Para se entender esses vários exemplos de seleção de liderança em crise Pétain, De Gaulle, Churchill , é necessário ampliar o conceito de Plekhanov de "disponibilidade socialmente determinada", com uma análise mais precisa dos vários mecanismos de escolha e promoção de pessoal político dentro de diferentes classes sociais. Embora esses mecanismos de seleção sejam nacionalmente específicos, certos aspectos comuns podem ser notados entre a burguesia moderna.
O ponto inicial, naturalmente, é a divisão funcional do trabalho dentro da classe capitalista. Comparada com a vida da classes desocupada a aristocracia , o negócio do lucro é uma profissão extraordinariamente absorvente. Por esta razão, em geral, apenas aquela parte da burguesia que não atua diretamente como empresária será capaz, ou desejará, optar por carreiras políticas.
Em condições extraordinárias ou de extrema riqueza, pode ocorrer uma união pessoal entre os altos capitalistas financeiros e o topo do aparelho de Estado. Mas isto é uma exceção à regra. Mais tipicamente, empresários e políticos profissionais surgem lado a lado como fluxos separados de carreira dentro do estrato burguês.
O que atrai uma classe média ou um indivíduo abastado a seguir uma carreira política em vez de profissões liberais ou de negócios? A ambição pessoal, a convicção ideológica, o fracasso em outros campos, a tradição de família, ou fatos exteriores podem todos desempenhar papéis na orientação da escolha pessoal, porém, mais freqüentemente do que se supõe, as pressões e circunstâncias sociais pesam decisivamente sobre as disposições individuais.
Habitualmente, os indivíduos são recrutados por grupos iguais ou nomeados pelos superiores para iniciar carreiras políticas ou para ser responsáveis por cargos públicos. Do mesmo modo, o que freqüentemente aparece como força da convicção ideológica é ainda mais o peso da circunstância social e da pressão dos pares. Além disso, através dessas redes de seleção social (como o famoso "gabinete não-oficial" de patrocinadores ricos de Ronald Reagan), as fileiras políticas são selecionadas para que apenas poucos milhares de candidatos seletos sejam enfeitados e promovidos para os níveis de autoridade e poder nacionais. Afora isso, dessa elite, entre um terço e a metade encontrará algum sucesso nos cargos públicos, e de suas fileiras reduzidas alguns continuarão a sobreviver aos testes finais de seleção política, como ministros, primeiros-ministros, presidentes ou ditadores. Mesmo os ditadores militares devem passar pelo crivo do processo de seleção de sua própria classe, embora pela via do círculo dos militares ligados ao ambiente burguês ou aristocrático.
Nos níveis mais elevados do poder político, o processo de seleção envolve testes de vida e morte de força de vontade, de precaução e astúcia. As classes dominantes raramente permitirão que pessoas ascendam a posições do poder central sem que elas tenham dado garantia prévia de que defenderão, de forma responsável, as estruturas existentes de propriedade e de acumulação. A função da hierarquia de poder é precisamente sua habilidade de eliminar candidatos erráticos ou indignos de confiança. Por essa razão, muitos luminares locais ou demagogos (pense em Enoch Powell na Inglaterra) jamais chegarão ao topo da estrutura de poder racional.
Mas o processo de seleção não é de forma alguma puramente negativo. Qualidades positivas têm de ser selecionadas e testadas antes que a classe, ou os seus principais representantes, aceite uma pessoa como candidato à liderança nacional. A habilidade para entender e articular as necessidades coletivas de classe é vital, assim como a correspondente capacidade para julgar as relações de força e para formular táticas de acordo com algum plano estratégico. Naturalmente, as qualidades necessárias em tempos de prosperidade e em tempos de crise, na paz e na guerra, são diferentes. Combinações particulares de habilidades, as quais qualificam candidatos para a liderança em uma conjuntura, podem na verdade desqualificá-los para o comando em uma outra situação transformada. Sob essas circunstâncias, a forma real na qual o processo de seleção ocorreu torna quase inevitável que, em cada país dado, haja sempre no mínimo quatro ou cinco líderes centrais disponíveis para implantar soluções completamente diferentes. Geralmente a burguesia escolherá aquele que melhor preencha o que ela considera ser as necessidades prioritárias do momento.
