiu quando a classe dominante francesa defrontou-se com a iminência de um desembarque dos Aliados. Aí, o problema para a maioria dos capitalistas franceses, profundamente desacreditados aos olhos das massas por sua colaboração com os nazistas, era salvar tanto o capitalismo francês como um Estado burguês independente (e o Império) diante de um balanço de forças muito desfavorável vis-à-vis tanto à classe trabalhadora francesa (armada, como resultado do avanço da Resistência) como às autoridades anglo-saxônicas. Uma mudança radical do pessoal político e das alianças estava novamente na ordem do dia.

Novos "homens predestinados", Charles De Gaulle e seus colaboradores mais próximos, estavam providencialmente disponíveis para empreender esta operação de salvamento, aparentemente miraculosa. Que ela tenha tido êxito foi uma surpresa para muitos contemporâneos acostumados aos líderes franceses pusilânimes.

O arrogante e inepto Marechal-de-campo Keitel, quando chegou para assinar a rendição incondicional da Wehrmacht em 1945, não teve outro comentário a fazer ao Comando Aliado reunido do que a exclamação:

"Mas como, antes dos franceses também?"

Certamente De Gaulle era uma personalidade excepcional, com uma mente brilhante e uma vontade de ferro superior à maioria de sua classe, não apenas na França, mas no resto da Europa. No entanto, enquanto suas virtudes não corresponderam às necessidades autodefinidas da burguesia francesa, ele permaneceu marginalizado, considerado meio louco e um aventureiro perigoso. Alguns o consideraram pró-fascista, outros mais tarde o condenaram como um simpatizante comunista. Mesmo um político e juiz de renome, normalmente astuto, como Franklin D. Roosevelt — o consumado corretor de ações na história americana moderna — ridicularizava com freqüência De Gaulle e suas pretensões de vanglória.

Em junho de 1944, os Aliados ainda estavam prontos para impor uma ocupação militar à França, que a teria conduzido provavelmente a uma guerra civil ao estilo grego ou pior. De Gaulle, tendo a sua disposição forças desprezíveis, julgou corretamente as necessidades do capitalismo francês (e, naturalmente, internacional) e obteve êxito ao estabelecer, através de um diplomático coup de main, um regime parlamentar renascido, incorporando a Resistência Comunista.

O caso de Churchill fornece outro tipo de corroboração para a visão de Plekhanov da relação entre personalidades decisivas e as exigências do domínio de classe. A historiografia tradicional, se admiradora ou crítica dos prévios papéis históricos de Churchill, tem sido quase unânime em elogiar sua mudança para Downing Street, 10, como chefe de um governo de coalizão incluindo o Partido Trabalhista, como principal ponto decisivo na Guerra.

Churchill indubitavelmente incorporou a decisão inabalável da classe dominante britânica e da larga maioria do povo inglês em não capitular à Alemanha sob quaisquer circunstâncias. Mas, ao romantizar seus atributos pessoais, em vez de partir de uma análise das atividades das forças sociais mais amplas, a maioria dos historiadores burgueses fracassou no teste do exemplo comparativo. A questão central não é quais acidentes de biografia fizeram de Churchill um indivíduo mais decisivo do que Chamberlain (ou, de forma similar, distinguiram De Gaulle de Pétain), mas por que Churchill foi capaz de reunir a maioria de sua classe e o povo em torno de si enquanto De Gaulle permaneceu uma figura isolada na França, em junho de 1940.

Com certeza, o fato de que as Forças Armadas francesas tivessem acabado de sofrer uma derrota humilhante, enquanto os britânicos foram capazes de evacuar a maior parte de seu exército derrotado para sua fortaleza insular, fez diferença. Mas, novamente, os mais informados observadores — incluindo o Embaixador americano Joseph Kennedy — consideraram a posição britânica como basicamente desesperançada. Entretanto, a França, mesmo que por um lado destruída nas Ardenas, ainda possuía uma frota não derrotada (a segunda maior da Europa), uma ampla esquadra na África do Norte — mais forte do que a que os ingleses tinham à sua disposição —, uma significativa reserva aérea e um Império Colonial intacto.

De fato, a diferença real entre a situação britânica e a francesa era menos suas condições militares do que as predisposições de suas classes dominantes. A burguesia francesa tinha-se tornado derrotista de modo crescente, por sólidas razões materiais. Ela havia-se mostrado econômica e militarmente incompetente para garantir o sistema de Versalhes na presença do rearmamento e da expansão agressiva da Alemanha. Prosseguindo sob este aspecto, ela estava obcecada principalmente em conter sua própria classe trabalhadora, a qual se tinha tornado uma prioridade política mais elevada que a tentativa de derrotar a competição alemã.

Por outro lado, a burguesia inglesa não estava nem desmoralizada, nem derrotada. Ela já havia reprimido seu próprio movimento trabalhista, economicamente em 1926, e politicamente em 1931/35. Ao mesmo tempo, sua posição mundial (mesmo se rapidamente sendo ultrapassada pelos Estados Unidos) era ainda mais forte do que a da Alemanha, embora a hegemonia de Hitler sobre a Europa tenha comprometido claramente o Império Britânico. Além disso, a elite britânica estava convencida de que a ajuda eventual dos Estados Unidos, junto com a matéria-prima e a mão-de-obra do Império, fazia da guerra contínua contra a Alemanha uma estratégia realista.

O momento era dramático e cheio de perigos, mas o futuro pareceu amplamente garantido, desde que a Inglaterra pudesse vencer a crise imediata. "Se nós resistirmos por três meses, enfrentaremos a vitória em três anos", profetizou Churchill corretamente num discurso secreto na Câmara dos Comuns. E Churchill foi a escolha quase ideal para fortalecer a decisão inglesa até que os americanos entraram na Guerra. Aí está por que, após ter sido considerado durante anos uma figura independente e ultrapassada, uma voz clamando no deserto, ele pôde ser repentinamente ressuscitado como o deus ex-machina de sua classe. Através de uma abrupta virada de eventos e de necessidades sociais, o deserto havia sido preenchido com milhões de pessoas.

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