A burguesia, normalmente, pode cometer erros na escolha dos "homens predestinados". Nenhuma lei automática assegura que uma classe social escolha a liderança que ela precisa. Além disso, há sempre certa discrepância entre os interesses de classe a curto e longo prazos, o que torna inevitável uma margem de erro no processo de liderança. Nenhuma coletividade pode sempre ser totalmente consciente da totalidade dos seus interesses de forma completamente objetiva, se devido à sua própria práxis política sempre altera a situação em certa medida, impossibilitando um cálculo exato das conseqüências da ação. Além disso, na sociedade burguesa, o peso tremendo dos interesses privados remove qualquer congruência automática ou completa entre os motivos privados e os interesses de classe.
Contudo, após todas essas qualificações e esclarecimentos serem admitidos, persiste o caso de que o processo de seleção da liderança é irresistivelmente social e específico de classe. Nenhuma teoria de conspiração é necessária para entender como isso funciona; o papel dos grupos informais, salons, agrupamentos, "rede de panelinhas" e similares é completamente suficiente. Não é uma questão de altos monopolistas escolherem X, Y ou Z para posições elevadas, ao invés de A, B ou C. Mais propriamente, os altos monopolistas ou alguma rede mais ampla de poder de intermediários dentro da classe dominante estabelecem barreiras suficientes e testes preliminares para assegurar que os defensores dos interesses da classe dominante que sejam "fracos de caráter" ou "indignos de confiança" não passarão o limiar do poder de Estado. Deste modo, em última análise, o homem certo (ou, ocasionalmente, a mulher) geralmente será encontrado no lugar certo, no tempo certo.
O problema do papel do indivíduo na história tem sido freqüentemente formulado de uma maneira que contrapõe o indivíduo ao grupo social. Mais recentemente, isto tem sido traduzido numa contraposição entre fatores biológicos e sociais. A Escola de Sociobiologia e a Escola de Psico-história têm desafiado a capacidade do materialismo histórico em explicar a mudança histórica de uma maneira compreensiva. Mas ambas as aproximações são insatisfatórias, à medida que ignoram o fato de que indivíduos importantes, socialmente relevantes, que influenciam a história através de sua práxis individual, apenas o fazem em virtude de características as quais são primariamente formadas pela sociedade.
Os substratos biológicos ou instintivos das personalidades apenas criam potenciais os quais estão abertos a uma variedade de desenvolvimentos que depende de contextos sociais mais amplos. A verdadeira plasticidade das disposições biológicas ou psicológicas significa que uma personalidade individual formada definitivamente apenas emerge após muitas forças ambientais terem operado para preencher certos potenciais enquanto anulam outros. E essas forças ambientais são, em grande parte, nada além de instituições sociais, as quais moldam o indivíduo politicamente relevante através de sucessivos estágios de sua biografia.
Na sociedade burguesa, essas instituições incluem a família nuclear patriarcal, o sistema de educação (incluindo a instituição religiosa e outros aparelhos ideológicos), as várias instituições estatais através das quais o indivíduo busca o poder e, finalmente, a matriz particular das organizações partisans, as quais seletivamente promovem candidatos promissores (partidos, corporações, redes de poder, associações de empregados, etc). É um truísmo que nenhum indivíduo pode escapar à influência destas instituições poderosas, e é contenda específica do materialismo histórico que elas exercem a influência decisiva na formação da liderança social, moldando talentos e disposições em certas direções e não em outras. Elas são, em outras palavras, as poderosas fontes do conformismo social, produzindo personalidades que correspondem às necessidades das classes sociais ou de suas frações principais. Elas geram personalidades que asseguram a defesa e a reprodução de uma ordem social dada, à medida que elas "internalizam" os valores básicos que correspondem à estrutura e aos interesses daquela ordem.
Além disso, na sociedade burguesa, todas essas instituições tendem a canalizar o impulso humano básico para a auto-afirmação (Lustprinzip) no sentido da competição individual para a riqueza privada e o poder. Mas em estruturas sociais fundamentalmente diferentes comunalismo tribal, feudalismo ou socialismo este impulso primordial pode formar personalidades completamente diferentes com valorizações de auto-estima radicalmente diferentes. Numa sociedade baseada numa produção socializada e democratizada, por exemplo, o impulso para a riqueza e o poder se tornariam socialmente irracionais, e mesmo contrários à natureza humana.
Isto não é porque a necessidade de auto-afirmação teria sido suprimida; antes, ela se expressaria através de um sistema inteiramente diferente de comportamento social: competição pela excelência em habilidade artística ou atlética, competição pelo reconhecimento social, competição por servir à comunidade sem expectativa de recompensas materiais ou de poder, e assim por diante.
Reconhecer esta especificidade histórica da individualidade formada socialmente é apenas admitir um fato empiricamente demonstrável e cientificamente visível e que não necessariamente requer um julgamento de valor. Mas os marxistas certamente formulam julgamentos e têm tradicionalmente afirmado que uma sociedade na qual o domínio do homo homini lupus prevalece, produzirá personalidades mais alienadas, agressivas e destrutivas, do que uma sociedade na qual as relações básicas de produção estabelecem a cooperação voluntária e a solidariedade consciente como valores sociais centrais.
Impressiona o fato de que os historiadores têm-se inclinado a desvalorizar ou ignorar o processo de seleção institucional na ascensão de Hitler ao poder. Muito antes de seu sucesso eleitoral em 1930, Hitler teve de sofrer críticas severas do seu próprio e relativamente pequeno partido, a fim de estabelecer sua inquestionável autoridade no microcosmo do futuro Terceiro Reich. Estes anos iniciais foram, sem dúvida, o período mais difícil de sua carreira política, e em vários pontos ele esteve à beira de perder o controle sobre o seu próprio partido para personalidades como Röhm.
Para o nacionalista alemão, a direita era uma verdadeira floresta de führers imaginários, entre os quais Hitler era inicialmente apenas primus inter pares. As lições que ele aprendeu durante sua luta implacável pela liderança determinaram seu modus operandi, uma vez que atingiu o poder instalando padrões de crueldade, oportunismo e falsidade. Procurar a origem desses traços na primeira biografia de Hitler, ao invés de procurá-la no ambiente social da direita alemã pós-Versalhes, distorce a verdadeira seqüência de eventos.
Longe de ser um gângster de nascença, Hitler estava inclinado a uma carreira medíocre em arquitetura ou arte. Se ele se tornou o gângster-mestre do século XX, foi porque lutou pela conquista da liderança durante uma década numa organização quase clássica de gângsters o Partido Nazista , que não era diferente de organizações como a Máfia da Sicília e dos Estados Unidos.
A derrota de Mussolini, em 1943, é outro exemplo impressionante de como forças sociais mais amplas são capazes, sob circunstâncias imprevisíveis, de capturar os indivíduos, não como as aranhas capturam as moscas em sua teia, mas como um escultor que martela continuamente os blocos de mármore.
Mussolini, um mestre da intriga e do frio exercício do poder, foi facilmente manobrado por seus auxiliares: o Monarca fantoche Vitório Emanuel III e o Marechal Badoclio. O Rei e o Marechal, durante vinte anos, foram cúmplices servis do Duce, totalmente ofuscados por sua inteligência e força de vontade. Não foi nenhum reservatório insuspeito de gênio ou de resolução que lhes permitiu depor Mussolini, mas a reversão dramática das fortunas da classe dominante italiana, colocada em pânico pela Invasão Aliada, que despojou o líder fascista do seu poder e suporte social.
As necessidades coletivas da burguesia italiana permitiram que a instituição da monarquia (bem como a repentinamente revivida liderança coletiva do Partido Fascista) se reativasse virtualmente de um dia para outro, promovendo o Rei de fantoche supino a conspirador principal. Frente à unanimidade da classe dominante italiana, o outrora "Todo-poderoso Duce" foi preso por um punhado de carabineiros, incapaz de mobilizar mesmo algumas centenas de seguidores para defender uma ditadura que havia durado vinte anos!
Assim também, o Imperador Hiroito havia sido um símbolo passivo para o grupo militar que governou o Japão desde meados dos anos 30. Por tradição, ele foi uma figura decorativa, que nunca se intrometeu nos negócios de Estado ou impôs seus pontos de vista. Mas, quando se evidenciou que a Força Aérea americana poderia destruir as bases urbano-industriais do capitalismo japonês e que não mais havia qualquer possibilidade séria para uma paz negociada, o Imperador aconselhado por Tsugeru Yoshida e seu círculo de políticos burgueses habilmente manobrou os teimosos militares para uma capitulação incondicional.
Repentinamente, foi transformado de mera figura decorativa no líder político da classe dominante. Ele, literalmente, impôs a paz sobre os líderes militares intransigentes, aumentando sua voz através do rádio, apanhando-os numa contradição político-ideológica inextricável. Tendo legitimado o militarismo japonês através do culto à divindade do Imperador, eles não foram capazes de agir contra o seu apelo "divino".
Nos dois casos, o italiano e o japonês, a transformação de figuras decorativas em detentores do poder foi somente temporária. Vitório Emanuel e sua dinastia inteira foram rapidamente banidos de cena, enquanto Hiroito, sob a clemência de McArthur, refugiou-se em seu tradicional papel cerimonial. Suas funções de curta duração como figuras nacionais decisivas foram o resultado de circunstâncias excepcionais que temporariamente dotaram instituições decorativas com poderes de emergência, a fim de salvar os aparelhos de Estado da destruição iminente.
Além disso, em nenhum dos casos foi necessário iniciativa ou habilidade pessoal extraordinária: preferivelmente, as redes de poder tradicional ao redor do Conde Acquarone em Roma, e ao redor do Príncipe Kanoye e do Marquês Kido em Tóquio foram mobilizadas para juntas tecer intrigas sob a vigilância cuidadosa da classe dominante.
Na Alemanha, uma operação de salvamento ainda mais ambiciosa foi tentada após o Desembarque dos Aliados na Normandia. Por volta de 1944, tornou-se claro para a maioria dos líderes financeiros e industriais alemães sobretudo para as dinastias junkers prussianas que a guerra estava perdida e o Reich seria desmantelado a menos que o avanço do Exército Vermelho fosse detido por uma paz separada com os americanos. Ainda mais que nos casos japonês, italiano ou francês, a sobrevivência absoluta de amplas seções da classe dominante alemã sobretudo a elite prussiana estava em risco. Quando, de fato, os conspiradores militares se lançaram contra Hitler em 20 de julho de 1944, os soviéticos estavam ainda além do Vístula e é impossível dizer que seqüência de eventos poderia ter seguido o sucesso do seu golpe se teriam ou não tido êxito em apelar para o anticomunismo para dividir o Bloco Aliado.
Mas, no caso, sua ação foi um fracasso. Por quê? Deveria alguém aceitar explicações convencionais de que a conspiração sofreu um colapso devido a uma contingência técnica a colocação errada da bomba de Stauffenberg ou, alternativamente, a opinião de que Beck, o verdadeiro líder dos conspiradores, era uma personalidade "hamletiana" que, vacilando no momento crucial, foi logrado e manobrado pelo diabólico Goebbels (auxiliado pela admiração pessoal do major Remer pelo Führer)? É evidente que não.
O General Ludwig Beck foi, por muitos anos, o Chefe do Estado-Maior, responsável não apenas pelo rearmamento eficaz do Reich, mas também pela idealização de muitas das primeiras vitórias militares. Ele foi um planejador soberbo que, comparado com Vitório Emanuel, Hiroito ou Goebbels, sem falar no major Remer, aparece como Gulliver entre os liliputianos. Mesmo este planejador hábil e experiente fracassou miseravelmente até em assegurar regras elementares do coup détat tais como ocupar as estações de rádio, apoderar-se do controle do sistema de telecomunicações de Berlim, ou cortar as linhas telefônicas entre o ministério de Goebbels e a casamata de Hitler em Rastenburg. Por quê? Teria ele repentinamente perdido sua ousadia?
É difícil crer numa análise do fracasso do golpe que recai sobre as fraquezas pessoais do General Beck ou de seu parceiro político, Carl Goerdeler, o major de Leipzig. Incomparavelmente mais importante é a diferença na situação objetiva que os conspiradores alemães enfrentaram, comparada com a posição dos conspiradores italianos de 1943 ou com o círculo social do Imperador do Japão durante o verão de 1945.
Na Itália e no Japão, o exército tinha sido derrotado e os centros urbanos, sem auxílio, foram expostos à Força Aérea Aliada.
Havia apenas um caminho aberto para a classe dominante: terminar a Guerra imediata e incondicionalmente. Havia, deste modo, um desejo unânime da burguesia de seguir uma trajetória de ação clara. Na Alemanha, ao contrário, enquanto a Guerra estava obviamente perdida, o exército ainda não havia sido vencido. Ele ainda possuía vastos recursos materiais e humanos para sustentar sua capacidade de luta por muitos meses.
Além disso, ao contrário dos casos italiano e japonês (ou dos primeiros exemplos da França e da Inglaterra), a classe dominante alemã enfrentava um perigo particularmente ameaçador: não apenas a perda de parte de seu poder e de sua riqueza, mas a expropriação e a destruição de sua posição de classe pelo Exército Vermelho.
Nessas condições específicas, a classe capitalista alemã, em contraste com a italiana ou a japonesa, estava profundamente dividida quanto aos rumos a serem tomados. Embora estivesse unida contra qualquer capitulação aos soviéticos e completamente convencida de que algum tipo de capitulação aos aliados anglo-saxões era a alternativa preferida, estava dividida quanto à avaliação se os americanos e os ingleses aceitariam um acordo separado. Havia uma profunda diferença de opinião sobre esta questão nos círculos burgueses alemães. Enquanto alguns clamavam a imediata destituição de Hitler e a capitulação aos americanos, outros duvidavam se valia a pena correr o risco do colapso da linha de frente sem garantias prévias dos Aliados. Este último bloco era a maioria.
Como resultado dessas diferenças estratégicas, o Exército e o aparelho de Estado ficaram totalmente divididos. Foi esta divisão resultante do dilema objetivo do imperialismo alemão no verão de 1944 que explica a vacilação fatal que levou ao fracasso do golpe. Se o anteriormente resoluto Beck vacilou no momento decisivo, foi porque compreendeu que, por mais que fizesse, teria dividido o seu Exército e assegurado a guerra civil ou um colapso da linha de frente, ou ambos.
Se o Estado-Maior alemão tivesse apoiado Beck, como os italianos fizeram com o Rei e Badoglio, o golpe teria tido êxito em horas. A hierarquia do Partido Nazista tinha-se tornado profundamente desacreditada e poucas pessoas se teriam levantado para defendê-lo contra o Exército, o qual ainda desfrutava de imenso prestígio entre as classes médias.
Dessa forma, não foi o caráter "hamletiano" do General Beck que sentenciou o golpe, mas as hesitações da totalidade da classe dominante alemã, que era, por sua vez, um reflexo das contradições objetivas e confusões reais. Não foi o indivíduo que causou o desastre da classe, mas, antes, a classe que impediu o indivíduo de agir com êxito.
Mas há um epílogo para esse incidente que coloca o destino dos conspiradores do 20 de julho dentro de uma perspectiva irônica. Enquanto Beck, Goerdeler, Stauffenberg e seus associados estavam preparando o seu golpe, altos funcionários do Ministério Nazista de Negócios Econômicos (sob a proteção de um dos líderes da SS) estavam pacientemente preparando um plano para uma Alemanha pós-guerra integrada a uma economia internacionalmente aberta, baseada em livres movimentos do capital e em um marco conversível isto é, uma ruptura completa com todas as práticas autárquicas comerciais e financeiras do Terceiro Reich. Os arquitetos desta visão compreendida posteriormente como o "milagre da República Federal" não foram outros a não ser Ludwig Erhard, o futuro Chanceler, e Ludwing Emminger, futuro Presidente do Bundesbank. Enquanto eles haviam colaborado com os nazistas durante uma década, quando se tornou necessário para a sobrevivência de sua classe, mudaram sua trajetória em 180 graus. Suas maquinações hábeis contrastaram com o fracasso da Conspiração de Julho, a qual assegurou a liquidação dos junkers e a perda de quase a metade do Reich alemão.
Deve-se ainda observar que o terror nazista, desencadeado por Himmler após o fracasso do golpe, além dos efeitos do arrasador bombardeio dos Aliados, destruiu o potencial que ainda restava aos setores da classe trabalhadora alemã para intervir como força autônoma para terminar a Guerra. O maciço afluxo de mais de 10 milhões de refugiados da Prússia oriental e outros territórios alemães perdidos criou um imenso exército industrial de reserva que manteve os salários baixos durante 15 anos e preservou as altas taxas de lucros originariamente geradas pela redistribuição da renda entre as classes, na ditadura nazista.
O rumo preparado por Erhard e Emminger, patrocinado pelo imperialismo americano e tolerado inicialmente por Stalin, permitiu à classe dominante alemã emergir 20 anos depois com maior poder industrial e financeiro do que antes, embora dentro de um Estado de território menor. Não poderia haver ilustração mais convincente de como a astúcia da história funciona através da apropriação dos talentos individuais pelas necessidades de classe, dentro dos limites de um dado modo de produção.
Ernest Mandel
Fonte: www.oolhodahistoria.ufba.br
A Segunda Guerra Mundial foi a maior batalha que o mundo já viu. Em seus seis anos de duração (1939 a 1945), envolveu 72 países e mais de 100 milhões de soldados, destruindo muitas cidades e causando a morte de milhões de pessoas. Mas quem foi o grande responsável por tudo isso?
Muitos dizem que o culpado pela guerra foi o alemão Adolf Hitler. Tido como louco por uns, como monstro por outros, Hitler era líder do partido nazista, que dizia que só o povo alemão era bom e considerava todos os outros povos inferiores. Mas achar que só Hitler foi responsável por tudo que ocorreu é simplificar a história.
Na verdade, a guerra foi resultado de uma crise que vários países do mundo enfrentavam desde 1930. Para superar a pobreza e o desemprego, alguns desses países -- a Alemanha, o Japão e a Itália -- procuraram conquistar riquezas e terras de povos vizinhos. Assim, começaram a invadir e atacar diversas regiões, até que, no dia 1o de setembro de 1939, quando a Alemanha ocupou a Polônia, estourou a guerra. Durante o conflito, esses três países se aliaram, formando o grupo conhecido como Eixo.
Em 1940, os exércitos de Hitler conquistaram a Noruega, a Dinamarca, a Holanda, a Bélgica e o norte da França. A Inglaterra, com o apoio dos Estados Unidos, conseguiu resistir. E, em 1941, quando a Alemanha invadiu a União Soviética e o Japão atacou Pearl Harbor, uma base dos Estados Unidos, a guerra passou a envolver intensamente vários países do mundo. Estados Unidos, Inglaterra e União Soviética se uniram contra o Eixo, com o nome de Aliados. O Brasil juntou-se aos aliados em 1942, depois que teve navios afundados por submarinos alemães.
De 1939 até 1942, os países do Eixo conquistaram imensos territórios, onde implantaram a "Nova Ordem" nazista. Exploraram as riquezas e o trabalho das pessoas que viviam nesses países, e foram responsáveis pela morte de milhões de judeus, ciganos e eslavos, grupos que consideravam inferiores. Mas os países ocupados começaram a reagir, organizando movimentos clandestinos e guerrilhas.
O fator decisivo para os Aliados vencerem a guerra foi que os Estados Unidos e a Inglaterra tinham muito mais dinheiro para manter seus exércitos do que os países do Eixo. Esses recursos, associados ao enorme exército da União Soviética, fizeram com que os países do Eixo recuassem. No dia 8 de maio de 1945, os Aliados foram enfim considerados vencedores.
Fonte: cienciahoje.uol.com.br